Monthly Archives: agosto 2008

Investigação sobre um crime de guerra esquecido por 64 anos na França

Elise Vincent

As balanças nos jardins substituíram as ruínas dos pátios de fazendas. O sangue dos massacrados só se lê nas pedras comemorativas. E os sobreviventes chorosos são cada ano menos numerosos em Maillé (departamento de Indre-et-Loire, centro da França). Da chacina cometida por militares alemães em 25 de agosto de 1944 nesse povoado a 40 km ao sul de Tours, não resta muita coisa. Quase nada daquele dia de verão quando, longe dos festejos da libertação de Paris, 124 homens, mulheres e crianças foram mortos metodicamente, um a um, família após família.

Até a história esqueceu esse crime, nesse vale profundo de Touraine.
Historiadores, manuais escolares, são poucos os que lembram que na hierarquia macabra dos crimes de guerra na França Maillé é o segundo episódio mais sangrento da Segunda Guerra Mundial, depois de Oradour-sur-Glane e suas 642 vítimas.

Mas um magistrado alemão acaba de retomar o caso: Ulrich Mass é especializado na perseguição dos crimes nazistas, no âmbito de um inquérito judicial contra X… por “crimes de guerra”. Em 15 de julho esse procurador-geral da justiça em Dortmund, acompanhado de dois investigadores e um tradutor, deverá ir a Maillé para um reconhecimento do local. Um procedimento excepcional na França.

Não há batalha de memórias nesta história. Nenhuma vontade de recuperar as honras perdidas. Mas a vontade judicial de compreender o que, 64 anos depois dos fatos, ainda escapa aos últimos sobreviventes e aos historiadores: quem matou naquele dia? Em Oradour-sur-Glane (Haute-Vienne), em Tulle (Corrèze), em Villeneuve-d’Ascq (Norte), outras “aldeias mártires” da época, apesar de processos imperfeitos, culpados foram identificados. Em Maillé, jamais.

Tudo teria começado na manhã de 25 de agosto. Quando, depois de um primeiro assassinato, uma coluna armada marchando a passo começa de repente a massacrar tudo em sua passagem, depois bloqueia o acesso à aldeia. Casa a casa, peça a peça, os soldados perseguem então os civis, os matam à queima-roupa, atiram granadas nos porões onde eles se refugiaram. Os bebês são abatidos, como os cachorros, os cavalos, as vacas.

Ao meio-dia os militares se retiram. Os que conseguiram escapar acreditam no fim do pesadelo. Mas com a ajuda de dois canhões posicionados ao redor da aldeia, 80 obuses são disparados sobre as cerca de 60 casas que compõem Maillé. Tiros esporádicos durante mais de duas horas. Sentinelas colocadas ao redor da aldeia metralham os que tentam sair de seus abrigos para escapar das bombas.

Dos 600 habitantes da aldeia e seus arredores, 124 perdem a vida. Às vezes famílias inteiras, cujos nomes se misturam hoje nas lápides do cemitério.

Apesar da precisão desse relato, nenhuma investigação, nenhum historiador por enquanto realmente conseguiu determinar que unidade alemã cometeu o massacre.

Nas horas que se seguiram ao drama, a polícia realizou uma investigação. Mas no pânico, como em vários outros lugares da França, o procedimento foi apressado. Nos magros processos da época, nenhum vestígio de cartuchos, de números de canhão que permitissem identificar uma unidade militar. Únicas peças de convicção: dois bilhetes manuscritos – um dos quais foi encontrado sobre um cadáver – com a menção: “É a punição para os terroristas e seus ajudantes”.

Bilhetes que permitem em parte remontar aos elementos detonadores desse massacre. Nos dias anteriores ao drama, vários confrontos ocorreram entre resistentes e a ocupação. No mês de agosto de 1944, resistentes também explodiram três vezes a ferrovia que atravessa a aldeia. Depois de uma investigação policial, um subtenente da Wehrmacht – Gustav Schlüter, cujo papel os historiadores contestam – é considerado responsável. Em 1953 ele é condenado à morte à revelia pelo tribunal militar de Bordeaux, mas nunca foi encontrado e sua pena não foi executada.

Então, até 1994, data do 50º aniversário do desembarque, a população de Maillé guarda sua dor para si mesma. “Como vocês queriam falar do abominável?”, interroga Mauricette Garnier, 9 anos na época dos fatos, uma das raras que conseguiram escapar da aldeia em pleno bombardeio. Durante 50 anos os moradores não tiveram resposta para suas perguntas sobre os autores do crime. Pouca atenção de sucessivos governos. Apenas uma modesta cerimônia comemorativa todos os 25 de agosto, sem discursos.

Diferentemente de Oradour-sur-Glane, onde as ruínas foram conservadas, em Maillé se construiu sobre as cinzas. Mas no fim dos anos 1990 a necessidade de memória aumentou. Um projeto de “Casa da Lembrança” é lançado e um jovem historiador, Sébastien Chevereau, destacado pelo conselho geral do departamento para cuidar disso. É em grande parte graças a ele que a investigação ocorre hoje, pois foi ao ouvi-lo durante um colóquio em Stuttgart, em 2004, que dois comissários alemães descobriram o caso.

Na França, os crimes de guerra prescrevem depois de dez anos – mas um projeto de lei atualmente no Parlamento prevê prolongar a duração para 30 anos depois dos fatos. Na Alemanha eles são imprescritíveis. E a simples “suspeita” permite reabrir um dossiê. Foi graças a esse dispositivo jurídico que em 2005 o procurador Ulrich Mass pôde retomar o processo aberto uma primeira vez em 1990, quando o acesso aos arquivos da ONU foi possível, depois fechado um ano depois.

Nesse caso são os policiais franceses que conduzem a investigação em campo, por conta da justiça alemã. Desde 2005 eles recolheram em Maillé o depoimento de 58 pessoas. Um trabalho de reconstituição delicado, pois para determinar as unidades presentes naquele dia é preciso identificar os uniformes que os soldados usavam. Eram pretos com botas, como os das SS? Ou verdes como os da Wehrmacht, o exército regular alemão? Tinham insígnias particulares? Quais eram suas patentes? A maioria dos sobreviventes, geralmente crianças na época do drama, tem dificuldade para responder a essas perguntas.

Os arquivos à disposição dos historiadores têm as mesmas lacunas. Entre as unidades que poderiam ter passado pela região em agosto de 1944, em plena retirada alemã, “nenhuma menciona Maillé em seu diário de marcha”, explica Jean-Luc Leleu, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da Universidade de Caen, autor de “La Waffen SS, soldats politiques en guerre” (ed. Perrin, 2007). “Enquanto a priori são atos de que os soldados poderiam se gabar junto a seus superiores.”

A hipótese cada vez mais seguida pelos historiadores é que na realidade em Maillé, assim como em outros lugares, Wehrmacht e SS cometeram a chacina juntas. “A imagem de Epinal do malvado das SS e do gentil oficial da Wehrmacht se rompe”, prossegue Leleu. Mas nada que permita por enquanto indicar os soldados. Leleu é muito pessimista sobre as possibilidades de chegar à conclusão do inquérito.

Tarde demais ou não? As opiniões divergem em Maillé sobre o possível fim do processo judicial. Principalmente porque ele provoca a palavra de alguns.

Como a do sobrevivente que apresenta toda a correspondência de sua mãe durante o mês de agosto de 1944, antes de sua morte no massacre. Em Maillé não querem obrigatoriamente encontrar culpados, nem obrigatoriamente fazer um luto que se considera “impossível”. Mas gostariam de “saber”. Mesmo 64 anos depois.

“Le Monde”

500 anos que a América é a América

Voltaire Schilling

Em uma edição cartográfica cuidadosamente ilustrada, um novo Mapa Mundi aparecido em 25 de abril de 1507 – desde então descrito como o Primeiro Novo Mapa do Mundo – a Europa finalmente tomou conhecimento da existência de um novo continente, outro mundo situado do lado de lá do oceano Atlântico.
O autor da proeza chamava-se Martin Waldseemüller, um geógrafo e humanista alemão que nascera em Freiburg im Breisgau, em 1470, e que estava em Saint-Dié des Vosges a serviço de René II, duque da Lorena, patrono da magnífica impressão. Ali, pela primeira vez, a palavra “América” apareceu grafada sobre o que hoje é a América do Sul.

Colombo e Vespúcio

Coube a dois italianos, ao genovês Cristóvão Colombo e ao florentino Américo Vespúcio, um descobridor e o outro desbravador do Novo Mundo, deixarem em carta aos seus patrões o relato da paisagem fabulosa que haviam encontrado do outro lado do Mar Oceano, como então chamavam o Atlântico. Ambos singraram pelo ultramar por diversas vezes entre 1492 e 1507, mas a percepção deles do que haviam visto foi totalmente diferente.

Colombo, como é sabido, pensou ter encontrado as beiras mais ocidentais das Índias, ilhas que anunciavam que o maravilhoso mercado das especiarias estaria mais adiante, mais para além ainda, enquanto Vespúcio(*), que jamais navegou com Colombo, teve o entendimento de que se tratava de outro continente, um Mundus Novus, algo que jamais constara em algum mapa conhecido.

Não sem razão, a Carta que Vespúcio enviou ao seu patrão em Florença, o banqueiro Lorenzo di Pierfrancesco de Medici, dando conta do que vira, adquiriu dimensões bem mais sensacionais do que o relato de Colombo aos reis de Espanha. Entre outros motivos porque a capacidade narrativa do florentino deixou longe a do genovês.

No mesmo momento em que a Carta de Vespúcio, já famosa e circulando pela Europa, era traduzida para o francês, Martin Waldseemüller coordenava uma equipe de desenhistas e geógrafos do Gymnasium Vosagense para dar andamento na feitura de um novíssimo Mapa Mundi que contemplasse a sensacional descoberta.

(*) Batizado na Igreja de San Giovani em Florença,no dia 18 de março de 1454, Américo Vespúcio, de ilustre família do patriciado local, foi fortemente influenciado na sua formação tanto pelo geógrafo Paolo Del Pozzo Toscanelli, teórico que advogava a chegada ao oriente pela rota do ocidente, seguida depois por Colombo, como pelo filósofo Marsílio Ficino, diretor da academia Careggi.

Chegou à Sevilha um pouco antes da descoberta de Colombo, em 1490, como agente de casa bancária. Em 1508 colocou-se a serviço da Casa da Contratação de Sevilha como Piloto Maior de Castela , posição que cuidava das viagens transatlânticas, cidade em que veio a falecer em 22 de fevereiro de 1522. Críticos do testemunho de Vespúcio suspeitam que muito do que escreveu foi forjado a posteriori.

Superando Ptolomeu

No começo do século XVI não havia, no mundo acadêmico ocidental, outra autoridade a quem recorrer em matéria de estudos cosmológicos ou cartográficos senão o velho sábio alexandrino Ptolomeu (85 – 165), morto a mil e quatrocentos anos passados. Era a ele que todos os estudiosos, fossem astrônomos ou geógrafos, recorriam, e nele sempre se deparavam com a existência de somente três continentes: Europa, África e Ásia.

Colombo e Vespúcio, todavia, com o testemunho trazido das suas viagens, provocaram uma revolução geográfica, exigindo a feitura de um novo desenho cartográfico do globo. Coube então a René II, duque da Lorena e Patrono das Artes, proporcionar os recursos para que Waldseemüller pudesse levar adiante um extenso planisfério que assinalasse as modificações necessárias.

A antiga “geographiae” de Ptolomeu viu-se do dia para noite totalmente superada pelas notícias trazidas pela Carta do florentino, sendo então enriquecida pela nova edição intitulada Universalis cosmographia secundum Ptolemaei traditionem et Americi Vespúcci aliorumque lustrationes (Cosmografia universal segundo a tradição de Ptolomeu e de Américo Vespúcio e outros navegantes).

O novo mapa

Além de registrar os feitos da Era das Grandes Descobertas (iniciadas em 1492), sua importância logo se manifestou pelos seguintes aspectos: foi a primeira vez que se editou um mapa separado do livro que o acompanhava, no caso o Cosmographiae Introducto, volume ao qual vinha anexado o relato das Quattuor Americi Navegationes (as Quatro Viagens de Américo).

Tratava-se do primeiro mapa extremamente bem detalhado em enormes proporções (2,3m. x 1,3m.) e por isso necessitou de doze blocos de madeira para concretizar sua impressão. Foi o primeiro a cobrir o mundo em 360° de longitude, o pioneiro a mostrar tanto a parte norte como a parte sul do continente batizado como “América”, inspiração trazida pelas cartas de Vespúcio.

O desenho foi ainda o primeiro mapa a detalhar a costa da África por inteiro, como também a posicionar corretamente o oceano Pacífico, ainda alguns anos antes que ele fosse percorrido por Vasco Nuñez Balboa e bem antes de Fernão de Magalhães. Também foi inovador ao mostrar com precisão a posição do Japão (denominado como Zipangi).

A sensação da obra foi tamanha que varias edições foram então distribuídas, dando início à moderna cartografia dos Mapas Mundi. Um destes originais foi vendido em 2003 pelo príncipe alemão Waldburg-Wolfegg, de Baden-Würtemberg, para a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, em Washington, pelo valor de US$ 10 milhões, ficando desde então exposto ao público no edifício Thomas Jefferson.

“Educaterra”

Más notícias e corridas bancárias

Mike Whitney [*]

A administração Bush vai enviar mais cheques de “estímulo” no futuro próximo. Simplesmente não há meio de contornar isto. O Fed está em apuros e não pode reduzir taxas de juros por medo de que os preços dos alimentos e da energia disparem para a estratosfera. Ao mesmo tempo, a economia está a encolher mais depressa do que alguém julgaria possível e sem sinais de retomada. Isto deixa os cheques de estímulo como o único meio de “premir a bomba” e manter o consumidor a continuar a gastar. Do contrário a actividade dos negócios ficaerá de rastos e a economia afundará. Não há outra opção.

A barragem diária de más notícias começa realmente a atingir os nervos das pessoas; isto é óbvio em todo o lado que se olhe. A maior parte das tagarelices da TV já eliminou a previsões bem humoradas sobre o mercado de acções e ninguém mais está a louvar o “impressionante poder do mercado livre”. Eles sabem que as coisas estão más, realmente más. Eis porque o noticiário de negócios já não é apresentado como uma despreocupada produção artística de Bollywood com mulheres ondulantes e música exótica. Agora é mais como um filme de horror da classe B onde toda a gente acaba morta no fim.

Um difuso sentimento de melancolia ronda os estúdios de televisão assim como as bolsas de valores e os luxuosos apartamentos de cobertura no West End de Manhattan. É palpável. Este mesmo pressentimento agourento está a subir como uma nuvem nociva em todas as cidades do país. Toda a gente está a cortar o não essencial e a aparar a gordura do orçamento familiar. Os dias dos extravagantes gastos por impulso nos centros comerciais estão ultrapassados. Assim como as compras de grandes bilhetes aéreos e as viagens à Europa. A confiança do consumidor está numa baixa histórica, o rendimento disponível é uma coisa do passado, e os cartões de crédito estão no seu limite.

Nos últimos três meses o crédito bancário encolheu de forma mais rápida do que em qualquer momento desde 1948. Os bancos não estão a conceder empréstimos e as pessoas não estão a tomar emprestado. Isto é uma combinação letal. Quando a criação de crédito enfraquece, a economia claudica, o desemprego ascende e o índice de miséria sobe. Eis porque Bush despachará uma nova fornada de cheques de estímulo quer queira quer não. Está de costas contra a parede.

Na sexta-feira, depois de o mercado ter encerrado, o FDIC fechou mais dois bancos, o First Heritage Bank e o First National Bank. Duas semanas antes, os reguladores haviam tomado o controle do Indymac Bancorp a seguir a uma corrida de depositantes. O FDIC agora opera como uma unidade paramilitar invisível, posicionando suas tropas de choque nos fins de semana para fazer o seu trabalho sujo fora das vistas do público e em momentos que afectem em menor grau o mercado de acções. As razões para isto são óbvias; só há uma coisa que o governo odeia mais do que ver caixões mortuários com a bandeira estrelada nos noticiários da noite: é ver longas filas de pessoas desvairadas a esperarem impacientemente a fim de obter o que resta das suas poupanças no seu banco agora defunto. Filas nos bancos indicam quebra do sistema.

Corridas bancárias constituem um choque para a psique colectiva. Quando depositantes vêm uma corrida a um banco percebem que o seu dinheiro não está seguro. As pessoas não são loucas; elas podem suspeitar de trapaças. Quando a sua confiança se desvanece, isto estende-se a todo o sistema. Subitamente elas começam a questionar tudo o que outrora davam por garantido. Tornam-se cépticas quanto a instituições que, apenas uns poucos dias antes, pareciam rocha sólida.

Corridas bancárias são um impacto directo aos fundamentos do sistema de mercado livre. Não controlados, os tremores podem estender-se através de toda a sociedade e desencadear violentos levantamentos políticos, mesmo a revolução. O público pode não apreender o seu pleno significado, mas toda a gente em Washington está a prestar atenção. Eles consideram isto seriamente, muito seriamente.

Um artigo no San Francisco Business Times disse que a FDIC está preocupada acerca da divulgação de informação nos blogs da Internet. Eles prefeririam manter fora dos noticiários a informação acerca das perturbações no sistema bancário. Sheila Bar, presidente da Federal Deposit Insurance Corp., após a corrida ao Indymac resumiu as coisas assim:

“Os blogs estavam um bocado fora de controle. Estamos muito atentos à cobertura dos media e dos blogs no controle da desinformação. Tudo o que posso dizer é que vamos continuar à frente disto. A desinformação que veio à tona no fim de semana alimentou um bocado de medos entre os depositantes”.

Será isto uma ameaça? A cura para um sistema bancário fracassado é capital adequado e supervisão prudente, não ameaças a críticos imparciais do sistema. Isso é asneira. A comissária Blair aparentemente acredita que os bloggers deveriam ser tratados do mesmo modo que os jornalistas no Iraque, os quais, se se desviarem mesmo ligeiramente do roteiro que diz “o incremento (surge) é um grande triunfo”m do Pentágono, encontrará a ponta enfumarada de um M-16 em algum não identificado posto de controle fora de Baquba.

Domingo passado, o secretário do Tesouro Henry Paulson tentou tranquilizar o público dizendo que o sistema bancário é saudável, enquanto prevenia o povo de mais perturbações pela frente:

“Penso que isto se prolongará por meses e que estamos a trabalhar a nossa saída ao longo deste período – claramente de meses. Mas, mais uma vez, é um sistema bancário seguro, um sistema bancário saudável. Nossos reguladores estão em cima disto. Trata-se de uma situação muito administrável”.

Paulson está errado; o sistema bancário não é saudável nem está bem capitalizado.

Se a taxa de encerramentos de bancos continuar ao ritmo actual, em meados de 2009 haverá restrições a retiradas [de depósitos]. Pode-se apostar nisto.

Assim, enquanto o seu banco ainda tem dinheiro e pode processar os seus cheques, pode ser altura de liquidar dívidas, pagar impostos trimestrais e prestações de hipotecas em avanço, e pensar em ter dinheiro fora dos bancos (ouro, divisas estrangeiras), etc, antes que o seu dinheiro fique inacessível ou mesmo que se evapore! Não pense que todos os seus investimentos fora dos bancos estão imunes a esta tempestade. Exemplo: o dinheiro nos mercados de fundos mútuos, onde os americanos investiram US$3 milhões de milhões, não está coberto pelo seguro FDIC (entretanto, contas no mercado monetário oferecidas pelos bancos estão cobertas). Perdas recentes em alguns destes fundos mútuos do mercado monetário levam algumas companhias a apressar-se a arrolhar as perdas. Exemplo: a Legg Mason Inc. e o SunTrust Banks Inc., recentemente bombearam US$1,4 mil milhões cada um para dentro dos seus fundos de mercado monetário. O Bank of America Corp. injectou US$600 milhões.

Quanto às suas contas à ordem e a prazo, perceba que pode ter cinco contas diferentes no mesmo banco, mas o FDIC segura apenas indivíduos, não cada uma das contas, até US$100 mil. Colocar o seu dinheiro em diferentes contas no mesmo banco não proporciona necessariamente melhor garantia para os seus depósitos.

[*] Economista, fergiewhitney@msn.com

“http://resistir.info/”

Campos de petróleo em águas profundas são a fronteira final

David J. Lynch

A oito quilômetros de profundidade, passando por barracudas e atuns, se encontra uma grande massa de arenito marmoreada com petróleo. Extrair o fluido como tinta, que repousa sem ser perturbado por milhões de anos, e enviá-lo por 240 quilômetros até a costa, não será fácil.

Mas com o aumento global da demanda elevando o preço de um barril de petróleo para perto de US$ 140, obter novas reservas de petróleo em pontos distantes, profundos, como o campo de codinome Tahiti, é crítico. Este é o motivo para a Chevron ter alugado esta sonda de perfuração móvel, que desloca mais água do que um porta-aviões classe Nimitz da Marinha, para preparar a produção de meia dúzia de poços espalhados pelo solo do oceano. Os propulsores da embarcação a mantém quase perfeitamente parada, diretamente acima de seu alvo, submerso sob 1.200 metros de água.

“As águas profundas são potencialmente a próxima onda de hidrocarbonetos no mercado global de energia. É imensamente importante”, disse Stephen Thurston, o vice-presidente da Chevron para projetos e exploração em águas profundas.

Campos de petróleo em águas profundas, aqueles a mais de 300 metros de profundidade, representam uma das fronteiras finais da exploração de petróleo. A boa notícia é que há abundância de petróleo nestes depósitos, especialmente aqui no Golfo do México e além das costas do Brasil e do oeste da África. A má notícia é que grande parte deste óleo cru valioso se encontra em formações geológicas complexas, escondido sob um quilômetro ou mais de camadas de sal problemáticas -o que significa que estes novos reservatórios serão caros para desenvolver e portanto farão pouco para eliminar a gasolina a US$ 4 o galão (N.E.: cada “galão americano” equivale a aproximadamente 3,78 litros).

No próximo ano, quando Tahiti começar a enviar petróleo para consumidores ansiosos em terra, a Chevron espera ter investido US$ 4,7 bilhões neste projeto. A soma imensa reflete um aumento nos custos dos equipamentos especializados, matérias-primas e combustível para os campos de petróleo, que mais que dobraram desde 2000, segundo a Cambridge Energy Research Associates. Somente o aluguel diário do Cajun Express custa US$ 463 mil.

“O nível de custos manterá os preços (da gasolina) em alta. Não se trata de encontrarmos algo fácil para produzir e o preço da gasolina voltará de repente a US$ 3″, disse Gary Taylor, da publicação do setor “Platts Oilgram News”.

As águas do oeste do Golfo do México representam as únicas áreas oceânicas dos Estados Unidos onde as companhias de petróleo podem explorar. Os preços persistentemente altos do petróleo abalaram, mas não colocaram um fim, à proibição federal de 1981 de exploração além das costas leste e oeste dos Estados Unidos e no leste do Golfo. O presidente Bush se juntou na quarta-feira ao virtual candidato presidencial republicano, o senador John McCain, na reversão de seu apoio à proibição. Os democratas mantêm sua oposição à expansão da exploração costeira, dizendo que ela ameaçaria o meio ambiente e faria pouco para coibir os altos preços da gasolina por anos.

Descobertas cada vez mais proeminente em águas profundas como Tahiti ilustram uma verdade por trás do aumento constante do combustíveis: todo o petróleo fácil foi encontrado ou usado. Agora, as sondas devem atravessar 1.200 metros de água e mais de 6 mil metros de areia, rocha e sal para encontrar o que restou.

“As pessoas em casa não pensam a respeito, mas são mais de 7 quilômetros! Quando comecei neste negócio, se conseguisse ir a 3 quilômetros, era incrível. Seu nome era colocado em uma placa”, disse Buddy Horton, um consultor de segurança da DC International, de Lafayette, Louisiana, que trabalha há 32 anos no setor.

No mês passado, a Chevron, a segunda maior companhia de petróleo dos Estados Unidos, informou ganhos de US$ 5,2 bilhões no primeiro trimestre, um aumento de quase 10% em comparação ao mesmo período em 2007. A empresa espera gastar US$ 2 bilhões neste ano à procura de mais petróleo ao redor do mundo, com a exploração em águas profundas representando a maior fatia. A Chevron planeja iniciar neste ano a extração de petróleo de outro campo em águas profundas no Golfo, chamado Blind Faith (Fé Cega), assim como no projeto Agbami, além da costa da Nigéria.

Em águas profundas
O primeiro campo além da costa da indústria foi perfurado em 1947, ao alcance da vista na costa da Louisiana, em água não muito mais profundas do que uma piscina pública. Desde esse início modesto, o setor tem marchado constantemente para profundidades mais desafiadoras. No ano passado, 130 projetos em águas profundas produziram petróleo, em comparação a 17 há uma década, segundo o Serviço de Gestão de Minerais (MMS), a agência do Departamento do Interior que arrenda as áreas além da costa.

Em 2015, a Chevron espera que os poços em águas profundas representem um quarto da produção de petróleo em alto-mar, em comparação aos atuais 9%.

Grande parte da ação agora está nos chamados campos em águas ultraprofundas, além de 1.500 metros de profundidade. Em 2003, a Chevron perfurou um poço recorde a 3.051 metros de profundidade, e a gigante do petróleo de San Ramon, Califórnia, tem planos de ir ainda mais fundo. Ela alugou dois novos navios-sonda da empresa de perfuração Transocean, capazes de chegar a profundidades totais de poço de 12 mil metros, incluindo 3.660 metros de água. A primeira entrega deverá ocorrer no próximo ano.

Enquanto as empresas correm para desenvolver novos campos em águas profundas, elas encontram obstáculos. O mais crítico: a escassez mundial de sondas de perfuração, o legado dos baixos preços do petróleo que inibiam o investimento há uma década, quando o petróleo caiu abaixo de US$ 12 o barril. A escassez de sondas é tão séria que alguns campos promissores continuam inexplorados, segundo o MMS. Os clientes que tentam alugar uma sonda da Transocean, a dona do Cajun Express, precisam esperar dois anos, disse Steven Newman, o presidente da empresa. Os pedidos acumulados da empresa agora ultrapassam US$ 30 bilhões, em comparação a menos de US$ 1 bilhão há quatro anos. “Eu estou neste negócio há 15 anos, e estes são os melhores tempos que eu já vi. Meu chefe, nosso presidente-executivo, está neste ramo há 30 anos, e estes são os melhores tempos que ele já viu”, disse Newman.

Quase um terço das sondas de águas profundas do mundo estão ativas no Golfo. Muitas estão explorando uma formação antiga chamada Terciário Inferior, que se espalha do Texas e Louisiana até bem distante da costa e pode conter até 2,8 bilhões de barris de hidrocarbonetos.

O campo Tahiti da Chevron, que a empresa anunciou como uma grande descoberta em 2002, parece ser uma das maiores descobertas na região, potencialmente contendo de 400 milhões a 500 milhões de barris de petróleo. Ele deverá começar a produzir 125 mil barris por dia no próximo ano.

Mas neste ambiente exigente, tropeços não são incomuns, até mesmo em componentes prosaicos como as correntes pesadas projetadas para segurar a plataforma de produção da Chevron -uma estrutura flutuante de 60 andares que está tomando forma nas proximidades- ao solo do oceano. Em 2007, a Chevron retardou o programa Tahiti após descobrir o que descreveu como sendo “problemas metalúrgicos” com os braceletes industriais de cerca de 1 tonelada.

Da mesma forma, no ano passado, a Chevron foi forçada a abandonar temporariamente um dos seis poços na fase inicial do projeto, após uma tentativa de concluí-lo ter fracassado. Agora, os mais de 140 trabalhadores da Chevron e várias empresas de apoio alojados no Cajun Express estão fazendo uma segunda tentativa. O trabalho deverá ser concluído no início de julho.

Reclamando das grandes companhias de petróleo
O simples fato de se chegar tão longe neste projeto de vários anos da Chevron é um feito. Os trabalhadores a bordo da sonda de perfuração suportam furacões e fluidos tóxicos enquanto enfrentam as correntes ardilosas que arrastam o cano de perfuração ao chegar ao solo do oceano. Abaixo do fundo do mar, camadas imprevisíveis de sedimentos -como um bolo de casamento com mente própria- ameaçam com problemas imprevistos a cada metro adicional de profundidade. Áreas de baixa pressão conhecidas como “zonas ladrão” podem frustrar os perfuradores ao roubar os fluidos necessários para lubrificar o avanço da broca de perfuração.

“Exige muito perfurar estes poços atuais. Não é fácil como costumava ser. O equipamento precisa ser mais robusto, maior, para trabalho mais pesado”, disse Marty Hebert, 52 anos, gerente da Transocean.

Um motivo são as condições extremas associadas à operação em campos muito profundos. O petróleo preso sob o solo do oceano está sob pressões que chegam a 20 mil libras por polegada quadrada -talvez o dobro da força de um poço mais raso- assim como temperaturas que se aproximam de 200ºC. Extrair o petróleo com segurança é equivalente a manusear um frasco gigante de ketchup cheio de um fluido lento, mas propenso a uma liberação explosiva.

Para completar os poços de Tahiti, a Chevron teve que projetar várias variantes de ferramentas-padrão de perfuração usando ligas exóticas como inconel, resistente a corrosão, disse Clay Jostes, 29 anos, um engenheiro de perfuração. Este é outro motivo para os custos serem tão altos.

A prospecção de petróleo conjura imagens de homens musculosos carregando canos pesados e empunhando ferramentas enormes. E há um pouco disso aqui. Em uma ponta do Cajun Express, um conjunto vertical de vários canos de perfuração lembram um enorme órgão de tubos industrial.

Mas a indústria do petróleo atual deve tanto ao Vale do Silício quanto à força bruta. Software especializado tridimensional permite aos geólogos do setor “ver” sob o solo do oceano e sob as camadas de sal espessas que escondem o petróleo. Na ponte, trabalhadores monitoram as correntes marítimas e o tempo em 10 monitores de tela plana, enquanto no centro de controle do poço, um sondador sentado em uma cadeira acolchoada observa a pressão dos fluidos no poço abaixo. Minissubmarinos robóticos executam inspeções quase diárias ao cano de perfuração.

“Muitas das coisas que fazemos rivalizam com o programa espacial. É tecnologia de vanguarda”, disse Jostes.

Mas quando o jovem engenheiro conclui seu período de duas semanas aqui na fronteira do petróleo e retorna para sua casa em New Braunfels, Texas, ele sabe que será recebido com resmungos, não com aplausos. “Eu fico frustrado ao ouvir meus amigos. Eles reclamam do preço do galão de gasolina”, ele disse. “Eles só querem culpar as grandes companhias de petróleo. Mas não estamos pilhando o povo americano, e não devemos pedir desculpas pelos lucros que estamos obtendo.”

Ainda há muito o que fazer até que Tahiti possa enviar seu primeiro barril de petróleo por um oleoduto até a costa. Todos os seis poços no solo do oceano estarão ligados a um coletor submarino, uma parada intermediária a caminho da plataforma de produção acima. Mas a esta altura Jostes estará em outro local.

“Quanto ao petróleo ser um recurso limitado, será que verei o fim dele? Ou meus netos verão o fim dele?” perguntou Jostes. “Eu acho que não. Eu não acho que haja um limite.”

“USA Today”

As convenções eram espontâneas

Artigo Michael Barone*

A Convenção Nacio-nal do Partido Democrata começa amanhã em Denver, Colorado, e durará quatro dias. Uma semana depois, a Convenção Nacional do Partido Republicano, também de quatro dias, será aberta em St. Paul, Minnesota. As convenções vão adotar plataformas que ninguém vai ler (eu mesmo nunca li uma na íntegra) e vão indicar Barack Obama e John McCain como candidatos presidenciais.
As TVs a cabo vão cobrir as convenções, sem transmitir os procedimentos na íntegra. A TV aberta apresentará uma hora de cobertura por noite. Os maiores eventos serão o discurso de Obama ao aceitar a candidatura, em um estádio de futebol americano, e o discurso de McCain, no ambiente mais modesto de uma arena de hóquei. Tudo isso é sabido há meses.
Então por que os partidos americanos realizam essas reuniões gigantescas e caríssimas? As respostas têm raízes na história. As convenções políticas nos EUA são uma instituição antiga. Em dezembro de 1831, cerca de 168 delegados de 18 Estados que se opunham ao presidente democrata Andrew Jackson se reuniram e escolheram para candidato Henry Clair. Foi a primeira Convenção Nacional do Partido Whig [antecessor do Republicano].
Em maio de 1832, os partidários de Jackson promoveram a primeira Convenção Nacional Democrata, que o indicou para o segundo mandato.
As convenções nacionais eram encontros de políticos dos partidos nos Estados, muitos dos quais tinham pouco em comum e não sabiam muito uns sobre os outros. Devido ao estado primitivo dos transportes e das comunicações da época, parecia necessário reunir delegados dos Estados para acordarem uma chapa à Presidência e Vice-Presidência.
Não era fácil. Os democratas, sempre divididos entre os sulistas rurais (e, até os anos 1860, escravocratas) e os nordestinos urbanos, exigiam uma maioria de dois terços para indicar um candidato a presidente; apenas em 1936 essa exigência mudou para maioria simples.
Durante mais de um século, as convenções nacionais foram encontros animados que incluíam discursos acalorados, manifestações ruidosas, galerias gritando palavras de ordem e reuniões em salas enfumaçadas em que políticos selavam acordos e mudavam seus votos.
Em muitos casos, também foram encontros cujo desfecho ninguém sabia prever de antemão. Os candidatos concorriam com o apoio de seus próprios Estados, na esperança de serem escolhidos inesperadamente ou de mudarem seus votos para o vencedor final em algum momento propício. A convenção que se tornou legendária foi a democrata de 1924, realizada no antigo (hoje demolido) Madison Square Garden, em Nova York. Uma resolução condenando o Ku Klux Klan, que combatia os negros e os católicos, foi rejeitada por um voto. Na 103ª votação, John W. Davis foi indicado. Ele acabou com a menor porcentagem de votos populares de qualquer candidato da história.
Ainda na década de 50, tratar de questões de negócios ou política em telefonemas interurbanos era algo fora do comum. Os políticos esperavam até descer do trem na cidade da convenção para poder falar pessoalmente com seus interlocutores. Antes de ser feita a primeira chamada, ninguém sabia quantos votos de delegados os candidatos teriam.
Não deve ser coincidência o fato de a última convenção em que foram feitas várias votações -a Convenção Nacional Democrata de julho de 1952- ter sido realizada mais ou menos à mesma época que o primeiro telefonema interurbano por ligação direta (novembro de 1951) e poucos anos antes da inauguração dos vôos comerciais em aviões a jato nos EUA (outubro de 1958).
A telefonia de longa distância possibilitava que a mídia contasse os delegados que votariam em cada candidato. A primeira contagem de delegados foi feita por Martin Plissner para a CBS em 1964, e as contagens de delegados feitas pelas redes de TV mostraram ser corretas na apertada disputa republicana entre Gerald Ford e Ronald Reagan, em 1976. As viagens em aviões a jato possibilitaram a políticos e jornalistas atravessar o país rotineiramente e conversar pessoalmente.
Por que, então, os partidos políticos americanos continuam a promover convenções nacionais? Uma das razões é de natureza técnica: na condição de entidades legais, as convenções são os partidos. Elas tomam, ou delegam a outros organismos o poder de tomar, as decisões sobre regras partidárias que vão vigorar até a convenção seguinte. A outra razão, mais importante, é que os dois partidos, Republicano e Democrata, usam as convenções como programas de TV que lhes podem valer votos.
Nem sempre isso deu certo: a violenta convenção nacional de 1968 prejudicou o Partido Democrata, como também o fez a amargura da convenção nacional de 1980 na qual o derrotado Edward Kennedy tentou evitar o cumprimento de vitória do presidente Jimmy Carter, postulado à reeleição. George W. Bush conseguiu um bom aumento em seus votos devido à coreografada convenção nacional republicana de 2004.
Neste ano, os democratas esperam suscitar um sentimento de entusiasmo e otimismo com o discurso de aceitação de Barack Obama a ser proferido em um estádio com 72 mil lugares (John Kennedy, em 1960, e Franklin Roosevelt, em 1936, também fizeram seus discursos de aceitação da candidatura em estádios). E, com um pouco mais de nervosismo, também esperam que Hillary Clinton e seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, discursando em noites diferentes, sanem as feridas das primárias.
Os republicanos esperam que sua própria convenção lustre a reputação maculada de seu partido, apesar dos discursos obrigatórios do presidente e vice-presidente em exercício. E esperam conseguir definir John McCain como líder de peso e que inspira confiança.
Quanto a nós, jornalistas e especialistas em política, adoramos as convenções nacionais -as festas, todos aqueles políticos disponíveis para entrevistas, todos os rumores e fofocas constantes. E isso -o apreço da mídia pelas convenções- talvez seja, afinal, a razão mais importante da sobrevivência dessa instituição antiga que já não cumpre nada que se assemelhe à função original.

*Comentarista sênior da “U.S. News & World Report”, pesquisador-residente do American Enterprise Institute e co-autor do “Almanac of American Politics”, entre outros. Barone escreveu este artigo para a Folha

“Folha de S. Paulo mundo”

ELE QUER COMANDAR MUDANÇA DE GERAÇÃO

Cerebral, democrata promete ruptura com era conservadora, mas se ampara em tradição

Sérgio Dávila

O clima no quartel- general da campanha de Barack Obama, em Chicago, é de contagem regressiva. Literalmente: o visitante é recebido por uma placa com um número mudado todos os dias que avisava, no domingo passado, que faltavam 80 dias para as eleições de 4 de novembro. Dentro, cerca de 200 pessoas trabalham num ambiente de 300 metros quadrados. São jovens entre 20 anos e 30 anos, que se sentam à frente de laptops, ouvem iPods e chamam o candidato pelo primeiro nome.
Aliás, ensinam que a pronúncia “cool” é “B’ráck”, com bê mudo, não bráck, nem baraque. Espalham-se em baias que formam quatro grandes seções. A maior é a que lida com a imprensa. Dentro dela, a mais importante é a do “time de resposta rápida”, pessoas que, tão logo o candidato é atacado pela campanha de John McCain, disparam e-mails com os pontos principais dos argumentos que as pessoas ligadas ao democrata repetirão ao longo do dia.
A segunda maior é a que cuida de políticas do candidato e de eleitorado. Há os arrecadadores. Há ainda a equipe do on-line, responsável por uma presença no mundo virtual de tal eficiência que, dizem analistas, vem recriando a maneira como a política é feita nos EUA. Não existem salas fechadas.
Obama aparece pouco -diz que lugar de candidato é na rua. Quando tem de se reunir com o centro nervoso da campanha, não mais do que cinco pessoas, entre eles raposas velhas de Chicago, escolhe o escritório de seu estrategista, David Axelrod, a 20 quadras dali e inacessível ao resto dos mortais.
Essa divisão da campanha, que prega a ruptura para consumo público, mas é fortemente calcada na tradição política em seu cerne, de certa maneira resume a candidatura do senador democrata de 47 anos. Ele chegou até aqui baseado numa plataforma cujo ponto central são as palavras “mudança” e “esperança”, embaladas por um pacote moderno, que atrai os eleitores mais jovens e de maior instrução.
Isso casa com o clima atual que muitos identificam como um desejo de “troca de guarda” de uma geração política. “Os americanos estão prontos para mudar”, disse à Folha Samantha Power, até março consultora de política externa da campanha do candidato. “Em Obama, eles vêem alguém idealista em princípios, mas também sofisticado, esperto e com chances reais de vitória.”
Atrai esse público, além da proposta de mudança, a biografia “pós-racial” do político. Filho de uma americana branca do Meio-Oeste e de um queniano negro criado na tradição muçulmana, ele nasceu no Havaí, passou a infância na Indonésia, se formou em direito em Harvard, batizou-se numa igreja cristã e começou a carreira política como organizador comunitário em Chicago. Em encontro fechado com políticos democratas no final do mês passado, após voltar da viagem à Europa e ao Oriente Médio, o próprio candidato daria sua definição: “Está se tornando claro que minha viagem, esta campanha -as multidões, o entusiasmo, 200 mil pessoas em Berlim- não falam de jeito nenhum só sobre mim. Falam dos EUA. Eu me tornei apenas um símbolo”.
É o que pensa Power, professora de Harvard: “É uma combinação do repúdio à associação entre George W. Bush e John McCain com a força dos próprios atributos de Obama, o fato de que nunca vimos ninguém como ele nesta geração”.
S e é verdade, as urnas responderão em novembro, mas o fato é que, para chegar até aqui, Obama usou e usa sem restrição os métodos políticos mais tradicionais, os mesmos que condena em discursos.
Nesse sentido, sua passagem por Chicago é reveladora. O então candidato ao Senado estadual de Illinois entrou na cena local num momento em que a reconfiguração urbana e uma série de novas leis mudavam a prática política dos EUA.
As campanhas, até então fortemente baseadas em organização e militância paga, começaram a dar lugar às baseadas em aparições na mídia e em doações, que por sua vez lubrificariam a máquina de publicidade.
(Hoje, a candidatura de Obama é conhecida por ter aperfeiçoado as duas práticas, modernizando a primeira ao trocar militância paga por jovens voluntários, sem descartar a segunda, ao se basear na mídia e em doações pulverizadas.)
Mas manobras políticas antigas e pouco nobres não passavam ao largo dele, como disse à Folha David Freddoso. O analista conservador é autor de uma das biografias recém-lançadas sobre o candidato, “The Case Against Barack Obama”. “Ele usou uma tecnicalidade para desqualificar todos os seus concorrentes na primeira eleição de sua vida”, disse.
Entre esses estava a pessoa que o introduziu na política local, a veterana Alice Palmer, hoje com 69 anos. Os dois não se falam desde então.
Em 2000, depois de perder a segunda reeleição -os mandatos do Senado estadual de Illinois são de dois anos-, Obama, com a ajuda de um aliado no Partido Democrata local, redesenhou seu distrito de maneira a incluir os votos de Hyde Park, onde mora, mas também a pobre Bronzeville, onde começou organizando comunidades, e a rica Gold Coast, onde viviam seus maiores doadores.
“Esse mesmo Obama diz que mudará a maneira como Washington faz política”, diz Freddoso. “Ele não é um reformista, como Ronald Reagan foi. Ele é apenas mais um político liberal (de esquerda, nos EUA).”
De fato, embora tenha levado seu discurso para o centro após derrotar Hillary Clinton nas primárias, Obama defende uma plataforma de centro-esquerda. Prevê, no campo doméstico, redistribuição de renda via taxação, maior presença do Estado em setores como saúde e educação e uma política energética que usa impostos das petrolíferas para investir em energia alternativa.
No campo externo, propõe iniciar a retirada imediata das tropas americanas do Iraque e, mais amplamente, trocar a retórica belicosa dos primeiros anos de Bush pelo engajamento de aliados como a Europa, inimigos como o Irã e competidores como a China.
Para Samantha Power, “os americanos e as pessoas dos outros países estão prontas para ter esperança de novo”. Para David Freddoso, os americanos não votam em candidatos de esquerda e não votarão em Obama “quando se informarem sobrem quem ele é”.

“Folha de S. Paulo mundo”

Colonização judaica das Colinas de Golã continua apesar das negociações entre Israel e Síria

Benjamin Barthe

Loiras e sorridentes, as duas jovens russas fazem poses, com os cotovelos apoiados num balcão de quitanda sobre o qual disputam espaços potes de tapenade* e garrafinhas de azeite. “Sorriam… Foto!” Elas estão participando de uma estadia “Taglit”, um desses programas especiais que se destinam a promover Israel junto à diáspora judaica.

Atrás delas, os seus congêneres de short e sandálias se acotovelam em volta de outro balcão, reservado para a degustação. O entusiasmo dos comensais diante dos pratos repletos de cubinhos de pão torrado acompanhados por condimentos encobre as explanações do vendedor que está vangloriando a qualidade do seu azeite. “Produzido conforme as técnicas da época talmúdica”, garante. Com os braços carregados de suvenires – sabonetes, garrafas de azeite ou de vinho, ou ainda frascos de cremes de beleza -, os visitantes fazem fila para passar no caixa, e então retornam ao seu ônibus, sob os olhares vigilantes de dois acompanhantes que exibem um fuzil a tiracolo.

Um grupo de jovens judeus estrangeiros, produtos vendidos com “embrulhos” histórico-religiosos, uma escolta armada: a cena poderia ser presenciada em qualquer excursão turística em Israel. Exceto que ela está ocorrendo numa fazenda oleícola de Katsrin, a capital judaica das Colinas de Golã. Uma região ocupada pelo Estado judeu desde a guerra dos Seis Dias, em 1967, e que foi anexada em 1981 após esta ser aprovada em votação pela Knesset, o Parlamento israelense. Este planalto que pertence à Síria é o principal objeto das negociações indiretas que foram iniciadas pelo primeiro-ministro israelense Ehoud Olmert com o regime do presidente sírio Bachar Al-Assad.

Será preciso devolver o Golã para fazer as pazes com este preocupante vizinho? As discussões que vêm sendo travadas a este respeito em Israel não têm nenhum impacto verdadeiro sobre os moradores do planalto. “Esta região é a fronteira natural de Israel com a Síria”, martela Valentina Litinski, a guia do grupo “Taglit”. “Ela constitui um trunfo estratégico que nós não podemos nos dar ao luxo de abandonar. Se um dia a Síria se democratizar, nós poderemos então considerar seriamente um acordo. Mas, por enquanto, está claro que este país não é um parceiro digno deste nome”.

Os buldôzeres que seguem escavando em várias áreas do planalto corroboram esse discurso agressivo. Aos planos de retirada, os colonos do Golã respondem com uma orgia de canteiros de obras. Uma companhia de tecnologia avançada com sede em Herzliya, uma cidade do litoral, planejou instalar-se na zona industrial de Katsrin. Alguns quilômetros mais ao sul, no moshav (cooperativa agrícola) Bnei Yehuda, uma galeria comercial está em fase de acabamento num terreno de três mil metros quadrados. Irá se tratar do segundo complexo desse tipo depois do de Kessem Hagolan (“A Magia do Golã”), um vasto conjunto de construções composto por lojinhas de suvenires, por um circuito especial para os visitantes e uma cervejaria. Situado na entrada da capital, este foi inaugurado há um ano. Rumores alardeiam até mesmo a possível construção de um aeroporto.

Esses projetos recentes vêm se acrescentar à criação mais antiga de explorações vinícolas cujos melhores vinhos, como o Château Golan, gozam atualmente de uma reputação mundial. O objetivo deste desenvolvimento acelerado é fazer do Golã um destino turístico inevitável, um parque natural dedicado à glória do “bem viver” e, assim fazendo, enraizá-lo na paisagem mental israelense. “Nós queremos criar uma rotina, de tal modo que, na mente das pessoas, o Golã seja uma evidência, assim como Tel Aviv [a capital política]“, resume Pini Ohayon, o gerente da cervejaria.

A aposta não é tão simples quanto parece. Diferentemente da Cisjordânia, próxima aos centros urbanos israelenses, as vertentes desoladas do Golã nunca chegaram a atrair os exaltados do “Grande Israel”. Trinta anos mais tarde, a cidade de Katsrin, que foi fundada em 1977, não abriga mais do que 7.500 habitantes, ou seja, a metade da população judaica do Golã. Às famílias dos soldados que ocupam postos no planalto, acrescentou uma pequena minoria de ultra-ortodoxos, que foram seduzidos pelo ascetismo do local, e alguns milhares de novos imigrantes ucranianos, enviados para esses remotos rincões tão logo chegaram de avião.

“O que importa saber é que 70% da população de Israel se opõem à cessão do Golã em troca da paz”, diz Sami Bar Lev, o prefeito da colônia-capital, referindo-se a uma recente pesquisa. “Um país tão pequeno quanto o nosso não pode renunciar a um lugar tão estratégico”.

A saída programada de Ehoud Olmert do governo, que foi forçado a ceder seu lugar em conseqüência de acusações de corrupção, apaziguou sem demora suas preocupações. “A retirada de Israel não irá acontecer tão cedo. Estamos planejando aumentar a população de Katsrin em mil habitantes por ano no decorrer dos próximos dez anos”.

Miran, um arquiteto paisagista de 37 anos, pretende ser um deles. Ele que reside atualmente num moshav da Alta Galiléia, decidiu mudar-se para Katsrin por causa “do sol, da paisagem e da proximidade do lago de Tiberíade”, onde ele já está sonhando em divertir-se com a sua prancha a vela. Em pé num dos acostamentos, ele está discutindo a obra da sua futura casa de campo junto com um dos seus operários, Salah, um druso do Golã. Com a ajuda dos seus compatriotas sírios, este trintão atarracado já construiu dezenas de casas para os judeus de Katsrin e a sua agenda permanece repleta de encomendas. “Os israelenses vão negociando e construindo simultaneamente”, diz. “Eles vivem nessa contradição permanente”. Todas essas obras lhe proporcionaram um nível de vida inesperado. Mas ele não se ilude com essa situação. “Os israelenses tomaram o Golã por meio da guerra. Portanto, eles deverão devolvê-lo se quiserem a paz”.

*Nota do tradutor – a tapenade é um patê típico da culinária provençal a base de azeitonas pretas, anchovas e alcaparras, geralmente servido em canapês como aperitivo.

“Le Monde”

Adultos não conseguem amadurecer e querem continuar sendo crianças

Joan Carles Ambrojo

Alguns adultos estancaram no caminho para a maturidade, do mesmo modo que encontramos adolescentes que demoram a assumir a independência. Com freqüência se vêem referências a essas pessoas como afetadas por uma síndrome ou um complexo de Peter Pan. Segundo especialistas, não existe essa síndrome. O que acontece é que as mudanças sociais e familiares das últimas décadas aumentaram o infantilismo de alguns adultos, que cresceram sem ter o referencial dos pais.

Encontramos na vida real muitos Homer Simpson, adultos que têm dificuldade para crescer e amadurecer emocionalmente? O que acontece com alguns jovens que se instalam em uma eterna adolescência, negando-se a assumir as responsabilidades e tomar as rédeas de sua vida?

Renunciar a ser adulto e instalar-se na imaturidade como tentativa de permanecer na eterna juventude é o que caracteriza as pessoas que se regem pelo que é popularmente conhecido como complexo de Peter Pan. Os especialistas, no entanto, não admitem a existência desse suposto transtorno, que de fato não aparece na lista do DSM-IV, o manual de diagnóstico de transtornos mentais da Associação Psiquiátrica Americana, que é utilizado como manual de referência em todo o mundo.

A popularização da suposta síndrome se deve em boa medida a Dan Kiley, o psicólogo americano que publicou em 1983 o livro “A Síndrome de Peter Pan” – a pessoa que nunca cresce, baseada no personagem da obra do britânico James Matthew Barrie, editada em 1904. Mais tarde, Kiley complementou o tema com a publicação de “O Dilema de Wendy”, no qual trata das mulheres que protegem indevidamente os homens como se fossem suas mães e assumem suas responsabilidades. É um estilo de vida que continua tendo seus adeptos. Nos EUA batizaram os jovens que demoram a amadurecer de Geração Odisséia, segundo William Galston, pesquisador do Instituto Brookings.

Sabel Gabaldón Fraile, psiquiatra do Hospital de Sant Joan de Déu de Barcelona, é definitivo: “Não está tipificada como síndrome. Não é nada mais que um fenômeno social, a dificuldade de crescer”. Gabaldón opina que o “peterpanismo” é apenas uma tentativa de alguns profissionais de buscar artifícios literários.

Forma de vida adolescente
Segundo explica o especialista, o conceito abrange uma série de comportamentos que podem ser muito comuns em determinados adultos de nossa cultura e nosso ambiente, e que “têm a ver exatamente com a atitude também cultural de infantilização, de extrema dependência, que muitas vezes adotamos em várias famílias, ou inclusive da própria cultura em relação às crianças e adolescentes, de poupá-los de frustrações, protegê-los excessivamente. Isso gera situações de prolongamento excessivo da adolescência e de comportamentos imaturos que ocorrem inclusive na idade adulta”.

Outros autores pensam de forma diferente. Para a psiquiatra Graciela Moreschi, o eterno adolescente é alguém para quem a adolescência é uma forma de vida, e não uma etapa evolutiva: “Isso significa que a independência não é uma meta”. Segundo Moreschi, que publicou um livro de divulgação sobre esse fenômeno, com essas atitudes essas pessoas têm como prioridade desfrutar o momento. Se ganham dinheiro o utilizam em saídas, em roupas caras, um automóvel, uma moto ou viagens, e se não ganham continuam dependendo de seus pais.

“Muitas vezes o estudo é o passaporte que lhes permite ficar instalados na adolescência, porque não terminaram a carreira, ou porque passam de uma para outra. Eles demoram para assumir qualquer tipo de compromisso porque não podem escolher algo permanente, inclusive ter um parceiro. A grande quantidade de opções que têm lhes causa dificuldade para escolher, porque ao fazê-lo renunciam às outras possibilidades”, diz Moreschi.

São comportamentos cristalizados em um momento da vida, continua a psiquiatra, e, portanto, em vez de evoluir essas pessoas se desgastam. “Muitos dos pais desses adolescentes estão do mesmo lado, não há diferenças, e os jovens não terminam de se individualizar como indivíduos maduros; não existe um outro que lhes permita realizar esse processo.” A diferença entre os eternos adolescentes e os adultos ainda com atitudes imaturas é que estes cuidam de si mesmos, enquanto os eternos adolescentes não foram capazes de separar-se da família.

Javier Elzo, catedrático emérito de sociologia na Universidade de Deusto e presidente do Fórum Deusto, diz que o fato mais evidente e comprovado é que há um prolongamento do hábitat dos adolescentes e jovens no domicílio familiar até extremos incríveis. E a Espanha tem uma das porcentagens mais baixas de emancipação familiar. As principais razões são a carestia da habitação, que torna a emancipação complicada, e em segundo lugar o caráter precário do trabalho.

Outra característica dos adolescentes atuais é o presentismo, ou seja, querer tudo já, imediatamente. É um fato que a maturidade está se retardando, “mas também encontramos jovens menores de 20 anos extremamente maduros, que são os que diante da dificuldade de encontrar o ninho familiar vazio [pais com pouca presença], por razões fortuitas ou não, começaram a assumir seu destino muito antes do que teríamos feito em nossa geração”.

As transformações sociais e familiares das últimas décadas fizeram, segundo Elzo, que os adolescentes e jovens que Eduardo Verdú batizou em um livro de “adultescentes” decidissem ficar em casa fazendo o que querem – “esses são os Peter Pan, os que saíram de casa ficando. É evidente que há um problema muito sério de referências”.

Pais “desorientados”
Para Elzo está claro que existe um problema de falta de referências nos pais, embora considere que os que estão mais desorientados são os próprios pais: “Qual é o modelo que pode ter uma pessoa de 40 anos? Seu pai não serve porque lhes dizem que é um antiquado, de outra época, que tem outra forma de ver as coisas; não se deve esquecer que os pais dos adolescentes de hoje são os que fizeram a transição espanhola, e neste momento muitos deles não sabem o que fazer com seus filhos”.

Com a incorporação das mulheres ao trabalho, acrescenta o sociólogo, os filhos vivem em um ninho vazio, “e encontramos jovens com precariedade psicológica. Como vão sair de casa se seus pais os consideram muito crianças? Mudam, isso sim, quando chega seu primeiro filho e têm de pagar a hipoteca”, afirma Elzo.

“El País”

Campeões olímpicos chineses são “fabricados” na Escola Esportiva de Shichahai

Olivier Montalba

Embaixo de um cedro na entrada da Escola Esportiva de Shichahai, há uma grande lápide de mármore preto com colunas de nomes dourados. Ma Jung, a jovem assessora de comunicação que me acompanha na visita acelerada a essa escola modelo no centro de Pequim, pára diante dela por um minuto regulamentar (1). Os nomes são os dos campeões do mundo e dos medalhistas olímpicos que saíram dessa escola nos últimos 25 anos.

No capítulo “Atenas 2004″ são quatro: Zhang Yining (duas medalhas no tênis de mesa), Teng Haibin (cavalo com alças), Luo Wei (tae kwon do) e Feng Kun (vôlei). “Desde então foi preciso começar a escrever nas laterais, não havia mais lugar para nossos cinco novos campeões do mundo.” E para Pequim em 2008? “Gravar outros nomes seria nosso maior sonho.” Antes a direção da escola era discreta sobre suas ambições. Há um ano o diretor foi categórico: haverá mais medalhas em Pequim do que em Atenas.

O projeto da Escola de Shichahai reflete a esperança de um país que tem pressa para ser reconhecido como nova superpotência no momento de “seus” Jogos Olímpicos. Afastada da família olímpica até o final dos anos 1970 por causa da disputa com Taiwan, a China participou de seus primeiros jogos em 1984 e desde então progrediu inexoravelmente: quarto lugar em Atlanta, terceiro em Sydney, segundo em Atenas com 32 medalhas de ouro, logo atrás dos EUA.

Em 2008 deve se tornar o primeiro país esportivo do mundo. “Senão o público ficará muito decepcionado, porque não daremos prova de um bom espírito nacional”, disse o responsável pelo programa de treinamento do Ministério dos Esportes. A Escola de Shichahai está em sintonia com essa ambição. Ma Jung explica que ela produz “a maior porcentagem de campeões de toda a China” e resume o espírito da escola: “Trabalhar duro, não desprezar nenhum detalhe”.

Os dois grandes edifícios novos são visitados através de balcões que dominam os ginásios. Pavarotti, Maradona, Jackie Chan e centenas de jornalistas já seguiram esse caminho. A atmosfera é de estudo; 600 alunos a partir de 6 anos, na maioria internos, se levantam às 7 da manhã para aulas de matemática e de chinês e depois treinos. Nas paredes, bandeiras vermelhas e slogans: “Daqui partirão os campeões de amanhã, à conquista do mundo”. Os alunos não têm tempo livre.

Exercícios repetidos o dia inteiro

Tudo é limpo, iluminado com néon. Os equipamentos são de qualidade. Para os esportes de combate, os jovens atletas treinam com fundo musical de rap. “Pesquisas demonstraram que a música pode melhorar a reação do sistema nervoso”, explica Ma, que em seguida se desculpa por ter falado demais. Nos corredores, cruzamos com grupos de adolescentes de aparência cansada – as doses de treinamento de cinco horas diárias para crianças de 8 anos seriam inaceitáveis na França, na opinião de um treinador francês. A direção da escola afirma que o número é exagerado.

De um ginásio ao outro, encontramos a mesma repetição de seqüências, aperfeiçoadas ao infinito. Vôlei: passe, corte. Pingue-pongue: diagonal, corte de direita. Badminton: golpe elevado, corte. A menina que faz o serviço não olha para a peteca, não se desloca um passo, repete até 50 vezes seguidas o mesmo gesto de precisão milimétrica, sem tentar esconder seu tédio. Não há qualquer dimensão lúdica: em chinês, nenhum esporte se conjuga com o verbo jogar.

Em matéria de “esporte”, três milênios de civilização forjaram uma cultura que privilegia o objetivo, a arte do gesto e o bem-estar, como o tai-chi, uma atividade sem qualquer espírito de competição. Até meados do século passado a China foi “o doente da Ásia” e seus esportistas ficaram fora dos encontros internacionais. O espírito de competição surgiu no esporte chinês ao mesmo tempo que o nacionalismo.

Foi com a chegada dos comunistas ao poder que a China começou a construir sua máquina de campeões, baseada no modelo soviético: um sistema piramidal, controlado pelo Estado, que permite identificar as crianças muito jovens, muitas vezes por critérios morfológicos, selecionar e treinar as melhores até chegar às equipes nacionais. O tênis de mesa (importado do Japão) foi o pioneiro, porque Taiwan havia sido afastado da federação internacional.

Em 1959, quando o tenista de mesa Rong Guotuan se tornou o primeiro campeão do mundo chinês, Mao Tse-tung viu aí uma “arma nuclear espiritual”. A competição tornou-se objeto de glória e de orgulho. A Escola de Shichahai foi criada naquele ano.

Meio século depois, em uma economia abalada pelo capitalismo, o esporte é um bastião de estabilidade nacional. Os futuros campeões são detectados, treinados, pagos, alimentados e hospedados por uma burocracia que controla sua vida pessoal e pode proibir que tenham contato direto com suas famílias durante vários anos. Até Liu Xiang, o astro dos 100 m com barreiras, foi chamado à ordem por ter passado tempo demais ao telefone com seus amigos.

Somente para alguns

Esse sistema, que há cerca de dez anos se abriu aos patrocínios, atingiu seu objetivo com uma eficácia temível, até a esperada consagração neste verão. Sustentado conforme as necessidades por treinadores estrangeiros recrutados por bons salários e a obrigação dos resultados, o regime investiu em esportes totalmente desconhecidos na China, mas com forte potencial de medalhas, como a esgrima ou o halterofilismo feminino. A equipe de tae kwon do foi formada em 1995 porque a concorrência era fraca, e a primeira medalha chegou cinco anos depois. O programa se chama “Ganhar honras nos Jogos Olímpicos”.

Mas das 400 mil crianças e adolescentes treinados em 3 mil escolas esportivas, no máximo algumas centenas se tornarão campeãs de calibre internacional. Para todas as outras, o futuro é sombrio. A maioria fica à beira do caminho, sem formação universitária ou escolar, abandonada pelo Estado. Segundo o jornal “China Sports Daily”, 80% dos atletas chineses estão desempregados ou vivem na pobreza, quando não sofrem problemas físicos ligados ao treinamento excessivo ou aos produtos ingeridos.

Mesmo entre os que conseguiram medalhas, vários exprimem seu arrependimento por ter sido privados de uma vida normal. A campeã do mundo de ginástica por equipes em 1998, Liu Fei, confiou alguns anos depois à agência Nova China: “Lamento profundamente ter adotado o caminho do esporte. As flores, os aplausos e a bandeira vermelha hoje estão bem distantes. Quando eu subi ao pódio do campeonato mundial, não poderia imaginar que o dia da aposentadoria seria o início de uma vida tão dura. Não tenho casa própria, nem trabalho, nem renda…” A jovem, que divide um apartamento minúsculo com sua mãe, inveja a sorte de sua irmã diplomada. E conclui: “Eu trabalhei duro. Para quê?”

Na mesma região nordeste, atingida pelo declínio da indústria pesada, Zou Chulan, uma ex-campeã de halterofilismo, abriu uma lavanderia automaticamente e precisa se barbear todas as manhãs – o estigma dos esteróides que ela ingeriu durante anos com total confiança. Assim como Liu Fei e Zou Chunlan, grande número de ex-atletas anônimos trabalha nas minas, como faxineiras ou vendedores de rua, e pedem ajuda. Em 2007 a ex-ginasta Mo Huilan, uma das raras que conseguiu se tornar apresentadora de um programa esportivo, propôs criar uma fundação para ajudar os antigos esportistas desempregados. Até hoje o projeto não teve seguimento.

Na sala de ginástica da Escola de Shichahai, o silêncio só é perturbado pelas vozes dos treinadores. As meninas têm de 9 a 11 anos, diz Ma, mas parecem dois ou três anos mais moças. Estão pálidas e têm expressões de fadiga. Uma menina sofre, de dentes cerrados, na barra fixa. O treinador a substitui com gestos cheios de censura, elevando um pouco a voz a cada vez, até que Ma o adverte sobre a presença do jornalista com uma única palavra: “Coach…”

(1) Visita sob condições estritas devido à proximidade dos Jogos Olímpicos: sem fotos, proibido entrar nas salas e falar com os jovens atletas.

“Le Monde”

‘Depois que morre, cabou-se’

Edilson Avelino dos Santos – Pai de Jonathan dos Santos Alves, que se perdeu na Amazônia; Na batida do ‘Jonatas’, ele empreendeu uma busca épica pelo filho no interior da Amazônia

Fred Melo Paiva

Eu disse pra ele: “Cuidado rapaz… cê não vai caçar lá não, que pra depois do Rio Branquinho é mata fechada cheia de igarapé, cheia de pântano. Tem muita onça, muita sucuriju, a cobra grande que é muita cobra. A floresta, ali naqueles ponto e pra todo adiante, é uma floresta alta, cheia de ladeirão e barranco”. Mas o Jonatas foi. Ele e mais quatro. Pessoal ingrato, mau companheiro. Porque os quatro voltaram, mas ele não. O Jonatas tava vestido numa calça jeans, tênis, uma camisa do Exército, um chapéu. Levou uma espingarda, 14 cartucho, um canivete e um isqueiro. Na beirada do rio, fiquemo nós no aguardo: atiremo pra cima, provoquemo barulho. Então eu ouvi um tiro: era pra muito longe e aquilo me agoniou. A primeira noite, o Jonatas passou lá pra dentro do mato. Nós no aguardo. Durante 20 dias, o corpo de bombeiro fez busca na floresta. Num arrumaram nada. Eles entravam num dia e voltavam no outro. Sempre a pé. Depois desistiram. Eu não: eu tinha feito a minha equipe. Eu, meu outro filho e dois filho de índio aqui do Amazonas – o Ricardo e o Roberto. Nós fumo e andemo. Oito, dez dia seguido nós dormia na mata. Montava acampamento nas encosta, misturava a conserva no arroz, comia, depois ia dormir na rede. Acordava 5 hora da manhã, tomava Nescafé e saía andando de novo. Nós ia sempre na batida do Jonatas: cada vez que ele tomava outro rumo, quebrava uns galhinho e ia deixando no chão umas seta. O Jonatas sabia que a gente ia atrás dele. Primeiro ele se aprofundou. Depois tentou voltar. Deu pra ver pelas seta: ele andava 1 km, quebrava, andava outro, quebrava de novo, lá mais pra frente invertia outra vez. Eu orava de joelho dentro do mato: “O Senhor fechou a boca dos leão sobre Daniel. Senhor, fecha a boca da onça sobre o meu filho. Fecha a boca da cobra, meu Senhor”.

(Edilson Avelino dos Santos, 41 anos, é o pai do Jonathan. É testemunha de Jeová. Não sabe ler nem escrever: apenas assina o próprio nome, repetindo o desenho das letras. Ele só chama o Jonathan de Jonatas. Não é apelido – é o jeito que o Edilson tem de falar. Jonathan tinha 18 anos. Era o seu filho mais velho. O Gérson tem 17. A Jéssica, 15. Ela tem síndrome de Down. O Edilson sempre passou por muitas dificuldades: ele mora em um sítio às margens de uma estrada de terra que corta a BR-174, ligação entre Manaus e Boa Vista, e vive exclusivamente daquilo que planta. Está 107 km ao norte de Manaus, no município de Presidente Figueiredo. Na sua casa não tem televisão – tem uma moto, que é para o Edilson se deslocar até a cidade. Ele vive com a mulher. Mas quem criou o Jonathan foi a sua irmã que mora em Manaus, a Iraci. Tanto que o sobrenome do Jonathan, registrado quando ele tinha 5 meses, é o sobrenome dela da época de casada – J. dos Santos Alves. Mesmo assim, a Iraci tinha um problema com o nome do Jonathan: ela não queria apenas um Jonathan, mas algo que se pronunciasse como Dionathan, ao estilo Jonathan Hart, o marido da série Casal 20. A Iraci concluiu, portanto, que a escrivã cometeu um erro: deixou de fora um h que deveria se colocar entre o o e o n, de forma a criar assim um prefixo John. A Iraci já está avisada de que isso não tem nada a ver e que o Jonathan não difere em nada de Jonathan Hart. Seja como for, o importante é que o Jonathan saiu para caçar no dia 10 de maio, véspera do Dia das Mães. Ele só seria visto de novo no sábado retrasado, dia 28 de junho – um dia antes do aniversário da Iraci.)

No meio da mata, depois de muito ir e voltar, o Jonatas começou a subir pela lateral do Rio Branquinho. Ele na frente e nós atrás, na batida das pegada. Depois de oito dias nesse encalço, a farinha começou a acabar. Fomo obrigado a sair da mata fechada, jogamo o sol nos ombro e tomamo uma vicinal. Em Presidente Figueiredo, pedimo ajuda pra guarda municipal: eles iam entrar lá pela cabeceira onde nasce o rio e descer fazendo a varredura, ao tempo que nós fechava por baixo. Eles toparo e nós fomo – e nada. Nessa situação de pensamento, eu concluí que não tinha outro jeito: o Jonatas tá dentro da Mutembol, que é uma fazenda aqui da região. Então eu cheguei pro Gerson, pro Ricardo e pro Roberto: “Olha, é a última busca que eu vou fazer, porque eu não agüento mais andar no mato. Eu quando era novo tinha muita resistência. Sou mateiro profissional. Mas agora eu tenho 41 e não agüento mais. Eu quero saber se ocês tão comigo”. Os índio então responderam: “Tamo contigo até morrer, até onde cê quiser”. Nós arrumemo tudo nas costa: lona, goiabada, suco, leite, arroz de saquinho, espingarda, cantil, lamparina, lampião, dois litro de óleo diesel, o meu terçado de bainha. Comprei tudo em Figueiredo – tudo pendurado na conta do mercadinho.

Na sexta-feira retrasada, nós entremo de novo atrás dele. Subimo um pedação do rio, andemo um dia inteiro até o ponto que ele tinha que ter quebrado na Mutembol. Nós num sabia, mas o Jonatas tava a menos de 4km da gente. Quando começou a chegar o final da tarde, por essa passagem da 5 hora, encontremo um trecho de mato muito alto. Ia ter que cortar. O dia tava começando a escurecer e nós ficamo indeciso se não era melhor pernoitar por ali e retomar o trabalho no dia seguinte. Foi isso que nós fizemo, e eu me arrependo muito. Naquela madrugada caiu uma chuva muito forte, o tempo ficou frio, o barulhão da água e do vento na copa das árvore – o Jonatas pegou essa chuva todinha, né, tava ali do lado. No sábado de manhã nós abrimo a picada. Andemo. Era 9h30 pras 10 quando o índio mateiro avistou: “Olha ali onde é que tá lá o menino!” Jonatas tava sentado na beira de um igarapé. Tava deitado assim meio encostado num toco. Gritei e corri: “Meu filho, pelo amor de Deus!!!” Encontrei ele magro, magro, magro igual menino da Etiópia. Não tinha mais coxa, as costela dele todinha nas costa. Tava com a gandola aberta e só de cueca – todo evacuado. Peguei a cabeça dele no colo, ele todo mole: “Meu filho, meu filho!!!” Olhei e ele não tinha mais rosto – o rosto secou e o que ele tinha mais era olho. Um olho aboticado, regalado na cara. Ele olhou pra mim e fez que ia lagrimar. Depois soltou um gemido: “Uhhh…” Então fechou os dente e começou a endurecer. “Gerson, meu filho, acode seu irmão, traz o suco, tira o soro, rasga, bota na água, tira o cantil!!!” Aquela agonia. Depois, as juntinha dele começou a amolecer, as juntinha da mão, tudo. Eu dei compressa em cima do coração dele, pra baixo, apertando, apertando. Mas quando eu fui fazer boca a boca, ele prendeu inda mais os dente, trancando bem duro. Então eu comecei a gritar. A gente tava a 30km da estrada. Eu queria uma asa pra me tirar dali.

(O Jonathan era um menino que queria ser forte. Na verdade, queria ser como um primo dele, que é modelo fotográfico. Por isso o Jonathan queria fazer uma academia. Não sendo possível nada disso, era um bom jogador de futebol – queria fazer a escolinha do Flamengo. Não apenas por essa razão, foi um estudante que não chegou lá. Parou no terceiro ano do ensino fundamental. Não sabia ler nem escrever direito. Foi prejudicado por um defeito na audição, apenas parcialmente resolvido quando a Iraci retirou do seu ouvido uma grande quantidade de cera. Ainda assim, o Jonathan gostava de escutar música. Nos últimos tempos, somente hip hop. Vestia-se como um rapper: as calças bem largas, a munhequeira, umas correntes no pescoço. Era hábil na street dance. Podia virar artista. Mas no caso do Jonathan, era bobagem ficar sonhando com essas coisas. Então ele se alistou no Exército. Era para ter se apresentado no dia 1º de junho. Mas na ocasião fazia 20 dias que ele estava sumido na mata – e nesse dia os bombeiros suspenderam as buscas.)

No sábado de manhã, o sábado 28, o Jonatas trancou os dente e morreu no meu colo. Antes, quando ele tava deitado sem força, a varejeira tinha botado uns tapuru na boca dele, entre os dente e o beiço. Nós retiremo os inseto. Eu limpei o corpo com repelente e óleo diesel, que era pra remover o resto de bicho – o cabelo tava cheio de ova, a pele cheia de carrapato. Vesti nele umas roupa que a Iraci tinha mandado, para o caso mesmo da gente localizar o menino. Eu abri uma rede, coloquei o corpo dele lá dentro, costurei, trespassei uma vara comprida pra poder carregar. Fui sozinho na frente procurar ajuda. Botei pra andar. Os outros três veio atrás, carregando o Jonatas. Onde eu passava, dava chute nim pau com meu coturno. Sentia muito remorso-desgosto, muita ira de raiva. Porque se fosse filho de rico, tava tudo aí rodando, os helicóptero, o pessoal tudo atrás. Aqui perdeu um velho outro dia, veio até cão farejador, exército, avião. Mas o velho tava em Manaus, mentindo pra mulher. O meu filho não: o meu filho precisava de verdade. Por isso eu gritava e reclamava de Deus: “Por que me abandonaste, Senhor? Por que abandonaste meu filho?” Quando escureceu, dormi sozinho no mato: sem fogo nem luz, eu armei uma rede bem alta, aproveitando o tronco de duas árvore. Quando eu entrei na rede, o breu da floresta já tava bem escuro – o breu da Floresta Amazônica. Passei a noite todinha chorando: um vazio danado, um buraco bem grande dentro de mim.

De manhã cedo eu continuei. Saí na estrada às 9 da manhã de domingo. Quando voltei com os pessoal pra ajudar no resgate, encontrei o Gérson e os dois índio saindo da mata. “Cadê o Jonatas, meu filho?” O Gérson: “Ninguém agüentou mais carregar, meu pai, tava fedendo e inchando, ninguém agüentou. Então nós enrolemo a lona na rede dele e amarremo lá em cima numa árvore, longe dos bicho, que era pra depois resgatar”. O resgate aconteceu só na segunda-feira. Os bombeiro arrumaram um helicóptero. O Jonatas veio amarrado do lado de fora, pendurado numa corda. Depois velemo e enterremo.

(A Iraci está muito inconformada. Diz que se tivesse algum dinheiro, R$ 3 mil ou R$ 4 mil no banco, teria pago uma hora de helicóptero para sobrevoar a selva durante as buscas. Infelizmente, “o meu débito estava negativo”. Já o Edilson, ele quer sair do sítio. Vai morar em Presidente Figueiredo, que não tem esse nome por causa do general, mas em homenagem ao primeiro presidente da província do Amazonas, João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha (1798-1861). O Edilson está devendo um dinheiro no mercadinho da cidade. Nesses 50 dias de procura pelo filho, emagreceu 30kg.)

Uma lição dessa história? O senhor põe isso aí: o pai, quando tiver seu filho, tem que fazer por ele enquanto ele tá vivo. Depois que morre, cabou-se.

SEGUNDA, 30 DE JUNHO
50 dias perdido
Divulgada a história do desaparecimento e morte de Jonathan dos Santos Alves, 18, que se perdera na floresta amazônica no dia 10 de maio. Encontrado vivo sábado retrasado, morreu no colo do pai, que continuou as buscas depois da desistência dos bombeiros.

O ENCONTRO
“Tava na beira de um igarapé. Magro, magro, magro igual menino da Etiópia”

A AGONIA
“Ele olhou pra mim e fez que ia lagrimar. Depois soltou um
gemido: ‘Uhhh…’”

O DESESPERO
“Comecei a gritar. A gente tava a 30 km da estrada. Queria uma asa pra me tirar dali”

“Estado de S. Paulo”

Amamentação protege mães contra a artrite

Nicholas Bakalar

Um estudo sueco sugere mais uma vantagem da amamentação, desta vez para a mãe: ela reduz o risco de artrite reumatóide.

Pesquisadores compararam 136 mulheres com artrite reumatóide a 544 mulheres saudáveis de idade similar. Depois de controlar fatores que incluíam cigarros e nível educacional, eles descobriram que mulheres que amamentaram de um a 12 meses reduziram seu risco de artrite em 25%, e que aquelas que amamentaram por mais de um ano cortaram seus riscos pela metade.

“Amamentar por um ano inteiro é difícil para muitas mulheres”, diz o Dr. Mitra Pikwer, o autor principal e médico residente no Malmo University Hospital em Malmo, na Suécia. “Mas mesmo se você amamentar por um mês ou dois, já faz diferença.”

Embora o mecanismo não esteja claro, os cientistas escrevem que o efeito protetor pode vir de mudanças em longo prazo no sistema imunológico da mãe, induzidas pela amamentação.

O estudo apareceu online em 13 de maio em “The Annals of Rheumatic Diseases”.

Os autores reconhecem que é difícil separar o efeito da amamentação do nascimento em si. Mas eles descobriram que o número de crianças nascidas de uma mãe não afetou os resultados.

A abordagem baseada na comunidade e o fato de que os dados sobre a amamentação foram coletados antes do princípio da doença deram força ao estudo.

“The New York Times”

Tulsa: O coração do televangelismo

Vi [no Rio] garotos abandonados nas ruas; eu chorei

DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA

Tulsa, Oklahoma, é o centro do televangelismo norte-americano, a fivela do “cinturão da Bíblia” -alcunha atribuída ao conjunto de Estados do sul onde é marcante a presença de evangélicos conservadores.
É aqui que Oral Roberts, um dos ícones religiosos do país, fundou a sua universidade, em 1963, e concebeu, a partir de visões de Jesus Cristo, um grandioso complexo hospitalar.
Batizado de Cidade da Fé, sua vocação era unir medicina e preces. O complexo médico carismático foi inaugurado em 1981 e, em menos de dez anos, em meio a uma profunda crise financeira (e a despeito dos US$ 9 milhões arrecadados entre os fiéis, graças a uma campanha televisiva), teve de converter suas torres em prédios de escritório.
Em 2007, Richard Roberts, filho mais moço de Oral e principal herdeiro da igreja do pai, se viu envolvido num escândalo de malversação de verbas e foi obrigado a se demitir da presidência da universidade.
Oral Roberts ficou conhecido, a partir dos anos 40, por suas cruzadas pelo país, primeiro em tendas itinerantes e depois no rádio e na televisão.
Pregava a cura pelo toque -paralíticos largavam as muletas e saíam andando, mudos falavam, cegos passavam a ver. Exortava os telespectadores a aproximarem as mãos da tela do televisor em casa.
Gerou controvérsia quando passou a dizer que também ressuscitava mortos.
Carlton Pearson, 55, veio para Tulsa estudar na Universidade Oral Roberts, o maior sonho de sua família de quatro gerações de pentecostais negros e pobres de San Diego, na Califórnia. E logo se tornou o preferido de Roberts, que precisava de cantores negros em sua igreja.
“Eu era o filho negro de Oral”, diz Pearson, com uma ponta de orgulho, em seu escritório no centro de Tulsa.
Durante anos, ele e Richard, que se preparava para herdar o império evangélico do pai, trabalharam juntos para a igreja, como irmãos: “Cantávamos, pregávamos e tirávamos o diabo do corpo das pessoas”.
O talento de Pearson para o negócio vinha de longa data, desde que, aos 16 anos, expulsou o diabo do corpo da namorada: “Tínhamos jejuado e rezado juntos. E ela foi possuída. Depois, achei que era uma traidora. Mas, se acredita no diabo, do modo como fomos ensinados a crer, ele se manifesta”.

O pastor herege
Pearson acabou alcançando projeção nacional como líder da maior igreja neopentecostal de Tulsa, a Higher Dimensions (Dimensões Superiores) -com 5.000 membros-, e organizador de uma concorrida conferência anual de 40 mil pastores evangélicos, antes de cair em desgraça e passar a ser chamado de herege por seus pares.
Sua heresia não foi de ordem financeira ou sexual, pecados que têm acometido evangélicos ilustres nos EUA, levando-os a perder não só a moral mas suas congregações.
É o caso célebre de Ted Haggard, que comandava a Associação Nacional de Evangélicos, com 30 milhões de membros, e que foi à televisão condenar Pearson, antes de cair ele mesmo em desgraça, em 2006.
Haggard, que também estudou na Universidade Oral Roberts antes de fundar a New Life Church (Igreja Vida Nova), em Colorado Springs, era um homem casado e pregava os valores da família contra o aborto e o casamento homossexual, até ser desmascarado como consumidor de metanfetaminas e cliente regular de um “acompanhante profissional”.

O inferno não existe
“Acho que agora ele está tentando conseguir um diploma em psicologia”, diz Pearson, cuja descida aos infernos teve início quando passou a dizer, para indignação e horror de seus colegas evangélicos, que o inferno não existe.
A iluminação veio em 1995, enquanto assistia a um programa sobre o genocídio em Ruanda, na TV:
“Somos nós que criamos o inferno. Vi tudo aquilo com meu filho pequeno sentada no colo. Ouvi a voz que eu achava ser de Deus, falando à minha alma, perguntando sobre meu filho, que engatinhava entre as minhas pernas: “O que esse menino pode fazer para você mandá-lo para o inferno, para ser torturado para sempre?”. Nada, pensei. “E o que o leva a pensar que nós faríamos isso com ele?”, disse a voz. Está na Bíblia, respondi. Comecei pelo inferno e acabei denunciando a Bíblia. Muito do que está na Bíblia é superstição, mito. Passei a pregar isso toda semana. Não dizia literalmente, preto no branco, mas já não idolatrava as Escrituras. Foi o que me pôs em apuros com os evangélicos.”
Pearson se converteu ao que hoje ele chama de “evangelho da inclusão”: o amor aos marginalizados, aos drogados, aos homossexuais, aos soropositivos etc. Mas foi só depois da eleição de Bush, em 2000, que ele próprio e seus pares começaram a entender as conseqüências do que estava dizendo. Afinal, se o inferno não existe e ninguém precisa ser salvo, para que servem as igrejas?
Os fiéis debandaram. No final, restavam 200 num auditório de 2.200 lugares. Em dezembro de 2005, Pearson foi obrigado a vender a igreja.
“A propriedade valia cerca de US$ 6 milhões. Ainda devíamos US$ 2,8 milhões de hipoteca. Renunciei ao nome. Perdi meu programa de TV, meus direitos intelectuais, meu seguro. Fiquei só com as calças.”

Bispo de brinco
“Perdi meus cartões de crédito. Minha renda vinha de pregações e palestras. Ninguém me convidava para mais nada. Ted Haggard foi à TV dizer que, se me abandonaram, era o mercado, como um show do qual as pessoas não gostam. Há 1.600 denominações religiosas nos EUA. Se você não gosta do que é dito numa igreja, atravessa a rua e vai assistir ao serviço em outra. As pessoas são devotas do inferno. Têm um compromisso com o inferno. Então, quando tirei o diabo delas, ficaram indignadas e o queriam de volta”, diz.
Pearson fundou imediatamente uma nova igreja (a New Dimensions, Novas Dimensões) para pregar seu “evangelho da inclusão”.
Reinventou sua vocação pentecostal em meio ao universo das igrejas liberais americanas: “Ainda sou bispo, mas onde é que já se viu um bispo de brinco?”, diz, às gargalhadas, apontando para a argola na orelha.
Hoje, já olha para trás com ironia. Mantém um escritório no 29º andar do segundo prédio mais alto do centro de Tulsa, com fotos dos filhos e da mulher sobre a mesa, de onde avista não apenas um punhado de igrejas de diferentes denominações, aos seus pés, mas também as torres da Cidade da Fé, ao longe: “Queria poder ver as coisas de cima”, diz, rindo.
A comunidade judaica e os gays o acolheram na queda. E, desde então, passou a freqüentar os que antes condenava. “Eu costumava passar pela frente desta igreja dizendo “o diabo mora aí”. E agora o diabo sou eu aqui”, diz para uma platéia de 30 pessoas, durante o serviço de quarta-feira à noite, na Igreja Unitária Todas as Almas.
A igreja fica num dos bairros residenciais mais afluentes de Tulsa, construído com o dinheiro do petróleo, e é a maior congregação de uma das denominações religiosas mais heterodoxas do país, a ponto de não pregar a Bíblia.
“Eles já não eram racistas quando não era permitida a entrada de negros neste bairro depois das seis da tarde. Era esta igreja que o filho mais velho de Oral Roberts freqüentava quando se suicidou. Foi a única que o recebeu, porque ele era gay. Há muita hipocrisia na religião. Os fundamentalistas estão cheios de adúlteros, alcoólatras, fornicadores, drogados. Sabem disso e estão cansados de si mesmos. Os militantes antiaborto não fraquejam enquanto suas filhas não forem estupradas por um negro. Aí eles ficam a favor do aborto. Todo mundo é contra o aborto enquanto for conveniente”, diz.
Pearson é republicano registrado desde a eleição de Ronald Reagan, em 1980. Fez campanha por Bush, em 2000, e foi recebido na Casa Branca.
Mas fica indignado quando lhe perguntam se faria o mesmo por McCain: “A América é muito orgulhosa para pôr na Casa Branca um homem que não consegue levantar o braço. Também não vai pôr ali um homem com sotaque. Nem um homem com aparência desagradável. Tampouco gosta de homens de óculos. É uma coisa psicológica. McCain não consegue apertar a mão das pessoas com o vigor de Obama”.

Galinha morta
Falando em inferno, Pearson se lembra de uma visita ao Rio: “Vi garotos que formavam pequenas quadrilhas para roubar, abandonados nas ruas como cachorros. Eu chorei. E aí me levaram para visitar o Cristo [Redentor]. Me senti paralisado. O que nos leva a fazer isso uns aos outros? Lá de cima, via uma igreja a cada esquina”.
“Uma catedral católica, uma igreja pentecostal e o fetichismo de uma galinha morta na qual eu tropecei ao entrar num banco. O que é que está acontecendo? Não há diferença entre a galinha morta e a catedral. É alimento para uma mentalidade fetichista de um Deus bravo que o matará se você não beijar os pés dele. Quero ver você publicar isso.”

“Folha de S. Paulo”

Esquerdas e direitas, hoje!

Os inúmeros problemas da esquerda ajudaram as direitas a se camuflarem melhor e se postarem como única e verdadeira solução. O atual contexto internacional é bastante favorável às posições conservadoras e ao mito de que não existe mais espaço para o pensamento de esquerda.

Luís Carlos Lopes

Mais de duzentos anos se passaram da revolução francesa, entretanto, a distinção entre direita e esquerda permanece viva e útil para a compreensão do espectro político atual. Na origem, estes termos de uso político nasceram por designar os lados onde se sentavam os membros da Assembléia de 1791. Os da esquerda queriam a afirmação e o aprofundamento dos princípios dos direitos do homem e os referentes à legítima luta contra a opressão. Os da direita queriam os suprimir ou dar um jeito de contorná-los. Desde lá, havia gradações à esquerda e à direita e não faltaram os que se afirmavam numa posição, na verdade desejando a outra. Os disfarces e os artifícios retóricos existiam há séculos. Não foram inventados pela modernidade dos acontecimentos de 1789.

Nos últimos dois séculos, a mesma distinção, com todos os seus problemas,
foi e continua sendo usada por toda parte. Continua sendo possível medir
o arco que leva da direita à esquerda com todas suas inflexões. Nem sempre é fácil perceber os disfarces, bem como, o exagero do discurso que escamoteia os propósitos efetivos de quem se postula de esquerda ou é reconhecido como de direita. Lembrando-se sempre que é mais fácil o auto-reconhecimento à esquerda. Poucos desejam ser considerados membros do outro campo ideológico.

Escondem, enquanto podem, o que realmente acreditam. Atualmente, quem é de direita costuma dizer que a distinção não é mais válida, remete a um outro tempo etc. Quem foi de esquerda e traiu suas convicções tem imenso interesse em confundir sua audiência, desejando que se esqueça do passado, como se fosse possível renascer das cinzas.

O olhar de quem é realmente de esquerda não compactua com a exploração do homem pelo homem, nas suas imensas variações. Não aceita que as pessoas sejam manipuladas e a elas sejam negados os seus direitos mais essenciais. Não concorda com a disseminação da ignorância e com o impedimento do acesso às informações políticas e científico-culturais fundamentais. Não pode assentir com direitos e tratamentos desiguais, independentemente do sexo, da idade, das características raciais e das posições ocupadas no tecido social por qualquer pessoa. Acredita que as ordens socioculturais e políticas não são naturais e que podem ser modificadas, no interesse coletivo.

Como fazer valer tudo isto sempre foi muito difícil, ser de esquerda foi
confundido com viver fora da realidade, não ter juízo e acreditar no impossível. No século XX, as coisas se complicaram ainda mais, porque, em nome da esquerda foram cometidas atrocidades típicas das direitas, cultivaram-se idéias, práticas e comportamentos muito próximos aos que as direitas sempre defenderam. O filme alemão, em cartaz, A Vida dos Outros, dá uma boa idéia do problema.

A história hoje conhecida do chamado socialismo real de Estado ajudou a confundir as opiniões e facilitou o trabalho das direitas. Por causa disto, é bom identificar a que tipo de esquerda se pertence. Tal como na velha revolução francesa, razões de Estado podem suplantar e, mesmo, destruir os ideais que deram início ao processo.

Os inúmeros problemas da esquerda ajudaram as direitas a se camuflarem melhor e se postarem como única e verdadeira solução. O atual contexto internacional é bastante favorável às posições conservadoras e ao mito de que não existe mais espaço para o pensamento de esquerda. As grandes mídias alardeiam a todo tempo o fim da possibilidade de criação de sociedades mais justas. Difundem, com o apoio de inúmeros intelectuais, a idéia de que não se pode compreender o mundo objetivamente e se lutar contra as iniqüidades atuais. Tentam dominar as consciências por meio da intriga, da mentira e de modos de pensar imunes a quaisquer saídas mais racionais. Apelam para um excesso de emoções alienadas e escondem a existência das ciências e das artes eruditas e populares autênticas,
as substituindo pelo pastiche grotesco, o obscurantismo e o misticismo. No
interior destas mídias, alguns tentam heroicamente evitar que a luz desapareça completamente. Isto significaria o fim de tudo, o apocalipse para quem ainda pensa e deseja fazer um trabalho decente. Para as direitas, não há problema. Elas estão acostumadas a viver com os entes dos infernos.

Ser de direita é bem mais fácil. Significa estar de acordo, mesmo que a razão indique que não se está dizendo a verdade ou que a causa defendida pode dar prejuízos até mesmo a quem a defende. Existem os que são de direita por estar defendendo seus interesses, por serem poderosos e desejarem ainda mais poder. Infelizmente, há os que defendem idéias de direita contra si próprios. Advogam crenças que os penalizam. Deixam de usar da razão e mentem para si mesmo.

Uma das velhas discussões sobre o mesmo problema é a de saber porque alguns aceitam, na grande imprensa, por exemplo, ter posições tão claramente de direita, mesmo não sendo donos dos jornais e revistas onde escrevem. O falso enigma por vezes aparece, quando se descobre, em alguns casos conhecidos, que os mais aguerridos são também os que recebem de várias fontes. A notícia e a opinião são mercadorias que podem ser oferecidas e vendidas por telefone ou em reuniões privadas. Basta consultar as janelas do noticiário existentes, sobretudo nas mídias alternativas, e ver as pontas dos icebergs, deste velho problema.

Luís Carlos Lopes é professor.

“Carta Maior”

Governo italiano envia tropas às ruas para combater o crime e a imigração ilegal

Elisabetta Povoledo

Soldados foram posicionados por toda a Itália na segunda-feira, para controlar embaixadas, estações de metrô e ferroviárias e os centros para imigrantes ilegais, como parte de medidas mais amplas do governo para combater a criminalidade.

Quando entrar plenamente em vigor na próxima semana, o esforço colocará cerca de 3 mil soldados ao lado da polícia regular e da polícia militar, um sinal visível aos cidadãos de que o governo “respondeu às suas exigências de maior segurança”, disse o ministro da Defesa, Ignazio La Russa, em uma entrevista ao canal italiano “Sky News”.

O governo conservador de Silvio Berlusconi ganhou as eleições em abril prometendo reprimir a criminalidade e a imigração ilegal, que as pesquisas indicavam ser as principais preocupações aqui.

“A segurança às vezes é concreta”, disse La Russa na segunda-feira. E os soldados serão “dissuasor (concreto) para os criminosos”, apesar de não poderem efetuar prisões.

Os críticos condenaram o uso das tropas como uma medida supérflua que poderá se mostrar contraproducente.

“Colocar as tropas nas ruas transmite uma mensagem dramática de que a situação é mais séria do que é na verdade”, disse o líder do partido de oposição Esquerda Democrática, Marco Minniti, em uma entrevista por telefone.

Em vez de transmitir um senso de segurança, ele afirmou, a militarização das cidades italianas “resultará no oposto”.

Na segunda-feira, os soldados começaram a patrulhar as ruas de dezenas de cidades. Em Milão, tropas foram posicionadas ao redor da catedral gótica, e em Nápoles elas ficaram de olho no consulado americano.

Os noticiários de televisão mostraram os oficiais militares revistando as bagagens dos imigrantes nas estações de metrô.

Na capital, os soldados serão posicionados ao redor das embaixadas, consulados e centros para imigrantes ilegais nos bairros afastados.

Eles não protegerão os monumentos históricos da cidade. As autoridades locais disseram que sentiam que uma presença militar poderia afugentar os turistas.

“Eles só estarão em áreas onde não terão impacto sobre os cidadãos normais”, disse o prefeito de Roma, Gianni Alemmano.

Outros críticos da medida, parte de um pacote maior anticriminalidade que passou pelo Parlamento no mês passado, argumentaram que as forças armadas italianas eram mais adequadas para lidar com emergências no Líbano, Afeganistão e Iraque do que com crises urbanas domésticas.

“É preciso treinamento especializado para executar estes tipos de controle”, disse Nicola Tanzi, o secretário de um sindicato que representa a polícia. “Soldados não estão qualificados.”

Ele também questionou se o custo da operação, de 60 milhões de euros, não poderia ser melhor gasto aumentando os orçamentos da polícia e da polícia militar.

“As estruturas e pessoal qualificado já existem, e realizam um excelente trabalho com os poucos recursos à sua disposição”, disse Tanzi. “Esta não é a forma certa de criar segurança.”

As forças armadas já foram usadas em missões de segurança no passado, em particular no combate à violência da máfia. Em 1992, após os magistrados anti-máfia, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, terem sido mortos por atentados a bomba, o governo enviou 20 mil soldados para a Sicília, onde permaneceram até 1998.

Soldados também foram enviados para combater o crime organizado em Campania e Calabria, e foram empregados para proteger aeroportos, usinas elétricas e potenciais alvos terroristas após os ataques de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.

“International Herald Tribune”

País pende entre recessão e alívio

Com o dólar como moeda de reserva global, EUA puderam usar heterodoxia para irrigar economia

Fernando Canzian

Sete entre cada dez norte-americanos avaliam que a economia dos Estados Unidos vai de mal a pior. Mas essa percepção já foi mais azeda. Há pouco mais de um mês, 80% achavam isso, segundo pesquisas semanais do instituto Gallup. Já o percentual de otimistas dobrou em 30 dias, de 4% para 8% dos entrevistados.
No “aniversário” de um ano do estouro da chamada “bolha imobiliária subprime”, que teve o reflexo direto de apertar o crédito às famílias norte-americanas, a economia dos EUA continua em xeque. Longe de superar o pior, apesar da melhora de humor no país. Na raiz da crise estão empréstimos desenfreados e de baixa qualidade no setor imobiliário, que provocaram rombos gigantescos nos balanços e sistemas de crédito dos bancos.
Como reflexo da inadimplência dos mutuários e do medo de novos calotes, o principal duto que abastece o motor da economia dos EUA entupiu, secando o crédito do sistema financeiro ao consumo (responsável por dois terços do PIB do país).
O período à frente é crucial para definir se os EUA entrarão em recessão, comprometendo economias periféricas. Ou se sairão dessa com a desenvoltura de recuperações anteriores -a mais recente em 2000.
Para contornar a crise, nos últimos meses o Fed (o banco central americano) e o governo de George W. Bush abusaram da prerrogativa que só os EUA têm na atual configuração econômica global -em que o dólar norte-americano é sinônimo de reserva de valor para dezenas de economias.
Há um ano, 91% das reservas do Fed estavam investidas em títulos do governo dos EUA, negócio considerado como um dos mais seguros do mundo. Com a crise, quase a metade dessas reservas foi direcionada ao sistema financeiro em troca de garantias pouco confiáveis dos bancos (os próprios empréstimos que seus clientes não estão conseguindo pagar).
Foi uma das formas encontradas para tentar salvar o sistema, que o próprio Fed e o Tesouro dos EUA deixaram correr solto até a atual crise. O Fed também vem mantendo os juros básicos no país em 2% ao ano. É um percentual menor do que a inflação corrente. Isso leva os empréstimos contraídos pelas famílias a ficar mais baratos, aliviando o endividamento e procurando abrir mais espaço para o consumo -e o crescimento do PIB.
A última perna desse “tripé de estímulos” deu-se com a ampliação de descontos nos impostos das famílias. Nos últimos seis meses, 66% delas receberam algum tipo de incentivo fiscal do governo. Até aqui, continua sendo uma grande incógnita se esses estímulos, que podem ter chegado ao limite, serão suficientes para levantar de novo o país. A o que parece, os EUA ainda vêm se mostrando muito mais resistentes do que outras economias avançadas à atual crise de crédito, que se alastrou por todo o mundo.
Enquanto o PIB da zona do euro e o do Japão já embicaram para baixo, os EUA cresceram 1,9% no segundo trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. O crescimento foi sustentado por um salto de 20% nas exportações nos últimos 12 meses, impulsionadas por um dólar em baixa que deixa os produtos do país mais baratos. Não fossem as exportações em alta, a economia dos EUA teria se contraído 0,5% no trimestre passado.
O cenário levou o economista-chefe para os EUA do Lehman Brothers, Ethan Harris, a dizer que o país sofre de “uma recessão em câmera lenta”. “Em uma recessão convencional, há um colapso. Ele só pode, mais à frente, levar a uma recuperação. Na conjuntura atual, falamos mais de uma dor crônica, de longa duração, e que dificilmente gerará mais renda e emprego”, diz.
Para Andrew Tilton, economista do Goldman Sachs, “há claramente uma deterioração no mercado de trabalho. E é muito provável que ele continue nessa trajetória”.
Os principais críticos da política econômica dos anos de George W. Bush afirmam que de pouco adiantarão os estímulos atuais, tendo em conta que foi minada uma das bases fundamentais de qualquer economia: a renda. Sob Bush, argumentam, os EUA sofreram a maior concentração de renda na história recente.
O valor fixado pelo governo federal para a remuneração mínima por hora de trabalho ficou congelado entre 2000 e 2007, quando houve um pequeno reajuste. Em termos reais (descontada a inflação), a hora mínima paga caiu de US$ 4,70 em 2000 para menos de US$ 4,40 -uma queda de 6,5%.
Como resultado, em 2006 (último dado disponível), a renda média das famílias era 2% menor do que em 2000. Isso em um período em que o lucro corporativo subiu 11% além da inflação, e os ganhos do 1% de americanos mais ricos, 95%.

“Folha de S. Paulo mundo”

Uma nova guerra civil no Líbano?

ORIENTE MÉDIO Hezbollah e tropas do primeiro-ministro pró-ocidental Fouad Siniora combatem por 11 dias; incitação foi provocada por EUA e Israel para atingir Síria e Irã; país continua sem presidente após 19 tentativas de se chegar a um consenso

Achille Lollo

DE 5 A 13 de maio, os moradores de Beirute, Trípoli e Halba, viveram o inferno da guerra civil, voltando atrás no tempo, quando, em 1975, as milícias dos partidos cristãos e próocidentais (Falange Libanesa) lançaram uma ofensiva generalizada contra os palestinos e todos os partidos, grupos e movimentos políticos da oposição libanesa. A guerra civil foi um desastre. Beirute ficou inteiramente destruída e o Sul do Líbano foi repetidamente invadido por Israel durante 15 longos anos. Um contexto que obrigou os partidos de esquerda, os progressistas drusos e todos os componentes da comunidade muçulmana a pegar em armas para defender seus territórios.
Agora, depois de 11 dias de duros combates em todo o Líbano, a ameaça da guerra civil parece congelada, mas não eliminada. Inicialmente, o porta-voz do governo (pró-ocidental) do sunita Fouad Siniora declarou que nestes 11 dias morreram somente 36 pessoas. Depois, tiveram que retificar dizendo que os mortos eram 60 e os feridos, 130. Porém, na véspera da reunião com o chefe da delegação da Liga Árabe, Hamad bin Jasen al Thani (primeiro-ministro do Qatar), o presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, reconheceu que neste rápido conflito registrouse a morte de 88 pessoas, das quais 14 eram guerrilheiros do Hezbollah, e mais de 250 civis feridos gravemente.

Início
O governo libanês, liderado pelo sunita Fouad Siniora, provocou a crise, inicialmente no dia 2 de maio, quando ordenou o fechamento da rede telefônica do Hezbollah, não acreditando que a mesma fosse de uso estritamente militar.
Segundo o líder do “Partido de Deus”, Nasrallah, “havia várias centrais de escuta que operavam na rede pública captando todo o fluxo de comunicações relacionadas aos Postos de Comandos e às representações do Hezbollah. Escutas que, depois, chegavam nos escritórios dos analistas dos serviços secretos de Israel e dos Estados Unidos. Visto que o governo nada fez, fomos obrigados a criar uma rede telefônica autônoma, na qual eram transmitidas apenas as comunicações de ordem militar.”
A seguir, no dia 3 de maio, o primeiro-ministro decidiu substituir o chefe de segurança do aeroporto de Beirute, general Wafic Shoukair, por ser considerado “demasiado amigo da cúpula do Hezbollah”. No dia 4 de maio, Fouad Siniora, sem consultar o Parlamento, preparou um documento para o comando militar dos “Capacetes Azuis” das Nações Unidas, sugerindo uma nova interpretação da resolução que regula os limites operacionais do contingente da ONU. Substancialmente, ele pedia que as tropas da ONU procedessem o desarmamento das patrulhas dos milicianos do Partido de Deus (Hezbollah), do Amal (muçulmanos) e do Partido Social-Nacionalista (muçulmanos pró-Síria).

Declaração de guerra
No mesmo dia, o embaixador de Israel nas Nações Unidas proferia um violento discurso contra o Hezbollah, a Síria e o Irã, sublinhando que nunca haverá paz no Oriente Médio enquanto o Líbano e Gaza permanecerem subjugados pelos fundamentalistas e o Irã continuar a darlhes armas e dinheiro – ao mesmo tempo que completa o seu programa nuclear. Tudo isto, aos olhos do líder do Hezbollah, era o equivalente a uma declaração de guerra. Porém, para a mídia internacional, internacional, nada de grave estava acontecendo.
Apenas Robert Fisk, o valioso repórter do jornal britânico The Independent, colocou no mesmo plano as provocações do sunita Fouad Siniora com as declarações do embaixador israelense na ONU, que antecipavam as ameaças à Síria e ao Irã que o presidente George W. Bush fez depois, no dia 15 de maio, em Jerusalém. Para o repórter britânico – que há 20 anos vive em Beirute – tudo isto era um pano de fundo para antecipar o conflito no momento em que Bush anunciava sua viagem para Israel, onde ia prestar homenagem aos 60 anos da “ocupação sionista” na cidade de Jerusalém.

Inimigo número 1
O conflito pontualmente se iniciou no dia 5 de maio, quando o Hezbollah e os seus aliados anteciparam suas movimentações, surpreendendo o Exército libanês e os grupos paramilitares cristãos e sunitas, dando assim uma prova de força que minimizou Fouad Siniora e Saad Hariri (líderes do partido sunita AL-Mustaqbal no governo) e seus principais aliados, nomeadamente os líderes dos partidos cristãos, Samir Geagea e Amyn Gemayel (respectivamente, Forças Libanesas e Falanges), e do partido socialista progressista druso de Walid Jumblatt. É importante lembrar que o contexto libanês tornou-se ainda mais complexo quando o líder do partido socialista progressista druso, Jumblatt, depois de uma aliança de 20 anos com a esquerda libanesa e com os partidos de oposição muçulmana, apoiou o governo pró-ocidental de Fouad Siniora, tornando-se o inimigo número um do Hezbollah.
O verdadeiro motivo que levou o primeiro ministro libanês, Fouad Siniora, em provocar o Hezbollah ao ponto de preparar a implosão de uma nova guerra civil no imediato futuro é, antes de tudo, de ordem estratégica, e está relacionada com o desejo do Departamento de Estado em querer acabar com o Hezbollah antes das eleições estadunidenses. Depois, caberá à nova administração a tarefa de “desmontar ou destruir” as instalações nucleares que o Irã está montando para a produção de energia destinada ao seu parque industrial.
Não é casual que no dia 15 de maio – isto é, quando a missão da Liga Árabe tentava desesperadamente negociar com Jumblad e Talal Arsalan (líder do Partido Social-Nacionalista que apóia o Hezbollah) –, o presidente dos EUA, George W. Bush, ao falar da crise libanesa juntamente com o presidente israelense, Shimon Peres, tenha declarado:”Condeno com força as recentes tentativas do Hezbollah, do regime de Teerã e de Damasco, e o uso da violência deles contra o governo e a população libanesa. A comunidade internacional não permitirá aos regimes sírio e iraniano controlar o Líbano e, por isso, vou consultar nossos aliados”.
Bush, durante sua estadia em Israel, nada disse sobre a Palestina e seu futuro e decidiu encontrar-se posteriormente com o presidente da ANP (Autonomia Palestina), Abu Mazen, somente no Egito. Porém, ao comentar o desenvolvimento do programa nuclear iraniano, mesmo com fins pacíficos, foi duríssimo e insistiu ameaçando: “O programa nuclear iraniano é a ameaça mais grave para a paz. Não excluo nenhuma opção para impedir a finalização do programa e, portanto, de obter deste armas nucleares. Todas as opções estão no tapete”, disse.
É evidente que, se o presidente Bush ameaçou destruir o complexo nuclear iraniano, algo já foi planejado entre o Pentágono e o Ministério da Defesa de Israel. Por isso, Robert Fisk, em comentário do dia 13 de maio, reafirmava que “tudo o que aconteceu nestes dias – da denúncia de Siniora acerca de um pretenso “golpe de Estado” por parte do Hezbollah, e a surpreendente ocupação militar de Beirute Oeste e de grande parte do porto de Trípoli por parte dos milicianos do “Partido de Deus”, Amal e grupos pró-sírios –, nada mais é que um novo capítulo da guerra no Oriente Médio, que ainda opõe os interesses estratégicos dos Estados Unidos, Israel e dos países ocidentais e suas transnacionais aos anseios dos povos árabes.”

Derrota ocidental
A mídia ocidental tentou mistificar a derrota do governo pró-ocidental do sunita Fouad Siniora minimizando o sucesso político e militar do Hezbollah que, de fato, hoje, preocupa muito mais os estrategistas do Pentágono e do Mossad (serviço secreto israelense).
De fato, os milicianos do “Partido de Deus”e seus aliados – os mesmos que em 2006 resistiram à tentativa de invasão israelense em todo o Sul do Líbano – demonstraram ter uma mobilidade operacional que surpreendeu o próprio Exército libanês, que nada pôde fazer para impedir a ocupação da Zona Oeste de Beirute, e que praticamente se absteve de enfrentar os milicianos fundamentalistas também nos principais centros do Norte do Líbano, Trípoli, Halba e em Baalbek, no Leste do país.
Todo esse contexto mudou os equilíbrios político-militares da conjuntura libanesa, visto que a coordenação militar liderada pelo Hezbollah demonstrou aos EUA e a Israel que os fundamentalistas têm capacidade militar para ocupar 80% do Líbano. Este fato obrigou Fouad Siniora a aceitar todas as recomendações da Liga Árabe que, representada pelo primeiro ministro do Qatar, Hamad Bin Jasem al Thami, pediu ao Hezbollah para remover todos os seus homens de Beirute Oeste e de Trípoli.
Por sua parte, Fouad Siniora teve que anular seus decretos-leis que provocaram a crise. O jornal iraniano Keyhan (independente) saudou o posicionamento da Liga Árabe com um longo editorial, cujo título dá a entender o que pode acontecer no futuro: “Hezbollah anula as conspirações dos EUA”. Enquanto o diário governamental Iran era mais enfático ao dizer: “Pesada derrota dos ocidentais em Beirute, o Hezbollah vai mudar o destino da região inteira”.

Paz: até quando?
Ninguém sabe quanto tempo vai durar a paz, visto que maioria e oposição ainda não manifestaram seu consenso para a nomeação do novo presidente que, após 19 tentativas, tentará ser eleito no dia 10 de junho. Nabih Berri, presidente do Parlamento ligado ao Hezbollah, admite que há um potencial consenso para eleger o general Michel Suleiman, porém o primeiro- ministro Fouad Siniora ainda não sinalizou sua posição. Neste âmbito, o “diálogo nacional” sugerido pela Liga Árabe fica no ar, enquanto os diferentes grupos se preparam para o próximo embate.
De fato, o líder do partido sunita Saad Hariri (filho do ex-presidente Rafi k Hariri, assassinado em um atentado à bomba de um grupo pró-sírio) já está reorganizando os homens do partido al-Mustaqbal com a seguinte idéia: “Querem que nos rendamos, para depois imporem suas condições, mas isto nunca vai acontecer. O Hezbollah, que ocupou Beirute atendendo às ordens de Irã e Síria – cujo regime assassinou meu pai, Rafik Hariri, – quer voltar a impor sua hegemonia no Líbano”. Por sua parte, o sunita Fares Souied foi enfático em anunciar a revanche ao dizer: “Os sunitas e os cristãos não vão esquecer o constrangimento sofrido, e vão se preparar para que isso não aconteça nunca mais” Amin Gemayel, ex-presidente e chefe das Falangi (grupos paramilitares fascistas), também pediu a todos os grupos cristãos para “ficarem juntos e consolidarem suas posições em suas regiões”.
Para os EUA e Israel, é absolutamente indispensável “limpar” o Líbano do Hezbollah. Sua presença no Sul do Líbano inviabiliza qualquer ataque contra a Síria e a intenção de estrangular o Irã. O problema, para o Pentágono, CIA e o Mossad (israelense), é que o Hezbollah demonstrou no terreno uma notável capacidade militar operacional, além de um grande apoio popular.

Achille Lollo é jornalista italiano

“Brasil De Fato”

Krugman: conflito na Geórgia levanta a questão sobre o futuro da globalização

Paul Krugman

Até agora, as conseqüências para a economia internacional da guerra no Cáucaso têm sido praticamente insignificantes, apesar de a Geórgia ser um importante corredor para o transporte de petróleo. Mas enquanto lia as últimas más notícias, peguei-me pensando se essa guerra não é um mau-presságio – um sinal de que a segunda grande era da globalização pode ter um destino igual ao da primeira.

Se você estiver se perguntando sobre o que estou falando, eis a
resposta: nossos avós viveram num mundo com economias nacionais auto-suficientes e auto-centradas – mas os nossos tataravós viveram, assim como nós, em um mundo de comércio e investimentos internacionais em grande escala, um mundo que foi destruído pelo nacionalismo.

Em 1919, o grande economista britânico John Maynard Keynes escreveu sobre a economia mundial às vésperas da 1ª Guerra Mundial. “Os habitantes de Londres podiam pedir por telefone, enquanto tomavam seu chá da manhã na cama, vários produtos de todos os cantos da terra
(…) eles podiam ao mesmo tempo, e pelos mesmos meios, arriscar suas riquezas nos recursos naturais e empreendimentos em qualquer quadrante do mundo.”

E o londrino descrito por Keynes “percebia esse estado das coisas como normal, certo, e permanente, exceto no sentido de um melhoramento futuro (…). Os projetos e políticas do militarismo e do imperialismo, de rivalidades raciais e culturais, de monopólios, restrições, e exclusão (…) pareciam exercer pouquíssima influência no curso da vida social e econômica cotidiana, a internacionalização estava quase completa na prática.”

Mas então vieram três décadas de guerra, revolução, instabilidade política, depressão e mais guerra. Ao final da Segunda Guerra Mundial, o mundo estava fragmentado tanto política quanto economicamente. E levou algumas gerações para que o mundo voltasse a ser como antes.

Então, tudo pode entrar em colapso novamente? Sim, pode.

Considere como as coisas se desgastaram durante a atual crise alimentar. Por muitos anos nos disseram que a auto-suficiência era um conceito ultrapassado, e que era seguro confiar nos mercados mundiais para suprir a demanda de alimentos. Mas quando os preços do trigo, arroz e milho aumentaram, os “projetos e políticas” de “restrição e exclusão” de Keynes voltaram: muitos governos correram para proteger os consumidores domésticos, banindo ou limitando as exportações e deixando os países importadores em maus lençóis.

E agora vem o “militarismo e o imperialismo”. Por si só, como eu disse, a guerra na Geórgia não é tão importante economicamente. Mas marca o fim da Pax Americana – a era em que os Estados Unidos de certa forma mantiveram o monopólio do uso da força militar. E isso levanta algumas questões reais sobre o futuro da globalização.

De forma mais óbvia, a dependência energética que a Europa tem em relação à Rússia, principalmente por conta do gás natural, agora parece muito perigosa – mais perigosa, pode-se argumentar, do que sua dependência do petróleo do Oriente Médio. Afinal, a Rússia já usou o gás como arma: em 2006, ela cortou os suprimentos da Ucrânia em meio a uma disputa de preços.

E se a Rússia estiver disposta e apta a usar a força para estabelecer o controle sobre sua autodeclarada esfera de influência, será que os outros não farão o mesmo? Basta pensar sobre a confusão que aconteceria se a China – que está quase ultrapassando os Estados Unidos como a maior nação manufatureira do mundo – decidisse reclamar à força seu domínio sobre Taiwan.

Alguns analistas dizem para não nos preocuparmos: a integração da economia global por si só nos protege da guerra, argumentam, porque as economias que fazem comércio com sucesso não arriscariam sua prosperidade se engajando numa investida militar. Mas isso, também, traz à tona memórias históricas não muito agradáveis.

Logo depois da Primeira Guerra Mundial, outro escritor inglês, Norman Angell, publicou um livro famoso intitulado “The Great Illusion” ["A Grande Ilusão"], no qual argumentava que a guerra havia se tornado obsoleta, que, na era industrial moderna, até mesmo os vitoriosos militares tinham muito mais a perder do que a ganhar. Ele estava certo – mas as guerras continuaram acontecendo de qualquer forma.

Será que as fundações dessa segunda economia global são mais sólidas do que as da primeira? De certa forma, sim. Por exemplo, uma guerra entre as nações da Europa ocidental parece realmente inconcebível agora, nem tanto por causa dos laços econômicos, mas por causa dos valores democráticos que compartilham.

Mas boa parte do mundo, incluindo as nações que desempenham um papel-chave na economia global, não compartilha dos mesmos valores. A maioria de nós continua acreditando que, pelo menos no que diz respeito à economia, isso não é um problema – que podemos contar com que o comércio global continue a fluir livremente apenas pelo fato de ser tão lucrativo. Mas essa não é uma crença segura.

Angell estava certo ao dizer que a idéia de conquistar um território é uma grande ilusão. Mas a crença de que a racionalidade econômica sempre evita a guerra também é uma grande ilusão. E hoje o alto grau de interdependência econômica global, que só pode ser sustentado se os principais governos agirem sensivelmente, está mais frágil do que imaginamos.

“The New York Times”

Raposa Serra do Sol: questão de justiça

Frei Betto

EM 15 de abril de 2005, o presidente Lula assinou a homologação, em área contínua, da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Este ano, a Polícia Federal, em cumprimento da lei, mobilizou-se para retirar da reserva seis arrozeiros. Os invasores da área, convencidos de que “índio atrapalha o progresso”, reagiram com violência, inclusive bombas. Criaram o fato político capaz de induzir o STF a suspender a medida legal e reiniciar o atribulado percurso já transitado pelos três poderes da República.
Roraima abriga pouco mais de 400 mil habitantes num território de 224.298 km2 (pouco menor que o Equador). Raposa Serra do Sol é uma área de 1,67 milhão de hectares situada no nordeste do Estado, nas fronteiras com a Venezuela e a Guiana. A área foi demarcada pelo Ministério da Justiça, através da Portaria 820/98, em 1998, durante o governo FHC. Da área de Roraima, 46,35% são reservadas aos indígenas. Ali eles somam 46.106, distribuídos em 152 aldeias dos povos Yanomami (15 mil), Macuxi, Wapixana, Wai-Wai, Ingaricó, Taurepang, Waimiri-Atroari e Patamona.
Políticos e arrozeiros queriam a demarcação em área descontínua, “ilhas” onde pudessem permanecer com suas terras (invadidas) e propriedades (ilegais). Três municípios foram criados dentro da reserva indígena: Normandia, Uiramutã e parte de Pacaraima. Raposa Serra do Sol não é apenas uma selva salpicada de tribos. Ali atuam 251 professores indígenas em 113 escolas de ensino fundamental e três de ensino médio. Os indígenas manejam um rebanho de 27 mil cabeças de gado. Funciona dentro da reserva a Escola Agropecuária de Surumu, que profissionaliza técnicos de nível médio. Conveniados com a Funasa, há 438 Agentes Indígenas de Saúde e 100 indígenas técnicos em microscópio, trabalhando em 187 postos de saúde e 62 laboratórios. Valoriza-se a medicina tradicional indígena.
Dentro do território demarcado, seis rizicultores ocupam 6 mil hectares, com lavouras irrigadas, nas margens dos rios Cotingo, Tacutu e Surumu. Todos grileiros em terras da União. Utilizam agrotóxicos, destroem a mata ciliar, soterram lagoas e igarapés, abrem valas para canalizar a água dos rios às suas lavouras. A mesma água, poluída com agrotóxico e inutilizável para o consumo retorna ao rio, matando os peixes.
No verão, impedidas de fazer uso da água dos rios, as comunidades indígenas são obrigadas a cavar poços. Com a destruição das lagoas e da mata ciliar, as caças desaparecem. Os vilarejos dentro da reserva dão apoio ao garimpo ilegal e, ali, circulam bebidas alcoólicas, muitas vezes oferecidas aos jovens indígenas…
Os direitos dos povos indígenas estão garantidos pelo artigo 231 da Constituição; assegura-lhes a posse permanente e o uso exclusivo de suas terras. Uma demarcação fracionada da área favorecerá a invasão de forasteiros, aumentará a incidência de conflitos e porá em risco a sobrevivência de culturas milenares.
Na primeira semana de janeiro de 2004, o Jornal Nacional mostrou a mobilização de arrozeiros e latifundiários interrompendo estradas na tentativa de evitar a homologação de Raposa Serra do Sol. Com o apoio de lideranças indígenas cooptadas, seqüestraram três missionários católicos da Missão Surumu: os padres Ronildo Pinto França, brasileiro; e Cézar Avellaneda, colombiano; e o irmão espanhol Juan Carlos Martinez, todos membros do Instituto Missão Consolata.
O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, advertiu o governador Flamarion Portela, de Roraima, de que o governo federal tomaria providências para liberar os reféns e desmobilizar o protesto. A Policia Federal agiu e libertou os seqüestrados. Eram seis hora da manhã de 23 de novembro de 2004, quando a comunidade Jauari foi despertada por tiros, gritos, roncos de máquinas.
Quarenta homens armados mataram galinhas, porcos e cães, e deram dois tiros no macuxi Jocivaldo Constantino, um deles na cabeça. De lá, marcharam para destruir as comunidades indígenas Brilho do Sol, Retiro São José e Homologação. Nas quatro aldeias derrubaram, com tratores, 37 casas e incendiaram os escombros, sem poupar a igreja, a escola e o posto de saúde; isolaram as áreas e fecharam as estradas. Ficaram desabrigadas 131 pessoas.
Retroagir a homologação de Raposa Serra do Sol para área não-contínua representa grave precedente jurídico em relação aos demais processos demarcatórios, e poderá estimular grileiros e oportunistas a realizarem invasões nos mesmos moldes das que ocorrem em Roraima.
Quanto à Segurança Nacional, lembro que os povos indígenas têm, historicamente, desempenhado papel fundamental na preservação e defesa de nossos atuais limites territoriais. Não são os índios que promovem degradação ambiental, contrabando, garimpagem de minérios preciosos e derrubada de madeiras nobres. A hipótese de se criar uma faixa de 10 a 20 km de largura ao longo de nossas fronteiras abre o risco de atrair intenso movimento migratório de não-índios para a região, causando degradação ambiental e social, desmatamento e contaminação dos rios.
Cabe ao STF fazer cumprir a Constituição, ou seja, confirmar a homologação em área contínua; e, ao governo, deslocar a sede do município de Uiramutã para as margens da rodovia BR-401 (que liga à Guiana); promover a regularização fundiária de Roraima e reassentar os posseiros em áreas definidas pelo Incra, com pagamento das justas indenizações. Por fim, devem preservar as atuais rodovias, como bens públicos, para uso de cidadãos indígenas ou não.
Retalhar Raposa Serra do Sol é retalhar a Constituição Brasileira, reforçar a discriminação aos indígenas e premiar o faroeste dos que apóiam os interesses de apenas seis arrozeiros.

Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de A Mosca Azul – reflexão sobre o poder (Rocco), entre outros livros.

“Brasil De Fato”

ESTUDAR A CIDADE POR MEIO DE TEXTOS NÃO VERBAIS

Lucrécia D´Alessio Ferrara

A fala e a escrita não são nossos únicos sistemas de comunicação. Existem vários textos não verbais que, mesmo não sendo escrita, voz, música ou pintura, informam e definem a cultura contemporânea. “As transformações econômicas e sociais deixam, na cidade, marcas ou sinais que contam uma história não-verbal pontilhada de imagens, de máscaras que têm como significado o conjunto de valores, usos, hábitos, desejos e crenças que nutriram, através dos tempos, o quotidiano dos homens”. Nesta entrevista Lucrécia D’Aléssio Ferrara, professora do programa de estudos pós-graduandos em comunicação e semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo fala das possibilidades de. A cidade é uma unidade de percepção, onde tudo é signo, linguagem. Ruas, avenidas, praças, monumentos, edificações configuram-se como uma realidade sígnica que informa sobre seu próprio objeto: isto é, o contexto. Com formação em letras e literatura, Lucrécia trabalhou durante muitos anos na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP no Departamento de Projeto, no Grupo de Disciplinas de Desenho Industrial, de onde vem seu interesse em design, arquitetura e espaços urbanos.

ComCiência – A linguagem da cidade é um exemplo de texto não verbal. O espaço urbano é uma sucessão de imagens que marcam o cenário cultural da nossa rotina e a identificam como urbana. O que se caracterizaria por código da cidade? Quais seriam as principais características dessa linguagem própria da cidade?

Lucrécia D’Aléssio Ferrara – A cidade é objeto de investigação de várias áreas do conhecimento: arquitetura, demografia, sociologia, economia. Cada uma dessas áreas estuda distintas manifestações do espaço urbano: a funcionalidade e as políticas da sua edificação, seu adensamento populacional, seus movimentos e organizações sociais, sua riqueza material e produtiva, seu território e sua geopolítica. Em conseqüência dessa múltipla atenção científica, é necessário perguntar: a complexidade científica do espaço urbano decorre da sua interdisciplinaridade ou a própria cidade é um complexo objeto de investigação porque decorre da experiência humana tecida e tramada nos meandros da vivência cotidiana? Aquela vivência constitui a realidade fenomênica da cidade e é ela que atrai a atenção das várias áreas das ciências humanas. Porém, essa realidade só é passível de estudo através de representações, de signos que, no tempo e no espaço, marcam o modo como o homem se relaciona com a cidade, dela se apropria e a transforma. A contínua transformação dessas representações desenha a imagem da cidade e constitui a linguagem da qual se ocupam, direta ou indiretamente, todas as áreas científicas que a têm como objeto de investigação.

ComCiência – A cidade medieval é fundadora de um dos principais símbolos da cidade, a multidão, imagem que permanece até o século XIX. Entretanto, o capitalismo industrial como imagem cultural urbana descaracteriza a cidade como espaço público enfraquecendo o papel das multidões e resultando numa colisão entre público e privado. A senhora poderia falar mais sobre este processo de desaparecimento das multidões e suas conseqüências? Neste contexto, onde prevalece o privado sobre o público, quais os novos signos do espaço urbano com suas praças, ruas, etc?

Ferrara – Da aldeia à cidade cosmopolita, à metrópole ou à megalópole não há rupturas ou cisões, mas nexos e signos em metamorfose, em semiose contínua. Do flaneur do século XIX ao voyeur dos nossos dias, temos uma longa história com distintas características semióticas e interativas, porém, na atualidade, misturam-se todas as manifestações anteriores. Desse modo, o espaço público da cidade cosmopolita marcado pelas fabulações orais que zelavam pela tradição e pela manutenção de costumes e valores, expande-se no espaço público televisivo consumido através da imagem que re-apresenta, igualmente, uma escala de valores e desejos a serem imitados, ao mesmo tempo em que incorpora o espaço fisicamente privado, mas publicamente vivido. Na mesma continuidade, a cidade contemporânea, marcada pela aceleração da cibercultura, cria a compulsiva mediação de um espaço público virtual da telecomunicação e da telepresença de um coletivo anônimo que apresenta um espaço público global/local sem limites geográficos ou sociais rígidos, mas fluído e flexível expandido nas ruas do planeta.

Não se trata de lastimar de modo nostálgico a perda dos cenários da cidade cosmopolita, mas de perceber o cotidiano da cidade como aprendizagem constante de novas experiências.

ComCiência – A senhora fez um estudo sobre a Praça da Sé, em São Paulo. Sem as multidões, qual o papel de um espaço como essa praça numa grande metrópole como São Paulo? Porque a senhora considera que esse espaço se tornou ilegível para o usuário?

Ferrara – São Paulo é uma cidade que se constrói e reconstrói na expectativa de aprontar-se para desempenhar, ontem ou hoje, o papel da maior cidade industrial da América Latina ou de incontestável destino de magalópole global. Nessa operação, a cidade não soube zelar pela manutenção dos signos que representavam suas referências históricas ou emblemáticas. Esse é o caso da Praça da Sé e do seu entorno. Na desarticulação e fragmentação da cidade rumo ao planalto da Paulista, ou das margens do Pinheiros à procura de locais rentáveis para especulação imobiliária e econômico-financeira, aqueles locais foram deixados à deriva da atenção pública do poder constituído ou da sua população e, atualmente, pagam o preço da ilegibilidade e da fraqueza dos seus significados urbanos, ainda que sejam articulados esforços para resgatá-los como pontos turísticos.

ComCiência – A partir da segunda metade do século XX a imagem da cidade sofre o impacto de uma cultura e um consumo de massa, possibilitados pelo acesso à informação via televisão e pela grande oferta de produtos vindos de um mundo industrial que opera em constante superprodução. Se este foi o desafio para a cidade do século XX, o que se pode esperar para a cidade do século XXI?

Ferrara – O flaneur foi o ícone que celebrizou a cidade cosmopolita e escreveu sua história. O efeito zapping foi o alerta de que além do monitor não havia uma recepção passiva, e a sutileza comercial da televisão tratou de rever sua programação para identificar o receptor, tirando-o do anonimato e tornando-o, supostamente, partícipe dos destinos da sua programação e da sua aceitação pública. A megalópole do século XXI com mais de 10 milhões de habitantes não escreve o fim da história urbana, mas requer a escritura de outros capítulos cujos autores estão dispersos na realidade singular e contraditória dos lugares do mundo, mas despertos para a urgente construção de um meta-território que deve caracterizar-se pelo exercício de apropriação social e cultural das raízes que sedimentam a identidade coletiva.

É possível que, habituados a uma ação comandada e pré-definida, entendamos que esse contágio está à beira da utopia, porém essa ação surge como possibilidade de mobilizar uma consciência universal que constitui, talvez, a possível mudança do mundo contemporâneo. As manifestações populares que, à maneira de fóruns sociais, são apresentadas diariamente nos jornais impressos, falados e digitais são claros indícios de reações coletivas que acenam nessa direção e nos vários cantos do planeta.

ComCiência – Como os indivíduos podem se orientar em meio à multiplicidade de signos que a cidade contemporânea oferece? Como isso compromete a leitura das imagens da cidade?

Ferrara – A cidade contemporânea é pluricentralizada na medida em que se verticaliza e se horizontaliza, ao mesmo tempo. Portanto, a legibilidade dos seus signos supõe operar com escrituras verbais e não verbais localizadas, mas descentralizadas ou pluricentralizadas. Ou seja, a leitura da cidade em suas imagens supõe fragmentá-la na articulação dos seus lugares e não na suposta totalidade do seu conjunto.
Um possível mapa mental da cidade vai muito além da simples funcionalidade utilitária que facilitaria deslocamentos ou direções, ao contrário, a leitura da cidade é não verbal e está diretamente relacionada à capacidade que o homem desenvolve para produzir alternativas de subsistência e a encontrar, no cotidiano, as melhores soluções para comunicar-se e encontrar-se individual e coletivamente. Trata-se de uma aprendizagem que decorre da maior experiência cultural da humanidade: aprender a viver de modo solidário.

ComCiência – Ainda comparando imagens da cidade medieval com a cidade contemporânea, o homem medieval usava seu corpo como representação da estrutura social ostentando trajes nas procissões e em outros momentos solenes que o diferenciava dos demais. É certo dizer que o corpo como suporte foi substituído pela posse e exibição de objetos? Como isso acontece nas diferentes classes sociais?
Ferrara – Dentro da mesma concepção de que a cidade apresenta uma contínua transformação das suas representações semióticas, sem sofrer bruscas interrupções ou explosões culturais, podemos observar que desde a Idade Média, o corpo tem sido eficiente estrutura comunicativa através de signos que a ele aderem e são representações de classes, hierarquias e aspirações sociais. A moda e seus fetiches são apliques que expandem o corpo fazendo-o signo sócio-cultural que identifica classes sociais quando se distinguem pela manifestação de múltiplas preferências estéticas que comunicam poder ou expectativas de poder.

“Geografia Geral e do Brasil”

“É o petróleo, estúpido!”

O acordo que se desenha entre o ministério iraquiano do Petróleo e quatro companhias petrolíferas ocidentais levanta questões delicadas quanto aos motivos da invasão e da ocupação do Iraque pelos Estados Unidos. Estas questões deviam ser levantadas pelos candidatos às eleições presidenciais e discutidas seriamente nos Estados Unidos, assim como no Iraque ocupado. A análise é de Noam Chomsky.

Noam Chomsky

O acordo que se perfila entre o ministério iraquiano do petróleo e quatro companhias petrolíferas ocidentais levanta questões delicadas quanto aos motivos da invasão e da ocupação do Iraque pelos Estados Unidos. Estas questões deviam ser levantadas pelos candidatos às eleições presidenciais e discutidas seriamente nos Estados Unidos, assim como no Iraque ocupado, onde parece que a população desempenha apenas um papel menor – se é que desempenha – na definição do futuro do país.

As negociações relativas à renovação das concessões petrolíferas, perdidas aquando das nacionalizações que permitiram aos países produtores recuperar o controle dos seus próprios recursos, estão bem encaminhadas para serem entregues à Exxon Mobil, Shell, Total e BP. Estes parceiros originais da Companhia Petrolífera Iraquiana são acompanhados agora pela Chevron e por outras companhias petrolíferas de menor dimensão. Estes contratos negociados sem concorrência, aparentemente redigidos pelas companhias petrolíferas com a ajuda dos oficiais americanos, foram preferidos às ofertas formuladas por mais de 40 outras companhias, especialmente chinesas, indianas e russas.

“O mundo árabe e parte das população americana suspeitavam que os Estados Unidos tinham entrado em guerra precisamente para proteger a riqueza petrolífera que estes contratos procuram garantir” escreveu Andrew E. Kramer no New York Times. A referência de Kramer a uma suspeita é um eufemismo. É além disso mais provável que a ocupação militar tenha ela própria impulsionado a restauração de uma odiada Companhia Petrolífera Iraquiana, instalada na época da dominação britânica afim de “se alimentar com a riqueza do Iraque no quadro de um acordo notoriamente desequilibrado”, como escreveu Seamus Milne no Guardian.

Os últimos relatórios evocam atrasos na apreciação das ofertas. O essencial desenrola-se sob o signo do segredo e não seria surpreendente que surgissem novos escândalos.

A necessidade dificilmente poderia ser mais premente. O Iraque possui provavelmente a segunda reserva mundial de petróleo, que se caracteriza além disso por baixos custos de extracção: sem permafrost [1], nem areias betuminosas a transpor, nem perfuração em águas profundas para empreender. Para os planificadores americanos, é imperioso que o Iraque permaneça, na medida do possível, sob o controlo dos Estados Unidos, como um Estado cliente dócil apropriado para acolher bases militares em pleno coração da primeira reserva energética mundial. Que esses eram os objetivos fundamentais da invasão foi sempre claro, apesar da cortina de fumaça de sucessivos pretextos: Armas de destruição maciça, ligações de Saddam com a Al-Qaeda, promoção da democracia e da guerra contra o terrorismo – o qual se desenvolveu radicalmente com a própria invasão, como era previsível.

Em novembro último, estas preocupações tornaram-se explícitas quando o Presidente Bush e o Primeiro ministro iraquiano, Nouri Al-Maliki, assinaram uma “Declaração de princípio”, com total desprezo pelas prerrogativas do Congresso americano e do Parlamento iraquiano, assim como da opinião das respectivas populações.

Esta Declaração permite uma presença militar indefinida no Iraque, em coerência com a edificação em curso de gigantescas bases aéreas em todo o país, e da “embaixada” em Bagdade, uma cidade na cidade, sem qualquer semelhança em todo o mundo. Tudo isto não é construído para ser em seguida abandonado.

A declaração encobre igualmente uma descarada afirmação quanto à exploração dos recursos do Iraque. Nela se afirma que a economia iraquiana, isto é os seus recursos petrolíferos, deve ser aberta aos investimentos estrangeiros, “especialmente americanos”. Isto é quase como um anúncio de que vos invadimos para controlar o vosso país e dispor de um acesso privilegiado aos vossos recursos.

A seriedade destas intenções foi sublinhada pelo “signing statement”[2] do Presidente Bush declarando que rejeitará qualquer texto do Congresso suscetível de restringir o financiamento necessário para permitir “o estabelecimento de qualquer instalação ou base militar necessária para o abastecimento das Forças Americanas que estão permanentemente estacionadas no Iraque” ou o “controle dos recursos petrolíferos iraquianos pelos Estados Unidos”.

O recurso extensivo aos “signing statements”, que permitem ao poder executivo estender o seu poder, constitui outra das inovações práticas da administração Bush, condenada pela American Bar Association (Associação de advogados americanos) como contrária ao Estado de direito e à separação constitucional dos poderes”.

Sem surpresa, a declaração provocou imediatos protestos no Iraque, entre os quais dos sindicatos iraquianos, que sobrevivem apesar das duras leis anti-sindicais, instituídas por Saddam e mantidas pelo ocupante.

Segundo a propaganda de Washington, é o Irã que ameaça a dominação americana no Iraque. Os problemas americanos no Iraque são todos imputados ao Irã. A Secretária de Estado Condoleeza Rice sugere uma solução simples: “as forças estrangeiras” e os “exércitos estrangeiros” deveriam ser retirados do Iraque – os do Irã, não os nossos.

O confronto quanto ao programa nuclear iraniano reforça ainda as tensões. A política de “mudança do regime” conduzida pela administração Bush a respeito do Irã é acompanhada da ameaça do recurso à força (neste ponto Bush não é contraditado por qualquer dos dois candidatos à sua sucessão). Esta política igualmente legitima o terrorismo em território iraniano. A maioria dos americanos prefere a via diplomática e opõe-se ao uso da força, mas a opinião pública é em grande parte irrelevante, e não só neste caso.

Uma ironia é que o Iraque está se transformando pouco a pouco num condomínio americano-iraniano. O governo de Maliki é a componente da sociedade iraquiana sustentada ativamente pelo Irã. O chamado exército iraquiano – exactamente uma milícia entre outras – é largamente constituído pela brigada Badr, treinada no Irã e que foi constituída do lado iraniano durante a guerra Irã-Iraque.

Nir Rosen, um dos correspondentes mais astuciosos lá presentes e profundo conhecedor da região, salienta que o alvo principal das operações militares conduzidas conjuntamente pelos Estados Unidos e por Maliki, Moqtada Al-Sadr, já não recolhe os favores do Irã: independente e beneficiando de apoio popular, esta facção é perigosa para este país.

O Irã, segundo Rosen, “apoiou claramente o Primeiro ministro Maliki e o governo iraquiano, na altura do recente conflito em Bassra, contra o que eles descrevem como ‘os grupos armados ilegais’ (do exército Mahdi de Moqtada)”, “o que não é surpreendente tendo em conta que o seu principal testa de ferro no Iraque, o Conselho Supremo Islâmico Iraquiano, apoio essencial do governo Maliki, domina o Estado iraquiano.”

“Não há guerra por procuração no Iraque”, conclui Rosen, “porque os Estados Unidos e o Irã partilham o mesmo testa de ferro”.

Podemos presumir que Teerã gosta de ver os Estados Unidos instalarem-se e apoiarem um governo iraquiano receptivo à sua influência. Para o povo iraquiano porém este governo constitui um verdadeiro desastre e vai provavelmente prejudicá-lo mais.

Em termos de relações externas, Steven Simon sublinha que a estratégia contra-insurrecional atual dos Estados Unidos “alimenta as três ameaças que pesam tradicionalmente na estabilidade dos Estados do Médio Oriente: o tribalismo, os senhores da guerra e o sectarismo.” Isto poderia desembocar no surgimento de um “Estado forte e centralizado, dirigido por uma junta militar que poderia assemelhar-se” ao regime de Saddam. Se Washington conseguir os seus fins, então as suas ações estão justificadas. Os atos de Vladimir Putin, quando conseguiu pacificar a Tchechênia de uma maneira bem mais convincente que o general David Petraeus no Iraque, suscitam contudo comentários de outra natureza. Mas isto são eles, nós somos os Estados Unidos. Os critérios são portanto totalmente diferentes.

Nos Estados Unidos, os Democratas são reduzidos ao silêncio pelo pretenso sucesso da ofensiva militar americana no Iraque. Mas o seu silêncio trai a ausência de oposição de princípio à guerra. Segundo a sua forma de ver o mundo, o fato de se alcançarem os fins justifica a guerra e a ocupação. Os apetitosos contratos petrolíferos são obtidos com a conquista do território.

De fato, a invasão no seu conjunto constitui um crime de guerra – crime internacional supremo, que difere dos outros crimes de guerra porque gera, segundo os próprios termos do julgamento de Nuremberg, todo o mal causado em seguida. Isto está entre os assuntos impossíveis de abordar na campanha presidencial ou em qualquer outro quadro. Porque estamos no Iraque? Qual é a nossa dívida para com os iraquianos por ter destruído o seu país? A maioria do povo americano deseja a retirada das tropas americanas do Iraque. A sua voz tem importância?

[1] Permafrost – tipo de solo das regiões árticas, permanentemente congelado.

[2] Ato pelo qual o Presidente dos Estados Unidos modifica o significado de um texto de lei.

“Carta Maior”

O que é que o Obama tem?

ELEIÇÕES Nascido no Havaí, de pai queniano, Obama ganhou a vaga democrata pela disputa à presidência dos EUA devido ao seu carisma e por ter se tornado queridinho de Wall Street

“Se sou negro de cor Meu irmão de minha cor O que te peço, é luta sim Luta mais.
Ouve minha voz Luta por nós Que a luta está no fim.
Cada negro que for Mais um negro virá Para lutar, com sangue ou não,
Com uma canção, Também se luta irmão Luta negra demais,
é lutar pela paz Luta negra demais, para sermos iguais”

(João Bosco e Wilson Simonal, “Tributo a Martin Luther King”)

Memélia Moreira

O SENADOR negro Barack Hussein Obama, representante do Estado de Illinois, nascido no Havaí, de pai queniano, jamais se alinhou a nenhuma das correntes dos movimentos negros do Estados Unidos.
Nesse ano e meio desde que começou a campanha das primárias (quando políticos do mesmo partido disputam a indicação para candidatura à presidência), nunca se referiu à negritude, a não ser quando provocado. Chegou inclusive a declarar ser “um senador disputando indicação e que, por acaso, é negro”. E mais, nem em sonhos, ouviu falar de Wilson Simonal e seu parceiro João Bosco na música “Tributo a Martin Luther King”, que convida os negros a conquistarem seu espaço além do céu africano. Chegaram lá. A partir de sábado, 7 de junho, Obama é o primeiro negro de um país “branco” a chegar à vizinhança do poder.
Desde o dia 2 de junho, quando, mesmo perdendo as primárias de Dakota do Sul, conquistou o número de delegados suficientes para ser indicado candidato pelo Partido Democrata às eleições do país mais poderoso do mundo, gravou para sempre seu nome não apenas na história dos negros estadunidenses, mas na própria história dos EUA. Ele se tornou, de fato, o candidato dos democratas. Chegou trazendo nas costas o peso de uma história de ódios e lutas que se arrasta há exatos quatro séculos.
Quando o Mayfl ower aqui chegou, em 1620, os escravos negros já viviam no país há 16 anos, trazidos nos navios negreiros dos maiores mercadores de escravos do mundo, os portugueses. Eles aportaram na colônia inglesa de Jamestown, localizada no Estado da Virgínia, então apenas uma colônia da Inglaterra. E esperaram mais 200 anos para que o tráfico fosse proibido pelo Congresso, em 1808, e mais 55 anos para que o presidente Abraham Lincoln assinasse a abolição da escravatura, que só foi reconhecida pelo Congresso dos Estados Unidos dois anos depois, em 1865.
Nesse meio tempo, os antigos escravos foram queimados vivos pela intolerância dos brancos agrupados em organizações paramilitares, tais como a Ku-Klux Klan, e negros que ousaram lutar por direitos iguais terminaram seus dias na cadeia ou foram sumariamente executados, a exemplo do que aconteceu com Martin Luther King e Malcolm X. Isso sem contar as manifestações racistas diárias, que vão desde o tratamento desigual nos processos judiciais até um explícito olhar de desaprovação, quando negros se sentam em restaurantes até há pouco tempo proibidos para quem não ostentasse uma pele cor de rosa.

Decisão arrastada
“Quero começar por parabenizar o senador Obama e seus partidários pela corrida extraordinária que venceram. O senador Obama inspirou muitos estadunidenses a se interessarem pela política, e incentivou muitos outros a se envolverem. E nosso partido e nossa democracia estão mais fortes e dinâmicos por sua causa.
Somos gratos por isso.” Quem ouviu as primeiras palavras desse discurso feito pela senadora Hillary Clinton acreditava que, naquele momento, ela renunciaria à campanha. Mas não. Derrotada desde janeiro, depois das prévias de Iowa (Estado do Centro- Oeste), quando se tornou claro para qualquer pessoa razoavelmente alfabetizada de que ela jamais atingiria o número suficiente de delegados que garantissem sua indicação para disputar a presidência, a ex-primeira dama dos Estados Unidos arrastou sua derrota por seis meses, até sábado, 7 de junho, quando se rendeu às evidências. Naquele dia, negros de todos os Estados Unidos, democratas ou republicanos, sentiram um sabor de vitória.
As manifestações foram discretas, mas um dia depois da renúncia de Hillary, domingo 8 de junho, uma conhecida casa de blues da cidade de Orlando, que aos domingos oferece brunch ao som de blues, jam session e gospel, todos os músicos de todas as bandas, antes do início de cada apresentação, levantaram o braço esquerdo com o punho fechado, na antiga saudação dos Panteras Negras. Nenhuma palavra sobre Obama. Nem precisava. As pesquisas falaram por eles: 92% dos negros dos Estados Unidos vão votar em Obama.

As vitórias de Obama
Para chegar a ser candidato, Barack Obama venceu uma verdadeira corrida de obstáculos, a começar dentro do próprio Partido Democrata. A máquina partidária vem sendo controlada pelos Clinton (Bill e Hillary) há mais de 20 anos. Tanto o expresidente quanto sua esposa concentravam poderes inclusive junto aos “superdelegados”, integrantes do partido detentores de mais de um voto. Por causa disso, a candidatura de Hillary era fato consumado e consagrado.
Em outras palavras, uma candidatura incontestável. Obama cometeu então sua primeira ousadia: lançou seu próprio nome para disputar as primárias. Os Clinton esboçaram um sorriso de sarcasmo.
Bill Clinton viu no gesto apenas uma teimosia infantil de um jovem senador negro (aos 46 anos, Barack Obama é um dos mais jovens candidatos à presidência dos Estados Unidos, concorrendo exatamente com um dos mais velhos que já se apresentaram nessa corrida, John McCain, de 71 anos). Foi a primeira vitória de Obama. O ex-presidente Clinton chegou mesmo a apostar que, depois de Carolina do Sul, Obama colecionaria derrotas.
Mas as vitórias e apoios começaram a pipocar da costa Leste à costa Oeste. Obama tornou-se incontrolável e passou a ser atacado pelo casal Clinton.
O primeiro ataque desferido referia-se à sua idade e “inexperiência”. Hillary se autoproclamava experiente, embora jamais tenha sido prefeita ou governadora, situação semelhante à de Obama. Mas depois do primeiro debate, ela não repetiu mais a crítica porque Obama, num momento de absoluta ironia, perguntou que experiência tinha sua concorrente, e se ela se julgava experiente, Michelle Obama, esposa de Barack, também tem experiência de senadora.
Hillary deu uma resposta reticente, mas não voltou ao tema, porque seria obrigada a dizer que governou junto com o marido. Resposta que não seria de todo irreal.
Depois disso, começaram as referências à cor. Quem desferiu o golpe foi Bill Clinton, ao dizer que o senador e pastor negro Jessie Jackson também vencera as prévias de Carolina do Sul, Estado majoritariamente negro. A declaração foi criticada pelo tom racista.
Obama superou a crise, inclusive calando os líderes religiosos que morderam a isca. Essa foi mais uma vitória de Obama.
Foi então que Flórida e Michigan fizeram suas prévias sem esperar decisão do partido. Os dois Estados seriam favoráveis à Hillary. Mas as prévias foram anuladas, com a aprovação de Hillary, e a corrida continuou. As primárias chegaram a Iowa. De sã consciência, a senadora tinha certeza de que já estava perdida e passou ao jogo de sedução.
Convidou Obama para ser vice. Era uma situação ridícula. Hillary tinha menos votos e queria submeter o concorrente à vice-presidência. A jogada não deu certo. A partir desse convite, os delegados democratas começaram a se afastar de Hillary.
O primeiro golpe veio de Al Gore, que foi vice-presidente de Bill Clinton. Sempre escanteado pelo “casal 20” do Partido Democrata, Al Gore, que perdeu as eleições de 2000 para George W. Bush e que agora, depois de se engatar no movimento ecológico desfruta de uma popularidade que jamais teve, declarou seu voto em favor de Obama. Aconteceu então o efeito cascata. Daqui e dali, os delegados começaram a anunciar seu voto. E essa foi a quarta vitória de Obama.

Anula, não anula
No final de maio, ainda resistindo ao nocaute, Hillary resolveu voltar atrás e bateu pé dentro do partido. Queria a contagem dos votos de Michigan e Flórida. Tinha absoluta certeza de que conseguiria então o número de delegados necessários para derrotar Obama. Mas aí a máquina do partido já estava se movimentando por conta própria e frustrou as expectativas da ex-primeira dama. Decidiu que seriam contados só a metade dos votos. E essa foi a vitória final de Obama dentro de seu partido.
Mesmo assim, Hillary insistia em permanecer na disputa, repetindo 24 horas por dia, em todos os canais de televisão, que ela sim tem a maioria do voto popular (o voto popular nos Estados Unidos é quase simbólico, porque quem define o resultado final das eleições são os delegados), com 18 milhões de eleitores. O discurso não colou e, além de ver o sonho de ser candidata se afastando cada vez mais, Hillary e Bill Clinton estavam acumulando dívidas de campanha. Não conseguiram convencer os grandes doadores. Essa foi mais outra vitória de Obama.

Queridinho
O que é que Obama tem? Negro, jovem inexperiente, com um programa de governo um tanto nebuloso, que fenômeno o transformou no personagem mais discutido da política estadunidense e mundial? A primeira palavra para explicar esse fenômeno é carisma. Um carisma que levou Caroline Kennedy, filha do presidente Kennedy, assassinado em 1963, a dizer: “apóio Obama porque ele traz de volta a esperança representada por meu pai. Ele nos faz lembrar de meu pai”. Esperança é a outra palavra que explica o fenômeno. Num país cuja economia dá sinais irreversíveis de erosão, envolvido em duas guerras perdidas (Iraque e Afeganistão), que vê o preço da gasolina ter aumento de 100% em oito meses (em setembro, o galão custava 2,29 dólares e agora está por 4,02 dólares), que assiste perplexo a alta dos alimentos, quer ouvir, nem que seja para sonhar, alguém falando da esperança de dias melhores. E essa é a palavra de Obama.
Talvez por isso, ele tenha se tornado o queridinho de Wall Street. Os aplicadores da Bolsa de Valores de Nova York, inclusive o megaespeculador George Soros, estão apostando em Barack Obama, que também já recebeu doação dos 19 mais importantes executivos do Silicon Valley, onde se concentra grande parte do PIB dos Estados Unidos.
Nesses 16 meses de campanha das primárias, Wall Street remeteu 7,9 milhões de dólares para a campanha de Obama. McCain, até agora, só conseguiu 4,1 milhões do setor financeiro.
De acordo com a lei, a doação máxima que cada pessoa pode fazer é de 2.300 dólares. Mas esse probelema foi superado. Os grandes investidores não se inibem em usar laranjas para contribuir. E essas doações têm sido feitas por meio da internet, a maior arma de propaganda de Obama. Não se tem notícia de que Wall Street esteja rasgando nota de 100 dólares, ou atirando as “verdinhas” pela janela. Pelo menos, não em público. Isso signfica que o mundo financeiro acredita na vitória de Obama.

Vitória final
A corrida de obstáculos chegou ao fim. Ainda faltam alguns acertos para Obama se considerar vitorioso dentro do Partido Democrata. O principal desses acertos é afastar qualquer possibilidade de Hillary entrar na chapa como candidata a vice. E essa será das mais árduas tarefas a se enfrentar.
Depois vem o grande momento, dia 4 de novembro, dia das eleições. Obama só tem mais cinco meses para conquistar o eleitorado. Mc- Cain já está em campanha há mais de dois meses.
E foi na segunda-feira, 9 de junho que, finalmente, Barack Obama pôde começar sua campanha para a Casa Branca. E começou exatamente num reduto republicano, Carolina do Norte, onde há mais de 30 anos os democratas não vencem as eleições. Colorado, Nevada e Virgínia vêm em seguida. No Colorado, ele vai enfrentar um barulhento “fogo amigo”, quando partidários de Hillary Clinton pometem fazer manifestação de repúdio a Obama (12% dos democratas não votam em Obama e sequer o perdoam por ter entrado na disputa contra Hillary).
Daí em diante, Obama segue para os Estados onde se concentram os latinos, um eleitorado francamente favorável aos republicanos e que não esconde sua total aversão aos negros. Seu grande desafio é a Flórida. Os latinos do Novo México já começam se deixar conquistar, mas mesmo assim, Obama pretende passar mais de uma vez por lá.
Caso consiga sucesso nessa empreitada, Obama pode ser eleito presidente. Segundo um republicano convicto, “os Estados Unidos já está preparado para ter um presidente negro”. Bom, mas isso só as urnas podem responder. Caso seja eleito, o senador Barack Hussein Obama, representante do Estado de Illinois, nascido no Havaí, de pai queniano, só pode se considerar virorioso caso cumpra integralmente seu mandato, sem que uma bala com endereço interrompa sua trajetória, fato bastante comum na história dos Estados Unidos.
Esse é o país que mais conviveu com assassinatos de presidentes carismáticos, entre eles, Abraham Lincoln, com quem Obama gosta de se identifi car, e John Kennedy, com quem as pessoas gostam de identificar Obama.

“Brasil De Fato”

Pela via da Justiça

Articuladora da criação de cátedra voltada a estudar o direito à educação, professora da USP ressalta que o Supremo Tribunal Federal tem sido, na prática, um indutor de políticas públicas

Revista Educação

Desde o início de 2008, o programa de pós-graduação em Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo abriga a primeira cátedra Unesco de Direito à Educação no mundo. Resultado da interlocução de estudiosos de vários países especializados na análise das relações entre legislação e práticas educacionais, a nova cátedra é coordenada pela professora Nina Ranieri, do Departamento de Direito de Estado da USP e secretária adjunta de Ensino Superior do Estado de São Paulo. Na entrevista a seguir, concedida ao editor Rubem Barros, ela fala sobre o que a análise das decisões da Justiça revela acerca das tendências da educação brasileira posteriores à Constituição Federal de 1988 e sobre como o Supremo Tribunal Federal e o Ministério Público têm se tornado promotores de políticas públicas.

Quais serão os principais eixos do curso de Direito à Educação?
O principal eixo é o estudo da jurisprudência e da legislação, tendo em vista entender em que medida o direito é um instrumento de promoção e garantia do direito à educação. A pesquisa da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF) é importante porque é através dele que a legislação começa a ser aplicada de forma mais incisiva. A despeito de toda melhoria, da universalização do acesso, o Supremo vem desenvolvendo um papel muito recente de determinar políticas públicas na área da educação. Os municípios são obrigados a utilizar os seus orçamentos em benefício da educação, deixando de realizar outras coisas. Houve uma decisão do STF determinando que os municípios revejam seus orçamentos. Aí o direito começa a cumprir o seu papel. Ele tem, por meio do Supremo, se mostrado efetivo. Agora, as emendas do Fundeb e do Fundef são muito efetivas. Os resultados são animadores, embora ainda haja muito o que fazer.

Qual é o interesse da Unesco?
A Unesco considera que a legislação brasileira pode ser copiada por muitos dos países em desenvolvimento. E por razões muito objetivas: o modelo federativo de organização dos sistemas, que reparte competências, obrigações, incumbências; a vinculação dos recursos na Constituição. São normas a serem copiadas pelos países em desenvolvimento africanos, asiáticos. O diretor da Educação Básica da Unesco é advogado e atua na elaboração de projetos de lei de educação para países em desenvolvimento. E a legislação brasileira é paradigma. Isso justifica a criação da cátedra. Quer dizer, ter um grupo de pesquisadores dedicados a avaliar a eficiência dessa legislação na promoção do direito à educação é um tema diretamente relacionado à missão da Unesco.

Qual o perfil dos alunos que se inscreveram nesta cátedra em sua primeira turma?
A cátedra iniciou suas atividades no 1º semestre de 2008. Tivemos cerca de 20 alunos inscritos no programa, a maioria oriunda da educação. Alunos com graduação em pedagogia, ou que trabalham no setor privado da educação são cerca de 70% do total. Os alunos do direito estão começando a descobrir essa vertente.

Temos uma tradição de legislar em excesso, de editar leis como se sua simples criação resolvesse os problemas existentes. A legislação relativa à educação corrobora essa cultura?
Inteiramente. A LDB 9394/96, por exemplo, é uma lei inovadora, modernizadora, que rompe com uma série de vezos da legislação educacional brasileira. Por exemplo, no âmbito do ensino superior, acaba com a obrigatoriedade de as universidades se organizarem a partir de departamentos, acaba com o currículo mínimo, avança no sentido de que o diploma não confere certificação profissional, que a profissionalização será verificada por outros órgãos. Enfim, começa a haver uma mudança. O que acontece: o Ministério da Educação, o Conselho Nacional da Educação, os conselhos estaduais e o próprio presidente da República por meio de decretos promovem uma abundância normativa que tira o eixo da legislação. São iniciativas reativas, não planificadoras. Aconteceu logo que a LDB foi editada com relação ao ensino privado, quando o MEC perdeu o eixo e editava decreto atrás de decreto, vários deles inconstitucionais, pretendendo ir além da lei. Aí se cria uma situação perversa, em que, por via do próprio direito, se anula aquilo que a legislação procurava fazer. Outro problema é o número de vezes que a LDB foi alterada para incluir matérias no currículo mínimo. A última alteração foi a inclusão da sociologia e da filosofia. Não sou contra, faz muito bem haver essas disciplinas na formação dos jovens, mas…

É contra o espírito da lei?
A LDB estabelece um padrão de diretrizes, um currículo mais adaptado às condições regionais, e aí começa a haver alterações para colocar disciplinas. O que sobra para o regional, para a própria escola decidir? O espírito da LDB, nesse ponto, foi negado.

Quais são os grandes desafios para tornar a legislação educacional brasileira mais justa e efetiva?
Em primeiro lugar, racionalizá-la, pois é um verdadeiro cipoal, especialmente no sistema federal. O sistema estadual de São Paulo, que é o que conheço, é um pouco mais organizado. Mas o sistema federal, especialmente na área do ensino superior, é muito complexo do ponto de vista legislativo, por causa dessa multiplicidade das fontes, de possibilidades de interpretações em função de diversos pareceres, portarias, decretos etc.

A senhora está de acordo com a reivindicação de que se institua um sistema nacional de educação?
Esse é um outro problema. O que a constituição e a LDB prevêem é que os sistemas devem funcionar todos em harmonia. Por que temos muitos sistemas? Porque o país é federativo e a organização do ensino acompanha a organização política – ou seja, municípios, estados, Distrito Federal e União são entes federados, cada um com suas competências, encargos e rendas. Os sistemas de ensino acompanham essa lógica. Cada um deles, embaixo do guarda-chuva da LDB, vai regulamentar suas especificidades, atender as peculiaridades locais, regionais. Quando a Constituição fala que esses sistemas devem funcionar de forma harmônica e complementar, é uma visão de educação brasileira, nacional, que se supõe nos leve a avançar. A idéia do sistema nacional, até onde sei, se volta mais à questão da formação dos professores. O que se está procurando é criar uma formação mais uniforme. Não seria um sistema nacional único que anularia os outros. Vamos ver o que resulta disso. Toda a iniciativa voltada a melhorar a formação de professores, com capacidade de lidar com os problemas locais, regionais, nacionais, que tenha uma visão de Brasil e de mundo adequada ao início do século 21 etc., tudo isso é bem-vindo.

Como o Supremo Tribunal Federal tem acompanhado a educação ao longo do tempo?
É curioso notar isso. Como a natureza das ações que chegam lá vai mudando, e como o Supremo cada vez mais vai tomando decisões para interferir na política pública. O que é um outro tema: até que ponto o Judiciário pode determinar a execução de políticas públicas.

E isso acontece a partir de quando?
Dos anos 2000. Acentuadamente, de 2005 para cá. Criamos na cátedra bancos de jurisprudência e classificamos por tema. Nos anos 90 o grande tema foi mensalidade escolar. Houve a questão da fixação das mensalidades, uma lei federal, e uma enxurrada de ações tentando obter a declaração de inconstitucionalidade da lei – e ninguém obteve. Depois, com o Fundef, as ações que chegam ao Supremo já não dizem mais respeito ao ensino fundamental, que está contemplado dentro daquela lógica de distribuição de recursos em função da matrícula. Quando o Fundef começa a fazer efeito, percebe-se que começam a entrar ações pedindo a universalização da educação infantil, da pré-escola, que hoje é o grande tema no Supremo. E [as ações] sempre [chegam] pelo Ministério Público. Em Santo André, por exemplo, há inúmeras ações no Supremo, propostas pelo MP, exigindo a universalização da educação infantil. Imagino que, com o Fundeb, veremos um outro ciclo de ações chegando ao Supremo.

Quais as grandes diferenças em termos de espírito da lei, quando se comparam as leis de Diretrizes e Bases de 1961 e de 1996?
A lei de 1961 foi feita sob os influxos da Constituição de 1946 e antes de 1964. Isso já traz uma grande diferença. Um exemplo foi o veto para a explicitação do que significa a autonomia universitária. No projeto original da lei de 1961, havia uma descrição para autonomia didática, uma para autonomia administrativa, e isso foi vetado, pois se entendia que isso não deveria estar descrito na lei, porque poderia ser uma limitação da própria autonomia. O espírito era inovador, modernizador frente a uma situação que vinha de 1930, com o estatuto das universidades brasileiras, com a Reforma Francisco Campos [ministro da Educação entre 1930 e 1932], que era muito controlador e centralizador. Ocorre que essa legislação de 1961 sofre inúmeras modificações depois de 1964. Com relação ao ensino superior [houve] a Lei 5.540 de 1968; no secundário, houve legislações que modificaram muita coisa, houve uma enorme restrição às liberdades de expressão, de associação e manifestação. Esta LDB [a atual] é a antítese de tudo isso que significava a restrição da liberdade acadêmica, de manifestação. Esse é um lado. O outro grande eixo é o da auto-organização das escolas, que se observa na Educação Básica e no Ensino Superior: a possibilidade de as escolas se organizarem da forma que melhor atenda a necessidade de seus alunos. A outra grande mudança é a participação da sociedade civil nas associações, nos conselhos. No que diz respeito aos conteúdos, a mesma coisa: a eliminação do currículo mínimo, a idéia de diretrizes.

Se todo mundo hoje fosse requerer os direitos previstos pela Constituição Federal e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, o Estado brasileiro daria conta de atendê-los?
Acho que sim. Há uma magnitude de recursos expressiva para a educação. É uma questão de racionalização. Não dá para pensarmos o aumento populacional e a demanda por educação com a legislação dos anos 1950 e 1960, nem dos 1980. É preciso que haja uma modernização das estruturas, da legislação. E aí o direito tem um papel importante, que é o de acompanhar a evolução, e não de tentar estabelecer camisas-de-força e padrões. Acredito que o Estado brasileiro tenha condições de atender, e se não tiver vai ter de arrumar. Não dá para imaginar que possamos voltar à situação do início do século 20, quando países como Argentina e Uruguai já tinham praticamente toda população na escola, e nós não. Vamos ter de correr atrás. E o que se observa na jurisprudência do Supremo é que isso está sendo buscado. Esse é o grande ponto. Não discuto se esse é o papel do Judiciário ou não, vejo o Judiciário como um grande indutor de políticas públicas, tanto quanto o Ministério Público. Se voltarmos à Constituição, quais são os objetivos da República? Construir uma sociedade justa, livre e solidária, reduzir as desigualdades regionais, promover o bem etc. Como se faz isso sem educação? Como pode haver um “Estado democrático de direito” se as pessoas não puderem pensar a respeito da sociedade em que vivem?

“Revista Educação”

Boom na indústria automobilística da Rússia oferece riscos e recompensas

Christine Tierney

Quando o presidente executivo da Renault SA e os donos da fabricante de automóveis russa OAO AvtoVAZ firmaram uma parceria de US$ 1 bilhão em 29 de fevereiro, os sorrisos e apertos de mão calorosos evocaram uma cena parecida que acontecera há alguns anos.

Em 2001, o CEO da General Motors Corp. Rick Wagoner e uma outra chefia da AvtoVAZ também embarcaram num projeto para fabricar veículos juntos com grandes esperanças. À GM caberia fornecer tecnologia moderna para a maior fabricante de carros da Rússia. Em troca, ela ganharia rápido acesso aos consumidores de um país gigante que estava acordando para o capitalismo.

Apesar de o empreendimento ter sido considerado um acordo de visão pelos projetistas de automóveis das duas superpotências, ele não atingiu as altas expectativas de ambas.

Quando chegou a hora de fazer uma parceria equânime madura, a AvtoVAZ procurou a Renault. A GM agora está negociando com a segunda maior fabricante russa, GAZ, depois de um relacionamento conturbado com a AvtoVAZ que mostrou os riscos de se fazer negócios na Rússia. Além dos altos e baixos dramáticos e da tediosa burocracia característica das economias emergentes, a corrupção é norma, e o governo russo intervém com uma mão de ferro nos setores de energia, mídia, automobilístico e outros que considera cruciais para o país.

Mesmo apesar dos desafios, os fabricantes internacionais e as indústrias russas estão ansiosos para estabelecer relações mais estreitas. Para os russos, que estão lutando pelo mercado doméstico, isso é uma questão de sobrevivência. Eles precisam de parceiros que os ajudem a atualizar a tecnologia de seus veículos e de seus métodos de produção.

Os fabricantes internacionais são atraídos pela capacidade de produção russa que não é utilizada e pelas conexões políticas locais das indústrias do país. “Ao ajudar a Lada (marca da AvtoVAZ), a Renault-Nissan está ajudando a si própria e sua presença no país”, disse o presidente da Renault e Nissan Motor Co., Ghosn, em uma entrevista.

Para os fabricantes internacionais, o rendimento em potencial justifica os riscos. “A Rússia não é mais um mercado cheio de gente pobre que só consegue comprar carros simples e baratos”, diz Stanley Root, sócio da PricewaterhouseCoopers Rússia. “É um país cheio de gente que pode bancar carros muito bons.”

Regada pelo dinheiro do petróleo, a Rússia está no caminho de se tornar o principal mercado de automóveis nos próximos dois ou três anos. Seus rendimentos são garantidos por reservas gigantes de gás, óleo e minerais, e seus novos consumidores mostram uma preferência por marcas estrangeiras – no que diz respeito a bebidas, roupas e principalmente carros.

Nos últimos cinco anos, a fatia de mercado dos fabricantes de automóveis russos encolheu de 80% para 32%, enquanto as vendas de carros estrangeiros ultrapassou a demanda por Ladas, Volgas e outros modelos domésticos. “Em termos de concorrência, as coisas estão ficando mais difíceis”, diz Leonid Dolgov, chefe da divisão de carros da GAZ.

AvtoVAZ

Com sede em Togliatti, vende principalmente carros da marca Lada.
Fundada em 1966, com a ajuda da Fiat SpA.

Começou a produção de veículos em 1970.

As vendas em 2007, incluindo exportações, totalizaram 770 mil veículos.
É a principal fabricante russa, com uma fatia de 25,8% do mercado doméstico.

Seu modelo Lada Samara foi o carro mais vendido na Rússia em 2007.

Grupo GAZ

Sediado em Nizhny Novgorod, o GAZ Group foi estabelecido em 2005 com a reestruturação das unidades de produção da RusPromAuto.

É o produtor número 1 de veículos comerciais leves, vans e mini-ônibus da Rússia, sob as marcas Gazelle, Maxus, Sobol e outras.

A GAZ também fabrica os carros Volga; ela lançou recentemente o Siber, baseado em uma plataforma Chrysler.

A fatia de mercado de veículos leves da GAZ é de 6,8%.

Ela tem 18 fábricas na Rússia assim como a fábrica de vans LDV em Birmingham, na Inglaterra.

O bilionário russo Oleg Deripaska, dono da GAZ, comprou uma parte do fornecedor canadense Magna International Inc. no ano passado. Com a ajuda da Magna, a GAZ acabou de lançar o Siber, um sedã baseado na plataforma do Sebring, que comprou da Chrysler LLC.

A GAZ também está negociando com a GM, cuja parceria com a AvtoVAZ está com o futuro incerto depois que esta última procurou uma aliança com a Renault-Nissan.

“Não temos algo que possamos anunciar como um novo projeto para eles, mas estamos abertos para explorar as possibilidades juntos”, disse o presidente da GM Frederick Henderson.

“É preciso ter um parceiro na Rússia? Não”, disse ele. “Mas em muitos casos, faz sentido ter um.

“Se estamos interessados em ter mais capacidade de produção na Rússia? Sim.”

Intervenção
No que diz respeito ao seu relacionamento com a AvtoVAZ, a GM parece satisfeita com a performance do empreendimento de US$ 340 milhões. É um negócio lucrativo e não gerou nenhum débito, dizem os executivos da GM. Mas do ponto de vista dos russos, o empreendimento ficou emperrado em áreas muito restritas e não forneceu o tipo de transferência tecnológica que queriam.

A parceria produziu apenas dois modelos, ambos sob a marca Chevrolet: um Niva SUV de design russo, e um sedã Viva construído a partir de uma plataforma da fabricante alemã Opel, da GM, no final dos anos 90. A produção na fábrica da parceria, em Togliatti, uma cidade industrial à margem do rio Volga, entrega cerca de 50 a 55 mil veículos por ano, bem abaixo de sua capacidade. As propostas para outros projetos, como de uma fábrica de motores conjunta ou a montagem de carros mais caros, não se materializaram.

De acordo com as pessoas envolvidas com a parceria, a GM suspeita que os fornecedores afiliados à AvtoVAZ estejam superfaturando seus preços, enquanto os gerentes da AvtoVAZ reclamam que o empreendimento não estava produzindo os carros modernos que eles queriam.

Quando as vendas de automóveis começaram a decolar na Rússia, a Ford Motor Co. Teve mais sucesso com a última geração do Focus compacto, de design europeu, que ela estava montando em São Petersburgo. Ele foi o modelo estrangeiro mais vendido na Rússia desde 2003.

A GM e a AvtoVAZ se desentenderam até dezembro de 2005, quando as coisas deram uma estranha virada: os executivos de uma exportadora de armas estatal russa comandada por um ex-colega do então presidente Vladimir Putin na KGB, baixaram na fábrica de Togliatti da AvtoVAZ com 300 policiais federais e tomaram o controle administrativo. Os executivos da AvtoVAZ ficaram tão perplexos quanto seus parceiros da GM e não sabiam explicar o que estava acontecendo.

Mas esse tipo de tática rude era comum na Rússia, um país que havia passado do comunismo para o caos em direção a uma nova ordem, não democrática, nas duas últimas décadas. Quando quem está no poder quer reestruturar as indústrias, podem confiscar propriedades e prender executivos.

Especialistas com experiência na Rússia assumiram que o Kremlin havia perdido a paciência com os esforços de modernização da AvtoVAZ e efetivamente renacionalizou a companhia colocando seus próprios funcionários para trabalhar.

“Quando o governo decidiu exercer controle sobre a AvtoVAZ, deixou claro para todos os envolvidos que é assim que eles fazem as coisas”, disse Root, funcionário antigo da companhia. “Se você vive aqui, o que eles fizeram é bastante lógico e sensato.”

Depois que a poeira baixou, os gerentes da GM se descobriram tendo de encarar parceiros novos e abertamente hostis. O conflito emergiu dois meses depois, em fevereiro de 2006, quando a produção na fábrica conjunta parou por dez dias enquanto as chefias da GM e da AvtoVAZ discutiam sobre o pagamento dos fornecedores russos.

Naquele verão, depois que Moscou nomeou diretores mais conciliadores para o quadro da companhia, os parceiros aparentemente resolveram suas diferenças.

Mas o estrago havia sido profundo. A AvtoVAZ já estava negociando com a Renault. Os russos se aproximaram da Renault em setembro de 2005, antes da reviravolta na administração, lembra-se Jacques Veronck, vice-presidente de planejamento estratégico da Renault. “Disseram para nós que as coisas iam mudar na AvtoVAZ. Perguntaram se estávamos interessados.”

Duas mãos no volante
Os executivos da Renault sentiram-se confiantes em levar o negócio adiante. Eles já tinham uma parceria de sucesso na Rússia, a Avtoframos, com a cidade de Moscou. E estavam familiarizados com os problemas das indústrias pós-comunistas, depois de comprar a companhia romena Dacia em 1999.

Mas Ghosn queria a bênção de Putin antes de firmar qualquer compromisso. Em junho de 2006, durante uma visita à Rússia para assinar os acordos de construção de uma fábrica da Nissa, Ghosn encontrou com o presidente russo em São Petersburgo.

No ano passado, quando fontes do governo disseram que haveria um leilão para escolher um investidor para a AvtoVAZ, alguns executivos da Renault acharam que haviam perdido a negociação. A Magna, parcialmente comandada por Deripaska, e a italiana Fiat SpA, que ajudou a estabelecer a AvtoVAZ nos anos 60, pareciam os principais concorrentes.

Não havia dúvidas de que a AvtoVAZ estava iniciando uma reformulação. Putin transmitiu seu desprazer com a produção da companhia durante uma visita à fábrica de Togliatti em maio passado. Os jornais publicaram fotos de Putin com um ar duro ao examinar a porta de um carro Lada.

Depois de analisar as ofertas, incluindo uma da GM, a empresa estatal Rostekhnologia anunciou em dezembro seus planos de vender 25% mais uma parte da AvtoVAZ para a Renault e de reduzir sua própria participação para a mesma quantia, estabelecendo o controle conjunto da companhia.

A vitória da Renault foi vista como um triunfo para Ghosn, que ainda amargurava a recusa da GM por uma parceria com a Renault-Nissan em 2006. Mas uma fonte ligada ao empreendimento GM-AvtoVAZ disse que a decisão de não levar a parceria adiante foi provavelmente mútua. O lance da GM era baixo.

Os executivos da Renault tinham suas próprias reservas. A corrupção em Togliatti é tão arraigada que a Renault disse que só iria adiante se a polícia eliminasse as quadrilhas locais que traficam carros roubados e peças de veículos.

Em fevereiro, as autoridades reforçaram a segurança para os expatriados franceses de Togliatti depois que um gerente de compras da AvtoVAZ foi encontrado morto no prédio em que morava.

A situação na AvtoVAZ lembrou aos executivos da Renault os problemas que enfrentaram na Romênia, mas por outro lado estavam se aproximando da fabricante russa da mesma forma que haviam feito com a Nissan – como uma parceira. Em 1999, Ghosn designou alguns auxiliares de confiança para áreas chave da companhia para promover uma virada na fabricante japonesa. Mas também contou com o apoio dos antigos gerentes, e fez com que todos se concentrassem em desenvolver mais carros e modelos melhores.

Sob os termos do acordo com a AvtoVAZ, os executivos da Renault ficarão encarregados do planejamento de produtos, compras e recursos humanos, enquanto os executivos da AvtoVAZ cuidarão da parte de engenharia.

O diretor executivo, Boris Alyoshin, é da AvtoVAZ, e o diretor de operações Yann Vincente vem da Renault, “e todas as decisões têm de ser aprovadas por ambos”, diz Verdonck, que foi um dos negociadores do acordo. “Dessa forma, a nova AvtoVAZ é administrada por uma parceria.”

Começar de novo
Na celebração da assinatura do acordo em Moscou, o diretor da Rostekhnologia Sergei Chemezov sugeriu que a relação da Renault com a Nissan pode ter estabelecido o equilíbrio.

“A Renault não engoliu a Nissan mas em vez disso ajudou a desenvolver a marca da companhia”, disse Chemezov, aliado próximo de Putin desde os anos 80, quando ambos eram oficiais da inteligência na Alemanha Oriental.

“Nosso principal objetivo”, diz ele, “é ter um automóvel de qualidade e competitivo.”

A princípio desenvolvidos com a ajuda da Fiat, os carros Lada da AvtoVAZ ainda são os mais vendidos na Rússia, na proporção de um Lada para cada quatro veículos comprados. Mas eles não estão acompanhando o avanço das marcas estrangeiras.

Paul Newton, um analista que trabalha na companhia Global Insight, na Inglaterra, alertou numa reportagem recente sobre a AvtoVAZ que a concorrência vai se intensificar. “As companhias chinesas são uma ameaça em particular, já que estão atacando a Lada no que diz respeito ao preço, o ponto forte da fabricante russa de carros baratos”, escreveu.

As mudanças no controle da AvtoVAZ não afetarão o empreendimento com a GM, disseram executivos da Renault e da AvtoVAZ.

Mas a GM está fazendo várias apostas na Rússia, um mercado que considera essencial. A fabricante norte-americana oferece kits de montagem para uma firma russa em Kaliningrado, importa veículos de fábricas em países vizinhos de baixo custo, e está construindo sua própria fábrica de montagem em São Petersburgo. A fábrica inicialmente vai produzir SUVs Chevrolet Captiva. No ano que vem, ela colocará nas ruas o novo sedã compacto mundial da GM.

De acordo com a imprensa européia, a GAZ e a GM estão discutindo uma possível troca de capacidade de produção na Rússia para uma plataforma conjunta. Henderson não divulgou detalhes sobre as negociações, mas disse: “Respeitamos muito essa organização.”

O dono da GAZ Deripaska também é acionista da GM, com uma fatia abaixo dos 5% que exigem a abertura de informações.

Dolgov disse que a GAZ estava em negociação com várias companhias. “Precisamos de parcerias para dividir a produção”, disse.

Com a produção anual de 250 mil carros e veículos comerciais leves, investir em novos motores e plataformas é algo caro e que consome muito tempo para a GAZ. “Para nós, o principal critério é o tempo para a venda. Temos de ser rápidos”, diz Dolgov. Com os novos concorrentes se empilhando, o tempo é um bem que está em falta na Rússia.

“The NYT News Service”

Rússia é o mercado de automóveis mais quente do mundo

Fabricantes de automóveis estrangeiros lucram com a explosão da demanda de carros novos na Rússia

Christine Tierney

A nova fábrica ainda não concluída da General Motors Corp. nos arredores lamacentos de São Petersburgo não produzirá seu primeiro veículo até novembro, mas os novos contratados russos já estão trabalhando duro.

Num depósito próximo à entrada da fábrica, homens e mulheres jovens fazem furos em contêineres de madeira do tamanho de carros, pintam as peças com spray e soldam folhas de metal dentro do tempo esperado para realizar cada tarefa. Quando a produção começar, espera-se que eles sejam rápidos o suficiente.

Do outro lado da rua, a Toyota Motor Corp. Já está produzindo Camrys em uma nova fábrica para suprir a demanda por carros na Rússia, enquanto a Ford Motor Co. considera construir sua segunda fábrica no país.

“O mercado cresceu numa velocidade muito mais rápida do que imaginamos”, disse o presidente da GM, Frederick Henderson. “Estamos vendo todos os nossos competidores internacionais dando duro na Rússia.”

Em todo o arredor de São Petersburgo, os maiores fabricantes de veículos do mundo estão construindo suas fábricas. Hyundai Motor Co. começará a construir uma no mês que vem, a Nissan Motor Co. espera abrir uma fábrica de US$ 200 milhões no ano que vem, e a Ford está expandindo sua fábrica de US$ 230 milhões pela terceira vez em seis anos.

Impulsionada por uma alta nos preços do petróleo, a Rússia se transformou no mais quente entre os mais quentes mercados emergentes do mundo – países em que os fabricantes de automóveis capazes de fornecer os modelos apropriados ganham muito dinheiro, principalmente nos estágios iniciais do boom quando a demanda supera em muito a oferta.

Durante os últimos cinco anos, as vendas de carros triplicaram. Em 2010, muitos prevêem que a Rússia irá ultrapassar a Alemanha e se tornar o maior mercado de automóveis da Europa, com vendas superiores a 4 milhões de veículos.

“Não há sinais de que isso vá desacelerar”, diz Carlos Ghosn, CEO da Renault SA e Nissan. A demanda por petróleo e outros materiais brutos dos quais a Rússia tem vastas reservas não deve diminuir, diz ele.

Conforme os preços do petróleo subiam a níveis recordes, a economia da Rússia decolou. Seu produto interno bruto quadruplicou desde 2000. O país que antes apoiava a igualdade econômica, agora conta com o segundo maior número de bilionários, liderados pelo magnata da indústria metalúrgica e automobilística Oleg Deripaska. Nas largas avenidas de Moscou e São Petersburgo, lojas cintilantes de Yves Saint Laurent e Gucci substituíram as cinzentas lojas soviéticas com suas prateleiras vazias.

Enquanto a China e outras economias emergentes estão evoluindo rápido, a velocidade da transformação russa pegou as pessoas de surpresa. “Sabíamos que o poder aquisitivo havia aumentado e que o desejo dos consumidores era começar a comprar os produtos que o resto do mundo estava comprando”, diz Lewis Booth, presidente da Ford da Europa.

“O que é único na Rússia é que com o boom das commodities, a economia se fortaleceu muito rápido. Isso foi algo que não previmos quando começamos a investir na Rússia.”

Para fabricantes como Ford, GM, Toyota e Nissan, que estão lutando para aumentar as vendas em seus saturados mercados domésticos, as economias emergentes representam grandes oportunidades numa época de desafios.

Na Rússia, muitos novos compradores passeiam pelas concessionárias. Enquanto nos Estados Unidos há cerca de 800 veículos para cada mil habitantes, na Rússia a proporção é de 190 veículos para cada mil pessoas.

Diferente dos compradores de outras Brics – sigla para os mercados emergentes de Brasil, Rússia, Índia e China – os russos preferem os carros grandes que geram lucros maiores para os fabricantes.

“É um país grande com muitas estradas boas e as pessoas são grandes, então o mercado tem preferências muito parecidas com o mercado americano”, diz Shinichi Sasaki, diretor administrativo sênior da Toyota que já trabalhou na Europa.

“Vender carros (estrangeiros) era ilegal”
Os fabricantes de automóveis internacionais têm sido os principais beneficiados com o aumento da demanda que começou há cinco anos e acelerou com o crescimento nos salários e com a disponibilidade de crédito bancário. As marcas estrangeiras somam 64% dos 2,6 milhões de carros e veículos leves vendidos na Rússia no ano passado, muito acima dos 22% em 2003.

“Há vinte anos, vender carros era ilegal”, diz Chris Lacey, diretor executivo de vendas da GM no leste e centro da Europa. “Havia apenas companhias de automóveis estatais.”

Muitas dessas companhias foram privatizadas nos anos 90 depois do colapso do sistema comunista. Deripaska hoje é dono da segundo maior fábrica de automóveis russa, a GAZ. Mas as fábricas russas são inferiores em qualidade e tecnologia, e estão perdendo consumidores para as marcas internacionais.

Num dia ameno de março, o empreiteiro Sergey Erofeev estava inclinado a comprar um Hummer H3 que custava a partir de US$ 50 mil na concessionária Laura Ozerki em São Petersburgo.

“É confortável, silencioso e, por causa da taxa de câmbio baixa, não será caro de mantê-lo”, disse Erofeev, 40. Ele fez test-drive de vários SUVs e também gostou do Toyota Prado, mas disse que o seguro é mais caro porque é um carro que tem mais possibilidades de ser roubado.

A GM oferece uma variedade de modelos na Rússia, das marcas Hummer, Cadillac, Opel, Saab e Chevrolet. No ano passado, a Chevrolet tornou-se a marca estrangeira mais vendida na Rússia, passando a Ford, que foi atingida por uma greve em sua fábrica no outono passado.

Os executivos da GM esperam expandir sua fatia de mercado com os modelos montados pela fábrica de Shushary. Ela inicialmente vai produzir as SUVs Chevrolet Captiva, e no ano que vem lançará um novo carro baseado na arquitetura de carros compactos da GM.

“O mercado russo é atraente para nós, não somente em termos do crescimento dos ganhos, mas também em termos de potencial de lucro”, diz Henderson.

Além disso, a Rússia serve como um mercado de teste para os fabricantes de veículos consagrados que pela primeira vez estão competindo de frente contra os fabricantes chineses como a Chery Automobile em um mercado grande fora da China.

Por enquanto, os chineses não representam uma grande ameaça. Os negociantes russos e executivos da indústria automobilística criticam a qualidade e a segurança dos veículos chineses, ressaltando a performance desastrosa de alguns modelos chineses nos testes de acidentes europeus.

No que diz respeito às características de segurança, se os clientes não perguntam, “nós não nos dispusemos a explicar nada”, diz o revendedor da Chery Evgeny Voytenkov.

Mas, diz ele, os chineses estão melhorando rapidamente. A Chery agora compete com os Lada, com alguns veículos Chevrolet de design coreano e com os modelos Logan de baixo custo da Renault. “Mas no ano que vem ou no próximo eles já estarão abocanhando marcas melhores”, diz Voytenkov.

“Hoje temos um Chery Tiggo adaptado de tração nas quatro rodas que parece um RAV4″ fabricado pela Toyota.

Nesse mercado extremamente competitivo, as marcas mais vulneráveis são as russas, Lada da Avto VAZ, Volga da GAZ e uma série de fabricantes menores.

“As marcas russas não se beneficiaram com a evolução tecnológica dos últimos 15-20 anos na indústria automobilística”, diz Stanley Root, sócio da PricewaterhouseCoopers Rússia em Moscou. “Seus carros não são tecnologicamente avançados. Esse é um dos problemas.”

Acuados entre os grandes e endinheirados fabricantes internacionais e os agressivos fabricantes chineses, a AvtoVAZ e a GAZ estão buscando parcerias para ajudá-las a sobreviver.

Para os russos, orgulhosos de suas façanhas no campo da pesquisa espacial e das armas no passado, a confiança na fabricação automotiva estrangeira parece desestimulante.

No ano passado, quando repórteres canadenses perguntaram ao dono da GAZ Deripaska, 40, sobre seu investimento no fornecedor Magna International Inc., de Toronto, ele lembrou as repórteres sobre a habilidade russa.

“Ele disse: ‘Por favor, não se esqueçam que a Rússia foi o primeiro país a lançar um homem ao espaço, não o segundo’”, disse Leonid Dolgov, líder da divisão de carros da GAZ. “Esse é o espírito de nossa companhia.”

Rivalidade global ataca localmente
A concorrência vai se intensificar na Rússia conforme novas fábricas produzem mais veículos localmente para evitar as tarifas de importação.

A Suzuki Motor Corp. planeja construir uma fábrica próxima as da GM e Toyota nos arredores de São Petersburgo.

Esta semana, a japonesa Mitsubishi Motors Corp. E a PSA Peugeot Citroën da França disseram que irão produzir veículos em parceria na Rússia. A Chrystler LLC está explorando possibilidades de produção local para aumentar suas vendas até agora pouco consideráveis na Rússia.

Em 2010, os fabricantes estrangeiros terão capacidade de produzir 1 milhão de veículos na Rússia, de acordo com a consultoria Roland Berger Strategy Consultants.

Bancos de investimento já estão lançando alertas de saturação, mas os riscos parecem distantes para os executivos que correm para deixar as novas fábricas em pé e funcionando.

Além de São Petersburgo, há três outros grandes centros automotivos na Rússia: nos arredores de Moscou, onde a Volkswagen AG recentemente abriu uma fábrica e a Renault produz os veículos Logan, e mais ao leste em Tatarstan e em Toglitatti. Uma cidade industrial à margem do rio Volga, Togliatti é a terra natal da maior fabricante de automóveis russa, a Avto VAZ.

Mas muitos fabricantes estrangeiros são atraídos por São Petersburgo, uma cidade grande construída no século 18 pelo czar Pedro, o Grande. Seus principais atrativos são as rotas de transporte – um porto no mar Báltico e ferrovias – além da política favorável aos negócios de Valentina Matviyenko, governadora de São Petersburgo escolhida pelo ex-presidente e hoje primeiro-ministro Vladimir Putin.

“Se você tem problemas que precisa resolver, há uma organização no governo de São Petersburgo que o ajuda com esses problemas, sejam eles relativos às estradas, logística ou serviços”, diz Rick Swando, diretor da fábrica da GM em Shushary.

A cidade tem um setor aeroespacial grande, institutos técnicos de ponta e uma mão-de-obra bem qualificada.

“Vejo muitos talentos aqui”, diz Swando, veterano da GM que já trabalhou na China e outros mercados em desenvolvimento. “As pessoas estão prontas para crescer, e os problemas são resolvidos muito rapidamente. Você não ouve muitas queixas e reclamações.”

Se em sua terra natal a GM e a Ford são vistas como dois gigantes em batalha forçados a recuar, os russos vêem as duas companhias como fortes líderes mundiais.

Em um centro de recrutamento de trabalhadores na Ilha de Vasilievsky em São Petersburgo, Victor Smirnov, 30, está se candidatando para trabalhar na GM de Shushary. Casado e com dois filhos, ele quer um apartamento maior e um emprego estável. “Entre os empregadores, a GM parece ser o mais atrativo”, disse, traduzido por um intérprete.

Os salários são bons, e, além disso, “companhias instáveis não abrem fábricas em lugares tão remotos quanto a Rússia”, diz Smirnov. “Quero um emprego estável.”

Depois de um século de dificuldades e privação, muitos russos são gratos pela estabilidade e o crescimento que aconteceram durante o governo de Putin, com a ajuda do aumento nos preços do petróleo.

Mas a Rússia também se tornou mais autoritária, com um governo disposto a empregar táticas rudes para intimidar seus críticos e dissidentes.

Alguns economistas se preocupam com a dependência russa dos produtos primários, a velocidade da diversificação econômica e a distância cada vez maior entre pobres e ricos. Mas essas preocupações não impediram o fluxo de investimento na Rússia.

“Sempre existe a preocupação em relação à estabilidade do crescimento econômico. Sempre nos preocupamos com isso”, diz Booth. “Todos os paísses têm seus desafios.”

A natureza conflituosa do capitalismo russo se reflete no comércio vibrante de limusines super luxuosas – e veículos blindados, como o modelo de sedã ultra-seguro série 7 da BMW.

“Quem dirige esse carro”, disse em março o ex-chefe de vendas da BMW Stefan Krause, “está protegido até de um míssil.”

Em Shushary, os gerentes da GM estão lutando com um tipo de ameaça diferente: o terreno da fábrica, que é vizinho de uma floresta de bétulas, está infestado de cobras venenosas. Agora eles têm um estoque de soro na fábrica, mas não há muito mais que se possa fazer, diz Swando. “É a casa delas também.”

A fábrica está aos poucos tomando forma: os engenheiros estão instalando equipamentos de montagem e oficinas, enquanto a área de pintura está quase completa.

A fábrica vai inicialmente produzir 70 mil veículos por ano, mas a GM deixou espaços grandes para fazer mais linhas de montagem. Quando seus altos executivos viram o projeto da fábrica, diz Swando, “disseram: vamos planejar para a curva de crescimento”. Agora, ela está quase na vertical.

“The NYT News Service”

Tucanos envolvidos em corrupção

DENÚNCIA Propina paga pela Alstom para vencer licitações do Metrô de São Paulo pode ser apenas a “ponta do iceberg”

Eduardo Sales de Lima

AS ADMINISTRAÇÕES tucanas no governo de São Paulo – principalmente na gestão de Geraldo Alckmin – são acusadas de envolvimento em mais um caso de corrupção no país. A principal suspeita é que a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) teria recebido propina da Alstom – empresa francesa, especializada em transportes e energia – para fechar contratos. Mas o Tribunal de Contas do Estado (TCE) investiga também outros contratos irregulares do governo paulista com a Alstom, assinados entre 1991 e 2002.
A transnacional francesa está sendo investigada desde 2004 na Suíça e na França por suspeita de pagar propina para obter contratos em países da Ásia e da América do Sul, entre eles o Brasil. Em São Paulo, ela teria pago 6,8 milhões de dólares em propina para vencer um contrato de 45 milhões de dólares (equivalente a R$ 74 milhões) voltado à venda de equipamentos para a ampliação do Metrô. O ano e as pessoas envolvidas nesse “negócio” ainda não foram divulgados.
De acordo com o jornal estadunidense Wall Street Journal, do dia 6, a lista de investigados inclui um brasileiro que se dizia intermediário de um político e que ofereceu apoio para o negócio com o Metrô paulista em troca de uma comissão de 7,5%.
Para o líder do Partido dos Trabalhadores (PT) na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), Roberto Felício, não haveria nenhuma razão para o governo manter uma relação desse tipo se a empresa já estava sob suspeita há tanto tempo. Segundo ele, as relações promíscuas entre as gestões tucanas de Mário Covas, Geraldo Alckmin e José Serra com a Alstom iriam resultar nesse escândalo. “A coisa escapou do controle. Eles escondiam as coisas aqui, mas tem um processo internacional que trouxe à tona”, argumenta.
Outra suspeita é de que as companhias subcontratadas pela Alstom seriam as responsáveis pela lavagem de dinheiro do contrato para o pagamento do suborno. E, com a deflagração do escândalo, segundo o deputado estadual Simão Pedro (PT-SP), todos os contratos da Alstom com o Metrô estão sob suspeita. “Eles podem ter sido realizados de forma ilegal, inclusive, o da Linha Amarela”, questiona. Em 2003, a Alstom venceu concorrência para projetar e fornecer a infraestrutura eletromecânica para essa via.
Para o deputado petista, o atual governador José Serra não pensará duas vezes em acusar seus antecessores – como ocorreu em janeiro deste ano, quando alguns trens apresentaram problemas devido à falta de manutenção – alegando que governa o Estado de São Paulo somente a partir do ano de 2007.
Simão Pedro acrescenta que, no que se refere à linha 4 do Metrô (Amarela), “ele não mexeu uma vírgula nos contratos que o Alckmin tinha negociado com o consórcio Via-Amarela, que inclusive a Alstom está dentro, porque interessava manter a relação com as empreiteiras e manter o contrato do jeito que foi feito”.

Prejuízo público
A quantia de contratos irregulares, entretanto, não ficou “apenas” nos R$ 74 milhões, mas alcançaria os R$ 556 milhões, segundo dados do TCE. A Agência Estado, com levantamento da Secretaria dos Transportes Metropolitanos, informou que, de 1992 até 2005, mais as prorrogações de contrato realizadas em 2007, o Metrô firmou cinco contratos com a Alstom, somando mais de R$ 5,7 bilhões.
A prorrogação mais recente é de maio de 2007, destinada à compra de 16 trens. Essa é referente a uma licitação de 1992, vencida pela então Mafersa, adquirida pela Alstom em 1997. Na época, a remuneração a ser recebida pela transnacional era de R$ 324 milhões. No entanto, segundo dados levantados pelo jornal Folha de S.Paulo, se essa compra fosse incluída em uma licitação e o governo importasse os trens diretamente, seriam pagos 14% a menos de impostos. Em nota, o Metrô afirma que economizou cerca de R$ 100 milhões ao restaurar um contrato de 1992 para comprar os trens em 2007. Porém, segundo o TCE, esse contrato gerou um prejuízo ao Metrô estimado em R$ 70 milhões.
“Se se prorroga um contrato de prestação de serviços pelo bem do tesouro, nós poderíamos dizer que não foi uma operação incorreta. Agora, fica evidenciado nesse caso que a prorrogação vem sendo feita há vários anos. Ela foi prorrogada nos governos Alckmin, Covas e Serra”, afirma Roberto Felício. De acordo com o líder do PT na Alesp, o tempo máximo que se pode prorrogar um contrato é de cinco anos, por isso o “preceito legal foi burlado”.

Vítima
A Alstom aponta que as acusações em torno de seus contratos no Brasil têm caráter “político”, e tenta se colocar como vítima diante da Justiça suíça para ter acesso aos documentos da investigação. O Ministério Público Estadual, no entanto, por meio do promotor Sílvio Antônio Marques, pediu ao governo estadual cópia dos contratos assinados com o governo paulista e aguarda remessa de documentos do Ministério da Justiça da Suíça. O Ministério Público Federal também investiga o caso.
O governo francês, que possui ações da Alstom, já estuda a fusão da empresa junto à fabricante de plantas nucleares Areva. Essa manobra vem sendo vista pela Justiça suíça como uma tentativa de criar obstáculos para a apuração do caso. Mas, Sílvio Marques disse ao Brasil de Fato, que isso não vai interferir na averiguação dos documentos. “De qualquer forma, isso não influiem nada na investigação”, atesta. Segundo ele, não existe previsão para o término da apuração, pois isso vai depender bastante do conteúdo dos documentos que chegarão da Europa.

Quanto 3 milhões de passageiros diariamente. É uma empresa pública responsável pela operação e expansão do transporte metroviário na Região Metropolitana.

“Brasil De Fato”

O destino da União Européia está nas mãos da Irlanda

Na quinta-feira (12/6), os eleitores irlandeses irão às urnas para aprovar -ou rejeitar- o Tratado de Lisboa. Um “não” colocaria UE em mais uma crise; as pesquisas mostram que os críticos do tratado estão dominando a situação

Hans-Jürgen Schlamp

Gramados meticulosos diante de minúsculas casas, carros japoneses na calçada, crianças jogando futebol com tênis Nike: Avondale Lane é um paraíso de classe média na cidade irlandesa de Waterford, no Sul.

Há 15 anos, as casas aqui eram menores, os carros mais raros e as crianças mais sujas, lembra-se o membro da Câmara David Cullinane, 31. Ele está vestindo uma camiseta com o nome “Waterford-Alliance”, de um grupo que se opõe ao Tratado de Lisboa da União Européia. Toda noite ele e outros vão de porta em porta com algumas palavras amigas e pilhas de panfletos coloridos. Os argumentos variam, mas a mensagem é sempre a mesma: diga não ao Tratado de Lisboa.

“Certamente vou votar não”, promete a moradora decidida no número 89, uma mulher de 30 e poucos anos de camiseta sem manga e tatuagens pretas no braço e no peito. Afinal, diz ela, ninguém se deu o trabalho de explicar a ela para que serve o tratado.

Cullinane está ali para preencher o vazio. É um tratado ruim, argumenta, porque diminui a influência da Irlanda na Europa, ameaça a neutralidade do país, promove a energia nuclear e os militares, corta salários e mina os direitos dos trabalhadores. “Pode contar comigo”, grita a mulher enquanto Cullinane se dirige para a próxima casa.

Uma decisão vital
A próxima vizinha segura com suas pernas uma criança e um cachorro dentro de casa, enquanto Cullinane faz seu discurso. Ela ainda está indecisa, diz, mas gostaria de dar uma olhada nos panfletos. As próximas poucas portas não se abrem. Depois, um senhor confuso pergunta que tipo de mudanças um voto “sim” ou “não” traria ao hospital municipal, já que sempre tem que esperar muito para ser atendido.

Nesta quinta-feira, 3 milhões de irlandeses lançarão seus votos sobre o Tratado de Lisboa -uma decisão vital que afetará o futuro imediato da Europa. Os eleitores irlandeses podem abrir o caminho para um acordo europeu que tornaria as decisões da UE mais democráticas e transparentes e daria maior influência aos parlamentos nacionais.

O QUE O TRATADO DE LISBOA DARIA À EUROPA

A introdução de um novo presidente do Conselho Europeu, a ser eleito por um mandato de 2 anos e seis meses. Até agora, a presidência foi revezada entre os países membros a cada seis meses.
A introdução de um Alto Representante de Segurança e Relações Exteriores da UE. O cargo representaria a UE em questões de política externa.

Mais decisões feitas pelo Conselho Europeu seriam decididas com base na maioria qualificada, apesar das decisões importantes ainda terem que ser unânimes.

A Comissão Européia seria reduzida de tamanho, de seus atuais 27 membros para apenas 18 no futuro. Os cargos seriam revezados entre países membros.

O Parlamento Europeu receberia maiores poderes legislativos do que teve até agora.

Se os irlandeses votarem “não”, o processo de reforma da UE seria efetivamente bloqueado. O Tratado de Lisboa -um substituto da Constituição anterior, rejeitada em 2005 por um referendo na França e na Holanda- deve ser aprovada por todos os 27 Estados membros da UE. Nos outros 26, os parlamentos nacionais farão a decisão. Quinze deles, inclusive Alemanha, já aprovaram o documento.

Somente na Irlanda os cidadãos terão voz -e o destino do continente subitamente ficou nas mãos deles.

No centro nervoso da UE em Bruxelas, assim como em muitas outras capitais européias, a incerteza reina. O que fazer se os irlandeses recusarem o tratado? Excluí-los da União Européia? Fazê-los votar novamente até vencer o “sim”? Jogar fora o novo tratado inteiramente?

Não há plano B para tal possibilidade, diz o presidente da Comissão Européia, José Manuel Barroso. De fato, o “não” irlandês seria “um desastre para Europa”, concluiu um recente estudo da fundação Bertelsmann.

O crítico do tratado David Cullinane refuta essa opinião sombria. Em vez disso, diz ele, tal resultado na quinta-feira de fato seria uma bênção. Ele também quer o melhor para a Europa, mas melhor significa uma Europa sem essa “Constituição neoliberal”, uma UE que existe “mais para as pessoas e menos para as grandes empresas”, diz ele.

Ponto de reunião dos críticos
Cullinane é ativista do Sinn Fein, pequeno partido visto como braço político do Exército Republicano Irlandês durante os longos anos de guerra civil na Irlanda do Norte. Hoje, o Sinn Fein é um ponto de reunião dos críticos.

Esses nacionalistas têm a companhia de alguns membros da igreja ultra-conservadora, que temem a possibilidade do aborto, atualmente proibido na Irlanda, ser legalizado. E de fazendeiros de gado temerosos que a UE permita maior importação de carne. E até de um multimilionário carismático que está usando cartazes para fazer campanha pelo “não”: o tratado, diz ele, é “bom para os que estão no alto, ruim para nós”.

Apesar da oposição ao tratado, porém, a maioria dos irlandeses de fato vê a União Européia com bons olhos. Sua ilha que foi pobre se tornou rica, parcialmente graças aos bilhões de euros transferidos de Bruxelas. A renda per capita irlandesa superou a média da UE há alguns anos e está ainda mais alta do que no Reino Unido e na Alemanha. Todos os grandes partidos políticos estão trabalhando por um “sim”. Até recentemente, as pesquisas tinham um só lado: há pouco tempo 41% eram a favor e 33% contra.

Mas, na última sexta-feira, começou o pânico. O “Irish Times” publicou uma pesquisa mostrando que os números contra aumentaram para 35% e os a favor caíram para 30%.

Muitos eleitores ainda estão hesitando -e estão sendo fortemente seduzidos pelos dois lados. Milhares de cartazes a favor enfeitam as ruas com lemas como “Bom para a Irlanda -Bom para a Europa”. O futuro, promete o grupo do “sim”, é cheio de emprego, crescimento e segurança.

Entretanto, ao lado dessas mensagens, a oposição prevê a privatização da saúde e da educação e maiores impostos. Os irlandeses também são lembrados de como seus ancestrais deram suas vidas na luta pela liberdade -liberdade que não deve ser sacrificada pela fome de poder de Bruxelas.

Temores do estabelecimento político
Os irlandeses já chocaram a Europa uma vez. Em 2001, a Irlanda surpreendeu o continente quando rejeitou o Tratado de Nice que, como o de Lisboa, era um acordo que tinha como alvo reformar os procedimentos decisórios da UE. Na época, as pesquisas antes do referendo também mostraram uma clara tendência ao “sim”. A explicação do fracasso foi simples: menos de 35% dos eleitores compareceram às urnas porque os proponentes do tratado não foram. Seus críticos, por outro lado, tinham se mobilizado.

Um ano depois, a Irlanda voltou às urnas, desta vez em números suficientemente maiores, e aceitou o tratado. Mas uma segunda votação provavelmente não funcionaria desta vez. Além disso, o Tratado de Lisboa é uma versão modificada da Constituição que foi rejeitada na França e na Holanda em 2005. Se o texto for novamente revisado, todo o delicado processo de ratificação terá que ser reiniciado -em todos os 27 países da UE.

Assim, os ministros irlandeses estão fazendo aparições incansáveis na televisão e em shoppings. Também houve uma ajuda proeminente do continente europeu: a chanceler alemã Angela Merkel falou bem do tratado em Dublin como “o melhor preparativo para o futuro da Europa”, e o presidente Barroso da Comissão Européia advertiu que a Europa -inclusive a Irlanda -pagarão o preço se o tratado for rejeitado.

A confusão até cobrou um preço do ex-primeiro-ministro da Irlanda, Bertie Ahern. Sem o referendo, ele provavelmente poderia ter esperado as investigações dos pagamentos dúbios que aceitou quando ministro das finanças nos anos 90. Na atual situação, entretanto, os políticos temiam que os eleitores expressassem sua frustração com seu líder votando no “não” na quinta-feira. Ahern foi forçado a renunciar e substituído por seu vice, Brian Cowen.

Há apenas uma área na qual os que são a favor da Constituição da UE fracassaram tão completamente quanto seus oponentes: ninguém conseguiu deixar claro para o povo irlandês o que é exatamente o documento controverso. Na melhor das hipóteses, 250 dos 4,2 milhões de cidadãos leram o texto completo, estima o Comissário Europeu da Irlanda Charlie McCreevy. Ele mesmo leu apenas um sumário.

“Der Spiegel”

Iniciativas para a proteção do clima

O comprometimento com o estímulo a novas tecnologias é essencial para evitar um desastroso aquecimento global

Jeffrey Sachs

A política de tecnologia está no centro do desafio da mudança do clima. Mesmo com cortes nos desperdícios de gastos com energia, nossas tecnologias atuais não podem atender ao mesmo tempo a um declínio nas emissões de dióxido de carbono e uma economia global em expansão. Se tentarmos restringir as emissões sem um conjunto de tecnologias fundamentalmente novas acabaremos sufocando o crescimento econômico, incluindo as perspectivas de desenvolvimento de bilhões de pessoas.

Economistas falam muitas vezes como se o estabelecimento de um preço para as emissões de carbono – via permissões negociáveis ou um imposto sobre o carbono – fosse suficiente para cumprir as reduções necessárias dessas emissões. Isso não é verdade. O sistema europeu de créditos de carbono não mostrou muita capacidade de gerar pesquisas de larga escala nem de desenvolver, demonstrar e instalar tecnologias revolucionárias. Um sistema de créditos pode influenciar marginalmente as escolhas entre usinas de carvão e gás ou provocar um pouco mais de adoção de energia solar ou eólica, mas não levará a uma revisão necessária e fundamental dos sistemas de energia.

Para isso precisamos de muito mais que um preço para o carbono. Considere três tecnologias de baixa emissão potencialmente transformadoras: seqüestro e estocagem de carbono (CCS, na sigla em inglês), automóveis híbridos recarregáveis e geração concentrada de energia solar-térmica. Cada uma delas necessita de uma combinação de fatores para funcionar: mais pesquisa científi ca aplicada, importantes mudanças regulatórias, infra-estrutura apropriada, aceitação pública e investimentos iniciais de alto custo.

CCS, por exemplo, depende da capacidade de capturar dióxido de carbono na usina a custo baixo, transportá-lo por dutos a distâncias significativas e estocá-lo em segurança no subsolo, de maneira confiável e duradoura. Todos esses componentes estão próximos de ser utilizados, mas todos enfrentam desafi os importantes. A captura de carbono é mais promissora para novos tipos de usina de carvão, cujo custo e confi abilidade têm ainda de ser provados. Uma vasta nova rede de dutos requereria um grande apoio regulatório e político, com obstáculos ambientais e de direitos de propriedade. O seqüestro geológico de dióxido de carbono em grandes escalas tem também de ser provado, cuidadosamente monitorado e ambientalmente regulado. Os primeiros projetos demonstrativos provavelmente serão muitas vezes mais custosos que os posteriores. A ampla aceitação e o apoio públicos serão cruciais para a tecnologia. Mas até hoje o governo americano não conseguiu ativar uma única usina de demonstração CCS, e diversas iniciativas privadas estão atualmente encalhadas, todas por falta de apoio público e financiamento.

Automóveis híbridos recarregáveis significam quebra-cabeças semelhantes. Permanecem questões básicas sobre a segurança, confiabilidade e durabilidade das baterias que eles requerem, assim como os investimentos extras na matriz energética para apoiá-los. A energia solar-térmica, que utiliza radiação solar concentrada em lugares desertos para ferver a água para turbinas a vapor geradoras de eletricidade, também depende da solução de diversos problemas. Os desafi os políticos incluem o pesadelo da armazenagem de energia e obstáculos regulatórios e financeiros, incluindo a instalação de novos sistemas de transmissão de alta voltagem e corrente contínua para levar a energia a longas distâncias, do deserto a outros locais.

As questões tornam-se ainda mais complexas quando consideramos que as tecnologias de baixa emissão desenvolvidas no mundo rico precisarão ser adaptadas rapidamente em países pobres. A proteção de patentes, que serve para promover a inovação, pode retardar a difusão dessas tecnologias para países de baixa renda, a menos que se adotem medidas compensatórias.

Toda essa inovação tecnológica precisa começar logo, se quisermos ter uma chance de estabilizar as emissões de carbono em um nível que evite custos globais potencialmente devastadores. Até 2010, no máximo, o mundo tem de romper barreiras com usinaspiloto de carvão CCS na China, Índia, Europa e Estados Unidos. As nações ricas devem ajudar a financiar e construir usinas solartérmicas em estados fronteiriços ao Saara, e híbridos recarregáveis altamente subsidiados têm de estar saindo da linha de montagem. Apenas esses passos nos permitirão perscrutar mais longe o caminho da verdadeira mudança transformadora.

Jeffrey Sachs é diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia (www.earth.columbia.edu).

“Scientific American Brasil”

O Google é uma empresa do setor de mídia?

Miguel Helft

Digite “buttermilk pancakes” (panquecas de leite de manteiga) no Google, e entre os primeiros três ou quatro resultados da busca você terá um link para uma detalhada receita completa com a foto de uma esplêndida pilha de panquecas de um site chamado Knol, que pertence ao Google.

Para o Google, o Knol é visto como o lugar onde os especialistas poderão compartilhar seu conhecimento em uma grande variedade de tópicos. Espera montar uma espécie de enciclopédia online a partir das contribuições de dezenas de indivíduos. Mas enquanto a Wikipedia é editada coletivamente e sem anúncios, os contribuintes do Knol assinam seus artigos e têm controle de edição sobre o conteúdo. Podem escolher se vão colocar anúncios, vendidos pelo Google, em suas páginas.

Embora o Knol tenha apenas três semanas de idade e ainda seja relativamente desconhecido, já reacendeu os temores entre algumas companhias de mídia de que o Google está a cada dia crescendo mais como um concorrente. Eles prevêem que o Google se tornará um poderoso rival, que não só possui um número cada vez maior de propriedades de conteúdo -incluindo o YouTube, o principal site de vídeos online, e o Blogger, o mais importante serviço para blogueiros – assim como também possui as chaves para direcionar os usuários pela Internet.

“Se de fato uma empresa de propriedade do Google está tirando dinheiro dos associados do Google, então esse é um problema real,” disse Wenda Harris Millard, co-principal executiva da Martha Stewart Living Omnimedia.

Dinheiro, é claro, é o que está em questão. Se um site está classificado nos últimos lugares em resultados de busca, menor é a quantidade de tráfego que recebe dos serviços de busca. Com um público menor, o site ganha menos dinheiro com publicidade.
Embora a receita de panquecas de Martha Stewart apareça abaixo da receita do Knol na classificação do Google, Millard não acredita que o Google favoreça injustamente as páginas do Knol. Mas ela afirma que o duplo papel do Google, como serviço de busca e site de conteúdo levanta uma questão de percepção. “A dúvida na mente das pessoas é saber o quanto o Google se manterá isento, enquanto cresce e cresce mais,” disse Millard.

O Google sempre disse que jamais comprometerá a objetividade de seus resultados de busca. E diz que trata as paginas do Knol como quaisquer outras páginas da Web. “Quando há páginas do Knol em boas colocações, estão lá porque conquistaram essa posição,” disse Gabriel Stricker, porta-voz do Google.

Existem poucas evidências de que o Knol tenha recebido tratamento favorecido. Muitas das páginas do Knol que vêem em boa colocação no Google recebem a mesma no Yahoo. (As panquecas do Knol? Número 4 na busca do Yahoo.)

O Google há muito insiste em afirmar que não tem planos de possuir ou criar conteúdo, e que é um amigo, não um adversário das empresas do setor de mídia. O serviço de busca do Google leva um número enorme de usuários até a soleira das portas de milhares de empresas do setor de mídia, muitas das quais também dependem do Google para colocar anúncios nos seus sites. “Nossa visão continua sendo a de que precisamos ser o melhor canal condutor possível para fazer a conexão entre o que quer que seja que as pessoas estão procurando e a resposta, seja qual for,” disse Stricker. “Por essa razão, não estamos interessados em possuir ou criar conteúdo”.

O Knol é apenas uma ferramenta para que outros criem e publiquem informações e uma vez que eles o fazem, afirma Stricker, “nossa tarefa, que é a de organizar essa informação, entra em ação.” O Google não possui direitos autorais sobre o conteúdo do Knol e o site não levará o logotipo do Google, ele acrescentou.

O Knol não é a primeira incursão do Google como host de conteúdo. A empresa possui há muito tempo o Blogger, um dos mais populares serviços de blogs. Está digitalizando milhões de livros, que torna disponíveis por meio de seu serviço de busca. Possui os arquivos da Usenet, uma popular coleção de fóruns de debates online que antecede a Web. O Google também apresenta algumas notícias da The Associated Press no Google News, e publica informações sobre o mercado de ações por intermédio do Google Finance. E é claro, o Google possui o YouTube, um dos maiores sites de mídia da Internet.

Os críticos dizem que cada nova iniciativa do Google nessa área traz dúvidas maiores quanto às alegações da empresa de que não é uma empresa do setor de mídia.

“O Google pode dizer que não está no setor de conteúdo, mas está pagando às pessoas e distribuindo e arquivando seu trabalho, está ficando cada vez mais difícil defender esse conceito,” disse Jason Calacanis, principal executivo do Mahalo, um serviço de buscas que depende de editores para criar páginas sobre vários assuntos. “Eles estão competindo por talentos, por anúncios e por usuários,” com sites de conteúdo, afirma.

O Knol tem sido chamado de um potencial concorrente para a Wikipédia e outros sites cujo conteúdo abrange uma ampla variedade de tópicos, incluindo o Mahalo e o About.com, pertencente ao The New York Times, que usa especialistas chamados de “guias” para escrever artigos sobre uma variedade de tópicos.

Indagado se o Knol representa uma ameaça para o About.com, Martin A. Nisenholtz, vice-presidente sênior de operações digitais na The New York Times Co. afirmou que “o About.com está em uma posição muito boa no mercado.” O Knol também pode competir com muitos sites da Internet que se especializam em temas, tais como o WebMD em informação médica ou os sites de informação geral sobre como fazer, faça-você-mesmo ou informações sobre culinária e outros sites institucionais que estão proliferando online.

Algumas das empresas de mídia online negam estar preocupadas quanto à perspectiva de competir com o Knol. “Partindo do princípio de que o Google trata o Knol exatamente como trata outros sites da Internet, trata-se de mais uma empresa produzindo conteúdo,” acredita Richard Rosenblatt, principal executivo da Demand Media, uma empresa online em fase de rápido crescimento que possui sites de conteúdo do tipo “como fazer”, tais como o eHow e ExpertVillage.

Rosenblatt, que foi principal executivo da Intermix Media, a controladora do MySpace quando este foi vendido para a News Corp. disse que se o Knol se tornar um destino popular na Internet, ele vai analisar a possibilidade de colocar conteúdo dos sites da Demand Media nele. A empresa, como muitas outras no setor de mídia, coloca muitos de seus vídeos no YouTube.

“Temos uma imensa quantidade de tráfego no YouTube,” disse Rosenblatt. “Ele não canibalizou o ExpertVillage”.
Outras empresas de mídia, como a WebMD, já começaram a colocar seu conteúdo no Knol. “Nós participamos do Google Knol como um teste, como fizemos com outras ofertas semelhantes,” disse a porta-voz da WebMD, Jennifer Newman, em uma mensagem de e-mail. “Estamos avaliando sua eficiência em novas percepções de construção de marca para o WebMD.”
Millard, a executiva da Martha Stewart, disse que pensou na possibilidade de colocar seu conteúdo no Knol, mas acabou sendo contra isso. “Estaremos persistindo em desenvolver os negócios deles se fizermos isso, em vez de desenvolver os nossos.”

“The New York Times”

Dilemas da pesquisa com humanos

A discussão em torno de uma declaração do tempo da guerra mostra como direito à saúde e justiça social marcham juntos

Debora Diniz

O fim da 2.ª Guerra Mundial foi um divisor de águas para o tema da ética na pesquisa com seres humanos. O Julgamento de Nuremberg aproximou a pesquisa médica dos crimes de guerra: pela primeira vez, médicos foram julgados por crimes contra a humanidade. Os experimentos abusivos realizados nos campos de concentração lançaram um alerta à comunidade científica sobre os novos desafios éticos da pesquisa biomédica. Era preciso aproximar a ética da ciência para recuperar a confiança na pesquisa com seres humanos. Em 1964, a Associação Médica Mundial propôs a Declaração de Helsinque, um documento com menos de 2 mil palavras, mas que se tornou a referência internacional sobre ética em pesquisa.

A proposta inicial da Declaração de Helsinque era a de oferecer fundamentos éticos para a pesquisa médica com seres humanos. Seria um documento proposto por médicos e para médicos. No entanto, a força simbólica do documento cresceu para além das fronteiras da medicina. A Declaração de Helsinque, bem como suas proposições sobre consentimento e proteção dos sujeitos de pesquisa, tornaram-se referência mundial para qualquer pesquisa científica com seres humanos. Mesmo não tendo força legal, ela fundamenta as normas e regulamentações sobre ética em pesquisa. Assim aconteceu no Brasil, com a Resolução 196/1996, do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta a pesquisa com seres humanos.

A primeira geração de documentos internacionais de regulação ética surgiu nos anos 1960 e 1970. O objetivo era responder aos escândalos de pesquisa com graves abusos aos participantes. Mas, em 20 anos, houve um deslocamento do debate ético: o tema saiu das trincheiras da guerra para os centros de pesquisa de universidades e laboratórios privados. Se o Código de Nuremberg enfrentou os crimes nazistas, o Relatório Belmont respondeu aos equívocos do Estudo Tuskegee sobre sífilis nos Estados Unidos, em que centenas de homens ficaram sem tratamento. Essa mudança de perspectiva sobre quem seria o alvo das regulamentações éticas é ainda mais delicada nos últimos anos: de resoluções de médicos para médicos, as regulamentações internacionais de ética em pesquisa são, agora, textos de sociedades científicas e movimentos sociais para garantir valores universais, em particular os direitos humanos.

A epidemia do HIV/aids foi desafiadora para essa mudança de perspectiva, pois acompanhou a consolidação do debate sobre ética em pesquisa nos anos 1990. Em 1986, cinco após o registro do primeiro caso de aids, um estudo controlado por placebo demonstrou a efetividade do AZT, uma droga que havia sido utilizada sem sucesso em estudos clínicos para o câncer. Houve uma imensa pressão dos movimentos sociais para ampliar o número de participantes nos ensaios clínicos para avaliar a eficácia da droga (no tratamento da aids) e para acelerar a aprovação do medicamento pelos sistemas nacionais de regulamentação sanitária. Vários cientistas sentiram-se pressionados como nunca antes ocorrera na história da medicina. A garantia de que os movimentos sociais teriam assento em sistemas nacionais e internacionais de revisão ética na pesquisa foi resultado dessa fase histórica.

A agenda de pesquisa e financiamento passou a ser compartilhada entre agências de financiamento, pesquisadores e representantes de movimentos sociais. Quase todos os países que desenvolvem pesquisa biomédica possuem sistemas de regulação da ética em pesquisa. Uma característica desses sistemas nacionais é sua diversidade quanto ao funcionamento e à temática. Estudo recente analisou 85 modelos nacionais de revisão da ética em pesquisa e encontrou alguns pontos em comum que remetem aos documentos internacionais, em particular à Declaração de Helsinque. Entre os temas presentes em quase todos os modelos analisados estão a existência de comitês independentes de revisão dos projetos e a necessidade de garantir os interesses e direitos dos participantes da pesquisa. E é exatamente o tema dos direitos dos participantes um dos pontos atuais em disputa sobre a Declaração de Helsinque.

A próxima reunião da Associação Médica Mundial, na Coréia do Sul, enfrentará pressões para a revisão do documento. Alguns temas se mantêm em discussão há quase uma década, como a garantia de acesso aos resultados por parte dos participantes de uma pesquisa. Até os anos 1990, a referência para a análise ética dos projetos era uma matriz conseqüencialista de cálculo entre riscos e benefícios, em que o esforço ético era por informar e proteger os participantes de abuso e exploração. Houve um aperfeiçoamento do paradigma: neste momento, o desafio é sobre como garantir o justo acesso aos resultados das pesquisas após o término do estudo. Essa guinada de um modelo de proteção para um modelo de proteção justa desencadeou novos desafios à regulação ética da pesquisa. Algumas perguntas ainda estão à espera de respostas. Quem deve garantir o acesso aos resultados às comunidades envolvidas nas pesquisas: o Estado, os pesquisadores, as agências de financiamento ou os laboratórios? Por quanto tempo os participantes de uma pesquisa devem ter garantido o acesso aos resultados de um estudo?

Não há respostas simples para esse novo paradigma ético. O modelo da proteção justa exigirá uma reorganização de estruturas globais da prática científica, em particular de relações desiguais entre países patrocinadores da pesquisa e países em desenvolvimento, onde grande parte dos estudos é conduzida. O debate não deve ser entendido como uma questão de interesse exclusivo de cientistas. A complexidade e seriedade do tema são provocadas por uma combinação inusitada de personagens em disputa – grandes corporações de patentes, laboratórios privados, universidades públicas, pesquisadores, movimentos sociais e pessoas em risco de morte à espera de novos tratamentos. A história da aids nos mostrou quanto essa é uma questão de justiça social e de direito à saúde, e não mais um tema de médicos para médicos.

*Debora Diniz, antropóloga, é professora da UnB e pesquisadora da ANIS – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero

“Estado de S. Paulo”

Guerra Fria – 60 anos: uma breve história

Da Redação da Der Spiegel

A Guerra Fria deixou o planeta à beira do apocalipse nuclear. No centro do palco estava Berlim, a cidade alemã dividida que foi cenário do Airlift (ponte aérea) de 1948 e da queda do Muro em 1989. A “Spiegel Online” reuniu uma cronologia dos eventos-chave da Guerra Fria.

1945: Os Aliados acertam em Potsdam as condições fundamentais para a ocupação da Alemanha. Bombas nucleares americanas destroem Hiroshima e Nagasaki.

1947: A Doutrina Truman: Os Estados Unidos oferecem assistência a países ameaçados pelo comunismo -especialmente a Grécia e a Turquia. O secretário de Estado americano, George C. Marshall anuncia um imenso programa de ajuda para a reconstrução da Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial, que se tornará conhecido como Plano Marshall.

1948: Os comunistas tomam o poder na Tchecoslováquia.

1948: O bloqueio soviético a Berlim Ocidental tem início em 24 de junho. Isolada do mundo exterior, provisões são entregues à cidade isolada pelos americanos por meio de uma ponte aérea. Esta é a primeira grande crise de Berlim durante a Guerra Fria. Em 12 de maio de 1949, Stalin suspende o bloqueio.

1949: Em 4 de abril, o Tratado da Otan é assinado em Washington.

1949: Em 23 de maio, é estabelecida a República Federal da Alemanha. Não muito depois, em 7 de outubro, a República Democrática Alemã comunista é fundada.

1949: Em 29 de agosto, os soviéticos detonam sua primeira bomba atômica.

1949: Após vencer a guerra civil do país, o Partido Comunista sob Mao Tse-tung estabelece a República Popular da China.

1050-1953: A Guerra da Coréia: após a Coréia do Norte atacar a Coréia do Sul, tropas da ONU lideradas pelos Estados Unidos invadem o país. A China e a União Soviética apóiam a Coréia do Norte. O cessar-fogo deixa os dois países com o status quo pré-guerra.

1952: O líder soviético Joseph Stalin oferece negociar a reunificação da Alemanha sob a condição de que uma Alemanha unida permaneça neutra. Com o apoio do Parlamento da Alemanha Ocidental, as potências aliadas ocidentais rejeitam a oferta.

1953: Em 17 de junho, um levante dos trabalhadores na Alemanha Oriental é esmagado por tanques russos.

1955: A República Federal da Alemanha se junta à Otan e forma o Bundeswehr, o primeiro exército alemão a existir após a queda de Hitler.

1956: Ocorre um levante húngaro, com início em 20 de outubro, mas ele é esmagado pelos russos.

1956: De 29 de outubro a 6 de novembro, ocorre a crise do Suez. Após as tentativas do Egito de nacionalizar o Canal de Suez, Israel, França e Reino Unido ocupam a zona do canal e bombardeiam os campos aéreos egípcios. O líder soviético Nikita Kruschev ameaça Londres e Paris com guerra nuclear.

1961: A construção do Muro de Berlim começa em 13 de agosto.

1962: A crise de Cuba: após os soviéticos posicionarem ogivas nucleares em Cuba, os Estados Unidos ameaçam uma guerra. O mundo fica à beira de uma guerra nuclear por dias.

1963: Os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Soviética concordam em suspender os testes submarinos e de superfície de armas nucleares.

1965: As primeiras forças de combate americanas chegam ao Vietnã do Sul. Mais de 2 milhões de pessoas morrerão durante a Guerra do Vietnã -a maioria civis. Os Estados Unidos retiram suas tropas em 1973. Dois anos depois, o norte comunista conquista o sul do país.

1968: Tropas do Pacto de Varsóvia, uma organização de Estados comunistas da Europa Central e Oriental, esmagam o levante da Primavera de Praga.

1969: Começam as negociações entre os Estados Unidos e a União Soviética para redução de armas nucleares estratégicas. As negociações terminam com vários tratados em 1979, mas a corrida armamentista prossegue sem pausa.

1970: Tem início a chamada Ostpolitik, uma política de reaproximação com o bloco oriental defendida pelo chanceler alemão Willy Brandt. Sua política de “mudança por meio da conciliação” dá seus primeiros frutos. Os alemães e russos acertam um tratado que renuncia o uso da força.

1979: A decisão “Double Track” da Otan é aprovada, permitindo aos Estados Unidos a instalação de 572 ogivas nucleares “Pershing II” na Europa Ocidental caso as negociações com os soviéticos para desmonte dos mísseis SS-20 de médio alcance fracassassem. A instalação começa em 1983.

1980: Após a invasão soviética ao Afeganistão em 1979, os Estados Unidos impõem sanções aos russos e boicotam os Jogos Olímpicos de Moscou.

1983: O presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, anuncia o desenvolvimento do sistema de defesa antimísseis “Guerra nas Estrelas” de alcance mundial em sua Iniciativa de Defesa Estratégica.

1985: O chefe do Kremlin, Mikhail Gorbatchov, começa a reorientar a política externa soviética.

1987: Gorbatchov e Reagan concordam em eliminar todos os mísseis de médio alcance baseados em terra.

1989: O Muro de Berlim cai em 9 de novembro.

1991: O Pacto de Varsóvia é dissolvido. Gorbatchov renuncia e a União Soviética desaparece do mapa.

“Der Spiegel”