Elise Vincent
As balanças nos jardins substituíram as ruínas dos pátios de fazendas. O sangue dos massacrados só se lê nas pedras comemorativas. E os sobreviventes chorosos são cada ano menos numerosos em Maillé (departamento de Indre-et-Loire, centro da França). Da chacina cometida por militares alemães em 25 de agosto de 1944 nesse povoado a 40 km ao sul de Tours, não resta muita coisa. Quase nada daquele dia de verão quando, longe dos festejos da libertação de Paris, 124 homens, mulheres e crianças foram mortos metodicamente, um a um, família após família.
Até a história esqueceu esse crime, nesse vale profundo de Touraine.
Historiadores, manuais escolares, são poucos os que lembram que na hierarquia macabra dos crimes de guerra na França Maillé é o segundo episódio mais sangrento da Segunda Guerra Mundial, depois de Oradour-sur-Glane e suas 642 vítimas.
Mas um magistrado alemão acaba de retomar o caso: Ulrich Mass é especializado na perseguição dos crimes nazistas, no âmbito de um inquérito judicial contra X… por “crimes de guerra”. Em 15 de julho esse procurador-geral da justiça em Dortmund, acompanhado de dois investigadores e um tradutor, deverá ir a Maillé para um reconhecimento do local. Um procedimento excepcional na França.
Não há batalha de memórias nesta história. Nenhuma vontade de recuperar as honras perdidas. Mas a vontade judicial de compreender o que, 64 anos depois dos fatos, ainda escapa aos últimos sobreviventes e aos historiadores: quem matou naquele dia? Em Oradour-sur-Glane (Haute-Vienne), em Tulle (Corrèze), em Villeneuve-d’Ascq (Norte), outras “aldeias mártires” da época, apesar de processos imperfeitos, culpados foram identificados. Em Maillé, jamais.
Tudo teria começado na manhã de 25 de agosto. Quando, depois de um primeiro assassinato, uma coluna armada marchando a passo começa de repente a massacrar tudo em sua passagem, depois bloqueia o acesso à aldeia. Casa a casa, peça a peça, os soldados perseguem então os civis, os matam à queima-roupa, atiram granadas nos porões onde eles se refugiaram. Os bebês são abatidos, como os cachorros, os cavalos, as vacas.
Ao meio-dia os militares se retiram. Os que conseguiram escapar acreditam no fim do pesadelo. Mas com a ajuda de dois canhões posicionados ao redor da aldeia, 80 obuses são disparados sobre as cerca de 60 casas que compõem Maillé. Tiros esporádicos durante mais de duas horas. Sentinelas colocadas ao redor da aldeia metralham os que tentam sair de seus abrigos para escapar das bombas.
Dos 600 habitantes da aldeia e seus arredores, 124 perdem a vida. Às vezes famílias inteiras, cujos nomes se misturam hoje nas lápides do cemitério.
Apesar da precisão desse relato, nenhuma investigação, nenhum historiador por enquanto realmente conseguiu determinar que unidade alemã cometeu o massacre.
Nas horas que se seguiram ao drama, a polícia realizou uma investigação. Mas no pânico, como em vários outros lugares da França, o procedimento foi apressado. Nos magros processos da época, nenhum vestígio de cartuchos, de números de canhão que permitissem identificar uma unidade militar. Únicas peças de convicção: dois bilhetes manuscritos – um dos quais foi encontrado sobre um cadáver – com a menção: “É a punição para os terroristas e seus ajudantes”.
Bilhetes que permitem em parte remontar aos elementos detonadores desse massacre. Nos dias anteriores ao drama, vários confrontos ocorreram entre resistentes e a ocupação. No mês de agosto de 1944, resistentes também explodiram três vezes a ferrovia que atravessa a aldeia. Depois de uma investigação policial, um subtenente da Wehrmacht – Gustav Schlüter, cujo papel os historiadores contestam – é considerado responsável. Em 1953 ele é condenado à morte à revelia pelo tribunal militar de Bordeaux, mas nunca foi encontrado e sua pena não foi executada.
Então, até 1994, data do 50º aniversário do desembarque, a população de Maillé guarda sua dor para si mesma. “Como vocês queriam falar do abominável?”, interroga Mauricette Garnier, 9 anos na época dos fatos, uma das raras que conseguiram escapar da aldeia em pleno bombardeio. Durante 50 anos os moradores não tiveram resposta para suas perguntas sobre os autores do crime. Pouca atenção de sucessivos governos. Apenas uma modesta cerimônia comemorativa todos os 25 de agosto, sem discursos.
Diferentemente de Oradour-sur-Glane, onde as ruínas foram conservadas, em Maillé se construiu sobre as cinzas. Mas no fim dos anos 1990 a necessidade de memória aumentou. Um projeto de “Casa da Lembrança” é lançado e um jovem historiador, Sébastien Chevereau, destacado pelo conselho geral do departamento para cuidar disso. É em grande parte graças a ele que a investigação ocorre hoje, pois foi ao ouvi-lo durante um colóquio em Stuttgart, em 2004, que dois comissários alemães descobriram o caso.
Na França, os crimes de guerra prescrevem depois de dez anos – mas um projeto de lei atualmente no Parlamento prevê prolongar a duração para 30 anos depois dos fatos. Na Alemanha eles são imprescritíveis. E a simples “suspeita” permite reabrir um dossiê. Foi graças a esse dispositivo jurídico que em 2005 o procurador Ulrich Mass pôde retomar o processo aberto uma primeira vez em 1990, quando o acesso aos arquivos da ONU foi possível, depois fechado um ano depois.
Nesse caso são os policiais franceses que conduzem a investigação em campo, por conta da justiça alemã. Desde 2005 eles recolheram em Maillé o depoimento de 58 pessoas. Um trabalho de reconstituição delicado, pois para determinar as unidades presentes naquele dia é preciso identificar os uniformes que os soldados usavam. Eram pretos com botas, como os das SS? Ou verdes como os da Wehrmacht, o exército regular alemão? Tinham insígnias particulares? Quais eram suas patentes? A maioria dos sobreviventes, geralmente crianças na época do drama, tem dificuldade para responder a essas perguntas.
Os arquivos à disposição dos historiadores têm as mesmas lacunas. Entre as unidades que poderiam ter passado pela região em agosto de 1944, em plena retirada alemã, “nenhuma menciona Maillé em seu diário de marcha”, explica Jean-Luc Leleu, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da Universidade de Caen, autor de “La Waffen SS, soldats politiques en guerre” (ed. Perrin, 2007). “Enquanto a priori são atos de que os soldados poderiam se gabar junto a seus superiores.”
A hipótese cada vez mais seguida pelos historiadores é que na realidade em Maillé, assim como em outros lugares, Wehrmacht e SS cometeram a chacina juntas. “A imagem de Epinal do malvado das SS e do gentil oficial da Wehrmacht se rompe”, prossegue Leleu. Mas nada que permita por enquanto indicar os soldados. Leleu é muito pessimista sobre as possibilidades de chegar à conclusão do inquérito.
Tarde demais ou não? As opiniões divergem em Maillé sobre o possível fim do processo judicial. Principalmente porque ele provoca a palavra de alguns.
Como a do sobrevivente que apresenta toda a correspondência de sua mãe durante o mês de agosto de 1944, antes de sua morte no massacre. Em Maillé não querem obrigatoriamente encontrar culpados, nem obrigatoriamente fazer um luto que se considera “impossível”. Mas gostariam de “saber”. Mesmo 64 anos depois.
“Le Monde”