Daily Archives: 18/04/2008

Futuro depósito de lixo nuclear divide Estado americano

Gaëlle Dupont

“É claro, vocês podem vir para Yucca Mountain quando quiserem; assim vocês poderão verificar até que ponto este lugar fica longe de tudo”, disse de chofre Allen Benson, o diretor de relações exteriores da organização encarregada da administração dos detritos radiativos americanos. Foi marcado um encontro, portanto, no escritório da organização em Las Vegas, a capital econômica do Estado de Nevada e capital mundial da jogatina. O futuro local de estocagem dos detritos nucleares americanos fica a uma hora e meia de estrada. A região tem uma vocação a lidar com atividades ligadas ao setor nuclear: o local ocupa parte da antiga zona de testes atmosféricos e subterrâneos da bomba atômica. Após termos passado por várias barragens de segurança, aparece a Yucca Mountain, uma montanha que surgiu há 12 milhões de anos de uma erupção vulcânica. A aresta culmina a 1.507 m. Por todos os lados nos arredores, a pedra é roxa e a vegetação amarela; nós estamos em algum ponto do deserto.

É aqui que o governo federal decidiu enterrar o combustível já utilizado, gerado pela centena de centrais nucleares americanas, que fornecem 20% da eletricidade do país, e os detritos provenientes de atividades militares. Alguns produtos de fissão permanecerão radiativos ao longo de milhões de anos. “O objetivo é de isolá-los de maneira permanente”, explica Allen Benson. “A nossa intenção é fazer com que, depois de algumas centenas de anos, este depósito possa ser fechado e que ele não precise mais ser vigiado”. O que terá advindo dos Estados Unidos depois de tanto tempo? Ninguém é capaz de imaginar, “mas o que importa é que até lá, as pessoas permaneçam protegidas”, proclama Benson.

Segundo informa o Departamento da energia, a área de Yucca Mountain foi escolhida porque está “afastada e segura”. O lixo nuclear ficará armazenado dentro de 65 quilômetros de galerias subterrâneas, a 300 metros abaixo do nível da superfície, e a 300 metros acima do lençol de água subterrâneo. O contato entre a água e o combustível gasto precisa ser evitado a qualquer custo, uma vez que o elemento líquido é propenso a transportar os nuclídeos radioativos. “Aqui, a média anual das precipitações é de 16 centímetros. A maior parte desta água evapora ou é absorvida pela vegetação”, prossegue Allen Benson. “Além disso, a água que se infiltra não está conectada a nenhum lago, rio ou oceano”. O lixo nuclear será armazenado dentro de 11 mil cilindros de liga composta por vários metais, que poderão vir a serem recobertos ainda por uma proteção suplementar de titânio. “O conjunto desses equipamentos não começara a enferrujar antes de 80 mil anos”, afirma o comunicado do Departamento da energia.

Os habitantes de Nevada e seus eleitos apresentam uma versão muito diferente desta história. O que eles chamam ironicamente de “Screw Nevada Bill” (a “lei que enganou Nevada”) foi promulgada em 1987. “Havia um outro local para armazenamento possível, no Texas, que contava 29 eleitos no Senado e na Câmara dos Representantes, e mais um no Estado de Washington, que contava 18 eleitos”, relata Steve Frishman, um oficial que foi encarregado deste dossiê pelo Estado de Nevada. “Nós tínhamos três eleitos, e nenhum poder”. Segundo os militantes que lutam contra o projeto, se os critérios técnicos tivessem sido levados em conta, a área de Yucca Mountain teria sido desqualificada. “Todos sabem que a água se desloca através da rocha, que está repleta de falhas e de fraturas”, afirma Judy Treichel, uma opositora histórica do projeto. “Tudo vai depender da solidez das proteções de metal. Mas, como poderemos ter a segurança de que elas resistirão à corrosão, nas escalas de tempo que estão sendo consideradas?”

Desde 1987, a população de Las Vegas, uma metrópole cuja taxa de crescimento é a mais elevada dos Estados Unidos, passou de 700 mil para 2 milhões de habitantes. Ela acolhe 39 milhões de visitantes por ano. O prefeito chegou a afirmar que os comboios de combustível gasto precisariam antes passar por cima do seu corpo para conseguirem atravessar a cidade. Os índios Shoshone também apareceram para reforçar esta linha de frente. Segundo eles, Yucca Mountain está situado num território que é da alçada da sua soberania.

Contudo, o opositor mais encarniçado é o senador de Nevada Harry Reid, que se tornou em 2006 o líder da maioria democrata no Senado. “Las Vegas encontra-se em pleno desenvolvimento; um acidente teria conseqüências sanitárias e econômicas consideráveis”, comentam assessores no escritório do senador em Washington. “Além disso, é arriscado demais transportar a mais perigosa de todas as substâncias conhecidas na terra pelas ferrovias e as estradas do país”.

“O nosso senador é poderoso o suficiente para operar cortes todos os anos no seu orçamento”, comemora Steve Frishman. Em 2008, o orçamento da organização que administra o lixo radioativo será de US$ 386 milhões (cerca de R$ 660 milhões), contra os US$ 495 milhões (R$ 845 milhões) que haviam sido pedidos, o que equivale a 500 empregos a menos. Com isso, a atividade em Yucca Mountain está no ponto morto. “Havia centenas de pessoas que trabalhavam aqui; atualmente, elas não passam de uma dezena”, lamenta Allen Benson. O túnel de teste que deveria servir de porta de entrada para o centro de armazenamento, e cuja construção foi concluída em 1987, não pode mais ser visitado: a organização não dispõe mais dos meios para arcar com os custos nem da iluminação, nem da ventilação.

Por conta da “guerra de guerrilha” judiciária e política que vem sendo travada pelos opositores, os atrasos vão se acumulando. Conforme estipulava o projeto inicial, o depósito deveria ter começado a funcionar em 1998. Se ele conseguir superar todas as etapas daqui para frente, ele será inaugurado em 2020, no melhor dos casos. E, mesmo assim, o assunto não estará encerrado. Isso porque todos os detritos nucleares que se acumularam em território americano ao longo dos últimos sessenta anos mal caberão no local. É preciso desde já prever um aumento da sua capacidade.

Enquanto isso, a fatura vai ficando cada vez mais salgada. Cerca de US$ 11 bilhões (cerca de R$ 19 bilhões) foram gastos no projeto até o momento. As companhias produtoras de energia, que vêm contribuindo para o orçamento da organização e que, por enquanto, seguem obrigadas a estocarem o seu lixo nuclear em 121 centros de produção, já começaram a exigir indenizações perante os tribunais. O Estado federal já ressarciu algumas delas, pagando-lhes US$ 300 milhões (aproximadamente R$ 511 milhões).

A eleição presidencial de novembro poderá ser decisiva para definir qual será o destino final do depósito de Yucca Mountain. Os pré-candidatos democrata Barack Obama e Hillary Clinton adotaram a mesma posição, afirmando que eles questionariam a viabilidade do projeto caso eles sejam eleitos, ao passo que o candidato republicano John McCain o apóia. Por sua vez, David Hassenzahl, o diretor dos estudos ambientais na universidade de Las Vegas, lamenta que o debate entre os que são a favor e os que se opõem ao depósito de Yucca Mountain seja “muito pouco elaborado”. “Nós deveríamos colocar novamente em discussão as alternativas possíveis, as quais incluem a estocagem vigiada nos próprios centros de produção”, afirma o pesquisador. “Nós deveríamos também voltar a discutir a questão do setor nuclear e das melhores energias para o futuro. Mas nunca ninguém discute esses assuntos. A política energética se resume a um enfrentamento entre lobbies”.

Fonte: Le Monde

Buscando o reconhecimento de trabalhadores desaparecidos na guerra

Thomas Fuller

Os grupos de turistas estrangeiros que visitam a cidade de Kanchanaburi, no oeste tailandês, normalmente vão direto pra a famosa ponte sobre o rio Kwai e para os bem cuidados cemitérios que contêm os restos mortais de milhares de prisioneiros de guerra Aliados que morreram construindo uma ferrovia no país durante a Segunda Guerra Mundial.

Quando vão parar no tranqüilo bairro onde mora Urai Bosap é porque provavelmente pegaram o caminho errado. Nenhum memorial atesta os horrores que aconteceram aqui há seis décadas, apenas uma pequena plantação de babaneiras e limeiras espremida entre os condomínios murados das famílias abastadas.

Cemitério de Kanchanaburi guarda os corpos dos milhares de prisioneiros de guerra

Mas Urai, 78, sabe bem mais que isso. Ela se recusa a comer as frutas do pomar porque quando era adolescente viu os corpos de centenas de trabalhadores asiáticos famintos serem jogados em valas comuns onde hoje estão as árvores.

“Às vezes as pessoas ainda não estava mortas”, diz Urai, com os olhos se espremendo com a memória. “Alguns ainda gemiam quando eram jogados no buraco.”

A construção da às vezes denominada “Ferrovia da Morte” que liga a Tailândia a Burma, então ocupada pelo Japão em 1940, tornou-se um símbolo da crueldade infringida pelas tropas japonesas que almejavam conquistar as terras do leste asiático e além. Ainda assim, o maior grupo de vítimas da construção da ferrovia, um número estimado em 70 mil trabalhadores asiáticos, é pouco lembrado em Kanchanaburi, a cerca de 100 quilômetros de Bancoc.

Os restos dos mortos estão, na maioria das vezes, onde os japoneses os largaram: espalhados ao longo da ferrovia que hoje ainda é parcialmente usada.

Entre 200 e 300 mil trabalhadores asiáticos -ninguém sabe o número exato- foram recrutados à força pelos japoneses e por seus sucessores para trabalhar na linha férrea: tamis (povo que habita a região entre o sul da Índia e norte do Sri Lanka), chineses, e malaios da Malaia Britânica; burmaneses e outros grupos do território compreendido pela atual Mianmar, e javaneses provenientes de onde hoje é a Indonésia.

“É uma história praticamente esquecida”, diz Sasidaran Sellappah, um fazendeiro aposentado da Malásia cujo pai esteve entre os 120 trabalhadores tamis de um seringal que foram forçados a trabalhar na ferrovia. Apenas 47 sobreviveram.

Sasidaran, que ajuda a liderar uma campanha para conseguir reparações por parte do governo japonês, diz que já encontrou várias famílias que sabiam tão pouco sobre a ferrovia que não entendiam porquê seus pais ou avós foram para a Tailândia e nunca mais voltaram.

Por outro lado, a agonia dos 61.806 prisioneiros de guerra britânicos, australianos, holandeses e americanos que trabalharam na ferrovia, cerca de 20% dos quais morreram vítimas de fome, doenças e execuções, é lembrada em pelo menos uma dúzia de memoriais, documentada na história oficial dos governos envolvidos, e relatada na ficção “Ponte Sobre o Rio Kwai”, livro campeão de vendas de Pierre Boulle que inspirou o clássico filme de Hollywood de 1957.

Entre 200 e 300 mil trabalhadores foram recrutados à força para trabalhar na ferrovia

Os dois cemitérios de Kanchanaburi dedicados aos prisioneiros de guerra estão decorados com fileiras de arbustos floridos e são cuidados por 15 zeladores empregados em tempo integral. Eles lembram os memoriais da Normandia em homenagem aos soldados mortos na invasão do Dia D.

Muitos dos túmulos aqui estão gravados com epitáfios pungentes, como o do túmulo de H.S. McLeod, um sargento australiano de 34 anos de idade que morreu em 1943: “Um sorriso e um aceno, e ele se perdeu em estranho terreno.”

Os prisioneiros de guerra ocidentais são normalmente mantidos separados dos trabalhadores asiáticos. Eric Lomax, um prisioneiro de guerra britânico, lembra-se de ver “estreitas fileiras de asiáticos” que logo se transformaram em uma “enxurrada, uma maré de homens infelizes”.

“Mesmo naquela época, apesar do meu pouco conhecimento sobre a dimensão dos eventos que se abatiam sobre nós, era possível imaginar que esses infelizes trabalhadores morreriam em grande número e seriam as maiores vítimas da ferrovia”, escreveu Lomas em seu livro de memórias “O Homem da Ferrovia”, de 1995.

Tendo conquistado o sudeste asiático, os japoneses construíram a ferrovia para abastecer suas tropas enquanto forçavam o caminho em direção à Índia. A ferrovia havia transposto um terreno geográfico inconveniente, a Península Malaia, que obrigava as embarcações a navegarem mais de 3.000 quilômetros para ir de Bancoc até Burma. A viagem pela ferrovia não tinha mais do que 600 quilômetros.

Hoje, poucos moradores e um número cada vez menor de sobreviventes asiáticos, a maioria em seus 80 e 90 anos, são as únicas testemunhas remanescentes desses anos de doença, desnutrição, abuso e assassinatos.

Quando eles morrerem, uma importante parte da história morrerá com eles, diz Muthammal Palanisamy, uma ex-professora malasiana que encontrou doze ex-trabalhadores da ferrovia, a maioria tamis, e está compilando as memórias que eles têm do tempo da guerra para publicar um livro. Ela colocou anúncios em jornais em língua tamil pedindo para que os sobreviventes a contatassem, mas foram poucos os que responderam. Talvez pelo mesmo motivo que eles não tenham nenhuma memória escrita: a maioria não sabe ler nem escrever.

Os doze trabalhadores com os quais ela falou contam histórias semelhantes, diz ela. Os japoneses disseram a eles que a ferrovia era um projeto glorioso que ajudaria a libertar a Índia das garras dos colonizadores britânicos. Durante a penúria da guerra, alguns se ofereceram para ir por vontade própria, em troca de pagamentos. Outros foram forçados pelos japoneses.

Tongyu Chalawankumpi foi levado ainda adolescente da região onde hoje fica o norte da Malásia depois que os japoneses ofereceram à sua mãe um pagamento em dinheiro em troca de seu trabalho.

Tongyu passou dois anos martelando dormentes de ferrovia e quebrando pedras. A ferrovia, com cerca de 425 quilômetros de extensão e construída entre a floresta montanhosa infectada pela malária, teria sido um desafio mesmo para os mais modernos equipamentos de engenharia. Mas foi construída sobretudo por mãos humanas ou com a ajuda de elefantes, que, de acordo com um relatório japonês, eram mais bem tratados do que os trabalhadores.

Tongyu fugiu, temendo ser jogado vivo em uma vala comum. “Eu estava ficando doente e sabia que iria acabar no buraco”, disse ele em uma entrevista em sua casa, não muito longe de onde passa a ferrovia. Ele pulou no rio e flutuou com a correnteza por sete dias e sete noites, agarrado a um pedaço de bambu, antes de ser resgatado e abrigado por monges budistas.

Depois da guerra, o governo colonial da Malaia Britânica distribuiu US$ 1,5 milhão às viúvas e dependentes dos malaios que morreram construindo a ferrovia. O governo pós-independência da Malásia entrou num acordo geral de reparação com o Japão em 1967, aceitando vários milhões de dólares de indenizações.

Não está claro por que se sabe tão pouco no sudeste asiático sobre o papel dos trabalhadores asiáticos na ferrovia, especialmente levando-se em consideração a dimensão do sofrimento. Em muitos seringais malaios, os japoneses exigiam de cada família pelo menos um filho fisicamente capaz para o projeto.

Dos mais de 85 mil trabalhadores que saíram da Malaia Britânica, 33 mil morreram, mostram documentos japoneses da época. Ainda assim, pouco é dito sobre isso nos livros de história da Malásia. E o governo não tem feito nenhum esforço para encontrar e reclamar os muitos corpos que continuam nas florestas ao longo dos trilhos da ferrovia.

Worawut Suwannarit, professor de História na Universidade Rajabhat, em Kanchanaburi, passou décadas tentando aumentar a conscientização em relação aos trabalhadores asiáticos e chegou a uma dura e amarga conclusão. “Esse é o motivo pelo qual esses países são chamados de subdesenvolvidos, países de terceiro mundo”, diz ele. “Eles não se preocupam com seu povo”.

Outros culpam os britânicos -que colonizaram Burma e a Malaia, os dois países com maior número de trabalhadores na ferrovia, antes e depois da guerra -por não fazer nada para honrar os mortos.

O governo tailandês dá pouco incentivo para honrar as vítimas porque poucos tailandeses trabalharam na ferrovia. A razão para isso é que os japoneses temiam se opor aos seus anfitriões, que haviam assinado um acordo com o Japão permitindo a permanência e o trânsito de tropas em troca da preservação da soberania tailandesa.

Em 1990, uma organização beneficente tailandesa que ficou sabendo por parte de um morador de Kanchanaburi da possível existência de uma vala comum, cavou parcialmente a área onde hoje estão as bananeiras e as limeiras. Usando uma escavadora, equipamento que não é normalmente usado para escavações históricas, a equipe encontrou mais de 500 esqueletos. Depois que a Embaixada Australiana fez uma vistoria e determinou que os restos não eram de soldados aliados, o grupo beneficente levou os ossos para um crematório em Bancoc e os incinerou.

Isso deixou Worawut revoltado, ele argumentou com as autoridades locais para que o local das mortes fosse transformado em um museu e memorial em homenagem as trabalhadores asiáticos. “Eles nunca me deram uma resposta”, disse Worawut.

Sem nenhum patrocínio, ele removeu 33 esqueletos que havia desenterrado e fechou o buraco. “Acredito que ainda haja mais corpos lá -muitos”, disse. “Mas ninguém quer fazer nada a respeito”.

Ele confiou os esqueletos ao departamento histórico da província de Kanchanaburi para serem guardados em segurança. Em fevereiro, Worawut, acompanhado de um repórter, voltou ao escritório do departamento para perguntar o que havia acontecido com os esqueletos.

Ele foi cumprimentado por Pichit Rongrithikrai, um dos gerentes do departamento, que disse que os ossos haviam sido descartados há cerca de três ou quatro anos porque os funcionários e os visitantes estavam reclamando do mau-cheiro. “Havia um odor rançoso”, disse Pichit.

Os ossos, segundo ele, foram enterrados por um funcionário da manutenção, não muito longe da pilha de compostagem.

Fonte: The New York Times

Guerra do Iraque custa quase US$ 5 mil por segundo

Nicholas Kristof

A guerra do Iraque está indo melhor do que o esperado, para variar. A maioria dos críticos, inclusive eu, desdenhou o que estava acontecendo: não prevíamos a melhora na segurança que resultou, em parte, do “avanço” feito no ano passado.

A melhora é real, porém frágil e limitada. Eis aqui o que ela conseguiu: diminuímos o número de mortos para os mesmos índices inaceitáveis que nos assombraram em 2005, e ainda não temos nenhum plano de retirada para os próximos anos – tudo isso por um custo total que cresce quase US$ 5 mil por segundo.

Pior que isso, apesar de o número de mortos ter diminuído, passamos a ter baixas na Flórida e na Califórnia. Os Estados Unidos parecem ter escorregado para dentro de uma recessão; os americanos estão perdendo suas casas, empregos e seguros de saúde; os bancos estão enfrentando problemas – e a guerra do Iraque parece ter agravado todas as aflições domésticas.

“A atual bagunça econômica está bastante relacionada com a guerra do Iraque”, diz Joseph Stiglitz, economista ganhador do prêmio Nobel. “No mínimo, a guerra contribuiu para o aumento dos preços do petróleo. Além disso, o dinheiro gasto no Iraque não estimulou a economia tanto quanto teria acontecido se esses mesmos dólares tivessem sido gastos no país. Para cobrir a fraqueza da economia americana, o Fed aprovou um fluxo de liquidez que, aliado a regulamentações frouxas, levou à bolha imobiliária e a um boom do consumo”.

Nem todos concordam que a conexão entre o Iraque e os problemas econômicos seja tão forte. Robert Hormats, vice-presidente da Goldman Sachs International e autor de um livro sobre como os Estados Unidos financiam as guerras, argumenta que a Guerra do Iraque é negativa para a economia, mas ainda assim é um fator menor na crise atual.

“Se é uma causa significativa da recessão atual?”, pergunta Hormats. “Eu diria que não. Mas o dinheiro poderia ter sido melhor utilizado para fortalecer nossa economia? A resposta é sim.”

Apesar das discordâncias, parece haver no mínimo uma ligação modesta entre os gastos no Iraque e as dificuldades econômicas nos EUA. Assim, ao discutir se devemos retirar nossas tropas do Iraque, a questão central deveria ser se a guerra é de fato o melhor lugar para investir US$ 411 milhões por dia do atual orçamento.

Já argumentei que permanecer indefinidamente no Iraque enfraquece nossa segurança nacional por dar poder aos jihadis – assim como sabemos que nossa presença militar na Arábia Saudita nos anos 90 foi, de fato, contraproducente por ter fortalecido o início da Al-Qaeda. Por outro lado, os que apóiam a guerra argumentam que uma retirada do Iraque seria um sinal de fraqueza e deixaria um vácuo de poder que os extremistas iriam preencher, o que é uma preocupação legítima.

Mas se você acredita que permanecer no Iraque faz mais bem do que mal, responda à seguinte questão: essa presença é tão importante que vale o preço de enfraquecer a economia norte-americana?

Com certeza os custos estimados da guerra são variáveis e controversos, em parte por que os US$ 12,5 bilhões por mês que estamos pagando para o Iraque são apenas a entrada. Ainda estaremos pagando indenizações por invalidez para os veteranos da guerra do Iraque daqui a 50 anos.

Em um novo livro, escrito com Linda Bilmes da Universidade de Harvard, Stiglitz calcula que o custo total, incluindo as contas de longo prazo, chega a cerca de US$ 25 bilhões por mês. Isso equivale a US$ 330 por mês para uma família de quatro pessoas.

Um estudo do Congresso feito pelo Comitê Econômico Conjunto descobriu que o valor gasto por dia na guerra do Iraque poderia colocar mais 58 mil crianças no programa Head Start (que ajuda crianças a entrarem na escola) ou fornecer bolsas Pell para que 153 mil alunos cursem a universidade. Ou então, se quiséssemos de verdade investir em segurança, um dia de gastos no Iraque seria capaz de financiar 11 mil agentes de patrulha de fronteira ou 9 mil policiais.

Imagine as possibilidades. Poderíamos contratar mais policiais e patrulheiros de fronteira, expandir o programa Head Start e reabilitar a imagem dos Estados Unidos no mundo financiando uma iniciativa global para reduzir a mortalidade materna, para erradicar a malária ou os vermes de todas as crianças da África.

Tudo isso gastaria menos dinheiro do que um mês de guerra no Iraque.

Além disso, o governo Bush financiou essa guerra de uma forma que enfraquece a nossa segurança nacional – emprestando dinheiro. Cerca de 40% da dívida gigantesca será cobrada pela China e outros países estrangeiros.

“Esta é a primeira grande guerra da história americana em que todos os custos adicionais foram pagos com empréstimos”, escreve Hormats. Se os que apóiam a guerra do Iraque acreditam que ela é tão essencial, deveriam então estar dispostos a pagar por ela em parte através de impostos, em vez de empréstimos.

De qualquer forma, agora ou mais tarde, teremos de pagar a conta. Stiglitz calcula que o custo total da guerra possivelmente ficará em torno de US$ 3 trilhões. Para uma família de cinco pessoas como a minha, isso representa uma conta de quase US$ 50 mil.

Não sinto que meu dinheiro esteja sendo bem empregado.

Fonte: The New York Times

Aquecimento global: efeitos para a vida

Ana Claudia Mielki

Calor quando deveria fazer frio, chuvas fortes em poucas horas, inundações, secas onde a paisagem costumava ser alagada, queimadas, aumento de doenças respiratórias. Esses são alguns sintomas da perturbação do clima sentidos, sobretudo, nas últimas duas décadas. Essa perturbação está associada ao que os cientistas estão chamando de aquecimento global.

Apenas nas últimas duas décadas, a temperatura do planeta subiu quase 0,8 graus. Foi o que mostrou o relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPPC), órgão das Nações Unidas responsável por produzir informações científicas sobre meio ambiente. Segundo os cientistas, para manter a qualidade de vida atual, a temperatura do planeta não pode subir 2º graus. O relatório foi divulgado esse ano e está gerando uma reflexão em nível mundial sobre o futuro do planeta.

Em entrevista o professor Carlos Walter Porto-Gonçalves, doutor em geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do programa da pós-graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF), nos fala sobre as conseqüências do aquecimento para o meio ambiente e a vida das pessoas. Segundo ele, é preciso construir um consenso acerca da superação do atual modelo de desenvolvimento econômico, cuja matriz energética é baseada em combustíveis fósseis. No entanto, diz ele, “a gente tem que desconfiar de soluções únicas para problemas complexos” como é o caso dos agrocombustíveis.

Quais são as principais causas do aquecimento global?

Carlos Walter – O aquecimento do planeta é um fenômeno que ocorre em parte naturalmente, ou seja, já houve na história do planeta momentos mais frios e momentos mais quentes, um fenômeno natural de aquecimento e resfriamento. A novidade é que atualmente há um aquecimento global provocado pela mão do homem. Esse aquecimento está associado ao que deriva da matriz energética que se constituiu a partir da Revolução Industrial, com o uso do carvão e depois do petróleo. O debate recente que vem se colocando do aquecimento, é que ele estaria sendo provocado pelo aumento da emissão dos chamados gases de efeito estufa, gases que emanam a partir do uso da máquina a vapor e do uso dos combustíveis fósseis, como por exemplo, monóxido de carbono (CO), dióxido de carbono (CO2). Ou seja, o clima da terra estaria mudando não só como muda naturalmente, mas por intervenção humana.

E quais são as conseqüências desse aquecimento para o meio ambiente?

Carlos Walter – Os efeitos do aquecimento global não são geograficamente homogêneos no planeta. Por exemplo, um dos fenômenos que a gente está percebendo é a diminuição da espessura e da extensão das geleiras e das calotas polares, associada a essa diretamente, há o aumento do nível da água do mar. Então existem regiões litorâneas que podem vir a ser invadidas pelo mar em função da elevação do nível da água. Com o aquecimento global há também uma perturbação nos climas. Isso tem implicações, por exemplo, para os camponeses, que perdem a previsibilidade em relação às estações climáticas, que de alguma forma, a cultura camponesa construiu ao longo do tempo. O que não é qualquer coisa para quem vive da lavoura. Nas cidades há o problema das chuvas muito concentradas em poucas horas e em poucos dias. As chuvas estão ficando mais torrenciais e isso gera fenômenos de desmoronamento de encostas e alagações, com prejuízos enormes.

E quais seriam as conseqüências sociais e até mesmo sobre a saúde das pessoas?

Carlos Walter – O clima está mudando. A gente está exatamente num fenômeno de transição. Então ao mesmo tempo em que há dias de concentração de chuvas, há um fenômeno também de secas, que fazem parte desse processo de desequilíbrio climático. Em 2003 houve um problema que acabou atingindo os hospitais franceses. Foram dias tão quentes, que houve superlotação de hospitais por causa de problemas respiratórios e cardíacos agravados por situações de calor intenso. Tivemos pane, por exemplo, no sistema de energia na Inglaterra, e de tanto usar o ar condicionado, o sistema entrou em colapso nos EUA. São situações dramáticas, nesses casos, atingido populações idosas e crianças.

Quais são as populações mais prejudicadas pelos impactos do aquecimento?

Carlos Walter – Atingem, sobretudo, as populações mais pobres. São geralmente as populações mais pobres, as que moram em situações de risco, normalmente em lugares de mangues ou de encostas. Essas populações ficam mais expostas e cada vez mais vulneráveis. Por exemplo, há um aumento no número de tufões e furacões, que têm sido cada vez mais intensos. Existem aqueles furacões de nível altíssimo, mas houve um na República Dominicana [no final de outubro] que foi até chamado de tempestade tropical, com nível inferior ao de furacão, menos intenso, mas que fez uma devastação como se fosse um furacão do mais alto nível. Por que? São populações tão vulneráveis e tão pobres, que não precisa nem ser furacão, uma tempestade tropical já cria um grande desastre para essas pessoas. Essas tempestades tropicais, furacões e tufões têm sido cada vez mais numerosos, e eles têm atingido populações mais pobres, mesmo nos países ricos. Como foi a situação do furacão Katrina, em Nova Orlenas, nos EUA, que acabou revelando uma pobreza que na cabeça da maior parte das pessoas não existia nos EUA.

O que você acha dessas soluções “milagrosas” como os agrocombustíveis?

Carlos Walter – A gente tem que desconfiar dessas soluções únicas para problemas complexos. Quando se diz que os agrocombustíveis são uma alternativa ao aquecimento global não deixa de ser uma maneira oportunista de reconhecer aquilo que se vinha negando até aqui: que o aquecimento global é um fenômeno provocado pela intervenção da matriz energética. Já se sabe que no processo de produção dos agrocombustíveis há uma demanda enorme de combustíveis fósseis. Então se vai aumentar a produção desses combustíveis por meio de biomassa, haverá um aumento também no uso dos combustíveis fósseis, além de do aumento no uso de fertilizantes e de agrotóxicos, com contaminações da mais variadas. Então os métodos de produção dos agrocombustíveis têm sido métodos que até aqui têm sido altamente danosos ao meio ambiente. Além disso, há uma previsão, na melhor das hipóteses, que haja daqui a 20 ou 25 anos, o uso de até 20% do etanol misturado à gasolina. Mas a indústria do automobilismo faz projeção de um aumento em proporção bem maior da frota de automóveis. Então se não frear esse modelo de desenvolvimento individualista, que tem no automóvel uma referência, não vai resolver problema nenhum.

Isso traz alguma conseqüência para a questão agrária, para a produção de alimentos e para os camponeses?

Carlos Walter – Muda completamente os parâmetros do mercado de terras, a terra vira uma mercadoria na sociedade capitalista. Segundo a Única (União da Indústria da Cana-de-Açúcar), que reúne os grandes empresários do setor sucroalcoleiro, haverá no Brasil um aumento de 1 milhão de hectares para o plantio de cana, em 15 ou 20 anos até chegar em torno de 20 a 25 milhões de hectares só no plantio de cana. Até o ano de 2012 já estão previstas a construção de 77 novas usinas de cana, de acordo com dados da Única. Essas usinas são todas no eixo São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul, região onde existe a maior disponibilidade da chamada logística, infra-estrutura, desenvolvimento técnico científico, mão de obra disponível, energia, transportes e terras boas. No entanto, essas áreas também têm muita área de pastagem. Apenas no estado de São Paulo são 9 milhões de hectares de pastos, áreas que estão sendo visadas para expansão da cana e da soja. Ao colocar a cana no lugar do pasto, para onde é que vai o boi? Ora, vai para a região de fronteira, para a região da Amazônia. Em pesquisas que realizei este ano, constatei um aumento de 25 a 30% no preço do arrendamento da terra no norte de Mato Grosso. E isso tem implicações no custo da produção de alimentos, fica mais caro o arroz, o feijão e os outros cultivos. Então você tem uma reorganização completa do espaço brasileiro.

As conseqüências do aquecimento podem trazer uma nova dimensão para os conflitos econômicos e sociais?

Carlos Walter – Acredito que sim. Isso abre uma discussão importante. É preciso debater mais seriamente a questão agrária. Está na hora de assumir que a questão ecológica é fundamental no debate sobre Reforma Agrária, ou seja, a Reforma Agrária como parte de um projeto político para construir uma sociedade mais justa. Mais democrática na medida em que quando se democratiza o acesso a terra, há também uma melhor distribuição do poder. Essa também é uma discussão sobre o destino do planeta e da humanidade. Para que a humanidade tenha futuro, é preciso criar uma nova configuração para o debate da Reforma Agrária. O aquecimento global acaba criando uma oportunidade fantástica para que a gente rediscuta o sentido do uso da natureza. Nessa hora, surpreendentemente, o campesinato adquire um papel relevante. Para aqueles que acreditavam que o campesinato estava fadado ao desaparecimento, acontece o contrário. O campesinato, assim como as populações indígenas – que habitam as regiões que tem maior biodiversidade e fontes de água que não foram tocadas pelo avanço do capitalismo – passam a adquirir um papel central no debate sobre o futuro da humanidade.

Existem alternativas possíveis para resolver o problema do aquecimento do planeta?

Carlos Walter – Na Bolívia e na Venezuela existe um debate para barrar a questão dos transgênicos, e consequentemente, a monocultura, a lógica da indústria. Bolívia e Venezuela são países que estão se colando claramente contra o uso dessas sementes laboratorialmente produzidas e abrindo um debate para questões da agroecologia, porque há um entendimento da necessidade de que a produção se volte para garantir os abastecimentos cada vez mais locais, regionais. Essa discussão também questiona o complexo técnico-científico-financeiro-industrial-midiático que é a configuração de poder contemporâneo. A própria mídia é parte desse sistema. É uma burguesia de novo tipo, que opera em rede, é multidimensional, não opera naquela visão cartesiana, separada, tudo é um complexo só. É um holding, uma empresa que ao mesmo tempo tem setor químico, siderúrgico, de agrotóxicos, tem setor de banco, ao mesmo tempo tem ações no Carrefour, fazem parte de um mesmo complexo. No Caso do Brasil, em cada canto existem experiências extremamente interesses, mas que não se constituem num programa político nacional. São experiências ricas em agroecologia, bem sucedidas, envolvendo os camponeses, sua cultura, com produção, mas são projetos que ficam dependendo financiamento de uma ONG ou de uma igreja. Tudo meio precário, mas mostrando um potencial fantástico. Se houvesse políticas públicas isso propiciaria o abastecimento do mercado local. Então existem alternativas sendo apresentadas, mas elas precisam se constituir enquanto políticas públicas.

É possível resolver ou amenizar o problema do aquecimento do planeta? Como seria isso?

Carlos Walter – A discussão de uma outra sociedade é clara. Os males que nós estamos vivendo derivam todos do capitalismo. Então buscar uma sociedade para além do capitalismo é fundamental. Nós vivemos numa sociedade que transforma tudo em mercadoria, a terra e os seres humanos. Transforma cada um num átomo isolado individualístico. Se conseguimos mostrar isso, construir uma sociedade para além do capitalismo deve ser o nosso norte. Qual vai ser a sociedade que vai sair daí, eu diria que a humanidade é tão rica na diversidade cultural, que eu acredito que será capaz de encontrar diferentes caminhos. Eu queria preservar essa diversidade como um patrimônio do projeto da sociedade do futuro.

Fonte: MST

Felicidade se aprende na escola

Há pedidos para que felicidade seja ensinada nas escolas. Mas as tentativas de ensiná-la podem entrar em conflito com outras coisas que a escola deseja inculcar

Adam Phillips*

Se há uma coisa da qual estamos convencidos agora, é que somos criaturas em busca de prazer que querem minimizar a dor e a frustração em nossas vidas. Nós somos criaturas que, talvez diferente de qualquer outro animal, buscam a felicidade. Mas felizmente, e infelizmente, a outra coisa que sabemos é que o prazer, como a felicidade, não é tão simples como gostaríamos que fosse.

Discussões sobre o que torna uma vida boa, e se a virtude pode ser ensinada, são tão antigas quanto a investigação humana esclarecida. Mas a felicidade agora é uma coisa, e então precisamos ter alguma idéia do que a busca pela felicidade se trata; se a educação pode mudar uma pessoa (isto é, quão abertas as crianças estão às influências e de que forma); e o que a frase muito apreciada, “faça alguém feliz”, pode significar.

Como a felicidade é subjetiva -que o que nos torna felizes é um tipo de chave para nosso senso de nós mesmos- nós não precisamos definir. Nós não precisamos dizer para as pessoas o que elas já sabem. Mas as crianças estão no processo de descobrir pela primeira vez o que as torna felizes. Para isto, como para tudo mais, elas dependem dos adultos que cuidam delas. E há uma experiência fundamental ligada ao prazer que todo pai e professor tem com suas crianças: você não pode dizer para uma criança que não está tendo prazer, apenas dizer que não deveria.

Pense em uma criança pequena beliscando alegremente sua irmã mais nova, ou urinando no tapete. As crianças freqüentemente têm prazer com coisas que os adultos não querem que tenham prazer. Assim, se acreditarmos que a educação deve tornar a criança feliz, o que queremos dizer é: a educação deve torná-las felizes de formas que nós adultos aprovemos. Nós somos os donos da definição aceitável de felicidade.

Se a pergunta original -a pergunta de Platão- foi “a virtude pode ser ensinada?”, e ela se tornou “a felicidade pode ser ensinada?”, nós poderíamos nos perguntar qual é a diferença, qual seria a diferença entre a escola tentar tornar as pessoas boas e tentar torná-las felizes? Uma das diferenças mais óbvias é que ser bom nem sempre torna as crianças (ou adultos) felizes. Mas se a educação deve torná-las felizes, que tipo de moralidade ela vai ensinar, tanto implícita quanto explicitamente, a serviço deste ideal?

A escola teria que dizer a coisa paradoxal: nossas regras são feitas para ser quebradas porque nós sabemos que, pelo menos para alguns de vocês, apenas a transgressão os fará se sentirem plenamente vivos, e que para alguns esta é a única felicidade autêntica. Ao promover a felicidade na escola, nós estaríamos promovendo a emoção em vez da segurança, pelo menos para alguns. Nós diríamos -e isto poderia ser uma coisa boa- não evite situações que possam fazer você se sentir culpado, mas aprenda a suportar a culpa. Não se trata da promoção da felicidade em si promover o risco; mas ela confronta os adultos com a questão perene de se, e em que situações, preferem a segurança à emoção, ou vice-versa, para as crianças.

A busca da felicidade pode potencialmente dar tanto para crianças quanto professores uma visão moral mais complexa. Como os professores não podem saber de antemão o que tornará uma criança feliz, eles serão incapazes de construir e impor uma moralidade que tornará ele ou ela feliz. Seria um bom começo para iniciar a formação de nossa moralidade a partir do entendimento do que torna as pessoas felizes, em vez de uma forma de antecipar esta descoberta para elas.

A escola pró-felicidade seria na melhor das hipóteses uma escola pró-improvisação moral. Isto colocaria um fardo pesado mas interessante sobre os professores. A felicidade pode ser boa como um ideal porque muda nossos pontos de vista sobre a moralidade; ela permitiria que as crianças na escola tivessem uma versão mais intrigante do que a moralidade pode envolver. Mas a felicidade como uma exigência moral -você tem que ser feliz e está fracassando se não for- é perniciosa.

Se a pressão para ser feliz é incapacitante -o que a criança sob pressão para ser feliz fará com sua infelicidade?- a oportunidade de ser feliz, ou de encontrar o que a torna feliz, só pode ser uma coisa boa. Mas aproveitar as oportunidades de felicidade pode ser algo moralmente complicado, e pode envolver uma certa infelicidade (pense na criança na escola preferindo um amigo em vez de outro, ou querendo estudar matérias que seus pais desaprovam).

Os promotores da felicidade, por exemplo, freqüentemente subestimam quanta inveja a felicidade provoca, e quanto isto é um problema para os invejosos e invejados; a felicidade como um ideal se encaixa muito facilmente na crença contemporânea de que uma boa vida é simplesmente uma vida invejável. Assim, me parece que uma coisa que a educação pode fazer é ajudar as crianças a encontrarem uma linguagem que possa fazer justiça aos prazeres e problemas que a felicidade envolve -e fornecer um ambiente no qual possam começar a ter uma idéia dos conflitos nos quais a felicidade pode envolvê-los. Se, como John Lennon disse, a vida é o que acontece enquanto você está fazendo outros planos, então a felicidade é igual -talvez na mesma medida.

*Adam Phillips é um psicanalista e escritor.

Fonte: Prospect

Empresas de cosméticos voltam-se para as crianças

Camille Sweeney

Em recente tarde chuvosa, Eleanor LaFauci, 7, estava sentada com os dedos dos pés separados por espuma, admirando suas unhas recém pintadas de cor rosa-melancia.

“Veja, estou lendo uma revista de adultos”, disse Eleanor a sua mãe, alegremente acenando com uma cópia da “People” com Britney Spears distraída na capa.

Eleanor, estava no salão cor de chiclete Dashing Diva, franquia do spa de unhas internacional no Upper West Side, com sua irmã de três anos e meia dúzia de amigas. As meninas estavam celebrando seu aniversário com manicura, pedicura, maquiagem leve e pintura no corpo -estrelas, raios e, é claro, corações.

A mãe de Eleanor, Anne O’Brien, estava em pé assistindo e deu de ombros. “O que eu posso dizer?”, disse O’Brien, cujo marido sugeriu a festa. “Ela é uma menina mulherzinha. Não sei bem como isso aconteceu. Eu fiz minha primeira manicura aos 25 anos.”

Tradicionalmente, as jovens sempre brincaram com sombras da Mac ou base da Chanel, esperando adquirir uma onda de sofisticação. No passado recente, as meninas também passaram a acompanhar suas mães e irmãs adolescentes em expedições ao salão de beleza.

Hoje, contudo, as empresas e lojas de cosméticos cada vez mais dedicam produtos e serviços a crianças de seis a nove anos de idade, que estão sendo transformadas em consumidoras experientes antes mesmo de saírem do ensino fundamental.

“O mercado certamente cresceu, acho que devido a uma série de influências culturais”, disse Samantha Skey, vice-presidente de marketing estratégico da Alloy Media and Marketing.

Programas de reality show como “America’s Next Top Model” freqüentemente são voltados para a transformação de beleza das concorrentes, disse Skey. Em sites de redes sociais como Facebook e MySpace, o intenso foco dos membros em si mesmos e em como se apresentar também afeta as crianças de seis a nove anos, apesar de tecnicamente não terem permissão de montar seus perfis nos sites, acrescentou ela. “Moramos em uma cultura de celebridade instantânea”, disse Skey. “Nossas meninas agora crescem pensando que precisam estar prontas para a próxima foto, caso os paparazzi apareçam”.

O Sweet & Sassy, um salão de beleza que promove festas do Texas para meninas de cinco a onze anos, inclui serviço de limusine cor de rosa por US$ 150 (cerca de R$ 300). As franquias da Dashing Diva freqüentemente oferecem drinques sem álcool em copos de martini junto com seu esmalte extra-virgem -livre de substâncias químicas chamadas phthalatos- e uma série de serviços para a aniversariante suas amigas.

No Club Lybbly Lu, uma rede de lojas em shoppings comumente usada para festas, as meninas de qualquer idade podem misturar seu próprio brilho labial e vestir-se como seu ídolo pop. No ano passado, a rede fantasiou cerca de um milhão de meninas em suas 90 lojas em todo país, disse Ari Goldsmith, diretor de propaganda e marketing.

Muitas dessas foram de Hannah Montana, que envolvem perucas louras, maquiagem e roupa de palco como a cantora ídolo usa. Papai e mamãe podem capturar em vídeo as imagens da filha cantando.

Dezenas de resultados podem ser vistos no YouTube, inclusive uma série cuidadosa de “Rebecca como Hannah Montana”.

Há muito que as mulheres que vão se casar ou se formar usufruem dos serviços de beleza em grupo. Mas agora, as festas de beleza são populares até para meninas da primeira série.

Tracy Bloom Schwartz, planejadora de eventos da Creative Parties em Bethesda, Maryland, disse que encomendou convites com temas de beleza há dois anos. “Imaginei que os venderia para eventos para noivas ou formaturas” disse ela.

“Mas agora, os pais das meninas – freqüentemente de seis anos de idade- usam esses cartões como convite para as festas de aniversário de suas filhas no salão de beleza. E as meninas um pouco mais velhas, digamos, de oito a nove anos, usam para as festas em que se vestem de celebridades”, disse ela. “Algumas vezes eu fico querendo perguntar ‘maquiar o que?’”

Em um estudo do ano passado, 55% das meninas de seis a nove anos, disseram que usavam brilho ou batom e quase dois terços disseram que usavam esmalte, de acordo com a Experian, empresa de pesquisa de mercado com base em Nova York. Em 2003, 49% das meninas de seis a nove anos disseram que usavam brilho ou batom.

Analistas do mercado jovem dizem que isso faz parte de uma tendência chamada Kgoy, das iniciais em inglês para “crianças se tornando mais velhas mais cedo”, e observadores culturais descrevem um fenômeno concomitante, o dos pais mais indulgentes.

É um ponto que atormenta Rosalind Wiseman, autora de “Queen Bees & Wannabes”. “As mães e os pais fazem coisas realmente malucas com a melhor das intenções”, disse ela. “Não importa o que digam, se você permite que sua filha faça isso, você a está hiper-sexualizando. Uma coisa é elas brincarem de maquiagem em casa, dentro da bolha da família. Mas uma vez que isso é transferido para outro contexto, você está tirando a brincadeira e criando um consumidor. Francamente, você corre o risco de criar mais uma pessoa que sente que não é boa o suficiente se não estiver comprando as coisas”.

Há uma geração, as meninas tinham menos produtos para escolher. Agora, elas têm arte para as unhas; desodorantes perfumados e todo tipo de brilho para o rosto e pescoço, ombros e cabelo voltados para elas. Isso além do básico, como manteiga para os lábios, brilho e esmalte.

Esses produtos têm preços moderados para que os avós e pais possam comprar. Ou para que os muito jovens possam comprar com pouco mais que as moedas encontradas no sofá ou com sua magra semanada.

“A embalagem é chave”, disse Ricardo Cruz, gerente de marketing da divisão de jovens da Markwins International, empresa que licencia e fabrica uma linha de cosméticos da Bratz para presentes assim como sua própria marca, ACT. No pacote de maquiagem para meninas pequenas “não colocamos produtos para ampliar os lábios. São só coisas que as meninas podem testar com suas amigas,” disse Cruz.

Com questões mais importantes para se preocuparem, desde predadores online, consumo de fast-food e o dever de casa que precisa ser feito, os dez pais entrevistados para este artigo disseram que permitiriam que suas filhas participassem de uma festa de beleza.

“É claro, depende do seu ambiente, mas aqui, ouvi falar que até as escoteiras faziam esse tipo de evento de beleza”, disse Stacie Christopher, mãe de três em Chevy Chase, Maryland.

Ainda assim, sempre tem espaço para uma reação.

No último verão, quando a Bonne Bell e a Mattel anunciaram uma parceria para introduzir uma linha de produtos de beleza da Bonne Bell inspirados na Barbie, para meninas de seis a nove anos, no final deste ano, iniciou-se uma modesta tempestade na Internr. Um debate se seguiu no Jezebel, um blog de celebridades e moda, sobre a idade em que as meninas deveriam poder começar a usar maquiagem. Um comentador reduziu a uma simples fórmula: “Brilho aos 12. Qualquer coisa diferente de esmalte cor-de-rosa em qualquer menina com menos de dez anos não”.

Os cosméticos para meninas preocupam Lucy Corrigan, mãe de duas filhas, oito e 11, em Hastings-on-Hudson, Nova York. Ainda assim, no ano passado, ela permitiu que sua filha mais nova fosse a festas de beleza para meninas de 7 anos. “É claro, foi alarmante”, disse ela. “Mas prefiro que minhas meninas experimentem e decidam que não precisam de todos esses produtos para serem belas e depois façam algo mais vital com seu tempo, dinheiro e esforços, como escrever um poema ou fazer uma caminhada ou salvar o mundo.”

Fonte: The New York Times

A identidade da esquerda

Leandro Konder

A União Soviética naufragou , Fidel Castro se aposentou. A China aderiu de corpo e alma à economia de mercado. A esquerda está esfacelada.

Modificando um pouco os termos de Marx, poderíamos dizer: um espectro ronda todos os países e não é o espectro do comunismo. Passando de Marx à música popular brasileira, devidamente parodiada, temos a identificação do fantasma: é a direita assanhada, que passa sem graça, fazendo pirraça, mentindo, exigente, botando sossego na gente.

A direita incorre numa contradição: por um lado, acredita que a esquerda acabou e nunca mais vai voltar; por outro lado, acha que a esquerda sobreviveu e está mais perigosa do que nunca.

A esquerda é jovem, incômoda, briguenta. E faz reivindicações. A direita abomina os conflitos da luta de classes e faz concessões à massa dos trabalhadores. Quando a pressão social é grande, as conquistas da classe operária são mais significativas.

No Brasil, o nível de organização do povo é baixo, por isso as concessões têm sido precárias. Os salários são insuficientes, os serviços de educação e saúde deixam muito a desejar. A esquerda sabe que arrancar concessões significativas aos donos do poder é algo que só acontece muito raramente. A própria arma das eleições, embora seja importante, não resolve os problemas da exploração e da opressão.

Entre nós, os impasses da esquerda e a malandragem da direita criaram um espaço bastante peculiar: o golpismo. Nem a esquerda nem a direita souberam ocupar esse lugar e manter a ocupação (como se viu nos casos de Janio Quadros e Collor de Mello). A importância do referido espaço vem crescendo ao longo de uma história marcada pelo elitismo, pela tradição de improvisos, pela confusão entre espaço público e privado e pela fraqueza dos partidos políticos. Vários políticos influentes tentaram instalar-se nessa posição. Nos últimos anos, ela foi ocupada por Lula.

Para governar, Lula montou uma base política muito ampliada, uma grande coligação. E a preservação dessa aliança tem, às vezes, impedido o governo de governar. Há algo extremamente engraçado nos diálogos do presidente da República com seus ministros e seus consultores.

Nas antecâmaras do poder, como diria Paulo Francis, pode-se ver a movimentação de democratas, liberais, conservadores, populistas e até alguns socialistas. Para não se perder nesse ambiente, a esquerda recorda o princípio gramsciano: pessimismo da inteligência, otimismo da vontade. Os oportunistas tratam de se adaptar às circunstâncias. E – segundo Paulo Arantes – adotaram o princípio do otimismo da inteligência.

A resignação está se expandindo, o espírito questionador está ficando anêmico. As discussões andam muito empobrecidas. Os cérebros assimilaram o conformismo, o “sossego”.

O saudoso Hélio Pellegrino dizia que era um psicanalista caro: “Os pacientes pagam muito dinheiro para deitar no meu divã. Eles querem mudar, mas, ao mesmo tempo, resistem à mudança”. E concluía: “Mudar é correr o risco de morrer”. Quem não muda, porém, morre duas vezes: uma na neurose, outra na vida.

A esquerda tem consciência disso e enfrenta a questão: pretende mudar e simultaneamente quer conduzir sua mudança sem encerrar sua luta, sem morrer.

Sabemos que quem quer fazer política deve ser bem educado, deve ter boas maneiras. Os setores de esquerda cooptados por Lula não podem evitar contatos com direitistas consumados, no Palácio e no parlamento.

Não deixa de ser muito engraçado ver a expressão de constrangimento quando são forçados a apertar a mão de adversários truculentos. Piores do que os apertos de mão, porém, são os abraços e os tapinhas nas costas, que os direitistas distribuem com tanta facilidade.

A história das sociedades desigualitárias vem acumulando um rico material sobre os malefícios e sofrimentos que a extrema desigualdade social tem acarretado para a humanidade. Desde o neolítico têm surgido espíritos críticos que propõem alternativas para esse caminho malsão. Esses espíritos críticos é que constituem hoje o que chamamos de esquerda. São especialistas na luta contra a injustiça e na arte da sobrevivência.

Fonte: JB Online

O professor e seus nomes

Gabriel Perissé

De quantas formas podemos chamar um professor? E o que isso tem a ver com nossa imagem, nossa mentalidade profissional?

Maneira antiga era chamar a professora de “tia”. Se a escola é continuação da família, a professora é a segunda mãe. Paulo Freire se revoltou: “tia não”. Alunos não são parentes. Tia recebe presente, tia a gente não esquece, tia a gente respeita. Tia podia (hoje não pode mais) até dar umas palmadas, porque a mãe apoiava e até incentivava.

É comum entre alunos mais velhos chamar o professor de mestre. Mesmo que não tenha mestrado. O mestre tem respostas, conta parábolas, transmite conteúdos e experiências. Mesmo com doutorado, mestre será sempre mestre. Mestre tem algo de maestro, de harmonizador. Mestres mostram o caminho, merecem homenagem.

No internetês e no diálogo entre estudantes do ensino médio e universitários de hoje, professor é prof. Prof não é abreviatura. Não tem o ponto de prof., é interrupção abrupta, interrupção ou preguiça, ou então sinal de intimidade. Prof pode chegar ao mínimo, ao prô. Ser prô não diminui o professor. Prô vale para professora e professor, é unissex. Prô é do bem, é sangue bom. Com o prô ou com a prô a gente pode reclamar na boa.

Há ainda os que chamam professor de teacher. Mesmo que o aluno não saiba inglês, pede ao teacher alguma explicação. Teacher não é deste país, nem deste mundo. Engraçado alguém se referir ao teacher que ministra aulas de língua portuguesa…

E o professor que se chama professor. Professor porque sabe professar o que conhece. Há quem diga que professor é nome menor. O importante mesmo seria atuar como educador, porque educador vai mais longe, não está preso entre as quatro paredes da sala de aula.

Ou então chamemos o professor pelo nome de batismo. É o João, o Marcos, a Beatriz, a Inês, cidadãos dedicados à tarefa de ensinar. Dispensam títulos. Não serão “senhor” ou “senhora”. Informalmente serão o que são, pessoas que descobriram sua vocação.

Não tenhamos medo da palavra “vocação”. Vocare, no latim, é chamar. Professor é aquele que se sente chamado a dialogar com os alunos. Aluno, por sua vez, procede de outro verbo latino, alere, referente à alimentação. Aluno se alimenta das palavras do professor, de sua capacidade para transformar conhecimento próprio em descobrimento do outro.

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.
Web Site: http://www.perisse.com.br/

Fonte: Correio da Cidadania

O que há por trás da greve agropecuária na Argentina?

Juan Jose Funes

A semana começou com o recrudescimento da greve agropecuária, que já faz sentir seus efeitos sobre a classe trabalhadora, com o desabastecimento de carne e outros alimentos e a brutal alta dos preços do que se pode conseguir. Pela noite de terça-feira, 25, desde tradicionais centros da grande burguesia, como a Recoleta, Bairro Norte e Belgrano, se organizaram piquetes em ‘apoio ao campo’ e uma marcha à Praça de Maio. A que se deve isto? Quem está por trás da ‘greve do campo’? Que responsabilidade tem o governo K (Kirchner)? Que posição devemos tomar os trabalhadores?

Desde o governo De la Rúa que não há greve de todas as entidades que centralizam a atividade agropecuária (SRA, CRA, FAA etc). Ao término desta edição, a greve já tinha sete dias, com bloqueios e cortes de estradas, e começava a se sentir nos açougues e verdurarias, tanto nos preços como no abastecimento.

O estopim da medida de protesto foi o aumento do governo nas retenções das exportações de soja, girassol, azeite de soja (comestível e biodiesel) e azeite de girassol. Também fixou uma faixa flutuante de retenções, que no caso da soja, por exemplo, se chega a subir para 600 dólares a tonelada (FOB, quer dizer, colocada sobre o barco) aumentaria o imposto em 49% e daí para cima congelaria o preço líquido do setor em 280 dólares a tonelada.

Os grandes pecuaristas e os donos dos grandes armazéns querem mais subsídios; os poderosos do setor agrícola querem driblar a porcentagem das retenções. É uma briga de tubarões: o Governo e o setor agrícola acomodados; o objetivo é a divisão da renda agrária excedente. Avizinha-se um inverno de crise energética na Argentina e terá de se importar (com preços internacionais nas nuvens e consumo local altamente subsidiado). E os ‘K’ precisam arrecadar para que os números batam.

Uma greve reacionária

Desde o início há de se dizer que a greve do campo contra o governo é uma medida reacionária: ou seja, não expressa interesses populares, dos explorados e oprimidos, mas sim que a Sociedade Rural e os grandes proprietários agrícolas arrastam as entidades representativas dos pequenos produtores em uma luta que se amarra em volta da extraordinária renda agrícola que se gerou, entre outras coisas, devido aos altíssimos preços das matérias primas no mercado mundial.

Desde já, o caráter reacionário dessa briga entre o campo e o Governo K não quer dizer que o governo seja quem expresse os interesses populares. No fundo, é uma batalha para ver quem fica com a renda excedente, apesar da pretensão do governo de aparecer como o representante da população, afetada pela brutal escalada dos preços.

Com esse manual, o Ministro da Economia, Lousteau, saiu dizendo que “não é o mesmo um pequeno armazém e um grande pool de soja (…); o governo utiliza as retenções para impedir que a alta dos preços internacionais se transfira totalmente aos domésticos (…); diante do risco da ‘sojização’ da economia, devemos zelar pelo equilíbrio (…); a medida retrai os valores dos grãos a dezembro de 2007, que já eram altíssimos (…); o setor continua sendo muito rentável” (Clarín, 14/03/08).

Efetivamente muitas das afirmações que profere aqui Lousteau são certas, mas o que o ministro não diz é que o Governo K não tomou uma só medida que afetasse a estrutura da propriedade agrária em todos os seus anos de mandato. Pretende apenas – sobre a base da atual estrutura superconcentrada da propriedade e a economia do campo – conseguir que os ‘barões do campo’ lhe entreguem uma fatia da renda agrária para colocá-la a serviço do caixa do Estado.

Os pequenos produtores não podem ir atrás da Sociedade Rural

A Sociedade Rural foi ao choque dizendo que “as medidas são confiscatórias e atentam contra a rentabilidade do setor” e para a CRA (Confederações Rurais Argentinas) “são medidas de puro traço fiscalista, que têm um único objetivo: arrecadar mais”. Por sua vez, Eduardo Buzzi, presidente da FAA (Federação Agrária Argentina, pequenos e médios produtores) afirmou que “potencializará ainda mais a concentração da propriedade da terra em poucas mãos”.

Aqui se observa com claridade a contradição dessa frente única de todo o campo. É que quando se fala do ‘campo’ sempre deve se diferenciar de quem falamos: se dos grandes empresários e latifundiários ou dos pequenos e médios produtores (sem falar quando se trata de assalariados que trabalham sob patronato no âmbito rural).

“O país vive de nós, porque injetamos dinheiro e porque o Governo sempre nos mete a mão para tirar dinheiro fácil”, se exalta e se queixa, ao volante de sua caminhonete Toyota Hilux 0Km, Cristian Villarreal, médio-grande produtor agropecuário de Casilda (Santa Fé), capital nacional da soja. Do sudoeste da província de Buenos Aires, zona trigueira não muito apta para a soja, Juan Casas, pequeno produtor, diz que “os armazenadores nos pagam o que querem, ainda por cima está fechada a exportação de trigo”. Duas realidades muito distintas as de Villarreal e Casas.

O campo não é uniforme; a grosso modo, há – em nível produtivo – quatro setores: agrícola; pecuário; leiteiro; hortifruti. Todos têm algo em comum, a terra como força produtiva, e estão profundamente inter-relacionados, porém, cada um deles tem características próprias em nível de propriedade que os diferenciam dos demais. Porque, como falamos, a SRA e o pool sojeiro não são o mesmo que os pequenos produtores.

Quando a SRA critica as medidas por serem “confiscatórias” e a CRA as qualifica como de “puro traço fiscalista”, só estão dizendo que, sob a base de leis que resguardam a propriedade privada, corresponderia a eles, de maneira íntegra e total, algo que lhes vêm de forma absolutamente gratuita: a abundância do campo argentino, em condições onde, além de tudo, os preços das commodities estão nas nuvens.

Está claro que o ângulo de Buzzi (FAA) é diferente ao dar conta do processo histórico de concentração de terra em poucas mãos, que tem décadas e parece incontrolável. Mas Buzzi se coloca do lado errado da trincheira quando diz que “o campo se uniu por um único objetivo”. Porque 10% do setor agrícola produz 90% de soja e vive um período de esplendor, mas ao mesmo tempo essa situação fez entrar em crise estrutural o pequeno fazendeiro, com seus 200 hectares em uma economia mundializada, é vítima dos grandes armazenadores de grãos e das empresas de biotecnologia (Monsanto, Nidera), não tendo mais remédio, na maioria das vezes, que não arrendar seu campo.

Mas, então, o que faz uma organização de pequenos e médios produtores – que são os que põem as pessoas nos bloqueios de estradas no interior – na trilha dos interesses dos grandes tubarões do campo? Não têm nada a fazer ali, junto aos que queremficar com toda a renda agrária e liberalizar os preços, o que só podia se fazer às custas dos trabalhadores e setores populares do campo e da cidade.

Por uma aliança independente dos explorados e oprimidos da cidade e do campo

Dirigentes como D’Elia, Depetris e outros saíram a convocar uma marcha até a Sociedade Rural. Esses setores ‘K’ pretendem repudiar a greve do campo a partir do posicionamento de defesa cerrada do governo. Não é disso que se precisa. Porque os problemas dospequenos e médios produtores são reais e, na realidade, o próprio governo que agora sofre a greve agrária, em todos esses anos, como está dito, não tomou uma só medida contra o processo brutal de concentração da terra e da renda agrária.

A única saída que têm os pequenos produtores é se aliar aos trabalhadores e demais setores oprimidos, porque ambos são vítimas da política do governo kirchnerista. O governo não corrigiu desequilíbrios, pelo contrário. Sob os ‘K’ eles se acentuaram. Desaparecerão mais e mais fazendeiros e os pools do campo se farão cada vez mais fortes.

Não é alinhando-se, portanto, ao governo K que se poderia dar uma saída tanto aos problemas desses produtores como à escalada dos preços e o desabastecimento que se começa a notar nos açougues e verdurarias. O que é necessário é outra coisa: a unidade desses pequenos produtores com os trabalhadores urbanos e rurais, em via tanto de impulsionar medidas de autêntica reforma agrária e socialização do campo como de um estrito controle dos preços dos produtos de primeira necessidade, assim como a expropriação de todos aqueles grandes proprietários que especulem com os preços e/ou provoquem desabastecimento.

Isto é, para resolver os problemas dos pequenos produtores e trabalhadores do campo é necessária uma aliança de classe oposta: nem com a SRA nem com o Governo K, mas com os trabalhadores.

Juan José Funes
Publicado originalmente no periódico Socialismo o Barbarie.

Fonte: Correio da Cidadania