Monthly Archives: março 2008

Avanço do euro esbarra na Europa

Estudo prevê que reservas superem as em dólar, mas continente, desunido, não ameaça hegemonia dos EUA

União Européia não tem posição comum em temas de política externa, mas economista diz que isso não impede escalada da moeda

MARCELO NINIO

Uma simulação feita por dois economistas americanos acendeu o alerta: em menos de dez anos o euro poderá substituir o dólar como principal moeda internacional. A tendência recebe agora o empurrão da crise mundial iniciada nos EUA, cujo legado pode deixar de ser só econômico para ganhar dimensões geopolíticas.
Ao flexionar em excesso seu músculo militar e aumentar o seu déficit, os EUA teriam embarcado numa rota semelhante à que tomou o império britânico até a libra esterlina ser superada pelo dólar como moeda predominante nas reservas mundiais, em 1945.
Os autores da simulação, Jeffrey Frankel, de Harvard, e Menzie Chinn, da Universidade de Winsconsin, dizem que 25 anos de déficit em conta corrente nos EUA e mais de 30 de desvalorização do dólar ajudaram a corroer a hegemonia da moeda americana. Mas observam que isso não basta para provocar a mudança que vislumbram no sistema.
“O mais importante é que agora existe um rival confiável para liderar as reservas de câmbio, o euro, que tem muitas das características desejadas de uma moeda internacional”, afirma o estudo.
Na Europa, entretanto, as notícias da morte do dólar são consideradas um exagero. Quase dez anos depois de sua entrada em circulação, o euro é forte como moeda, mas fraco como símbolo político, e isso é visto como o maior empecilho para que a projeção de Frankel e Chinn se torne realidade.
“O problema central é que não há um governo europeu por trás do euro, e provavelmente não haverá”, diz Daniel Gros, diretor do Centro de Estudos de Políticas Européias, em Bruxelas, afirmando que falta representatividade para a moeda comum européia ter peso. “O euro nem sequer tem um representante nas instituições financeiras internacionais.”
Essa carência é reflexo de uma disfunção estrutural que costuma paralisar o processo decisório da União Européia, sobretudo em assuntos de política externa. Isso ficou claro nas crises internacionais recentes, como a independência de Kosovo e os distúrbios no Tibete, quando o bloco de 27 países mais uma vez rachou.
Essa desunião não invalida a previsão sobre a ascensão do euro, diz um dos autores do estudo. “Ser otimista sobre o euro não significa ser otimista em relação à Europa”, disse Frankel à Folha, por e-mail. “O euro não precisa de uma política externa comum para prosperar.”

Múltipla personalidade
Embora o Tratado de Lisboa, aprovado em dezembro, preveja modificações para corrigir o problema, como a nomeação de um presidente e de um chanceler, a UE ainda sofre o transtorno da múltipla personalidade. O mesmo que levou o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger à famosa pergunta: “Quero telefonar para a Europa, para onde ligo?”
A dúvida que intrigava Kissinger em 1970, quando a integração européia ainda dava seus primeiros passos, com apenas 12 membros, hoje é um desafio que se estendeu à moeda comum, usada por 15 dos 27 membros da UE.
“É hora de discutir o papel político do euro”, diz Paola Subbachi, chefe do Departamento de Economia Internacional do Instituto Real de Assuntos Internacionais, em Londres. Ela também acha que o vácuo de autoridade impede que o euro substitua o dólar como moeda global. “Basicamente não há ninguém responsável pelo euro. Certamente esse papel não é do BCE [Banco Central Europeu], cujo mandato se limita a controlar a inflação.”
O ceticismo em relação ao poder do euro parece restrito aos europeus. Em setembro do ano passado o ex-presidente do Fed (banco central dos EUA), Alan Greenspan, deixou claro que a hegemonia da moeda americana já não era tão sólida. Segundo ele, o dólar havia perdido boa parte da vantagem que tinha sobre as demais moedas.
Ainda assim, ela continua confortável. O Fundo Monetário Internacional calcula que 70% das reservas mundiais estejam em dólar, contra 25% em euro. Frankel e Chinn acham que essa proporção pode virar antes de 2015, devido ao desgaste econômico, ao esgotamento militar e à deterioração do sistema financeiro nos EUA.
Se mais países decidissem converter os dólares de suas reservas em euros, isso estimularia a mudança em outras transações financeiras internacionais, apostam os economistas, o que aceleraria o fim da hegemonia da moeda americana.
“Economicamente, os EUA perderiam o privilégio exorbitante que lhe permite dar dólares a estrangeiros em troca de bens, serviços e investimentos”, diz Frankel. “E geopoliticamente o país também perderia poder.”
Para Subbachi, o fortalecimento do euro não significa necessariamente o fim da hegemonia do dólar. “Não vejo euro e dólar em rota de colisão”, diz ela, apontando para uma nova ordem financeira, em que as duas moedas se complementarão. “Estamos caminhando para um sistema de dois pilares.”

Fonte: Folha De S. Paulo Mundo

Nossa terra amazônica: devastada

Lúcio Flávio Pinto

Em abril de 1982 vieram a Belém o secretário-geral do Programa Grande Carajás, Nestor Jost, e o presidente da Companhia Vale do Rio Doce, Eliezer Batista. Foi para o lançamento de um programa que implantaria um pólo siderúrgico e metalúrgico em torno de Marabá, com base no minério de ferro da serra dos Carajás. Mas, para que as usinas de silício metálico, ferro liga e ferro gusa pudessem funcionar, era preciso oferecer-lhes um novo energético: o carvão. Carvão a ser extraído da floresta.

“Ao invés de destruirmos a floresta com fogo, como tem sido muito comum, vamos usá-la para produzir carvão”, sentenciou o presidente da CVRD, então estatal, e seu principal executivo em todos os tempos — “como se queimar a floresta na produção de carvão vegetal representasse muita vantagem sobre o simples incêndio”, escrevi na ocasião, na minha coluna diária em O Liberal.

Depois de ouvir as exposições dos dois renomados técnicos sobre as fontes de suprimento de carvão vegetal (os babaçuais do Maranhão e o florestamento e reflorestamento no Pará, que substituiria a mata nativa), anotei na coluna:

“Isso significa que na área próxima a Marabá surgirão grandes plantios de espécies exóticas destinadas a se transformarem em carvão. A atual floresta, densa, rica, heterogênea, formada ao longo de séculos, está condenada ao desaparecimento se alguma coisa em contrário não for realizada. Os castanhais, em duas décadas, serão referência museológica.

Antes que os srs. Jost e Batista fizessem suas palestras, os responsáveis pelo programa Carajás já haviam espalhado pelo país dois estudos bem impressos, fartamente ilustrados, sobre a floresta amazônica, de responsabilidade de três técnicos muito conhecidos: Glycon de Paiva (inspirador do Polamazônia, entre muitas façanhas, que incluem o estudo sobre as jazidas de manganês de Serra do Navio, no Amapá), Edson Antônio Balloni e Helládio do Amaral Mello.

Os dois trabalhos procuram demonstrar que a substituição da floresta nativa amazônica por um plantio homogêneo com espécies exóticas é vantajoso e, ecologicamente, um avanço. Para tanto, os autores recorrem a dados defasados, superdimensionando a extensão da cobertura florestal em relação à área total da Amazônia e subdimensionando a produção madeireira da região. Fica a sugestão de que esse acervo botânico é inútil ou ocioso. O raciocínio do trio, com maior sofisticação, é o mesmo dos executivos de Carajás. A floresta de Marabá que se acautele”.

Passados mais de 25 anos, sem acautelamento, a floresta desapareceu ou está desaparecendo. Mas nunca houve uma mobilização igual à que o governo federal, em conjunto com o governo estadual, desencadeou em torno de Tailândia contra os vorazes desmatadores. Quem batizou a cidade, três décadas atrás, pensava em torná-la um centro agropecuário da fronteira, com ocupação ordenada pelo impulsionador dessa frente, o Iterpa, que ali montou um núcleo pioneiro para a colonização oficial dirigida. Mas acabou prevalecendo a matriz asiática, que emprestou inspiração circunstancial ao batismo.

Na sucessão de cenas (bloqueio de estrada, atos de vandalismo, repressão policial armada aos manifestantes furiosos e tropa de ocupação, com 300 homens, chegando com maior aparato bélico para confiscar os produtos da selvageria e da ilicitude), é impossível não remeter a memória à Indochina. Somos a fronteira de um país que nos quer, nos respeita e nos admira, ou a possessão colonial a ser submetida, amansada, vencida, transformada à imagem e semelhança do colonizador e da sua cultura?

É um absurdo que um bem fabricado ao longo de séculos pela natureza, com esmero e capricho, depois de posto abaixo e serrado vire tábua para a construção civil usar ao deus-dará e depois repassar para a pizzaria ou a padaria da esquina lançar ao fogo. Se vai mesmo ao fogo, que vire carvão vegetal, propuseram Jost & Eliezer, dupla de homens ilustres, mas sem sangue amazônico, sem ethos amazônico. Agentes da ocupação ao modo asiático, sob despotismo oriental.

Sim, são positivas várias das iniciativas desencadeadas pelo governo a partir do sinal de alerta do crescimento de 10% do desmatamento na Amazônia no último ano. Algumas até são inéditas e outras atendem o clamor de muitos anos dos especialistas e dos diretamente interessados na matéria. Mas mudarão o rumo traçado pelos distintos senhores um quarto de século atrás — e por outros tantos distintos senhores mais anos antes? Índio bom é índio morto, dizia o colonizador americano, 38 em punho. O nosso teve que conter essa selvageria, mas ainda pode dizer: floresta boa é floresta abatida. Junto com a pistola, a motosserra, atualização tecnológica do machado.

A floresta é o nosso bem mais precioso, que estamos a desperdiçar com um barbarismo de causar engulhos a Átila, o huno (se aceitamos nossa versão etnocêntrica). Não será com tropa armada (embora mal municiada, mal alimentada e sem-diárias), com espalhafato, com medidas no papel, e mesmo com algumas providências certas, que se desviará a floresta do destino que a aguarda, geralmente de tocaia: virar madeira sólida, extraída sem deixar maiores marcas; financiando com isso a formação do pasto, que virá depois (e já então de forma escancarada, que qualquer satélite fotografa, identificando plenamente este vilão); permitir que serrarias se multipliquem, fornecendo resíduos para a siderurgia transformar em carvão, até que, em sendo o estupro inevitável, relaxando-se e aproveitando, começarem a surgir fornos primitivos às dezenas, centenas e milhares, sangrando a terra, sangrando o homem, revivendo da miséria. E, como cobertura requintada, o agronegócio, mais intensivo em capital, menos exposto à caracterização do crime, mais sofisticado. Embora não menos letal.

Quem já viu tudo isso revê o novo “isso” com enfado, desalento, indignação e revolta. Todos passarão, exceto a floresta, que ficará, insepulta, na forma de cinzas ligeiramente nutrientes, carvões, tábuas e outros traços degenerados de sua existência exuberante e promissora. Enquanto o governo e o colonizador não conhecerem a Amazônia e a respeitarem, e, quem sabe, a amarem, passarão por ela como furacões de motosserras e aceiros, de homens armados e justiceiros velozes. Não ficará o que é perene e consistente, como campi de centros de graduação e pós-graduação no meio da mata, com gente jovem e competente que aprenda fazendo, olhada por verdadeiros mestres, com infra-estrutura e apoio financeiro, sob a proteção devida, fazendo manejo florestal de verdade, com o melhor da mais avançada ciência, a demonstrar que floresta se utiliza sem devastar — e que assim se ganha muito mais dinheiro.

Daqui a 25 anos, se ainda houver floresta, as palavras se tornarão proféticas sem querer. Mas não só proféticas: irão adquirir o significado amargo de epitáfio. Pela mata que desapareceu e pela nossa inteligência, que nunca deu o ar da sua graça na nossa terra devastada. Que não será mais nossa nem nada. Nonada.

Lúcio Flávio Pinto é o editor do Jornal Pessoal, de Belém, e autor, entre outros, de O jornalismo na linha de tiro (2006) e Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica (2007).

Fonte: Acessa.com

Cinco anos após a invasão no Iraque, soldados americanos procuram um sentido para sua missão

Robert W. Gee

Esta semana marca o quinto aniversário do início da guerra no Iraque, o que a torna um dos mais longos conflitos militares no exterior da história americana.

O capítulo inicial da guerra de choque e temor há muito perdeu espaço para novas narrativas dos erros do governo Bush, uma insurreição sangrenta e um crescente número de iraquianos e americanos mortos. Um marco mais macabro deverá ser atingido neste mês ou no próximo: 4 mil baixas militares americanas.

É por este prisma que as lembranças da invasão, antes saudada como uma missão cumprida, são passadas a limpo. Mas aqueles que travaram a primeira guerra há cinco anos lembram da derrota de Saddam Hussein com orgulho.

Cinco soldados da Companhia Charlie, 1º Batalhão, 64º de Blindados da 3ª Divisão de Infantaria, cujos tanques lideraram a marcha americana a Bagdá, consideram suas experiências e a guerra cinco anos depois.

‘Era como se a guerra tivesse acabado’

Cinco anos depois, Brett Waterhouse está de volta ao Iraque para lutar em uma guerra que ele e seus companheiros achavam ter vencido.

“Era como uma visita familiar, só que tínhamos tanques”, lembrou Waterhouse de suas visitas a lares em Bagdá nos dias que se seguiram à tomada da capital iraquiana pelas forças americanas, em abril de 2003.

A Companhia Charlie operava os checkpoints, incluindo um na entrada de um rico bairro de Bagdá naquela que viria a se tornar a Zona Verde, o centro internacional fortificado da cidade.

Os moradores do bairro freqüentemente vinham receber os soldados com presentes como alimentos, chá e flores, ele lembrou.

“Nós aceitávamos tudo e comíamos bem”, disse Waterhouse, atualmente com 40 anos e um 1º sargento, originalmente de Gainesville, Flórida. “O tempo todo que passamos lá foi como se fosse uma grande família. (…) Era como se a guerra tivesse acabado.”

Os iraquianos recorriam aos soldados para proteção, oferecendo dicas, se apresentando voluntariamente para servirem como intérpretes e até mesmo ajudando a espalhar o arame farpado pelo bairro. “Nós aprendemos às pressas como sermos uma força de paz e embaixadores”, disse Waterhouse.

Considerando a recepção calorosa, ele disse: “Eu não achei que voltaríamos para Bagdá”.

Os administradores americanos que entraram em Bagdá conseguiram uma reversão dos ganhos iniciais, e os soldados que substituíram sua unidade, ele disse, “estragaram a ligação que desenvolvemos” ao tratarem todos os iraquianos como inimigos. Mas agora, ele disse, a guerra “parece estar seguindo na direção certa”.

Ainda assim, ele e seus companheiros estão praticamente fazendo o mesmo hoje que fizeram há cinco anos, freqüentemente com menos sucesso: tentando fornecer segurança ao país e trabalhando para conquistar a confiança dos iraquianos.

‘Todo mundo volta diferente’
Há cinco anos, Jose Mercado era 1º sargento da Companhia Charlie, seu soldado alistado mais graduado. Ele foi sargento de pelotão durante a Guerra do Golfo de 1991. Ele atualmente está servindo de novo em Bagdá, desta vez como sargento ajudante.

Dentre seus quase 27 anos no Exército, ele disse sobre a invasão ao Iraque em 2003: “Aquela foi a maior”.

“Aquilo foi o Super Bowl (a final do futebol americano). Todo soldado quer entrar em combate. A maioria quer entrar em combate por causa dos filmes que assistiu. A forma como Hollywood a retrata.”

Mas ele disse que os efeitos psicológicos a longo prazo de combate intenso freqüentemente são ignorados.

“Você não pensa nas mortes, nas pessoas inocentes que matará e nos efeitos posteriores que terá quando voltar para casa. Você não é mais a mesma pessoa”, disse Mercado. “Todo mundo volta diferente. Ela muda você completamente.”

Durante a guerra, os combatentes reprimem as emoções para sobreviver, ele disse.

“Mesmo após todo este tempo, eu diria que consegui 50% das minhas emoções de volta”, disse Mercado no mês passado, em seu escritório no quartel-general da 3ª Divisão de Infantaria, no Campo Vitória, em Bagdá.

Mercado, 45 anos, que cresceu em Nova York e Porto Rico, disse que planeja se aposentar do Exército no próximo ano e espera poder lecionar matemática. Seu filho, Jonathan, está na Guarda Nacional Aérea, e sua filha, Melissa, serve na Guarda Costeira.

Ele defendeu a decisão de invadir o Iraque -”Valia a pena. Nós fizemos a coisa certa”, ele disse- mas ele se tornou filosófico sobre a natureza da guerra.

“Por que as pessoas querem matar umas às outras? Por que um homem deseja matar outro homem?”, ele disse.

Ele ganhou um senso de mortalidade, ele disse, e um apreço pelos desafios da vida cotidiana nos Estados Unidos. Tudo, ele disse, é “um problema pequeno em comparação a ser baleado”.

‘Eu quero que termine’
Roger Gruneisen se formou em West Point em 2001, serviu como tenente e líder de pelotão durante a invasão de 2003 e voltou em 2005 para uma segundo turno no Iraque. Em junho de 2006, ele deixou o Exército como capitão, após concluir o serviço exigido.

Os dois outros líderes de pelotão da Companhia Charlie também se aposentaram do Exército, ressaltando a atual dificuldade das forças armadas em manter oficiais com experiência em combate.

Gruneisen disse que sua segunda filha nasceu durante seu segundo turno e que decidiu partir para poder dedicar mais tempo para criá-la.

“Há muito sentimento conflitante. Eu teria dificuldade em deixar minha filha agora”, disse Gruneisen, que vive em Lexington, Kentucky, e trabalha como gerente de qualidade para a General Electric.

“Ver a 3ª (Divisão de Infantaria) voltar para lá me deixa com um leve sentimento de culpa. Mas servi dois turnos de dois anos.”

Apesar de ter deixado o Exército, ele disse que acompanha atentamente as notícias da guerra, ouvindo sobre as baixas americanas e se perguntando se reconhecerá os nomes.

“Eu apenas espero que a gente consiga deixar aquele país com alguma estabilidade, cientes de que alguns desses rapazes morreram e que realmente significou algo. Não que algum dia terá valido totalmente a pena”, ele disse. “Em grande parte eu quero que termine para que possa prosseguir com minha vida e parar de acompanhá-la.”

‘Os rapazes sabiam como matar’
Jabari Williams, na época um sargento assistente, liderou os soldados na oração antes de cruzarem a fronteira entre o Kuwait e o Iraque em meio à neblina antes do amanhecer de 21 de março de 2003.

Também foi uma exortação: “Foi para isto que treinamos. Nós estamos prontos. Agora é para valer”, ele disse aos seus companheiros.

“A partir daquele momento estava valendo”, ele lembrou recentemente em Bagdá, para onde voltou para seu terceiro turno.

“Eu estava orgulhoso. Eu sabia que daquele momento em diante, nós faríamos história.”

Dentro das fileiras do Exército, e especialmente no Iraque, os soldados tendem a ver sua missão com metas táticas em mente, isolada dos aspectos políticos e morais mais amplos de uma guerra justa. Williams parecia indiferente a como a história poderia julgá-lo hoje.

“Eu não me interesso muito por política, mas minha medida de sucesso é levar todos meus rapazes para o Iraque e trazê-los todos de volta para casa”, disse Williams.

Para os soldados em combate, a sobrevivência se torna o motivo para travar a guerra.

“Como chefe de artilharia, eu tinha confiança de que os rapazes sabiam como matar. Eu me orgulhava e me empolgava em ver como transcorreria”, disse Williams, 31 anos, de McDonough, Geórgia, que foi promovido a 1º sargento e ainda serve no mesmo batalhão.

A unidade de 79 soldados não perdeu nenhum homem. Dois sofreram ferimentos graves. Oito soldados foram condecorados. Eles sobrepujaram seu adversário, matando um número incontável de iraquianos em uma série de batalhas, incluindo as duas incursões em Bagdá, o ataque decisivo contra a capital do Iraque.

‘Eu apenas quero que os soldados voltem para casa’
Jeremy England, 29 anos, que era um tenente líder de pelotão em 2003 e que deixou o Exército para trabalhar no setor de construção em Mobile, Alabama, passou a questionar a guerra.

“O argumento para a guerra era falho desde o início”, ele disse. “Nós provavelmente estaríamos bem mesmo sem ter ido para lá. Mas agora que estamos lá, nós temos um compromisso.”

Ainda assim, ele disse, “eu só me interesso pelos soldados. Eu apenas quero que os soldados voltem para casa. Trazê-los de volta para casa”.

Ele disse que sua nova carreira como dono de um pequeno negócio é muito mais complicada do que servir como soldado, mas que considera sua experiência de cinco anos atrás no Iraque como o momento definidor de sua vida.

“Eu estava muito orgulhoso do que vivenciei lá. Nós fomos, lutamos na guerra, o fizemos bem e sobrevivemos”, ele disse. “Eu penso nisso todo dia.”

Fonte: Cox Newspapers

D. João VI é o Homem do Ano

Deonísio da Silva

Para se ter uma idéia do “interesse” do brasileiro na História do Brasil, o melhor livro sobre a vinda da Família Real – Dom João VI no Brasil, de Oliveira Lima –, lançado em 1908, no primeiro centenário, teve até agora quatro edições. A segunda foi em 1945 e a terceira em 1996. A quarta, da Editora Topbooks, com prefácio de Wilson Martins, saiu apenas em 2006.

Ninguém ignora que nas últimas décadas tem havido no Brasil uma esterilização da História. Lêem-se pilhas e pilhas de livros, mas ninguém fica sabendo de nada, já que o propósito dos autores é exibir erudição em pormenores ou defender sua “tese”. Reconheçam-se as exceções, que as há, mas a norma tem sido esta: não dizer nada.

Laurentino Gomes, formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, deu uma lição ao retomar um modo de escrever que, sem falsear a História, troca em miúdos para o leitor a matéria que, se os doutores a conhecem, não sabem como ensiná-la… Nascido em Maringá (PR), Laurentino tem 51 anos, 30 deles de atividade profissional como repórter e editor em jornais e revistas de grande porte, entre os quais O Estado de S.Paulo e a revista Veja. Atualmente, dirige uma unidade da Editora Abril responsável pela publicação de 23 revistas segmentadas. O jornalista tem paixão por temas da História.

Apesar da apelação do subtítulo desjeitoso (“Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”) que tem o fim de chamar a atenção do público, o livro 1808 (Editora Planeta, 408 páginas, R$ 39,90) já é um dos melhores momentos dessa efeméride, ao conciliar pesquisa e modo de revelar o que foi descoberto.

Bom conselho

Efemérides são boas oportunidades para o leitor ficar sabendo de tudo. A celebração dos 200 anos da vinda da Família Real para o Brasil vem ensejando, não somente às editoras, mas também à mídia, múltiplas oportunidades de informar e formar o leitor.

Aquilo que a escola não tem dado nas últimas décadas, do ensino fundamental, passando pelo segundo grau, agora juntos na expressão “ensino médio”, até chegar ao curso superior, vem sendo suprido de forma admirável por outro tipo de ensino a distância: aquele oferecido por jornais, revistas, livros, rádio, televisão, internet.

Devido às fortes tempestades enfrentadas no caminho, algumas naus vieram diretamente para o Rio, enquanto aquela em que viajava Dom João VI foi parar em Salvador. O então príncipe regente só chegaria ao Rio de Janeiro no dia 7 de março.

Aqui se tornaria rei de Portugal, do Brasil e de Algarves, e passaria à História como um rei bondoso, meio atrapalhado, comedor de frango assado, com medo de tomar banho de mar, quando foi em verdade, apesar de tais usos e costumes talvez fazerem parte de sua complexa personalidade, um soberano sagaz, receptivo ao povo, com grande visão de estadista.

Lembremo-nos do conselho que deu ao filho, Dom Pedro I, quando aqui o deixou, voltando a Portugal: “Pedro, meu filho, põe a coroa em tua cabeça antes que algum aventureiro o faça!”.

Roteiro infiel

O brasileiro, sempre jocoso, inclusive consigo mesmo e um pouco mais com os portugueses, com freqüência é atacado, não apenas de saudável irreverência, que o faz rir de si mesmo, mas de um masoquismo que vê tudo de pior no Brasil e no que diz respeito ao nosso país.

Ora, o próprio Napoleão reconheceu em Dom João VI um inimigo difícil de combater. E já no exílio, o outrora temido e poderoso imperador reconheceu que o príncipe português foi o único que não o venceu, mas o enganou.

Assim, em vez de fuga atabalhoada, como nos fazem crer diversos historiadores, a vinda da Família Real foi uma das maiores retiradas, senão a maior, de toda a História.

Infelizmente veio do cinema uma contribuição sinistra e inverídica. O filme de Carla Camuratti, Carlota Joaquina, falseia a História para angariar simpatias bobas e meio autoflageladoras. O perfil de Dom João VI, representado pelo grande ator que é Marco Nanini, não é fiel à História e nem às tradições portuguesas e brasileiras. Nem mesmo o de Carlota Joaquina, representação igualmente magistral de Marieta Severo, é fiel à soberana espanhola. Os atores são ótimos, mas o roteiro e os diálogos apoiaram-se em bibliografias que falsearam a História. Ou então foram mal digeridas…

Ínvios caminhos

Dom João VI era de uma memória prodigiosa, como, aliás, todos os da Casa de Bragança. Em rápidas ou demoradas conversas, mostrava saber coisas relevantes sobre a vida de quem o procurava para despachos no beija-mão. Ao lado do trono, ficava uma mesinha onde eram depositados os requerimentos e pedidos.

Todas as noites, por volta de 21h, o rei, com muito gosto, recebia todos para a cerimônia do beija-mão, sem dispensar os ritos próprios.

Todos eram iguais perante o rei, naquela solenidade tão curiosa. Um general poderia estar atrás de um simples sapateiro, cozinheiro ou lavrador das cercanias, pois valia o princípio da fila – uma das maiores instituições do Brasil e das mais estáveis.

Quem chegasse primeiro ficava em melhor posição para beijar a mão do soberano. Naturalmente, algumas doenças também eram transmitidas nessas ocasiões… de saliva em saliva.

Quem fundou o Brasil foi o único rei que superou Napoleão em estratégia. Num tempo em que reis eram depostos, humilhados, vencidos ou até decapitados – como ocorreu ao soberano francês pouco mais de duas décadas antes da vinda da Família Real –, Dom João salvou a si mesmo, a seus familiares, à Corte e, por ínvios caminhos, também o povo, português e brasileiro.

Fonte: Observatório da Imprensa

Guerra do Iraque prova que somos incapazes de resolver conflitos pelo diálogo

Jorge Ramos*

“Há forma de libertar os seres humanos do destino da guerra?”

Não, esta pergunta não foi feita por uma das milhões de pessoas que atualmente são contrárias à guerra no Iraque, que neste mês completará seu quinto aniversário.

Ela foi feita em uma carta de 1932 escrita por Albert Einstein, o físico americano nascido na Alemanha, para Sigmund Freud, o psiquiatra austríaco que fundou a psicanálise. A carta foi escrita enquanto a Segunda Guerra Mundial ainda fermentava.

Freud respondeu que “seria apenas possível evitar as guerras com certeza se os seres humanos chegassem a um acordo para criar um poder central, ao qual seria dada a responsabilidade de solucionar todos os conflitos de interesse”.

Mas nem a Liga das Nações, criada em 1919, nem sua sucessora, a Organização das Nações Unidas, que foi formada em 1945, foram capazes de impedir todas as guerras. Mais do que um “poder central”, como Freud previa, a ONU reflete apenas a vontade de seus membros, e uma postura belicosa predomina em muitos deles.

Todavia, Freud também acreditava que para acabar com todas as guerras “uma postura cultural (antiguerra) e um temor bem fundamentado das conseqüências de uma futura guerra, seriam necessários”.

Nós precisamos reconhecer o fato de que antes do início da Guerra no Iraque não havia uma postura cultural antiguerra. Pelo contrário, havia o desejo de atacar antes mesmo de descobrir se o adversário realmente possuía armas de destruição em massa. Não foi permitido aos inspetores internacionais que concluíssem seu trabalho. E apesar dos Estados Unidos não terem obtido o número necessário de votos no Conselho de Segurança da ONU, em 2003, para aprovação da guerra, o presidente George W. Bush foi em frente e deu a ordem para atacar. O que prevalecia na época era uma cultura de guerra.

Como então explicar para uma criança que não de deve bater em outro menino, quando ela vê na TV e na Internet que adultos usam de violência e guerra para resolver seus problemas? A guerra é aprendida em casa. Quando diálogo e tolerância são substituídos por um soco, uma surra ou um tapa na cara em casa, nós estamos criando futuros promotores da guerra e da agressão.

Mas se não é possível incutir uma postura antiguerra em uma geração, pelo menos é possível -como Freud sugeriu- gerar horror e medo da guerra. E é aí que entra o papel dos jornalistas.

A Guerra do Golfo Pérsico de 1991 foi a primeira a ser coberta ao vivo pela televisão. Eu ainda me lembro dos repórteres da “CNN” descrevendo as primeiras bombas americanas caindo em Bagdá. O exército iraquiano que invadiu o Kuwait foi forçado a se retirar e foi derrotado em meras 100 horas.

Mas o público na TV nunca viu os corpos mutilados ou o sangue. Em vez disso, ele viu alguns vídeos filmados de uma grande altitude de bombas explodindo a distância. As imagens lembravam videogames aos jovens. Foi a primeira guerra “asséptica”. As pilhas de soldados e civis mortos em decomposição, que eu testemunhei como jornalista na cidade do Kuwait, não foram vistas pelos espectadores de TV ao redor do mundo.

Atualmente também estão tentando “limpar” a guerra no Iraque, apesar de quase 4 mil soldados americanos e mais de 81 mil civis iraquianos já terem morrido (segundo dados da www.iraqbodycount.org).

Nós quase nunca vemos mortos ou feridos na mídia. Vários governos proíbem que cadáveres ou caixões de soldados mortos na guerra sejam filmados. Isto em respeito às famílias dos mortos, insistem as autoridades, e para evitar uma queda do moral das tropas.

Mas isto mantém o público ignorante da brutalidade da Guerra no Iraque. Nós apenas vemos as notícias esterilizadas que permitem que a matança continue. Eu acho que se pudéssemos ver, um dia após o outro, como um corpo é despedaçado após um ataque suicida ou uma explosão de bomba de estrada, a guerra no Iraque teria acabado há muito tempo. Toda criança morta, todo inocente ferido, seria uma apunhalada na consciência daqueles que continuam obstruindo a possibilidade de um acordo de paz real e a retirada de nossas tropas do Iraque.

A guerra é brutal. Como deveria ser a cobertura da guerra pela imprensa. Ela deveria -se fôssemos seguir o conselho de Freud- deixar o espectador nauseado. Ela deveria revirar as entranhas do espectador até ele ser forçado a desligar a TV e ter os piores pesadelos. Ela deveria nos incomodar tanto a ponto de finalmente gritarmos: Basta!

Nós jornalistas somos duplamente culpados por permitir a evolução da guerra no Iraque. Primeiro, por não termos feito as perguntas difíceis, desconfortáveis, para aqueles que iniciaram a guerra contra um país que não atacou os Estados Unidos e nem esteve envolvido nos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. E agora, por não mostrarmos ao público a selvageria monstruosa da guerra.

Todos os sinais são de que a guerra no Iraque continuará pelo menos até que Bush deixe o governo em 20 de janeiro de 2009. Depois disso, quem sabe? Mas o que está muito claro agora é que nossas preocupações em como colocar um fim aos conflitos armados são as mesmas que as de Einstein e Freud durante o período entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial.

Cerca de 76 anos após aquela troca de cartas, nós não aprendemos muito. A Guerra no Iraque é uma confirmação absoluta de que fomos reprovados, de que não somos capazes de resolver nossos conflitos por meio de diálogo e diplomacia. A guerra representa o fracasso total.

* Jorge Ramos, um jornalista ganhador do prêmio Emmy e autor, é o principal âncora de noticiário da Univision Network, o programa de notícias de língua espanhola mais assistido nos Estados Unidos. Ramos, nascido no México, é autor de seis livros best seller, incluindo “La Otra Cara de America”, “Atravesando Fronteras”, “La Ola Latina”, “Morir en el Intento” e recentemente “El Regalo del Tiempo”. Ele foi listado como um dos 25 latinos mais influentes nos Estados Unidos pela revista “Time”.

Fonte: The New York Times

TRANGÊNICOS: TODAS AS RAZÕES PARA NÃO CONSUMIR

10 BOAS RAZÕES PARA EVITAR O CONSUMO DE ALIMENTOS QUE CONTENHAM TRANSGÊNICOS
1. Ainda hoje não existem dados produzidos por pesquisa que indicam o impacto causado pelo consumo de transgênicos em seres humanos. O que existe são dados científicos possibilitados pela pesquisa com outros animais, como ratos, por exemplo, os quais, por sua vez, servem de bom argumento para rejeição de tais alimentos. Mesmo, embora, os transgênicos sendo largamente consumidos a não rotulação impede, por sua vez, não só que as pessoas escolham ou não consumi-los, como, concomitantemente qualquer pesquisa de impacto que o consumo de tais excrescências venham a ocasionar a saúde humana.
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2. Seus efeitos sobre o meio ambiente e sobre culturas agrícolas não-transgênicas são alarmantes. Em fevereiro de 2008, o jornal espanhol El País aponta que o milho transgênico está contaminando e acabando com os cultivos de milho ecológico na Espanha. A contaminação acontece pela polinização disseminada pelos ventos e o grande perigo que se corre dá-se em causa da extinção de variedades não transgênicas e da dependência dos produtores agrícolas das multinacionais do transgênico na mesma medida em que essa homogeneização ocorre, dado que as variedades transgênicas não se reproduzem bem na segunda geração e a produtividade sofre um impacto direto. O artigo do El País compôs inclusive o material que fora encaminhado para CTNBio e a CNBS, o qual, já sabemos fora ignorado.
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3. As pesquisas com sementes e produtos transgênicos realizadas pelas multinacionais da biotecnologia, visam apenas o lucro. Logo, não participa da consideração das mesmas o impacto que o consumo e a cultura de tais variedades venham a ocasionar ao meio ambiente e a saúde de humanos e animais. O que importa a essas multinacionais é o controle e o monopólio do mercado de sementes e, por conseguinte, o de agrotóxicos produzidos por cada qual e fundamentalmente necessários para a produtividade da lavoura transgênica.
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4. Não há nenhuma prova concreta de que as sementes transgênicas são mais produtivas e adequadas ao equilíbrio da natureza do que as sementes criollas, melhoradas e desenvolvidas pelos agricultores de acordo com os microclimas e as culturas.
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5. Cerca de 97% das sementes transgênicas existentes no mercado têm sua utilização e produtividade casadas com o uso de algum tipo de agrotóxico, herbicida, inseticida, etc. Esses venenos prejudicam o meio ambiente.
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6. Muitas sementes transgênicas possuem o componente terminator, que as esteriliza para utilização como sementes no ano seguinte. Isso obriga os agricultores a ficarem dependentes da empresa fornecedora. São as chamadas sementes suicidas.
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7. O monopólio da biotecnologia e o uso dos transgênicos estão levando a um processo de controle oligopólico das sementes em todo o mundo, por 10 grandes corporações multinacionais. Na década de 1970, 7 mil indústrias produziam sementes no mundo. Em 2006, as 10 maiores corporações do setor abocanharam 57% do mercado de vendas, sendo que as três maiores (Monsanto, Dupont e Syngenta) ficaram com 39%. A Monsanto, por exemplo, é líder mundial de sementes transgênicas e controla sozinha 88% do mercado global de transgênicos.
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8. O impacto social da cultura de variedades transgênicas é do mesmo modo arrasador. A massificação do uso de sementes transgênicas vai impor uma padronização dos tipos de alimento em todo o mundo, ferindo as culturas locais e trazendo conseqüências futuras inimagináveis. Atrelada a grande produção o modelo de apropriação de terras que prevê é o latifúndio voltado para exportação, expropria famílias do campo, promove o êxodo rural, a precarização da vida humana e a perseguição e extermínio de trabalhadores rurais no campo. Todos esses são fenômenos observáveis em nossa realidade há um tempo.
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9. Os transgênicos não vão acabar com a fome do mundo. Existem estudos que apontam que a produção de alimentos no mundo é 5 vezes superior ao consumo humano e isso não se deve a produção de alimentos transgênicos. Mesmo considerando que há um grande montante orientado para a engorda de animais de corte o problema é a própria categorização do alimento como mercadoria, o que, por sua vez, cria dificuldades de acesso a este direito primordial. Dentro da estrutura capitalista a desproporcional e acentuada má distribuição da renda no país agrava ainda mais tal quadro.
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10. É possível com sementes e alimentos sadios proporcionar alimento saudável para toda humanidade, respeitando o meio ambiente e livre de transgênicos. Dados do IBGE servem para ilustrar tal afirmação, mostrar o potencial e em qual estrutura devemos amparar a nossa produção agrícola: a agricultura familiar (menos de 100 hectares) ocupa 21% do território agrícola brasileiro, mas realiza 38% do investimento total do setor, empregando 81% da mão de-obra no meio rural. Responde, ainda, por 47% do valor da produção agropecuária, incluindo aí o suprimento de 56% de alimentos e matérias-primas vegetais e de 67% da oferta interna de alimentos de origem animal. “Numa palavra, é ela que gera comida e emprego. Sem precisar desses trangênicos”

BENJAMIN, César. Caros Amigos, 09/2003.

Kosovo: a nova província dos EUA

EUROPA Para controlar países dos Bálcãs, Estados Unidos patrocinam a independência unilateral de Kosovo da Sérvia; UE também oferere benesses

Achille Lollo

NO DIA 10 de dezembro, o narcotrafi cante Hashim Thaqi – líder do Exército de Libertação de Kosovo (ELK) e agente da CIA e do serivço secreto britânico M15 desde 1985 – anunciava que, em fevereiro, “seu governo” proclamaria a independência unilateral de Kosovo, violando, assim, a resolução nº 1.244 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que garante a soberania da Sérvia na província autônoma de Kosovo.
Assim, Condoleezza e Bush pretendem implementar uma solução geo-estratégica – traiçoeira e perigosa – para legitimar a definitiva dependência estratégica da União Européia (UE) aos Estados Unidos e concretizar a perda de autonomia do Conselho de Segurança das Nações Unidas, cujas “missões de paz” (de interesse dos EUA) passariam a ser gerenciadas pela OTAN.
A Rússia de Putin logo vetou a manobra dos Estados Unidos de debater a proposta de independência de Kosovo no Conselho de Segurança. Diante disso, o presidente francês Sarkozy – falando em nome dos países da União Européia – apelou para uma ampliação deste organismo deliberativo das Nações Unidas com países membros “amigos” (Brasil, África do Sul, Alemanha e Índia) de forma a isolar definitivamente a Rússia e a China.
Em resposta, o presidente conservador da Sérvia, Boris Tadic, e o primeiro-ministro, Vojislav Kostunica, líder do Partido Democrático da Sérvia (nacionalista e pró-russo) já tomaram distância dos Estados Unidos, declarando com firmeza: “os acordos internacionais assinados pela Sérvia, que incluem o Acordo de Estabilização e Associação com a União Européia, devem respeitar a soberania e a integridade territorial do país”.
Por sua parte, o Ministro da Defesa da Sérvia, Dragan Sutanovac, declarou que “esta não é uma declaração de guerra prévia, mas, apenas, um aviso dirigido em particular aos países centrais da União Européia que, agora, pretendem oferecer à Sérvia a admissão “mais rápida” no bloco, recebendo em troca uma declaração de renúncia da soberania no Kosovo que, assim, poderia proclamar-se independente sem violar as normas do direito internacional.”

Os EUA nos Bálcãs A provocação do narcotraficante Hashim Thaqi (1) é a última fase de um múltiplo processo de desestabilização da Federação Socialista Iugoslava – iniciado em 1989, com a proclamação da soberania e da autonomia unilateral da Eslovênia e da Macedônia, seguidas pelo desmembramento étnico na Croácia e Bósnia-Herzegovina, ocasionando sangrentas guerras étnicas que justificaram a crescente intervenção das tropas da OTAN (sob liderança dos Estados Unidos), a destruição de 90% do parque industrial da Sérvia, em 1999, e do próprio Estado iugoslavo.
Uma opção militar que, para os EUA, era a necessária solução geo-estratégica para impor a presença estadunidense nos Bálcãs, no momento em que a União Européia estava criando as condições para sua abertura às antigas nações do Pacto de Varsóvia, da URSS.
De fato, na época, o “democrata” Bill Clinton, para justificar os lançamentos dos mortíferos foguetes com urânio empobrecido contra os alvos civis da Iugoslávia, afirmava: “Se os Estados Unidos recuarem nos Bálcãs, na realidade, será o princípio do recuo da potência hegemônica no mundo”. Por sua parte, Madeleine Albright, secretária de Estado do governo Clinton, após ter conseguido inviabilizar o acordo de Rambuillet em 1995 declarava: “Finalmente a OTAN poderá atacar a Iugoslávia para salvaguardar os habitantes de Kosovo!”.
Com a “Operação Kosovo” (março de 1999), o democrata Clinton oficializava a política hegemônica e intervencionista que o presidente Bushpai havia proposto com a primeira guerra contra o Iraque de Saddam. A partir desse período, todos os orçamentos votados pelo Congresso estadunidense registraram sensíveis aumentos para a “manutenção e modernização dos sistemas de defesa”. Uma fórmula política – utilizada por democratas e republicanos – adotada pelos aliados europeus (sejam eles de direita ou de centro-esquerda) para transformar a OTAN em uma nova Task Force oposta a Rússia de Putin e preparada para intervir em todos os países da Europa do Leste ou da Ásia Menor, onde os conflitos locais poderiam ameaçar o fornecimento energético ao Ocidente.

Bósnia, Kosovo, Albânia Após 12 anos de “independência”, a Bósnia-Herzegovina continua um “protetorado” da OTAN, incapaz de ter uma administração própria, tanto que o primeiro-ministro da Eslovênia e presidente em exercício da União Européia, Janez Jansa, admitiu: “No Kosovo, o que se vai passar é claro, a questão é saber como chegar lá. Porém, é o futuro da Bósnia-Herzegovina que, hoje, representa uma ameaça “mais grave” para a estabilidade dos Bálcãs do que Kosovo, visto que não é possível ter um Estado que não consegue administrar-se a si mesmo e necessita, ainda, de governadores internacionais”.
De fato, o governo da Bósnia é formado por representantes da Federação croatomuçulmana e da comunidade sévio-bosniaca (República Srpska). Porém, a verdadeira administração do país é exercida por Miroslav Lajcak, Alto Representante da Comunidade Internacional na Bósnia, que coordena as atividades atividades das missões da União Européia, os projetos de financiamentos vindos da Europa (oficiais ou através de ONGs), enquanto 26 mil soldados da OTAN garantem a aparente convivência entre as duas comunidades. Em Kosovo, a OTAN mantém, ainda, outra força de ocupação, chamada KFOR, com 16.500 soldados, e nunca desarmou as milícias do ELK (albanês- islâmicos). Dessa forma, no interior da província, é praticado um silencioso terror étnico contra os sérvioskosovares (de religião ortodoxa), que provocou a fuga de quase 600 mil destes em direção à Sérvia, sem receberem nenhuma compensação da UE, enquanto foram destinados 5 bilhões de dólares aos 900 mil refugiados kosovares, no ano 2.000. Hoje, os europeus contribuem com 1,5 bilhão de dólares para a “estabilidade de Kosovo”. Uma doação que justifica a extrema simpatia dos islâmicoskosovares pelos Estados Unidos e União Européia.
A verdade é que, com o governo do narcotraficante Hashim Thaqi, o Kosovo se transformou em um grande quartel, com a função de controlar os países dos Bálcãs.
Aliás, é nessa lógica que, nos arredores da capital, Prístina, foi construída uma grande base aérea que, “após a independência”, será administrada unicamente pelos homens da Força Aérea dos Estados Unidos e ampliada para poder receber os caças-bombardeiros com ogivas nucleares, bem como os “aviõesfantasma” que realizam operações de espionagem no Leste europeu.
Do ponto de vista econômico, Kosovo sobrevive, apenas, com a ajuda financeira da União Européia e das despesas da OTAN para a manutenção dos corpos expedicionários. Por isso, as diferentes máfias (albanesa, macedônias, búlgara, romena italiana e turca) instalaram no território de Kosovo sofisticados laboratórios para a fabricação de heroína e de outras drogas químicas.
A Albânia, por exemplo, pode ser considerada a Colômbia da Europa. Suas características são: a exportação de gangues criminosas especializadas na venda de qualquer tipo de entorpecente – do haxixe à cocaína, da heroína ao êxtase – na prostituição, no contrabando de cigarros e produtos industriais e, até, no comércio de órgãos humanos.

Geo-estratégia dos EUA
Os Estados Unidos utilizaram a Guerra Fria para impor aos países europeus um grau de “colaboração estratégico-militar” que, em muitos casos, criou complexos modelos institucionais para garantir o controle preventivo dos países da OTAN. Porém, com a dissolução da URSS em 1989 e a conseqüente desarticulação do Pacto de Varsóvia, a OTAN, no lugar de encolher, se expandiu em função da “Doutrina Powell”(2), segundo a qual “a intervenção estadunidense deve ser uma espécie de antídoto contra os conflitos locais, que, por efeitos conjunturais ou circunstâncias locais diferenciados podem se multiplicar e ampliar o campo operativo em uma dimensão regional e atentar até contra a segurança mundial”.
Por isso tudo, a permanência militar em Kosovo com aviões, bases logísticas e milhares de soldados estadunidenses e dos países europeus da OTAN exige a criação de um estado-fantoche e um presidente narcotraficante como Hashim Thaqi. Os líderes políticos de Grã- Bretanha, Alemanha, França e Itália – sejam eles de direita ou de centro-esquerda – sabem que, ao contrariar o projeto estratégico dos Estados Unidos nos Bálcãs, correriam o risco de serem excluídos da gestão do poder. É oportuno lembrar que, em 1999, a secretaria de Estado do governo Clinton, Madeleine Albright, realizou negociações secretas com o primeiro-ministro italiano, o ex-comunista Massimo D’Alema, para manter a Itália alinhada aos EUA no processo de desestabilização da Iugoslávia e, sobretudo, para participar na guerra de Kosovo. Em resposta, Massimo D’Alema demonstrou ser tão “atlantista” como o trabalhista Tony Blair e o social-democrata Schoreder que, juntos, fizeram de tudo para demonstrar a Clinton – e hoje a Bush – serem mais belicosos que os próprios conservadores. De fato, o historiador Eric Hobsbawm questiona a atitude do governo D’Alema sublinhando: “Se a Itália tivesse ousado recusar ser transformada em um porta-aviões da OTAN, certamente a guerra teria tomado outros rumos, mas o primeiro ministro “progressista” certamente seria outro”.
Com a chancela dos ministros “social-neoliberais de centro-esquerda”, os conflitos locais que explodiram nos Bálcãs, no Iraque, na África e na Ásia Menor foram denominados “guerras humanitárias necessárias”, que as televisões e jornais de Berlusconi, Murdoch, Fox, CNN e Globo apresentavam como “conflitos pela reconquista da democracia e a implementação dos direitos humanos”. Nesse contexto, somente a esquerda mais esclarecida e fiel a suas origens rejeitou a mistificação das “guerras humanitárias”, que enriquecem a indústria militar e os bancos. O resto, inclusive os progressistas dos governos de centroesquerda, apoiou cegamente a lógica da Casa Branca.
Para os analistas, a proclamação unilateral de Kosovo abre um perigoso precedente, visto que no Leste europeu há dezenas de minorias que podem ser manipuladas para fragmentar ainda mais a Rússia de Putin. Também na região do Mar Cáspio, as comunidades étnicas das novas repúblicas islâmicas, ricas em gás e petróleo, podem ser facilmente manipuladas. Mas o mais complicado será convencer os partidos nacionalistas de Euskadi (País Basco), Ilhas Canárias, Escócia, Córsega, República Árabe Saharaui Democrática (RASD), Irlanda do Norte, e Flamingos (Bélgica) de que somente o Kosovo tem direito a uma legislação especial e uma independência financiada diretamente pela União Européia.
Diante disso, em Roma, Luciano Pettinari, líder da Sinistra Democrática alertava o primeiro-ministro Prodi: “Não queremos que a Itália entre em outro confuso projeto militar. Esperamos que o governo não esqueça a experiência da dita missão civil e de polícia, que, para a Itália foi e é uma dura lição”. Será que Prodi e D’Alema vão dizer não a Condoleezza Rice depois que o presidente Napolitano confirmou com Bush a plena integração da Itália, na geo-estratégia da OTAN? Enfim, sonhar é bom e não custa nada.

Notas
(1) Em 1985, o grupo de Hashim Thaqi realizou vários atentados terroristas na província iugoslava de Kosovo. Isso chamou a atenção da CIA e do M15, que estavam monitorando os grupos anticomunistas croatas e eslovenos. Logo, a Freedom House apontou Hashim Thaqi como o líder do Exército de Libertação do Kosovo (ELK), cuja principal atividade é provocar o Exército iugoslavo com chacinas de cidadãos sérvios, que a imprensa ocidental silencia. Após a ocupação de Kosovo por parte da OTAN, os homens do ELK tornaram-se narcotraficantes, passando a gerenciar redes de tráfico que levam heroína do Afeganistão e da Turquia para a Europa.
(2) Colin Powell, general e Chefe de Estado Major do Exército dos EUA formulou novos conceitos estratégicos pelos quais os EUA devem utilizar a “força máxima” para enfrentar um conflito cujo desempenho ofensivo não admite interrupções ou indecisões sobre a forma de conclui-lo.

Achille Lollo é jornalista italiano, editor da TV Adia e autor dos DVDs: RCTV, fim de um império midiático e Por que o MST é contrário aos Transgênicos e ao Biodiesel.

Fonte: Brasil De Fato

A metástase do sistema financeiro

Incumprimento maciço de dívidas: Banco de investimentos gigante da Wall Street internado nos “cuidados intensivos” pelo chefe do Fed em pânico

Mike Whitney

Na sexta-feira [14 de Março] o Bear Stearns explodiu [NR] . Foi a pior notícia possível no pior momento possível. Um dia antes, o politicamente conectado Carlyle Capital hedge fund não honrou US$16,6 mil milhões da sua dívida. O grupo Carlyle jactava-se de uma carteira com US$21,7 mil milhões de títulos apoiados por hipotecas residenciais com classificação AAA, mas foi incapaz de cumprir uma opção (margin call) de apenas US$400 milhões. (Para onde foram os US$21,7 mil milhões?) A notícia sobre o Bear foi a última gota. O mercado de acções começou a cambalear imediatamente, caindo 300 pontos em menos de uma hora. Então, milagrosamente, a maré mudou e o mercado começou a retomar. Se houvesse algum momento para a Equipe de Protecção de Mergulho (Plunge Protection Team) de Paulson vir em socorro, era este. Durante semanas os mercados foram assolados com más notícias. As vendas a retalho estão baixas, o desemprego é alto, a confiança do consumidor está na fossa, a inflação está a crescer, o dólar está nas cordas, e o esmagamento do crédito espalhou-se até mesmo aos cantos mais seguros do mercado. A enfrentar ferozes ventos contrários, os mandarins de Washington e os pesos pesados financeiros tiveram de decidir entre cruzar os braços e deixar que um pequeno banco de investimentos derrubasse todas as acções do mercado numa tarde ou então comprar furtivamente uns poucos futuros e viver para combater mais um dia? Escolha difícil, não é?

Nunca saberemos isso com certeza, mas foi o que provavelmente aconteceu.

Nunca saberemos também se a intenção real de Bernanke ao estabelecer o seu novo instrumento de leilão de US$200 mil milhões era proporcionar aos bancos chicoteados por falta de cash um lugar onde pudessem descarregar o lixo apoiado por hipotecas que a Carlyle despejara sobre o mercado quando foi à falência. Aquilo funcionou bem, não é? Agora os bancos podem comerciar estes títulos MBS sem valor com o Fed em troca de Títulos do Tesouro dos EUA quase ao seu pleno valor. Que grande negócio! Este deve ter sido o plano desde o princípio.

A salvação de emergência do Bear Stearns ateou uma tempestade de controvérsias acerca do azar moral e de se o Fed deveria estar a actuar prodigalizando as suas dádivas entre bancos de investimento. Mas o Fed não tinha escolha. Não se trata de um banco a desmoronar devido às suas más apostas. Todo o sistema financeiro está a balouçar e um fracasso no Bear teria trazido uma onda de ruína ao mercado accionário e remetido as acções por todo o mundo para uma violenta espiral da morte.. O New York Times resumiu assim na edição de domingo:

“Se o Fed não houvesse actuado esta manhã e o Bear não cumprisse as suas obrigações, então isto poderia ter disparado um pânico generalizado e potencialmente um colapso do sistema financeiro”.

Bingo.

Então, o que torna o Bear tão especial? Como é que um dos mais pequenos bancos de investimento pode colocar uma tal ameaça a todo o sistema?

Esta é a questão que será tratada nas próximas duas semanas e as pessoas não vão gostar da resposta. Durante a última década ou mais os mercados foram reconfigurados de acordo com um novo modelo de “finanças estruturadas” o qual transformou as interacções entre instituições e investidores. O foco tem sido maximizar o lucro através da criação de uma vasta galáxia de instrumentos de dívida exóticos que aumentam o risco global e a volatilidade em condições de mercado em desmoramento. O comércio de derivativos que, segundo o Bank of International Settlements , agora excede os US$500 milhões de milhões (trillions), costurou juntas as várias instituições de empréstimos e investimentos de um modo em que um fracasso pode por os dominós derivativos em movimento e deitar abaixo toda a armação financeira. Eis porque o Fed está envolvido e (acredito) abordou o Congresso numa sessão a portas fechadas (a qual supõe-se ter sido acerca da legislação FISA) para informar os legisladores acerca da crescente possibilidade de um grande colapso económico se as condições nos mercados de crédito não se estabilizassem rapidamente.

As perturbações no Bear e o perigo que elas apresentam para o sistema global foram explicitadas num artigo do editor de Counterpunch , Alexander Cockburn, em Novembro de 2006: “Lame Duck: The Downside of Capitalism”:

“Num documento de informação sob o casto título de ‘Private Equity: A discussion of Risk and Regulatory Engagement’ , o FSA toca o alarme.

“Alavancagem excessiva. A quantidade de crédito que os prestamistas estão desejosos de conceder a transacções privadas de acções aumentou substancialmente. Estes empréstimos podem, em certas circunstâncias, não ser inteiramente prudentes. Dados os níveis actuais de alavancagem e desenvolvimentos recentes no ciclo económico/creditício, o incumprimento de uma grande companhia privada apoiada por acções ou de um conjunto de companhias mais pequenas apoiadas por acções parece inevitável. Isto tem implicações negativas para prestamistas, compradores da dívidas, ordem dos mercados e, concebivelmente, em circunstâncias extremas, estabilidade financeira e elementos da economia do Reino Unido”.

Tradução: Isto está prestes a explodir!

“A duração e o impacto potencial de qualquer evento de crédito pode ser exacerbado por questões operacionais que tornam difícil identificar que finalmente possui o risco económico associado a uma compra alavancada (leveraged buy out) e como estes proprietários reagirão numa crise. Estas questões operacionais decorrem do uso extensivo de práticas de transferência de risco opacas, complexas e consumidoras de tempo tais como transferência de direitos (assignment) e sub-participação, juntamente com a utilização acrescida de derivativos de crédito. Estes derivativos de crédito não podem ser confirmado de um modo atempado e a quantia comerciada pode exceder substancialmente a quantia dos activos subjacentes” (citação)

Tradução: “O sistema de crédito do mundo é um vasto caixote de lixo de transacções não rastreáveis de valor brutalmente inflacionado”.

O problema é que a supervisão e estabilidade do sistema de crédito mundial já não está mais ao alcance de instituições internacionais familiares como o Fundo Monetário Internacional ou o Bank of International Settlements. Negociantes privados estão agora instalados em todos os nós estratégicos, a jogar com somas estratosféricas em pirâmides especulativas como o mercado de derivativos de crédito o qual era quase não existente em 2001, mas que atingiu os US$17,2 milhões de milhões no fim de 2005. Warren Buffett, o mais famoso investidor da América, denominou os derivativos de crédito “armas financeiras de destruição em massa”. (Alexander Cockburn, “Lame Duck: The Downside of Capitalism” counterpunch.org)

O artigo de Cockburn antecipa os problemas actuais do Bear e mostra porque o Fed não pode deixá-lo apodrecer e infeccionar todo o sistema. Todos os bancos de investimento e correctores fazem negócios uns com os outros, tomando partido em transacções como contrapartes. Se um jogador afunda isto aumenta a probabilidade de mais falências. Assim, o problema tem de ser contido.

O volume de contrato de derivativos, cujas maiores transacções não são comerciadas publicamente, explodiu nos últimos poucos anos. Estas transacções não regulamentadas, que Bill Gross da Pimco denomina sistema bancário sombra, assumiram o centro do cenário no momento em que as condições do mercado continuam a deteriorar-se e o ciclo baixista de desalavancamento começa a acelerar-se. O massacre em curso no imobiliário deixou o mercado de investimento estruturado em estado de congelamento, o que significa que os blocos das fundações (isto é, títulos apoiados por hipotecas) sobre os quais repousa toda esta alavancagem excessiva, está a começar a desmoronar. É a confusão geral.

O comércio de derivativos, particularmente em Credit Default Swaps (CDSs), frequentemente excede o valor dos activos subjacentes muitas vezes mais. Os CDSs são instrumentos financeiros baseados sobre empréstimos e títulos que especulam sobre a capacidade de uma companhia de reeembolsar dívida (um tipo de seguro não regulamentado). O mercado de CDSs é de aproximadamente US$45 milhões de milhões, apesar de o valor agregado do mercado hipotecário americano ser apenas de US$11 milhões de milhões, quatro vezes menor. Isso é um bocado de alavancagem e pode ter um efeito bola de neve quando as transacções de CDSs começarem a desatar-se.

Na verdade, o maior risco para o sistema financeiro é o risco de contraparte, a possibilidade de que algum grande banco de investimento, como o Bear, vá abaixo e succione o resto do mercado consigo devido à magnitude das suas perdas. No ano passado o Bear era a 12ª maior contraparte para transacções de CDSs segundo as classificações Fitch. Se elas desaparecesem subitamente, os efeitos para o resto do sistema seriam catastróficos.

Bernanke, o presidente de Fed, tinha assento na direcção do Federal Open Market Committee (FOMC) quando os gurus do investimento e os vivaços da corretagem configuravam os mercados de um modo que beneficiava as suas próprias fortunas pessoais enquanto aumentava os riscos de fracasso sistémico. Os SIV , os conduits , os derivativos opacos, as operações fora do balanço, as lagoas negras, a alavancagem maciça e a precipitada expansão do crédito; tudo isso emergiu durante o seu mandato (e de Greenspan). O Federal Reserve é amplamente responsável pelo incêndio florestal que actualmente tenta extinguir.

Agora, mais uma vez, Bernanke está a actuar para além do seu mandato e a recorrer a uma lei que não tem sido utilizada desde a década de 1960 a fim de que o Fed possa tornar-se o credor de uma instituição que tentou enriquecer-se através de apostas especulativas selvagens com investimentos tóxicos dúbios e que agora são absolutamente sem valor. Se isto não é uma razão boa e suficiente para abolir o Federal Reserve, então o que será?

Os mercados mais transparentes e lucrativos do mundo foram transformados num reles carnaval administrado por vendedores ambulantes, trapaceiros e artistas da fraude. O salvamento do Bear é mais um exemplo gritante de um sistema a que falta toda a credibilidade e está a auto-destruir-se rapidamente.

Fonte: http://resistir.info/

Jean-Claude Guillebaud

Para o ensaísta francês, é preciso combater todo tipo de clericalismo, principalmente o econômico

Eduardo Socha

A palavra está um pouco fora de moda, mas Jean-Claude Guillebaud, 68, é acima de tudo um polímata. Recusando a estreita visão de mundo que caracteriza a fragmentação contemporânea do saber (hoje celebrada principalmente na figura do “especialista”), Guillebaud não teme escrever sobre tudo aquilo que considera fonte dos grandes impasses morais vividos pela condição pós-moderna. Sim, parece genérico demais, e tal ousadia envolve certamente o perigo de encontrar, a qualquer momento, o ridículo de um pensamento diletante e estéril. Porém, nos seis livros lançados até agora – que tematizam desde questões bioéticas até as consequências dos movimentos libertários e hedonistas da década de 1960 e 1970, passando pelas convulsões atuais do embate entre fé e razão no início deste século – Guillebaud apresenta a destreza intelectual garantida pelo intenso trabalho de leitura e pesquisa, ou seja, a destreza de quem já superou há algum tempo o risco de diletantismo.

Antes de se tornar um dos ensaístas mais respeitados na França (venceu o prêmio Jean-Jacques Rousseau e o disputado prêmio Renaudot na categoria ensaio), Guillebaud foi repórter especial do jornal Le Monde e editor de humanidades das Éditions du Seuil, de onde saíram os livros de Lacan, Barthes, Deleuze, Morin, Serres, entre outros. A experiência consolidada por estas duas atividades ao longo de mais de trinta anos resultou num estilo claro, dinâmico, carregado de estatísticas, constatações de fatos e de detalhes do dia-a-dia, que consegue dialogar, ao mesmo tempo, com as correntes sociológicas e filosóficas mais polêmicas da cena atual.

Seu último livro, A força da convicção (Editora Bertrand Brasil), lançado há poucos meses no Brasil, faz parte desse projeto cuja unidade pretende fornecer um amplo diagnóstico sobre as grandes mutações da pós-modernidade. Dividido em três partes, o autor examina inicialmente o suposto esvaziamento das crenças no âmbito moral e político, que teria mesmo motivado o surgimento de expressões como a “era do vazio” e o “fim da história”. Guillebaud constata que as antigas convicções, na realidade, deram lugar a “patologias da crença” e defende a necessidade de uma reflexão de essência teológica para compreender as formas regressivas de credulidade que se disseminam com o avanço do capitalismo global: a idolatria pelo individualismo de consumo, o dogmatismo dos processos de privatização, a cultura transitória do zapping e da devoção publicitária, a transcendência religiosa presente nos discursos elogiosos à globalização, são apenas algumas delas. Na terceira parte do livro, o autor propõe o fortalecimento institucional de crenças, mas de crenças paradoxalmente amparadas na razão, distantes do dogmatismo e da idolatria. Pois o que interessa a Guillebaud é atacar toda forma regressiva da religiosidade, não a própria religiosidade, denunciando assim o caráter absurdo do ateísmo militante.

Nesta entrevista, gentilmente concedida à CULT por telefone, Guillebaud conversou sobre os principais temas do seu último livro: a crença patológica na economia, o terrorismo fundamentalista, a falta de projetos da União Européia, terrorismo, e principalmente a reativação contemporânea do debate entre fé e razão.

CULT – O senhor foi repórter durante muitos anos do jornal Le Monde e atualmente contribui para a revista Nouvel Observateur. Como sua experiência no jornalismo influenciou sua atividade de ensaísta?
JCG – Trabalhei como jornalista até meados dos anos 80, quando resolvi abandonar a carreira para coordenar a seção de Ciências Humanas das Editions du Seuil, em Paris. Nessa época, tive contato com os trabalhos de Edgar Morin, Michel Serres, René Girard, acompanhando de perto todos os grandes colóquios internacionais junto a estes pensadores, inclusive dois encontros no Brasil, em Campinas e no Rio. Fui me envolvendo cada vez mais com esse trabalho editorial, cobrindo deste antropologia até ciências cognitivas. Depois de dez anos, disse para mim mesmo que talvez valesse a pena fazer meus próprios livros, tirando proveito daquilo que aprendi no jornalismo, ou seja, ser claro e tornar acessíveis algumas das questões contemporâneas que à primeira vista nos parecem difíceis. Então comecei este projeto de escrever sobre aquilo que chamo de distúrbios contemporâneos, as grandes mutações que estamos vivendo. Comecei a publicar em 1995, e A força da convicção é o sexto livro deste projeto.

CULT – Já no início do livro, nota-se que seu método rejeita toda interpretação setorizada da realidade, propondo uma visão totalizante, quer dizer, indo na contra corrente da tendência contemporânea que privilegia a figura do especialista. Esse tipo de abordagem faz alusão ao conceito do “pensamento complexo”, de Edgar Morin. De que forma Morin orientou seu trabalho?
JCG – Fui editor do Morin por quase vinte anos, então conheço muito bem a produção dele. Morin sempre se preocupou com esta fragmentação crescente do conhecimento. Ou seja, quando as discussões se limitam a pensamentos parciais e especializados, quando os economistas só falam de economia, os geneticistas só falam de genética, os sociólogos só de sociologia, corremos o risco de não dispormos mais de uma representação consistente do mundo. O verdadeiro perigo, que Morin e eu discutíamos na época, é aquilo que hoje se convenciona sob o nome de reducionismo, o modo que cada um tem de explicar tudo através de sua própria especialidade.

CULT – Seu livro critica as teorias recentes que afirmam um certo esgotamento das crenças no plano moral e político, sobretudo após os movimentos libertários dos anos 1960 e após o colapso político do antigo bloco socialista; ou seja, a tese de que estaríamos vivendo uma “era do vazio”, segundo a expressão de Gilles Lipovetsky, ou ainda, o “fim da história”, segundo a de Francis Fukuyama. Qual a ilusão fundamental nestas teorias que o senhor procura denunciar?
JCG – A ilusão fundamental é acreditar que uma sociedade pode se organizar apenas mediante um certo padrão de racionalidade. Nos anos 1980, acreditaram – e essa era justamente a tese de Lipovetsky, mas também de muitos outros – que a crença era um fenômeno arcaico, que iria desaparecer em pouco tempo. Pensaram que já fazia parte do passado, e que as sociedades modernas seriam governadas não mais por crenças, mas pelo saber tecnocientífico, de um lado, pelo jogo dos interesses e pelo jogo transitório das convicções, de outro. Mas foi um erro espantoso ter cogitado isso, pois é evidente que quando as crenças são expulsas pela porta da frente, voltam corrompidas pelas janelas…

CULT – É o que o senhor chama de “patologias da crença”?
JCG – Sim, voltam da pior forma possível, como as seitas New Age, a tirania publicitária, o fascismo do marketing. Ou seja, em vez de grandes religiões, seitas. Em vez de padres, gurus. É ilusório pensar que isso se refere a credulidades inofensivas. Na Europa, aumentou enormemente nos últimos anos a onda do esoterismo, da paranormalidade, da astrologia, destes abrigos da fé. Cada dia novas formas de credulidade aparecem. É como se houvesse uma carência e uma demanda de crenças que não pudessem mais ser satisfeitas. Fiquei muito surpreso ao constatar estatisticamente essa proliferação de credulidades. Mas existe algo mais grave do que isso. Boa parte do conhecimento que geralmente se apresenta como saber racional, por exemplo, o economicismo, carrega uma série de crenças mal disfarçadas, ancoradas na mais ingênua credulidade. É flagrante.

CULT – Como assim?
JCG – O discurso econômico está todo impregnado de crenças. De início, a moeda já está fundamentada numa crença, num acordo social. Até aí, sem problemas. Mas quando a economia passa a se apresentar como ciência, como se explicasse algo próprio à natureza das coisas, aí se trata de uma impostura. Aqui na França, toda semana aparecem artigos nos jornais falando sobre a disposição moral do cidadão francês, resumindo, se o cidadão está alegre ou triste. Nesta semana, por exemplo, o humor do francês está em baixa, e os editorialistas de jornais importantes, como Le Monde e Nouvel Observateur, comentam esse dado com uma seriedade que me assusta. O curioso é que ninguém se pergunta como este dado é calculado. Aí você faz uma busca rápida no site do Institut National de la Statistique et des Études Économiques (órgão público para estatísticas) e descobre que este indicador para a disposição moral do francês, acredite ou não, é calculado de acordo com seu desejo de compra. Quer dizer, se o cidadão está com vontade de comprar, então significa que está de bom humor. Mas não poderíamos dizer o contrário? Afinal, quantas pessoas não falam “ah, hoje estou deprimido, acho que vou comprar um par de sapatos”. É uma crença tão tola quanto a crença em cartomantes, mas isso não impede que ela apareça em jornais sérios e se apresente como verdade científica. Veja outro exemplo. Todo dia, mas o dia inteiro mesmo, a mídia fala sobre o tal crescimento econômico. Dizem à população francesa que se o PIB crescer 2,2% em 2008, será o paraíso. Se a taxa for de 1,8%, será o inferno. A gente tem a impressão às vezes de que a taxa de crescimento substituiu o purgatório. Mas aí a gente descobre como se calcula o crescimento e percebe que a metodologia utilizada é no mínimo estranha. O naufrágio do petroleiro “Erika” na região da Bretanha, um dos maiores desastres ecológicos do mundo, poluiu cerca de 500 km da costa francesa. O processo judicial contra a empresa responsável começou recentemente e provavelmente ela será condenada. Penso que o naufrágio de um petroleiro que polui 500 km da costa marítima, mata mais de 200 mil pássaros, é uma catástrofe enorme, não? Pois bem, do ponto de vista econômico, não foi. Na verdade, foi algo formidável. Porque o naufrágio fez aumentar a atividade de várias empresas de limpeza e de setores associados, com seus caminhões e equipamentos para retirar os dejetos, o que ativou um ciclo de produção altamente lucrativo. Tanto que contabilizaram o desastre ecológico como algo positivo para o crescimento econômico.

CULT – Não há revisão destes indicadores? O governo mesmo não reavalia seus parâmetros?
JCG – É difícil entender como isso acontece. O presidente Sarkozy chamou agora dois economistas bastante conhecidos, dois Prêmios Nobel de Economia, Amartya Sem e Joseph Stiglitz. Ele deu a missão de revisar os parâmetros que medem o crescimento e reconsiderar principalmente o “critério qualidade de vida”. Quer dizer, foram necessários mais de 30 anos para se dar conta disso. Tudo para mostrar que esses números do economicismo, que se apresentam diariamente como dados científicos, não passam de credulidades temporárias.

Fonte: Revista Cultural

Energia oceânica é a próxima onda verde da Europa

A irlandesa OpenHydro e a alemã RWE estão investindo milhões nas iniciativas para transformar a energia das ondas em eletricidade

Mark Scott

Neste momento em que o preço do petróleo atinge valores recordes quase que diariamente e o aquecimento global assume uma importância cada vez maior na agenda pública, a necessidade de fontes de energia alternativa nunca foi tão urgente. Mas embora as energias eólica e solar tenham dominado a recente corrida para o investimento em fontes energéticas renováveis, os analistas do setor percebem que este pode ser o momento de a energia oceânica brilhar.

A energia oceânica – o uso da energia das ondas e das marés para a produção de eletricidade – está amadurecendo rapidamente como um recurso verde viável que poderia contribuir para que fossem alcançadas as metas para a redução dos gases causadores do efeito estufa e da dependência dos combustíveis fósseis.

Companhias de energia da Europa e da América do Norte, tais como a Emera, do Canadá, e a RWE, da Alemanha, estão investindo milhões no financiamento de projetos eólicos e de marés. Esse investimento tem conduzido à criação de novas tecnologias mais eficientes, e dezenas de protótipos deverão estar prontos para o lançamento comercial nos próximos cinco anos. “Há um interesse enorme pelas tecnologias de geração de energia das ondas e das marés”, afirma Thomas Boeckmann, analista de energias limpas da firma de pesquisas de mercados StrategyEye, em Londres. “Esse setor está recebendo muita atenção das empresas de energia, que poderão oferecer apoio financeiro e conhecimentos técnicos para essas tecnologias pioneiras”.

Os investidores estão interessados
Não é de se surpreender que as companhias de eletricidade estejam ansiosas para explorar a energia marinha. Segundo o Carbon Trust do Reino Unido, um grupo de assessoria e pesquisa financiado pelo governo britânico, os oceanos do planeta contam com uma capacidade de produção de 4.000 terawatts horas por ano de eletricidade – o que equivale a dez vezes à necessidade do Reino Unido.

É claro que há um longo caminho a percorrer até que se atinja tal patamar. Os analistas acreditam que até 2020 a Europa contará com uma capacidade instalada de usinas para produção de energia elétrica a partir das ondas e das marés de 2.000 a 5.000 megawatts. Isso equivale a entre quatro e dez usinas termoelétricas movidas a carvão.

O potencial de crescimento já está atraindo investimentos. A OpenHydro, com sede em Dublin, por exemplo, recebeu um total de mais de US$ 80 milhões de empresas de energia e investidores desde 2005 para desenvolver um novo tipo de turbina instalada no fundo do mar e que gira para produzir eletricidade à medida que a maré sobe ou desce. Entre os investidores está a Emera, do Canadá, que é detentora de 7% das ações da companhia.

Parcerias com companhias de eletricidade podem ajudar
A OpenHydro já conta com um protótipo de 250 quilowatts nas águas ao largo da costa da Escócia, e pretende instalar uma usina de um megawatt no Canadá em 2009. O presidente-executivo da companhia, James Ives, diz que o maior obstáculo para a energia marinha é persuadir os investidores de que ela é capaz de produzir eletricidade de forma consistente. “É preciso mostrar que essa tecnologia é confiável até mesmo nas piores condições”, explica Ives.

Os analistas acreditam que as parcerias com companhias de eletricidade podem ajudar as empresas que exploram a energia marinha a superar esses problemas. Um dos motivos para isso é o fato de as firmas tradicionais de eletricidade contarem com grande experiência na construção de cabos e gasodutos subaquáticos. Parceiros ricos também poderiam ajudar a reduzir as lacunas entre pesquisa, desenvolvimento e comercialização das tecnologias marinhas. “A cooperação com as empresas de eletricidade é importante porque ela proporciona uma injeção de verbas que demonstra que as companhias de energia estão levando o setor a sério”, afirma Stephan Wyatt, gerente de aceleração de tecnologias do Carbon Trust.

Esta é sem dúvida a esperança da Wavegen, do Reino Unido. Em 2000, esta subsidiária da alemã Voith Siemens Hydro instalou a primeira usina de geração de energia a partir da força das ondas do mar que foi conectada à rede de energia elétrica. O protótipo incomum utiliza o vento – as fortes brisas geradas pelas ondas – para movimentar geradores localizados em uma estrutura marítima. A Wavegen trabalha agora em conjunto com o Departamento Basco de Energia para construir uma usina de testes maior na costa norte da Espanha. Além disso, uma outra, totalmente comercial, deverá estar em funcionamento na Escócia em 2010.

A energia das ondas é amiga do meio ambiente
É claro que as experiências com a energia marinha são feitas há décadas. Uma das primeiras usinas do mundo a explorar a energia das marés, situada em La Rance, na Bretanha, está em operação desde 1966. Construída na foz de um estuário no qual as marés são poderosas, a usina de 240 megawatts produz eletricidade quando a água deslocada pelas marés passam pelas turbinas instaladas na barreira.

As tecnologias experimentais de hoje tendem a ser mais ecologicamente sensíveis do que as do passado. A Pelamis Wave Power, da Escócia – que antigamente chamava-se Ocean Power Delivery – criou uma “fazenda de ondas” amiga do meio ambiente na costa de Portugal em parceria com a empresa de eletricidade latino-americana Enersis (ENI). A instalação já produz 2,25 megawatts de eletricidade.

Agora a Pelamis e a Enersis, uma unidade da empresa espanhola de eletricidade Endesa, pretendem expandir a usina para que ela produza 20 megawatts. Max Carcas, o diretor de desenvolvimento de negócios da companhia, também visa a América do Norte para a expansão das suas operações, e acredita que até 2012 a energia das ondas será responsável por uma indústria de US$ 10 bilhões anuais.

A maré está mudando
É bem verdade que existem muitos riscos para as firmas de energia marinha. Altos custos iniciais, competição de outras fontes renováveis e o temor dos investidores quanto à forma como essas tecnologias funcionarão na prática são fatores que podem prejudicar a inserção da energia oceânica na lista dos meios bem aceitos para a geração de energia elétrica. Além do mais, é necessário um apoio governamental generoso e consistente para possibilitar que esta indústria incipiente decole. Atualmente energia elétrica derivada da energia marinha custa pelo menos dez vezes mais do que a eletricidade produzida por meio das fontes tradicionais. Países como Reino Unido e Espanha oferecem subsídios à energia marinha, mas o temor de que tal apoio possa ser reduzido confundiu ainda mais os investidores que desejam financiar esses projetos.

Apesar dessa incerteza, os investidores e as empresas de eletricidade não deixaram de inundar o setor com verbas, em busca de tecnologias pioneiras. De fato, Boeckmann, da StrategyEye, prevê que, graças aos crescentes investimentos, a energia oceânica poderá se constituir em 20% dos recursos totais renováveis da Europa até 2020, comparados aos 40% previstos para a energia eólica.

Isso é uma boa notícia para companhias de todo o continente que esperam que os seus projetos possam ser a próxima grande onda no setor energético. Embora as energias eólica e solar tenham captado a maior parte dos investimentos nas fontes renováveis até o momento, a maré está mudando em favor da energia oceânica.

Fonte: Der Spiegel

União Européia procura o seu “George Washington”

Henri de Bresson

Quem será o futuro presidente do Conselho Europeu? Tony Blair, o flamejante britânico, Jean-Claude Juncker, o sábio do Luxemburgo, Anders Fogh Rasmussen, o “azarão” dinamarquês? Ou alguma outra personalidade ainda por surgir entre os nomes que têm sido lançados aqui e lá?

Cada um desses nomes tem a sua história, que reflete uma concepção própria daquilo que deverá ser o novo presidente da Europa. Este deverá supostamente assumir em 1º de janeiro de 2009, para um mandato de dois anos e meio que poderá ser renovado uma vez, quando o tratado de Lisboa entrará em vigor, mas as suas atribuições ainda estão de longe de serem definidas.

“A Europa deve sair à procura do seu George Washington (o primeiro presidente dos Estados Unidos), ou até mesmo inventá-lo”, comentou com entusiasmo Valéry Giscard d’Estaing, na quarta-feira (20/02), em Hamburgo. O antigo presidente da convenção que havia sido encarregada de elaborar a “falecida” Constituição européia argumentou em favor da idéia de incluir a opinião pública ao processo de escolha. “Nós não podemos fracassar nem decepcionar no processo da designação do primeiro presidente da história da Europa! Nós estamos perfeitamente cientes de que muitos dirigentes se satisfariam com uma personalidade apagada, que não viesse ofuscar as suas próprias atividades no plano nacional. Mas isso equivaleria a um retrocesso, ou, pior ainda, a uma ferida grave que seria infligida ao belo sonho de união”, disse.

Por ocasião da convenção, duas concepções haviam se enfrentado: a de um presidente “chairman” (mais simbólico), encarregado de coordenar as atividades do Conselho Europeu, que reúne quatro vezes por ano os chefes de Estado e de governo dos 27 países-membros, mas cuja visibilidade ficaria limitada; e aquela de um presidente “líder”, mais atuante, que encarnaria a União junto aos cidadãos, uma opção mais próxima das idéias francesas.

Foi isso que conduziu Nicolas Sarkozy a lançar o nome de Tony Blair, 54 anos, um homem pouco inclinado a se limitar a exercer apenas funções decorativas. O executivo francês lembra que o ex-primeiro-ministro inglês é de um país que sempre se mostrou cético em relação à Europa, um país que não é membro nem da zona do euro, nem do espaço Schengen (que aboliu as fronteiras entre os países da União Européia) – o que torna Blair inadequado para o cargo, segundo muitos. Porém, prossegue Sarkozy, Blair sempre se mostrou convencido do lugar ocupado pela Grã-Bretanha na Europa, lançando o programa de defesa européia em 1998. Contra Tony Blair recai o número excessivo de inimigos, principalmente por causa do papel que exerceu na guerra no Iraque.

Atualmente, o candidato de consenso é o primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, 53 anos, que preside as reuniões dos ministros das finanças da zona do euro. De formação cultural dupla, francesa e alemã, ele sabe manejar um humor feroz, mas se caracteriza acima de tudo por ser um conciliador nato; além de apresentar a vantagem de ser natural de um pequeno país.

“Um candidato quase perfeito demais”, dizem em Paris. Mas Nicolas Sarkozy daria preferência, segundo observadores, para alguém menos em destaque na cena européia, como o primeiro-ministro dinamarquês, o liberal Anders Fogh Rasmussen, 54 anos. O seu país costuma ser citado como modelo por ter sido capaz de conciliar as reformas liberais com o Estado de bem-estar. Líder de um governo que depende da extrema-direita, ele precisaria apresentar garantias da sua fé na Europa. Ele planejou organizar um referendo em setembro para que sejam suprimidas as restrições da Dinamarca, que não participa nem da defesa européia, nem adotou o euro.

As funções do futuro ministro das relações exteriores da União, que será chamado de “alto representante da União para as relações exteriores e a política de segurança”, também são objetos de negociações. Essas discussões apresentam uma complicação: o ministro será também o vice-presidente da Comissão. Este, por sua vez, deverá ter o nome aprovado pelo Parlamento Europeu. O atual titular do cargo, o espanhol Javier Solana, um antigo secretário-geral da Otan (Organização do Tratado do Atlântico-Norte), aceitaria retomar a função. Ele encarna a continuidade de uma política externa mantida sob o controle dos grandes Estados, que querem se manter nos comandos do jogo.

O eurodeputado ecologista Daniel Cohn-Bendit citou por diversas vezes o nome do seu amigo, o ex-ministro alemão das relações exteriores Joschka Fischer. Também foram mencionados o francês Michel Barnier e o atual primeiro-ministro belga Guy Verhofstadt, cuja candidatura à presidência da Comissão em 2004 havia sido vetada pelos seus adversários.

Da mesma forma que para a presidência do Parlamento europeu, a escolha do presidente da Comissão deverá esperar até as eleições européias de 2009. No caso de uma vitória da direita, o português José Manuel Barroso reúne todas as chances para ser reconduzido para um segundo mandato: ele é simpatizante dos anglo-saxões, é defensor da aliança atlântica e representa um pequeno país… Além de tudo, ele conta com o apoio de Nicolas Sarkozy.

Fonte: Le Monde

DEMOCRACIA E JUSTIÇA SOCIAL, SÓ COM ESCOLA PÚBLICA

João Alberto Capiberibe (*)

Elas e eles tinham jogado a toalha depois de uma derrota acachapante, dessas que nós não esquecemos tão cedo. Aconteceu em junho deste ano, no segundo mês da greve dos professores. Reunidas em uma sala, além de mim havia dezesseis pessoas – treze professoras e três professores da rede pública estadual. A discussão girava em torno do desgaste político do governo que não aceitava conversar, muito menos atender às reivindicações salariais da categoria. Eu era o único não professor, limitava-me a ouvir o desfile de argumentos, até que lá pelas tantas me dirigi ao grupo:

- Ouçam! Por favor, ouçam! Posso lhes fazer uma pergunta? – Em uníssono eles me responderam:

- Claro!

- Quem entre vocês tem filhos estudando na escola privada?

Que goleada. Doze a quatro. Apenas quatro resistentes mantinham seus filhos na escola onde atuavam. Senti que, para se contrapor esse resultado desanimador, seria necessário bem mais que retórica política.

Na seqüência da conversa fui informado de que o sindicato exigia 10% de aumento, mas o governo só queria dar 4%. A partir daí entramos em outra linha de reflexão sobre a luta da categoria. Mesmo que a paralisação terminasse em vitória e fossem obtidos os 10% pretendidos, ainda assim o aumento na receita familiar não daria para cobrir uma única mensalidade na escola privada. Considerando ainda que ali a maioria tinha mais de um filho, era fundamental então focar as reivindicações na melhoria da qualidade do ensino para que seus filhos voltassem a estudar na escola pública gratuita.

Essa posição ganhou adesões e análises mais aprofundadas. Uma professora relatou que seus vizinhos são contra a greve porque só se fala em aumento de salários e que a categoria não está nem aí para qualidade do ensino.

- Na hora que colocarmos nossos filhos na escola pública, nós todos vamos travar a luta pela qualidade, aí então, tenho certeza que a comunidade vai estar do nosso lado na luta por melhores salários – concluiu a professora.

É isso mesmo, interveio outra, que acrescentou:

- O professor da escola privada é o mesmo da escola pública, com uma diferença, aqui o governo paga muito, mais muito melhor mesmo!

Finalmente uma voz masculina decidiu quebrar o silêncio, disse ele:

- Se o professor é o mesmo, se o salário do governo é melhor, porque então a qualidade do ensino público é pior? Por que tenho que matricular meu filho em uma escola particular?

É essa a questão que precisamos responder.

Na verdade quem está respondendo com precisão e ousadia a essa pergunta é o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). Ele sabe, como eu sei e tantos outros sabem, que o problema da escola pública é político. Por isso, ele está apresentando um projeto de lei que obriga os detentores de mandato popular a matricular seus filhos na rede pública de ensino básico. Nada mais democrático do que o filho do gari estudar na mesma escola do filho do prefeito, do governador ou do senador. Bravo! Esse é o país dos meus sonhos.

Já imagino o protesto dos contrários que alegarão cerceamento do direito de escolha, de falta de liberdade e democracia. Para esses, a solução é pra lá de simples: basta não se candidatarem, ninguém é obrigado. No entanto, uma vez candidato por livre e espontânea vontade, uma vez eleito pela vontade do povo, ele passa então a ocupar espaço público; logo, deve se submeter à obrigatoriedade. Por último, sugiro que a lei passe a valer para os próximos eleitos, nada de mudar as regras na metade do jogo.

Concluo dizendo que isso me parece uma sacada genial desse brasileiro que não desiste nunca da utopia da educação com qualidade e para todos. Vamos que vamos, um dia chegaremos lá.

(*) João Alberto Capiberibe, 60 anos, ex-preso e exilado político, ex-prefeito de Macapá (AP), ex-governador e ex-senador do Amapá, é vice-presidente nacional do PSB.

Fonte: Fazendo Media

Garimpeiros brasileiros buscam ouro na Guiana Francesa

Laurent Marot

A chuva cai sobre a centena de “carbets” da aldeia, abrigos sumários cobertos por lonas de plástico preto que se erguem aqui e lá, à beira de um caminho lamacento. Já faz vários meses, este lugar é utilizado como um local de passagem, de abastecimento e de entretenimento pelos garimpeiros clandestinos que buscam ouro na Alta Mana, no coração da floresta guianense, que fica a vários dias de piroga (um barco indígena) da costa atlântica.

Sentado na margem do rio, Edilson, 57 anos, está aguardando uma embarcação para retornar ao litoral, e voltar para casa, no Brasil, no Estado do Maranhão, um dos mais pobres do país. “Eu tive duas costelas quebradas quando uma parede desmoronou no garimpo. Vou procurar atendimento médico no Brasil, e depois descansar”, diz, com o olhar perdido nas águas lamacentas do rio Mana, poluídas pelos resíduos químicos dos garimpos clandestinos nos arredores. Há sete anos que Edilson está em busca da fortuna na floresta guianense, ele que já foi garimpeiro – sempre em busca de ouro – em seu país. “Primeiro, a gente trabalha com as mãos, como os veteranos, e depois a gente compra um motor, quando isso se torna possível, a prestações e passa a trabalhar com cinco ou seis pessoas”, explica este pequeno patrão. “Os operários recebem 30% do valor do ouro, eu pago as despesas – o combustível, alimentos – e o que sobrar é para mim, mas, em muitos casos, não sobra grande coisa”, confessa. Isso é suficiente para financiar a escola ou a universidade para os três filhos. “Eles não precisarão levar a vida que eu levo, eles estão estudando”, comemora o garimpeiro.

“Aqui, 90% das pessoas são analfabetas. Eu mesmo, mal consigo escrever o meu nome”, explica Josué, cerca de 40 anos, magro e desdentado, que busca ouro há vinte anos, primeiro no Brasil e agora na Guiana. “No Brasil, quando uma pessoa não tem diploma, ela não consegue encontrar um emprego bem remunerado, e o salário mínimo – que hoje vale R$ 390 – não é suficiente para sustentar a família”, diz. No espaço de seis meses, ele diz ter enviado para a sua família cerca do dobro do que ele teria ganhado com um salário mínimo brasileiro.

Para mudarem de vida, todos eles sonham encontrar um veio, igual àquele que foi descoberto no ano passado a vinte quilômetros dali, num terreno que já é bastante conhecido de todos os garimpeiros clandestinos da Guiana. “O rapaz que descobriu aquela jazida foi embora com 100 kg de ouro. Então, nós fomos até lá e montamos uma cooperativa, relata Lourivaldo, um dos sócios da “cooperativa”. “Nós conseguimos extrair 200 kg de ouro; eu mesmo obtive um lucro de 4 kg”, diz, exibindo uma pedra daquele garimpo na qual brilham palhetas de ouro. O homem não circula pela área sem o seu fuzil calibre 12, e ele se diz cansado da insegurança que passou a predominar em volta do garimpo, onde três pessoas foram mortas nos últimos meses, em conseqüência de roubos e de brigas.

A grande maioria dos garimpeiros da Guiana nunca conhecerá a felicidade que se sente ao descobrir um veio, e gastará no mesmo local os poucos gramas de ouro arrancados da floresta. Na aldeia há um comércio que inclui uma padaria, cantinas, um joalheiro, pequenas quitandas. Durante a noite, há mulheres que dançam nas discotecas improvisadas e vendem o seu corpo por alguns gramas de ouro.

“Aqui, tudo é muito caro”, se queixa Josué. “O quilo de arroz custa um grama e meio de ouro – cerca de 27 euros (R$ 69) com base na cotação do ouro na floresta, não refinado -, o pão, um meio-grama de ouro (9 euros, R$ 23), um ovo, dois décimos de grama (3 euros, R$ 7,66)…”, enumera. Essas tarifas exorbitantes podem ser explicadas pelo custo elevado do transporte das mercadorias de contrabando, a partir de Paramaribo, a capital do Suriname vizinho. “É preciso desembolsar 300 gramas de ouro, ou seja, cerca de 5.000 euros (R$ 12.760), para mandar vir clandestinamente quatro toneladas de frete de Albina, no Suriname; este material é encaminhado de carro até Saut Sabbat, e depois de barco pelo rio Mana”, explica Isaias, que mantém um “carbet” quitanda na aldeia. “A viagem costuma demorar oito dias, mas pode durar o dobro quando as águas estão mais baixas, o que torna as coisas muito difíceis”, confessa o jovem rapaz. “É igual a um jogo, às vezes você ganha, e então, de vez em quando você perde”, prossegue, fazendo alusão aos riscos de naufrágio, ou às barragens de policiais militares. “Os policiais já confiscaram o meu barco, queimaram as minhas mercadorias, e até mesmo o meu ‘carbet’”, explica Luisa, a sua vizinha de “carbet”, que também compra mercadorias no Suriname para trazê-las para a aldeia. Então, o frete é encaminhado até os garimpos; os homens o carregam nas costas ou por meio de “quads”, pequenas motos de quatro rodas capazes de transportar barris de combustível de 200 litros, e que permitem utilizar uma rede de pistas clandestinas, encobertas pela floresta.

A vinte minutos a pé da aldeia, um garimpeiro nos conduz para ver os restos de um garimpo, de fato um buraco repleto de água em plena floresta. “Nós evitamos derrubar as árvores”, explica, “para nos manter escondidos dos policiais”. Tão logo se ouve o ruído de um helicóptero, os olhos escrutam o céu. “Aqui, as pessoas temem a qualquer momento uma intervenção, e por via das dúvidas, todos eles saem para esconder as suas mercadorias na floresta, ou os motores dentro da água”, comenta o nosso guia. “Quando vocês chegaram à aldeia, muitos deles foram se esconder, acreditando que vocês eram policiais”, prossegue.

Dois dias antes da nossa chegada, uma operação chamada de “Anaconda” tomou como alvo um garimpo a alguns quilômetros de lá. A notícia se espalhou rápido, por meio da rede de rádio HF que cobre o interior da Guiana. Em cada aldeia, o “carbet” da rádio é o local onde os garimpeiros costumam comparecer para entrar em contato com a família, por intermédio de uma operadora de telefonia brasileira, mas também para alertar a todos no caso de uma aproximação dos policiais. O transmissor serve também para entrar em contato com uma equipe do pronto-socorro, para organizar evacuações de emergência rumo ao hospital de Caiena, quando ocorrem acidentes nos garimpos, ou ainda surtos de malária. Para um bom número de garimpeiros, o sonho não raro acaba num beco sem saída, em pleno coração da floresta, longe da sua família.

“Muitos vêm para cá com o objetivo de se tornarem muito ricos, mas no fim das contas, eles acabam sem um tostão, e sem terem como retornar ao seu país. Eles ficam doentes e não conseguem ir embora”, comenta Luisa, que deixou os dois filhos no Brasil para tentar a aventura do contrabando nos garimpos clandestinos. “Conheço alguns deles que estão aqui há três ou quatro anos”, acrescenta, “e, sem meios, nunca mais retornaram para casa. Eu mesma tenho medo de que isso aconteça comigo”.

Fonte: Le Monde

Atentados contra Fidel Castro incluíram canetas e milkshakes

Mike Hale

Agora que Fidel Castro renunciou como presidente de Cuba, parece provável que a doença e a idade finalmente conseguirão completar com êxito o que duas gerações de cubanos exilados não conseguiram, apesar do obsessivo empenho e da ajuda do governo norte-americano. Para quem quer saber mais sobre as tentativas de assassinato a Fidel, um rápido e interessante apanhado geral é o longa-metragem “638 Ways to Kill Castro”, um documentário britânico de 2006, que será exibido na TV aberta dos EUA pela primeira vez nesta segunda-feira.

O título refere-se ao número de planos de assassinato dos quais Fabian Escalante, ex-chefe dos serviços de segurança de Cuba, diz ter evidências de terem ocorrido e em muitos casos, terem sido frustrados. Escalante os relaciona por governo: Eisenhower, 38; Kennedy, 42; Johnson, 72; Nixon, 184; Carter, 64; Reagan, 197; Bush pai, 16; Clinton, 21. (Isso soma 634, mas nós podemos perdoá-lo por esquecer de algumas roupas de mergulho envenenadas).

O filme não tenta estabelecer a verdade sobre tais números espantosos (e Escalante também é conhecido por propor a teoria de que o assassinato de John F. Kennedy, envolveu contra-revolucionários cubanos e a máfia de Chicago). Mas ele cobre de forma bastante razoável as conspirações conhecidas e o planejamento para mostrar o quanto os inimigos de Castro estavam preocupados com a tarefa de tirá-lo de circulação.

As idéias mais extravagantes – as canetas-tinteiro envenenadas e os milkshakes, as conchas e cigarros com explosivos – são mencionadas de passagem, mas o foco fica nos métodos tradicionais, como armas e bombas, e grande parte da história é contada nas palavras dos possíveis assassinos. Os cineastas seguem as pistas de vários homens conhecidos ou suspeitos de terem conspirado contra Castro e os entrevistam em locais que em geral parecem ser confortáveis casas na Flórida.

Alguns falam cautelosamente, alguns abertamente, mas todos projetam aquela aura de integridade e orgulho, em geral com o endosso das mulheres e dos filhos: eles definem a si mesmos por meio de sua repulsa por Castro e da disposição de fazer alguma coisa a respeito.

Luis Posada Carriles, que foi associado a explosões de bombas em hotéis de Havana e em um vôo da Cubana Airlines, é uma figura singular entre os homens desse grupo, porque estava preso, enfrentando acusações da imigração, quando os cineastas o encontraram. Mas em uma entrevista por telefone ele tem o mesmo tom desafiador, embora ligeiramente patético: “Eu não quero ser a pessoa a dizer isso, mas acho que ele se sente mais seguro quando eu estou na cadeia, você não acha?” (Posada foi libertado depois disso, mesmo que o Departamento de Justiça o tenha qualificado como um “reconhecido articulador de conspirações terroristas e ataques.”).

“638 Ways to Kill Castro” não é um relato objetivo: o simpático e rude Escalante, que manteve Castro vivo durante tanto tempo, é o herói da ação e as fontes primárias de informações, incluindo o ex-diplomata norte-americano Wayne Smith e a jornalista Ann Louise Bardach, são claramente críticos em relação ao tratamento que os Estados Unidos dão a Cuba.

Com 75 minutos, o filme não tem o tempo para comprovar temas como o relacionamento próximo da família Bush com cubanos anti-Castro na Flórida. Mas é difícil duvidar da profunda hostilidade daquele grupo, e do ponto até onde eles iriam, quando se vê homens em roupas militares encenando jogos de guerra nos Everglades, finalizados com a execução encenada de alguém que se passa por Fidel. É o bastante para que alguém se indague se ele está a salvo, mesmo agora.

“638 Ways to Kill Castro”: dirigido por Dollan Cannell.

Fonte: The NYT New Service

Visita de Zidane agiliza legalização da primeira rádio comunitária de São Paulo

Resultado atesta a incapacidade do governo Lula de, em cinco anos, definir uma política pública que dê conta da demanda pela instalação das rádios comunitárias

Cristina Charão

Quase dez anos depois de aprovada a Lei de Radiodifusão Comunitária, a maior cidade do país recebe sua primeira autorização para o funcionamento de uma emissora nessa categoria. O ato de outorga do canal 87,5 FM à União de Núcleos, Associações e Sociedade de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco (Unas) foi publicado na quinta-feira (13), no Diário Oficial da União. Com ele, a Rádio Heliópolis, fechada tantas vezes pela Polícia Federal e tantas vezes reaberta, reafirma sua legitimidade.

A autorização, no entanto, surge em meio a um processo conturbado de regularização das rádios comunitárias em São Paulo. Segundo o Observatório do Direito à Comunicação apurou, a interferência direta da Presidência da República levou o Ministério das Comunicações a realizar em menos de uma semana as etapas finais do processo de outorga da Heliópolis.

A ordem foi dada depois de quase um ano e meio de esforços da sociedade para viabilizar a legalização coletiva de diversas emissoras na capital. E por uma razão exótica: a visita do ex-jogador da seleção francesa de futebol, Zinedine Zidane, à comunidade no próximo domingo.

O craque francês inaugurou a nova quadra esportiva da Unas. A Adidas, patrocinadora da benfeitoria e do atleta, convidou o presidente Luís Inácio Lula da Silva para participar do evento. Diante desta oportunidade, o Planalto avaliou quais seriam as ações do governo federal que poderiam ser apresentadas pelo presidente no domingo (16).

O nome da Rádio Heliópolis surgiu e, com ele, a informação de que a emissora não havia sido regularizada. A avaliação dos assessores do governo foi de que a visita presidencial a uma comunidade onde uma rádio aguarda há anos legalização “pegaria mal”.

O resultado da correria em Brasília beneficia a comunidade de Heliópolis e reforça o pleito das diversas organizações que aguardam a mesma autorização. Ao mesmo tempo, atesta a incapacidade do governo de, em cinco anos, definir uma política pública que dê conta da demanda pela instalação das rádios comunitárias.

Heliópolis e o caos paulistano

Funcionando desde 1992 no centro da maior favela da capital paulistana, a Rádio Heliópolis tornou-se um dos símbolos da perseguição oficial às comunitárias ao ser lacrada, em julho de 2006, por agentes da PF e da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A mobilização da comunidade e do movimento de rádios conseguiu recolocar o sinal da Heliópolis no ar, com uma solução precária: a emissora passou a funcionar em caráter científico-experimental, numa parceria com a Universidade Metodista de São Paulo.

Neste vai-vem, o caso Heliópolis ganhou também notoriedade jurídica. A Justiça Federal julgou ação movida pela rádio e proclamou que seu funcionamento sem autorização do governo não configurava crime. Foi considerado ilícito administrativo. Ainda assim, há duas semanas, agentes da Anatel estiveram na sede da rádio, prontos para fechá-la novamente. “Ligamos pra direção da Anatel aqui em SP e nem eles estavam sabendo desta ação”, contou Geronino Barbosa, uma das lideranças responsáveis pela emissora.

De um lado, a autorização põe fim às incertezas para a comunidade e, aparentemente, encerra a indecisão do governo sobre como se comportar em relação às rádios comunitárias na capital paulista. De outro, o espontaneísmo com que surge a outorga surpreendeu os vários atores envolvidos no processo de regularização coletiva iniciado em dezembro de 2006, com a publicação do Aviso de Habilitação para a capital paulista.

O Aviso é um tipo de edital para promover o cadastro de interessados em receber a autorização para rádio comunitária. Responderam ao Aviso 154 entidades, das quais 117 foram consideradas aptas para concorrerem à autorização. A Unas era uma destas mais de cem organizações habilitadas.

“O que é mais surpreendente é que, ao longo de todo este tempo, o Ministério das Comunicações não fez qualquer esforço para solucionar a questão paulistana, para chegar a um acordo para colocar o maior número de rádios no ar”, avalia a advogada Anna Claudia Vazzoler, coordenadora do Escritório Modelo D. Paulo Evaristo Arns. O escritório assessorou diversas organizações no processo de habilitação e acompanhou os esforços de acordo feitos pelas próprias rádios para garantirem as autorizações.

Um dos esforços vem sendo colocar o maior número de emissoras em funcionamento, respeitando a distância obrigatória de 4 quilômetros. A decisão antecipada sobre a Rádio Heliópolis, por exemplo, pode dificultar a instalação de rádios por duas outras entidades habilitadas, nos bairros Saúde e Vila Alpina.

Juçara Terezinha Zottis, da Associação Comunitária Cantareira, uma das entidades habilitadas junto ao ministério para receber a autorização, espera que a decisão indique a disposição de acelerar o processo de todas as rádios comunitárias. Mas ela se mostra surpresa. “A gente está se perguntando por que aquela rádio e não todas. Não dá pra saber qual o critério do Ministério.”

Em tempo: o presidente Lula decidiu não participar da atividade com Zidane no domingo.

Fonte: Brasil De Fato

De branco, para disfarçar

O negócio dos “casamentos de interesse” cresce graças à Internet

Jerónimo Andreu

O dia 22 de janeiro foi o primeiro aniversário de casamento de Rocío. Não houve bolo nem presente. Seu marido é quase um estranho para ela. Ela sabe que ele é senegalês, que chegou à Espanha num bote de imigrantes ilegais e que pagou os 8 mil euros que ela cobrou pelo casamento de conveniência. Sabe mais algumas coisas, que decorou para o exame a que os submeteu um juiz antes do casamento. Algumas reais (o nome dos pais dele, as cicatrizes que tem no corpo) e outras falsas, como o lugar onde se conheceram.

Rocío é o nome fictício atrás do qual se esconde uma madrilenha de 33 anos, funcionária de banco. Está casada, mas gosta de outro, seu namorado da vida inteira. Deixou-se levar por ele a “alguns investimentos que deram errado” e terminou buscando dinheiro onde fosse possível. Não gosta de falar de dívidas, mas conta que elas a preocuparam tanto que pensou em se prostituir.

Afinal, recorreu a um “casamento branco”. Ou melhor, a dois, porque ela se casou com Aliou, o senegalês que respondeu ao seu anúncio na Internet, enquanto seu namorado, sempre menos hábil nos negócios, vendeu sua solteirice por apenas 5 mil euros para uma colombiana. “Não foi ruim, mas temos vontade de nos divorciar para ter filhos sem problemas”, admite Rocío. Ainda faltam dois anos para que seus parceiros consigam a nacionalidade espanhola. Depois estarão livres.

A rede mundial transformou os casamentos de conveniência. Os fóruns estão cheios de pedidos, de espanhóis e estrangeiros. Mudar de estado civil custa entre 2 mil e 9 mil euros. A diretora geral de registros e cartórios, Pilar Blanco-Morales, está preocupada que “um punhado de fraudes” manche as uniões internacionais, ou mistas. Segundo números de seu departamento, só 300 casamentos suspeitos foram rejeitados em 2007. Um dado incompleto, porque o Ministério da Justiça só computa os casos recusados em segunda instância, e a maioria dos fraudadores não vai tão longe quando surgem dificuldades.

Blanco-Morales insiste que a fraude é uma anedota na floresta de casamentos mistos sinceros, um total de 24 mil em 2006, mais de 10% das uniões na Espanha. Mesmo assim, a proliferação de casos obrigou muitos cartórios a redobrar as precauções.

Nos casamentos na Espanha ou em consulados no estrangeiro, os noivos passam separadamente por uma entrevista, sem um questionário definido: tudo fica a critério do juiz. A Justiça recomenda perguntas que garantam que existe um conhecimento profundo, embora não exaustivo, do parceiro: perguntas sobre as circunstâncias em que se conheceram, relações anteriores, preferências… O trâmite serve para rejeitar os casos em que o juiz não esteja “positivamente seguro das motivações dos noivos”.

“Não é difícil”, resume Rocío à sua maneira. O juiz os recebeu no Juizado Civil. Haviam aprendido de cor a vida do outro, mas bastaram algumas perguntas. Universitária, loura, cheia de jóias, Rocío não levantou suspeitas. “Os cúmplices dessas fraudes costumam ser pessoas visivelmente necessitadas de dinheiro”, explica Jaime Nicolás, inspetor-chefe da brigada de estrangeiros da Polícia Nacional. Rocío e Aliou completaram sem problemas a façanha de se casar em Madri, um dos registros mais vigiados. Em outras províncias a burocracia é infinitamente mais simples. Esse é o motivo por que em Murcia são investigados 200 casamentos suspeitos entre espanholas e nigerianos.

Nesse caso são casamentos canônicos, que dependem das relações entre paróquias da Espanha e do exterior. Na opinião do inspetor Nicolás, a fraude era evidente porque “a maioria dos nigerianos é evangélica, e não católica”. Embora a lei estipule que os envolvidos em uma fraude podem ser indiciados, é difícil demonstrar esse extremo. A polícia intervém em casos de falsidade ideológica. Algumas vezes a certidão de nascimento ou de solteiro exige uma viagem ao país de origem do noivo estrangeiro, que como ilegal não tem facilidade para voltar à Espanha. Para contornar o problema, muitos recorrem à falsificação. “E isso sim, é um delito comprovável”, explica Nicolás. As penas não chegam a um ano; o verdadeiro castigo é o processo de expulsão. O inspetor se rebela contra a imagem de inocência dessas fraudes. “Muitos dos que casam estão envolvidos em assuntos obscuros e não optam pela nacionalidade porque nem têm um trabalho legal.”

O estranho casal não vive junto. Rocío guarda a correspondência para Aliou. Se forem descobertos, a regularização será anulada. Aproveitam que na Espanha não existem controles depois do casamento, “por razões de qualidade democrática”, explica Blanco-Morales. A polícia não atua oficialmente e também não persegue os anúncios na Internet. “Só atuamos em casos de estelionato comprovado”, explica um agente do órgão. “Outra coisa é se for provado que os fóruns enriquecem com os anúncios delituosos”, continua a mesma fonte, consciente de que as páginas se protegem ao esclarecer que as opiniões publicadas são alheias ao seu controle. A maioria das investigações é desencadeada por uma denúncia do cônjuge espanhol. “É mais comum do que parece”, confirma Blanco-Morales. “Há pessoas que não têm consciência dos deveres que contraem.” A ingenuidade custa caro, e, por isso, muitos dos anunciantes na Internet exigem uma separação de bens ou a mediação de um advogado.

“Por interesse, o meu não é pior do que o de qualquer casamento”, argumenta Rocío. A polícia admite que definir o que é interesse constitui a dificuldade essencial. Na opinião do inspetor Nicolás, o problema é a falta de uma legislação explícita. “Em que lugar do Código Penal se diz que para se casar é preciso estar apaixonado?” Blanco-Morales vê claramente a fronteira legal: “O noivo assume direitos e deveres, e se não está disposto a cumprir, incorre em fraude”.

Alheia a essas considerações, Rocío revê as fotos do seu casamento. “Não nos beijamos, mas eu me vesti de branco para disfarçar”, ela ri. Não fez festa, mas nunca se esquecerá da de seu namorado. Lembra como a noiva colombiana agarrava o braço dele. “Meu marido, meu marido”, repetia, divertida. Rocio não achou graça; mas os 5 mil euros acalmaram seu ciúme.

Fonte: El País

Construtora privada usa poder público contra comunidade pobre

ARTIGO Funcionários da Prefeitura de SP ameaçaram de despejo moradores de favela para facilitar venda de imóvel de luxo

Sabrina Durigon Marques

A COMUNIDADE Campo Grande Jurubatuba é formada por 33 famílias que residem no bairro Campo Grande, em Santo Amaro, no município de São Paulo, desde 1987, ou seja, há mais de vinte anos. O terreno ocupado situa-se próximo à Favela do Real Park, na zona sul, região que vem sofrendo um contínuo e incessante processo de especulação imobiliária. Ao lado da favela de Jurubatuba está se iniciando a construção de um condomínio residencial de luxo, o “Magic Residencial Resort”, cujo preço de cada unidade gira em torno de R$ 200.000,00 a R$ 400.000,00.
Para que a favela não fosse empecilho à venda dos luxuosos e nababescos apartamentos, a construtora Gafisa “escondeu” as casas da comunidade com floreiras e um “megaoutdoor”, com cerca de 300 m2, em total desrespeito à Lei Municipal Cidade Limpa. Mas nesse caso, a Prefeitura fez vista grossa ao outdoor, pois sendo proprietária do terreno ocupado pela comunidade, tem interesse em sua desocupação.
Em agosto de 2007 os moradores receberam notificações da Subprefeitura de Santo Amaro, com base no artigo 3º do Decreto Municipal nº 15.086, de 05.06.78, para que desocupassem a área. Como nenhuma família se mudou após o recebimento do comunicado, a Subprefeitura, em “parceria” com a Construtora Gafisa, ofereceu ilegalmente uma “indenização” no valor de R$ 15.000,00 para que a população saísse do local. Soube-se, ainda, que a Gafisa havia repassado a quantia de R$ 25.000,00 para cada casa, a fim de que a Prefeitura “indenizasse” os moradores; no entanto, a prefeitura só ofereceu R$ 15.000,00 a cada residência.
Diversas ameaças foram feitas à comunidade para o caso de não aceitarem o “acordo”. O fiscal municipal disse aos moradores que, se não desocupassem a área, seus móveis seriam levados a um galpão da prefeitura, com auxílio policial, e um trator iria derrubar as casas de alvenaria construídas.
As ameaças foram tão extremas que um dos funcionários chegou ao absurdo de dizer que, caso procurassem algum advogado ou propusessem ação judicial, teriam que pagar à Prefeitura pelo tempo que ocuparam o bem público sem qualquer ônus. Inclusive, a Construtora Gafisa informa aos possíveis compradores dos imóveis em construção que as famílias da comunidade serão retiradas em 90 dias. Uma das conversas telefônicas havida entre o líder da comunidade Luiz Geraldo de Oliveira e o assessor da Prefeitura Antonio Carlos Bernardino foi gravada, e nela o funcionário municipal afirma que seria melhor que os moradores saíssem sem causar problemas, para que não corressem o risco de perder os R$ 15.000,00 que a prefeitura estava oferecendo.
Em razão das ameaças feitas pelo fiscal da Subprefeitura de Santo Amaro, Jorge Tadeu Guimarães, e pelo assessor do subprefeito, Carlos Bernardino, a comunidade, assustada, procurou o Ministério Público do Estado de São Paulo para lavrar o Termo de Declarações.
Após a parceria entre a Subprefeitura e a Construtora Gafisa ter sido divulgada pela grande mídia, ambos os funcionários da Prefeitura (gestão de Gilberto Kassab – DEM) foram exonerados do cargo. Apenas o subprefeito de Santo Amaro, Geraldo Mantovani Filho, foi mantido, pois, segundo informações do secretário municipal das Subprefeituras, Andréa Matarazzo, trata-se de pessoa de sua confiança.

Acordo suspeito
A parceria Gafisa-Prefeitura é totalmente ilegal e está sendo investigada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO). O promotor de Justiça José Carlos de Freitas, que trata do caso, suspeita que possa haver corrupção ativa e passiva. Procurada, a Gafisa informou que estava apenas preocupada em melhorar a vida dos habitantes da favela.
A ação do poder público contra a comunidade se deu de maneira totalmente ilegal, em evidente afronta ao artigo 6º da Constituição Federal, que prevê o direito à moradia como sendo direito social amparado por esse diploma legal. Isso sem considerar que todas as ameaças foram feitas de forma arbitrária, pois não há qualquer ação judicial proposta pela Prefeitura em que se reconheça que a área deva ser reintegrada. O presidente da Associação da Comunidade Campo Grande Jurubatuba, Luiz Geraldo de Oliveira, procurou a assessoria jurídica do Escritório Modelo da PUC/ SP, que, em nome dos moradores, propôs Ação de Concessão de Uso Especial para Fins de Moradia Coletiva, que se trata de instrumento jurídico previsto na Medida Provisória 2.220/2001. Como as terras públicas não são passíveis de usucapião, a medida judicial acima descrita confere aos ocupantes dessas áreas o direito à posse, caso cumpridos os requisitos necessários.
De acordo com o artigo 1º da MP 2.220/2001: “Aquele que, até 30 de junho de 2001, possuiu como seu, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, até 250 metros quadrados de imóvel público, situado em área urbana, utilizando-o para sua moradia ou de sua família, tem o direito à concessão de uso especial para fins de moradia em relação ao bem objeto da posse, desde que não seja proprietário ou concessionário, a qualquer título, de outro imóvel urbano ou rural.”
A comunidade preenche todos os requisitos citados na legislação, e a ação de posse está em tramitação na Fazenda Pública do Estado de São Paulo.

Sabrina Durigon Marques é advogada do Escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns (PUC-SP).

Fonte: Brasil De Fato

Destruição de satélite pelos Estados Unidos deixa muitas dúvidas no ar

Thom Shanker

As imagens da missão da Marinha dos Estados Unidos que abateu um satélite desgovernado, divulgadas na quinta-feira (21/02), mostram um míssil interceptador subindo e deixando um rastro brilhante de combustível em ignição, e, a seguir, uma bola de fogo, e um halo de vapor. Uma nuvem de destroços fez com que restassem poucas dúvidas de que o míssil acertou em cheio o alvo, que estava nos seus últimos dias de órbita, 210 quilômetros acima do Oceano Pacífico.

Porém, paira sobre a questão um tipo diferente de dúvida, expressa por analistas políticos, alguns políticos e cientistas, e por diversas potências, incluindo a China e a Rússia: a população do planeta deveria estar respirando aliviada por ter acabado o risco de que meia tonelada de combustível de foguete tóxico e congelado caísse sabe-se lá onde? Ou as pessoas deveriam estar preocupadas com a última exibição de talento técnico dos Estados Unidos, e encarar o episódio como um teste mal dissimulado de um programa secreto anti-satélites?

O secretário de Defesa Robert M. Gates, que deu pessoalmente a ordem para o abate do satélite na quarta-feira, disse a repórteres no Havaí, na quinta-feira, que está preparado para compartilhar alguns detalhes sobre a operação com a China a fim de reduzir os temores chineses de que os fragmentos do foguete ainda possam representar perigo. O almirante Timothy J. Keating, comandante das forças norte-americanas no Pacífico, também fez contato com diversas nações da área para explicar a missão.

Quanto às preocupações de ordem diplomática, autoridades graduadas de Washington repeliram as dúvidas levantadas pelos chineses e pelos russos, e ecoada por alguns especialistas em controle de armamentos, que questionam se o episódio não teria sido de fato um teste de armas espaciais. As autoridades ressaltaram que o míssil utilizado na operação, o interceptador SM-3 da marinha, foi projetado para conter um ataque limitado com mísseis balísticos, e precisou ser completamente reprogramado para esta missão inesperada, um problema com o qual o governo dificilmente voltará a se defrontar.

Quando se trata de defesa contra mísseis, um interceptador precisa localizar uma ogiva inimiga de temperatura elevadíssima quando esta percorre um arco em uma trajetória balística relativamente curta – uma tarefa muitas vezes descrita como “acertar uma bala com outra bala”. Desta vez, o alvo – muito maior do que uma ogiva, e tendo quase o tamanho de um ônibus escolar – dava voltas em torno da Terra de forma previsível, percorrendo cerca de 16 órbitas por dia.

Mas ainda assim tratava-se de uma operação difícil. O tanque de combustível, que era a mosca do alvo, tinha apenas cerca de um metro de diâmetro.

E embora os Estados Unidos já tivessem acertado anteriormente alvos no espaço – incluindo um satélite destruído em 1985, em uma demonstração de uma arma anti-satélite lançada de um avião de caça – as demonstrações de sucesso foram muito poucas.

O que o impacto bem sucedido ocorrido no espaço na última quarta-feira provou não foi a infalibilidade do sistema, mas sim a existência de uma capacidade militar robusta e flexível que pode ser citada por qualquer um dos lados no debate que certamente se seguirá.

A missão foi conduzida a partir de belonaves da marinha. Assim sendo, os Estados Unidos são capazes de movimentar capacidade de destruição de satélites a bel-prazer por um território superior a três quartos da superfície da Terra.

O interceptador de defesa contra mísseis foi convertido em um instrumento anti-satélite em pouco mais de um mês. Não houve nenhuma pesquisa ou programa de desenvolvimento caros. Nenhuma batalha com o Congresso em torno de verbas. Nenhum projeto começado da estaca zero em um laboratório.

Essa exibição de agilidade militar não tem como não obrigar qualquer adversário a fazer uma pausa para reflexão.

“Esse era um território desconhecido”, explica o general do Corpo de Fuzileiros Navais James E. Cartwright, que é vice-chefe do Estado Maior das Forças Armadas. “O grau de dificuldade técnica envolvida nesta operação foi significativa”.

Cartwright observa que elementos importantes do sistema de defesa anti-mísseis do país foram usados, especialmente os sensores.

“Estas foram as peças-chaves do sistema de defesa contra mísseis que utilizamos. A fim de preparar o foguete anti-mísseis para a missão, acrescentamos muitos instrumentos. Fizemos algumas modificações no software para podermos atingir um satélite”.

Em uma linguagem algo teatral, a missão foi elogiada por Riki Ellison, presidente da Aliança de Apoio à Defesa Contra Mísseis, um dos grupos mais ativos que promovem o desenvolvimento de sistemas de defesa anti-mísseis.

“O fato concreto ao se utilizar defesas anti-mísseis para destruir um satélite em queda, um míssil balístico ou até mesmo um meteoro que poderia arriscar a vida humana é que isto representa uma proeza da humanidade”, declarou a organização em um comunicado.

Porém, a missão bem-sucedida não prova de forma alguma que os Estados Unidos estejam protegidos de um ataque nuclear, ou que o país possa fazer o que bem quiser no espaço.

No início de uma série de encontros na Ásia com a duração de uma semana, Gates afirmou que o debate para determinar se o sistema de defesa anti-mísseis dos Estados Unidos funciona é “página virada”, mas que ainda existem dúvidas relativas aos tipos exatos de ameaças representadas por mísseis contra os quais o sistema poderia ser utilizado.

“A questão de saber se tal sistema funciona foi resolvida”, afirmou Gates em Pearl Harbor, após uma visita ao destróier Russel, que participou da operação de destruição do satélite. “A questão agora é determinar o tipo, o tamanho e o grau de sofisticação da ameaça”.

A Casa Branca e o Pentágono declararam que o perigo representado pelo satélite defeituoso do Departamento Nacional de Reconhecimento estava no seu combustível. Pode demorar de 24 a 48 horas até que as autoridades tenham condições de afirmar com certeza que o tanque de combustível foi perfurado e que a hidrazina nele contida não representa mais um perigo.

Mas o deputado Edward J. Markey, democrata por Massachusetts e membro do Comitê da Câmara para Segurança Nacional, afirmou: “Os problemas de ordem geopolítica causados por essa operação poderão ser bem maiores do que os problemas de natureza química que resultariam da queda do satélite. A decisão do governo Bush de usar um míssil para destruir o satélite com base em uma justificativa questionável relativa à ‘segurança’ representa um grande perigo, pois pode ser uma declaração de que a “temporada de caça” está aberta para que outras nações testem armas com o objetivo de utilizá-las contra os nossos satélites. A Rússia e a China sem dúvida encaram essa interceptação como uma prova de que os Estados Unidos já estão engajados em uma corrida armamentista no espaço, e de que precisam alcançar os norte-americanos”.

Na quinta-feira o governo chinês advertiu que a ação da Marinha dos Estados Unidos pode ameaçar a segurança no espaço. Liu Jianchao, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, disse em uma coletiva à imprensa em Pequim que os Estados Unidos deveriam distribuir imediatamente os dados sobre a trajetória das partes remanescentes do satélite.

“A China está acompanhando contínua e atentamente o possível dano causado pela ação dos Estados Unidos à segurança no espaço e a países relevantes”, declarou Liu, segundo a Associated Press.

* Mark Mazzeti, do Havaí, e Keith Bradsher, de Hong Kong, contribuíram para esta matéria.

Fonte: The New York Times

Como é a vida de uma família que recebe o salário médio francês

Anne Chemin

Ela colocou sobre a mesa da cozinha uma grande folha de papel quadriculada repleta de números. “Eu peguei todos os nossos extratos bancários e calculei as despesas que cabem a cada um dos nossos salários. Não foi complicado fazer isso: todas as nossas despesas estão programadas para serem efetuadas mensalmente. A gente não gosta de surpresas desagradáveis”. Bénédicte Badin e seu marido Pascal não podem agir de outra forma: eles recebem todo mês o equivalente àquilo que ganha, em média, a maioria dos casais franceses que têm dois filhos, ou seja, uma renda bruta de um pouco menos de 3.200 euros (cerca de R$ 8.200). A família Badin situa-se na parte mediana da escala social francesa, num lugar em que o poder aquisitivo deixa de ser um drama, mas continua sendo uma preocupação.

Bénédicte Badin, que tem 33 anos, é assistente-contadora, uma função que ela exerce na proporção de 80% do tempo integral, numa associação familiar de Caen. “Isso garante um salário regular, um trabalho livre de preocupações e poder retornar para casa todos os finais de tarde, às 18h”, resume. Ela enumera uma por uma as vantagens que lhe propicia o seu emprego: 16 tíquetes-restaurantes a 7,30 euros (R$ 18,72) cada; um plano de saúde a 20 euros (cerca de R$ 51,30) para toda a família; uma cooperativa de empresa que distribui bons presentes no Natal, além de ajuda para as férias no centro de lazer, no verão. “Eu não trabalho às quartas-feiras, tenho um empregador sério e ganho 980 euros (cerca de R$ 2.515) por mês. Para um segundo emprego, é perfeito”.

Isso porque Bénédicte Badin considera que o primeiro emprego do casal, o do “bread-winner” (arrimo de família), como dizem os sociólogos, é aquele do seu marido. Pascal, 34 anos, já tem no seu currículo uma extensa trajetória de encanador e especialista em calefação: aos 15 anos, ele deu início a estudos de pré-aprendizagem e, desde então, ele sempre trabalhou em canteiros de obra. “Eu cheguei a ter vários patrões, mas nunca tive de trabalhar por mais de 35 a 37 horas, em média, por semana. Eu ganho 1.550 euros (cerca de R$ 3.975) por mês, para 41 horas e 15 minutos de trabalho por semana. O trabalho é algo que não me assusta”.

Com os seus dois salários, mais a bonificação de Natal de Pascal, além das alocações familiares e da ajuda de custos relativa à guarda das crianças, o casal, que não precisa pagar nenhum imposto de renda, tem uma renda líquida de cerca de 3.050 euros (R$ 7.822) por mês. Para acrescentar um “pequeno adendo” a esses vencimentos, Bénédicte Badin dedica-se ao serviço de entrega, aos domingos, do jornal “Ouest-France” na sua aldeia de Mézidon-Canon (Calvados, Baixa Normandia). “Os jornais costumam ser entregues na porta das casas a partir das 5h30; eu os distribuo dentro das caixas de correios até as 8h30 e passo pela padaria para comprar pão para o café da manhã. Evidentemente, sempre levanto cedo aos domingos, mas isso me rende 150 euros (cerca de R$ 385) por mês”.

Pascal e Bénédicte Badin não se queixam nem um pouco – “Esta vida nos convém perfeitamente”, insistem -, mas eles reconhecem que o dia-a-dia exige deles cuidados redobrados, a cada instante. “Aqui, a gente não vive no aperto, mas temos que tomar muito cuidado”, resumem. As mil e uma despesas de uma família com dois filhos muito novos – Alexandre tem 4 anos, Elise, 3 anos – são orçadas com precisão: a partir de fevereiro, Pascal e Bénédicte Badin separam todos os meses 60 euros (cerca de R$ 155) que eles destinam ao pagamento do centro de férias para julho; além disso, eles concentram as compras de supermercado, fazendo uma única viagem mensal a Caen para não gastarem gasolina.

Da mesma forma que muitos franceses, a parte mais importante do seu orçamento é dedicada à moradia: em 2000, os Badin compraram, recorrendo a um empréstimo de uma duração de 25 anos, uma casa que estava abandonada havia cinco anos, que Pascal vem reformando com as suas próprias mãos, às noites e aos fins de semana. “Eu vivo o tempo todo no meio de um canteiro de obras”, constata. O reembolso de empréstimo representa 930 euros (cerca de R$ 2.385) por mês e as despesas com a obra 300 euros (R$ 770) em média, ou seja, 40% do seu orçamento total, embora esta casa não seja uma prioridade. “Nós gostaríamos de deixá-la para um dos nossos filhos e oferecer uma compensação para o outro”, explica Bénédicte Badin. “Mas, neste caso, é claro que isso se aproxima muito de uma utopia…”.

Para o restante das despesas, eles admitem que a sua vida passa por apertos (“ric-rac”). No começo de cada mês, Bénédicte e Pascal Badin, que sempre levam uma marmita para almoçar no seu local de trabalho, deixam separados os 38 tíquetes-restaurante fornecidos, para as compras no hipermercado Leclerc em Caen. “Isso dá um carrinho repleto, ou seja, uma grande compra de 300 euros (R$ 770)”. Para ir de manhã cedo aos seus canteiros, Pascal Badin utiliza o seu carro, mas a sua mulher vai sempre de trem para Caen. “O trem custa 46 euros (cerca de R$ 118) por mês, ou seja, o valor de um meio tanque de gasolina. Eu preciso caminhar um pouco para chegar à estação, mas, financeiramente, vale a pena”.

A parte do orçamento reservada ao vestuário é calculada levando em conta todo e qualquer centavo. “A gente compra roupas nas liquidações e somente para as crianças”, precisa Pascal. “No que me diz respeito, de qualquer forma, passo a maior parte do meu tempo trajando meu uniforme de trabalho”. Finalmente, a babá de Alexandre e de Elise – os dois estudam na escola maternal – constitui o único luxo dos Badin: enquanto eles poderiam deixá-los na cantina para o almoço e para o lanche da tarde, Pascal e Bénédicte preferem deixá-los no centro de guarda, aos cuidados desta babá, ao meio-dia e na parte da tarde, o que lhes custa 140 euros (cerca de R$ 360) por mês, uma vez deduzidas as alocações. “É caro, mas os nossos filhos gostam deste centro”, explica Bénédicte Badin. “Esta babá vem cuidando deles desde o seu nascimento; nós estamos muito apegados a ela”.

Uma vez feitas essas despesas, não sobra praticamente nada para o lazer. “A parte do orçamento reservada para este item é praticamente nula”, comenta Bénédicte com um sorriso. Não há como jantar num restaurante – “quando nos conhecemos, nós íamos de vez em quando num pequeno albergue à beira da estrada, mas não dá mais para fazer isso” -, e nada de espetáculos ou de saídas. Eles se permitem duas semanas de férias, todos os anos, no apartamento de uma avó, na Espanha. “Para pagar esta viagem, nós poupamos 100 euros (cerca de R$ 257) por mês durante o ano todo”, conta Pascal. “Nós vamos para lá de carro, não pagamos aluguel e tomamos cuidado com as despesas”. Os Badin dizem não terem nenhuma preocupação, exceto uma: a sua aposentadoria. “Nós estamos acumulando um capital ‘de pedra’, mas com uma pensão que equivalerá a 80% do nosso salário, não será nada faraônico”, lamenta Bénédicte.

Anne Chemin
Enviada especial a Mézidon-Canon, Calvados

Ela colocou sobre a mesa da cozinha uma grande folha de papel quadriculada repleta de números. “Eu peguei todos os nossos extratos bancários e calculei as despesas que cabem a cada um dos nossos salários. Não foi complicado fazer isso: todas as nossas despesas estão programadas para serem efetuadas mensalmente. A gente não gosta de surpresas desagradáveis”. Bénédicte Badin e seu marido Pascal não podem agir de outra forma: eles recebem todo mês o equivalente àquilo que ganha, em média, a maioria dos casais franceses que têm dois filhos, ou seja, uma renda bruta de um pouco menos de 3.200 euros (cerca de R$ 8.200). A família Badin situa-se na parte mediana da escala social francesa, num lugar em que o poder aquisitivo deixa de ser um drama, mas continua sendo uma preocupação.

Bénédicte Badin, que tem 33 anos, é assistente-contadora, uma função que ela exerce na proporção de 80% do tempo integral, numa associação familiar de Caen. “Isso garante um salário regular, um trabalho livre de preocupações e poder retornar para casa todos os finais de tarde, às 18h”, resume. Ela enumera uma por uma as vantagens que lhe propicia o seu emprego: 16 tíquetes-restaurantes a 7,30 euros (R$ 18,72) cada; um plano de saúde a 20 euros (cerca de R$ 51,30) para toda a família; uma cooperativa de empresa que distribui bons presentes no Natal, além de ajuda para as férias no centro de lazer, no verão. “Eu não trabalho às quartas-feiras, tenho um empregador sério e ganho 980 euros (cerca de R$ 2.515) por mês. Para um segundo emprego, é perfeito”.

Isso porque Bénédicte Badin considera que o primeiro emprego do casal, o do “bread-winner” (arrimo de família), como dizem os sociólogos, é aquele do seu marido. Pascal, 34 anos, já tem no seu currículo uma extensa trajetória de encanador e especialista em calefação: aos 15 anos, ele deu início a estudos de pré-aprendizagem e, desde então, ele sempre trabalhou em canteiros de obra. “Eu cheguei a ter vários patrões, mas nunca tive de trabalhar por mais de 35 a 37 horas, em média, por semana. Eu ganho 1.550 euros (cerca de R$ 3.975) por mês, para 41 horas e 15 minutos de trabalho por semana. O trabalho é algo que não me assusta”.

Com os seus dois salários, mais a bonificação de Natal de Pascal, além das alocações familiares e da ajuda de custos relativa à guarda das crianças, o casal, que não precisa pagar nenhum imposto de renda, tem uma renda líquida de cerca de 3.050 euros (R$ 7.822) por mês. Para acrescentar um “pequeno adendo” a esses vencimentos, Bénédicte Badin dedica-se ao serviço de entrega, aos domingos, do jornal “Ouest-France” na sua aldeia de Mézidon-Canon (Calvados, Baixa Normandia). “Os jornais costumam ser entregues na porta das casas a partir das 5h30; eu os distribuo dentro das caixas de correios até as 8h30 e passo pela padaria para comprar pão para o café da manhã. Evidentemente, sempre levanto cedo aos domingos, mas isso me rende 150 euros (cerca de R$ 385) por mês”.

Pascal e Bénédicte Badin não se queixam nem um pouco – “Esta vida nos convém perfeitamente”, insistem -, mas eles reconhecem que o dia-a-dia exige deles cuidados redobrados, a cada instante. “Aqui, a gente não vive no aperto, mas temos que tomar muito cuidado”, resumem. As mil e uma despesas de uma família com dois filhos muito novos – Alexandre tem 4 anos, Elise, 3 anos – são orçadas com precisão: a partir de fevereiro, Pascal e Bénédicte Badin separam todos os meses 60 euros (cerca de R$ 155) que eles destinam ao pagamento do centro de férias para julho; além disso, eles concentram as compras de supermercado, fazendo uma única viagem mensal a Caen para não gastarem gasolina.

Da mesma forma que muitos franceses, a parte mais importante do seu orçamento é dedicada à moradia: em 2000, os Badin compraram, recorrendo a um empréstimo de uma duração de 25 anos, uma casa que estava abandonada havia cinco anos, que Pascal vem reformando com as suas próprias mãos, às noites e aos fins de semana. “Eu vivo o tempo todo no meio de um canteiro de obras”, constata. O reembolso de empréstimo representa 930 euros (cerca de R$ 2.385) por mês e as despesas com a obra 300 euros (R$ 770) em média, ou seja, 40% do seu orçamento total, embora esta casa não seja uma prioridade. “Nós gostaríamos de deixá-la para um dos nossos filhos e oferecer uma compensação para o outro”, explica Bénédicte Badin. “Mas, neste caso, é claro que isso se aproxima muito de uma utopia…”.

Para o restante das despesas, eles admitem que a sua vida passa por apertos (“ric-rac”). No começo de cada mês, Bénédicte e Pascal Badin, que sempre levam uma marmita para almoçar no seu local de trabalho, deixam separados os 38 tíquetes-restaurante fornecidos, para as compras no hipermercado Leclerc em Caen. “Isso dá um carrinho repleto, ou seja, uma grande compra de 300 euros (R$ 770)”. Para ir de manhã cedo aos seus canteiros, Pascal Badin utiliza o seu carro, mas a sua mulher vai sempre de trem para Caen. “O trem custa 46 euros (cerca de R$ 118) por mês, ou seja, o valor de um meio tanque de gasolina. Eu preciso caminhar um pouco para chegar à estação, mas, financeiramente, vale a pena”.

A parte do orçamento reservada ao vestuário é calculada levando em conta todo e qualquer centavo. “A gente compra roupas nas liquidações e somente para as crianças”, precisa Pascal. “No que me diz respeito, de qualquer forma, passo a maior parte do meu tempo trajando meu uniforme de trabalho”. Finalmente, a babá de Alexandre e de Elise – os dois estudam na escola maternal – constitui o único luxo dos Badin: enquanto eles poderiam deixá-los na cantina para o almoço e para o lanche da tarde, Pascal e Bénédicte preferem deixá-los no centro de guarda, aos cuidados desta babá, ao meio-dia e na parte da tarde, o que lhes custa 140 euros (cerca de R$ 360) por mês, uma vez deduzidas as alocações. “É caro, mas os nossos filhos gostam deste centro”, explica Bénédicte Badin. “Esta babá vem cuidando deles desde o seu nascimento; nós estamos muito apegados a ela”.

Uma vez feitas essas despesas, não sobra praticamente nada para o lazer. “A parte do orçamento reservada para este item é praticamente nula”, comenta Bénédicte com um sorriso. Não há como jantar num restaurante – “quando nos conhecemos, nós íamos de vez em quando num pequeno albergue à beira da estrada, mas não dá mais para fazer isso” -, e nada de espetáculos ou de saídas. Eles se permitem duas semanas de férias, todos os anos, no apartamento de uma avó, na Espanha. “Para pagar esta viagem, nós poupamos 100 euros (cerca de R$ 257) por mês durante o ano todo”, conta Pascal. “Nós vamos para lá de carro, não pagamos aluguel e tomamos cuidado com as despesas”. Os Badin dizem não terem nenhuma preocupação, exceto uma: a sua aposentadoria. “Nós estamos acumulando um capital ‘de pedra’, mas com uma pensão que equivalerá a 80% do nosso salário, não será nada faraônico”, lamenta Bénédicte.

Fonte: Le Monde

Gripe aviária: uma pandemia que não aconteceu, mas pode acontecer

Donald G. McNeil Jr.

No ano passado, pela primeira vez desde que a gripe das aves emergiu como ameaça global, o número de casos humanos foi menor do que no ano anterior.

Na medida em que a doença retrocedeu, as manchetes assustadoras -com suas advertências que uma pandemia poderia matar 150 milhões de pessoas- praticamente desapareceram.

A gripe aviária, entretanto, não foi embora, nem se tornou menos letal ou menos disseminada nas aves. Especialistas argumentam que os esforços de combate à doença devem continuar, mesmo que o vírus não tenha sofrido mutação para se tornar uma cepa pandêmica e tenha dado mais espaço para o mundo respirar.

Foram 86 casos humanos confirmados no ano passado, comparados com 115 em 2006, de acordo com a Organização Mundial de Saúde; 59 mortes comparadas com 79. Especialistas assumem que os números verdadeiros são muitas vezes maiores, porque muitos casos não são identificados, mas isso ainda está longe de uma pandemia.

David Nabarro, coordenador de gripe aviária da ONU, recentemente admitiu que se preocupa menos do que há três anos. “Não porque eu ache que a ameaça mudou”, acrescentou rapidamente, “mas porque a resposta a ela melhorou muito”.

O mundo claramente está mais preparado. Vacinas foram desenvolvidas; os estoques de Tamiflu e de máscaras aumentaram. Muitos países, cidades, empresas e escolas estabeleceram planos para o caso de pandemia. O Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, criado em Estocolmo em 2005, estimou que a União Européia precisava de “outros dois ou três anos de trabalho duro e investimentos” para estar pronta para a pandemia, mas isso já é uma melhora, porque as estimativas anteriores eram de cinco anos.

Nos países mais atingidos -todos pobres- os laboratórios se tornaram mais rápidos nos exames de gripe. Veterinários do governo agora são mais ágeis no abate de galinhas infectadas. Os hospitais têm alas para pacientes suspeitos, e epidemiologistas verificam os contatos e tratam todos com Tamiflu -uma tática para prevenir surtos antes do vírus poder se adaptar em humanos.

Bernard Vallat, diretor geral da Organização Mundial de Saúde Animal, recentemente chamou o vírus de “extremamente estável” e portanto menos provável de sofrer mutação para uma forma pandêmica. Muitos virologistas proeminentes discordam veementemente. Outros, entretanto, que argumentaram há três anos que o H5N1 não se tornaria “pandemia”, estão sentindo um pouco convencidos.

Paul A. Offit, especialista em vacinas do Hospital Infantil da Filadélfia, foi um que “ousou ser estúpido”, disse brincando, ao questionar a tendência alarmista em 2005.

“Vírus H5 existem há 100 anos; nunca causaram pandemia e provavelmente nunca o farão”, disse ele.

Offit, entretanto, disse que defendeu todos os esforços de prontidão porque esperava outra pandemia de um H1, H2 ou H3, subtipos responsáveis por seis epidemias anteriores, inclusive uma catastrófica em 1918.

“O que me preocupa é que houve um fenômeno alarmista”, disse ele. “Quando a próxima pandemia vier, as pessoas vão dizer: ‘Sei, sei, já ouvimos isso da última vez.’”

Alguns que eram “Cassandras” em 2005 ainda são.

O fato dos casos humanos terem caído ligeiramente no ano passado é “bastante insignificante”, argumentou Michael T. Osterholme, diretor do Centro de Pesquisa e Política em Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota. O vírus ainda está circulando e gerou 10 linhagens e centenas de variantes.

Os preparativos mundiais até agora são simbólicos, disse ele, “como enviar 10 soldados para uma guerra quando se precisa de 10.000.”

Osterholme observou que a gripe H3N8 encontrada em cavalos nos anos 60 levou 40 anos para se adaptar aos cães, mas desde 2004 espalhou-se aos canis de todo o país.

O aspecto mais preocupante do H5N1 é que persiste em pássaros sem se tornar menos letal a eles, concordam quase todos os cientistas.

“Este é o vírus de gripe aviária mais sério conhecido”, disse Nabarro. “Em 2007, estava em 60 países. Deve ser tratado.”

Apesar do abate de centenas de milhões de aves e da injeção de bilhões de doses de vacina de frangos, o vírus está fora de controle em alguns dos países mais populosos. Exatamente quais ainda está em discussão, porque alguns não querem admitir que não conseguem livrar suas criações da doença.

Vallat listou três países onde a doença agora é endêmica nas aves locais: Egito, Indonésia e Nigéria.

Nabarro acrescentou Bangladesh, Vietnã e partes da China. Relatos de surtos recorrentes também persistem em partes da Índia, Mianmar e Paquistão. Na semana passada, aldeões na Índia mataram e comeram suas galinhas antes que os abatedores do governo, que pagavam menos de um terço do valor de mercado, pudessem apreendê-las.

Dr. Henry L. Niman, bioquímico em Pittsburgh cujo site da Web acompanha as mutações virais, argumenta que há um reservatório separado em aves silvestres que se estende pela Eurásia. No final de cada outono, novos surtos parecem pela Europa e até o Oriente Médio, quando gansos e cisnes migram da Ásia para a África.

Em dezembro, pássaros moribundos foram encontrados na Polônia e na Rússia, na Arábia Saudita e até em um zoológico de Israel.

No dia 8 de janeiro, a doença atingiu um dos mais famosos criadouros de cisnes da Inglaterra, o Abbotsbury Swannery, que existe desde o século 11.

O hemisfério ocidental corre menos perigo, de acordo com um estudo publicado na revista PloS Pathogens, que analisou os vírus em aves migratórias de amostras de 2001 até 2006 em Alberta e ao longo da costa de Jersey e concluiu que nenhuma carregava vírus em sua forma completa das aves da Eurásia.

Portanto, é mais provável que a importação do vírus seja por “aves movidas legal ou ilegalmente por humanos”, concluíram.

Talvez seja ainda mais provável que um ser humano seja o primeiro portador. Houve um caso no início de dezembro, quando seis membros de uma família do Paquistão adoeceram, provavelmente infectados por um irmão que tinha abatido animais doentes.

Outro irmão, que morava em Long Island, foi para o Paquistão para o funeral e sentiu-se mal quando voltou para casa. Ele não tinha o H5N1, mas demonstrou como seria fácil o vírus chegar ao hemisfério ocidental.

O Paquistão teve seus primeiros casos humanos no ano passado, assim como o Laos, Mianmar e Nigéria.

Muitas pequenas mutações foram registradas que parecem tornar o vírus mais adaptável aos humanos e mais resistentes às drogas conhecidas, mas nenhuma combinação do tipo que produz uma supercepa.

Noventa por cento dos casos de contaminação foram entre parentes consangüíneos, e o especialista em gripe aviária Arnold S. Monto, da Escola de Michigan de Saúde Pública, sugeriu uma suscetibilidade genética que ainda não foi definida.

Há muito se sabe que o vírus tem dificuldade em se ligar a receptores do nariz humano. Uma equipe do MIT refinou isso, mostrando que esses receptores têm dois formatos, cone e guarda-chuva, e que os vírus aviários se ligam melhor aos cones.

As vacinas tiveram um progresso rápido. A mais recente, disse Monto, precisa apenas de pequenas quantidades de antígeno -4 microgramas por injeção em vez de 90 microgramas- o que a torna mais prática de produzir.

Alguns cientistas defendem a vacinação de milhões de pessoas como precaução. Uma dose, mesmo que baseada em uma cepa de 3 anos, pode proteger contra a morte, se não da infecção. Uma segunda dose com proteção total poderia ser feita de qualquer cepa que se tornasse pandêmica.

Klaus Stoehr, que foi diretor de vacinas de gripe da Organização Mundial de Saúde e hoje faz o mesmo para a Novartis, diz que levaria cerca de um ano para produzir um bilhão de doses de qualquer vacina baseada na nova cepa pandêmica. A pandemia, contudo, daria a volta no globo em três meses.

“O pico teria terminado e, principalmente, você estaria vacinando os sobreviventes”, disse Stoehr. A Suíça, acrescentou, tem um estoque de vacinas e planeja testá-las em soldados, policiais e pessoal da saúde antes de decidir se oferecerá a todos os suíços.

Com o fiasco da gripe suína americana, no qual uma vacina feita contra uma pandemia que nunca emergiu prejudicou mais pessoas que a própria doença, os especialistas acreditam que é improvável que muitos americanos estariam dispostos a tomar tais precauções.

Fonte: The New York Times

Declínio do número de fiéis católicos leva a fechamento de igrejas

Fernanda Santos

Há dez dias, policiais armados removeram o último homem da igreja católica daqui, colocando sinais de “Proibida a entrada” nas portas ao saírem e cercando o perímetro da propriedade com fitas usadas em locais de crime contando o alerta: “Não ultrapasse”. Foi o final de uma vigília de sete meses dos fiéis na tentativa de manter a igreja aberta.

“Nos foi dito que se fôssemos até mesmo ao estacionamento, nós seríamos presos”, disse Mary Cargian, 78 anos, que se casou na igreja, a Saint Mary’s, em 1967 e reza ali desde então.

Por 217 dias, 100 voluntários se revezaram na ocupação de Saint Mary’s, onde as fechaduras foram mudadas pouco antes do padre celebrar a última missa, em 30 de junho. Quando a missa chegou ao fim, alguns voluntários permaneceram e então os ocupantes se revezaram. Eles se reuniam na igreja aos domingos para orações, continuaram arrecadando doações e até mesmo fizeram uma apelação junto ao Vaticano, argumentando que a igreja de 108 anos valia a pena ser salva.

A igreja é uma das 30 que foram fechadas ou fundidas pela Diocese de Syracuse da Igreja Católica Romana desde o ano passado, como parte de uma ampla e turbulenta reorganização que deverá afetar a maioria das 154 paróquias remanescentes da diocese nos próximos anos.

Ao longo da última década, as dioceses de todo o país estão consolidando paróquias diante dos crescentes custos de aquecimento, envelhecimento dos padres e encolhimento das congregações, provocando protestos sentados furiosos e outras manifestações em Boston, Chicago e Detroit. Mas a situação em Syracuse e outras cidades fabris em declínio no interior de Nova York é mais aguda, já que o número de católicos encolheu mais depressa que a população em geral.

“Nós sabíamos desde o início dos anos 80 que enfrentaríamos uma diminuição do clero, mas não previmos que o interior de Nova York seria tão duramente atingido pela perda de empresas, indústrias e pessoas”, disse o padre James P. Lang das paróquias da Diocese de Syracuse. “Chegou ao ponto de termos que tomar uma decisão”, ele disse. “Nós teríamos que gastar nossos recursos mantendo nossos prédios abertos ou teríamos que nos adaptar a esta nova realidade.”

Três das dioceses do interior, Buffalo, Rochester e Syracuse, perderam um quarto de suas igrejas. Elas tinham 590 igrejas em 2005, segundo o Centro para Pesquisa Aplicada no Apostolado, que monitora esses dados para a Igreja, e atualmente têm 440, disse a diocese.

As mudanças demográficas que levaram ao fechamento das igrejas são mais pronunciadas nos Estados do médio Atlântico, do Alto Meio-Oeste e nos velhos centros industriais do Nordeste, onde os imigrantes católicos, que antes compunham uma parcela significativa da força de trabalho, partiram para o Sul e Oeste desde o início do colapso do setor manufatureiro nos anos 70.

“É uma questão simples”, disse Chester Gillis, presidente do departamento de teologia da Universidade de Georgetown. “Se há menos pessoas doando para a igreja, se torna irreal -e financeiramente irresponsável- manter o prédio aberto.”

“O que descobrimos é que a maioria destas paróquias precisa de manutenção e que muitas delas não estão crescendo”, disse Keenan. Os novos imigrantes católicos que se mudaram para Buffalo e comunidades vizinhas, a maioria refugiados africanos e do Leste Europeu, “não são suficientes para compensar as perdas”, ele acrescentou.

A Diocese de Rochester, que serve 12 condados, tinha 159 paróquias em 2001; agora tem 136. Apenas na cidade de Rochester, a diocese fechou metade de suas 30 igrejas entre 1970 e 2004, disse Doug Mandelaro, o diretor de administração da diocese.

Marilyn Catherine, 59 anos, que vive em Rochester, estava entre os fiéis que trabalharam por vários meses em 2005 em um plano para fundir quatro igrejas da cidade em uma -em parte porque as congregações encolheram ao longo dos anos e em parte por não haver padres suficientes.

As igrejas, em um raio de 8 quilômetros uma da outra, foram construídas por imigrantes e todas tinham sua própria personalidade. Uma contava com uma congregação mais idosa, enquanto outra atendia principalmente aos refugiados da Nigéria e Sudão. E sem exceção, os fiéis mantinham uma profunda ligação com os próprios prédios. Agora, uma congregação poliglota prospera na Saint Monica’s, no 19º Distrito de Rochester.

“Houve muito sofrimento durante esse processo”, disse Catherine, que se mudou de Long Island para Rochester, a cidade de seu marido, há 30 anos. “Agora, nós chamamos a nós mesmos de os ressurectos, porque conseguimos pegar algo que deixou muitos de nós tristes e criamos uma nova comunidade.”

Ao mesmo tempo, a diocese de Rochester abriu sete novas igrejas nos últimos 30 anos, em cidades suburbanas como Webster e Pittsford, uma das poucas comunidades do interior com uma renda familiar média superior a US$ 100 mil e um valor médio de imóvel acima de US$ 175 mil, segundo um estudo de 2005 do jornal “Business First”, com sede em Buffalo.

“Estas igrejas estão todas prosperando”, disse Mandelaro.

Para muitos fiéis da Saint Mary’s aqui em Jamesville, o fechamento causou confusão. A igreja -construída por imigrantes irlandeses em 1899 e ampliada 32 anos depois para abrir espaço para os poloneses, italianos e ucranianos que vieram para trabalhar na pedreira local- tinha uma congregação sólida e um fundo saudável que financiava um refeitório para 1.200 pessoas e um programa popular de ensino religioso, disse Ciarrai Eaton, presidente do conselho da paróquia.

O primeiro sinal de problemas surgiu em 2001, quando a diocese transformou Saint Mary’s em uma missão, o que significava que não mais contaria com um padre residente, e pediu aos fiéis que propusessem formas de lidar com a nova demografia. A congregação sugeriu que os fiéis administrassem as finanças da igreja e que um padre visitante celebrasse a missa. Em 2005, alguns membros fizeram um apelo ao Vaticano; ele ainda não obteve resposta.

Mas Lang, o vigário da diocese, disse que dado o encolhimento do número de padres da diocese, fazia sentido fechar Saint Mary’s, já que seus fiéis podiam ser atendidos por outra igreja, a Holy Cross, a menos de 8 quilômetros de distância. “Foi uma questão de descobrir como melhor organizar os recursos humanos limitados que temos”, ele disse.

A vigília dos fiéis teve início tão logo a igreja foi fechada. “Nós tínhamos médicos, contadores, assistentes sociais, professores -muitas pessoas que estavam lá nos dias de folga, nos fins de semana, sempre que podiam”, disse Eaton, 28 anos, uma costureira que dormia em Saint Mary às segundas com seu marido, Fred, e o bebê do casal, Moira.

Danielle E. Cummings, a porta-voz da diocese, disse que os líderes da diocese primeiro viram a vigília como uma forma de dar à congregação um “tempo para lamentar” a perda de sua igreja. Mas, ela reconheceu na entrevista, permitir que durasse tanto foi um erro. A decisão de parar ocorreu quando as autoridades da Igreja souberam que um não sacerdote tinha levado hóstias da comunhão para a igreja. “Àquela altura nós dissemos: ‘Basta, temos que tirá-los de lá e lacrar a igreja’”, disse Cummings.

Algumas das famílias de Saint Mary’s ingressaram em outras congregações, mas Eaton e várias outras famílias ainda mantêm a esperança de que sua igreja será reaberta. Eles continuam se reunindo para orações aos domingos, na calçada.

“Nós estamos tentando manter nossa congregação funcionando o mais próximo do normal que podemos”, disse Eaton. “Somos como uma família. E sabemos que são as pessoas que fazem a paróquia.”

Fonte: The New York Times

Programa quer evitar os centros de detenção para menores delinquentes

Maria Cramer

Isaiah está na 6ª série e tem notas fracas. Ele quase não se relaciona com o pai e tem um histórico policial que inclui invasão de domicílio, assalto e violência contra a mulher -contra sua mãe e sua irmã, aos 11 anos de idade.

O rapaz tem outra coisa: uma nova tentativa para uma vida diferente, cortesia de um juiz da juventude.

Quando Isaiah foi preso, em novembro último por tentar invadir a casa de um amigo em Dorchester, o juiz Leslie Harris poderia tê-lo enviado para um centro de detenção similar a uma prisão para adultos.

Em vez disso, Harris fez uma opção menos punitiva. Ele encaminhou Isaiah a um programa inovador, por meio do qual o menino -e cerca de outros trinta jovens de Boston acusados de crimes graves- mora em casa e continua na escola. Três a quatro vezes por semana, os jovens, de idades entre 11 e 17, vão para um centro comunitário em Roxbury, onde se reúnem com advogados que asseguram que cumpram os horários determinados pela Corte e freqüentem a escola. Os jovens recebem aconselhamento e fazem aulas em escolas próximas, em viagens ao campo que seus advogados esperam que expandam sua visão de mundo para além das esquinas que parecem causar-lhes tantos problemas.

O programa incipiente, conhecido como Projeto para Evitar a Detenção (DDAP, das iniciais em inglês), nasceu em 2005, de uma preocupação que há menores demais mantidos em centros de detenção juvenil. O encarceramento nesta idade promove mais a vida de crime do que a participação em uma gangue, sugerem as estatísticas.

O programa, que é patrocinado pelo Departamento de Justiça e administrado pelo Estado, faz parte de uma tendência crescente dos últimos anos de desviar as crianças e adolescentes da detenção. Em 2006, mais de 5.400 jovens de Massachusetts foram acusados por crimes desde a invasão de domicílio até assalto à mão armada. Somente 1.000 deles eventualmente foram condenados pelas acusações.

No condado de Suffolk, 91% dos 1.019 jovens detidos eram de minorias, na maior parte negros e hispânicos.

“Raramente eu tenho um dia em que não envio jovens para a Departamento de Serviços da Juventude”, disse Harris, que trabalha na corte distrital de Dorchester, que encaminha os jovens ao programa. “Eu também sei que prender as crianças não é sempre a resposta. Vejo jovens estressados e deprimidos, e um programa como o DDAP pode lhes dar atenção individualizada antes de se tornarem parte do sistema”.

O Estado não calcula a reincidência entre adolescentes e crianças que foram presos, mas estudos em outros Estados mostram que jovens que são presos enquanto esperam a data de julgamento têm maior probabilidade de deixar a escola, ficar deprimidos e conhecer membros de gangues que tentam recrutá-los. Em Wisconsin, 70% dos jovens detidos foram presos novamente ou voltaram aos centros de detenção no espaço de um ano após a soltura, de acordo com um estudo de 2006 do Instituto de Política da Justiça.

A comissária de serviços juvenis Jane Tewksbury disse que o Estado está começando a desenvolver programas alternativos que se concentram em evitar que os jovens acusados de crimes leves, como roubo em lojas, fiquem presos enquanto esperam sua data de julgamento.

“Eu tinha consciência dos perigos da detenção”, disse Tewksbury. “Para nós, a reforma na detenção realmente está tirando do sistema os jovens com ofensas menos sérias”.

Isaiah, que ainda usa um gorro e calças largas, vangloria-se de suas prisões. Ele riu ao lembrar-se do incidente, há dois anos, quando um policial zeloso entrou na casa de seus avós e apontou uma arma para ele e sua avó. O policial apareceu porque Isaiah fugira de casa após brigar com a mãe e a irmã, que chamaram a polícia para denunciar a violência.

“Um sujeito branco entrou gritando: ‘Mãos para cima’”, disse Isaiah , rindo. “Minha avó disse: ‘Isso é realmente necessário? Ele tem apenas onze anos’”. Quando foi enviado ao programa de Dorchester, em vez de ficar agradecido por ficar longe da detenção, ficou chateado com a alteração de seus horários e suspeitou da advogada Deborah Duncan.

Duncan lembra-se do menino irritado, que só queria ir para casa.

“‘Por que tenho que fazer isso?’”, ela se lembra dele reclamando. “Achei que ia ser um menino difícil de acompanhar, mas ele conseguiu dar a volta por cima.”

Isaiah eventualmente passou a apreciar sua vida no centro comunitário, aparecendo quase todos os dias e participando das atividades organizadas por grupos como o Mission Safe, uma organização sem fins lucrativos que administra programas extra-curriculares para adolescentes e alunos do ensino médio. A família de Isaiah pediu que seu nome completo não fosse divulgado por ele ser menor de idade.

Em geral, depois da escola, Isaiah joga bilhar no porão do centro comunitário ou visita o Colégio Simmons, onde conversa com os estudantes sobre seus cursos universitários ou faz experimentos de ciências.

Na tarde de uma quarta-feira, ele fez sorvete com os alunos da Universidade de Boston, apesar dos resultados terem sido menos apetitosos do que esperado.

“Ficou aguado”, disse com uma careta.

Agora, ele diz que quer ser policial, mas enfatiza que seu estilo de policiamento será “muito diferente” de alguns policiais que conheceu. Ele quer se sair melhor na escola, principalmente porque sua mãe prometeu-lhe uma nova bicicleta se suas notas melhorassem.

“Ele é muito articulado, tem muito potencial, e não quero que desista”, disse Duncan.

Se ele não for preso e aparecer no tribunal nas datas marcadas até seu caso ser decidido, será considerado uma história de sucesso do programa.

O número de menores detidos no Estado caiu nos últimos anos de 6.408 em 2003 para 5.438 em 2006.

Enquanto programas alternativos como o DDAP lutam para encontrar fundos, os advogados dizem que, sem eles, os juizes não terão escolha senão continuar a prender menores, que podem rapidamente se adaptar à vida atrás das grades.

“As pessoas no Departamento de Serviços da Juventude acham que podem se virar na prisão, então não têm medo e deveriam ter”, disse o juiz Harris. “Nós desenvolvemos um grupo de jovens que acham que conquistaram seu distintivo de coragem porque entraram para o sistema.”

Isaiah, que já foi detido pelo Departamento de Serviços da Juventude deu de ombros quando foi perguntado se temia ser preso. “Não”, disse ele. “Vou sair, cedo ou tarde.”

Fonte: The Boston Globe

Política é coisa de animal… Ei, estamos falando dos não humanos!

Natalie Angier

Conforme os candidatos nos demonstraram na telenovela suculenta que é a disputa presidencial de 2008, existem muitas formas de lutar pelo poder político. É possível agir de forma fria e dura usando uma jaqueta de caça de cor laranja, ou apelar para o sentimentalismo com uma caixa de Kleenex. Dá também para se aliar a um macho alfa como Chuck Norris, saudar amigavelmente uma fêmea alfa como Oprah Winfrey ou equilibrar essa diferença e fazer a campanha com a mãe. Pode-se buscar o apoio comedido dos anciães da cidade, ou apelar para a energia inesgotável dos jovens, segurar teatralmente no colo bebês desconhecidos ou criticar furtivamente o oponente.

Assim como existe uma infinidade de estratégias abertas para o animal político humano que nutre a ambição de chegar à Casa Branca, há também alguns animais não humanos que comportam-se como os políticos típicos. Os pesquisadores que estudam espécies altamente gregárias e relativamente inteligentes como os macacos rhesus, os babuínos, os golfinhos, os cachalotes, os elefantes e os lobos descobriram recentemente indicações de que essas criaturas envolvem-se em formas extraordinariamente complicadas de política, freqüentemente através de amplas redes sociais.

Os golfinhos machos, por exemplo, organizam-se em pelo menos três grupos de amigos e cúmplices, diz Richard C. Connor, da Universidade de Massachusetts em Dartmouth, de maneira similar àquela como as sociedades humanas são construídas com base em pequenos grupos familiares, em tribos maiores e em nações-estados ainda maiores. Os golfinhos mantêm as suas alianças por meio de torções, saltos e rotações elaboradamente sincronizados, como se fossem pilotos da esquadrilha Blue Angels (esquadrilha de acrobacias aéreas da Marinha dos Estados Unidos) exibindo nas alturas a sua fraternidade acrobática.

Entre os elefantes, são as fêmeas as políticas natas, cultivando laços sociais robustos e duradouros com pelo menos cem outros elefantes, uma tarefa facilitada pelo poder que elas têm de se comunicar através de infra-sons por distâncias de vários quilômetros pelas savanas. Os lobos, ao que parece, alteram as suas sociedades altamente hierarquizadas com exibições ocasionais de ressentimento populista, e caso o líder de uma alcatéia comporte-se de uma forma demasiadamente tirânica, os lobos subordinados podem conspirar para derrubá-lo.

Segundo os cientistas, onde quer que os animais invistam os seus talentos e quantidades em grupos sociais coesos, com o objetivo de se defender melhor de predadores, aumentar o território ou adquirir parceiros sexuais, surgem as condições para a emergência de habilidades políticas – a capacidade de agradar e aplacar, manipular e intimidar, trocar favores e coçar as costas dos outros ou, melhor ainda, retirar carrapatos e outros parasitas das costas dos companheiros.

Com o passar do tempo, as exigências da vida social dos animais podem sobrepujar todas as outras pressões seletivas no ambiente, possivelmente atuando como o impulso dominante para a evolução de cérebros ainda maiores e caçadores de votos. E embora nós humanos possamos desaprovar vagamente os nossos impulsos políticos e alimentar fantasias de nos livrarmos gloriosamente da tribo barulhenta, o fato é que para nós e outras espécies altamente sociais não há mais retorno. Um lobo solitário é um lobo fraco, um fracasso, sem nenhuma chance de prosperar.

Dario Maestripieri, primatologista da Universidade de Chicago, observou um dilema similar em humanos e nos macacos rhesus que estuda.

“O paradoxo de espécies altamente sociais como o macaco rhesus e os humanos é o fato de a nossa sociabilidade complexa ser a razão do nosso sucesso, mas também a fonte dos nossos maiores problemas”, diz ele. “No decorrer da história humana, vemos que os piores problemas para as pessoas quase sempre são oriundos de outros indivíduos, e o mesmo ocorre com os macacos. Você pode colocá-los onde quiser, mas o principal problema deles será sempre os outros macacos rhesus”.

Segundo a ótica de Maestripieri, os macacos rhesus encarnam o conceito “maquiavélico” (e ele, apropriadamente, intitulou o seu recente e popular livro sobre macacos “Macachiavellian Intelligence”, algo como “Inteligência Macaquiavélica”).

“Os indivíduos não brigam por comida, espaço ou recursos”, explica Maestripieri. “Eles lutam por poder. Com poder e status eles contam com controle sobre tudo o mais”.

Os macacos rhesus, onívoros de porte médio com uma pelagem marrom-avermelhada, faces longas e barbadas e orelhas que parecem-se perturbadoramente com as dos humanos, são encontrados na Ásia, incluindo diversas cidades, nas quais, assim como todo mundo, gostam de assediar os turistas. Os macacos geralmente vivem em grupos de cerca de 30 indivíduos, sendo que a maioria é composta de fêmeas geneticamente aparentadas e dos seus filhotes dependentes.

O status de uma macaca é geralmente determinado pelo status da sua mãe. Os machos adultos, sendo aqueles que vêm de fora e ingressam no grupo, precisam firmar as suas posições sociais arranhando, mordendo, exibindo os caninos e, o mais importante, conquistando as suas bases de apoio.

“A luta nunca é algo que ocorre entre dois indivíduos”, afirma Maestripieri. “Outros envolvem-se o tempo todo, e as chances de sucesso dependem de quantos aliados se tem e da dimensão da rede de apoio”.

Os macacos cultivam os relacionamentos sentando-se perto dos amigos, coçando-lhes a pelagem sempre que surja oportunidade para isso e correndo ao auxílio deles – pelo menos quando há uma platéia observando. “Os machos rhesus são o supra-sumo do oportunismo”, afirma Maestripieri. “Eles fingem ajudar os outros, mas só ajudam os adultos, e não os filhotes. Eles só ajudam aqueles que ocupam um patamar mais alto na hierarquia. Eles só entram em brigas quando sabem que vão ganhar e quando o risco de se machucar é pequeno. Em suma, eles tentam obter os benefícios máximos ao menor custo possível, e esta é uma estratégia que parece dar certo para conquistar status”.

Nem todos os primatas machos buscam o poder apelando para os outros machos. Entre os babuínos oliva, por exemplo, um jovem macho adulto que deixa a sua terra natal e procura ser eleito para ingressar em um novo grupo de babuínos começa a sua investida cortejando uma fêmea que não esteja no cio no momento, e que portanto não será contestada por outros machos.

“Caso o macho tenha sucesso em estabelecer uma amizade com uma fêmea, isso abre um canal de acesso aos parentes dela e permite que ele se infiltre em toda a rede social formada pelas fêmeas”, diz Barbara Smuts, bióloga da Universidade de Michigan. “Nos babuínos oliva, as amizades com as fêmeas podem ser bem mais importantes do que as alianças políticas com outros machos”.

Como os machos são freqüentemente chamados de o sexo que se dispersa, enquanto as fêmeas ficam para trás apoiando a rede de fêmeas aparentadas, estas formam a espinha dorsal política entre vários mamíferos sociais. Quando maior a longevidade da espécie, mais densa e mais ricamente articulada tende a ser esta espinha dorsal.

Com expectativas de vida semelhantes às nossas, os elefantes estão demonstrando que possuem algumas das redes sociais mais elaboradas que já foram observadas, e as suas memórias relativas a amigos que estão longe e a relacionamentos condizem com a reputação da espécie. A sociedade dos elefantes é organizada como um matriarcado, afirma George Wittemyer, especialista em elefantes da Universidade da Califórnia em Berkeley, sendo que um grupo central de talvez dez elefantes é liderado pela fêmea mais velha. O grupo central fica junto praticamente o tempo inteiro, viajando distâncias consideráveis, parando para escavar buracos em busca de água e procurando plantas frescas para arrancar e comer.

“Eles estão constantemente tomando decisões, debatendo entre si, a respeito de comida, água e segurança. Dá para ver isso no campo. Você os ouve discordar vocalmente. Tipicamente, a matriarca dá a palavra final, e os outros acatam a decisão. Caso uma facção discorde de forma suficientemente intensa e queira adotar uma abordagem diferente, o grupo se separa e se reúne novamente mais tarde”, diz Wittemyer.

Segundo ele, a idade confere os seus privilégios, e as fêmeas mais velhas, mesmo que não sejam as maiores, freqüentemente conseguem os melhores locais para dormir e a melhor comida. Mas isso também implica em responsabilidades, e uma matriarca é muitas vezes aquela que lidera a ação frente a conflitos com outros elefantes ou a ameaças de predadores, às vezes com conseqüências fatais.

Hal Whitehead, da Universidade Dalhousie, e os seus colegas descobriram paralelos surpreendentes entre o elefante e um outro animal gigantesco, o cachalote, que possui o maior cérebro, em termos absolutos, que o mundo já viu. Assim como os elefantes, a sociedade dos cachalotes é sexualmente segregada. As fêmeas agrupam-se em regiões oceânicas 40 graus ao norte ou ao sul do equador, e os machos preferem as águas em torno dos pólos.

Como no caso dos elefantes, a unidade social central é um clã de 10 ou 12 fêmeas e seus filhotes. Os cachalotes também comunicam-se bastante por meio de sons. Eles comunicam-se entre si usando um padrão de cliques semelhante ao código Morse. Whitehead diz que cada clã possui um dialeto de cliques distinto que os membros utilizam para identificarem-se e que os adultos ensinam aos jovens.

“Em outras palavras, parece que eles possuem uma forma de cultura”, diz o pesquisador.

Ninguém sabe a respeito do que as baleias fazem cliques, mas isso poderia ser uma forma de votação – por exemplo, é hora de parar aqui e mergulhar de forma sincronizada em busca de lulas de água profunda, hora de emergir, seguir em frente, mergulhar de novo. Os clãs de fêmeas também parecem escolher com que macho se acasalarão, e também quais serão coletivamente enxotados. Segundo tudo indica, as fêmeas de cachalote são terrivelmente obcecadas pelo tamanho. No decorrer de gerações, elas votaram consistentemente a favor de machos grandes. Atualmente o candidato dos seus sonhos é um cara chamado Moby que é três vezes maior do que elas.

Fonte: The New York Times

O outro lado de Barack Obama

Hillary Clinton está de volta: com as três vitórias na noite de terça-feira, a disputa pela indicação democrata está mais acirrada do que nunca. E o campo de seu oponente está combatendo uma onda de publicidade negativa

Gabor Steingart

Votar em Obama é como ter um caso de amor empolgante. Ele consegue ser comovente enquanto Hillary às vezes consegue ser irritante. Ele exibe paixão, enquanto ela incorpora rotina. Ele oferece poesia política, ela um realismo bruto.

“Eu estava triste e deprimida, mas você fez com que me sentisse nova e radiante”, Madonna canta em “Like a Virgin”. É como os eleitores de Obama se sentem. Eles passaram uma série de noites eleitorais eufóricas com ele. Aquela primeira noite vitoriosa em Iowa foi seguida por uma dezena de outras, na Carolina do Sul e além. “Você é ótimo e você é meu.”

Hillary Clinton é uma mulher com pé no chão, inteligente e sensível. Enquanto ele grita “esperança”, ela diz: não se deixe fascinar. Enquanto ele pede por mudanças, ela apaga as luzes.

Ela agora está travando a luta de sua vida. Ela provou ser tenaz, durona e dispor de uma capacidade extraordinária de manter o curso, algo que tem impressionado tanto amigos quanto adversários. Segundo os números, ela poderá ter dificuldade em conseguir a indicação por estar atrás de seu adversário em votos de delegados. Mas a noite de terça-feira mostrou que nada é impossível. Ele ainda é atraente para os eleitores, mas não é irresistível. A pílula que ela oferece costuma ser amarga, mas provavelmente é necessária. Ele é capaz, mas ela também é.

A pergunta agora é: será que o extraordinário caso de amor entre o jovem senador de Chicago e os eleitores democratas durará? Ou o encanto foi quebrado na noite de terça-feira? Será que os eleitores voltarão para Hillary? Ou será que o charme dele exibirá novamente seu poder?

No amor, a primeira vista é seguida por uma segunda. Os eleitores não são apostadores. Talvez os resultados de terça-feira já sejam um sinal de sua desilusão após Barack Obama ter sido colocado sob uma nova luz, menos lisonjeira, nos últimos dias.

Primeiro: ele possivelmente não é o homem que finge ser. No Estado industrial de Ohio, ele passou semanas criticando o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), assinado por Bill Clinton quando era presidente. Obama o culpou pelo desemprego e pelo colapso da indústria. Ao mesmo tempo, seu principal assessor de economia se encontrava com o cônsul geral do Canadá, em Chicago, para assegurar que se tratava apenas de discurso eleitoral -Obama manterá o acordo de livre comércio. A TV canadense noticiou o encontro. O assessor então disse que foi mal interpretado. Talvez algo tenha se perdido na tradução, brincou o “Wall Street Journal”.

Segundo: Obama não é apenas espiritual, ele é material. Como político em Chicago ele esteve envolvido com o empresário local Antoin “Tony” Rezko, talvez até demais para convir à sua imagem de messias. O ex-rei dos imóveis atualmente está sendo julgado por acusações de corrupção e lavagem de dinheiro após uma investigação de três anos do FBI. Rezko foi um dos primeiros financiadores de Obama. Ele doou dinheiro para a campanha de Obama e encorajou outros a fazerem o mesmo. Depois Obama doou este dinheiro para a caridade.

Além disso, Obama precisa agradecer a Rezko por sua mansão no sul de Chicago. Em 2005, Obama tinha acabado de ser eleito ao Senado e queria comprar a casa de luxo. Ela custaria cerca de US$ 2 milhões, mas o corretor queria vendê-la junto com um terreno adjacente, que custaria US$ 625 mil adicionais -demais para Obama. Então a esposa de Rezko se envolveu. Ela comprou a propriedade pelo preço integral, enquanto Obama conseguiu sua casa com um desconto de US$ 300 mil. Um ato de amizade? Corrupção? Um negócio normal no mundo dos magnatas dos imóveis? Obama disse em 2006 e repete até hoje que agiu de forma idiota.

Terceiro: “Eu digo o que penso e faço o que digo”, Obama diz a respeito de si mesmo. Mas ao que parece ele também é apenas um político, um que subordina a verdade aos seus interesses. A conversa entre o assessor econômico e o canadense foi negada -até ser exibida na televisão.

Ele já teve que corrigir sua memória várias vezes quando se tratava do caso Rezko, pela qual a imprensa americana apenas aos poucos começa a demonstrar interesse. A certa altura, ele estava ciente do fato de que Rezko estava sendo investigado pelo FBI quando concordou em fechar o negócio da casa com a esposa dele, e depois não estava. Primeiro ele disse que nunca discutiu a casa com Rezko, então reconheceu que a visitaram juntos.

Não se sabe se Rezko apresentou Obama para seu financiador iraquiano quando ele visitou Chicago. Ele fazia parte do círculo de Saddam Hussein e foi sentenciado no escândalo da francesa Elf. Obama disse “não se lembrar” de ter se encontrado com ele.

Até o momento, ele recusou quaisquer entrevistas diretas com jornalistas investigativos dos dois jornais de Chicago. Na semana passada, eles tentaram confrontá-lo com detalhes após um evento de campanha. Claramente irritado, Obama respondeu de forma lacônica. ‘Tenham dó, eu acabei de responder o quê, umas oito perguntas”, ele disse aos repórteres. O “Washington Post” comentou friamente: “A entrevista tinha mal começado”.

O amor, é claro, depende sempre da hora do dia e da iluminação. E há muito sugerindo que a história de amor entre Obama e os eleitores democratas não prosseguirá tão romântica quanto foi até agora. A imprensa começou a se interessar no que o “Chicago Sun” chama de “Teflon Obama”. Hillary Clinton sem dúvida também ajudará a apontar os holofotes visando expor este lado de Obama.

E os eleitores? Eles podem continuar amando seu herói -ou poderão voltar correndo para ela. Porque muitos casos amorosos terminam, com arrependimento, onde começaram -em casa. Madonna canta: “Você não sabia quão perdida eu estava”.

Fonte: Der Spiegel

Governos italianos vêm e vão, mas a mortadela continua firme no parlamento

Na Itália, o parlamento e a mortadela são tão inseparáveis quanto a pasta de amendoim e a geléia

David M. Gross*

Quando o presidente do senado italiano, Franco Marini, anunciou os resultados do recente voto de desconfiança no governo de centro-esquerdo da Itália – “156 Si, 161 No” – os políticos começaram a abrir garrafas de champanha e a arremessar pedaços de “bologna”.

Na verdade chamada de “mortadella” na sua terra de origem, de onde também é nativo o ex-primeiro-ministro Romano Prodi, a bologna marca os momentos do dia – pequenos fragmentos no café-da-manhã, fatias no almoço, cubos com um coquetel Negroni antes do jantar.

As suas origens remontam à Idade Média, e o seu nome é oriundo do monges bolognesi que faziam uma massa de carne de porco picada com temperos, acrescentando cubos de “lardetti”, a gordura retirada da garganta ou do lombo do porco para acentuar o sabor.

No século 17, a mortadela de Bolonha era trocada por seda e linho. Duzentos anos depois, os ingleses (e mais tarde os norte-americanos) chamavam qualquer tipo de lingüiça de porco feita em Bolonha de “bologna”.

Agora, nos espaçosos salões do Senado italiano, a mortadela marca um outro acontecimento – o fim do 59° governo da Itália desde a Segunda Guerra Mundial. Com o champanhe fluindo no cenário composto de tapeçarias sofisticadas e mesas barrocas de mogno no Palazzo Madama, os gritos de “mafioso!” e “traditori!” irromperam. Estava em andamento uma luta por comida digna do filme “Clube dos Cafajestes” (“Animal House”, Estados Unidos, 1978). “Isto aqui não é uma osteria”, esbravejou Marini, um ex-democrata-cristão e eminência parda da política italiana. “Larguem essas garrafas!”.

Eu estava em Bolonha, e não em uma osteria, que tecnicamente é um lugar onde se bebe vinho em grande quantidade, mas sim na minha pizzaria favorita ao longo da antiga estrada romana, a Via Emilia.

Entre pedaços de pizza com “fichi e mandorle” (figos e amêndoas), acompanhávamos os acontecimentos pela televisão. Conforme o governo Prodi aproximava-se do seu ocaso, irrompia um debate acalorado a respeito do que comer para marcar a queda de mais um governo.

O dono do estabelecimento, que é da Costa Amalfi, veio até a nossa mesa e informou que estava na época do Cavolo Verza, repolho Savoy com pássaros recém-nascidos fritos chamados “neonati”. Este prato é uma delícia, embora os pássaros geralmente sejam capturados ilegalmente.

Seria esta uma referência alimentar criptografada a Clemente Mastella, o político do sul que, após ter sido acusado de corrupção na sua região natal da Campania, deixou o governo para juntar-se ao Forza Italia de Silvio Berlusconi e votar pela saída de Prodi?

“A política me dá indigestão”, anunciou o pizzaiolo, retirando uma torta do forno. “Mas alcaparras e aliche não”, rebateu a garçonete, que usava roupa colante e sapatos de salto alto. “Vero?”, concluiu ela, dando tapinhas no estômago dele.

Um gastrônomo que estava no local, suficientemente ousado para citar um francês, disse: “O destino das nações dependem da maneira como elas se alimentam” (Anthelme Brillant-Savarin). Mas os italianos comem bem sob qualquer governo, de maneira que o homem foi educadamente ignorado.

O meu convidado para o jantar, diretor de uma agência local de publicidade e um veterano de campanhas presidenciais na Argentina, pediu massa com atum, hortelã e azeitonas: “Estou esperando algo de novo para este ano”.

Achei que não podia confiar no paladar dele e decidir pedir um prato de legumes grelhados. O partido verde italiano está na moda neste ano.

George Bernard Shaw fez a observação memorável: “Na Itália, o país inteiro é um teatro e os piores atores estão no palco”. Embora os recentes embaraços estejam formando uma pilha tão alta quanto a do lixo em Nápoles, a pior reclamação aqui não diz respeito à igreja ou ao governo, mas sim ao fato de a política ter descido ao nível de uma danceteria local.

Tomei o meu café no balcão e o barman, um fã do La Scala, inclinou-se na minha direção para sussurrar: “Esqueça a política. É época de carnaval, coma as frituras!”.

É claro que ele estava certo. Nas ruas enevoadas da Itália no inverno, vitrines de padarias estão cheias de “sfrappole”, “crostoli” e “chiacchiere”.

Tanto faz se as eleições sejam iminentes, ou se o novo governo provisório será capaz de promover verdadeiras reformas eleitorais. Uma coisa é certa: os mesmos políticos voltarão a ser fritos, regurgitados e magicamente serão ressuscitados.

Na manhã seguinte caminhei até a padaria na Via Nosedella perto da igreja de San Francesco para comemorar o Carnevale.

O padeiro acabara de trazer uma bandeja fumegante de “frittelle” (sonhos de maçã recheados com passas) da cozinha. Enquanto os políticos agitavam-se e deliberavam, eu comia quitutes fritos. Ele descem muito bem com leite e governo.

* David M. Gross, diretor de criação da Ducati Motor Spa em Bolonha, é autor do livro “Fast Company, Love and Motorcycles in Italy” (“Companhia Rápida, Amor e Motocicletas na Itália”).

Fonte: International Herald Tribune

Diferentes visões sobre o Tibete

Richard McGregor e Jamil Anderlini

Fora da China, especialmente nos países ocidentais, os violentos tumultos no Tibete são vistos como uma população que se rebela espontaneamente depois de anos de opressão religiosa e cultural por um partido governante impiedoso.

Dentro da China o contraste não poderia ser mais veemente. Os manifestantes foram retratados como uma multidão agressiva, ingrata pelos anos de apoio de Pequim e manipulada pelo Dalai Lama, o líder espiritual tibetano exilado, para dividir o país.

O abismo entre as visões criou na China um profundo ressentimento e raiva porque a questão ameaça obscurecer e prejudicar as Olimpíadas de 2008, que começam em agosto em Pequim.

Shi Yinhong, da Universidade Renmin, disse que a China fez grandes esforços para desenvolver o Tibete e garantir a liberdade religiosa depois de tratar mal a região nos primeiros anos do regime comunista. Os países ocidentais ignoraram esses avanços, ele alegou, favorecendo um enfoque simples e uma visão “romântica” do remoto reino no Himalaia.

“Eu não acho muito romântico o que aconteceu no Tibete na semana passada”, disse Shi. “Todo governo deve ser capaz de oferecer um mínimo de ordem e segurança para seus cidadãos.”

A propaganda do governo, que pode parecer incrivelmente crua para estrangeiros -Zhang Qingli, o chefe do partido no Tibete, chamou o Dalai Lama de “monstro de face humana e coração de animal”-, não parece mal colocada na China.

E a tirada de Zhang concorda com comentários permitidos em boletins na Internet, como o hospedado por Sina.com, o maior portal chinês. “Acrescentem os países que apóiam o Dalai Lama à lista negra do terrorismo”, disse um dos textos mais brandos publicados ontem.

É difícil avaliar a opinião pública na China, por causa dos rígidos controles da mídia e da Internet -especialmente em assuntos considerados delicados- e da ausência de pesquisas e eleições públicas.

Mas um grupo de cidadãos chineses instruídos, artistas e empresários bem-sucedidos de Pequim, que se reuniu para discutir a questão com o “Financial Times” esta semana foi unanimemente antipático à causa tibetana. Enviar o exército foi “a única reação” possível, eles disseram.

O grupo admitiu que todas as notícias que viram foi na televisão estatal, que mostrou imagens de manifestantes tibetanos, incluindo monges vestidos de escarlate, saqueando, queimando e agredindo chineses em Lhasa. Não havia imagens da reação chinesa.

“A América e os estrangeiros sempre querem prejudicar a China”, foi uma resposta típica desse grupo, depois de assistir a uma transmissão ao vivo da entrevista coletiva anual do primeiro-ministro Wen Jiabao, esta semana.

Quase todos os repórteres estrangeiros que tiveram permissão para fazer uma pergunta citaram o Tibete, provocando um resmungo da grande maioria de jornalistas e autoridades chinesas na entrevista.

Um intelectual de Pequim, em geral totalmente contrário ao partido, disse que os tibetanos foram “escravos” antes que a China os “libertasse”, medida que foi retribuída com ingratidão e violência. “Como o Tibete poderia ser um país sem a China?”, disse essa pessoa. “Eles não tinham nada para comer antes de serem libertos.”

A questão da soberania vai além do apoio ao partido e toca o cerne da identidade nacional. Sugerir para a maioria dos chineses que o Tibete deve ser independente da China é como dizer a um americano que o Texas deve se separar da União.

Um vídeo cheio de profanidades publicado no YouTube, o site de compartilhamento de vídeos, intitulado “O Tibete FOI, É e SEMPRE SERÁ parte da China”, diz iradamente aos espectadores que a China não deixará o Tibete até que todos os europeus saiam do Canadá, da Nova Zelândia, Austrália e EUA e os devolvam aos “nativos”.

Robert Barnett, um especialista em Tibete na Universidade Columbia em Nova York, disse que a lacuna entre as visões tibetana e chinesa vem diminuindo nos últimos anos por causa da crescente popularidade do budismo e da religião em geral na China. “O que está acontecendo agora vai ampliar [essa lacuna] de novo”, ele disse, acrescentando que é um desastre para a estratégia do Dalai Lama. Barnett acrescentou: “Ele sempre disse que a coisa mais importante é o apoio da população chinesa. Mas agora está travando uma luta política na outra direção”.

Fonte: Financial Times

Processo de desmatamento se agrava na Amazônia

Annie Gasnier

Oficialmente, o objetivo do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, é alcançar o nível de “desmatamento zero” na Amazônia. Mas o Brasil ainda está muito longe disso. As destruições foram retomadas com intensidade redobrada entre agosto e dezembro de 2007. Cerca de 7.000 km2 de florestas foram então arrasados para dar lugar para a soja, o gado e a cana-de-açúcar, conforme constatou em janeiro o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) a partir de levantamentos feitos por satélites.

No total, o ritmo do desmatamento entre agosto de 2007 e julho de 2008 poderá aumentar em 34%, ao passo que as autoridades brasileiras se vangloriavam durante a conferência sobre o clima em Bali, em dezembro de 2007, de terem controlado o fenômeno, baseadas em números que apontavam uma diminuição do desmatamento no decorrer dos três anos anteriores.

NÚMEROS

SUPERFÍCIE
A extensão total da Amazônia brasileira é de 5 milhões de km2 (abrangendo nove Estados), dos quais 100.000 km2 são reservas de índios, 200.000 km2 são áreas destinadas à exploração sustentável, além de 1,9 milhão de km2 de floresta pública.

POPULAÇÃO
22 milhões de habitantes vivem na Amazônia, dos quais 480.000 índios, distribuídos em 220 tribos.

DESTRUIÇÃO
No espaço de trinta anos, 17% da vegetação original desapareceram, ou seja, 700.000 km2. Em 2007, cerca de 22.000 focos de incêndio (queimadas) foram assinalados. Cada km2 de floresta destruída produz 22.000 toneladas de CO2.

Nas últimas semanas, o presidente Lula exigiu que fossem tomadas medidas em caráter de emergência para inverter esta tendência. Com isso, a partir de 26 de fevereiro, a Polícia Federal deslanchou uma vasta operação que envolve a participação de 300 homens, que contarão com reforços, passando para cerca de mil no total, no início de abril. O objetivo é combater o desmatamento ilegal nos Estados do Pará, do Mato Grosso e de Rondônia, os mais prejudicados por essas práticas.

Não menos de treze ministros são responsáveis pela luta contra o desmatamento na Amazônia, mas nem todos eles falam a mesma língua. O governo está profundamente dividido entre dois desafios: preservar a floresta tropical e incentivar o crescimento econômico.

Na cúpula do governo, duas mulheres encarnam este dilema. Marina Silva, a ministra do Meio Ambiente, que é nativa da Amazônia, possui certo prestígio em função do seu passado de lutas ao lado do militante ecologista assassinado Chico Mendes (1944-1988). Mas com freqüência ela chegou a ceder às pressões. Foi assim que ela autorizou a construção de duas centrais elétricas no rio Madeira, um afluente do Amazonas. A outra é Dilma Rousseff, chefe de gabinete do presidente Lula, responsável pelo Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que foi elaborado com o objetivo de multiplicar a infra-estrutura pelo país afora, principalmente na Amazônia, onde estão sendo implementados inúmeros projetos de estradas, portos e usinas hidrelétricas.

Depois do recorde sombrio que fora registrado entre agosto de 2003 e julho de 2004, quando 27.429 km2 de madeira haviam sido transformados em fumaça, Marina Silva reorganizou os procedimentos de vigilância por satélite, mas sem poder contar nem com meios, nem com recursos humanos. “As multas que são aplicadas pelo Estado são ridiculamente reduzidas e não impedirão o desmatamento de prosseguir”, prevê um dos diretores da organização Greenpeace Brasil, Sergio Leitão. Segundo ele, apenas 2% das multas aplicadas são efetivamente pagas pelos destruidores.

100.000 km de vias clandestinas
“As autoridades idealizaram o desenvolvimento da Amazônia em função de um modelo que vigorava durante os anos 1950″, critica Sergio Abranches, um sociólogo especialista em ecologia política. Ele cita como exemplos as rodovias que foram planejadas para escoar os gêneros alimentícios agrícolas, tais como a BR 163, que liga Cuiabá a Santarém e foi asfaltada pela metade, e aquela que deverá ligar Porto Velho a Manaus, mas que ainda se encontra em fase de estudos.

Os levantamentos cartográficos comprovam que as vias asfaltadas se transformam em amplas avenidas que favorecem o desmatamento, o qual é promovido pelos traficantes de madeira, os garimpeiros, os aventureiros e os agricultores. No total, já existiriam cerca de 100.000 km de caminhos clandestinos.

Marina Silva procura estimular as atividades de “exploração sustentável” em áreas que foram batizadas de “unidades de conservação”, além de uma administração vigiada das florestas públicas, as quais correspondem a 40% do total da superfície florestal do país. Com isso, uma floresta de 2.200 km2 em Jamari (Rondônia) será cedida em breve para concessionárias privadas que deverão desenvolver uma “exploração limpa”. É um começo.

Nove organizações não-governamentais (ONGs) brasileiras e internacionais elaboraram um ambicioso Pacto para a Valorização da Amazônia, com o objetivo de erradicar o desmatamento até 2015. “Nós precisamos valorizar a manutenção da floresta que ainda está preservada e remunerar aqueles que a protegem”, argumenta Adriana Ramos, da ONG Instituto Sócio-Ambiental, signatária do pacto.

O Brasil quer demonstrar que está preocupado com a Amazônia, por temer uma internacionalização da manutenção da maior floresta tropical do planeta, cujo desmatamento por meio de queimadas vem contribuindo para a emissão de gases de efeito estufa. Em seu livro intitulado “Brasil: o capital natural”, o agrônomo brasileiro Mauro Victor se diz convencido de que “se o Brasil não conseguir debelar a destruição da Amazônia por convicção, ele será obrigado a fazê-lo por conta das pressões externas; estas serão em primeiro lugar econômicas e comerciais, e depois se tornarão políticas e até mesmo militares”.

As eleições municipais estão agendadas para outubro. A ministra do Meio Ambiente teme que, neste ano eleitoral, muitos prefeitos da Amazônia façam vistas grossas para as destruições ilegais perpetradas pelos seus eleitores.

Fonte: Le Monde

Em 2009, um novo presidente e a mesma guerra

Bob Deans

Cinco anos após o presidente Bush lançar a guerra no Iraque, os três principais candidatos que buscam substituí-lo apresentam pontos de vista diferentes em relação ao futuro do conflito.

Mas as realidades intricadas da guerra cara e complexa e a importância estratégica da região apresentarão problemas para todas as três posições, disseram analistas.

- O republicano John McCain disse que permaneceria no curso, mantendo uma presença de tropas americanas a longo prazo com uma missão de combate robusta voltada a derrotar os grupos terroristas e insurgentes.

- O democrata Barack Obama prometeu começar a trazer os americanos no Iraque de volta para casa tão logo assuma o governo, assim como grande parte das forças de combate em um prazo de 16 meses.

- A democrata Hillary Rodham Clinton disse que começará a reduzir o número de soldados americanos em um prazo de 60 dias após assumir o governo, estabelecendo o ritmo das reduções de acordo com as condições em solo.

“Até certo ponto todas as três posições são ingênuas”, disse o coronel reformado do Exército, Lawrence Wilkerson, que serviu como chefe de gabinete do ex-secretário de Estado, Colin Powell. “A realidade se intrometerá aqui.”

Independente de quem substitua Bush, o próximo presidente descobrirá que as opções no Iraque são limitadas.

“No momento é possível dizer tudo o que alguém quiser durante a campanha”, disse o ex-funcionário do Pentágono, Anthony Cordesman, um analista de Defesa do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington. “O mundo real não tem muito a ver com campanhas políticas e aniversários. Ele tem a ver com os fatos em solo quando o presidente assumir o governo.”

Atualmente há 154 mil soldados americanos no Iraque.

A futura estabilidade dependerá de uma maior redução do derramamento de sangue, diminuição das tensões sectárias, obtenção de uma governança iraquiana competente e da promoção do desenvolvimento econômico, disse Cordesman, tarefas que no mínimo levarão outros quatro anos.

“A verdade é que estamos falando que a realidade da próxima presidência será promover uma transição clara até o ponto em que os iraquianos poderão assumir”, ele disse “Isto não significa a manutenção do nível atual de tropas, mas ajudar os iraquianos a conseguirem qualquer tipo de estabilidade e segurança duradoura não será algo rápido.”

McCain abraçou plenamente este pensamento. Ele chamou o general David Patraeus, o mais alto comandante americano no Iraque, de “um dos maiores generais da história americana”. Ele apóia um número de soldados ainda maior do que o governo Bush está disposto a empregar no Iraque. E ataca as promessas de Obama e Clinton de iniciar retiradas de tropas com prazo determinado.

Mas muitos especialistas dizem que a opção de McCain estressará ainda mais as forças armadas americanas, que já lutam para manter um nível suficiente de soldados e de equipamentos diante da guerra mais longa já travada pelos Estados Unidos com uma força totalmente voluntária.

“As forças não ‘quebrariam’ mas, é preciso dizer, elas continuarão dependentes de nossos soldados e marines”, disse Michael O’Hanlon, um alto membro de política externa da Instituição Brookings, um centro de estudos de Washington. “Isto é muito difícil para os homens e mulheres em uniforme.”

Enquanto crescem estas tensões, os candidatos democratas estabeleceram seus planos para colocar um fim à guerra.

Obama disse que como presidente, iniciaria imediatamente a trazer uma ou duas brigadas para casa por mês -uma brigada corresponde aproximadamente a 3.500 soldados- e todas as unidades de combate em um prazo de 16 meses após assumir o governo.

O plano conta com o apoio de muitos americanos, mas o público está dividido.

Quatro em 10 americanos são favoráveis à manutenção do curso, argumentando que a guerra não foi um erro e que as forças americanas podem ajudar a promover a estabilidade no Iraque se ficarem lá tempo suficiente, segundo uma pesquisa USA Today/Gallup.

A mesma pesquisa apontou que 60% dos americanos são contrários à guerra. Mas apenas 17% disseram que as forças americanas devem ser retiradas já, enquanto 20% disseram que este país tem uma obrigação de permanecer até que algum nível razoável de segurança seja estabelecido. A pesquisa entrevistou 2.021 adultos em todo país de 21 a 24 de fevereiro e conta com margem de erro de 2 pontos percentuais.

Clinton tentou deixar espaço para manobra em sua política, que pede por um rápido início da retirada das tropas do Iraque, mas também por uma avaliação das condições em solo antes de ordenar maiores reduções.

Ela e Obama também pediram por uma diplomacia regional mais assertiva na região sensível, rica em petróleo.

“Com Obama você tem quase certeza do fracasso da missão. Com McCain há séria pressão sobre as forças. Clinton está próxima de Obama, mas com um pouco mais de flexibilidade”, disse O’Hanlon, um ex-conselheiro de Clinton.

Em 19 de março de 2003, Bush discursou para o país do Salão Oval, dizendo aos americanos, que as pesquisas mostravam apoiar firmemente a guerra na época, que ele estava enviando tropas americanas para o Iraque para livrar o país das armas químicas e biológicas de destruição em massa, “para libertar seu povo e defender o mundo de um grave risco”.

Assessores da Casa Branca disseram na época que a guerra custaria aos contribuintes americanos cerca de US$ 60 bilhões.

Seis semanas depois, Bush vestiu um macacão de vôo, apareceu em um porta-aviões tendo ao fundo uma faixa que dizia “Missão Cumprida” e declarou que “as grandes operações de combate no Iraque foram encerradas”.

Cinco anos depois, a guerra já tirou a vida de 3.975 soldados americanos e feriu 29.395 outros, segundo números do Pentágono.

Nenhum estoque de armas de destruição em massa foi encontrado.

O contribuintes já gastaram US$ 607 bilhões para pagar pela guerra até setembro próximo. O Comitê Econômico Conjunto bipartidário do Congresso estima que a guerra custará aos americanos entre US$ 3,5 trilhões e US$ 4,5 trilhões até 2017, quando custos de longo prazo como atendimento médico aos feridos forem levados em consideração.

Quem quer que venha a ocupar o lugar de Bush herdará uma guerra que estará entrando em seu sétimo ano quando o presidente for empossado em 20 de janeiro de 2009.

“Se quisermos ter um debate razoável sobre isto, nós precisamos falar sobre as conseqüências a longo prazo”, disse Cordesman. “A esta altura, os americanos tendem a ser confrontados com opções que não são reais, mas sim por um debate bastante artificial sobre prazos artificiais que, de muitas formas, carece das conseqüências no mundo real de fazer tais escolhas políticas.”

Fonte: Cox Newspapers

“O governo Lula vai ter que apurar a morte de Jango”

POLÍTICA João Vicente Goulart, filho do ex-presidente morto no exílio, exige uma posição da Justiça brasileira para esclarecer as suspeitas de que Jango teria sido envenenado por agentes da ditadura durante seu exílio na Argentina, conforme confissões de Manoel Neira Barrero – ex-integrante dos órgãos de repressão da ditadura uruguaia – hoje preso por crime comum na penitenciária de Charqueada (RS)

Beto Almeida

O GOLPE militar de 1964, que derrubou o presidente João Goulart – Jango -, é um trágico episódio para a nação brasileira. Depôs um presidente legitimamente eleito, herdeiro das causas trabalhistas de Getúlio Vargas, exatamente quando havia recém anunciado ao país sua intenção de realizar Reformas de Base. Jango queria promover mudanças na injusta estrutura agrária, na infra- estrutura do país, mas também tinha o objetivo de limitar as escandalosas remessas de lucros aos exterior. E talvez tenha sido esta a principal razão que determinou a participação direta do governo dos Estados Unidos nas conspirações para o golpe que instalou uma ditadura de mais de 25 anos no Brasil.
Até hoje, este episódio ainda não foi esclarecido em sua totalidade. Os responsáveis por este crime contra o povo brasileiro seguem usufruindo de uma inaceitável impunidade. No entanto, nos últimos meses, houve duas impactantes contribuições para a completa elucidação deste golpe. Primeiro, o Congresso estadunidense desclassificou documentos antigos da CIA (agência de inteligência dos EUA) e comprovou a participação oficial do governo de Lyndon Jonhson na conspiração. Além disso, Manoel Neira Barrero – um ex-integrante dos órgãos de repressão da ditadura uruguaia, hoje preso por crime comum na penitenciária de Charqueada, Rio Grande do Sul – confessou ter participado da Operação Escorpião, que levou Jango à morte por envenenamento em seu exílio no Uruguai.
Nesta entrevista indignada e emocionada, exclusiva ao Brasil de Fato, João Vicente Goulart, filho do presidente João Goulart, fundador do Instituto Presidente Goulart, fala sobre o processo aberto pela família responsabilizando o governo dos EUA pela morte de seu pai. João Vicente comenta também as providências adotadas e as que espera ainda ver adotadas pelo governo brasileiro, a partir das confissões do ex-agente da repressão uruguaia sobre o assassinato de seu pai. Segundo o filho de João Goulart, Neira Barrero corre risco de vida, pois pode revelar informações decisivas sobre o funcionamento do sinistro Plano Condor – através do qual, sob a direção dos EUA, as ditaduras sul-americanas realizaram uma “cooperativa do terror” para eliminar lutadores do povo na região.
João Vicente fala, ainda, sobre a falta que sente de mais nacionalismo na vida política brasileira, afirma que a entrega da Vale é crime de lesa-pátria e grita de peito cheio que sente orgulho de ser filho do presidente Jango, que morreu no exílio, lutando pela democracia, pela liberdade e pela justiça social.

Brasil de Fato – O que as confissões de Neira Barrero acrescentam para o esforço de esclarecimento deste fato marcante na história do Brasil?
João Vicente Goulart
– São dois episódios importantes, mas que no futuro vão se unir. O primeiro é a ação que a nossa família está movendo contra o governo dos EUA para responsabilizá-lo pela grande quebra da democracia brasileira na intervenção em nosso país, em 1964. Este é um dos fatos. Esta ação surge entre outubro e dezembro de 2002, quando o exembaixador Lincoln Gordon veio ao nosso país, dentro das nossas fronteiras, para lançar o seu livro sobre os fatos que antecederam o golpe de Estado de 1964.
Para nossa surpresa – eu estava em São Paulo -, naquela época nós tínhamos, de fato, dois presidentes constitucionais: o presidente Lula, que tinha acabado de ser eleito em outubro daquele ano; e o Fernando Henrique Cardoso, presidente de fato que entregaria o cargo em janeiro de 2003. Ora, o ex-embaixador Gordon disse, dentro das nossas fronteiras, numa entrevista ao programa “Fantástico”, da Rede Globo, e outra – em mais de 2 horas de conversa no “Roda Viva” (TV Cultura) – que usou 5 milhões de dólares de uma verba secreta da CIA para derrubar o governo João Goulart.
Ora, não se trata de quem derrubou o governo João Goulart, mas sim se trata de quem é brasileiro questionar: Como vamos deixar que, dentro do nosso território nacional, um americano venha dizer que rasgou a Constituição do nosso país. E, nós, com dois presidentes eleitos que não se manifestaram! E fica por isso mesmo? Naquele momento, a família entendeu que a questão não era a derrubada do Jango.

Ele desrespeitou o povo brasileiro e confessou o crime?
Não só desrespeitando o povo brasileiro, mas dizendo que rasgou a Constituição Brasileira usando 5 milhões de dólares de uma verba secreta! É réu confesso! Nós, então, entramos com uma ação para que a nossa Justiça se manifeste sobre esta vergonha. Isto é uma vergonha nacional! E veja só que, na primeira instância, na Justiça Federal do Rio de Janeiro, o juiz considerou a questão como “ato de império”, afirmando que a nossa pretensão era equívoca, que era nula! (em um ato de império, a Justiça brasileira não pode aceitar um processo contra um Estado estrangeiro). Olha só! Como pode, se foram os próprios Estados Unidos que financiaram a Dina, a polícia política da ditadura Pinochet, para que derrubassem os governos democráticos latino-americanos e perseguissem os adversários do sistema capitalista na época na região? Tudo isto financiado pela CIA, que bancou o Contreras, o chefe da Dina.
Mas quando o Contreras cresceu mais que eles e foi matar o Orlando Letellier (exministro do governo Allende), dentro das barbas dos americanos em Washington, aceitaram nos EUA abrir um processo judicial contra o governo chileno. Eles criaram o beija-flor e processaram o morcego. E mais recentemente o governo dos EUA admitiu a possibilidade de processar – e processou – o Vaticano em razão daqueles escândalos de pedofilia envolvendo integrantes da Cúria da Igreja Católica.
Será que nós (brasileiros) não podemos citar o governo dos EUA quando se trata, não de um ato de império, mas quando claramente de um ato de gestão? Ato de império foi o que o governo dos EUA fez no Iraque, autorizado pelo Senado norte-americano. Nós assumimos esta posição de tomar a vanguarda e fazer esta ação, de tomar esta atitude, não para defender o governo João Goulart, mas para defender o patriotismo brasileiro, neste momento em que este indivíduo vem ao nosso país dizer na nossa cara que rasgou a Constituição.

Em que sentido as confissões feitas por Neira Barrero confirmam as desconfianças que a família alimentava sobre o assassinato político de João Goulart?
Nós sempre duvidamos das circunstâncias da morte do presidente João Goulart. Não só da morte de Jango, tanto é que o Congresso Brasileiro abriu uma comissão de sindicância externa porque não estávamos em condições para abrir uma CPI. Tudo bem, não se pode dizer que os integrantes daquela comissão externa não se esforçaram para esclarecer os fatos. Mas não existia o que viemos a comprovar depois: o aparecimento deste sinistro personagem que se diz ex-agente da ditadura uruguaia, que monitorou nossa família, nosso exílio no Uruguai. Junto com a TV Senado, fui lá na penitenciária de Charqueadas e tive, não sei se por sorte, a grave tristeza de tudo isto, pois temos que ter a sensibilidade de ver que com estas confissões temos um outro processo. Esperamos muito tempo, pois estivemos lá em Charqueadas em novembro de 2006.
Muitas pessoas, jornalistas, tentaram na época desacreditar a testemunha e o que ele estava dizendo. Mas pergunto à sociedade brasileira: será que eu iria lá naquela penitenciária ouvir um condenado por crime de contrabando e tráfico de armas para pedir a ele um atestado de idoneidade moral? É um absurdo. Muitos queriam que ele entregasse provas, mas que provas pode ter um homem preso há vinte anos? A prova é ele! Evidentemente, ele está falando agora porque a prova de assassinato estaria prescrita. Então, ele pode falar hoje e quer se defender por isso. Mas não é só este depoimento que nós temos. Nós encaminhamos ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, um pedido de abertura de inquérito de Ação Civil Pública. É uma testemunha viva! Talvez seja a última oportunidade que tenhamos para esclarecer não apenas a morte de Jango, mas também a morte do senador Miquelini, do Uruguai, do general Juan José Torres [ex-presidente nacionalista da Bolívia, assassinado pela Operação Condor em Buenos Aires], do General Pratts [militar democrata chileno morto no exílio], e o desaparecimento de mais 30 mil pessoas. Está nas mãos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio de Mello, a decisão sobre a extradição do coronel Cordero (integrante da ditadura uruguaia), preso nas dependências da Polícia Federal brasileira e que não quer falar! Será que o governo brasileiro não quer apurar tudo isto? O coronel Cordero, por exemplo, está sendo requerido pela Justiça argentina, acusado do assassinato de vários cidadãos uruguaios exilados em território argentino.

Há quanto tempo este pedido de abertura de inquérito foi entregue ao procurador?
Eu o entreguei em novembro. Estive na Secretaria de Direitos Humanos para tratar do assunto. Queria entregar o processo pessoalmente ao procurador, mas a agenda dele estava muito lotada. Acho que tinha que processar 40 pessoas que haviam participado do “mensalão”, então não tinha muito tempo para atender uma reivindicação de esclarecimento histórico da nossa Nação.
Mas, depois deste depoimento do Neira Barrero, muitas pessoas se rearticularam. E houve também a liberação de vários documentos que, corajosamente, a ministra Dilma Roussef (Casa Civil) nos entregou. Eu acho que ela é uma pessoa que quer realmente passar este país a limpo. São documentos que se referem a João Goulart, conforme era o nosso pedido, não se referem ao regime. Estes documentos estão sendo analisados com a participação de historiadores através de convênios que nós fizemos com a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Estou trabalhando também aqui em Brasília com alguns pesquisadores. O depoimento do Neira veio a corroborar com umas informações que nós estamos descobrindo.

O depoimento do Neira Barrero, quando afirmava espionar a família Goulart no exílio, batia realmente com a rotina da casa?
Nós nos surpreendemos na época, pois eu, por exemplo, não me lembrava, e ele me disse “Te acordas, Vicente, 273321?” Este era o telefone da nossa casa na fazenda. As pessoas que nós recebíamos, as que visitamos, um dia em que eu bati um carro em Montevidéu, tudo isto estava controlado e ele falou destes fatos. Mas, vamos supor que ele é louco, que não podemos dar crédito ao que ele diz, afinal é um homem que assaltou, que cometeu crimes. Ocorre que, hoje, nós estamos lendo nestes documentos do SNI [Serviço Nacional de Informações, aparelho da ditadura] que dizem que, no dia tal, “penetramos clandestinamente na residência do presidente João Goulart e retiramos cartas de Perón [Juan Domingo Perón, ex-presidente argentino], cartas de Ulisses Guimarães [congressista do PMDB] e de outros”. Tudo graças à decisão corajosa da ministra Dilma, que é uma pessoa que quer abrir estes arquivos. E o Brasil deve fazer isso, não para questionar a Lei da Anistia. Não queremos fazer como na Argentina que, depois de outorgar a Lei de Anistia; revogou- a para condenar o Videla [Jorge Rafael Videla, general e ditador argentino], o Bordaberry [Juan María Bordaberry Arocena, ditador uruguaio], para mandar prender o Kissinger [Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA, um dos articuladores da Operação Condor]. Mas nós temos que saber o que aconteceu no nosso país, as novas gerações precisam saber, não podem cometer os mesmos erros que foram cometidos pelas gerações passadas.

Como foi aquele momento em que você ouviu deste sujeito, cara a cara, ele confessando ter participado do complô para assassinar o seu pai?
Foi muito difícil. Eu não tinha me identificado quando chegamos diante dele, e aí ele começa a dizer “o João Vicente não quer mais nada com a parte política, só quer cuidar do gado no Maranhão, da agropecuária”. Aí eu digo, “agora nós vamos conversar sério, pois eu sou o João Vicente”. Ele teve um choque, estava algemado, teve uma surpresa imensa. E aí conversamos mais de 2 horas e, no final da entrevista, eu pergunto se poderia usar o depoimento para o que der e vier, para divulgação no Uruguai, no Senado da República. E ele concordou. É importante dizer que lá estava também o Instituto Presidente Goulart, que tem como conselheiros 15 senadores de vários partidos, ou seja, nós não partidarizamos o tema, João Goulart é uma questão nacional. O mais grave de tudo isto é que as informações estão vazando para a imprensa. O Uruguai e a Argentina estão se perguntando o que as autoridades brasileiras estão esperando, por que não estão dando importância ao fato se existe uma denúncia na Procuradoria Geral da República?

Você não acha muito estranho que, apesar destas confissões e da existência de um processo aberto contra o governo dos EUA a partir de documentos oficiais desclassificados lá, exista ainda uma espécie de paralisia por parte das autoridades, apenas quebrada por esta atitude da ministra Dilma?
Sinceramente, eu acho que o governo do presidente Lula vai ter que apurar! Até porque, no dia em que fiz o pedido de abertura de inquérito ao procurador- geral, Antônio Fernandes de Souza, nós colocamos em folha separada um pedido de proteção desta testemunha. No dia em que estive na Penitenciária de Charqueadas, tinham degolado um outro preso, colega de galeria de Barrero.

Você teme pela vida do sujeito que confessou ter participado do assassinato do seu pai?
Temo pela vida dele e pedi a sua proteção, apesar de me doer muito o que ele está confessando. Pedi em nome do esclarecimento da história nacional. Os jornais do Uruguai perguntam por que o Brasil não se manifesta? Nós, da família, já não temos mais nada a falar, pois chegamos a um ponto em que ele declara, na entrevista gravada em vídeo, que o delegado Fleury esteve lá e mandou matar o Jango! Esteve lá com um agente chamado Negrão, e outros, e deu a ordem. Como eu e a família podemos ir mais além? É o governo que tem que abrir, que tem a responsabilidade sobre os arquivos do Ministério da Justiça e do CIEX, que muitos julgam ser o Centro de informação do exército, mas não é, trata-se do serviço de informação exterior do Itamaraty. Comandado pelo embaixador Pio Correia, foi o serviço de informação que reuniu Cenimar, Dops, SNI. E, casualmente, este embaixador Pio Correia foi nomeado para a Embaixada no Uruguai em 1976, ano da morte de Jango. Quando se diz que não era a Operação Condor, vale dizer que ela veio apenas unificar todos os serviços secretos da América Latina. Ou seja, veio apenas organizar o Cenimar, o Dops, o SNI etc. – a cooperativa do terror. Trocou informações num primeiro momento, trocou prisioneiros num segundo e exterminou os “inimigos” que eles achavam que deviam exterminar. E o Pio Correia se reportava ao Comitê dos 40 comandado pelo Henry Kissinger.
Ou seja, já não cabe mais à família, pois, ao abrirmos estes documentos, está revelado que o agente A estava lá, que agente B estava lá, tudo com codinomes, informando que, clandestinamente, surrupiaram cartas do Perón e do Allende [Salvador Allende, presidente chileno assassinado pelos militares] para meu pai. Cabe ao governo, não cabe mais à família! Cabe ao governo, cabe ao ministro da Justiça, Tarso Genro.

Como explicar o silêncio do ministro Tarso Genro diante de tudo isto?
Acho que a imprensa deveria perguntar isto a ele. Está na hora. Não cabe mais a mim, não cabe mais à família. Como é que a família vai chegar hoje aos arquivos que ninguém sabe onde estão, que estão sob guarda e tutela, sob a égide de super- secreto, e perguntar quem era o agente B que estava lá? Claro que não temos como fazer isto, cabe às autoridades!

Familiares, amigos e ex-colaboradores do presidente Juscelino Kubitschek também levantam uma suspeita semelhante a partir da exumação do cadáver do seu motorista. Encontraram no crânio dele uma bala. Pessoas que estavam no ônibus e o próprio motorista do ônibus afirmaram não ter havido um choque. Além disso, houve inúmeras inconsistências e irregularidades no inquérito sobre o suposto acidente que o vitimou…*
Eu realmente não conheço as investigações sobre o JK, mas, claro, eu não duvido. Hoje, se uma pessoa humilde, um porteiro de edifício, estiver de passagem por Buenos Aires e sofrer um colapso cardíaco e morrer lá, existe a obrigação de se fazer uma autópsia lá e cá. Agora, um ex-presidente da República (Jango) morre em território argentino, é transportado para cá e proíbem a abertura do caixão tanto na Argentina como no Brasil! O Neira diz que o caixão não podia ser aberto no prazo de 72 horas porque seria detectado o veneno que colocaram.

Ele confirmou que seu pai foi envenenado?
Ele declarou inclusive quem foi o médico que fez o veneno, um médico uruguaio chamado Carlos Milles, que, por sua vez, foi morto como queima de arquivo lá em Montevidéu. Se alguém vem falar que isto é elucubração da família, ora, cabe ao governo o esclarecimento. A questão concreta é a seguinte: nós ingressamos com um pedido de abertura de inquérito para apurar as circunstâncias da morte do presidente João Goulart junto ao procurador-geral da República, Antonio Fernandes de Souza. Não queremos uma resposta do tipo “está prescrito”. Entramos com o processo em nome de uma Oscip, uma entidade civil pública brasileira, o Instituto Presidente Goulart. Se nós obtivermos uma resposta desse tipo das autoridades do nosso país, vamos ao Tribunal Internacional de Haia. Este tipo de resposta seria uma violência. Tecnicamente, pode-se argumentar que não podem mais investigar porque qualquer assassinato prescreve em 20 anos. Não me venham com este tipo de dança porque “lá na fronteira, o xote a gente dança há muito tempo!” Nós acreditamos nas autoridades do meu país, e esperamos que tenham a decência, a coragem, a hombridade de esclarecer, sim ou não. Agora omissão, não. A omissão é uma voz calada que a História não permite!

Você tem uma trajetória discreta, apesar de já ter sido deputado estadual e secretário de Estado. Mas você tem estado à frente de tudo, a partir desta empreitada em torno do Instituto Presidente Goulart, do processo que está movendo contra o governo dos EUA e agora, a partir das confissões do agente uruguaio. Isto indicaria que você estará assumindo um protagonismo político mais definido, sem que isto signifique planos eleitorais?
Durante muito tempo, eu pensei em agir politicamente, tanto é que fui deputado e secretário de Estado, agindo partidariamente. Mas, hoje, não. Penso que eu, concretamente, posso agir politicamente a partir do Instituto e ser muito mais ativo, muito mais participante e muito benéfico ao país através do esclarecimento dos fatos públicos nacionais do que ter uma atividade político-partidária. Até porque hoje, se não houver uma profunda reforma no sistema político-eleitoral, o Brasil está correndo um sério risco de só eleger aqueles que representam as grandes oligarquias, o sistema financeiro. No Uruguai, está se discutindo uma reforma eleitoral e a introdução do voto de lista, que eu considero fundamental para um partido. Do jeito que é hoje, quem não tiver um milhão de dólares não se elege. E quem tem um milhão de dólares? Só os banqueiros, ou os representantes dos grandes grupos econômicos, do setor médico, do setor agrícola, das transnacionais etc.

Será que estaria faltando na cena política nacional um maior protagonismo das idéias trabalhistas que foram fundamentais para criar tudo aquilo que Vargas criou e, depois, veio o FHC afirmar que era necessário destruir? Faltaria trabalhismo no Brasil de hoje?
Acho que sim, mas não apenas trabalhismo, pois o trabalhismo sempre foi o representante do nacionalismo. Esta idiotice que o Fernando Henrique cometeu é porque ele é muito intelectual. Intelectual, quando não gosta de povo, gosta mesmo é de falar em Sorbonne. Vale lembrar o Darcy Ribeiro, que dizia que tem intelectual burguês no nosso país que confunde cultura com eruditismo; O Darcy vivia lá nas tribos indígenas, e o Fernando Henrique vivia com a cabeça na Sorbonne tomando vinho. Os dois são intelectuais, só que um acha que cultura é o título sorbonético, de Oxford, de Harvard, e o Darcy não, ele achava que cultura é o conhecimento de um chefe indígena. E se você colocar um intelectual daqueles de Oxford, da Sorbonne lá na tribo, ele morre de fome.

Provavelmente, uma das questões que mais pesaram para a derrubada do governo João Goulart pelas forças externas foram as chamadas reformas de base. E hoje nós teríamos o país ainda carecendo de reformas de base, seja para recuperar o patrimônio privatizado ilegalmente, doado, como a Vale do Rio Doce, criada no governo Vargas. E, apesar da expectativa criada com a eleição do presidente Lula, reformas ainda não são a agenda do atual governo. Qual a sua avaliação?
Neste aspecto, eu tenho uma opinião muito nacionalista, e não poderia ser diferente. Acho que o maior crime que se cometeu neste país foi a entrega da Vale do Rio Doce. Se o Fernando Henrique tivesse um pouquinho mais de tempo teria entregue também a Petrobras, o Banco do Brasil e aí vai….Onde é que está o dinheiro da Vale? Ela foi privatizada por 3 bilhões e meio de reais. Incluindo neste valor o seu subsolo, o subsolo nacional. Se levantarmos ideologicamente, “nacionalisticamente”, isto é crime de lesa-pátria! E nisto, o presidente Lula foi pressionado, tem feito algumas concessões nos setores econômicos, mas não se falou mais em privatização da economia. Ele freou. Neste sentido, nós temos que ter um profundo respeito pelo presidente Lula. E quando se fala em reformas de base, é bom lembrar que o presidente Jango assumiu em meio a uma crise profunda, com a renúncia de Jânio Quadros, com a criação do parlamentarismo híbrido. Somente lá na frente, em 63, que se conseguiu fazer o plebiscito que devolveu a Jango os plenos poderes presidenciais, e só então se partiu, sim, para as reformas de base. Foi o governo mais brilhante e mais curto da história deste país. O governo presidencialista do presidente Jango foi de apenas um ano, 3 meses e 23 dias, quando se propôs as maiores transformações deste país. Por isto caiu. Quando alguns falam que o governo caiu por ser um governo incapaz, digo que nós temos orgulho ao fazer um levantamento histórico daquele curto período. Quem eram os incapazes do governo Jango? Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Evandro Lins e Silva, Luis Salmeron, Raul Ryff, Paulo Freire. Estes são os incapazes que queriam transformar esta república! Eu tenho orgulho destes “incapazes”, pobre dos grandes “capacitados” que entregaram a Vale do Rio Doce por R$ 3 bilhões! Pobres daqueles que dizem que o governo Jango tem que ser esquecido. Tem é que ser lembrado, e por isso nós criamos o Instituto Presidente Goulart.
Tenho o maior orgulho de ter sido filho de Jango, e tenho muito prazer em estudar os problemas latino-americanos do ponto de vista humano. Eu teria, isto sim, um profundo mal-estar se eu fosse filho de um destes ditadores latino- americanos. Eu falo de boca aberta, sou filho do Jango, sou filho de um patriota, sou filho do único presidente brasileiro que morreu no exílio lutando pela democracia, pela liberdade e pela justiça social. Duvido que tenha um filho de militar golpista que abra orgulhosamente a boca como eu abro dizendo que sou filho de Jango. * A versão oficial da morte de JK é que, no dia 22 de agosto de 1976, o ex-presidente morreu num acidente de carro, na Via Dutra. Estava em um Opala guiado pelo motorista Geraldo Ribeiro, indo de São Paulo para o Rio de Janeiro. Supostamente, o veículo foi atingido por um ônibus, passou para a outra pista e bateu de frente num caminhão.

Quem é
João Vicente Goulart,
presidente do Instituto Presidente Goulart, é filho do presidente João Belchior Marques Goulart, conhecido como Jango (1918-1976). Em 2002, foi candidato à Câmara dos Deputados do Rio de Janeiro pelo Partido Geral dos Trabalhadores (PGT). No governo de Anthony Garotinho (PMDB), ocupou uma subsecretaria de Estado.

Fonte: Brasil De Fato

As novas armas biológicas

Um relatório da Associação Médica Britânica alerta: indústrias e governos podem explorar os avanços da genômica e da biologia para desenvolver fármacos que provocam colapso dos processos vitais — ou produzem soldados sem medo e sem memória. EUA, Europa e China seriam a vanguarda desta corrida para a morte

Steve Wright

A Associação Médica Britânica (AMB) acaba de publicar um novo relatório sobre o “uso de drogas como armas” [1]. É a terceira publicação da entidade alertando para a militarização da medicina e seu potencial para criar novos artefatos de guerra. Mas até que ponto devemos nos preocupar com o avanço crescente da farmacologia tática?

O assunto esteve em cena pelo menos por quatro décadas. O especialista em armas químicas e biológicas Julian Perry Robinson, do Programa de Harvard-Sussex, relatou experimentos governamentais em seres humanos com as drogas alucinógenas incapacitantes LSD e BZ [2]; o uso de CS no campo de batalha do Vietnã; a pesquisa russa de codinome Bonfire, destinada a transformar os peptídeos humanos regulatórios em armas; o emprego de material químico em interrogatórios; e uma desconcertante linha de produtos psicoquímicos – paralisantes que interrompem a transmissão de impulsos nervosos, produtores de dor, irritantes baseados em componentes encontrados em fontes tão variadas quanto as urtigas (uruxiol) e o sapo comum (bufotenina) [3].

Mas a natureza altamente técnica dessa pesquisa restringiu o debate aos grupos envolvidos na criação de conhecimento organizado sobre armas não-convencionais, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o Fórum de Genebra, o Programa Harvard-Sussex e o Pugwash [4]. Enquanto isso, tem havido um interesse militar crescente pelas armas bioquímicas incapacitantes, à medida que o desenvolvimento das ciências da vida vem criando novas possibilidades. Essa pesquisa se acelerou depois do onze de setembro, com a liberação de recursos substanciais direcionados a tecnologias e armas que possam ser utilizadas em conflitos assimétricos, nos quais aliados e inimigos estão eventualmente misturados ou são indistinguíveis.

Revolução nas neurociências permite tratar doenças incuráveis ou… construir mentes sem medo e memória

A revolução que está ocorrendo nas neurociências tem clara ligação com o relatório da AMB. A genômica e a biologia de sistemas estão rompendo as fronteiras entre processos químicos e biológicos, que antes eram vistos como distintos. Agora, as moléculas podem ser reprojetadas racionalmente para afetar processos de biorregulação, como o funcionamento neurológico, cardiovascular etc. No passado, este era um procedimento experimental laborioso, mas agora a maior parte do trabalho pode ser computadorizada, de modo que os compostos bioativos mais promissores são identificados automaticamente, em uma velocidade prodigiosa.

Novos compostos podem ser projetados para agir como mecanismos de liberação que, por si sós, não causam doença. São produzidos rapidamente. E variantes desses novos agentes podem ser exploradas por meio da química combinacional, que se beneficia da alta capacidade de exame por varredura, investigando milhares de ligações potenciais. Enquanto isso, a genômica, a metodologia de microarray (utilizada para investigar a expressão simultânea de um grande número de genes) e a inteligência artificial fornecem previsões de toxicidade, evolução direcionada, proteômica (codificação de proteínas pelos genes), bioinformática e modelagem computadorizada de estruturas receptoras do cérebro.

Ninguém negaria tais facilidades à medicina e à indústria farmacêutica, pois apresentam um incrível potencial para curar doenças humanas e prolongar vidas ativas. Mas esta revolução das neurociências também traz o espectro da iminente militarização da biologia, acompanhado pelo circo de horrores de novos mecanismos para induzir paralisia, de técnicas avançadas de repressão, de tortura em massa, dor e terror.

Este uso perverso das neurociências pode não ficar restrito apenas aos oponentes do Estado. No Iraque, vimos as forças aliadas dos Estados Unidos utilizarem drogas para acentuar o estado de alerta de seus soldados. Em um futuro próximo, de acordo com Wheelis e Dando, poderemos presenciar soldados indo para a ação com agressividade e resistência ao medo, à dor e ao cansaço quimicamente aumentadas. E até mesmo com suas memórias desagradáveis removidas pela farmacologia militar [5].

Após o 11 de setembro, Europa derruba veto à pesquisa de armas capazes de afetar o cérebro

O relatório da AMB alerta para o fato de que, apesar das proibições das armas químicas e biológicas, os governos “demonstram considerável interesse na possibilidade de usar drogas como armas”. Parte desse interesse vem do desejo insatisfeito pelas assim chamadas “armas não-letais”. Parte decorre da mudança de atitude provocada pelo 11 de setembro. Antes disso, o Comitê de Assuntos Externos, Segurança e Política de Defesa do Parlamento Europeu tinha pedido uma “proibição global de qualquer trabalho de pesquisa e desenvolvimento, militar ou civil, que busque aplicar conhecimentos sobre o funcionamento químico, elétrico, ligado a vibrações sonoras ou outros meios do cérebro humano para o desenvolvimento de armas que possam permitir qualquer forma de manipulação de seres humanos” [6].

Depois do 11 de setembro, emudeceram as inquirições e críticas aos avanços indesejáveis das tecnologias de segurança de Estado nos EUA. Há muito menos pressão política sobre a responsabilidade do complexo de segurança industrial. E, em muitos sentidos, esse complexo está agora criando a agenda política [7]. É claro que tais desdobramentos não estão acontecendo apenas nos EUA e na Europa. A AMB alerta também para a pesquisa chinesa.

Para a organização, o uso militar de drogas levanta questões éticas cruciais, porque elas não são utilizáveis “sem gerar uma significativa mortalidade entre a população-alvo”. A droga que simplesmente tiraria as pessoas momentaneamente de ação, sem risco de morte, “não existe e é improvável que venha a existir em um futuro visível”.

Um caso emblemático e trágico: o uso de fentanil pelas tropas russas, na reação a atentado terrorista

As preocupações da AMB são múltiplas e universais, estendendo-se, para além da Grã-Bretanha, aos clínicos de toda parte. Elas dizem respeito, especificamente, a: 1.Envolvimento de médicos no planejamento e execução de ataque, usando drogas como armas; 2. Coleta de dados sobre os efeitos das armas em questão; 3. O papel da medicina e do saber médico no desenvolvimento de armas; 4. A dupla responsabilidade dos médicos – de um lado, não prejudicar pessoas; de outro, apoiar a “segurança nacional”; 4. O papel dos médicos no apoio à legislação internacional.

A relevância dessas preocupações veio à tona quando as Forças Especiais Russas utilizaram um anestésico do tipo fentanil para resgatar os reféns do cerco terrorista ao Teatro de Moscou, em 23 de outubro de 2002. Na ocasião, 130 dos 900 reféns morreram, na proporção de um para sete. As chamadas armas não-letais provaram ser letais – na realidade, mais letais do que as usadas em guerra, para as quais a taxa de mortalidade esperada é de um em 16. Este é um resultado importante a ser considerado, pois a participação dos médicos em semelhantes ações militares suscita questões éticas sobre seu papel e ressalvas quanto à adequação de seu treinamento para enfrentar tal tipo de ocorrência. No fim, ficou claro que participação médica foi muito mal-vista.

Há também alegações de que as autoridades, que ainda se recusam a identificar o produto usado, alteraram os certificados de óbito deliberadamente, para respaldar a idéia de que o material era inofensivo. Bem menos discutido foi o número de pessoas deixadas permanentemente inválidas por essa operação. Grupos em defesa das vítimas relataram 174 mortes e casos de invalidez permanente entre os sobreviventes [8]. O grupo também observou a liquidação de todos os tchetchnos suspeitos de terrorismo, reforçando a visão de que esses compostos podem facilitar a execução sumária, substituindo um processo legal.

Hipótese alarmante: potências militares poderiam terceirizar a pesquisa e produção das novas armas

Os médicos possuem altos padrões para indicar remédios e testes a pacientes. O relatório da AMB identifica uma potencial pressão futura dos fabricantes de armas sobre a indústria farmacêutica, com o objetivo de baixar esses padrões. Há repercussões de um alerta, publicado no Le Monde Diplomatique, em 2003, pela professora Chantal Bismuth e o coronel Patrick Barriot, de que as armas químicas de amanhã possam vir a ser encontradas nos catálogos de medicamentos [9].

A AMB cita um estudo do Centro de Pesquisa Aplicada da Faculdade de Medicina da Universidade de Pennsylvania que pede à indústria farmacêutica para levar em conta as milhares de drogas descartadas ou deixadas em prateleiras sem pesquisa concluída, devido a efeitos colaterais indesejados. O mesmo estudo identifica vários “produtos farmacêuticos órfãos”, com nove tipos diferentes de sistemas como neurotransmissor/receptor e outras classes de compostos, inclusive convulsivantes [10].

O que aconteceria se alguns países decidissem que tais armas químicas não precisam de testes clínicos? E, se esses testes forem realizados, como investigações em idosos, doentes e crianças poderiam ser permitidas por um comitê de ética médica? Uma preocupação de peso é que tal tipo de pesquisa possa ser “terceirizado” para um país onde dinheiro e capital político sejam mais importantes do que a ética médica. Trata-se de um ponto importante. Uma vez que a relutância em usar armas bioquímicas perigosas no contra-terrorismo ou na contra-insurgência tenha sido quebrada, é possível antever uma rápida evolução de novas variantes, com ampla gama de indução de efeitos de imobilização e dor. E o cenário de pesadelo de armas seletivas por etnia já foi apontado pela AMB, que lançou um grande alerta para o fato de estar em curso uma corrida às armas de avental branco. [11].

Sabe-se que pesquisadores militares estão estudando as propriedades da endotelina – uma cadeia de 21 aminoácidos, similar em estrutura a certos venenos de cobra – e toda uma nova classe de biorreguladores, com efeitos potenciais sobre o sistema circulatório. Entre outros compostos em análise, está a chamada “substância P”, uma taquiquinina que pode provocar intensa broncoconstrição.

Em paralelo às drogas, surgem armas para transportá-las: bombas dispersoras, pistolas, micro-cápsulas…

Outros riscos em discussão referem-se a compostos bioquímicos que podem induzir doenças de aparecimento tardio, como o câncer do fígado, favorecendo atos de genocídio retardados por talvez vinte anos. De igual importância neste debate é o fato de que, além de as drogas serem pesquisadas para se tornarem armas, novas armas estão sendo projetadas para transportá-las ao alvo, como seringas voadoras estabilizadas, bombas para a dispersão de grandes quantidades de produtos químicos, pistolas de paintball modificadas, micro-cápsulas que soltam o produto químico quando pisadas, veículos não-tripulados etc. O caso mais recente é o acordo comercial entre as companhias norte-americanas Taser, fabricante de pistolas que dão eletrochoques, e a iRobot, fabricante de veículos de guerra não-tripulados para exploração de terreno [12]. É só uma questão de tempo para que os novos modelos desses veículos incorporem pistolas para lançar armas químicas e que estas armas tenham opções algorítmicas autônomas.

A AMB enfatiza corretamente suas preocupações legais por três razões. As normas legais internacionais que protegem a humanidade de veneno e da disseminação deliberada de doença, adotadas depois de décadas de negociação, correm o risco de ser enfraquecidas. A disponibilidade ampla, mas responsável, de drogas com potencial emprego militar inevitavelmente resultaria na chegada delas às mãos de agentes, estatais ou não, para os quais a mortalidade no meio da população-alvo não teria importância. Usar as drogas existentes como armas, com conhecimento de causa, significa subir ao topo de uma ladeira escorregadia, no fim da qual está o espectro da militarização da biologia, que poderia trazer a manipulação intencional das emoções, memória, resposta imunológica e até a fertilidade das pessoas.

E o horror continua. O Sunshine Project, dos Estados Unidos, revelou documentação de uma pesquisa norte-americana orientada para utilizar a mudança de orientação sexual como tática de luta [13]. Como o mundo reagirá se um Estado militarizado decidir alterar a química do cérebro feminino, para produzir civis hormonalmente receptivas ao estupro militar em massa?

O papel decisivo da Convenção de Armas Químicas, que deverá ser revista em 2008

A visão comum é que, se todas as armas químicas e biológicas são proibidas pelas convenções internacionais, então não há problema, Porém, mesmo aqui, existe uma brecha: a Convenção de Armas Químicas (CAQ), no artigo II(9)d, permite uma exceção para o controle de conflitos internos. Isso era visto, essencialmente, como autorização do uso de armas químicas policiais destinadas ao controle de multidões (como o gás lacrimogênio, por exemplo) e do uso de injeção letal destinada à execução legal. Contudo, o emprego de produtos incapacitantes como armas contra o terrorismo abriu uma significativa janela. A questão agora é saber que tipos de compostos, além do gás lacrimogênio padrão, são permitidos em ações de manutenção da paz. Essa brecha enfraquece potencialmente a Convenção de Armas Químicas [14].

De acordo com o professor Malcolm Dando, da Escola de Estudos para a Paz da Bradford University: “A melhor solução para as dificuldades com o artigo II.9(d) seria os Estados signatários concordarem que não existe permissão para o uso de produtos químicos além dos produtos-padrão para o controle de distúrbios. Contudo, se isso não for possível, os Estados signatários teriam que relatar regularmente quais produtos químicos para esse tipo de ação eles possuem, em que quantidades e com quais os dispositivos de disseminação”.

A Convenção de Armas Químicas vai ser revista em 2008. O relatório da AMB alcançará seu propósito se os negociadores que se encontrarem em Genebra no ano que vem escutarem o alerta de pôr a mão nesse assunto antes que seja tarde demais.

[1] British Medical Association: “The use of drugs as weapons: the concerns and responsibilities of healthcare professionals”, 2007. Disponível em http://www.bma.org.uk/ap.nsf/Content/drugsasweapons

[2] Benzilato de quinuclidinil, uma droga que pode causar delírio durante dias.

[3] Robinson, Julian Perry: “Disabling Chemical Weapons: A Documentary Chronology of Events, 1945-2003)”, 2004. Documento de trabalho não publicado, Programa de Havard-Sussex.

[4] Em 1955, Bertrand Russel e Joseph_Rotblat criaram, na cidade canadense de Pugwash, uma conferência para trabalhar contra as ameaças de conflitos mundiais.

[5] Wheelis, M. e Dando, M.: “Neurobiology: a case study of the imminent militrarisation of biology”, em International review of the Red Cross, vol.87, no. 859, pp.553-571, 2005.

[6] Parlamento Europeu, Comitê de Assuntos Externos, Segurança e Política de Defesa: Report on the Environment, Security and Foreign Policy (Relatora Mrs. Maj. Britt Theorin), PE 227.710/fin, 14 de janeiro de 1999, p.10.

[7] Para uma excelente análise desta vertente, ver Hayes, B.: “Arming Big Brother: the EU’s security research programme”, TNI/Statewatch, Amsterdam, 2006. http://www.statewatch.org/news/2006/apr/bigbrother.pdf

[8] Burban, L., Gubareva, S., Karpova, T., Karpov, N., Kurbatov, V., Milovidov, D., Finogenov, P.: ‘Investigation Unfinished’, Regional Public Organization for Support of Victims of Terrorist Attacks, Moscou, 2006. Disponível em russo no site: http://www.pravdabeslana.ru/nordost/doklad.zip. Há também uma versão reduzida em inglês (sem apêndices) em: http://www.pravdabeslana.ru/nordost/dokleng.doc-> http://www.pravdabeslana.ru/nordost/dokleng.doc]

[9] Chantal Bismuth e Patrick Barriot, “A falsa retórica da classificação de armas”, Le Monde Diplomatique Brasil, maio de 2003

[10] Lakoski, J., Bosseau, M.W., Kenny, JM.: “The advantages and limitations of calmatives for use as a non-lethal technique”, College of Medicine Applied Research Laboratory, Pennsylvania State University, 2000.

[11] Para uma revisão abrangente desses fatos, ver Davison, N., Lewer N.: Research Report no 8, Bradford Non-Lethal Weapons Research Project, 2006.

[12] http://uk.biz.yahoo.com/28062007/290/taser-international-forms-strategic-alliance-irobot.html

[13] http://www.sunshine-project.org/incapacitants/jnlwdpdf/

[14] Para uma análise clara destes temas ver Pearson, A: “Incapacitating bio-chemical weapons: science, technology, and policy for the 21st Century”, Non Proliferation Review, vol. 13, no 2, julho de 2006, pp. 151-179.

Fonte: Le Monde diplomatique