Daily Archives: 26/04/2008

Uso terapêutico da maconha amplia-se aos poucos

Javier Lafuente

Havia passado poucas horas desde sua primeira sessão de quimioterapia. As dores de Tatiana Enriquez, médica cubana de 39 anos, eram insuportáveis. Seu hematologista, um homem mais velho, sugeriu: “Fume um cigarro de maria”.

Ela levou na brincadeira, como uma forma de suavizar a situação. Não que entre eles houvesse uma confiança reforçada pelos anos;se coneheceram quando ela foi diagnosticada com câncer linfático, alguns meses antes. Depois da segunda sessão de químio, os vômitos e as náuseas não cessavam. O médico insistiu em sua idéia. Não podia fazer mais nada. “Ele viu claramente, acontece que não podia me receitar”, diz Tatiana.

Nas dez sessões seguintes, antes e depois de cada uma, Tatiana decidiu consumir maconha. “Era um momento da minha vida que eu tinha de superar ou morreria, por isso o fiz da forma que eu sofresse menos”, conta hoje, quatro anos depois, com o câncer praticamente superado. Tatiana também se sente uma agraciada.

A equipe médica que a tratava em um hospital público de Madri, cujo nome prefere omitir devido a possíveis conseqüências, permitia que ela fumasse maconha nas instalações. “Pode trazer aqui, e se alguém disser alguma coisa diga para falar comigo que eu autorizei”, lembra as palavras de seu hematologista. Desde então, o consultório da psicóloga, que também estava inteirada, foi o lugar onde tentava superar a quimioterapia.

Embora seu caso seja peculiar, não é o único. O uso terapêutico da Cannabis evoluiu notavelmente na Espanha desde o final da década de 1990 e sobretudo no início do século 21. As campanhas de sensibilização de diversas associações, e uma mudança importante quanto à percepção da substância dentro da classe médica, fizeram que o interesse pelo uso medicinal da maconha, para atenuar algumas doenças concretas, seja cada vez maior.

Será possível que algum dia a Cannabis seja receitada como um medicamento convencional? Quanto falta para que chegue esse momento? A Cannabis deve ser analisada dentro do contexto sociológico. Cerca de 162 milhões de pessoas a consomem em todo o mundo. É a droga ilegal com mais adeptos. Existe um núcleo da população, sobretudo de pessoas jovens, que não vê efeitos nocivos no consumo de maconha.

Segundo a última Pesquisa sobre Drogas e Álcool do Ministério da Saúde da Espanha, cerca de 28,6% da população consumiram Cannabis alguma vez e 8,7% o fazem todos os meses. Nos últimos dez anos, além disso, se multiplicou por três o número de pessoas que a consomem diariamente.

O Código Penal proíbe a venda de maconha, assim como sua posse e consumo em lugares públicos. Mas não em lugares privados, onde pode ser consumida. A venda de sementes é permitida há alguns anos. Mas a lei não diferencia entre o uso terapêutico e o lúdico. “É preciso romper essa barreira, desvincular a utilização da maconha como remédio de seu uso recreativo; há muitos doentes que poderiam se beneficiar dos princípios dos canabinóides se as duas discussões forem separadas”, afirma Joseba Pineda, professor de farmacologia da Universidade do País Basco.

Embora haja indícios de que era empregada para tratar reumatismo e gripe cerca de 2.700 anos antes de Cristo, foi somente no século 19 que a Cannabis se transformou em uma das substâncias a que a medicina recorre como anticonvulsivo, analgésico ou antiemético. O aparecimento de fármacos sintéticos e a pressão social e política, sempre por seu caráter recreativo, conseguiram isolá-la desde o início do século passado. Nada que não tenha ocorrido em outros casos. Qualquer substância que hoje é ilegal— heroína, êxtase, etc— foi pensada em um primeiro momento como medicamento.

O caso dos opiáceos —a morfina é o mais conhecido— é o que mais se adapta, segundo o professor Pineda, ao que o mundo médico vive hoje em dia. Como ocorre há anos, “a classe médica está evoluindo para a elaboração de testes clínicos, vendo quais produtos derivados da Cannabis podem ser prescritos com total segurança; o problema é que hoje há mais exigências, mais restrição para determinar o que é um medicamento ou não”, explica Pineda, que não duvida de que “todos, em ritmos diferentes”, acabarão aceitando o uso medicinal dos canabinóides.

Que algo acontece na Espanha ficou demonstrado no início deste século. Em 2001, Agata, associação catalã de ajuda a doentes de câncer de mama, iniciou uma campanha de sensibilização e pressionou as autoridades para que permitissem o uso terapêutico da Cannabis.

Nesse mesmo ano, o Parlamento catalão aprovou de forma unânime uma resolução dirigida ao governo central na qual o instava a “tomar todas as medidas administrativas necessárias para autorizar o uso medicinal da Cannabis”. Quatro anos depois começaram os primeiros testes clínicos, coordenados pelo Instituto Catalão de Farmacologia.

Esse plano piloto não foi um estudo de eficácia, mas de observação, enfocado em um grupo de 200 pacientes com esclerose múltipla, anorexia produzida pelo HIV ou náuseas e vômitos em conseqüência da quimioterapia, entre outros sintomas. “São pessoas com um estado de saúde bastante precário, que haviam recorrido a quase todos os tratamentos possíveis e nenhum deles havia surtido efeito”, explica a doutora Marta Durán, chefe de farmacologia do Hospital Vall d’Hebron, um do centros que participaram desse projeto inovador.

À falta de dados definitivos, que serão conhecidos brevemente, e que nenhum de seus promotores —Departamento de Saúde do governo catalão, Instituto de Farmacologia ou os próprios hospitais— quis adiantar, só se conhece o relatório preliminar publicado no ano passado. Sessenta e cinco por cento dos doentes reconhecem ter experimentado algum benefício, 10% não sentiram melhora alguma e 25% tiveram de abandonar o tratamento. As partes envolvidas só confirmam que se mantém essa tendência e que os dados finais são “bastante esperançosos”.

“Abriu-se a porta para pacientes que não tinham nenhum tipo de esperança. Portanto, estamos no bom caminho”, explica Durán, sempre cautelosa em seu raciocínio: “Os resultados não são espetaculares, é preciso ser muito prudente, mas não há dúvida de que podem ajudar. É preciso ver o perfil, a doença, o tipo de paciente, mas sempre que se possa ajudar vale a pena”.

Nesse plano piloto, o medicamento utilizado foi o Sativex, o único extrato de Cannabis comercializado como fármaco. Desenvolvido pela GW Pharmaceutical, foi importado do Canadá, onde seu uso está aprovado para o alívio da dor neuropática com esclerose múltipla. Na Espanha só se pode recorrer a ele se o paciente estiver incluído em um programa de medicação estrangeira ou de uso compassivo.

O Sativex é utilizado como spray. O nebulizador é aplicado quatro vezes por dia embaixo da língua. Cada jato do spray administra uma dose fixa de 2,7 mg de tetrahidrocannabinol (THC) e 2,5 mg de cannabidiol (CBD), os principais canabinóides exógenos ativos.

Para os médicos, conhecer previamente a composição do medicamento é primordial, pois não representa a mesma coisa que consumir a planta, que tem muita variabilidade de proporções e em muitos casos pode representar um risco para o paciente.

Por isso também recusam muitas vezes a via fumada e recomendam mais a oral ou sublingual, como é o caso do Sativex. “Fumar pode danificar muito mais o corpo, e além disso as concentrações de THC e CBD podem variar muito. No primeiro caso, tanto se consome 0,5% quanto 20%”, adverte Raphael Mechoulan, diretor da Faculdade de Ciências Naturais da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Em Israel, comenta o pesquisador, o uso de Cannabis está autorizado para pacientes com doença de Crohn, em algumas enfermidades neurológicas e para abrir o apetite de certos pacientes.

Poucos duvidam de que o Sativex marcou um antes e um depois, mas tanto os médicos como associações aprovam canábicas reivindicam que se continue pesquisando e testando com outra porcentagem de doses além de 50% THC e 50% CBD. Se os canabinóides são bons, é preciso aproveitá-los. Essa parece ser a máxima a partir da qual muitos médicos e pesquisadores querem trabalhar.

Têm a mesma eficácia que um fármaco convencional? Rafael Borrás, porta-voz do Colégio de Farmacêuticos de Barcelona, é bastante claro a respeito: “Até agora os fármacos de Cannabis que têm sido investigados são de segunda e terceira linhas; melhoram a sintomatologia do paciente, mas não são uma cura. Por isso há duas opções: fechar os olhos e argumentar que, como se trata de uma substância ilegal, não é possível fazer nada, ou continuar trabalhando para ajudar alguns doentes”.

Essa última premissa, e o conhecimento de que cada vez mais pessoas consomem maconha com fins medicinais, fez que Borrás e seus colegas farmacêuticos elaborassem o prospecto da Cannabis, um documento informativo de ajuda que qualquer pessoa pode obter na Internet.

Mas no mundo da medicina muitos continuam fechando os olhos e não conseguem acreditar, apesar do paradoxo, nas evidências científicas. “Em geral, para qualquer tratamento é melhor empregar substâncias do que extratos; qualquer iniciativa deve estar dentro de um âmbito claro, o que fizermos deve contribuir com algo”, argumenta Ramón Colomer, presidente da Sociedade Espanhola de Oncologia. “Não existe informação científica suficiente, o uso terapêutico tem mais riscos e incertezas que benefícios e certezas”, acrescenta.

Com a comercialização do Sativex, que os especialistas estimam para daqui a pelo menos alguns anos, a maconha como planta pode ficar relegada a um segundo plano no uso medicinal. Enquanto isso, milhares de doentes continuam a consumi-la para aliviar suas dores.

Nenhum estudo indica quantas pessoas podem estar consumindo a substância ilegal com fins medicinais, mas estimativas de alguns médicos apontam para cerca de 50 mil pessoas. Fabian Quintela, 43 anos, está há cinco em uma cadeira de rodas, em conseqüência da esclerose múltipla que sofre. Como muitos outros, seu médico lhe receitou um tratamento à base de relaxantes musculares. O único objetivo era diminuir a intensidade das dores, mas só conseguiu deixar seu estômago destruído e abrir seu esfíncter. “Eu tinha de me controlar para não fazer as necessidades”, comenta resignado.

Um amigo lhe sugeriu que provasse a maconha, já que um conhecido que sofria da mesma doença havia aprovado. O boca-a-boca nesse caso parece ser o melhor teste clínico. O problema de Fabian não foi tanto decidir-se a consumir Cannabis, mas consegui-la, já que nunca havia consumido. A opção mais simples foi perguntar a seu sobrinho de 19 anos, que certa vez lhe confessara que fumava “baseados”.

No dia seguinte tinha uma sacola cheia de folhas verdes em cima de sua mesa. Pouco tempo depois começou a plantar diversos tipos de maconha para ver qual era a mais conveniente. Fabian está orgulhoso de sua decisão. “Agora pelo menos posso ter uma vida normal”, afirma.

Recorrer ao mercado ilegal é a única solução que resta a muitos doentes, com os inconvenientes que isso representa: preço elevado, não saber realmente a substância que estão recebendo… No caso da esclerose múltipla, a Cannabis pode melhorar a espasticidade e aliviar a dor, mas no mercado ilegal a substância que se encontra em doses muito baixas de CBD, o princípio que age sobre a espasticidade muscular.

“Também ocorre uma situação absurda: os que devem ser protegidos do acesso à maconha, que são os jovens, são os que a conseguem mais facilmente. Os doentes, porém, são os que encontram mais obstáculos”, critica Martín Barriuso, presidente da Federação de Associações Canábicas (FAC). Barriuso também é um dos responsáveis pela Pannagh (“maconha” em sânscrito), uma associação basca de usuários dessa substância, um clube de consumidores composto por 230 pessoas, das quais 60% -quase todos maiores de 50 anos- a empregam com fins medicinais. Na Espanha há cerca de 30 associações canábicas, e uma dezena de clubes como o Pannagh.

Todo doente que quiser se associar deverá passar primeiro por uma entrevista pessoal e apresentar um certificado médico demonstrando que sofre de uma doença que pode estar sujeita a um tratamento com Cannabis. Além de uma cota de sócio, cada pessoa paga a maconha que consome -são cultivadas até 12 variedades diferentes-, sempre a preço de fábrica, isto é, muito mais barato que no mercado ilegal. Por exemplo, para um ciclo de quimioterapia normal, Barriuso calcula que sejam necessários 5 g, o que representaria 22,50 euros para o doente.

Embora seja aparentemente simples, eles tiveram vários problemas. Em outubro de 2005 a polícia deteve três membros da entidade e apreendeu 150 kg brutos de maconha, que depois do processo de secagem e análises ficaram em 18. O Ministério Público de Vizcaya, alguns meses depois, absolveu a associação por entender que a plantação cumpria os requisitos para ser considerada de “uso compartilhado”. Naquela época a Pannagh tinha 70 membros.

A principal crítica que se faz a esse tipo de associação é que por mais que se saiba que a maconha é cultivada não tem as mesmas garantias que uma dose fixa como no caso do Sativex. “É um fármaco interessante, mas não nos enganemos, não passa de uma tintura alcoólica, algo que estamos tentando fazer na associação mas que nenhum laboratório quer analisar. É a história de sempre, tratamos com doentes que é uma atividade legal, mas quando queremos analisar a maconha nos impedem de conseguir essa segurança.”

A separação do uso medicinal do lúdico chega a tais extremos que muitos que são contra a autorização da maconha para atenuar enfermidades argumentam que, depois de terminado o tratamento, os doentes correm um risco muito sério de continuar consumindo maconha com fins recreativos. Tatiana, a médica cubana, dá uma gargalhada: “Olhe, se alguém entrar agora neste bar e começar a fumar ‘maria’ ao meu lado eu tenho de ir para o outro extremo. É um cheiro que na época relacionei ao alívio, mas passado o tempo eu associo a um dos piores momentos da minha vida”.

Fonte: El País

Pobres são deixados de lado nas soluções para a mudança climática

Elisabeth Rosenthal

O mantra das empresas e políticos no mundo desenvolvido é o de que a tecnologia fornecerá a solução para o aumento global das emissões. Eles dizem que na verdade o combate ao aquecimento global pode ser bom para os negócios.

A General Electric imediatamente reivindicou ser uma líder ambiental ao vender turbinas eólicas. O Wal-Mart está se tornando verde ao pedir aos seus fornecedores para que avaliem suas emissões enquanto produzem produtos Wal-Mart. Negociar as emissões de carbono certamente pode ser lucrativo: em um mês de péssimas notícias financeiras nos Estados Unidos, a Climate Exchange (bolsa do clima), que administra a Chicago Climate Exchange, viu um aumento de suas ações em mais de 20%.

“Nós acreditamos que a tecnologia pode ajudar a resolver algumas destas questões de energia limpa, e que no final, ao fazê-lo, poderemos ganhar dinheiro para nossos investidores”, disse Jeff Immelt, o executivo-chefe da General Electric, em uma conferência na Califórnia neste mês.

Mas turbinas eólicas, carros híbridos e mercados de carbono são soluções feitas pelo mundo desenvolvido para o mundo desenvolvido. Elas ignoram um grande pedaço do quebra-cabeça da mudança climática: como melhor ajudar as pessoas no mundo em desenvolvimento que já estão sentindo os efeitos do aquecimento global.

“Há uma tendência de encontrar soluções por meio de intervenções tecnológicas e soluções de alto investimento, o que é complicado porque nem sempre funcionarão para os países pobres”, disse Gonzalo Oviedo, autor de um poderoso relatório sobre o efeito da mudança climática sobre os pobres no mundo em desenvolvimento, divulgado nesta semana pela União Internacional para a Conservação da Natureza. “O que estamos dizendo é que em muitos países pobres há um alto grau de vulnerabilidade, que exige outros tipos de soluções.”

O mundo está correndo para imaginar como reduzir as emissões com a ajuda de tecnologia. Ele tem feito muito menos para ajudar os pobres a se adaptarem. O relatório “Povos Indígenas e Tradicionais e a Mudança Climática” inclui o tipo de catálogo de sofrimento relacionado ao clima que já está ocorrendo entre os povos mais pobres do planeta.

No oeste da Nicarágua, a mudança climática deixou aldeias isolada de suprimentos cruciais, já que o rio que servia como via de abastecimento está baixo demais para ser navegado. “Suprimentos básicos como sal e água potável não mais conseguem chegar às aldeias”, diz o relatório. “Além disso, o baixo volume de água significa que a poluição se torna concentrada e as pessoas ficam mais suscetíveis à cólera e tuberculose.”

Entre os baka de Camarões, as chuvas ficaram menos regulares e difíceis de prever. “Mulheres que normalmente pegam peixes nas barragens construídas próximas de pequenos rios na estação seca freqüentemente não mais conseguem, à medida que os padrões de cheia dos rios mudam”, diz o relatório.

Em Bangladesh, uma elevação do mar de 1,5 metro submergiria 22 mil quilômetros quadrados de terra e deslocaria 17 milhões de pessoas extremamente pobres, mais de 15% da população. Para onde irão?

Em Nova York nesta semana, eu me deparei com meu próprio pequeno problema ligado ao clima: devido à escassez global de grãos, criada em parte pela corrida aos biocombustíveis, o preço de um bagel subiu de 60 centavos para US$ 1,20 no ano passado. Os nova-iorquinos estão todos perplexos com o aumento, mas ele empalidece diante destes problemas maiores.

Em grande parte do mundo em desenvolvimento, a resposta à mudança climática exigirá um bocado de investimento em idéias de baixa tecnologia, não bilhões despejados em alta tecnologia, disse Oviedo. Os retornos serão em vidas humanas e na preservação de espécies e culturas ameaçadas -em vez de bons lucros nas opções de carbono.

O relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza também aponta que os povos indígenas precisaram se adaptar às mudanças nos padrões climáticos por milhares de anos, de forma que sugere que os países ricos deveriam aprender com a experiência deles. (As turbinas eólicas evoluíram a partir dos modestos moinhos de vento.)

“Ao fazer planos, aqueles que tomam decisões deveriam aprender com os povos indígenas e suas estratégias -este é um novo campo de pesquisa e há vários bons exemplos”, disse Oviedo.

Durante anos de baixa precipitação, por exemplo, várias culturas no Norte da África restringiram severamente que gado pastasse. A relva deve ser cortada no campo e os animais alimentados fora do pasto para impedir o uso excessivo de recursos.

Igualmente, aldeias na América do Sul construíram canais subterrâneos de pedra para coleta de água, para que esta não evaporasse enquanto se movia de um lugar para outro. “O problema é que no momento em que são mais necessárias, estas práticas tradicionais estão desaparecendo”, ele disse.

Atualmente, a resposta internacional à mudança climática defende grandes projetos para redução das emissões globais. Há incentivos generosos para conversão de usinas de força a carvão na China para tecnologia mais limpa, por exemplo, mas não há encorajamento para outra causa: ajudar uma aldeia rural na África a se adaptar às temperaturas mais quentes e à degradação de suas terras em deserto.

“É difícil imaginar como financiar este tipo de coisa, mas é absolutamente fundamental”, disse Oviedo.

Fonte: International Herald Tribune

Yoshoku é a típica culinária japonesa que veio do Ocidente

Norimitsu Onishi

Em Nova York ou Los Angeles, fãs da culinária japonesa podem recitar pedidos para uni e o-toro, ou expressar urbanamente uma preferência por soba em vez de udon. Mas e quanto ao “napolitano”, espaguete cozido que é passado em água fria, depois refogado com legumes em ketchup? Ou o “menchi katsu”, hambúrguer coberto em migalhas de pão e bem frito? Ou “arroz omu”, um omelete sobre um monte de arroz com gosto de ketchup?

Ao mesmo tempo familiar e alienígena, estes pratos podem parecer americanos, com alguma justificativa, a ponto de ingressarem em um universo culinário paralelo. Todos são padrões de um estilo de culinária japonesa conhecido como yoshoku, ou “comida ocidental”, onde pratos europeus ou americanos foram importados e, de um modo verdadeiramente japonês, moldados e remoldados para se adequarem aos gostos locais.

Hoje a yoshoku é totalmente japonesa. Ela é uma constante em programas de culinária na televisão e revistas populares. As filas do lado de fora de respeitáveis restaurantes de luxo de yoshoku, em Tóquio, são longas, principalmente compostas por japoneses mais velhos para os quais a yoshoku forneceu uma primeira amostra de um mundo ocidental que não conheciam. Os restaurantes de yoshoku também são obrigatórios nos novos distritos comerciais da moda, como Midtown e Roppongi Hills, onde atendem aos japoneses mais jovens cujas mães preparavam a comida em casa.

Todavia, ela é virtualmente desconhecida pelos estrangeiros. O primeiro guia Michelin de Tóquio, publicado no último trimestre de 2007, listava 150 restaurantes; nenhum era um estabelecimento de yoshoku. De fato, os turistas no Japão raramente entram em lugares onde a yoshoku é servida: lares, restaurantes de rede, restaurantes de bairro de propriedade familiar ou estabelecimentos de yoshoku de luxo com longa espera. Fora do Japão, a yoshoku é raramente vista exceto em ex-colônias japonesas como a Coréia do Sul e Taiwan, que foram introduzidas à culinária Ocidental por meio do Japão.

O Shiseido Parlor é um estabelecimento de yoshoku de vários andares no coração do distrito de Ginza, em Tóquio, um restaurante ao qual muitos japoneses fazem peregrinação pelo menos uma vez. Mas o restaurante, a matriz do que atualmente é uma rede, raramente é mencionado nos guias de turismo ocidentais e poucos ocidentais entram nele.

“Provavelmente esta coisa chamada ‘yoshoku’ seja difícil de entender do ponto de vista de um estrangeiro”, disse Tatsuya Yokokawa, um executivo do Shiseido Parlor. “Se não é a culinária tradicional japonesa, e não é nem francesa e nem italiana, eles pensam, o que é? Então dificilmente a provarão.”

Mas a história da yoshoku vai além da familiar da culinária fusion. Ela ilustra a tumultuada história moderna do Japão, de seus primeiros contatos traumáticos com o Ocidente à sua adoção freqüentemente desconfortável dos valores ocidentais.

A yoshoku nasceu durante a Restauração Meiji do Japão, o período que se seguiu à abertura forçada deste país isolacionista pelos chamados Navios Negros americanos, em 1854. Japoneses foram enviados para a Europa e para a América para aprender sobre as leis ocidentais, armas e indústria. Eles também trouxeram a culinária. Chocados em descobrir quão menores em estatura eles eram em comparação aos ocidentais, os japoneses determinaram que os alcançariam não apenas econômica e militarmente, mas também fisicamente, ao comerem seus alimentos.

Este desejo sobreviveu pelo menos até os anos 70, quando um empresário chamado Den Fujita estabeleceu o McDonald’s no Japão e alegou que seu cardápio tornaria os japoneses tão altos e atraentes quanto os americanos.

“Os japoneses são fisicamente mais fracos porque comem arroz”, ele disse na época. “Nós mudaremos isso com hambúrgueres. Após comerem hambúrgueres por mil anos, os japoneses até mesmo terão cabelo loiro.”

A categoria yoshoku é ampla, incluindo pratos que se tornaram tão integrados à dieta que muitos japoneses nem os considerariam alimentos ocidentais japonizados, mas simplesmente alimentos japoneses.

Ainda assim, todos os pratos yoshoku têm raízes em pares ocidentais. Um ingrediente chave ou um passo no preparo foi alterado, ou totalmente violado, com resultados surpreendentemente deliciosos. Em vez de ser servido tão logo é cozido, o espaguete napolitano é deixado para esfriar, depois requentado e frito com legumes; ela era a única massa conhecida pela maioria dos japoneses até duas décadas atrás, quando o ketchup ainda era amplamente considerado um molho italiano. Bem preparado, o menchi katsu, uma carne moída coberta com migalhas de pão, ou o tonkatsu, uma versão mais espessa da costeleta de porco, são bem fritos mas conseguem permanecer tenros por dentro.

Um molho demiglace com suco de tomate servido sobre carne picada foi batizado de molho hayashi -porque as palavras soavam semelhantes, segundo a teoria de alguém, apesar de uma rival sugerir que foi invenção de um sr. Hayashi. Um molho como curry contendo cebola, batata e cenoura, servido sobre arroz, se tornou “arroz kare”.

Hambúrgueres eram considerados um prato americano e chamados “hambagah”, mas a versão yoshoku foi chamada de “hambagoo”. (O hambúrguer era servido sem pão e freqüentemente coberto com demiglace -o verdadeiro em restaurantes caros, mas freqüentemente industrializado em outros lugares.) Pratos gratinados, ostras empanadas e vários croquetes -croquete de siri com creme branco é considerado um clássico- completam o cardápio yoshoku.

A maioria dos pratos yoshoku pode ser acompanhada por arroz e comido com pauzinhos, apesar dos melhores restaurantes de yoshoku contarem com talheres e uma opção oferecida apenas neste estilo de culinária japonesa: “arroz ou pão”. Os pratos vêm acompanhados de molhos tradicionais ocidentais, ou suas versões japonizadas, como demiglace, molho branco, inglês ou ketchup.

O cardápio yoshoku mudou pouco ao longo das décadas, disse Hiroshi Modegi, 40 anos, cujo avô fundou o Taimeiken, um famoso restaurante de yoshoku no distrito de Nihonbashi, em Tóquio, em 1931.

“Nossos clientes querem os velhos favoritos”, disse Modegi, atualmente o chef do restaurante, explicando que nostalgia é um grande fator por trás do apelo da yoshoku. “É ok mudar o cardápio de vez em quando, mas não demais, porque as pessoas basicamente vêm aqui para comer coisas como o arroz omu padrão.”

Mas o cardápio padrão é relativamente novo, considerando a longa história do Japão. Por 1.200 anos, um decreto do imperador proibiu o consumo de carne por causa da crença budista japonesa de que era impura. O peixe era central na dieta japonesa e a carne era consumida de forma furtiva, apenas para fins medicinais.

Então, em 1872, o imperador suspendeu a proibição.

“Para alcançar e superar a cultura superior do Ocidente, o imperador Meiji acreditava que os hábitos alimentares tinham que mudar primeiro”, disse Tetsu Okada, um especialista em cultura culinária japonesa e autor da história do tonkatsu. “Ele disse a todos para comerem carne e, para incentivar, a comeu primeiro.”

Os primeiros japoneses a viajarem ao exterior trouxeram os pratos -cheios de carne, manteiga, condimentos não familiares e outros ingredientes estranhos à dieta japonesa- que acabaram se tornando a base da yoshoku. Em comparação, os vizinhos do Japão, a China e a Coréia, lidaram com a ameaça do Ocidente primeiro o rejeitando. Até hoje, nem a cozinha chinesa e nem a coreana possuem muita influência ocidental.

O Japão modernizou seu sistema legal com base no alemão e suas forças armadas e indústria com base no Reino Unido. Para os pratos que no final se tornariam a culinária yoshoku, o Japão se baseou principalmente na França. Mas a culinária teve outras fontes inesperadas. A Marinha Imperial Japonesa, baseada na britânica, teria introduzido os japoneses do final do século 19 a um prato popular entre os oficiais navais britânicos: o curry indiano, que no final se tornou o arroz kare comido nos lares, escolas e restaurantes atualmente.

“Não era o curry da Índia, mas curry da Europa, que atualmente encontramos por toda parte neste país”, disse Takeshi Ninomiya, chef do Nakamuraya, um famoso restaurante de curry indiano em Tóquio. “Este prato que veio do Reino Unido, e era considerado um prato ocidental, foi então assimilado aqui.”

A popularidade da yoshoku atingiu seu pico na década que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. Para as mães, ela era mais fácil de preparar do que os pratos japoneses tradicionais. Para as crianças, um grande prazer era um “almoço okosama”, ou “almoço de criança” em um restaurante de loja de departamentos, consistindo de pequenas porções ou um único prato de espaguete napolitano, hambagoo e arroz com sabor de ketchup com uma bandeirinha de um país como a Suíça ou Nova Zelândia no topo.

Enquanto isso, nas décadas anteriores à maioria dos japoneses ter condição financeira de viajar para o exterior, restaurantes de luxo de yoshoku se tornaram símbolos do desejado e glamoroso mundo ocidental. O mais famoso, o Shiseido Parlor, se tornou ponto de encontro de artistas, intelectuais e escritores, e apareceu nas obras de muitos romancistas, incluindo Yasunari Kawabata e Yukio Mishima. Os japoneses comuns comiam lá, gastando o salário de uma semana em uma refeição.

“Os japoneses que nunca botaram os olhos nesta coisa chamada mundo ocidental provavelmente usavam sua imaginação e eram capazes de vê-lo na yoshoku”, disse Yokokawa, do Shiseido Parlor.

Até o boom econômico dos anos 70 e 80, a yoshoku era a única versão da comida ocidental conhecida por muitos japoneses. Os ingredientes para preparo de pratos franceses ou italianos autênticos simplesmente não estavam disponíveis. Antes de expressões como “pasta” e “al dente” se tornarem conhecidas no Japão, havia apenas o espaguete napolitano ou o “espaguete com molho de carne”.

Isto mudou nos anos 80, quando o iene se tornou tão forte que o Japão passou importar de tudo de qualquer lugar. Restaurantes de todo o mundo começaram a despontar aqui. Atualmente, em um bairro como Roppongi, é possível encontrar de tudo: franceses e italianos, filés americanos, até inhame moído nigeriano e sopa egusi.

Mas isto não significa que a yoshoku corre o risco de desaparecer. Na verdade, os pratos yoshuku compõem grande parte dos cardápios das maiores redes de restaurantes do Japão, ou restaurantes de família, como o Jonathan’s, Royal Host e Denny’s.

Isto mesmo: Denny’s. Vários anos após chegar ao Japão nos anos 70, o Denny’s desistiu de seus pratos americanos e optou por um cardápio repleto de yoshoku. Assim, como alguns americanos com saudade de casa em busca de pratos conhecidos descobriram, um Denny’s no Japão não possui cafés da manhã Grand Slam nem hambúrgueres.

Mas é um ótimo lugar se quiser arroz omu, espaguete napolitano e um hambagoo.

Fonte: The New York Times

Crimes de racismo se multiplicam em Moscou

Alexandre Billette

Na segunda-feira, 18 de fevereiro, um uzbeque foi morto a facadas, e um tadjique espancado até a morte por meio de um bastão de beisebol; no domingo, 17, um inguchetiano havia sido ferido mortalmente; no sábado, 16, dois quirguizes foram apunhalados… Desde então, seis outros homens originários da Ásia Central ou do Cáucaso também foram assassinados nas ruas de Moscou ao longo da semana, vítimas de grupos de “skinheads” ou de neonazistas.

“O balanço dos cinqüenta primeiros dias do ano é aterrador”, comenta Alexandre Verkhovsky, o diretor do Centro Sova de luta contra a xenofobia. E ele acrescenta: “Foram 25 assassinatos de caráter racista contra estrangeiros ou russos “de aparência não-eslava” no espaço de menos de dois meses na Rússia”, dos quais 13 em Moscou.

Contudo, que eles sejam oriundos do Cáucaso ou da Ásia Central, é cada vez maior o número de imigrantes que desembarcam para se instalar em Moscou com o objetivo de tirar proveito da expansão econômica da capital, a qual sempre está à procura de mão-de-obra barata. “Entre eles, os recém-chegados são sempre mais vulneráveis do que os outros”, acrescenta Alexandre Verkhovsky. “Dez anos atrás, os súditos da antiga URSS chegavam a Moscou falando em russo. Por assim dizer, eles continuavam sendo cidadãos soviéticos. Atualmente, os novos trabalhadores estrangeiros têm mais dificuldades para dominar a nossa língua. Com isso, eles seguem se mantendo numa situação de precariedade que os torna ainda mais vulneráveis”.

As autoridades municipais estão relutando a reconhecer a amplidão desta onda de violência contra estrangeiros. Ainda nesta semana, Vladimir Pronin, o chefe do departamento do interior da cidade de Moscou, declarou que se trata de um problema que “todas as grandes capitais multi-étnicas da Europa conhecem também”. “Em vez de agradecerem a todos esses trabalhadores que realizam em Moscou tarefas que ninguém aceitava desempenhar, grupos de extremistas os apunhalam até a morte pelas ruas!”, se insurge, numa entrevista, Soyun Sadykov, o presidente de uma associação da diáspora do Azerbaijão.

Moscou contaria vários milhares de “skinheads”, os quais, na sua maioria, são jovens de menos de 25 anos. Eles não pertencem a organizações hierarquizadas, mas costumam simplesmente se reunir, em muitos casos utilizando a Internet, para noitadas de “limpeza”, e então desaparecem até o dia em que eles resolvem constituir um novo grupo. Desde outubro, o novo procurador em chefe de Moscou parece estar se interessando de mais perto pelos assassinatos de caráter racista. Vários “skinheads” já foram presos, acusados de fomentarem a “violência étnica” ou de divulgarem uma “propaganda odiosa”.

Fonte: Le Monde

Alunos ocupam reitoria da FSA (25/04/08).

Segue abaixo manifesto dos estudantes ocupados, determinado em assembléia e pauta de reivindicações.

Manifesto dos Estudantes da Fundação Santo André
25 de abril de 2008

Dando continuidade ao processo iniciado em 13 de setembro de 2007, contra os aumentos das mensalidades; pela abertura dos primeiros anos dos cursos sem a exigência de número mínimo de alunos e contra a repressão aos alunos e professores. Tendo em vista a situação dos alunos e professores a situação se agravou em 2008. Ou seja: de 11 cursos da Fafil, somente 3 desses abriram primeiros anos, e autoritariamente a reitoria fechou os quartos anos diurnos de alguns cursos, impondo a transferência compulsória para o noturno, inviabilizando sua continuidade para os anos seguintes.
O autoritarismo aumentou! A Direção da Fafil foi novamente imposta sem ser eleita; a perseguição e sindicâncias políticas continuaram, e, ao invés de dialogar com os estudantes, a reitoria impediu nossa liberdade de manifestação, cercando o prédio da reitoria com grades em um espaço dentro do Campus, e derrubou a quadra, acabando com a única área de convivência dos estudantes. Tudo isso por conta do favorecimento aos comissionados, que como já é sabido, tem ligações estritas com o partido dos trabalhadores e a Prefeitura de Santo André, que se mostra conivente quanto aos esquemas financeiros dentro do CUFSA e à precarização de seus cursos.
Visto isso, exigimos:

* Preparação de Vestibular em Junho/Julho de 2008, com controle dos estudantes e professores;
* Redução das mensalidades;
* Reabertura dos quartos anos do período matutino;
* Fim da cota mínima de estudantes para abertura de salas;
* Reabertura da Quadra;
* Imediata formação de um grupo de trabalho e um fórum para encaminhar a federalização do CUFSA;
* Retirada imediata das sindicâncias contra professores, funcionários e alunos, que foram abertas durante a gestão da administração de Odair Bermelho;
* Exigência da presença do Ministério Público Federal, para se pronunciar junto aos alunos e professores;
* Regularização dos cursos livres;
* Por tudo isso, imediata demissão da Reitoria.

Reafirmamos a todos que esse movimento é pacífico e formado pelo conjunto dos estudantes, sem influência de diretrizes político-partidárias.

Japão: o arquipélago das aposentadorias perdidas

Philippe Mesmer

No Japão, não é a reforma do regime das aposentadorias que provoca a queda dos governos, e sim a sua administração. Após ter contribuído para a derrubada do governo de Shinzo Abe em setembro de 2007, aquele que a imprensa está chamando de “o escândalo das aposentadorias” poderia acelerar a saída do seu sucessor, Yasuo Fukuda.

Desde maio de 2007, a Seguridade Social vem sendo obrigada a enfrentar um problema insolúvel: encontrar os proprietários de 50,95 milhões de cotizações mensais para aposentadoria. O governo havia prometido solucionar este problema até o final de março. Mas ele foi forçado a admitir, no dia 14, que continuava sendo impossível identificar a origem de 20,25 milhões de depósitos. Logicamente, os contribuintes não poderão receber os pagamentos que lhes são devidos.

No total, várias centenas de milhares de japoneses seriam vítimas desta situação confusa. Uma vez que, em função da própria natureza do problema, as autoridades desconhecem o número exato de pessoas lesadas, um verdadeiro pânico tomou conta da população. Um número incalculável de contribuintes angustiados se precipitou nos balcões das agências da Seguridade Social. Mas os funcionários da entidade, incapazes de tranqüilizá-los, não demoraram a perder o controle da situação. Neste país onde este serviço público deveria supostamente ser perfeito, o serviço de informações telefônicas que foi implantado em regime de emergência com funcionários interinos recrutados especialmente para lidarem com este problema, nada conseguiu fazer, a não ser aumentar mais ainda a confusão e o ressentimento da população.

O que aconteceu para que as coisas chegassem a este ponto? Desde 1961, todo adulto com idade de 20 a 60 anos cotiza para a aposentadoria de base, pagando 14.140 ienes (cerca de R$ 245) todo mês. Até o ano de 1997, os contribuintes estavam inscritos na Seguridade Social de maneira nominativa e conforme o seu emprego e seu local de residência. “No decorrer da minha carreira, cheguei a ocupar três cargos diferentes”, explica o professor de economia Noriyuki Takayama. “O primeiro foi no setor privado. Mais tarde, passei a integrar a universidade Musashi, onde atuei até obter o meu emprego atual, na universidade Hitotsubashi”. Portanto, o professor Takayama era detentor de três contas de aposentadoria, benefícios concretizados na forma da posse de três cadernetas de formato reduzido, as “Nenkin techo”. Este sistema também dizia respeito aos assalariados de uma mesma empresa que chegaram a ser transferidos de uma região para outra. Ao passarem a depender de um outro escritório local da Seguridade Social, eles recebiam uma nova caderneta.

Em 1997, o governo tomou a decisão de atribuir um número único para cada filiado, seguindo com isso um procedimento também em vigor na França. Foi a partir daquele momento que os problemas começaram. A Seguridade Social envolveu-se então numa complexa operação de unificação das contas. Dez anos depois, ela se viu forçada a reconhecer que cerca de 51 milhões de cotizações permaneciam não identificadas. Além disso, uma vez que ninguém se preocupou em pedir às prefeituras que detinham os dossiês originais para conservá-los, um grande número de municipalidades os destruiu, excluindo a possibilidade de se reconstituir os dados individuais.

Esta modernização revelou a existência de outros problemas e falhas do sistema, que remontam à época da informatização da Seguridade Social, em 1980. Naquela ocasião, revelara-se necessário registrar os nomes de todos os contribuintes, mas os primeiros sistemas informáticos não permitiam a inscrição dos patrônimos com os seus caracteres chineses, os “kanjis”. Por conta deste problema, os nomes foram registrados em função da sua pronúncia, por meio dos caracteres do alfabete fonético katakana. Uma vez que cada kanji apresenta várias formas de pronúncia possíveis, as transcrições equivocadas se multiplicaram. Além disso, este fenômeno foi agravado pela má-vontade de funcionários que se mostravam hostis à informatização.

“Crescimento do niilismo”
Outros erros também foram cometidos em relação aos períodos e aos anos de nascimento. Os contribuintes foram registrados conforme o calendário até hoje muito utilizado das eras japonesas, que correspondem ao reinado dos imperadores. Assim, uma pessoa que nasceu em 1960 se vê inscrever como tendo nascido “no 35º ano da era Showa”, ou seja, o 35º ano desde o início do reinado de Hirohito. Uma outra que veio ao mundo em 1923 será registrada como tendo “nascido no 12º ano da era Taisho”.

Para complicar mais ainda a situação, esses problemas e falhas engendraram um bom número de malversações: em muitos casos, o dinheiro das cotizações chegou a ser utilizado, entre outros, para financiar os fins de semana que alguns funcionários da entidade passaram jogando golfe.

As proporções enormes do escândalo provocaram vivas reações em meio à população. A administração pública, que já era considerada como responsável pelo estouro da bolha especulativa no começo dos anos 1990, tornou-se objeto da execração pública. Para uma grande parte dos cidadãos, este escândalo apenas comprovou “que não existe nenhuma relação entre os indivíduos e a sociedade na qual eles vivem”, constata o professor Matsubara Ryuchiro, da Universidade de Tóquio. Segundo ele, este descaso nada mais faz senão agravar “o crescimento do niilismo”. Esta desconfiança acaba sendo repercutida sobre os homens políticos, principalmente sobre os membros do Partido Liberal-Democrata, que está no poder e reina de maneira quase ininterrupta desde 1955.

Na esperança de que esta página seja virada no futuro, o governo optou por fazer desaparecer a Agência da Seguridade Social, que deverá renascer em 2010 sob a forma de uma nova entidade de estatuto semi-público. Contudo, este novo projeto não soluciona o problema das 20 milhões de cotizações não identificadas.

Fonte: Le Monde

Preço em alta desencadeia nova corrida do ouro no México

Elisabeth Malkin

Nestas montanhas, onde conquistadores antes extraíam ouro de veios abertos na encosta, o mineiro calejado do cinema está dando lugar a uma nova raça de explorador: geólogos e engenheiros, armados com equipamento sofisticado e milhões de dólares de investidores.

Principalmente americanos e canadenses, eles trabalharam para gigantes mundiais da mineração por anos. Mas agora, com o preço do ouro próximo de altas recordes, eles estão deixando suas antigas firmas, levantando capital para iniciar suas próprias empresas de prospecção e seguindo para o México. Na terça-feira, a onça de ouro chegou a US$ 929,30, em comparação a US$ 665 há um ano. Em 1980, o choque do petróleo e a crise econômica levaram o preço a US$ 875 a onça; isto representaria mais de US$ 2 mil hoje.

Grande parte da alta recente é causada pela incerteza econômica e pela crescente ansiedade em relação aos riscos da inflação global.

“O ouro atingiu o ponto mais baixo em 2001, a US$ 250 a onça, e tem subido desde então”, disse Craig Stanley, um analista de mineração de ouro da Desjardins Securities, em Toronto. “Isto continua atraindo mais gente.”

Mas como qualquer corrida do ouro, ele alertou, a promessa de riqueza pode ofuscar as possibilidades reais -mesmo que mais investidores estejam dispostos do que antes a financiar novas empresas.

“Está mais fácil levantar mais dinheiro”, disse Stanley, “mas é necessário muito dinheiro para sair à procura e encontrar ouro”.

Como o preço do ouro provavelmente continuará subindo, as mineradoras estão aumentando a verba para exploração de ouro em todo o mundo. Mas muitos países que possuem novos depósitos promissores são politicamente caprichosos, como a Rússia, ou perigosos, como o Congo.

Em comparação, o México desenvolveu regras de investimento amistosas e uma burocracia relativamente eficiente, disseram os analistas. Apesar da escalada da guerra das drogas em grande parte do norte do México, os mineiros trabalham com relativa segurança. E o México oferece uma vantagem para os exploradores norte-americanos que nenhum outro país pode igualar: os geólogos podem realizar o percurso de carro em poucos dias.

Apenas para começar a explorar, são necessários dezenas de milhões de dólares. O custo de encontrar e então extrair o ouro aumentou em cerca de 25% no ano passado, em conseqüência do aumento dos custos de energia, aço e cimento usados na mineração.

Equipamento especializado e pessoal qualificado também estão escassos. A exploração moderna exige mapeamento aéreo e sensores sofisticados.

Mesmo com o equipamento de perfuração mais sofisticado, apenas um entre cada 1.000 projetos de exploração se torna uma mina em funcionamento, disse Peter K.M. Megaw, presidente da Imdex, uma firma de consultoria e contratação, com sede em Tucson, que ajuda empresas estrangeiras a explorarem no México.

“Há ouro em toda parte”, disse François Auclair, vice-presidente de exploração da Dia Bras Exploration, uma pequena empresa em Montreal. “Mas você precisa de condições físicas especiais para fazer com que seu depósito valha algo.”

Mas isto não impediu que a exploração ocorresse aqui. Por toda a Sierra Madre, tratores aplanam antigas trilhas rurais para criação de estradas até locais remotos e as pontas de diamante das sondas penetram em centenas de metros de rocha, coletando caminhões de amostras cilíndricas para testes.

Mesmo com sua longa história de mineração, esta terra é relativamente subdesenvolvida. O terreno difícil, os ataques dos índios e a instabilidade política tornaram a mineração uma atividade inconstante. O México proibiu o investimento estrangeiro em mineração por três décadas, abrindo o setor apenas em 1992, quando o Acordo de Livre Comércio da América do Norte foi negociado.

Agora, dizem os analistas, o México é um dos países mais atraentes no mundo para mineração -o 14º maior produtor de ouro, em comparação a 18º em 2006.

O novo mercado para os exploradores levantarem dinheiro para suas novas empresas fica a meio continente de distância destas montanhas onde a atividade vulcânica gerou ricos depósitos de ouro, prata, zinco e chumbo há 130 milhões de anos. A maioria das empresas levanta seus primeiros milhões para iniciar o mapeamento e testar seus achados na bolsa TSX Venture em Toronto.

Conhecidas no setor como juniores, elas se tornaram o braço de exploração do setor, disse Larry Segerstrom, diretor chefe de operações da Paramount Gold and Silver, uma júnior com sede em Ottawa que está explorando no Estado de Chihuahua.

Stanley, o analista, disse: “Há mais de mil mineradoras júnior listadas. A maioria delas é composta por dois sujeitos com uma idéia e que balizaram algum lugar”.

Às vezes elas exploram por conta própria, às vezes se aliam a outras pequenas empresas ou mineradores individuais que têm direito a alguma mina, mas que carecem do equipamento moderno e dos milhões delas.

Após gastar dezenas de milhões para mapear e então perfurar, as juniores podem formar uma joint venture com uma empresa maior caso os resultados pareçam promissores o bastante. Uma descoberta realmente grande chamará a atenção de uma mineradora global.

Como parte de seu argumento para atrair investidores, a Paramount Gold and Silver diz que a estrutura de suas recentes descobertas é semelhante a de outro projeto no Estado de Chihuahua, chamado Palmarejo. Os proprietários canadense e australiano de Palmarejo a venderam no ano passado por US$ 1,1 bilhão para a empresa americana Coeur d’Alene Mines.

Agora, a Paramount está gastando cerca de US$ 1 milhão por mês para explorar uma área de antigas minas no oeste de Chihuahua em busca de ouro e prata. A empresa levantou US$ 24 milhões no mercado no ano passado para financiar a exploração. “Muitas minas têm muitas vidas”, disse Bill Reed, vice-presidente de exploração. “À medida que os preços e as tecnologias mudam, então elas se tornam economicamente viáveis de novo.”

Mas pode levar anos. A Minefinders, uma pequena empresa com sede em Vancouver, iniciou a exploração em 1994, perto de uma mina que foi explorada no início do século 20. A produção de ouro e prata será retomada na mina ainda neste ano.

“A Minefinders desceu com o preço do ouro até o fundo do canal e com sorte subirá junto com ele”, disse Gregg Bush, vice-presidente de operações da mina.

A empresa teve que construir estradas de acesso por conta própria e levou anos para negociar com a fazenda comunal que era dona da propriedade. Entre os pagamentos em dinheiro e os investimentos, a Minefinders pagará aos fazendeiros US$ 17 milhões.

Os exploradores há moda antiga que ainda estão em atividade esperam que a nova corrida do ouro lhes beneficie também.

Após duas décadas de prospecção aqui, Jay Zebrowski, 64 anos, ainda dirige seu Chevrolet Suburban 1983 a cada dois meses, vindo de sua casa, perto de Denver, para checar a mina abandonada da qual ele e seu irmão geólogo são donos aqui.

Em uma versão contemporânea de “O Tesouro de Sierra Madre”, o clássico de 1948 do diretor John Houston, o ouro deixou os Zebrowskis próximas da ruína.

Quase todo o cerca de um milhão de dólares que investiram na mina veio de investidores que ainda não viram retorno. Endividado, Zebrowski se manteve em pé vendendo algumas de suas opções de exploração para a pequena empresa de Montreal, a Dia Bras Exploration, e para a gigante mexicana de mineração, a Industrias Penoles. A mina dos Zabrowskis, na parte inferior de uma encosta vizinha da cidade de Maguarichic, funcionou até os anos 40. Chamada La Poderosa, ela estava longe de poderosa quando eles reiniciaram a atividade nela no início dos anos 90.

“Não conseguíamos ouro de qualidade e nem encontrar o veio”, disse Zebrowski. Hoje, grande parte da estrutura da mina subterrânea está apodrecendo debaixo d’água. “Nós simplesmente ficamos sem dinheiro.”

Saqueadores levaram parte do equipamento de processamento que transforma o minério em concentrado de ouro e, no ano passado, uma nevasca provocou o colapso do telhado de zinco sobre o barracão de equipamento.

Os irmãos Zebrowski acabaram abandonando a mina e optaram por balizar áreas, na esperança de fechar acordos com empresas maiores. Com o colapso do mercado em 1997, eles tiveram que abrir mão de muitas opções, mas mantiveram as melhores, disse Zebrowski.

Eles possuem o direito de mineração sobre cerca de 14 mil hectares no norte do México, além da mina, que é guardada por um pastor.

Zebrowski espera vender mais opções para empresas que estão explorando aqui. A compra da opção lhes daria o direito de explorar por ouro e pagaria mais aos Zebrowskis caso um depósito venha a se transformar em mina.

“Parece que agora estamos com alguma sorte”, disse Zebrowski.

Ele fez uma pausa e acrescentou: “Bom, pelo menos a boa sorte está ao nosso redor”.

Fonte: The New York Times

Indignação com caricaturas de Maomé continua a perturbar a Dinamarca

Michael Kimmelman

“Creio que é o esconderijo número cinco”, disse um dia destes Kurt Westergaard, e era evidente que ele havia de fato se perdido.

No mês passado a polícia dinamarquesa prendeu dois tunisianos e um dinamarquês descendente de marroquinos sob a acusação de que pretendiam matar Westergaard, um dos 12 cartunistas cujas caricaturas de Maomé no jornal dinamarquês “Jyllands-Posten” geraram protestos, alguns deles violentos, por parte de muçulmanos de todo o mundo em 2006, e fizeram com que fossem oferecidas recompensas pelas cabeças de Westergaard e do seu editor, Flemming Rose. Desde então Westergaard (ele desenhou Maomé com uma bomba no turbante) vive escondido.

Os norte-americanos, para os quais a eleição parece ter se transformado em um esporte delirante e interminável, que monopoliza as suas atenções, acabaram não sendo os únicos a se esquecerem das caricaturas. Muitos dinamarqueses e europeus de outros países fizeram o mesmo. Eles estão chocados com as prisões.

Nos dias que se seguiram, 17 jornais dinamarqueses que se recusaram a publicar as caricaturas ofensivas dois anos atrás, declararam solidariedade a Westergaard e as imprimiram. Isto, naturalmente, provocou uma nova onda de fúria da Faixa de Gaza à Indonésia.

No Egito, o presidente do parlamento alegou que os dinamarqueses violaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A alegação pareceu um pouco exagerada, tendo sido feita apenas algumas semanas após o Parlamento Europeu, que também reclamou da nova publicação das caricaturas, ter condenado o Egito devido à terrível situação daquele país no que se refere aos direitos humanos.

Enquanto isso, as demandas no Afeganistão pela retirada imediata das tropas dinamarquesas que servem sob o comando da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e o rompimento das relações diplomáticas com a Dinamarca fizeram com que o ministro dinamarquês das Relações Exteriores, Per Stig Moeller, afirmasse que está ficando difícil para ele “colocar as vidas dos soldados dinamarqueses em risco” para apoiar um país “no qual uma pessoa corre o risco de ser condenada à morte por defender os valores que acreditamos ser uma parte inseparável da democracia e do mundo moderno”.

Foi então que, quando tudo parecia ser apenas um problema dinamarquês, a confusão disseminou-se. Uma galeria de arte em Berlim foi fechada porque uma exibição de arte satírica por um grupo dinamarquês chamado Surrend, que anteriormente apresentou trabalhos zombando dos neonazistas, fez com que vários visitantes muçulmanos irados ameaçassem apelar para a violência a menos que um pôster mostrando a Caaba, o templo na Grande Mesquita de Meca, fosse removido.

Dois anos atrás, logo após a confusão original gerada pelas caricaturas, uma companhia de ópera berlinense cancelou apresentações de “Idomeneo” de Mozart quando a polícia alertou o grupo para o fato de que uma cena com a cabeça decepada de Maomé, entre outras figuras religiosas, representava um “risco incalculável” para os artistas e a platéia. Denúncias de autocensura irromperam por toda a Europa.

Mas, desta vez, o ministro do Interior da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, um político que tem trabalhado bastante no sentido de melhorar as relações com os muçulmanos na Alemanha, teria solicitado a outros jornais europeus que republicassem as caricaturas, algo que ele nega veementemente, o que não fez diferença para o jornal saudita “Al-Watan”.

“O ministro alemão tem que retirar imediatamente a sua declaração”, exigiu o “Al-Watan”. O jornal acrescentou que o racismo, e não a liberdade de expressão, estava por trás da política alemã. Afinal, os alemães não têm liberdade para “discutir o holocausto judaico”.

E todos sabiam o que essa observação significava.

Agora muitos europeus parecem ter perdido a paciência. Recentemente, durante um jantar em Copenhague, Rose, que criou uma espécie de segunda carreira a partir da confusão gerada pelas caricaturas, disse que tudo isso veio muito tarde, mas que era inevitável.

“Naquela época, em 2006, havia boas razões jornalísticas para que outros jornais publicassem os desenhos porque pouca gente os tinha visto, de forma que eram um fato novo”, disse ele. “Agora a justificativa jornalística é quase inexistente porque todos sabem como são as caricaturas, de forma que se trata mais de solidariedade do que de notícia”.

Ao contrário de Westergaard, Rose não mora em esconderijos, embora já tenha retirado há muito tempo o seu nome do catálogo telefônico local, além de ter descoberto que um outro Flemming Rose (aparentemente há vários deles na Dinamarca) decidiu mudar de nome.

“Não se tratou de zombar de uma minoria, mas sim de uma figura religiosa, o profeta muçulmano, de forma que a coisa diz respeito a blasfêmia, e não a racismo”, argumenta Rose. “A idéia de desafiar a autoridade religiosa conduziu à democracia liberal, enquanto que o ataque a minorias, enquanto minorias, levou ao nazismo e à perseguição da burguesia na Rússia. Assim, esta distinção é essencial para que se entenda o problema”.

Os anos que passou como estudante e como correspondente de um jornal na União Soviética modelaram a filosofia de Rose. “Lá eu vi como o conceito de valores universais era crucial para a cultura dissidente, e constatei o que a censura significava”, afirma o jornalista. “Percebi que as diferenças de valores entre a sociedade ocidental e os soviéticos não eram relativas”.

Ele observa que os soviéticos tinham uma lei no seu código penal proibindo a difamação do estilo de vida soviético. “As leis contra blasfêmia nos países muçulmanos de hoje têm o mesmo objetivo de silenciar as vozes dissidentes”, diz ele. “A liberdade de discurso não se estende à difamação, à invasão da privacidade e ao incitamento à violência. Mas é necessário que se faça uma distinção entre palavras e imagens”, insiste ele. “As imagens estão abertas à interpretação, elas são diferentes das palavras”.

Westergaard vê o problema sob uma outra ótica: “As caricaturas sempre concentram e simplificam uma idéia, e permitem que haja uma impressão rápida que provoca alguma sensação forte”.

Ele recorda-se de uma charge que fez anos atrás para complementar um artigo defendendo os palestinos contra os israelenses: “Não fiz aquilo porque era a minha crença, mas sim porque o meu trabalho era ilustrar as idéias contidas no artigo, e eu mostrei um palestino usando uma estrela de Davi amarela com a inscrição ‘árabe’”. Ele continua: “Muita gente me ligou para protestar. Um homem disse que eu tinha abusado de um símbolo judaico. Conversamos muito tempo e finalmente aceitamos os pontos de vista mútuos”. Ele diz que a conversa foi o que importou.

Será que daquela vez ele foi longe demais?

“Olhando para trás, talvez eu devesse ter feito uma caricatura que não contivesse a estrela amarela”.

Mas por que Maomé sim, e uma estrela não?

“Porque milhões de judeus morreram em campos de concentração usando aquela estrela”.

O que é obviamente a resposta errada para aqueles que colocaram a cabeça dele à prêmio. “Sempre fui ateu, e ouso dizer que esses acontecimentos só intensificaram o meu ateísmo”, diz ele. “Mas o mesmo choque ocorreria cedo ou tarde devido a algum livro ou peça teatral. Era algo que estava para acontecer”.

Ele trouxe uma charge que revisou recentemente. Nela, Jesus, usando terno e gravata, desce da cruz na qual há um cartaz pendurado com a inscrição: “Horas de serviço: domingo, das 10h às 11h e das 14h às 15h”. Recentemente Westergaard acrescentou um imame olhando Jesus se afastar.

Ele concordou em se encontrar com a reportagem no “Jyllands-Posten”, o jornal do qual está agora semi-aposentado. Alto, de ombros largos, com uma barba mesclada de tons claros e escuros, aos 72 anos ele parece ser um marinheiro escandinavo saído de uma peça teatral, mas usando, como sempre, calças vermelho-bombeiro, um cachecol estampado e uma capa preta Sargent Pepper – claramente um ato de desafio estilístico. Quando é perguntado a respeito da abordagem geral de Westergaard nos últimos dois anos, Rose, com medo, diz: “Calma”.

A maior parte dos doze chargistas é mais velha, e, como Westergaard, está mais próxima do espírito da geração de 1968 do que do relativismo cultural de gerações posteriores. Social-democrata, Westergaard foi diretor de uma escola para crianças portadoras de deficiências graves antes de tornar-se chargista. Ele gosta de observar que Himmerland, a região da Dinamarca na qual nasceu, era a terra de uma raça de guerreiros: “Entre os cruzados havia também dinamarqueses”.

Ele sabe que este é um comentário pesado. “Esta é uma nova cruzada, ou o que?”, questiona.

E a seguir ele próprio responde: “Na Dinamarca existe uma cultura de radicalismo, um ceticismo com relação à autoridade e à religião. Isso faz parte do nosso caráter nacional. Anos de relativismo, durante os quais os dinamarqueses sentiram que não tinham o direito de pedir a ninguém que vivesse como nós, terminaram com as charges”, diz ele. Mas ele está menos convicto do que Rose em relação ao grau de progresso, admitindo que os recentes ganhos por parte do partido antiimigração “são um retrocesso infeliz provocado por tudo isso”.

Atualmente ele está acostumado a ser (e, talvez, quem pode dizer, até mesmo goste desse status) uma celebridade acidental surgida em um palanque improvisado.

“A discordância é parte essencial da democracia”, diz ele. “Quero explicar a minha percepção desse embate entre duas culturas porque tenho netos que crescerão nesta sociedade multicultural. Os dinamarqueses são um povo tolerante. Eles não merecem ser tratados como racistas”.

Ele acrescenta: “Isto é algo que continuará pelo resto da minha vida, estou certo disso. Nunca me livrarei desse problema. Mas sinto mais raiva do que medo. Sinto raiva porque a minha vida está ameaçada, e sei que não fiz nada de errado, apenas fiz o meu trabalho”.

“A raiva é a melhor terapia”, conclui Westergaard, com um sorriso.

Fonte: The New York Times

Homem moderno deu o golpe fatal nos mamutes

A mudança climática favoreceu a extinção há 3.700 anos

Malén Ruiz de Elvira

Os mamutes, esses elefantes lanudos de dentes curvos que se transformaram em um ícone da fauna pré-histórica, sobreviveram durante centenas de milhares de anos às alterações das condições climáticas. Mas não conseguiram sobreviver a uma combinação fatal: os efeitos da última mudança climática e a caça por parte do homem moderno (Homo sapiens), segundo concluíram cientistas espanhóis que combinaram pela primeira vez a história do mamute eurasiático, através da distribuição dos fósseis encontrados, com os modelos que reproduzem o clima há 126 mil anos.

O trabalho de David Nogués e seus colegas parece pôr um ponto final em um longo debate sobre o papel relativo de cada um dos fatores simultâneos -o aquecimento global e a caça- para a extinção do mamute. A conclusão do estudo, financiado pela fundação BBVA e publicado na revista “PLoS Biology”, é que a causa primária da extinção foi a perda do habitat devido ao aumento das temperaturas. Mas, como esse aquecimento facilitou a migração humana para o território em que os mamutes sobreviviam, a caça representou a extinção da espécie.

Os pesquisadores salientam que estudos como este, que utilizam simulações para prever o passado, permitiram refinar as previsões dos efeitos da atual mudança global em curso, incorporando a ação do homem sobre os ecossistemas. “Podem nos oferecer informação muito útil sobre os processos finais que provocam as extinções, e, portanto, ajudar a compreender melhor quais podem ser os futuros impactos da mudança climática sobre a biodiversidade”, explica Nogués, do Museu Nacional de Ciências Naturais.

Miguel Araújo, outro participante do trabalho, também do citado museu, dá um exemplo concreto: “Em Portugal pretendem construir dez represas em reação à mudança climática, mas ficarão em regiões que sabemos que foram refúgios climáticos da fauna no passado. Ao inundar essas áreas, pode-se impedir que as espécies se adaptem às mudanças e conduzi-las à extinção”.

Os especialistas começaram a se perguntar sobre as causas da extinção do mamute eurasiático (uma só espécie, Mammuthus primigenius) praticamente desde que se descobriu o primeiro fóssil, em 1806. Os restos mais modernos de mamute datam de apenas 3.700 anos e foram encontrados na ilha de Wrangel, na costa ártica da Sibéria, onde se acredita que se refugiaram os últimos exemplares quando o aquecimento global aumentou há 6 mil anos.

Os mamutes não foram, porém, os únicos grandes mamíferos extintos naquela época. Na América do Norte, onde havia duas espécies de mamutes, também desapareceram quase todos os grandes mamíferos. O pico de extinção há cerca de 12 mil a 14 mil anos também foi relacionado por alguns com o homem como predador, lembra Jesús Rodríguez, outro pesquisador que realizou trabalhos sobre o mamute. Na Europa foram extintos, entre outros, o alce irlandês, um cavalo pequeno, o leão, a hiena e o rinoceronte lanudo.

Ao prever através de modelos a distribuição dos mamutes e o clima existente em diversas épocas -há 126 mil, 42 mil, 30 mil, 21 mil e 6 mil anos-, os pesquisadores descobriram que os mamutes, adaptados ao frio, já estiveram à beira da extinção na primeira época citada, também pela redução de seu habitat devido ao aquecimento. Sobreviveram e coexistiram com os humanos neandertais. Mas ao voltar o aquecimento eles perderam seu nicho climático e a densidade de exemplares baixou, deixando-os mais vulneráveis, explica Rodríguez, que trabalha no Centro Nacional de Pesquisas sobre a Evolução Humana. Enquanto isso, estendia-se pela Eurásia nossa espécie, o homem moderno, com maior capacidade de matar à distância (com flechas e lanças) e um comportamento mais complexo de ação em grupo. Os pesquisadores calculam que afinal, há 6 mil anos, se cada ser humano matasse um exemplar a cada três anos bastaria para levar a espécie à extinção.

Na verdade não se encontraram provas de que os neandertais caçavam mamutes, enquanto há vários indícios em relação ao Homo sapiens. Inclusive se acredita que estes chegaram a construir cabanas com ossos de mamute.

Devido à abundância de restos bem conservados em terrenos permanentemente gelados, sabe-se muito sobre os mamutes e inclusive se recuperou seu material genético. Seu DNA indica que estão mais relacionados aos atuais elefantes indianos do que aos africanos.

Fonte: El País

Sinais de estagflação da economia aumentam nos Estados Unidos

Graham Bowley

Ultimamente, muitas pessoas estão ouvindo um eco -talvez levemente, mas claramente audível- da estagflação dos anos 70.

Enquanto cai o crescimento econômico, os preços do petróleo e da gasolina estão atingindo novas altas recordes. O ouro está valorizando, juntamente com os preços de commodities básicos como trigo e aço. E na quarta-feira, com o mais recente relatório do governo sobre os preços ao consumidor, há sinais de que a inflação em geral, após anos de aumentos apenas modestos, pode estar acelerando.

Para o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e seu presidente, Ben S. Bernanke, tudo isto não poderia vir em pior momento. Com os mercados de crédito em desarranjo após o estouro da bolha imobiliária, Bernanke está reduzindo as taxas de juros em uma tentativa de conter os riscos de recessão.

Mas ao enfatizar acima de tudo a retomada do crescimento, o banco central americano, segundo alguns economistas e até mesmo alguns poucos diretores do Fed, poderá enfrentar um problema maior de inflação mais à frente.

“Eles estão reduzindo os juros com uma conta que será paga mais à frente”, disse John Ryding, economista chefe para os Estados Unidos da Bear Stearns. “A pergunta não é, nós teremos inflação, mas quanto custará para recolocar o gênio na garrafa. Isto parece a estagflação dos anos 70.”

Nos últimos 12 meses, os preços ao consumidor subiram em média 4,3%, segundo o Departamento do Trabalho. A inflação no núcleo do índice de preços ao consumidor, que exclui alimentos e combustíveis, foi 2,5% maior do que em janeiro do que no ano anterior, significativamente acima da zona de conforto não oficial de 1% a 2% de índice de inflação. Isto está longe das taxas de inflação de dois dígitos que às vezes agrediam a economia nos anos 70, mas ainda assim é preocupante.

Analistas como Ryding dizem que ao tolerar esses aumentos de preço e até mesmo permitir que acelerem, o Fed está colocando em risco sua credibilidade duramente conquistada como combatente da inflação, que no final exigirá um aumento maior do que o habitual das taxas de juro para conter os danos.

A maioria dos economistas ainda espera que o comitê de política do Fed cortará novamente as taxas de juros quando se reunir em 18 de março, aquela que seria a sexta redução desde setembro. Mas os temores de uma volta da inflação ressaltam as decisões difíceis que o banco central agora enfrenta.

Como o Fed, os economistas geralmente se preocupam mais com a ameaça imediata de recessão do que com o temor mais distante de uma inflação mais alta. Dados recentes sugerem uma economia que pode estar em desaceleração ou próxima disto. O consenso é de que a desaceleração esperada provavelmente criará bastante capacidade ociosa para sugar as pressões inflacionárias para fora da economia.

Além disso, mesmo se alguma inflação adicional for um efeito colateral da prescrição do Fed, dizem muitos economistas, ela certamente é melhor do que a alternativa. Assim que as reduções das taxas de juros tiverem cuidado da economia durante os próximos trimestres difíceis, eles dizem, o Fed poderá aumentar facilmente os juros de novo em resposta a qualquer aceleração da inflação.

“Eles cuidarão do ferimento agora”, disse David Durst, estrategista chefe de investimento do Global Wealth Management Group do Morgan Stanley. “Eles cuidarão da situação do crescimento e então combaterão a inflação quando a economia estiver mais forte.”

Reforçando esta visão, há poucos sinais de que a inflação está se infiltrando no mercado de trabalho e elevando os salários em antecipação a futuros preços mais altos.

Isto pode ser reconfortante para o Fed, mas manter a inflação contida ainda assim poderá não ser fácil. Nos últimos dias, alguns diretores do banco central não mediram esforços para alertar que não estão preparados para baixar a guarda -mesmo que isto signifique que o Fed precise ser menos agressivo nas reduções das taxas de juros.

Em um discurso neste mês, Richard W. Fisher, presidente do Federal Reserve Bank de Dallas, disse que “o Fed precisa ser bem cuidadoso agora em adicionar a quantidade certa de estímulo à tigela de ponche, sem aumentar o potencial de inflação assim que o efeito do novo ponche se faça sentir”.

Charles I. Plosser, presidente do Federal Reserve Bank da Filadélfia, repetiu essa visão, dizendo em um discurso que “não podemos confiar que uma economia em lento crescimento, no início de 2008, reduzirá por si só a inflação”.

“Como aprendemos com a experiência dos anos 70″, acrescentou Plosser, “assim que o público perde a confiança no compromisso do Fed com a estabilidade dos preços, custa muito caro à economia o Fed reconquistar essa confiança”.

Em uma entrevista por telefone, Plosser explicou que o Fed pareceu fazer progresso contra a inflação na primeira metade de 2007, mas que começou a ficar mais preocupado durante a segunda metade.

“Desde a metade do ano, quase todos dados de inflação que vimos começaram a acelerar de novo, e em alguns casos acentuadamente”, disse Plosser. “Talvez as pressões inflacionárias sejam mais amplas do que apenas a energia.”

Apesar de Plosser ter dito que espera que a inflação se mantenha moderada por conta própria, “nós temos um mandato duplo -a estabilidade dos preços e o crescimento”.

“Nós não podemos jogar um deles pela janela quando é conveniente.”

Para Bernard Baumohl, diretor administrativo do Economic Outlook Group, essa conversa é vista em Wall Street como uma tática esperta visando influenciar as expectativas inflacionárias para baixo enquanto o Fed continua reduzindo os juros por mais algum tempo.

“Nós esperamos que os diretores do Fed aumentarão a retórica, nos discursos e depoimentos, de que trabalharão diligentemente para manter as expectativas de inflação sob controle”, Baumohl escreveu para os clientes após a divulgação dos mais recentes números do índice de preços ao consumidor na quarta-feira. “Meras palavras, certamente. Mas seria um erro considerá-las vazias.”

Zach Pandl, um economista da Lehman Brothers, disse que as declarações até o momento foram de diretores menos importantes do Fed e que a verdadeira visão do Fed deve ser avaliada por suas ações, que são reduções agressivas de juros com menor preocupação com a inflação.

Essas ações levaram vários economistas a alertarem que as medidas agressivas de alívio do Fed, combinadas com a forte demanda por commodities industriais e agrícolas por parte de potências globais emergentes como a China e a Índia, podem estar preparando o terreno para uma nova era de crescente inflação.

“O período de queda da inflação que tivemos nos anos 80, 90 e início dos anos 2000 chegou ao fim”, disse Michael Darda, economista-chefe da MKM Partners, uma corretora e firma de pesquisa em Greenwich, Connecticut. “Ela acabou.”

Darda apontou para o aumento dos preços dos commodities, incluindo alimentos e petróleo. As taxas de juros de longo prazo estão subindo no mercado de títulos, refletindo a visão de que tanto o crescimento quanto a inflação poderão acelerar neste ano e em 2009, assim como os temores com dívidas ruins.

E, segundo Pandl, uma medida das expectativas de inflação dos investidores é fornecida pelo fato da diferença entre o rendimento dos títulos normais do Tesouro e os títulos protegidos contra inflação do Tesouro “ter apresentado um salto bem alto” depois que o Fed reduziu os juros em janeiro, apesar de “estarem sendo negociadas bem mais baixo de lá para cá”.

E há o ouro, que historicamente é um refúgio para investidores que procuram proteção contra desvalorização das moedas.

O ouro “está subindo desde que o Fed começou a reduzir os juros”, disse Darda. “Este é um sinal preocupante. Assim que estivermos em 2009 e 2010, nós descobriremos que a inflação é bem menos benigna.”

Fonte: The New York Times