Monthly Archives: fevereiro 2008

A mudança de Obama tem a consistência da bolha das empresas pontocom

A ascensão do democrata Barack Obama significa uma vitória alarmante de estilo sobre substância. Como a loucura das pontocom, sua campanha promete mais do que pode oferecer. A única coisa que seus eleitores podem ter certeza é que, no fim, ficarão desapontados

Gabor Steingart

O pré-candidato democrata presidencial Barack Obama faz muitos pensarem no ex-presidente John F. Kennedy ou no líder de direitos civis Martin Luther King. Mas quando eu o ouço falar, ele me remete à loucura da Nova Economia.

Era uma época mágica, até para os executivos mais “pé no chão”. Por vários anos, promessas incríveis pareciam ser a moeda mais valiosa em circulação. Lucros? Sem problemas! Experiência? Não precisa! Realismo? É mais um obstáculo do que qualquer coisa. Alguns empresários sem dúvida tinham modelos realistas e talento administrativo, mas a maior parte estava simplesmente vendendo idéias.

A produção econômica mundial cresceu 80% em termos reais entre 1980 e 2000. Mas o valor das ações aumentou cerca de 1.000% no mesmo período. O mercado atingiu seu zênite no dia 10 de março de 2000, e então a bolha estourou. Subitamente, as empresas de bilhões de dólares listadas no Nasdaq desinflaram como suflês frios. Bernie Ebbers, ex-diretor da Worldcom e um dos astros na nova economia, não aparece mais no Larry King Live. Em vez disso, ele está atualmente cumprindo pena em Louisiana por fraude e conspiração.

O futuro é um bem fortemente negociado na campanha presidencial dos EUA em 2008. Os eleitores estão esfomeados por mudança e por um distanciamento radical de um presente que agora percebem como medíocre, especialmente depois de sete anos magros sob o atual presidente, George W. Bush. Um homem como Barack Obama sabe tirar vantagem deste desejo. Ele fala frases bonitas que massageiam a alma, como: “É por nós que estivemos esperando” e “nosso destino não vai ser escrito para nós, mas por nós”.

Em suas aparições de campanha, Obama e seus adoradores jogam seu lema de campanha, “sim, podemos”, de um lado para o outro até o salão ficar frenético. Seus eventos lembram as trocas nos cultos de domingo entre um pastor animado e sua congregação entusiasta, exceto que as multidões de Obama são ainda mais efervescentes.

Quem consegue enxergar através da retórica do candidato de 46 anos, entretanto, tem uma sensação de dúvida crescente -dúvida que Obama facilmente consegue reprimir em seu próximo discurso, ou no outro. O sucesso do senador nas primárias também tem um efeito intoxicante. Obama se define como um novo tipo de político, alguém que se recusa a ser julgado pelos antigos padrões.

A retórica também soa estranhamente familiar. Nos tempos da Nova Economia, a análise tradicional do valor das ações, baseada em seus fundamentos -indicadores econômicos cruciais como lucro, vendas e número de funcionários- subitamente se tornou coisa do passado e foi substituída pelo método chamado de momentum. A empresa passava a ser vista como um bom negócio se sua ação aumentasse e um excelente negócio se suas ações aumentassem rapidamente. O provérbio do dia? Eu cresço, portanto, eu sou. Bernie Ebbers era considerado um bom administrador. O preço das ações de sua empresa subiu de menos de US$ 5 (cerca de R$10) nos primeiros dias para uma alta de US$ 62 (em torno de R$ 124) em 1999. Ebbers estava nas alturas. Ele tinha momentum.

O jovem vendedor de idéias de Chicago está vivenciando o mesmo impulso, enquanto corre de um sucesso eleitoral ao próximo. O sucesso alimenta o sucesso. Obama também tem momentum.

As minas terrestres da política externa
Mesmo assim, se Obama for eleito, eventualmente vai ser forçado a desapontar seus eleitores. A política em uma sociedade democrática é um equilíbrio de interesses, não uma reunião de renascimento. É preciso elegância, experiência e o poder de transformar idéias em realidade. Esperança e otimismo podem reforçar essas qualidades, mas não podem substituí-las. A mensagem de Obama está mais para uma promessa de curar a nação do que para uma plataforma de campanha.

O futuro promissor de Obama parece velado e indistinto. Ele quer mudar as regras do engajamento na política, mas esquece de explicar como e em qual direção. Ele quer escrever uma nova página nos livros de história, mas com qual letra planeja fazê-lo? Ele quer expulsar lobistas, mas se o fizer, quem vai defender os interesses dos sindicalistas, veteranos de guerra e corporações químicas? Ele quer negociar com os ditadores do mundo, mas com que objetivo, exatamente?

De fato, as minas explosivas mais perigosas de Obama estão escondidas na política externa. Uma retirada rápida do Iraque? Parece ótimo. Mas o erro de ter começado essa guerra em primeiro lugar não pode ser corrigido terminando-a em uma correria louca para sair do Iraque. Uma retirada rápida dos militares americanos provavelmente seria seguida por uma guerra civil sangrenta. A Al Qaeda ia conseguir abocanhar o Iraque de uma vez por todas. O Irã ia se regozijar. Osama Bin Laden e o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, seriam os verdadeiros vencedores das eleições presidenciais americanas de 2008.

Ainda por cima, Obama, tentando mostrar força, criou um novo teatro para as forças armadas americanas. Ele fala de operações militares no Paquistão, que tem poder nuclear. Ele, como chefe do Estado maior, ia ordenar essas operações mesmo sem a aprovação da ONU. Essa é “a guerra que precisamos vencer”, repete sem parar.

Na realidade, contudo, uma campanha militar no Paquistão seria loucura, apesar de muitos na mídia americana terem decidido cuidadosamente ignorar os comentários de Obama. Uma comparação com o presidente John F. Kennedy, que tinha 43 anos quando foi eleito, revela que Kennedy de fato não queria entrar em guerra no Vietnã. Foi uma guerra para a qual o presidente inexperiente escorregou; se foi um presidente de guerra, foi por acidente, não por projeto.

No entanto, não há espaço para considerações no mundo turbulento da obamamania. Hillary Clinton, sua rival na luta pela nomeação democrata, sofre dos mesmos problemas que tiveram as empresas tradicionais da indústria automotiva e de engenharia quando confrontadas com a febre da Nova Economia. Ela perdeu o contato com seus defensores. Ela usa palavras para explicar, enquanto Obama usa retórica para intoxicar. Ela diz aos eleitores o que está trazendo à mesa. Ele diz a eles o que podem se tornar. Se Clinton é uma ação firme, Obama é uma opção. Se ela é um investimento seguro, ele é especulação.

Quando a Nova Economia atingiu sua conclusão, as pessoas subitamente entenderam que suas esperanças caíram por terra e seus desejos por fortunas rápidas não foram satisfeitos. Em 2002, o preço da ação da Worldcom caiu para menos de US$ 0,10 (cerca de R$ 0,20).

Se a democracia funcionar pelo menos um pouco como a economia de mercado, a bolha de Obama vai estourar. A questão é: quando? Acontecerá antes da nomeação democrata em agosto -ou só depois?

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

Aumento do desemprego é presságio de recessão nos Estados Unidos

Floyd Norris

Quando o número de norte-americanos sem trabalho começa a aumentar drasticamente, ocorre uma recessão.

Segundo esta lógica, os últimos dados referentes ao número de trabalhadores desempregados são, no mínimo, um sinal de perigo.

O Departamento de Trabalho anunciou em dezembro que 7.665.000 pessoas estavam desempregadas, o que significa que elas ao mesmo tempo não tinham emprego e que não estavam procurando um trabalho. O número foi 13,2% mais elevado do que os 6.700.000 registrados em dezembro do ano anterior. No passado, um aumento anual de 13% consistiu, em todas as ocasiões, em um sinal de uma recessão.

Antes de dezembro, houve nove ciclos nos Estados Unidos desde 1950 durante os quais a variação positiva do número de desempregados foi de 13% ou maior.

Em oito daqueles casos, quando o aumento atingiu os 13%, a recessão já havia começado, segundo conclusões às quais posteriormente chegou o Departamento Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos. No outro caso, a recessão teve início três meses depois.

Aliás, o departamento não define uma recessão como dois trimestres de queda do produto interno bruto real, embora esta definição seja amplamente utilizada. Em vez disso, a instituição diz que “uma recessão é um declínio significativo da atividade econômica disseminado por toda a economia, durando mais do que alguns meses, normalmente visível no produto interno bruto real, na renda real, no desemprego, na produção industrial e nas vendas no atacado e no varejo”.

O fato de o desemprego ser um dos indicadores ajuda a explicar historicamente essa correlação estreita, mas isso não aconteceria se tivesse havido ondas de desemprego que não coincidissem com desaquecimentos econômicos mais amplos.

A idéia de que uma recessão já esteja ocorrendo quando o índice de desemprego é de apenas 5% pode parecer estranha para quem tenha acompanhado a economia nas últimas décadas. Esse número é menos da metade do índice atingido em 1982, e menor do que o índice médio de desemprego das décadas de 1970, 1980 e 1990. Mas às vezes o que conta é a tendência, mais do que o nível absoluto de desemprego.

Em décadas passadas, não havia nada de incomum quanto ao fato de uma recessão ter início com um índice de desemprego de 5% ou menos. Das nove recessões registradas pelo departamento de pesquisa econômica desde 1950, cinco tiverem início com um índice de desemprego menor que 5%. Estas foram as recessões de 1953, 1957, 1969, 1973 e 2001.

O padrão normal é que o aumento anual de 13% do número de desempregados ocorra alguns meses após o início da recessão – embora geralmente bem antes disso fique claro para os economistas que a economia entrou em queda -, e que depois disso esse número fique bem maior. Geralmente os índices de aumento anual de desemprego permanecem acima dos 13% durante vários meses após o término da recessão.

A única ocasião na qual o aumento do número de desempregados ocorreu antes do início real da recessão foi em 1969, quando a elevação atingiu a marca dos 13% em setembro, mas o mês do início oficial da recessão foi mais tarde determinado como sendo dezembro. Aquela foi uma rara ocasião na qual o índice de aumento anual, após aumentar para 13%, caiu para abaixo deste nível durante dois meses. E ele não voltou a superar os 13% antes de janeiro de 1970, um mês após o início da recessão.

O desemprego é geralmente visto como um indicador econômico atrasado, já que as companhias podem relutar em demitir trabalhadores quando a demanda começa a diminuir, aguardando até que as más notícias de fato se confirmem. Quando a recessão acaba, há uma relutância semelhante em se contratar até que fique claro que o aquecimento dos negócios não é um fenômeno temporário.

É claro que não existe garantia de que uma recessão esteja chegando. Em 1956, e novamente em 1967, houve aumentos de 12% no número de pessoas desempregadas, mas esse índice recuou rapidamente sem que ocorresse rapidamente uma recessão. Mas o fato é que nunca antes este índice subiu para 13% sem que uma recessão fosse iminente ou que já estivesse ocorrendo…

The New York Times
http://www.nytimes.com/

“Religião não se opõe à modernidade”, defende ex-presidente iraniano Khatami

Ángeles Espinosa

Já faz três anos que ele deixou a presidência do Irã, mas conserva os ares patrícios e o sorriso franco que lhe conquistaram o maior apoio popular a um político na República Islâmica.Agora, da Fundação para o Diálogo de Civilizações, Mohamed Khatami (nascido em Ardakan em 1943) continua defendendo suas convicções, apesar da mudança de rumo que deu o governo de seu país. “A religião não se opõe à modernidade”; “os seres humanos temos de encontrar o que nos une, e não o que nos separa”, declara às vésperas do Primeiro Fórum da Aliança de Civilizações, do qual não poderá participar, apesar de ter plantado a semente e colaborado com os especialistas que o prepararam.

El País – Desde que o senhor deixou a presidência, trabalha para promover o diálogo de civilizações. Quais foram os resultados?
Mohamed Khatami – Estabelecemos dois centros para promover esse diálogo, em Genebra e em Teerã. Além da repercussão em livros e periódicos, universidades do mundo todo organizam seminários e centros governamentais ou não-governamentais o promovem. Os primeiros-ministros da Espanha e da Turquia lançaram a Aliança de Civilizações, que se reunirá nos próximos dias em Madri. E nossa época precisa desse diálogo, porque o ser humano nunca sofreu tanto quanto agora. Só através do diálogo é possível alcançar um melhor entendimento e convivência.

EP – Que peso o senhor atribui às idéias religiosas na configuração desses sistemas de valores compartilhados que chamamos de civilizações ou culturas?
Khatami – As religiões são o elemento mais importante que há em cada cultura e em cada país, e por isso a interação entre elas é fundamental para resolver os problemas. Por exemplo, na Fundação, nos reunimos com representantes do Vaticano, da Catedral Nacional de Washington e da Universidade Islâmica de Al Abar para debater o caminho que é preciso seguir. Naturalmente, outras religiões poderão se incorporar. É muito importante esse diálogo inter-religioso.

EP – Que os doutos das diversas religiões entrem em acordo parece mais simples do que estes o façam com os ateus. Não é maior o abismo entre os religiosos militantes (qualquer que seja seu credo) e os que defendem a laicidade?
Khatami – Sem dúvida, mas o diálogo não termina nos religiosos. Temos muitos problemas humanitários nos quais podemos chegar a um acordo [com os ateus], como por exemplo a pobreza -o mais importante de todos- ou a grave crise do meio ambiente. Devemos pensar nas coisas que temos em comum como seres humanos, e não deixar que as diferenças nos separem.

EP – No fundo dessas diferenças estão as relações entre religião e Estado. Na sua opinião, quais são as normas que as devem reger?
Khatami – É um problema do mundo moderno. Na Idade Média não se planejava. Hoje triunfa a idéia de que se devem separar governo e religião. Diz-se com freqüência que a secularização acabou com as guerras de religião, mas houve outras, como a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, ou numerosos conflitos regionais que não têm nada a ver com religião. Não se pode afirmar que a separação de governo e religião põe fim a todos os problemas. Para que não haja guerra, o ser humano precisa deixar para trás seu egoísmo e não se considerar o centro do mundo. A religião não se opõe à liberdade, ao desenvolvimento e à democracia. Hoje não é mais como na Idade Média.

EP – No Irã a combinação de instituições republicanas e religiosas produz alguns atritos. Chegarão a ser insustentáveis?
Khatami – As bases da República Islâmica são republicanas, e o xiismo, o ramo do islã que seguimos no Irã, permite a interpretação, a “ijthad”. Isso evita que ambas as normas (islâmicas e republicanas) se contradigam. Na prática pode haver alguns problemas, mas se pode resolver e conseguir que a sociedade respeite as normas religiosas. O imã Khomeini disse que em uma sociedade islâmica se as normas religiosas contradizem a sociedade devem ser mudadas. Esse é um dos objetivos principais dos reformistas. Por isso não vejo contradição entre as duas.

EP – O senhor considera que houve um recuo em parte do caminho que o senhor percorreu no Irã?
Khatami – Devo explicar que o reformismo não começou nem terminou comigo. O reformismo iraniano tem um século de história. Faz cem anos que os iranianos querem três coisas: liberdade, independência e desenvolvimento. A revolução teve o mesmo objetivo. Por isso vai continuar. Mas a sociedade tem altos e baixos. Às vezes vai mais depressa e às vezes mais devagar, mas não deixa de avançar. As comparações sobre o governo atual e o que eu presidi deixo para a população.

EP – O senhor pensa em ajudar a chapa reformista nas eleições legislativas de março?
Khatami – Vou animá-los. Tive contatos com Rafsanjani, Karrubi e outros políticos. Temos muitas idéias em comum: o mais importante é nos coordenarmos e não deixarmos resquícios entre nós.

EP – Há alguma diferença prática entre uma vitória dos reformistas ou dos conservadores?
Khatami – Nossos objetivos não mudaram. Somos contra a intervenção estrangeira e acreditamos que é preciso defender a população. Pedimos mais liberdade e a defendemos; queremos melhorar nossas relações com outros países; melhorar nosso nível científico e tecnológico; conseguir o investimento estrangeiro que exige o desenvolvimento econômico; potencializar o setor privado… Confiamos no país. O programa que os reformistas divulgarão nos próximos dias incluirá esses pontos. E se chegarem ao poder os colocarão em prática. Esse é o nosso desejo. Quanto às comparações, deixo-as para os outros.

EP – Fora do Irã, sua ambição nuclear causa preocupação. Durante seu mandato parecia que o entendimento era possível. Por que com seu sucessor mudou?
Khatami – A crise explodiu quando eu era presidente. Acreditávamos na necessidade de ter energia nuclear (…) e como membros do Tratado de Não-Proliferação temos direito a ela. A preocupação das potências é compreensível, mas não suas formas. O Irã não tem armas nucleares, nem pretende ter. Já dissemos isso muitas vezes. Os inspetores da ONU o comprovaram e 16 organizações de inteligência dos EUA ratificaram…

EP – Sim, mas dizem que o programa foi suspenso em 2003…
Khatami – Nisso temos que corrigi-los. Antes de 2003 também não tínhamos um programa nuclear militar. Se há preocupação sobre armas atômicas, é preciso olhar para os que as possuem: nossos dois vizinhos do leste e Israel, que tem o maior arsenal de todos. Por que se pressiona o Irã por querer energia atômica? É uma questão política. Os EUA sabotaram a via amistosa. Para voltar a ela, se exige que todo o mundo reconheça o direito do Irã à energia nuclear e que o Irã dê garantias objetivas de que não desvia essa tecnologia para um programa militar. O Irã não mudou nesse sentido. Continua disposto a colaborar com outros países e com os inspetores. Confio que se chegará a uma solução pela via do diálogo. Um diálogo justo resolverá a tensão nuclear.

El País
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O estratégico Oriente Médio

Lejeune Mirhan

Em linguagem econômica, a região do Oriente Médio produz uma das commodities mais estratégicas no planeta hoje, ainda que não renovável: o petróleo, commoditie que atinge a marca astronômica dos US$100.00 por barril.

MohamedAbou[1]

Há um debate entre cientistas e pesquisadores sobre por quanto tempo ainda o petróleo vai durar para abastecer o mundo. Se por dez mil anos seguidos a humanidade consumiu uma média diária de 20 Watts de energia (equivalente a uma lâmpada de árvore de natal ligada por 24h seguidas), e hoje consome cem vezes mais, isso se deve à descoberta da exploração do petróleo a partir de 1859 por Edwin Drake, nos Estados Unidos, num campo da Pensilvânia.

Alguns falam que as reservas mundiais dariam para 40 anos, outros para os próximos 75, e alguns ainda mencionam que durante o século XXI inteiro não haverá problema de falta de petróleo no mundo. Independente da verdade dessas afirmações, o que queremos demonstrar aqui é o potencial estratégico das reservas petrolíferas do Oriente Médio, particularmente dos países árabes (excluídas as reservas do Irã, país persa).

Os números podem variar de fonte para fonte, mas em números redondos, é seguro que todas as reservas dos países árabes significam hoje 60% de todas as reservas mundiais, estimadas num total de um trilhão de barris (nosso Brasil, nesse cenário, antes das descobertas dos campos gigantes, estava na faixa de no máximo 1% das reservas mundiais provadas). Os países árabes têm, portanto, pelo menos 600 bilhões de barris provados e em exploração comercial. Pela ordem de grandeza, os seguintes países árabes são produtores e exportadores de petróle/ Arábia Saudita (com 25% de todo o petróleo do planeta), Iraque (11%), Emirados Árabes Unidos (9,3%), Kuwait (9,2%), Líbia (2,8%), Qatar (1,5%), Argélia (0,9%), o que totaliza exatos 59,4% já mencionados.

Os países árabes, ao todo 23, sabem que precisam diversificar seu comércio internacional, exportar e importar produtos além da conta-petróleo. Estão fazendo investimentos em indústria pesada, mas jogam pesado na questão turística. Uma grande força na região. Nos Emirados Árabes, que acabam de inaugurar a primeira linha aérea direta entre Brasil e um país árabe, com seis vôos diários (a empresa aérea é a Fly Emirates, cuja sede fica em Dubai, capital do país), tem o único hotel sete (!) estrelas do mundo, cuja diária no quarto mais barato custa astronômicos mil dólares (algo como R$1,7 mil reais). Esse grande hotel está contratando garçons de vários países, vários deles brasileiros inclusive, para trabalhar (paga-se pouco, a miséria de 400 dólares, menos da metade da diária mais barata).

Como disse um diplomata brasileiro ouvido pelo Estadão, em reportagem alusiva ao potencial comercial dos países árabes com o Brasil: estamos chegando tarde à região. As potências do mundo inteiro sabem disso e lá investem e mantêm relações comerciais intensas. Em contrapartida, os países árabes investem seus petrodólares em negócios, empresas, bancos e indústrias dos países desenvolvidos. O Brasil precisa se preparar – e está se preparando – para receber esses investimentos em dólares originados da riqueza do petróleo da região.

Lula, depois de Dom Pedro II, foi o único chefe de Estado brasileiro a visitar um país árabe e compreender a importância desse comércio bilateral. Tanto que realizou a 1ª Cúpula dos Países árabes com a América do Sul em maio de 2005, em Brasília, após o seu primeiro giro pela região no final de 2004, onde visitou nove países e foi efusivamente recebido.

As exportações do Brasil para os países árabes vêm crescendo a cada ano. Se compararmos 2006 e 2007, veremos um incremento de 12% de crescimento na movimentação de recursos em dólares. Delegações imensas de empresários brasileiros visitam mensalmente os países árabes, participam de feiras para vender seus produtos e vice-versa. Exportamos em 2007 mais de sete bilhões de dólares em produtos de diversas naturezas. Não devemos deixar de lembrar que quando Lula tomou posse, as exportações em 2002 eram de 2,6 bilhões de dólares e hoje quase que triplicaram. Mas têm potencial para crescer ainda mais como avaliam os analistas em comércio exterior e a própria Câmara do Comércio Árabe-Brasileira. A estimativa de crescimento para 2008 é de pelo menos 10%. Isso será ainda mais incrementado com a realização da 2ª Cúpula de Países Árabes e da América do Sul (em país ainda a ser definido). A nossa pauta de exportações é tão diversificada que, segundo dados da Câmara, atingiu em 2007 mais de 2,2 mil produtos diferentes.

O presidente Lula planeja a sua terceira rodada para os países árabes ainda neste ano. E deve levar consigo os governadores do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e de Minas Gerais, Aécio Neves, que têm grandes interesses no comércio bilateral. Falta a discussão detalhada das tarifas de importação e exportação, de forma a não prejudicar nenhuma empresa de nenhum setor no Brasil e em algum país árabe. É a política positiva exterior do nosso país, incrementada pelo presidente Lula que, sem desprezar a importância e o comércio bilateral com os países do Norte desenvolvido, passou a olhar mais e com prioridade os países do Sul. É o chamado comércio Sul-Sul, ao qual apoiamos que siga ocorrendo dessa forma e com mais intensidade se possível, para que se desenvolvam mais e mais as nossas economias e que a riqueza produzida possa ser bem distribuída entre as que a produziram, desejo de todos nós.

O Icarabe publicou na edição 135 de sua newsletter o artigo “A política não faz mais heróis”, de Mohammed Salah, uma reflexão sobre a atitude de Mohamed Abu Treika, jogador egípcio que, ao comemorar um gol na Copa Africana das Nações, mostrou uma camisa com os dizeres “Solidarize-se com Gaza”. A foto foi banida do Google. A informação, atribuída ao jornal saudita Al-Watan, é de que Israel pressionou o site de procura a remover todas as imagens do gesto do egípcio. De fato, em Imagens, se digitar “Sympathize with Gaza”, as fotos não aparecerão. Acima, a foto que documentou o momento em que o atleta ergue o uniforme e mostra a mensagem de apoio aos palestinos.

* As fontes de dados deste artigo, editado de publicação original no site www.vermelho.org.br, foram a Câmara de Comércio Árabe-Brasil, http://www.ccab.org.br/site/, e Artigo “Brasil busca petrodólares dos países do Golfo”, publicado no Estadão no dia 6 de fevereiro de 2008, página B6, Economia.

Lejeune Mirhan, sociólogo da Fundação Unesp, arabista e professor. Presidente do Sindicato dos Sociólogos, membro da Academia de Altos Estudos Ibero-árabe de Lisboa e da International Sociological Association.

Icárabe

Brasileiros nos EUA retornam em massa ao Brasil

Brian R. Ballou

Francisco Neto trocou o Brasil por Marlborough, em Massachusetts, em 1995, atraído pela sua versão do sonho norte-americano: a possibilidade de contar com um salário estável e uma taxa de câmbio que triplicaria o dinheiro que ele enviaria para casa a fim de ajudar os parentes em dificuldades.

Mas após quase 12 anos, ele pretende retornar para Goiânia, a sua cidade natal, na região centro-oeste do Brasil, juntando-se a grupo de milhares de brasileiros que não enxergam mais vantagem em morar aqui. O declínio do dólar reduziu pela metade o valor dos US$ 700 que Neto envia para casa todos os meses: cinco anos atrás, essa quantia valia RS$ 2.450. Hoje ela vale apenas RS$ 1.225.

Esse declínio do dólar, conjugado a uma economia brasileira em expansão, está fazendo com que os brasileiros reavaliem as dificuldades de se viver nos Estados Unidos, longe de suas famílias, em um país no qual muitas vezes é difícil ser imigrante, até mesmo para alguém que possui visto de residência, como Neto.

“Durante um longo período, foi ótimo”, afirma Neto, 39, fazendo uma pausa na semana passada no seu trabalho como entregador de encomendas para a Kodak. “Eu enviava a minha família cerca de US$ 700 mensais. Mas no ano passado a situação ficou muito pior. Tive que pagar pela minha gasolina, e, tendo uma família aqui, eu e a minha mulher trabalhávamos sem parar, e mesmo assim estávamos quebrados”.

Segundo estimativas do Centro Brasileiro do Imigrante, uma agência sem fins lucrativos com sede em Allston, no Estado de Massachusetts, um número estimado de 5.000 a 7.000 brasileiros deixou Massachusetts e retornou ao Brasil em 2007. O centro calcula que de 2.000 a 3.000 brasileiros retornaram a sua terra natal em 2006.

O censo dos Estados Unidos de 2000 registrou 39 mil pessoas de ascendência brasileira morando no Estado; o número aumentou para 73 mil em 2006, de acordo com a American Community Survey, uma pesquisa demográfica anual realizada pelo Birô do Censo dos Estados Unidos. Mas esse número não inclui os brasileiros que vivem aqui sem a documentação apropriada. Alguns estimam que o número total de imigrantes brasileiros chegue a 230 mil.

Fausto da Rocha, diretor executivo do Centro do Imigrante Brasileiro, diz que o dólar fraco é apenas um dos diversos motivos pelos quais os brasileiros estão voltando para casa. Os brasileiros são o segundo grupo de imigrantes ilegais que mais cresce nos Estados Unidos, e muitos ficaram profundamente desapontados no verão passado quando o Congresso norte-americano não aprovou um projeto de lei que daria a milhões de imigrantes uma chance de se inscrever para o visto de residência legal.

Ele prevê que em 2008, de 7.000 a 10 mil brasileiros poderão voltar ao Brasil.

“Isso tem muito a ver também com uma falta de esperança”, afirma Rocha. “Quando Deval Patrick foi eleito governador, houve muita esperança de que a situação melhoraria para os imigrantes, mas a condição deles tornou-se ainda pior. Uma alta percentagem de trabalhadores não conta com papéis de imigração, e eles precisam de um carro para trabalhar. Assim, eles estão dirigindo sem documentos, e a Polícia Estadual os têm parado e denunciado”.

Mário Saade, o cônsul geral do Brasil em Boston, diz que há provavelmente mais brasileiros partindo do que em qualquer outro período no passado. Mas Saade também diz achar que o número seja inferior a 7.000, baseado no número de brasileiros que procuram os serviços consulares, que manteve-se estável entre 300 e 400.

Saade diz que o fracasso da lei de reforma da imigração no ano passado foi um grande golpe para muitos brasileiros daqui, e afirma que a economia brasileira, que experimentou um crescimento de 5,5% no ano passado, pode estar estimulando muitos a retornar.

“A economia do Brasil está atualmente no seu melhor estado em vários anos, e existem mais oportunidades de trabalho lá”, diz ele. “Existem setores que estão prosperando, especialmente na construção civil, e a maioria dos brasileiros que estão aqui trabalha na construção civil”.

Álvaro Lima – o brasileiro que é diretor de pesquisa da Autoridade de Redesenvolvimento – calcula que o número total de brasileiros em Massachusetts não seja superior a 200 mil. Embora afirme que as pessoas estão retornando, ele duvida que 7.000 pessoas estejam voltando ao Brasil.

“Pode até estar acontecendo, mas não sei se está ocorrendo em tal escala”, afirma Lima.

Rocha diz que as suas estimativas baseiam-se em entrevistas com a Rede de Pastores Brasileiros e as agências de viagens. Os brasileiros recém-chegados costumam procurar igrejas da área para entrarem em contato com a comunidade, e muitas vezes tornam-se membros. Os pastores conversam com brasileiros que estão pretendendo voltar ao Brasil, e sabem quando eles partiram.

Rocha diz ter feito pesquisas junto a diversas agências de viagens que atendem aos brasileiros, tendo descoberto um aumento drástico da venda das passagens só de ida, especialmente para Minas Gerais, o Estado natal da maioria dos brasileiros que vivem na região.

Alguns donos de negócios brasileiros dizem ter notado um grande número de partidas e ditam uma queda drástica da clientela, nos bairros brasileiros das comunidades de Massachusetts, onde butiques, restaurantes e outros negócios exibem orgulhosamente a bandeira brasileira nas vitrines.

Em duas joalherias no centro de Framingham, os negócios caíram acentuadamente. Geni Luz, gerente da Joyce Jewelry, diz que a loja presenciou uma queda de 40% no número de clientes no último ano, em relação ao ano anterior, porque esses clientes retornaram ao Brasil.

“Eles dizem que estão voltando porque não querem ficar aqui ilegalmente, sem carteira de motorista ou o cartão de Social Security”, afirma Luz. “Eles estavam esperando que a lei de imigração fosse aprovada, mas isso não ocorreu”.

João Freitas, dono da Vera Jewelers, diz que dezenas dos seus clientes regulares voltaram ao Brasil.

“Começamos a perceber isso no início do ano passado”, conta Freitas. “Então, quando a lei de imigração não foi aprovada, as pessoas ficaram bastante desapontadas e começaram a comprar as passagens de volta”.

Freitas diz que muitos imigrantes que estão pensando em retornar ao Brasil estão aguardando para ver como se sai a primeira onda de brasileiros que retornaram. Segundo ele, vários outros estabelecimentos, como a Brazilian Pizza e o Adrianna’s Beauty Salon, faliram porque uma grande quantidade de seus clientes partiu.

Neto, que tem visto de residência permanente, juntamente com a mulher, Elaine, 38, decidiu em novembro passado que a família retornaria ao Brasil. Elaine e a filha de 14 anos do casal já voltaram, e ele pretende partir assim que consiga juntar dinheiro suficiente para abrir um pequeno negócio no Brasil.

Neto diz que trabalha até 70 horas por semana em vários empregos, e que a sua mulher tinha uma carga de trabalho quase igual. “Esta é uma maneira terrível de viver, de criar uma filha”, queixa-se ele. “Nunca nos víamos. Na nossa terra natal, pode ser que não ganhemos tanto dinheiro, mas poderemos passar mais tempo juntos”.

The Boston Globe

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Liberdade para o topo do mundo

Encravado nas encostas do Himalaia, o Tibete sofre com a dominação de potências estrangeiras desde o século XIII. Há quase 100 anos, luta contra a supremacia chinesa sobre seu território

Charles Meyer

O país das neves eternas, abençoado pelos deuses. É assim que os tibetanos vêem sua terra natal. Situado no Himalaia, entre a China e a Índia, o Tibete entrou na história oficial apenas no início do século VII, quando se tornou um reino poderoso, que estendeu seu domínio desde a Alta Birmânia até o Turquistão. Um século depois, o budismo invadiu suas fronteiras e mudou para sempre a região. A conversão em massa acalmou os ardorosos guerreiros e grandes monastérios espalharam-se por seu território.

A partir daí, a trajetória desse pequeno reino encravado nas montanhas oscilou entre a dominação e a liberdade. No século XIII, foi conquistado pelos mongóis sob o comando de Gêngis Khan. Duzentos anos depois, livre da supremacia estrangeira, o poder passou aos dalai-lamas (ver glossário). Mas, no século XVIII, os imperadores chineses da dinastia Manchu anexaram o território tibetano e transformaram-no em província, mantendo dois ministros permanentemente encarregados de vigiar e controlar o governo local. Além disso, a China instalou lá uma força armada de 3 mil homens – mil em Lhasa, mil em Xigatse e mil nas fronteiras. O Tibete tornou-se assim um protetorado chinês, sob a autoridade de fachada do dalai-lama.

No século XIX, o país recuperou boa parte de sua independência quando a China enfrentou as intervenções armadas de potências européias e do Japão, que começaram a despedaçar o império dos Qing. No início do século XX, o problema do Tibete passou a ser a Grã-Bretanha: senhores das Índias, os ingleses desejavam o planalto tibetano, cobiçado também pelos russos engajados no Turquistão. Em 1904, a capital Lhasa foi ocupada por tropas britânicas que forçaram o governo a aceitar um tratado comercial com a Índia, já aceito pela China. O coronel Younghusband estava no comando e assim permaneceu até 1908, com uma centena de soldados britânicos e milhares de mercenários nativos, além de 10 mil carregadores e 30 mil animais de carga sob suas ordens.

Dois anos depois, um acordo anglo-chinês reconheceu a soberania da China sobre o Tibete, que imediatamente vivenciou um levante popular. Os chineses determinaram o restabelecimento da ordem a qualquer custo e designaram o comissário imperial Shao Erfeng para a missão. Com pulso de ferro, ele recebeu o apelido de “matador de lamas” depois de ter cumprido sua tarefa com precisão.

Para escapar dos ingleses e dos chineses, o 13o dalai-lama refugiou-se na Índia. Em 1911, com a proclamação da República da China, o líder voltou a Lhasa e declarou que se sentia libertado dos laços de submissão que ligavam seu país ao império deposto. Mas, em resposta, o governo de Pequim rapidamente disse que o Tibete ainda integrava seu território.

MINORIA ÉTNICA
Até 1932 a paz foi relativa. Mesmo com as querelas internas da China, entre os tibetanos não havia a impressão de que o compromisso dos dois países duraria muito. Porém, em 1927, o Tibete central foi proibido aos estrangeiros e conservou suas estruturas medievais e teocráticas durante a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) e até o fim da guerra civil entre nacionalistas e comunistas (1927 a 1949).

Nesse interím, em 1935, o 14o e atual dalai-lama foi escolhido e levado ao trono aos 6 anos, conforme a tradição. A ascensão de Mao Tse-tung em 1949 iria transformar esse quadro: em outubro de 1950, o exército chinês ocupou o país. Um acordo de “libertação pacífica” com 17 pontos, assinado em Pequim em 23 de maio de 1951, incorporou o Tibete à República Popular da China como uma “minoria étnica gozando de autonomia interna”. O texto assegurava que as autoridades centrais não modificariam o sistema político existente no Tibete, “tampouco as funções e os plenos poderes existentes do dalai-lama”. Além disso, “os funcionários das diversas categorias” permaneceriam “em seus postos”. E reafirmava a liberdade de crenças e a proteção dos monastérios, “no respeito às tradições existentes”. A Índia aprovou, o dalai-lama ratificou.

O novo regime de força instalado em Pequim, no entanto, pretendia impor sobre o Tibete o peso da autoridade, como todos os seus predecessores. Para a maioria dos tibetanos, monges ou laicos, a retomada do controle chinês ainda parecia uma espécie de fatalidade histórica e periódica, que não afetava muito sua vida cotidiana. Cinco anos depois, ficou evidente que a tutela política implicaria a integração dos tibetanos à nova sociedade comunista, para a qual ninguém os havia preparado, e a implementação de uma “modernização” que não fazia sentido para eles. A intromissão chinesa na vida econômica, social e cultural, as pressões sobre o dalai-lama e seu governo e a formação ideológica forçada da juventude também colaboraram para suscitar revoltas locais.

Em 1956, o exército cercou e bombardeou o monastério de Litang. Em 1958, os khampas, população de formação guerreira que habita a região do Khan, no leste, foram finalmente submetidos ao domínio estrangeiro, enquanto a tensão aumentava no sul. Nesse quadro de ebulição, o governo tibetano denunciou o acordo forçado de 1951 e foi imediatamente substituído por um “comitê preparatório para a região autônoma do Tibete”, que engajaria o país “na edificação do socialismo”, impondo de forma autoritária medidas incompreensíveis e insuportáveis para a maioria dos tibetanos. Mao Tse-tung reconheceu que eles “eram teimosos e não tinham nenhuma tendência a mudar suas idéias”. O alto clero budista, seguido por dezenas de milhares de monges, formou uma resistência passiva às transformações da sociedade tradicional e até à abolição da servidão.

Em 17 de março de 1959, o dalai-lama se refugiou entre os indianos, e dois dias depois, Lhasa foi tomada por uma insurreição. O levante seria derrotado em 72 horas pelo exército chinês, que bombardeou os palácios de Potala e Norbulinka. Os combates fizeram milhares de vítimas. Mais de 20 mil monges e laicos refugiaram-se na Índia e no Nepal. Chamada a responder pela “questão tibeteana”, a ONU (Organização das Nações Unidas) contornou o fato com uma resolução embaraçosa. No final de 1960, o exército chinês investiu sobre o grande monastério de Tashi Lhunpo, fundado em 1429, expulsando de lá seus 4 mil monges.

Quatro anos depois, o Tibete iniciaria uma longa agonia de 10 anos pela revolução cultural que agitava a China. Seus cultos foram proibidos e 2 mil monastérios e templos lamaístas, repletos de tesouros artísticos e grandiosas bibliotecas, foram saqueados. Os monges e os fiéis, perseguidos, tiveram de enfrentar o trabalho forçado no campo e muitos faleceram.

Em 1965, o governo central conferiu ao Tibete o estatuto de “região autônoma do Xizang” e declarou, mais uma vez, que ele seria para sempre “uma parte inalienável da China”. O termo se endereçava ao mundo chinês com o objetivo de reafirmar a unidade, e aos tibetanos, para adverti-los contra qualquer tentativa de independência.

A morte de Mao, em 9 de setembro de 1976, colocou um ponto final na revolução cultural. Entretanto, seria necessário esperar ainda cinco anos para que os dirigentes chineses tecessem um relatório dos méritos e dos erros do “Grande Timoneiro”, que “estava fora da realidade, confundindo o que era e o que não era justo…”, cujo “comportamento subjetivo e autoritário tinha se acentuado com a idade”. O governo central restabeleceria a liberdade dos cultos e da educação tradicional, restituindo aos camponeses os bens e os direitos que lhes foram confiscados. O panchen-lama, que havia passado nove anos e oito meses nos cárceres chineses, voltou às suas funções. Houve também tentativas de reaproximação com o dalai-lama e os exilados, convidados a voltar ao Tibete. Entre 1979 e 1987, cerca de 40 emissários enviados de Dharamsala – o vilarejo indiano onde o governo refugiado do Tibete está instalado –foram a Pequim, mas as negociações não resultaram num acordo.

As pequenas possibilidades de entendimento terminaram nos dias 27 de setembro e 1o de outubro de 1987, quando manifestações de jovens lamas que reclamavam a independência se transformaran em motim, reprimido com um banho de sangue. Um pouco antes, o dalai-lama havia elaborado o Plano de Paz de Cinco Pontos para o Tibete, um projeto para a pacificação da região que foi apresentado oficialmente no Congresso dos Estados Unidos. Da proposta constava a transformação de todo o Tibete em uma zona de paz; a cessação da política chinesa de transferência de população, considerada uma ameaça a existência dos tibetanos como povo; o respeito pelos direitos humanos fundamentais dos tibetanos, bem como de suas liberdades democráticas; a restauração e proteção do ambiente natural tibetano e abandono do uso de seu território para produção de armas nucleares para a China; e o início de negociações sérias sobre o futuro status do Tibete e das relações entre os povos chinês e tibetano. Porém, o governo chinês nunca deu uma resposta sobre o documento.

LEI MARCIAL
A efervescência voltaria no ano seguinte. Antes de sua morte, em janeiro de 1989, o panchen-lama enviou uma advertência ao governo central em que alertava para a dificuldade de encontrar uma solução caso a força continuasse sendo utilizada. Mas, em 5 de março, foi proclamada a lei marcial, que vigorou até 1o de maio de 1990.

Quase duas décadas se passaram e agora a situação é muito mais perversa: em vez da anexação pela força, o Tibete sofre com a pressão econômica. Há 30 anos, os chineses introduziram no país um modelo de desenvolvimento irreversível em comunicações – 21 mil km de estradas, rotas aéreas, televisão –, educação e saúde pública, o que modificou profundamente essa sociedade. Resta aos próprios tibetanos a sabedoria para conciliar a modernidade emergente e a conservação de seus valores culturais, que fazem parte do patrimônio da humanidade – sem intervenções exteriores “bem-intencionadas”.

CRONOLOGIA
127 a.C.
Ascensão da dinastia militar que reinará no Tibete por oito séculos

617 d.C.
O imperador Songtsen Gampo, 33o rei do Tibete, cria o alfabeto, estabelece o sistema legal e colabora com a expansão do budismo, construindo vários templos

755
Durante o reinado de Trisong Detsen (755 a 797), o budismo é estabelecido como religião oficial. Desenvolvem-se estudos em matemática, medicina, política, arquitetura e poesia

Século XIII
O Tibete é incorporado ao Império Mongol

1355
Nasce Tsongkhapa, um dos grandes reformadores do budismo tibetano e fundador da escola Gelug, de onde surgirão os dalai-lamas

1419
A morte de Tsongkhapa marca uma grande rivalidade entre as escolas budistas do Tibete. Segue-se então um período de lutas pelo poder entre as famílias nobres de Ü e Tsang, e a dinastia Ming (1368-1644), que reinava na China, toma territórios tibetanos nas fronteiras

1790
Guerra contra o Nepal

1904
Ingleses ocupam Lhasa e forçam o governo tibetano a aceitar o tratado comercial com a Índia. Tubten Gyatso, 13o dalai-lama parte para o refúgio e volta apenas cinco anos depois

1910
Tropas chinesas ocupam Lhasa

1937
O 14o dalai-lama é descoberto

1949
É fundada a República Popular da China

1951
O governo chinês impõe o Acordo pela Libertação Pacífica do Tibete

1959
Milhares de pessoas protestam contra a invasão chinesa. O dalai-lama foge para a Índia, onde pede asilo político

1987
O dalai-lama propõe o Plano de Paz de Cinco Pontos para o Tibete

1989
Declarada lei marcial no Tibete

1995
O menino tibetano Gedün Chökyi Nyima é reconhecido como o 11o panchen-lama. O governo chinês seqüestra Gedün por “motivos de segurança”, tornando-o o prisioneiro político mais jovem do mundo, segundo a Anistia Internacional

FONTE: COMITÊ BRASILEIRO DE APOIO AO TIBETE

MIAMAR: UM ENCONTRO COMPLEXO
Bem próximo ao Tibete, outro país vivencia a resistência pacífica dos monges budistas contra um regime autoritário: Mianmar. O território, antes conhecido como Birmânia, ganhou as páginas dos jornais no segundo semestre de 2007, quando religiosos saíram às ruas para reivindicar o fim da repressão militar que já dura duas décadas. Na ocasião, o dalai-lama divulgou uma nota em apoio aos manifestantes em que, “na qualidade de monge budista”, pedia “aos membros do regime militar que acreditam no budismo que atuassem com espírito de compaixão e não-violência”.

Os protestos começaram em repúdio ao aumento do preço dos combustíveis, imposto pelo governo. O transporte coletivo e os gêneros de primeira necesidade ficaram mais caros, o que provocou um impacto muito forte na vida cotidiana. Depois dos primeiros dias de levante, a pauta foi expandida e os manifestantes passaram a exigir a redemocratização do país. Antes disso, a última manifestação pró-democracia havia sido realizada em agosto de 1988 e foi duramente reprimida, deixando mais de 3 mil mortos. Desta vez, centenas de pessoas foram presas e feridas. Há também registros de assassinatos cometidos pelas tropas governamentais.

Os monges foram essenciais para que o levante crescesse. Em Mianmar, cerca de 90% da população é budista, e os religiosos exercem, muitas vezes, o papel de líderes comunitários. A sua influência política já é antiga, remonta à ocupação britânica no final do século XIX, quando os monges adotaram uma postura de conflito com os estrangeiros, inicialmente pela recusa deles em retirar os sapatos ao entrar nos templos budistas, sinônimo de desrespeito à religião. Além dos britânicos, os mongóis e os japoneses ocuparam o país, em uma história que esbarra na do Tibete. (Da redação)

GLOSSÁRIO
DALAI -LAMA: líder político e religioso do Tibete, é um monge formado pela escola Gelug e reconhecido por todas as escolas do budismo tibetano. “Dalai” significa oceano, em mongol, e “lama” é a palavra tibetana para mestre, guru. “Oceano de Sabedoria” é o título dado pelo regime mongoliano à Altan Khan, o terceiro dalai-lama, e agora aplicado a cada encarnação na sua linhagem. Qualificados de “preciosos soberanos”, são reconhecidos como reencarnações de Avalokistesvara, o Sábio da Compaixão. O atual e 14o dalai-lama é Tenzin Gyatso.

PANCHEN-LAMA: reencarnações de Amintabha, o Buda da Luz Infinita. No século XVII tornam-se conselheiros espirituais dos dalai-lamas.

História Viva
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Prêmio Nobel diz ter sido mais feliz quando era louco

“Cheguei a um ponto em que era mais feliz louco que são”, diz John Forbes Nash, prêmio Nobel de Economia , cientista que foi esquizofrênico e inspirou o filme “Uma Mente Brilhante”

Lluís Amiguet

Tenho 79 anos. Nasci na Virgínia Ocidental. Tenho dois filhos: estive casado, deixei de estar e agora volto a estar. As estatísticas demonstram que é melhor estar casado. Seria penoso explicar toda a minha evolução religiosa. Votar é fácil e pouco. Colaboro com a Universidade Pompeu Fabra (Barcelona). A entrevista:

La Vanguardia – Por que lhe deram o prêmio Nobel de Economia?
John Forbes Nash – Descobri uma forma de equilíbrio -hoje chamado de Nash- na teoria dos jogos: um ponto em que nenhum dos jogadores pode melhorar sua situação. Hoje esse conceito é aplicado de forma interdisciplinar.

LV – Fez essa descoberta apesar de sua enfermidade mental?
Nash – Tenho um histórico, sim, de distúrbio mental temporário que se manifestava de diversas formas. Hoje temos medicamentos que na época não existiam, que tratam os sintomas e permitem continuar com o que se considera uma vida normal, mas têm efeitos indesejáveis.

LV – Quais?
Nash – Para restituir sua normalidade, reduzem sua atividade neurológica e suas funções cognitivas. O devolvem à normalidade, sim, mas às custas de sua capacidade pessoal de raciocínio.

LV – E hoje o senhor o exerce integralmente?
Nash – Eu posso trabalhar, mas meu filho, que também sofre esse distúrbio, toma esse medicamento que não lhe permite se dedicar a nada concretamente; mas pode observar um comportamento normal.

LV – Como se manifestou esse transtorno?
Nash – Tive de ser internado em um hospital depois de vários episódios de disfunção social, e afinal melhorei, mas não pude evitar um poço de infelicidade em meu ânimo e em minha conduta.

LV – A que se refere?
Nash – Era infeliz ao me recuperar, porque a normalidade não me deixava feliz. A loucura começa quando você descobre uma segunda realidade em sua mente e às vezes a prefere, porque o faz mais feliz que a normalidade. Assim, cheguei a um ponto em que eu era mais feliz louco do que são.

LV – Mas era capaz de distinguir entre a realidade e sua ilusão?
Nash – Chega um momento em que fica difícil distingui-las e você vai escolhendo cada vez mais a ilusória. Assim se transforma em disfuncional.

LV – Disfuncional em que sentido?
Nash – É natural que um ser humano deva atuar com o resto do grupo: trabalhar, observar as normas, comportar-se como todos…

LV – Há exceções.
Nash – Correto. Suponhamos que eu não trabalhe nem seja rico e diga que ouço vozes, tenho visões e as desenho ou escrevo: o que você pensaria?

LV – Talvez sugira que poderiam interná-lo.
Nash – Suponhamos que eu lhe diga que sou um monge enclausurado. Você aceitaria que uma freira ou um monge em seu convento pode não trabalhar, ter visões e explicá-las, no entanto esse monge não será considerado anormal por isso.

LV – Certamente.
Nash – A sociedade os aceita porque, fora eles, há muitos e suficientes outros homens e mulheres que se comportam de forma normal.

LV – A maioria tem senso comum.
Nash – Falso. O senso comum não é majoritário: por exemplo, na Espanha e no Ocidente o cristianismo é a religião majoritária…

LV – Continua sendo, sim.
Nash – … mas o cristianismo exige de seus fiéis fé cega em dogmas que em caso algum poderiam ser considerados senso comum.

LV – A trindade ou a virgindade de Maria.
Nash – Hoje eu vi a obra de Gaudí: magnífica.

LV – Sem dúvida.
Nash – Apesar de não conhecer sua vida, tenho certeza de que foi considerado um anormal, um louco.

LV – Creio lembrar-me que sim.
Nash – Van Gogh também tinha problemas para discernir a realidade de suas visões. O que me pergunto é se a medicação que temos hoje teria sido capaz de devolver a normalidade a Van Gogh sem privá-lo de seu talento.

LV – …
Nash – No entanto, o progresso teria sido difícil sem as visões de Van Gogh ou o autismo de Newton. Newton também foi considerado um tipo suspeito: não se casou, era estranho…

LV – O senhor acredita que Newton precisava de medicação?
Nash – Era Newton, mas nem todos os doentes são gênios. Muitas vezes a diferença entre um louco e um gênio esteve na quantidade de dinheiro que ganhava. Van Gogh acabou se suicidando também por ser pobre, e hoje meu filho recebe um subsídio federal que eu não ganhei porque não existia. Esse subsídio é importante para evitar que um doente mental seja marginalizado por não ser rico e não trabalhar.

LV – O que o senhor achou do livro e do filme sobre sua pessoa, “Uma Mente Brilhante”?
Nash – O livro foi feito sem contar comigo, e embora a autora tenha acumulado uma quantidade de informações notável também acumulou uma quantidade notável de erros.

LV – E o filme com Russell Crowe?
Nash – Os autores foram mais cooperativos conosco. Assinamos um acordo com a Universal Studios. Isso não quer dizer que esse filme tenha muito a ver com a minha vida.

LV – Isso não pareceu importar muito a eles…
Nash – … a ninguém exceto a mim. Na realidade, tem muito pouco a ver com a minha vida. Você acredita que me pareço com Russell Crowe? Mas é um filme com valores estéticos e uma boa mensagem proativa para os doentes mentais.

LV – Em que trabalha agora?
Nash – Questiono o conceito keynesiano de inflação. Também me interessa a teoria das cordas da física teórica e suas derivações na antropologia e nas ciências sociais.

LV – Conte-nos, por favor.
Nash – Talvez o universo não seja indiferente à nossa existência: temos um instinto descobridor manifesto na colonização da América que nos levará para fora do planeta antes que ele entre em colapso.

La Vanguardia

Obama, Tocqueville e a ilusão americana

FRANCISCO DE OLIVEIRA

TOCQUEVILLE ESTÁ entre os mais reputados teóricos da democracia, e seu livro clássico sobre a democracia na América em nada se parece com os tratados enfadonhos e formais sobre a forma de governo inventada pelo gregos da época clássica. Trata-se de investigação sobre os fundamentos, eu diria, sociológicos, da democracia nos EUA; nosso Sérgio Buarque de Holanda fez, com o também clássico "Raízes do Brasil", a explicação de por que a forma democrática é quase inviável em Pindorama.
Mais de um século depois, o belicista Churchill cunhou outro paradoxo, plagiando Tocqueville: a democracia é o pior de todos os regimes, salvo todos os outros. O velho leão britânico somente aprenderia a não incentivar guerras coloniais -"remember" a Guerra dos Bôeres- depois que o nazismo ameaçou liquidar a velha Albion e submeter o mundo ocidental a uma nova idade das trevas.
Barack Obama, parece, será o indicado pelos democratas para a disputa da Casa Branca, desbancando a chata da Hillary, coisa que talvez se defina logo no próximo dia 4. Para os leitores de Tocqueville, talvez sua eleição à mansão sem estilo da avenida Pensilvânia pareça realizar os prognósticos do nobre francês. Mas aqui entra o famoso paradoxo de Tocqueville, segundo o qual a ampla democratização torna banal a participação dos cidadãos e desinteressante a democracia.
O forte absenteísmo dos próprios norte-americanos às suas eleições presidenciais confirmaria o pessimismo tocquevilleano. Em termos schmittianos, a democracia de massas é não-agônica, onde não se decide nada. Não falta ao paradoxo de Tocqueville, como é óbvio, um certo desdém aristocrático, que o autor francês disfarça todo o tempo.
Uma crítica de direita se alinharia apressadamente ao paradoxo, desqualificando imediatamente a eleição do primeiro negro à Presidência dos EUA. Uma crítica pela esquerda vê o problema de outro ângulo: o paradoxo de Tocqueville não decorre da banalização da democracia pelo predomínio das massas, mas é um produto da colonização da política pela economia. Em outras palavras, o capitalismo, em sua fase globalitária, torna inútil a política e irrelevante a participação dos cidadãos. Nos EUA, é certo que decisões como a invasão do Iraque foram até mesmo planejadas no Salão Oval, mas antes o celerado Bush filho teve que pedir permissão a Alan Greenspan, o ex-todo-poderoso presidente do Fed; aliás, esse senhor atravessou os dois mandatos de Clinton e entrou pelo mandato de Bush adentro, somente renunciando um ano e meio atrás, e os norte-americanos nunca votaram nele para coisa alguma. E o Senado norte-americano, que ratifica as indicações presidenciais, faz-lhe uma argüição que é tão contestadora quanto os programas de Silvio Santos. Isso é a colonização da política pela economia.
Entre nós, mesmo a própria democratização brasileira, de que o PT foi co-autor importante, é hoje irrelevante: em lugar da transformação prometida pelos longos anos da "invenção democrática", o PT e Lula transformaram-se em fiadores do capitalismo globalitário no Brasil. Vejam-se, como já se salientou aqui mesmo nesta Folha, os lucros do sistema bancário brasileiro e o tratamento do social: meros R$ 8 bilhões para o Bolsa Família, o ai-jesus de Lula e do lulo-petismo, e R$ 160 bilhões de juros da dívida pública interna. Ou em 2007, os R$ 20 bilhões do lucro dos quatro maiores bancos contra os R$ 21 bilhões de todo o Orçamento social de Lula (incluindo-se seguridade social, Bolsa Família et al).
Tomara que Obama desminta o paradoxo de Tocqueville; tomara que suspenda imediatamente o odioso embargo contra Cuba, aproveitando inclusive a oportunidade da retirada de Fidel da linha de frente do governo cubano; tomara que retire as tropas do Iraque, terminando de vez com esse desastre anunciado; tomara que retome a linha de um Jimmy Carter, não apoiando as ditaduras e o descarado intervencionismo gringo; tomara que inaugure uma linha próxima do New Deal rooseveltiano e detenha o empobrecimento das classes populares norteamericanas e a crescente desigualdade; tomara que um desastre como o Katrina não possa outra vez expor a olho nu a produção desapiedada da pobreza, escondida no charme da outrora francesa Nova Orleans. Tomara. Mas que é improvável, é. Ele é tão parecido com a Hillary, com seu terninho correto que faz par com o tailleur da ex-primeira-dama, quanto o PT com o PSDB. Tocqueville ri na tumba?


FRANCISCO DE OLIVEIRA, 74, é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Folha de S. Paulo

Revista Veja: O professorado e a "baboseira ideológica"

Gabriel Perissé

A edição nº 2047 (de 13/2/2008) da revista Veja dedicou um espaço considerável ao tema da educação nacional. A entrevista com a secretária estadual de Educação em São Paulo, Maria Helena Guimarães de Castro, e os artigos dos economistas Claudio de Moura Castro e Gustavo Ioschpe compõem uma espécie de concepção "vejiana" da educação.
A secretária Maria Helena enfatiza que um dos maiores problemas da deplorável situação da educação em São Paulo (leia-se, por exemplo, matéria da Folha, publicada faz um ano) é o insatisfatório nível profissional dos professores. Os professores seriam incapazes de dar boas aulas. Quando a jornalista Monica Weinberg lhe pergunta qual o caminho para melhorar esse nível, a resposta da secretária é, digamos, corajosa: "Num mundo ideal, eu fecharia todas as faculdades de pedagogia do país, até mesmo as mais conceituadas, como a da USP e a da Unicamp, e recomeçaria tudo do zero." Essas faculdades apenas perpetuariam "baboseira ideológica".
Maria Helena é socióloga, mestre em Ciência Política pela Unicamp e, segundo informações oficiais, está concluindo doutorado na USP em Ciências Sociais. Sua crítica, portanto, é de quem se sente apta a julgar como totalmente ineficazes os professores que ao longo das últimas décadas deram o tom da formação pedagógica brasileira. Pensemos nas aulas, conferências e escritos de Dermeval Saviani (Unicamp) e Antonio Joaquim Severino (USP), para mencionar, entre tantos outros, dois acadêmicos de prestígio.

O modelo da gincana
Seriam os doutores em pedagogia os principais responsáveis por fomentar vários mitos que atrapalham a educação pública. Para Maria Helena, é um mito afirmar que o aumento salarial dos professores ou um plano de carreira influenciariam a melhoria do ensino. Na sua opinião, dinheiro (para falar curto e grosso) não resolve. A menos que esteja vinculado a uma "política de reconhecimento do mérito". Por isso, a secretária pretende pagar bônus a todos os que, numa escola – funcionários, professores e diretor – "levarem" os alunos a alcançar determinadas metas de bom desempenho. Os bônus poderão chegar a três salários por ano.
Imagina Maria Helena que os professores, motivados pela perspectiva de um prêmio pecuniário, insuflados pela súbita adoção da meritocracia (como se esta existisse no plano político…), realizarão o milagre de transformar a realidade educacional. Essa metodologia do burro atrás da cenoura sussurra aos ouvidos do professor: "Quer mais dinheiro? Então trabalhe mais!" Não leva em conta os problemas reais que tornam a boa vontade e o esforço do docente, por maiores que sejam, fonte de mais estresse. Contudo, e vai aqui simplória sugestão – uma vez que os bônus estarão condicionados ao desempenho dos alunos, por que não prometer também aos estudantes uma participação? Uns 5% poderiam incentivá-los a colaborar com essa escola de resultados!
A idéia simplista de que a repetência, o abandono escolar (vale a pena ler matéria do Correio Braziliense), o desinteresse crônico, a indisciplina, o fraco rendimento etc. devem-se sobretudo à falta de bons "dadores de aula" demonstra que o estilo "PSDB" de governar não tem condições de analisar a realidade educacional e oferecer soluções melhores do que o modelo da gincana. Quem correr mais, quem tiver sorte e/ou for mais criativo, atinge os objetivos, ganha pontos e arrebata o prêmio.

Formação humanística
Não poucos alunos enfrentam problemas fora da escola (famílias desestruturadas, ambiente social adverso, falta de valores, de referências, carências alimentares e de saúde) e esses problemas geram novas e complexas dificuldades na sala de aula, associadas a outros mil problemas que independem de uma boa aula. Aliás, impedem a boa aula que o bom professor porventura preparou. Como poderá a cenoura bonificadora fazer professores e diretores deterem o tráfico de drogas que invade as escolas, consertarem móveis quebrados, reformarem os banheiros, transformarem salas sem ventilação em paraísos didáticos, evitarem a violência entre os alunos?
Há professores despreparados? Há. Escolheram o magistério por idealismo (acreditaram na pedagogia do amor à la Gabriel Chalita, ex-secretário da Educação no tempo de Geraldo Alckmin) ou por falta de alternativas. São sobreviventes de um ensino básico sofrível, de um ensino médio deficiente, falta-lhes até mesmo estrutura física e emocional para dar conta da sobrecarga de classes, expediente necessário na luta por somar salários.
Há professores que faltam muito? Sim. Os que faltam, não raro, fogem das condições de trabalho: indisciplina incontrolável, humilhações e arbitrariedades que usurpam sua autonomia, falta de recursos materiais, falta de tempo e de saúde por excesso de atividades. Lembrando que a maioria feminina entre os docentes põe em jogo outra questão para além da sala de aula. São as mulheres que, professoras com 30 a 40 horas/aula por semana, estão sobrecarregadas também pelas tarefas domésticas.
E não só isso. Educar, ensinar, é tão ou mais exigente do que outras exigentes profissões. Requer a prática da comunicação, o dom da invenção, a capacidade de avaliar (intuitiva e objetivamente) o comportamento humano (de crianças e adolescentes!), forte autonomia profissional, virtudes que só se desenvolvem com formação humanística prévia e auto-aprendizagem contínua. Estas, por sua vez, implicam leitura, reflexão, acesso à cultura no sentido amplo, apoio profissional (bons cursos, boas oficinas, orientação didática, ajuda psicológica) e tranqüilidade econômica.

Salário não é tudo, mas…
Como uma espécie de comprovação das opiniões da secretária, Claudio de Moura Castro escreve na mesma edição da Veja um artigo igualmente curto e grosso: "Salário de professor". Baseado em que, segundo as sempre infalíveis estatísticas, os docentes brasileiros possuem remuneração compatível com a realidade empregatícia nacional, o articulista conclui que os sistemas públicos se tornariam mais eficazes se "conseguissem criar um ambiente mais positivo e estimulante". O exemplo estaria nas escolas privadas, em que os professores, com "níveis salariais parecidos", estão contentes.
O mais estimulante seria então a tal cenoura tentadora do bônus? Moura Castro não afirma nem nega. Menciona outro tema: o da gestão. "Como a escola tem a cara do diretor", dependeria então desse gerente do ensino, digamos assim, valorizar os professores, motivá-los, com bônus ou sem bônus. Mas se, na prática, os diretores são indicados pelo clientelismo dos governos locais ou, mediante concurso, estão politicamente compromissados de modo mais ou menos velado com estes mesmos governos, a escola desse diretor dificilmente terá a cara dos professores nem dos alunos que lá estão.
A propósito, recomendo que economistas e sociólogos que se autoproclamam especialistas em educação leiam outro uspiano (antes de se fecharem as faculdades de Educação): o pesquisador Vitor Henrique Paro, sobre a eleição de diretores em escola pública como experiência democrática de grande valor.
Nenhuma palavra da secretária e do articulista sobre a iniciativa do governo federal de estipular o salário mínimo dos professores em 850 reais, o que significará um aumento de quase 50%. Não concordam eles com o ministro Fernando Haddad? Salário, concordo eu com eles, não é tudo, mas, sem cuidar dos salários, tornando-os, inclusive, atrativos para melhores profissionais, o governo poderá jogar no sistema o dinheiro que bem quiser (contratar consultorias, investir em computadores, instalar câmeras para monitorar os alunos etc.), mas os problemas continuarão a se perpetuar.

Finlândia, o paradigma
O terceiro capítulo educacional dessa edição da Veja é assinado por Gustavo Ioschpe: "Pelo direito à ruindade". Gustavo critica o MEC pela iniciativa, que considera "antiliberal", de averiguar melhor a qualidade do ensino superior (em particular as faculdades de direito e pedagogia), sob pena de fazer reduzir a oferta de vagas ou mesmo fechar o curso. Ora, não dissera a secretária de Educação que, se fosse possível, fecharia todas as faculdades de pedagogia, mesmo as que têm a melhor avaliação? Não são essas faculdades que prejudicam a escola, transmitindo baboseiras ideológicas em lugar de ensinar os professores a serem professores?
A contradição é só aparente. No momento em que as faculdades de pedagogia estivessem todas fechadas, sobretudo as públicas, mais críticas, menos dóceis ao mando, tudo recomeçaria do zero. Ou ficaria tudo na estaca zero. Quem quisesse abrir fábricas de diplomas pedagógicos teria amplo direito de fazê-lo, sem maiores impedimentos ou muitas cobranças, como em outros tempos, e os professores formados nessas faculdades teriam o dever de superar sua posterior "ruindade", rezando pela cartilha da "pedagogia do bônus".
Estaria assim o mercado controlando as coisas ao seu modo: o famoso "salve-se quem puder".
Mas o espírito "vejiano" continua a dar lições sobre a arte de lecionar… Na edição desta semana (nº 2048, de 20/2/2008), a revista Veja publica a matéria "A melhor escola do mundo". Thomas Favoro, diretamente da Finlândia (país com características idênticas às do Brasil), revela o que podemos aprender em termos educacionais.
No quesito "salário", os professores finlandeses, infinitamente melhores do que nós, recebem cerca de 2.500 dólares/mês; nós embolsamos algo em torno de mil dólares/mês. Esclarece a matéria, em letras minúsculas, que se trata de professores do ensino fundamental com 15 anos de experiência.
Segundo o texto, e deve ser verdade, 100% dos professores finlandeses possuem o mestrado. Já no Brasil, somente 2%. Mas se depender da gestão do governador José Serra, essa disparidade continuará. Em meados do mês de janeiro de 2008, suspendeu-se o programa "Bolsa Mestrado" para os professores estaduais. O intuito deve ser viabilizar o tal bônus que aí vem!

Observatório da Imprensa

Capital, propriedade e gestão

Há mais de um século, o capitalismo separou os proprietários jurídicos dos meios de produção de quem os administra. Diversos autores dedicaram-se ao estudo dessa cisão

Gérard Duménil, Jacqes Bidet

Jürgen Habermas estabelece uma relação entre dois “subsistemas”, um do mercado e do dinheiro (a economia), outro da administração e do poder (a política). Ele retoma assim uma divisão bastante tradicional do campo social, que, ao definir a economia pelo mercado, acaba por favorecer o liberalismo. Em seu esquema das classes dominantes, Pierre Bourdieu distingue dois grupos mais ou menos antagônicos: um mais bem dotado de capital econômico e o outro de “capital cultural”, de “competência”. Ele não relaciona esta especificamente às relações de produção, mas ressalta seu caráter socialmente arbitrário e seu papel na reprodução do sistema de classes. A referência a um capital cultural evoca vários trabalhos que utilizam o conceito de intelligentsia para definir a classe dominante no “socialismo real”. Mas Moshe Lewin demonstrou que, na União Soviética, as relações de classe se articulavam primordialmente a partir das hierarquias dos grupos diretivos.

No início do século 20, nos Estados Unidos, a separação entre a propriedade e a gestão das empresas suscitou inquietação nos proprietários, ameaçados de perder o controle do sistema produtivo. A partir de então, desenvolveram-se as teses relativas ao “capitalismo gerencial” ou capitalismo dos gerentes (ver a obra de síntese de Alfred Chandler, The Visible Hand, de 1977, uma alusão à “mão invisível do mercado” de Adam Smith, à qual Chandler opõe a decisão consciente do gerente). Essas teses tiveram seu auge nos anos 60, especialmente nos trabalhos de John Kenneth Galbraith relativos à “tecnoestrutura”, quando o compromisso social-democrata parecia reinar na gestão das empresas, nas políticas econômicas e nas práticas culturais. Ainda que as funções gerenciais não tenham deixado de ser reforçadas, inclusive no setor financeiro, a nova ascendência dos capitalistas no neoliberalismo provocou o declínio dessas teorias.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

A crise financeira internacional e a vulnerabilidade externa da economia brasileira

Entrevista Especial com Luiz Filgueiras

Antes mesmo de o presidente Lula ser eleito, em 2003, o economista e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Luiz Filgueiras já lançava severas críticas ao antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Mudou o governo, mas permaneceu o modelo econômico, embora o discurso do governo seja outro, comenta o pesquisador. Os índices de crescimento que estão sendo apresentados na gestão de Lula, afirma Filgueiras, são conseqüências de “uma fase ascendente do ciclo econômico internacional, que afetou positivamente todos os países do planeta e, em especial, os da periferia do capitalismo”. Entretanto, ele alerta que o “crescimento por si mesmo não é condição suficiente para permitir uma melhora na distribuição de renda, embora possibilite uma redução da pobreza”

Em entrevista à IHU On-Line, realizada por e-mail, o economista comentou os possíveis impactos de a crise imobiliária americana atingir o Brasil. Sobre esse cenário, que assusta alguns e não preocupa outros, o economista se demonstra pessimista. Para ele, a potencialidade dessa crise sobre a economia brasileira tem duas portas de entrada: financeira e comercial. Em ambos os casos, “a vulnerabilidade externa da economia brasileira voltará a se manifestar, com impactos sobre as trajetórias da inflação da dívida pública; o que restringirá a capacidade de crescimento a partir do mercado interno”.

Critico ferrenho do governo federal, Luiz Filgueiras é autor, juntamente com Reinaldo Gonçalves, do livro A política econômica do governo Lula. Na entrevista a seguir, o economista questiona temas debatidos na obra e avalia as opções do governo na política econômica e social. 

Graduado em Ciências Econômicas, pela Universidade Federal da Bahia, Luiz Filgueiras concluiu, na mesma universidade, o mestrado em Economia. Durante o doutorado em Ciências Econômicas, realizado na Unicamp, Filgueiras pesquisou propostas de política econômica para a agricultura brasileira. Atualmente, ele leciona no curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde também desenvolve pesquisas no Departamento de Economia Aplicada.

Eis a entrevista.

IHU On-Line – Por que o senhor é tão pessimista no que se refere à política econômica e social do governo atual? Há algo de positivo, na sua avaliação, que possa ser destacado?

Luiz Filgueiras – A minha visão crítica da política econômica e social do governo Lula é anterior ao início desse governo em 2003, pelo simples fato de que ela é, no fundamental, a continuação da política econômica do segundo governo de FHC (1999-2002): elevados superávits fiscais primários – tendo a DRU (Desvinculação de Receitas da União) como o seu instrumento principal -; metas de inflação – perseguidas com a manutenção de altas taxas de juros -; e câmbio flutuante, com a liberalização da conta de capitais do balanço de pagamentos. Essa foi a estratégia adotada, após a crise cambial de 1999, para a manutenção do que eu denomino de Modelo Econômico Liberal Periférico (abertura comercial e financeira, privatizações e desregulação do mercado de trabalho), quando ficou evidente a impossibilidade de continuação da chamada âncora cambial, tendo em vista a elevada vulnerabilidade externa da economia brasileira. A análise e a crítica desse modelo, bem como de suas políticas econômicas, já era feita no meu livro História do Plano Real (Editora Boitempo: 2000, 2003 e 2006).

Governo Lula. Uma continuidade de FHC?

O aparente paradoxo, agora, é o fato de que a mesma política econômica, do mesmo modelo econômico, apresenta resultados macroeconômicos menos decepcionantes a partir de 2003, levando a uma redução da vulnerabilidade externa conjuntural do país – o que abriu espaço para taxas de crescimento econômico um pouco maiores. A resposta cabal é de que isto se deveu a uma fase ascendente do ciclo econômico internacional, que afetou positivamente todos os países do planeta e, em especial, os da periferia do capitalismo. Portanto, a conjuntura internacional benigna é a variável-chave para se entender o que está acontecendo com esses países, inclusive o Brasil. No entanto, a crítica a esse modelo e às suas políticas econômicas tem perdido espaço no debate econômico mais recente, pois o pequeno ciclo de crescimento de curto prazo tem propiciado uma grande euforia, como é próprio dos tempos atuais de hegemonia do capital financeiro, onde o que vale, o que conta e o que é relevante é o aqui e o agora.     

IHU On-Line – No livro A política econômica do governo Lula, fala-se em mistificação da história brasileira. Como essa mistificação se apresenta e se relaciona na política econômica e social do atual governo?

Luiz Filgueiras – A mistificação se expressa de quatro maneiras: 1- Em virtude de o atual governo apresentar a sua política econômica como sendo fundamentalmente distinta do governo anterior, aproveitando-se da conjuntura econômica mainternacional favorável, que tem possibilitado resultados macroeconômicos de curto prazo marginalmente melhores; 2- Em razão de apresentar esses resultados como sendo um novo ciclo de crescimento econômico de maior fôlego, comparando-o com o período de Juscelino e também com o período do chamado “milagre brasileiro”; 3- E, como corolário das duas anteriores, em virtude de se apresentar essa situação como um dos melhores períodos macroeconômicos da história do país, o que não é, de forma alguma, verdadeiro. E isto é repetido, sistematicamente, na forma de “nunca na história desse país…”; 4- Por fim, em razão de se apresentar uma política social focalizada (Bolsa Família), originariamente gestada no interior do Banco Mundial e já aplicada também pelo governo anterior, como sendo a solução para a distribuição de renda no Brasil. Em particular, apresenta-se uma melhora extremamente marginal na distribuição dos rendimentos do trabalho (distribuição pessoal ou familiar da renda) como sendo uma melhora na distribuição da renda em geral. O que também não é verdadeiro; ao contrário, a distribuição funcional da renda (capital X trabalho) só tem piorado contra o trabalho.

IHU On-Line – O senhor percebeu mudanças no mercado internacional e na política econômica do país, no governo Lula? Ainda carregamos muitas heranças da época de FHC?

Luiz Filgueiras – No seu início (primeiro ano), o governo Lula utilizou-se do slogan “herança maldita” da era FHC para justificar a manutenção do mesmo modelo econômico e da mesma política econômica. Afirmava-se, então, que isto seria passageiro e que logo que a situação melhorasse haveria uma outra orientação. No entanto, um novo ciclo econômico mundial iniciou-se em 2003, o que ficou evidente a partir de 2004. Com isso, rapidamente esse discurso foi substituído pela comparação da melhor performance macroeconômica atual com a do período anterior, justificando esse fato como sendo produto de uma nova política econômica. Em suma, a ênfase voltou-se então para a afirmação de que, apesar da “herança maldita” o governo Lula conseguiu reorientar os rumos do país. Na realidade, o governo Lula ratificou e reproduziu essa herança numa outra conjuntura internacional, o que tem levado, lamentavelmente, a certa legitimação do modelo e da política econômica. Este processo só pode ser devidamente compreendido se entendermos o processo de transformismo político pelo qual passou o PT a partir dos anos 1990, quando se iniciou, com o governo Collor, a Era Neoliberal no Brasil

IHU On-Line – A recessão econômica devido a crise imobiliária nos Estados Unidos, poderá deixar a economia interna brasileira mais vulnerável? E no mercado externo as conseqüências serão mais drásticas?

Luiz Filgueiras – Os eventuais impactos da atual crise sobre a economia brasileira têm, potencialmente, duas portas de entrada. A primeira é o mercado financeiro, através da livre mobilidade dos fluxos de capitais, com a compra e venda de ações e títulos da dívida pública do estado brasileiro. Nesta porta, os impactos são imediatos e já se fizeram sentir, ainda que longe dos efeitos provocados pelas crises anteriores: caiu a bolsa, subiu o risco Brasil e desvalorizou-se o câmbio; em razão da venda de papéis brasileiros (ações, títulos públicos e outros papéis de empresas) pelos fundos de investimentos, para compensar as perdas no mercado americano. Além disso, o impacto da crise também se manifestou na política monetária, com a decisão da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) de manter a atual taxa de juros e sinalizar para a sua manutenção até o final do ano, ou mesmo a sua elevação. De outro lado, em uma situação de acirramento da crise global, e na ausência de controle dos fluxos de capitais, uma fuga de capitais de grandes proporções será inevitável, em que pese a melhor situação atual do balanço de pagamentos do país, que permitiu, até agora, a redução da dívida externa e um acúmulo de reservas da ordem de US$ 185 bilhões – o que implicou a redução conjuntural da vulnerabilidade externa.

A motivação dessa fuga não dependerá do chamado “fundamentos da economia”: controle da inflação e trajetória da dívida pública, entre outros. A razão maior se situará, como das outras vezes, na própria dinâmica da especulação financeira, isto é, haverá uma busca por maior segurança através da aquisição de títulos do governo americano. A segunda porta de entrada da crise é o comércio internacional, caso a crise persista e se aprofunde. Neste caso, os impactos no balanço de pagamentos serão de médio e longo prazos, através da queda dos preços internacionais das commodities (agrícolas e industriais), que representam parte majoritária da pauta de exportações do país. Em ambos os casos, pelas portas financeira e comercial, a vulnerabilidade externa da economia brasileira voltará a se manifestar, com impactos sobre as trajetórias da inflação e da dívida pública; o que restringirá a capacidade de crescimento a partir do mercado interno. 

Adicionalmente, o custo do financiamento para empresas e o governo aumentará. De qualquer forma, mesmo que a crise retroceda a partir do atual ponto em que se encontra – o que não é nem um pouco evidente -, não há a menor possibilidade de que a mesma se restrinja apenas a perdas nos mercados financeiros, penalizando exclusivamente os seus participantes. A separação, postulada pela teoria econômica ortodoxa, entre os mercados financeiros e a economia real é, rigorosamente, inexistente; sendo produto de uma concepção equivocada sobre a moeda. Esta última é tão real quanto qualquer outra mercadoria, com a diferença crucial de que a sua demanda (preferência pela liquidez) tem poder de provocar estragos enormes no conjunto da economia, no curto e no longo prazo.

IHU On-Line – Os países da América Latina podem estar mais suscetíveis a crise internacional? Nesse contexto, qual a situação do Brasil em relação aos visinhos latino-americano?

Luiz Filgueiras – Todos os países, em particular os países periféricos, estão sendo afetados e, no futuro, serão afetados mais ainda caso a crise global se aprofunde. Entretanto, o grau de “sofrimento” de cada um deles, agora e no futuro, dependerá de suas respectivas inserções internacionais (comercial e financeira) e de suas políticas econômicas. Aqueles com menores restrições ao movimento dos fluxos de capitais e dependentes de uma pauta de exportação calcada, sobretudo, em commodities e produtos com baixa intensidade tecnológica, baixo valor agregado e com pouca dinâmica no comércio internacional, tendem agora, e tenderão no futuro, a sentirem mais os efeitos da crise – quer ela estanque nas próximas semanas, quer ela venha a se aprofundar.

Brasil retardará crescimento?

No caso do Brasil, dada a problemática inserção comercial-financeira do país na economia internacional – com uma grande dependência das exportações de commodities e livre mobilidade dos fluxos financeiros -, a eventual continuação e aprofundamento da crise comprometerão seriamente a continuação da retomada do crescimento. E isto será mais verdadeiro ainda, se a resposta à crise for a manutenção da mesma política econômica implementada até agora, pois isto implicará, como é de praxe em seu receituário, a retomada do aumento da taxa de juros e o aumento do superávit fiscal primário, isto é, mais aperto fiscal e monetário.  A alternativa a essa política, é o controle dos fluxos de capitais, no curto prazo, e a reconfiguração da pauta de exportações do país, no médio e longo prazos, em direção a produtos com maior intensidade tecnológica, maior valor agregado e com maior dinamismo no mercado internacional.

IHU On-Line – A equação econômica do governo apresenta uma política fiscal em que se aumenta a receita, corta-se gastos e mantêm-se os juros altos. Essa lógica será valida para pagar a dívida pública brasileira? Essas medidas conseguiram remover as principais restrições de crescimento econômico do país?

Luiz Filgueiras – A dívida pública subdivide-se em externa e interna. No governo Lula, a relação da dívida total com o PIB tem caído graças, mais uma vez, ao cenário internacional, que até o ano passado permitiu uma redução das taxas de juros, além de propiciar um maior crescimento do PIB. No entanto, isto se deve à redução, absoluta e relativa, da dívida pública líquida externa, porque a dívida interna cresceu sistematicamente, tanto de forma absoluta quanto como proporção do PIB. Isto vem acontecendo porque, com a atual política, está havendo uma troca de dívida externa (com prazos maiores e menores taxas de juros) por dívida interna (com prazos menores e maiores taxas de juros), em razão do volume de dólares que tem entrado no país. Isto significa dizer que se a crise mundial se aprofundar poderá haver um enorme salto na dívida pública interna e, por extensão, no total da dívida pública. Isto ocorrerá em razão do aumento da taxa de juros e da redução da taxa de crescimento do PIB, com a conseqüente redução da receita tributária.

IHU On-Line – Avaliando os últimos governos, como o senhor percebe a distribuição de renda no Brasil, levando em consideração que no ano passado, o desemprego foi considerado o menor nos últimos cinco anos, atingido 9,3%? O rendimento dos trabalhadores ainda continua baixo e a distribuição de renda desigual? Isso lhe parece uma contradição?

Luiz Filgueiras – A redução da taxa de desemprego é conseqüência direta de um maior crescimento econômico em relação ao período anterior. Como já mencionado, crescimento este associado direta e indiretamente à conjuntura internacional extremamente favorável a partir de 2003. Entretanto, o crescimento por si mesmo não é condição suficiente para permitir uma melhora na distribuição de renda, embora possibilite uma redução na pobreza. Para se avançar de fato em direção à desconcentração da renda teriam que ser tomadas medidas de caráter estrutural, como: 1- Reforma tributária, com taxação da propriedade e da renda de forma progressiva; 2- Realizar uma reforma agrária verdadeira; 3- Reformar e regular efetivamente o sistema financeiro; 4- Implementar uma política de salário mínimo de longo prazo, que garanta de fato o seu aumento real; e 5- Mudar a política econômica que transfere riqueza para os rentistas do estado e da sociedade.

IHU On-Line – Qual é a sua avaliação dos programas de incentivos propostos pelo governo? Alguns especialistas afirmam que o Bolsa Família foi responsável por cerca de 40% da redução da desigualdade social. Qual será a conseqüência desse tipo de assistência, a longo prazo?

Luiz Filgueiras – A distribuição pessoal/familiar da renda (que abarca fundamentalmente os rendimentos do trabalho) melhorou marginalmente. Isto se deveu, sobretudo, ao crescimento do salário mínimo que serve de base para os reajustes dos benefícios da previdência e da assistência social (que se referem à política social de estado, e não de governo como é o caso do Bolsa Família). Esse último programa é claramente assistencialista, não propiciando qualquer alternativa de saída aos seus beneficiários, que se tornam dependentes, permanecendo na condição de uma espécie de sub-cidadania. Mas esse foi o caminho escolhido pelo governo Lula, em vez de alterar, mesmo que gradativamente, as condições estruturais do alto grau de concentração de renda no país. Em suma, optou-se por uma política compensatória que funcionaliza a pobreza, que “alivia” (expressão do Banco Mundial) momentaneamente a pobreza, mas não acaba com ela.

IHU On-Line – Lula disse que, nesse ano, uma das prioridades de seu governo, será a reforma tributária. Que mudanças o senhor considera necessárias nesse cenário?

Luiz Filgueiras – Quando Lula e o grande capital falam da necessidade de uma reforma tributária estão se referindo, em geral, a uma maior racionalização e eficiência do sistema tributário e à desoneração do capital. O fundamental, que é a construção de um sistema tributário justo socialmente – o que implicaria taxação progressiva da propriedade e da renda, das grandes fortunas e das heranças -, não é nem de longe considerado. E isto sem falar na questão do pacto federativo, que exigiria uma nova relação entre as diversas instâncias de governo.

IHU On-Line – Durante o mandato, Lula reiterou varias vezes que "em time que está ganhando não se muda". Entretanto, no ano passado, vários críticos do governo como Marcio Pochmann, João Sicsu e Coutinho passaram a integrar "um novo time". Como o senhor avalia o ingresso desses desenvolvimentistas no segundo mandato de Lula?

Luiz Filgueiras – Esse “novo time” é produto, antes de tudo, do quadro macroeconômico mais favorável que, como já visto, foi resultado fundamentalmente da conjuntura internacional extremamente favorável que tem permitido uma maior folga para a operacionalização da política econômica ortodoxa. De qualquer forma, independentemente da reconhecida competência desses economistas e de suas concepções político-econômicas progressistas, o fato é que o núcleo duro da política econômica continua preservado. Na verdade, o discurso desenvolvimentista do governo acaba sendo mais retórico e também é produto da conjuntura, além de ser uma pequena concessão política à frações mais progressistas da aliança que sustenta o governo .

IHU On-Line – Como o senhor avalia a posição do governo frente à insistência na transposição do rio São Francisco? Lula e os movimentos sociais estão cada vez mais distantes?

Luiz Filgueiras – Não tenho conhecimentos técnicos para defender ou atacar a transposição. No entanto, é evidente que todos os movimentos sociais envolvidos com a problemática, e com atuação na região, se posicionaram contra e foram “olimpicamente” ignorados pelo governo. Mas, em razão do cenário econômico mais favorável, até 2007, com redução das taxas de desemprego, e da política assistencialista do Bolsa Família, a popularidade de Lula continua elevadíssima. E isto apesar da política econômica ortodoxa, da não realização da reforma agrária, da liberalização dos transgênicos, da reforma da previdência do funcionalismo público etc. Para isto, é fundamental também o fato das direções sindicais e mesmo da maioria dos movimentos sociais serem ligadas, direta ou indiretamente, ao PT e ao governo Lula – o que tem reduzido a disposição de luta dessas organizações populares. Por outro lado, com o Bolsa Família, Lula fincou as bases para a consolidação do “Lulismo”, a partir de uma espécie de populismo regressivo, que não integra ao mercado de trabalho (como era o de Getúlio Vargas).

IHU On-Line – A política do governo atual, ainda pode ser considerada de esquerda?

Luiz Filgueiras – Por tudo que já disse até aqui é evidente que a política econômica do governo, e o próprio governo Lula, não podem ser identificados, nem de longe como sendo de esquerda. Aliás, figuras importantes do grande capital percebem e verbalizam isto constantemente, ao elogiarem o governo e a sua política econômica, como, por exemplo, em entrevistas dadas recentemente pelos dirigentes maiores do Grupo Itaú e do Grupo Odebrecht.

IHU On-Line – Quais seriam os novos pilares para mudar e construir uma política econômica eficiente?

Luiz Filgueiras – A eficiência de uma política econômica não pode ser pensada apenas do ponto de vista técnico. A atual política econômica tem sido eficiente, sobretudo, para os rentistas e o agronegócio. Por isso, antes de tudo tem que se fazer a seguinte pergunta: eficiência para quem, resultados para quem? Além disso, toda política econômica é expressão de um certo arranjo político, da hegemonia de certas classes e frações de classe. Por isso, não se pode pensar uma alternativa à atual política econômica sem pensar na necessidade de se re-configurar o bloco de poder dominante no país. E isto não é nem um pouco fácil ou trivial. Medidas como controle do fluxo de capitais (com a regulação da conta de capitais do balanço de pagamentos), redução do superávit fiscal primário (com a retomada efetiva dos investimentos pelo estado), administração da taxa de câmbio (tornando-a competitiva para produção de bens de elevado conteúdo tecnológico), reforma e regulação do sistema financeiro (com taxação de seus lucros extraordinariamente elevados), reforma agrária efetiva (com o apoio através do crédito e da adoção de novas tecnologias) etc. contrariam direta e indiretamente o capital financeiro e o agronegócio, os dois principais pilares do bloco de poder dominante. A questão, portanto, está na dificuldade de se conseguir a reconfiguração política do bloco de poder dominante, numa conjuntura de fracionamento da esquerda e de desmobilização dos movimentos sociais. Basta ver que o principal protesto contra a transposição do rio São Francisco se resumiu a uma atitude individual de um bispo, com a sociedade praticamente assistindo passivamente o desenrolar da situação.

IHU

Vidas de pobreza aflitiva, intocadas pelo ‘boom’ econômico da China

Recente estudo do Banco Mundial sugere que ainda há 300 milhões de pobres na China, três vezes mais do que o banco estimava anteriormente

Howard W. French

Quando adoece, Li Enlan, 78 anos, colhe ervas que crescem na mata perto dali em vez de comprar medicamentos modernos. Mas não se trata de uma opção filosófica. Ele nunca viu um médico e, como muitos moradores desta área, vive em uma magra economia de troca, raramente entrando em contato com dinheiro. “De alguma forma comemos, mas nunca é suficiente”, disse Li. “Mas pelo menos nunca passamos fome.”

Nesta região ao sul da província de Henan, em uma aldeia atrás da outra, as pessoas são pobres demais para aquecerem suas casas no inverno e muitas carecem de confortos básicos como água corrente. Celulares, um símbolo quase ubíquo da mobilidade para o alto em grande parte do país, são vistos como um luxo impossível. As pessoas aqui freqüentemente começam conversas com uma frase que ainda não é incomum na China atual: “Nós somos pobres”.

A China retirou mais pessoas da pobreza do que qualquer outro país nas últimas décadas, mas a persistência da destituição em lugares como o sul da província de Henan se encaixa nos resultados de um recente estudo do Banco Mundial, que sugere que ainda há 300 milhões de pobres na China -três vezes mais do que o banco estimava anteriormente.

A pobreza é mais severa nas margens geográficas e sociais da China, sejam as áreas montanhosas ou desérticas que envolvem o país ou as áreas dominadas por minorias étnicas, que por motivos culturais e históricos se beneficiaram bem menos do que as demais com a longa ascensão econômica do país.

Mas também persiste em locais como Henan, onde as densidades populacionais estão entre as maiores da China, e para onde a nova riqueza da costa acena, quase zombeteiramente, a uma mera província de distância.

“Henan possui a maior população de qualquer província, próximo de 100 milhões de pessoas, e a terra ali não consegue sustentar estes números”, disse Albert Keidel, um associado sênior do Fundo Carnegie para a Paz Internacional e um especialista em pobreza chinesa. “Deveria ser uma rica fornecedora de alimentos, mas sempre houve grande discriminação contra áreas baseadas em grãos na China. O lucro obtido por um hectare de terra com hortifrutis, ou com criação de peixes ou produção de óleos, é muito maior.”

Outros especialistas dizem que Henan e outras partes densamente povoadas do interior chinês freqüentemente são excluídas do apoio financeiro dado às áreas costeiras, e que as poucas medidas antipobreza existentes surtem pouco efeito. Geralmente, a população destas áreas diz que as autoridades locais corruptas se apropriam do dinheiro destinado a ela, que as autoridades embolsam as quantias ou as desviam para investimentos em negócios.

Paradoxalmente, dizem os moradores, eles são ignorados precisamente devido à sua proximidade dos grandes centros econômicos do leste, forçados a se virarem sozinhos com base na teoria de que podem sobreviver com a renda enviada para casa pelos trabalhadores migrantes e outras formas de escoamento de riqueza.

“A política anterior de alívio da pobreza se concentrou mais no oeste da China, em locais como Gansu, Qinghai ou Guizhou, que eram mais pobres”, disse Wang Xiaolu, vice-diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Econômica, uma organização não-governamental em Pequim. “Além disso, a situação nas regiões de fronteira é mais complicada, porque quando as coisas vão mal ali, se torna mais do que um problema de pobreza. Este é o motivo das políticas se voltarem para elas.”

Aqui no condado rural de Gushi, em Henan, apenas 73 mil dos 1,4 milhão de agricultores se encontram abaixo da linha oficial de pobreza de US$ 94 por ano, que supostamente são suficientes para cobrir as necessidades básicas, incluindo a manutenção de uma dieta diária de 2 mil calorias.

“Nós devemos ter em mente que este é um padrão de pobreza muito baixo”, disse Wang, repetindo o ponto de vista de muitos economistas chineses.

Muito mais pessoas nesta parte de Henan subsistem entre a linha oficial de pobreza e o padrão de US$ 1 por dia há muito usado pelo Banco Mundial. No mês passado, a estimativa do Banco Mundial do número de pessoas pobres na China triplicou, de 100 milhões para 300 milhões, após uma nova pesquisa de preços ter alterado o quadro do que um dólar pode comprar.

O novo padrão foi estabelecido segundo o que os economistas chamam de paridade de poder aquisitivo. Segundo os novos cálculos, as estimativas do tamanho geral da economia chinesa também encolheram em 40%.

Dado o tamanho imenso da população da China, mesmo uma pequena mudança na definição de pobreza pode produzir estimativas enormemente diferentes.

“A diferença entre uma renda de US$ 1 e US$ 2 por dia é um número imenso de pessoas, digamos 450 milhões”, disse Khalid Malik, um representante local do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, em Pequim.

“Somos terrivelmente pobres”

Os camponeses aqui são os primeiros a dizer a um visitante que independente de quais sejam as estatísticas, eles permanecem atolados em pobreza profunda. Os aldeões por todo este condado dizem que várias medidas recentes e altamente divulgadas do governo central para reduzir o fardo dos camponeses resultaram apenas em um efeito modesto sobre suas vidas. Elas incluem a abolição dos impostos agrícolas para os camponeses, o cancelamento da taxa de ensino para seus filhos e novos planos de aposentadoria e saúde que parecem no papel mais generosos para os pobres rurais.

Como a maioria dos camponeses aqui mantém apenas contato de vislumbre com a economia de dinheiro, a isenção de impostos é altamente irrelevante.

Mesmo com a abolição das despesas com a taxa de ensino, eles ainda são apertados por uma proliferação de outras taxas escolares. De forma semelhante, outros disseram, as taxas de participação e deduções concedidas aos planos de aposentadoria e saúde rurais estão fora de seu alcance financeiro.

“Nós somos terrivelmente pobres”, disse Zhou Zhiwen, uma mulher de 55 anos em Yangmiao, cuja casa de tijolos a coloca em melhor condição do que a maioria das pessoas, que ainda vivem de estruturas feitas de terra. “Nós cultivamos o suficiente apenas para nos alimentarmos, sem nenhum ganho adicional. Nós não temos mais que pagar a taxa de grãos, mas nossas vidas não melhoraram muito.”

Ao ser perguntada como se virava, Zhou disse que ocasionalmente recebe ajuda de parentes que migraram para outros locais em busca de trabalho. “Se as pessoas vivessem bem em casa, quem ia querer migrar”, ela disse. “Todos os nossos jovens estão trabalhando em outros lugares.”

Para muitos aldeões, o governo central está fora de contato com as realidades rurais em lugares como este, e o governo local está cheio de autoridades mercenárias que empregam o dinheiro destinado aos pobres rurais em obras nas cidades provinciais ou simplesmente embolsam o dinheiro.

“As pessoas comuns não recebem quaisquer benefícios reais dos programas de alívio da pobreza”, disse Li Guangyi, 35 anos, um agricultor que vive na aldeia de Zhangyoufang. “Como o dinheiro de ajuda poderia chegar às nossas mãos? Ele primeiro ajuda as autoridades locais, que enriquecem com as tragédias da nação.”

David Dollar, um representante do Banco Mundial em Pequim, atenuou a importância do governo central no alívio da pobreza, dizendo que os resultados provinciais tinham muito mais a ver com o sucesso das autoridades locais na criação de um clima de investimento atrativo.

Grande parte da pobreza restante, ele disse, envolvia lares que careciam de trabalhadores migrantes ou de trabalhadores fisicamente aptos. “Muito freqüentemente a pobreza está relacionada a um problema de saúde ou ferimento, ou com a falta de uma pessoa fisicamente apta”, disse Dollar. “Tradicionalmente, a abordagem do governo chinês tem sido ajudar a aldeia a crescer, mas se há poucas pessoas fisicamente aptas, é preciso trabalhar em questões de uma rede de segurança social.”

Mas no condado de Gushi, mesmo famílias com membros que migraram para o leste em busca de trabalho continuam atoladas na pobreza, e a situação dos próprios migrantes permanece precária.

Shen Kexia, 33 anos, que partiu de sua aldeia com seu marido para trabalhar em Hangzhou, uma próspera cidade costeira do sul, recentemente voltou para casa para o nascimento de sua segunda filha. Ela e seu marido planejam deixar suas duas filhas com os pais idosos de Shen assim que o bebê for grande o bastante.

“Se meus sogros adoecerem, nós não poderemos partir”, ela disse. “Nós viemos para casa para ter este bebê porque não podemos arcar com a despesa de tê-lo em Hangzhou, mas se tivéssemos dinheiro, nós não voltaríamos.”

The New York Times
http://www.nytimes.com/

Fiscais questionam controle de terras para cobrança do ITR

São Paulo, 18 de Fevereiro de 2008 – O Brasil tem cerca de 270 mil proprietários de grandes propriedades rurais e 342 mil imóveis acima de 200 hectares, de acordo com informações Sindicato Nacional dos Analistas Tributários da Receita Federal do Brasil (Sindireceita). Em média, ainda segundo o sindicato, esses grandes e médios proprietários controlam 298 milhões de hectares. Mesmo assim, a arrecadação do Imposto Territorial Rural (ITR) em 2006 foi R$ 302 milhões. Ou seja, o ITR cobra cerca de R$ 1 por hectare ao ano. E cada fazendeiro paga, em média, R$ 1 mil por ano, por propriedade.
"Esse valor é irrisório", destaca o presidente do Sindireceita, Paulo Antenor. "No entanto, não há um cadastro confiável sobre as terras no Brasil", complementa Antenor.

Conforme antecipou esse jornal em edição publicada no dia 28 de setembro do ano passado, o governo reconhece que não há controle sobre as terras e que a Advocacia Geral da União (AGU) estava preparando normas jurídicas para dar aos órgãos públicos poder de controle sobre o setor.
Como há procuradores da AGU em greve, eles não comentaram sobre o andamento da elaboração de novas normas. Milhares de advogados da União estão de braços cruzados para reivindicar o reajuste salarial de 30% até 2009. A AGU chegou a entrar com ação na Justiça contra a greve.

Essa falta de controle, diz Antenor, leva à prática de atitudes ilícitas e à declaração errada da propriedade, o que faz reduzir o tributo a ser pago. "Temos a informação de que há laranjas como donos de propriedades, que na verdade são de um só contribuinte ou a propriedade declarada é diferente da preservada", explica o presidente do sindicato.
Isenção do imposto
Ocorre que, de acordo com as regras do ITR, pequenos proprietários rurais e imóvel rural compreendido em programa oficial de reforma agrária são, respectivamente, imunes e isentos do imposto. E como a declaração de terra, assim como a do imposto de renda, é feita pelo próprio contribuinte, podem ocorrer erros que levam ao pagamento menor ou até ao não pagamento do ITR.
"O problema é que no caso do imposto de renda há uma fiscalização rígida para que as informações sejam prestadas de forma correta. Mas isso não acontece com o ITR", diz Antenor. "Não há fiscalização do ITR no Brasil", garante o presidente do sindicato. "Todos os outros tributos são bem checados, mas não há nada em relação a esse imposto", complementa.

E como não há uma base confiável, complementa Antenor, não é possível nem fazer uma estimativa do valor real que deveria ser pago de ITR. De acordo com ele, a conseqüência dessa falta de controle e fiscalização sobre o imposto rural se reflete também em outros tributos. "É possível afirmar que outros impostos deixam de ser pagos ou são pagos a menor porque a base do ITR é baixa", comenta Antenor.
A Receita Federal, responsável pela arrecadação e fiscalização do ITR, foi procurada mas não retornou ao contato.

Gazeta Mercantil/Caderno A – Pág. 10)(Gilmara Santos) dia 18 fev 2008

Fujimorismo prepara uma nova mutação com criação de partido no Peru

A filha do ex-presidente peruano anuncia o novo partido Fuerza 2011

Jaime Cordero

O fujimorismo anuncia mudanças em seu horizonte, com vistas às eleições presidenciais peruanas, para as quais ainda faltam mais de três anos (estão previstas para 2011). Keiko Sofia Fujimori, congressista e filha mais velha do ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, anunciou que seus partidários começarão a recolher assinaturas para inscrever no Tribunal Eleitoral Nacional um novo partido político, que se chamará Fuerza 2011 [Força 2011].

Keiko anunciou que espera conseguir um milhão de assinaturas, embora as exigidas pela lei de partidos políticos sejam muito menos, 146.320. “Vamos coletar um milhão de assinaturas no ano que vem e demonstrar que o povo não está de acordo com o linchamento que estão fazendo com Alberto Fujimori”, ela declarou, referindo-se ao julgamento que corre atualmente contra o ex-presidente, por homicídio qualificado e seqüestro.

A filha de Fujimori não descartou a possibilidade de ser a candidata presidencial do futuro movimento. Caso a criação do Fuerza 2011 se concretize, será o quinto agrupamento político criado pelo fujimorismo. Em 1990, o então desconhecido filho de imigrantes japoneses foi eleito como membro do partido Cambio 90 [Mudança 90]. Para as eleições de 1995, criou outro, chamado Nueva Mayoría, com o qual conseguiu sua primeira reeleição. Depois fundou Vamos Vecino, para concorrer nas eleições municipais, que depois mudou de nome para Sí Cumple. Esses três movimentos ainda existem.

Para as presidenciais de 2000, Alberto Fujimori pretendeu inscrever outro partido, batizado de Perú 2000, mas a tentativa foi abortada depois que a imprensa peruana descobriu que as assinaturas para realizar sua inscrição foram inventadas em uma enorme falsificação.

Nem todos os fujimoristas concordam com a idéia de um novo movimento. “Trata-se de uma decisão questionável, aparentemente irracional em curto prazo”, declarou Santiago Fujimori, irmão do ex-presidente e também congressista. O porta-voz do grupo parlamentar fujimorista reduziu a importância das declarações do irmão do ex-presidente e afirmou que se devem a “falta de conhecimento”. Santiago Fujimori esclareceu posteriormente que em médio e longo prazo a criação do Fuerza 2011 poderia ter sentido se tiver como objetivo a unificação dos movimentos já existentes.

Não foi o único excesso verbal do irmão do ex-presidente nestes dias. Na terça-feira, em uma entrevista à rádio, declarou que se Alberto Fujimori for condenado por ordenar as matanças de Barrios Altos e da Universidade de La Cantuta, pelas quais a promotoria pede 30 anos de prisão, o país poderia cair em uma guerra civil, a menos que o governo lhe conceda posteriormente uma anistia ou um indulto. “Diante dessa eventualidade, que não queremos, será preciso buscar uma solução do tipo político, porque do contrário estaríamos em uma guerra civil”, foram suas palavras exatas. Depois ele baixou um pouco o tom e mudou a expressão por “violência que vai afetar o desenvolvimento do país”.

As críticas não demoraram a chegar. “Em princípio são declarações absolutamente inaceitáveis, que constituem uma espécie de chantagem ao poder judiciário”, indicou o ex-procurador e hoje advogado dos parentes das vítimas no julgamento de Fujimori, Ronald Gamarra. “Que diferença há entre estas declarações e as que poderia fazer qualquer senderista [membro do grupo terrorista Sendero Luminoso] nos anos 80? Não vejo nenhuma”, acrescentou.

El País
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Martin Wolf: Riscos econômicos dos EUA são a mãe de todos os desastres

Martin Wolf

“Eu diria ao público que estamos diante não de uma bolha, mas de uma espuma -muitas pequenas bolhas locais que nunca cresceram até uma escala que possa ameaçar a saúde da economia com um todo.” – Alan Greenspan, A Era da Turbulência.

Esta costumava ser a visão de Greenspan para a bolha imobiliária americana. A propósito, ele estava errado. Assim, quão ruim pode ser esta baixa? Para responder a esta pergunta devemos perguntar a um verdadeiro pessimista. Meu favorito é Nouriel Roubini, da Escola Stern de Administração e Negócios da Universidade de Nova York, fundador do RGE Monitor.

Recentemente, os cenários apresentados pelo professor Roubini foram pessimistas o suficiente para provocar calafrios. Mas seu pensamento deve ser levado a sério. Ele foi o primeiro a prever uma recessão americana em julho de 2006*. Naquela época, sua posição era extremamente controversa. Não é mais. Agora ele declara que há “uma crescente probabilidade de um resultado financeiro e econômico ‘catastrófico’”**. As características deste cenário são, segundo ele: “Um círculo vicioso onde uma recessão profunda torna mais severas as perdas financeiras e onde, por sua vez, grandes e crescentes perdas financeiras e um colapso financeiro tornam a recessão ainda mais severa”.

O prof. Roubini gosta ainda mais de listas do que eu. Aqui estão seus 12 -sim, 12- passos para o desastre financeiro.

O primeiro passo é a pior recessão imobiliária na história americana. Os preços dos imóveis, ele diz, cairão entre 20% e 30% em comparação ao seu pico, o que eliminaria entre US$ 4 trilhões e US$ 6 trilhões em riqueza dos lares. Dez milhões de lares acabarão com patrimônio líquido negativo e, conseqüentemente, terão um imenso incentivo para colocar as chaves da casa no poste e partir para campos mais verdes. Muito mais construtoras falirão.

O segundo passo seria perdas ainda maiores, além dos US$ 250 bi a US$ 300 bi atualmente estimados, com as hipotecas subprime (de alto risco). Cerca de 60% de todas as hipotecas feitas entre 2005 e 2007 possuem “elementos tóxicos ou temerários”, argumenta o prof. Roubini. A Goldman Sachs estima as perdas hipotecárias em US$ 400 bi. Mas se os preços dos imóveis caírem em mais de 20%, as perdas seriam ainda maiores. Isto prejudicaria ainda mais a capacidade dos bancos de oferecer crédito.

O terceiro passo seria grandes perdas na dívida não securitizado do consumidor: cartões de crédito, financiamento de automóveis, crédito estudantil e assim por diante. O “arrocho do crédito” então se espalharia das hipotecas para uma grande variedade de crédito ao consumidor.

O quarto passo seria o rebaixamento das seguradoras “monoline”, que não contariam com a classificação AAA da qual depende seus negócios. Uma depreciação adicional de US$ 150 bilhões em títulos apoiados por ativos ocorreria em seguida

O quinto passo seria o colapso do mercado de imóveis comerciais, enquanto o sexto passo seria a falência de um grande banco regional ou nacional.

O sétimo passo seria grandes perdas em compras alavancadas imprudentes. Centenas de bilhões de dólares desses empréstimos atualmente estão presentes nos balancetes das instituições financeiras.

O oitavo passo seria uma onda de calotes corporativos. Em média, as empresas americanas estão em boa forma, mas um grande número de empresas atualmente exibe baixa lucratividade e alto endividamento. Tais calotes espalhariam as perdas em “swaps de default de crédito”, que seguram essas dívidas. As perdas poderiam ser de US$ 250 bilhões. Algumas seguradoras poderiam falir.

O nono passo seria um colapso do sistema financeiro. Lidar com a agonia dos fundos hedge, dos veículos especiais de investimento e assim por diante será ainda mais difícil pelo fato de não terem acesso direto ao empréstimo dos bancos centrais.

O décimo passo seria um colapso ainda maior no preço das ações. Os problemas nos fundos hedge, na margem de cobertura e sua redução poderiam levar a uma queda em cascata dos preços.

O décimo primeiro passo seria um secamento da liquidez em vários mercados financeiros, incluindo mercados de dinheiro e interbancários. Por trás disto haveria um salto nas preocupações com solvência.

O décimo segundo passo seria “um círculo vicioso de perdas, redução de capital, contração de crédito, liquidação forçada e queima de ativos a preços abaixo do mínimo”.

Estes são os 12 passos para o colapso. Segundo o prof. Roubini, “as perdas totais no sistema financeiro ultrapassariam US$ 1 trilhão e a recessão econômica se tornaria mais profunda, mais prolongada e mais severa”. Isto, ele sugere, é o “cenário de pesadelo” que mantém Ben Bernanke e seus colegas no Federal Reserve (Fed), o banco central americano, acordados. Isto explica por quê, tendo fracassado em avaliar os riscos por tanto tempo, o Fed reduziu as taxas em 200 pontos básicos neste ano. Isto é um seguro contra um colapso financeiro.

Este cenário é minimamente plausível? É. Além disso, podemos ter confiança de que, caso venha a ocorrer, ele acabaria com todas as histórias de “descolamento”. Se durar seis trimestres, como alerta o prof. Roubini, uma ação política de compensação no restante do mundo seria muito pouco, tarde demais.

O Fed pode deter este risco? Em um artigo subseqüente, o prof. Roubini dá oito motivos para que não***. (Ele realmente adora listas!) Eles são, resumindo: o alívio monetário americano é restringido pelos riscos ao dólar e inflação; um alívio agressivo lido apenas como a falta de liquidez, não com a insolvência; as seguradoras monoline terão sua classificação de crédito rebaixada; o Fed não tem como resolver os problemas do sistema financeiro; os reguladores não podem encontrar um bom meio-termo entre transparência em relação às perdas e tolerância regulatória, ambas necessárias; e, finalmente, o sistema financeiro voltado para as transações está por si só em uma crise profunda.

Os riscos são realmente altos e a capacidade das autoridades de lidar com eles é mais limitada do que a maioria das pessoas imagina. Isto não quer dizer que não há saída. Infelizmente, elas são venenosas. Em um último recurso, os governos resolvem as crises financeiras. Esta é uma lei de ferro. A ajuda pode vir com o governo assumindo a dívida ruim, a inflação ou ambos. O Japão optou pela primeira, para desgosto do ministro das finanças. Mas o Japão é um país credor cujos poupadores têm completa confiança na solvência de seu governo. Mas os Estados Unidos são devedores. Eles precisam manter a confiança dos estrangeiros.

Caso não o faça, a solução inflacionária se torna provável. Isto é suficiente para explicar por quê o ouro está custando US$ 920 a onça.

A ligação entre o estouro da bolha imobiliária e a fragilidade do sistema financeiro criou riscos imensos, para os Estados Unidos e para o restante do mundo. O setor público americano agora está vindo no resgate, liderado pelo Fed. No final, eles terão sucesso. Mas a jornada provavelmente será terrivelmente desconfortável.

Financial Times

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/

DECLARAÇÃO

Os Sem Terra do Brasil, em pleno gozo de seus direitos de consciência, no dia em que, Dom Pedro Casaldáliga completa 80 anos de idade, declaram que:

Dom Pedro Casaldáliga, por ter sido o fundador da Comissão Pastoral da Terra é o Bispo criador do MST.

A ele atribuímos a responsabilidade histórica de ter retomado, de forma organizada, a luta pela reforma agrária no Brasil.

Ele é o responsável por ter-nos tornado, através da luta, verdadeiramente humanos, seres dignos e praticantes de valores e gestos altamente perigosos para o sistema de exploração econômica, política, social e cultural da sociedade.

Por seu intermédio reproduzimos a maldição de que as cercas são malditas e, por esta razão, nos propomos a eliminar esta maldição da terra.

Os seus ensinamentos são de elevado conteúdo profético e devem ser repetidos, nas escolas, igrejas, sindicatos, movimentos e demais espaços, onde a ética e a moral precisem de ajustes.

Os seus exemplos de vida, conduta moral e desapego de caprichos mundanos, são referências fundamentais para a formação do caráter de nossa juventude.

A sua poesia é verdadeira arte, extraída da vida cotidiana, por isto, deve ser lida por quem queira se iniciar neste ofício e tida como referência de estilo, conteúdo e forma.

O seu estilo de vida é uma afronta à moda e ao consumo do mercado capitalista e deve ser divulgado para que sirva de enfrentamento ao egoísmo e ao individualismo na sociedade.

O seu espírito internacionalista é puro e verdadeiro.

Deve ser seguido nesta era da globalização, quando o imperialismo quer implantar o pensamento único.

Sua coerência: histórica, política e moral, em todo tempo, é de elevada qualidade, profética e contestadora, deve ser uma obrigação imitá-la por qualquer ser revolucionário em qualquer parte do mundo.

Brasil, 16 de Fevereiro de 2008

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

Desmatamento na Amazônia revela insustentabilidade do modelo agroexportador

O recorde de aumento do desmatamento da floresta amazônica nos últimos quatro meses nos desafia a buscar respostas e responsabilidades. Depois de quatro anos da festejada queda no desmatamento, amargamos esta notícia dramática.

No momento em que isto acontece, o ministro Celso Amorim viaja a Davos, Suíça, ao Foro Econômico Mundial, para encaminhar a proposta de retomada da Rodada de Doha na OMC – Organização Mundial do Comercio – buscando novamente a ampliação do acesso aos mercados para os produtos agrícolas e pecuários que exportamos. Esta prioridade da política externa brasileira tem sido ainda mais reforçada com a tentativa de consolidar o Brasil como um dos principais fornecedores de agroenergia para o mundo, com promessas contundentes e altamente questionáveis de que isto não traria impactos para a Amazônia.

Os meios de comunicação destacaram amplamente as divergências dentro do governo sobre onde deveriam recair as responsabilidades: na agricultura de larga escala, na pecuária, nas madeireiras ou na falta de fiscalização. Sabemos que todos estes motivos estão encadeados. De fato, é sabido que são os madeireiros os primeiros a chegarem, desmatando para deixar o terreno livre aos pecuaristas e os produtores de soja e outros monocultivos, como a cana de açúcar para produção de etanol. Ao mesmo tempo, se insinuou na imprensa a inutilidade das políticas públicas diante das imposições do mercado, o que pode ser entendido como a intenção de se deixar na “produtividade a todo custo” e nas mãos do agronegócio as definições sobre o sentido que tomará o desenvolvimento do país.

A perda de sete mil quilômetros quadrados de floresta no segundo semestre de 2007 não é mais que a mostra visível das conseqüências de um modelo de crescimento ancorado nos monocultivos que busca alcançar recordes exportadores de soja, carne e outros produtos com preços conjunturalmente altos no mercado internacional.

Se olharmos os dados dos estados onde se desmatou, veremos que Mato Grosso, campeão da produção de soja, foi o que mais desmatou (53,7% do total) seguido de Pará (17,8%) e de Rondônia (16%). Evidentemente isto se relaciona com o crescimento preponderante do agronegócio brasileiro, que tem sido realizado com base nos monocultivos em larga escala concentrados em poucas empresas, muitas delas transnacionais, contribuindo para aumentar a já elevada concentração fundiária, voltada para exportação e o ingresso de dólares que permitam evitar as alardeadas crises financeiras. Aliás, crises criadas pelo capital financeiro especulativo, como a que agora se vive nos EUA e que contaminará em maior ou menor grau toda a economia mundial. Apesar das altas recentes, muito se conhece sobre a tendência de queda dos preços das commodities no longo prazo, e a necessidade de se produzir cada vez mais. O agronegócio segue este caminho ainda que para isto tenha que expandir a área agriculturável, inclusive entrando Amazônia adentro. Será que este é o modelo produtivo que pode levar o país ao desenvolvimento entendido como atendimento das necessidades das maiorias do país, e de estímulo à ampliação do mercado interno? Será que esse caminho é compatível com as metas de mudança de rumos frente ao aquecimento global? Ou será que reconheceremos este equívoco apenas quando a floresta já esteja consumida pelas queimadas?

A Rodada de Doha da OMC justamente está paralisada devido às demandas de acesso ao mercado norte-americano e europeu para as exportações agrícolas dos países do Sul. Tanto os negociadores dos EUA como da União Européia alegam que já avançaram bastante na derrubada de barreiras agrícolas e que agora aguardam em troca um sinal de boa vontade dos países do Sul, especialmente dos chamados emergentes como o Brasil, com uma maior abertura no comércio de serviços e de produtos industriais.

A REBRIP – Rede Brasileira pela Integração dos Povos – questiona esta lógica que tem orientado as negociações de comércio internacional. Denunciamos o modelo agro-exportador de riquezas naturais e de produtos agro-pecuários produzidos em larga escala como fonte perversa do crescimento brasileiro. Defendemos uma postura de proteção para os produtos industrializados nas negociações de NAMA, junto a propostas que impulsionem a ciência e a tecnologia, podem ampliar a produção de bens com valor agregado buscando superar a exportação de produtos primários.

Ao mesmo tempo, programas de defesa e promoção da agricultura familiar e camponesa que permitam garantir a soberania e segurança alimentar da população, somados a escolha de uma matriz energética diversificada voltada às necessidades da população do país e da região – e não orientada a atender o consumo insustentável dos países industrializados do norte – podem se tornar um caminho sólido para a redução dos índices de desmatamento.

Num momento onde o país tem mostrado que o crescimento nacional pode ser alavancado pelo desenvolvimento do mercado interno com distribuição de renda, se faz premente fortalecer políticas públicas que permitam um caminho ambiental e economicamente justo, capaz de promover a inclusão social e melhorar a qualidade de vida da população.

Do mesmo modo, o Brasil tem um papel muito importante a cumprir na América do Sul, onde é chamado a fortalecer uma integração regional que vai tomando o rumo da consolidação das democracias, ao mesmo tempo em que busca superar as históricas desigualdades entre os países da região e no interior dos mesmos.

As notícias sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, além de muito preocupantes, podem ser uma oportunidade para a sociedade brasileira debater a fundo os rumos e o sentido do desenvolvimento do nosso país.

REBRIP – Rede Brasileira pela Integração dos Povos

El desafío es pasar de la resistencia a la ofensiva

10/2/2008

Fernán Chalmeta entrevista Samir Amin*

Samir Amin, economista egipcio e intelectual que preside el Foro Mundial de las Alternativas, red internacional de centros de investigación y de intelectuales militantes creada en 1997, analiza la situación de los movimientos de lucha anticapitalista y las perspectivas de futuro. DIAGONAL lo entrevistó en el Foro sobre Globalización y Desarrollo Desigual, en Madrid.

DIAGONAL: Antes de Rostock, los movimientos contra la globalización neoliberal parecían acabados. En Rostock, 100.000 personas salieron a la calle contra el G-8. ¿Cómo ves la salud del movimiento a nivel político y social? ¿Con qué desafíos se enfrenta?

SAMIR AMIN: El liberalismo, la ofensiva del capital y del imperialismo, se cristalizó a lo largo de los ‘80, pero se desarrolló en los ‘90, y hay que resaltar que las reacciones de resistencia se desarrollaron muy deprisa. Desde mediados de los ‘90 los movimientos de resistencia a esta ofensiva se expandieron por todo el mundo y tomaron la forma del Foro Social Mundial (FSM), a partir de 2001 en Porto Alegre. Pero debemos tener en cuenta que los FSM, como los foros sociales regionales y muchos de los nacionales, son lugares de encuentro, nada más que eso, y a veces, como con motivo de los G-8, manifestaciones colectivas, que son política, moral y psicológicamente muy útiles, pero que no son lugares donde se profundiza en el debate ni se desarrollan estrategias de lucha.

Los foros sociales son por definición abiertos: no hay censura ni prohibiciones, pero a la vez es muy costoso desplazarse por el mundo para encontrar a otros colegas y camaradas para manifestarse. Por ello existe cierto desequilibrio en las representaciones en el seno de los foros sociales. Muchas de las organizaciones mejor dotadas económicamente no son las más interesantes desde el punto de vista de las luchas que llevan a cabo, como muchas ONG que son, en el peor de los casos, parasitarias de los movimientos de lucha sin aportarles gran cosa y que están sobrerrepresentadas. Por el contrario, las grandes organizaciones ‘tradicionales’ que desarrollan luchas, las organizaciones sindicales, obreras, campesinas, por un lado no siempre tienen los medios financieros para tener una gran representación, y por otro no necesariamente dan prioridad a la participación en este tipo de manifestaciones, y debemos tener esto en cuenta.

D.: ¿Qué otras alternativas hay?

S.A.: En el seno de y en paralelo a los FSM hay otras redes que intentan poner en contacto los movimientos de lucha. El Foro Mundial de las Alternativas (FMA), que tengo el honor de presidir y que fue creado en 1997, pone el acento en la elaboración de la “convergencia en la diversidad”, es decir, en la discusión de objetivos y en la cristalización de estrategias políticas comunes.

Por ejemplo, ¿cómo reconstituir el frente unido del trabajo en unas condiciones estructurales muy diferentes de las condiciones estructurales de la organización del trabajo hace 50 años? La forma de organización del trabajo principalmente obrero en la gran empresa y ahora, bajo el efecto del liberalismo y de la revolución tecnológica, la precarización, las deslocalizaciones, la diseminación del proceso productivo, han creado condiciones y estructuras de organización de las clases obreras muy diferentes. Hay que encontrar las formas de organización apropiadas. No soy de los que dicen que los sindicatos nunca sirvieron para nada. El salto adelante del Estado de bienestar nunca se habría producido sin los partidos comunistas, sin los partidos socialistas, sin los sindicatos que durante un tiempo dieron a las clases obreras una legitimidad política que nunca antes habían tenido en la historia del capitalismo y que están perdiendo hoy. Pero las formas de organización y de acción correspondían a otro momento.

También diría que hay un progreso en la conciencia democrática en el sentido de que frente a las formas de organización relativamente verticales, que correspondían a otra época de la formación de la expansión capitalista y de la estructuración de las clases obreras y que podían ser eficaces en su época, hay hoy -debido al aumento del nivel de educación- mayores exigencias democráticas. Creo que son positivas, pero también provocan ilusiones, como que el movimiento espontáneo podría crear alternativas por sí solo. Yo creo que la dialéctica, teoría y praxis, no puede ser eliminada de las exigencias de la convergencia en la diversidad, y esta convergencia implica un reconocimiento democrático real de la diversidad de intereses sociales, nacionales, etc., y de la diversidad de culturas políticas.

El respeto de esa diversidad no excluye la necesidad de construir la convergencia, y el FMA fue creado para ello. Cito los grandes asuntos: reconstruir la unidad de la clase obrera, construir la alianza obrera y campesina. Para el 80% de la humanidad, para los pueblos del Sur, la población rural representa aún la mitad o más de la población total. Por ello, si no se responde a las necesidades de supervivencia y de desarrollo de esa masa campesina con políticas de desarrollo que garanticen el acceso al suelo y el uso eficaz del suelo, del agua, etc., las clases populares urbanas se quedarán relativamente fragmentadas, aisladas y, en consecuencia, débiles frente a sus enemigos del capitalismo mundializado y de sus agentes locales. Es un problema que se plantea tanto a nivel nacional en los países del Sur como a nivel mundial: pienso en las tentativas, a través del agronegocio, de desposeer al campesinado del dominio de su producción, que es el producto de siglos de acumulación de conocimientos científicos y tecnológicos, en provecho de multinacionales como Monsanto.

Otro asunto es el de la democracia, y para mí la democratización de las sociedades debe estar asociada al progreso social y no disociada como propone la fórmula occidental que nos quieren vender. Asociar democratización al progreso social en todas sus dimensiones, y no sólo a la gestión de la política por el supuesto pluripartidismo y las elecciones, es fundamental. Y en este ámbito también hay mucho que hacer: derrotar el proyecto de EE UU y de sus aliados subalternos europeos a través de la OTAN de control militar del planeta, un control que muestra que el capitalismo no puede dominar el planeta sin el uso de medidas de represión violenta incluida la agresión militar.

D.: ¿Tienen los movimientos la capacidad de intervención a nivel mundial?

S.A.: Todos esos movimientos llevan a cabo luchas legítimas, pero que la mayoría de las veces están delimitadas en el espacio y limitadas a un ámbito. Es necesario que tomen conciencia de que deben entrar en contacto unas con otras e integrarse en un proyecto o en proyectos alternativos coherentes. Esto implica una visión política y superar el ámbito particular donde se llevan a cabo las luchas por una alternativa positiva.

Y es principalmente a nivel nacional- porque los cambios y cristalizaciones políticas y la definición de las culturas políticas particulares se producen a este nivel-, que esta conjunción puede producirse, pero es también necesaria a nivel mundial: puesto que el capital está mundializado, para hacerle frente necesitamos un internacionalismo de los pueblos. Es por ello por lo que me pronuncio por una quinta internacional. En la etapa actual, las luchas son mundiales en el sentido de que se desarrollan en espacios que cubren todo el mundo, pero no están aún mundializadas porque les faltan dos cosas: una es la voluntad de construir una convergencia en la diversidad a escala mundial, lo que implica una visión internacionalista y, en mi opinión, una perspectiva socialista. Pero también implica el paso de un movimiento defensivo a la ofensiva; los movimientos son esencialmente de resistencia: al neoliberalismo, a las deslocalizaciones, al desmantelamiento de las conquistas sociales y los derechos laborales, a la agresión policial y militar… El desafío es pasar de la resistencia a la ofensiva, es decir, lograr, a través de las luchas, la cristalización de una alternativa positiva.

D.: ¿Cómo se ha avanzado en este campo?

S.A.: Creo que el paso de la defensiva a la ofensiva se ha iniciado. En América Latina, la victoria de Lula, independientemente de lo que pensemos sobre la evolución posterior de Brasil, ha producido una ruptura: la irrupción en la vida política del pueblo brasileño, de la clase obrera, de un partido como el PT, de sindicatos… y aún no se ha pasado página. Y tenemos otras “avanzadas revolucionarias”. Venezuela lo es, y lo vemos no sólo a través del inicio de las transformaciones sociales internas, sino también a través de propuestas como el ALBA. Avanzada revolucionaria también en Bolivia: el hecho de que por primera vez en su historia un indio, es decir, un representante real de la mayoría de la población campesina de ese país, sea elegido presidente no es cualquier cosa. Incluso la reelección de Ortega en Nicaragua, aunque sea en condiciones muy diferentes a las de la primera victoria de los sandinistas, no es cualquier cosa. Al igual que la victoria electoral de Correa y la cristalización de una izquierda alternativa radical en países como México o Perú.

Creo que en América Latina esta avanzada revolucionaria se explica por el hecho de que los movimientos sociales, que también han empezado como movimientos de resistencia, se han politizado y han cristalizado en alternativas políticas que cuestionan el poder establecido. No defiendo el discurso de que el poder establecido no tiene importancia, de que la transformación se hace en la sociedad, despreciando el poder. Ni siquiera compartí la opinión del subcomandante Marcos de que la cuestión no es del poder; de hecho, el movimiento neozapatista ha vuelto a echar agua en su vino, y la articulación con otros movimientos de transformación política de México empieza a ser una realidad. No soy de los que, beatamente optimistas, piensan que se ha pasado página definitivamente, pero soy optimista en el sentido de que estas primeras avanzadas revolucionarias pueden preparar el terreno para otras que vendrán después.

África: el continente vulnerable

SAMIR AMIN: Buena parte de África, en la etapa actual del sistema capitalista mundial, es especialmente vulnerable. Es por ello que las políticas de ajuste estructural que han creado problemas de deterioro grave por todo el mundo son todavía más devastadoras cuando la sociedad es relativamente vulnerable y frágil como lo es a menudo en África. Esto no impide que haya reacciones a esta situación, entre otras, el renacimiento de los movimientos campesinos, movimientos que estuvieron en el origen de la independencia de África. Y este renacimiento de los movimientos campesinos se produce bajo nuevas condiciones, es decir, en contra no ya de los poderes coloniales extranjeros sino de sus poderes locales y nacionales.

Convergencia en la diversidad

SAMIR AMIN: Creo que con el hundimiento de Europa en el proyecto antidemocrático de la construcción europea, cimentada en el neoliberalismo económico y social y en el atlantismo político y mientras los pueblos europeos no deconstruyan ese proyecto no habrá gran cosa que esperar más que lo que vemos hoy: la construcción de un pseudoconsenso en el que los partidos políticos de la derecha y de la izquierda electoral no son muy diferentes en lo que hacen cuando están en el Gobierno, es decir, aliarse sobre las exigencias del liberalismo. Mientras no se deconstruya ese proyecto el pueblo europeo vivirá con la ilusión de otra Europa que le gustaría que sea social, pero que no lo será nunca. También en otros lugares del mundo hay reacciones negativas. Vengo de una región, la árabe, africana, ampliamente musulmana, en la que la deriva hacia la ilusión de una alternativa para-religiosa y para-étnica son también involuciones. No soy pesimista con respecto a los movimientos de lucha en el mundo: no están en declive, sino que siguen creciendo, pero siguen enfrentados a desafíos y las respuestas están lejos de cristalizar: la respuesta para la construcción del socialismo del siglo XXI exige el respeto de la convergencia en la diversidad.

Vidas de pobreza aflitiva, intocadas pelo ‘boom’ econômico da China

Recente estudo do Banco Mundial sugere que ainda há 300 milhões de pobres na China, três vezes mais do que o banco estimava anteriormente

Howard W. French

Quando adoece, Li Enlan, 78 anos, colhe ervas que crescem na mata perto dali em vez de comprar medicamentos modernos. Mas não se trata de uma opção filosófica. Ele nunca viu um médico e, como muitos moradores desta área, vive em uma magra economia de troca, raramente entrando em contato com dinheiro. “De alguma forma comemos, mas nunca é suficiente”, disse Li. “Mas pelo menos nunca passamos fome.”

Nesta região ao sul da província de Henan, em uma aldeia atrás da outra, as pessoas são pobres demais para aquecerem suas casas no inverno e muitas carecem de confortos básicos como água corrente. Celulares, um símbolo quase ubíquo da mobilidade para o alto em grande parte do país, são vistos como um luxo impossível. As pessoas aqui freqüentemente começam conversas com uma frase que ainda não é incomum na China atual: “Nós somos pobres”.

A China retirou mais pessoas da pobreza do que qualquer outro país nas últimas décadas, mas a persistência da destituição em lugares como o sul da província de Henan se encaixa nos resultados de um recente estudo do Banco Mundial, que sugere que ainda há 300 milhões de pobres na China -três vezes mais do que o banco estimava anteriormente.

A pobreza é mais severa nas margens geográficas e sociais da China, sejam as áreas montanhosas ou desérticas que envolvem o país ou as áreas dominadas por minorias étnicas, que por motivos culturais e históricos se beneficiaram bem menos do que as demais com a longa ascensão econômica do país.

Mas também persiste em locais como Henan, onde as densidades populacionais estão entre as maiores da China, e para onde a nova riqueza da costa acena, quase zombeteiramente, a uma mera província de distância.

“Henan possui a maior população de qualquer província, próximo de 100 milhões de pessoas, e a terra ali não consegue sustentar estes números”, disse Albert Keidel, um associado sênior do Fundo Carnegie para a Paz Internacional e um especialista em pobreza chinesa. “Deveria ser uma rica fornecedora de alimentos, mas sempre houve grande discriminação contra áreas baseadas em grãos na China. O lucro obtido por um hectare de terra com hortifrutis, ou com criação de peixes ou produção de óleos, é muito maior.”

Outros especialistas dizem que Henan e outras partes densamente povoadas do interior chinês freqüentemente são excluídas do apoio financeiro dado às áreas costeiras, e que as poucas medidas antipobreza existentes surtem pouco efeito. Geralmente, a população destas áreas diz que as autoridades locais corruptas se apropriam do dinheiro destinado a ela, que as autoridades embolsam as quantias ou as desviam para investimentos em negócios.

Paradoxalmente, dizem os moradores, eles são ignorados precisamente devido à sua proximidade dos grandes centros econômicos do leste, forçados a se virarem sozinhos com base na teoria de que podem sobreviver com a renda enviada para casa pelos trabalhadores migrantes e outras formas de escoamento de riqueza.

“A política anterior de alívio da pobreza se concentrou mais no oeste da China, em locais como Gansu, Qinghai ou Guizhou, que eram mais pobres”, disse Wang Xiaolu, vice-diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Econômica, uma organização não-governamental em Pequim. “Além disso, a situação nas regiões de fronteira é mais complicada, porque quando as coisas vão mal ali, se torna mais do que um problema de pobreza. Este é o motivo das políticas se voltarem para elas.”

Aqui no condado rural de Gushi, em Henan, apenas 73 mil dos 1,4 milhão de agricultores se encontram abaixo da linha oficial de pobreza de US$ 94 por ano, que supostamente são suficientes para cobrir as necessidades básicas, incluindo a manutenção de uma dieta diária de 2 mil calorias.

“Nós devemos ter em mente que este é um padrão de pobreza muito baixo”, disse Wang, repetindo o ponto de vista de muitos economistas chineses.

Muito mais pessoas nesta parte de Henan subsistem entre a linha oficial de pobreza e o padrão de US$ 1 por dia há muito usado pelo Banco Mundial. No mês passado, a estimativa do Banco Mundial do número de pessoas pobres na China triplicou, de 100 milhões para 300 milhões, após uma nova pesquisa de preços ter alterado o quadro do que um dólar pode comprar.

O novo padrão foi estabelecido segundo o que os economistas chamam de paridade de poder aquisitivo. Segundo os novos cálculos, as estimativas do tamanho geral da economia chinesa também encolheram em 40%.

Dado o tamanho imenso da população da China, mesmo uma pequena mudança na definição de pobreza pode produzir estimativas enormemente diferentes.

“A diferença entre uma renda de US$ 1 e US$ 2 por dia é um número imenso de pessoas, digamos 450 milhões”, disse Khalid Malik, um representante local do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, em Pequim.

“Somos terrivelmente pobres”

Os camponeses aqui são os primeiros a dizer a um visitante que independente de quais sejam as estatísticas, eles permanecem atolados em pobreza profunda. Os aldeões por todo este condado dizem que várias medidas recentes e altamente divulgadas do governo central para reduzir o fardo dos camponeses resultaram apenas em um efeito modesto sobre suas vidas. Elas incluem a abolição dos impostos agrícolas para os camponeses, o cancelamento da taxa de ensino para seus filhos e novos planos de aposentadoria e saúde que parecem no papel mais generosos para os pobres rurais.

Como a maioria dos camponeses aqui mantém apenas contato de vislumbre com a economia de dinheiro, a isenção de impostos é altamente irrelevante.

Mesmo com a abolição das despesas com a taxa de ensino, eles ainda são apertados por uma proliferação de outras taxas escolares. De forma semelhante, outros disseram, as taxas de participação e deduções concedidas aos planos de aposentadoria e saúde rurais estão fora de seu alcance financeiro.

“Nós somos terrivelmente pobres”, disse Zhou Zhiwen, uma mulher de 55 anos em Yangmiao, cuja casa de tijolos a coloca em melhor condição do que a maioria das pessoas, que ainda vivem de estruturas feitas de terra. “Nós cultivamos o suficiente apenas para nos alimentarmos, sem nenhum ganho adicional. Nós não temos mais que pagar a taxa de grãos, mas nossas vidas não melhoraram muito.”

Ao ser perguntada como se virava, Zhou disse que ocasionalmente recebe ajuda de parentes que migraram para outros locais em busca de trabalho. “Se as pessoas vivessem bem em casa, quem ia querer migrar”, ela disse. “Todos os nossos jovens estão trabalhando em outros lugares.”

Para muitos aldeões, o governo central está fora de contato com as realidades rurais em lugares como este, e o governo local está cheio de autoridades mercenárias que empregam o dinheiro destinado aos pobres rurais em obras nas cidades provinciais ou simplesmente embolsam o dinheiro.

“As pessoas comuns não recebem quaisquer benefícios reais dos programas de alívio da pobreza”, disse Li Guangyi, 35 anos, um agricultor que vive na aldeia de Zhangyoufang. “Como o dinheiro de ajuda poderia chegar às nossas mãos? Ele primeiro ajuda as autoridades locais, que enriquecem com as tragédias da nação.”

David Dollar, um representante do Banco Mundial em Pequim, atenuou a importância do governo central no alívio da pobreza, dizendo que os resultados provinciais tinham muito mais a ver com o sucesso das autoridades locais na criação de um clima de investimento atrativo.

Grande parte da pobreza restante, ele disse, envolvia lares que careciam de trabalhadores migrantes ou de trabalhadores fisicamente aptos. “Muito freqüentemente a pobreza está relacionada a um problema de saúde ou ferimento, ou com a falta de uma pessoa fisicamente apta”, disse Dollar. “Tradicionalmente, a abordagem do governo chinês tem sido ajudar a aldeia a crescer, mas se há poucas pessoas fisicamente aptas, é preciso trabalhar em questões de uma rede de segurança social.”

Mas no condado de Gushi, mesmo famílias com membros que migraram para o leste em busca de trabalho continuam atoladas na pobreza, e a situação dos próprios migrantes permanece precária.

Shen Kexia, 33 anos, que partiu de sua aldeia com seu marido para trabalhar em Hangzhou, uma próspera cidade costeira do sul, recentemente voltou para casa para o nascimento de sua segunda filha. Ela e seu marido planejam deixar suas duas filhas com os pais idosos de Shen assim que o bebê for grande o bastante.

“Se meus sogros adoecerem, nós não poderemos partir”, ela disse. “Nós viemos para casa para ter este bebê porque não podemos arcar com a despesa de tê-lo em Hangzhou, mas se tivéssemos dinheiro, nós não voltaríamos.”

The New York Times
http://www.nytimes.com/

Além da recessão

Jorge Beinstein

26-Fev-2008

A recessão já se instalou no império; o debate agora gira em torno de sua profundidade, duração e alcance mundial. A corte de admiradores direitistas ou progressistas do capitalismo global, que nos massacrou nos últimos anos com suas reiterações a respeito da solidez do sistema, está agora em pleno replante tático: seus integrantes já não negam a crise, mas tentam tirar-lhe dramatismo, encurtar suas raízes e amplitude.

Alguns ensaiam explicações anedóticas, outros a qualificam como "crise cíclica", leia-se passageira. A maior parte se refugia na explicação simplista que reduz o fenômeno a uma grande perturbação financeira combinada com um broto pessimista dos consumidores norte-americanos, provocado pelos morosos devedores dos EUA (que não pagam seus créditos imobiliários) e por quem lhes concede empréstimos de maneira exageradamente generosa. De acordo com esta gente, os problemas logo serão superados, graças às intervenções da Reserva Federal, Casa Branca e autoridades políticas e monetárias das outras grandes potências. O mítico estandarte do poder invencível dos donos do sistema ainda tremula nas alturas, ainda que vá rapidamente desmanchando-se ao ritmo das trovoadas globais.

Crédito, consumo e dívidas

Estando circunscrita ao esvaziamento da bolha imobiliária norte-americana e seus impactos colaterais nos EUA e resto do mundo, a "solução" aparece clara: incentivar os consumidores e investidores, subir o gasto público e injetar liquidez no mercado.

É o que agora estão fazendo o governo Bush e a Reserva Federal. O primeiro acaba de impulsionar uma diminuição nos impostos e um gasto estatal recorde para 2009 de mais de 3 trilhões de dólares, e em conseqüência um déficit fiscal gigantesco com o qual a dívida pública superará logo em breve os 10 trilhões de dólares. Obviamente, Bush o faz pela direita. As reduções fiscais beneficiarão basicamente os ricos e a classe média alta; o aumento do gasto público privilegiará as Forças Armadas, que disporão do mais alto volume de fundos de toda a história estadunidense: o gasto militar total dos EUA chegou em 2008 a cerca de 1,2 trilhão de dólares (se somamos às onerações do Departamento de Defesa as dos demais setores do Estado), segundo o projeto de orçamento enviado por Bush ao Parlamento. Em 2009, tal cifra será muito mais alta. Por sua vez, a Reserva Federal baixa mais e mais as taxas de juros.

O que eles estão fazendo agora é uma sorte de repetição, em condições infinitamente mais graves, do que já fizeram em 2001, não possuem outro manualzinho. Porém, naquele momento, a dívida pública americana alcançava os 5,7 trilhões de dólares e agora ronda os 9,2 trilhões. E se a ela somamos as do resto dos setores públicos e privados, chega-se a 50 trilhões de dólares (equivalente ao PIB mundial). A isso é necessário agregar a acumulação de déficits fiscais e comerciais, além de um volume de gastos militares totais que poderia chegar a representar, em 2009, 10% do PIB norte-americano.

Em 2001 a situação era difícil, mas existiam margens econômicas e políticas que permitiram ao poder (mediante auto-atentado terrorista) sair da recessão acelerando as tendências dominantes do sistema: hipertrofia especulativa, concentração de receitas, consumismo (com forte queda da poupança pessoal), crescimento das dívidas públicas e privadas e keynesianismo militar. Todos esses aspectos se exacerbaram ao extremo nos últimos sete anos, as aventuras coloniais na Eurásia afundaram (o aparato militar aparece agora como uma pesada maquinaria tão sofisticada e cara quanto incompetente), enquanto que o Estado e a população estão atemorizados pelas dívidas.

A recessão estadunidense é mais uma crise de dívida que uma depressão causada pelo esfriamento do consumo; a primeira é fundamento do segundo. A superdívida estatal chegou a tal ponto que sua expansão ingressou em um círculo vicioso que enlaça de maneira perversa emissões de títulos públicos e de dólares cada vez mais desvalorizados. Caso contrário, o Estado deveria frear seus gastos e/ou incrementar a arrecadação fiscal, o que afundaria a economia em uma recessão ainda mais profunda.

Por sua vez, a população com rendimentos médios e baixos sofreu as conseqüências do estancamento (e do rebaixamento em um importante setor) de seus salários reais e a renda média familiar é atualmente inferior à do ano 2000. Quando se lançou a bolha imobiliária com uma avalanche de créditos baratos estava-se ao mesmo tempo restringindo a solvência a médio prazo de uma grande massa de devedores. A serpente neoliberal acabou mordendo a própria cauda: em meados de 2006 o mercado imobiliário estava saturado, os preços das moradias começaram a abaixar e em 2007 estourou a inadimplência. O que se seguiu é bem conhecido.

Em seus anos de auge, o assunto do esgotamento do crescimento da economia norte-americana sobrecarregada de dívidas havia sido abertamente ignorado ou negado por jornalistas, especialistas, grandes empresários e dirigentes políticos da superpotência.

Os negócios prosperavam, quem se atreveria nessa época a dizer que os grandes lucros de então eram a base do próximo desastre? Os poucos que se atreveram ficaram marginalizados ou ridicularizados, marcados como catastrofistas, pessoas amargadas ou amantes dos terremotos.

Mas se a direita pretende fazer mais do mesmo, o progressismo imperial não vai muito mais longe. Joseph Stiglitz, expressão desse setor, acaba de propor uma variante "popular" do remédio, orientada também a reabilitar o consumo, incrementando o gasto público e consequentemente o déficit fiscal e a dívida. De acordo com essa proposta, não seriam beneficiados os militares e os ricos, mas sim os desempregados, os programas de desenvolvimento de infra-estrutura, do setor educativo, de saúde, de economia de energia e de redução da contaminação ambiental. A aspirina progressista (incompatível com o atual sistema de poder estadunidense) e a repetição conservadora não são outra coisa senão pequenos remendos impotentes, ante uma realidade que os supera.

Recessão e inflação

Agora que a recessão chegou ao centro da economia mundial, suas autoridades entram em pânico, percebem que suas ações são ineficazes ou até contraproducentes. As medidas anti-recessivas como cortes fiscais em curso, as drásticas baixas da taxa de juros ou o incremento do gasto público trarão mais déficits e dívidas, e, se chegarem a ter algum êxito, ainda que medíocre, incentivarão a inflação. Em ambos os casos impulsionarão a desvalorização internacional do dólar. A recessão e a inflação chegam juntas porque a crise financeira converge com a crise energética que faz subir o preço do petróleo, puxando para cima um amplo leque de matérias primas. Os custos de produção aumentam não somente quando cresce a economia mundial e em conseqüência a demanda desses produtos, mas também quando a mesma se estanca e, inclusive, decai. É assim porque a extração petroleira global está chegando ao seu máximo nível e, por trás dela, a de outros recursos energéticos não renováveis, como o carvão e o urânio, que se encaminham rumo à mesma situação a maior prazo, mas bem antes de meados do século 21. E como sabemos, a substituição do petróleo pelos biocombustíveis leva ao rápido encarecimento generalizado dos preços da produção agrícola, em especial a de alimentos.

Em síntese, as autoridades norte-americanas sabem que, se tratarem de reverter a recessão reanimando o mercado, incentivarão a inflação e a queda do dólar, o que acabará por trazer mais recessão; se buscam frear a inflação esfriando a economia, aprofundarão a recessão: um beco sem saída.

Alguns especialistas, agora discretos, começam a iludir-se com a possibilidade de um estancamento prolongado, porém ordenado, sem impactos sociais nem crises institucionais graves. O modelo seria o Japão dos anos 90. Apesar de esquecerem de que se tratava de uma potência de segunda ordem que dispôs nesse momento de duas tábuas de salvação externas que suavizaram sua aterrissagem. Em primeiro lugar, as bolhas de prosperidade do leste asiático, que lhe deram ar até a crise de 97 e, sobretudo, os EUA, seu principal cliente comercial, cujo mercado absorveu exportações e investimentos japoneses. Porém, os EUA são muito grandes, não existe uma tábua de salvação externa à sua medida, o resto do mundo vinha amortecendo seus desajustes fiscais e comerciais, acumulando montanhas de papéis dolarizados que cada dia valem menos. No entanto, essa capacidade está praticamente esgotada.

A ilusão do descolamento

Na última reunião de Davos se discutiu muito acerca do possível ‘descolamento’ entre os EUA e as outras potências industriais, que desse modo tomariam distância do naufrágio de seu irmão maior.

Até hoje a globalização era apresentada pela propaganda neoliberal como uma trama da qual ninguém podia escapar. Agora, sem mais explicações, se afirma o contrário, a rede global permitiria, ao parecer sair do desastre, a uma ampla variedade de países, dirigentes e comunicadores de algumas economias desenvolvidas, sua inclusão na lista de sobreviventes. Inclusive, em numerosos países periféricos, meios de comunicação locais tratam de tranqüilizar suas populações, explicando-lhes que, graças ao nível de suas reservas (dolarizadas), à natureza das exportações, sua localização geográfica ou outra bênção do destino, essa nação não será afetada pela recessão estadunidense (ou será muito pouco).

Porém, resulta que, para desgraça dos neoliberais, os neoliberais tinham razão: as interdependências econômicas mundiais são tão densas que, como estamos comprovando diariamente, não há maneira de desconectar as turbulências estadunidenses (bancárias, bolsistas etc.) do funcionamento financeiro internacional. A bolha imobiliária norte-americana foi a vanguarda de uma variada série de bolhas similares em diferentes lugares do planeta. Países como Espanha, Inglaterra, Holanda, Austrália, Irlanda e Nova Zelândia foram parte ativa da festa. Na Espanha, já começou o esvaziamento. Recentemente, Carlos March, cabeça de um dos grupos financeiros decisivos desse país, declarou que "a crise imobiliária (espanhola) vai durar muito tempo, ao menos três anos". Além disso, numerosos bancos europeus e asiáticos são golpeados pela desvalorização de títulos americanos apoiados em dívidas hipotecárias de alto risco, que compraram de mãos cheias em pleno auge especulativo.

A recessão estadunidense já afeta o Japão, estreitamente associado à superpotência em níveis comercial, financeiro, político-militar etc. Japão e EUA compram o grosso das exportações industriais da China, coluna vertebral de sua prosperidade econômica, que por outro lado acumula mais de 1,4 trilhão de dólares e papéis dolarizados em suas reservas e é atravessada por várias bolhas (bolsista, imobiliária etc.).

Muito mais fortes ainda são as interconexões entre a União Européia e os EUA, o que não impediu o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, declarar (no começo de fevereiro de 2008 e sem mover um só músculo da cara) que "na Europa não há risco de recessão, ao contrário dos Estados Unidos".

Jorge Beinstein é professor de Economia da Universidade de Buenos Aires.

Correio da Cidadania

Juristas internacionais tentam resgatar jovem preso em Guantánamo desde os 16 anos

Joaquín Prieto

Ninguém deveria ter sobrevivido ao ataque de aviões americanos perto de Khost, no Afeganistão, em 27 de julho de 2002. O edifício em que os jihadistas estavam entrincheirados ficou reduzido a escombros. Mas quando os soldados americanos iam ocupar a posição uma granada surgiu de repente e matou um sargento de 28 anos. Entre as ruínas capturaram Omar Khadr, 15 anos, gravemente ferido.

Depois de passar a adolescência e parte da juventude preso em Guantánamo, Omar é acusado do assassinato do sargento e deverá comparecer em 4 de fevereiro diante de um tribunal militar, quando tiver completado 21 anos.

Os letrados que cuidam dos processos de Guantánamo decidiram “internacionalizar” a defesa de Omar. Um deles foi a Paris em dezembro para pedir apoio a Robert Badinter. O homem que ele procurava é um jurista de prestígio na Europa, ministro da Justiça de François Mitterrand -época da abolição da pena de morte na França-, presidente da Assembléia Constituinte e atualmente senador.

“Eu lhes disse: de acordo”, conta Badinter ao telefone de seu escritório em Paris. “Tratava-se de preparar um texto sobre um ponto preciso, o direito internacional dos menores. Compreendi que Omar Khadr, que tem nacionalidade canadense, é um menino-soldado da Al Qaeda. E, como tal, tê-lo internado em Guantánamo, despojá-lo de qualquer direito e julgá-lo como se fosse um ‘inimigo combatente voluntário’ é incompatível com as garantias mínimas reconhecidas pelas nações civilizadas.”

Já se viram muitos outros meninos recrutados por grupos armados: no Camboja do Khmer Vermelho, em certas guerras africanas… Mas todas as ações penais são contra os responsáveis por fazê-los participar dos conflitos armados, “e não contra os meninos-soldados em si”, afirma Badinter. “Jamais uma jurisdição penal internacional exigiu a responsabilidade de um menino-soldado. Omar Khadr não é um combatente voluntário, é antes de tudo uma vítima.”

O texto em questão é assinado por outros 17 juristas, entre eles o espanhol Gil Carlos Rodríguez Iglesias, ex-presidente do Tribunal Europeu de Justiça. Afirma que os menores devem ser julgados por jurisdições “integradas por juízes qualificados e segundo um procedimento adaptado”, exigência “reconhecida e respeitada pelos EUA”. E lembra que a Convenção sobre os Direitos da Criança enuncia: “Nem a pena capital, nem a prisão perpétua sem possibilidade de libertação devem ser pronunciadas para infrações cometidas por pessoas menores de 18 anos”.

É o caso de Omar. Com tais argumentos, os advogados pedem a anulação do processo de Guantánamo. Alegam que se o tribunal militar confirmar sua autoridade sobre Omar Khadr será o primeiro na história ocidental a julgar um menino por crimes de guerra. Nem sequer discutem a vinculação do menino à organização de Bin Laden, que começou quando ele tinha apenas 11 anos.

Quem forçou Omar a combater? Como um menino canadense de 11 anos entrou na Al Qaeda? Responder a essas perguntas exige vasculhar a história familiar. Sobretudo a de seu pai, Ahmed Saïd Khadr, casado com uma palestina, que se instalou no Canadá nos anos 1970 e organizou coletas de fundos para uma associação muçulmana, oficialmente dedicada a ajudar os refugiados e órfãos afegãos causados pela repressão soviética em seu país. Em 1988 ele foi com sua família para Peshawar, Paquistão, quando Omar tinha 2 anos.

O pai foi detido em 1995, suspeito de ter financiado um atentado no Paquistão, no qual morreram 17 pessoas. Ao sair da prisão, levou a família para o Afeganistão. Os talebans estavam se apoderando do país. “A família Khadr viveu com freqüência no campo da base de Osama bin Laden, e os filhos foram enviados para campos militares da Al Qaeda”, lê-se no documento jurídico.

Foi assim que Omar participou das lutas contra as forças dos EUA que ocuparam o Afeganistão em reação aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gêmeas e o Pentágono. Um de seus irmãos foi detido em Cabul pela Aliança do Norte (grupo de oposição aos talebans). Os dois foram parar em Guantánamo. Mas enquanto o irmão de Omar foi libertado no final de 2003 ele continuou nas mãos dos americanos.

Os interrogatórios e maus-tratos começaram em um hospital militar onde ele passou os primeiros meses depois da detenção, segundo seus advogados. Seu conhecimento de campos da Al Qaeda e o fato de ser filho de um personagem dessa organização terrorista pode tê-lo transformado em objeto de interesse para os serviços de inteligência americanos. O pai morreu em 2003, quando Omar já estava em Guantánamo havia um ano, onde entrou pouco depois de completar 16 anos. Não teve possibilidade de ver um advogado até dois anos depois de sua internação na base, período no qual descreveu surras, sufocamentos, ameaças de violação ou de ser acorrentado “como se amarra um javali”, explica o citado documento.

Em 2006 ia ser julgado. Mas a Suprema Corte dos EUA decidiu que o presidente Bush havia ultrapassado seus poderes ao instituir tribunais militares sem o acordo do Congresso, que violavam as Convenções de Genebra e a própria lei norte-americana. O julgamento foi suspenso, mas o processo continua depois de uma regularização legal desses tribunais.

Não é fácil que as autoridades de Guantánamo fiquem muito impressionadas pela intervenção de defensores dos direitos humanos. Em todo caso, eles insistem: “A causa da liberdade jamais se defende violando os princípios da liberdade”.

El País
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Pai de Ayrton Senna é acusado de trabalho escravo na Bahia

THIAGO REIS

da Agência Folha

O pai do tricampeão de Fórmula 1 Ayrton Senna (que morreu em 1994), Milton Guirado da Silva, é acusado pelo Ministério Público do Trabalho de ter mantido em sua propriedade em Barreiras (BA) trabalhadores em condições análogas à escravidão.

Silva e os sócios respondem a duas ações civis públicas que pedem indenização para 82 trabalhadores libertados, em ação do grupo móvel do Ministério do Trabalho em fevereiro e março do ano passado, da fazenda Campo Aberto.

Só agora, um ano depois, as ações devem ser julgadas. Uma delas pede R$ 600 mil "como reparação genérica da lesão causada aos trabalhadores", que, de acordo com os fiscais, eram submetidos a trabalho degradante.

Durante a ação dos fiscais, foram lavrados 29 autos de infração. Foram constatadas irregularidades como manutenção de empregados sem registro, falta de descanso semanal de 24 horas consecutivas e de intervalo de uma hora para alimentação, alojamentos sem portas e janelas e local de refeição sem água potável e condições higiênicas.

"Além de todo quadro de degradação no que atine às exigências no campo da saúde do trabalhador, toda sorte de fraudes na contratação e no curso da contratualidade, com graves lesões aos trabalhadores, ainda presente, no caso, situação de negação do sagrado direito à liberdade", diz a ação.

A outra ação é referente às rescisões dos contratos (R$ 110 mil ao todo). "Todos os trabalhadores foram retirados da condição de trabalho degradante e até hoje não receberam nada. Eles foram submetidos a condições indignas. O pior é que muitos deles já saíram da região e talvez nunca recebam [o dinheiro]", afirma o procurador Luciano Leivas. A fazenda, de 6.000 hectares, é voltada principalmente ao cultivo de algodão.

Outro lado

Em nota, a advogada Samira Miguel, que representa o pai de Senna e os outros sócios da Campo Aberto, afirma que os autos de infração são "infundados" e que "não há, até o momento, qualquer condenação, seja em nível administrativo, seja em nível judicial".

Ela diz que a Campo Aberto "deixou de formalizar o termo de ajuste de conduta proposto pelo Ministério Público do Trabalho ao final da atividade de fiscalização por entender que as condutas imputadas não condiziam com a realidade".

A advogada afirma ainda que "não há, nem nunca houve, qualquer tipo de restrição à liberdade de ir e vir dos trabalhadores" e que há "alojamentos e refeitórios devidamente adequados à legislação trabalhista" no local.

Folha de S. Paulo

Classes e parentescos nos campos da morte do Quênia

Oduor Ong’wen

27-Fev-2008

É fácil – e até mesmo tentador – rotular a violência que tomou conta do Quênia durante os últimos meses como um ressurgimento lamentável, mas não totalmente inesperado, das disposições atávicas ontológicas africanas. Muitos analistas, particularmente no Ocidente, alegaram que, embora a ruptura do estado de paz e convivência mútua tenha sido desencadeada pelas fraudes do atual presidente nas últimas eleições, o que se seguiu nada tinha a ver com isso em particular nem com a política em geral. Teria a ver com uma oportunidade para que vizinhos – fundados sobre um nacionalismo estreito e que haviam vivido até então em harmonia artificial, embora guardando um desprezo patológico mútuo -, pudessem acertar contas uns com os outros. Isso pode ser verdade, mas apenas em parte. A crua realidade é que a crise do Quênia pôs à mostra as tensões de classe que vinham aflorando de modo esparso há mais de cem anos.

Em maio de 2000, a revista The Economist surpreendeu o mundo com uma edição em que aparecia a foto de um jovem portando um foguete lançador de granada, comumente chamado pelas guerrilhas de RPG. Essa imagem se sobrepunha a um mapa da África e era acompanhada do título de capa: A Incurável África. Com esta única frase de impacto, todos nós africanos, desde os diligentes fazendeiros do delta do Nilo até os criadores de gado de Botsuana, dos ativos pescadores em torno das planícies Kano do Lago Vitória aos comerciantes do mercado Kano da Nigéria, fomos, de forma sumária, relegados da ordem da humanidade civilizada para uma única realidade ignominiosa: a autodestruição.

A mesma publicação admitira, numa de suas edições de janeiro de 2008, que o Quênia representava uma esperança para a África. Qual esperança? Infelizmente, seria a existência de uma atuante bolsa de valores, de lojas do tipo fast-food em cada esquina de Nairóbi, de prósperos cassinos, de campos de golfe bem tratados e de uma indústria em crescimento. Silenciava-se, entretanto, sobre o fato de que dois terços dos habitantes de Nairóbi ocupam apenas 8% da área da cidade, vivendo em favelas; que mais de 63% da população urbana não têm acesso à água potável; que dois em cada três quenianos sobrevivem com menos de US$1 por dia e que grandes extensões de terra pertencem a alguns poucos enquanto o número dos sem-teto e dos sem-terra aumenta cada vez mais.

Virtualmente afastada dos benefícios da prosperidade e da modernidade de que desfruta o Norte, a África sobrevive e existe na periferia da economia global. Não surpreende que, enquanto os observadores da União Européia, do Commonwealth e a equipe de observadores locais reconheciam o fato de que as eleições presidenciais tinham sido fraudadas, o Ocidente insistia que, por se tratar da África, a subversão deveria ser ignorada "para o bem da unidade e da estabilidade do país". Esse eufemismo pode ser traduzido, na verdade, pela frase "nossos interesses estratégicos, nossos investimentos, nossas férias e safáris são mais importantes do que seus direitos democráticos; portanto, calem-se, acreditem e obedeçam".

Outrora consideradas sem contestação como o repositório da cultura, as culturas dos povos africanos estão sendo rapidamente postas à margem à medida que a cultura McDonald, orgulhosamente promovida pelo cinema e pela televisão, assume seu lugar. Essa erosão da cultura africana está sendo vista como algo positivo – a integração da África à nossa sociedade global – e deve ser incentivada.

Todavia, essa integração não está sendo acompanhada pelas condições materiais que sustentam tal ambição e ostentação. Não é surpreendente que no Quênia, como aliás poderia acontecer em qualquer parte do mundo, as lanchonetes de fast-food, os videoclubes, as lojas de produtos eletrônicos e os supermercados foram os primeiros alvos dos protestos nos centros urbanos. Nas comunidades rurais, foi a expulsão dos "estrangeiros" das terras que ocupavam.

Enquanto grande parte da população dos países industrializados é abastada, a maior parte do povo africano está empobrecida, desnutrida, é analfabeta e não dispõe de moradia nem de alimentação decentes. Enquanto as economias dos países industrializados são fortes e resistentes – oferecendo esperança e segurança ao seu povo –, os países da África são majoritariamente fracos e vulneráveis e nada têm a oferecer ao povo africano, a não ser o desespero e a carência. Enquanto os países do Norte controlam seus recursos e destinos, os do Sul, principalmente os da África, são vulneráveis a fatores externos e lhes faltam independência funcional e soberania. Este é o contexto no qual devemos procurar entender o amor e a vinculação à terra existentes em muitos países da África como o Quênia e o Zimbábue. A propriedade de um pedaço de terra, mesmo que pequeno, confere uma sensação de segurança e independência.

Não se deve contextualizar a desordem no Quênia sem avaliar primeiro a questão nacional queniana. Os quenianos não estão polarizados porque pertencem a diferentes subnacionalidades. Isso ocorre porque se relacionam de modo diferente com os recursos e forças produtivas do país. E o cerne da questão nacional é a terra.

Vale constatar que o epicentro dos conflitos foi a rica região agrícola do Vale da Fenda (Rift Valley). E não por coincidência. O Vale da Fenda é a região mais colonizada do Quênia. E é também nessa área que comunidades como os Maasai, os Pokot e os Nandi têm disputas não resolvidas sobre a propriedade de terras, enraizadas em injustiças históricas oriundas da ocupação colonial.

A fraude presidencial

Voltemos agora a abordar a questão que desencadeou a série de eventos violentos – ou seja, a fraude nas eleições presidenciais. Segundo o boletim emitido pela Comissão Eleitoral do Quênia (ECK) às 4:07 horas do dia 20 de dezembro de 2007, o presidente no poder, Mway Kibaki, perdia de Raila Odinga por mais de 1 milhão de votos: Odinga tinha 3.734.972 votos, enquanto o presidente Mway Kibaki tinha 2.269.612 votos. Foi nesse momento que a comissão e o Partido de Unidade Nacional (PNU), de Kibaki, estimaram o número de votos necessários a serem acrescentados ao total de Kibaki e o número de votos a serem retirados de Odinga para que Kibaki alcançasse e ultrapassasse seu rival.

Naquele dia, resultados aparentemente recebidos no dia anterior – mas que não tinham sido divulgados aguardando o momento "oportuno"– foram alterados (às vezes, mais de uma vez) para eliminar a diferença. A ECK havia anunciado os resultados de 176 das 210 seções eleitorais, que davam a Odinga 4.046.010 votos e a Kibaki, 3.760.233. Duas horas depois, entretanto, o presidente da Comissão Eleitoral surpreendeu a nação com o anúncio de que, após apurados os resultados de 189 postos eleitorais, Odinga só tinha 3.880,053 votos contra 3.842.051 de Kibaki. Era a arte de contar para trás!

Tanto o partido de Odinga, o Orange Democratic Movement (ODM) quanto as diversas equipes de observadores detalharam a forma pela qual a fraude se deu. O que não foi dito foi a razão pela qual Odinga tinha de ser impedido, a qualquer custo, de assumir a presidência da República do Quênia.

Presume-se que, caso qualquer outro dos cinco oponentes tivesse ganho as eleições, Kibaki não teria tido qualquer problema em lhes transmitir o governo – mas nunca para Raila Amolo Odinga. Os motivos para tal atitude podem ser encontrados na plataforma de sua campanha e na sua história pessoal.

A campanha de Odinga propunha cinco metas básicas: tratamento da questão das desigualdades econômicas e sociais; devolução do poder e dos recursos do centro para as regiões, em um contexto de complementaridade; erradicação da corrupção e da injustiça administrativa; provimento, pelo Estado, dos serviços sociais básicos; e busca de uma política externa e pan-africanista progressista.

Em um país em que as políticas neoliberais haviam encontrado um terreno extremamente fértil, Odinga demonstrava muita coragem ao declarar-se um social-democrata e fiel seguidor do programa da social-democracia.

O primeiro ataque a sua campanha foi a denúncia de que Odinga estava tentando introduzir o comunismo pela porta de trás. Foram espalhados boatos assustadores de que o fornecimento dos serviços básicos acarretaria em um aumento de impostos. Finalmente, os seguidores de Kibaki abordaram a questão crucial; a terra, demonizando a devolução dos poderes, considerando-a como um instrumento para desapossar o povo Kikuiu estabelecido no Vale da Fenda e em outras áreas.

Essa astúcia funcionou para os membros da comunidade Kikuiu, mas não para os demais quenianos. Não é de surpreender, portanto, o fato de que os membros da comunidade Kikuiu das áreas rurais, vivendo ou não nas suas regiões ancestrais, votaram em peso em Kibaki. Somente a parte jovem e urbanizada dessa população foi capaz de perceber que se tratava apenas de uma manobra diversionista.

Mas a preocupação maior da elite dominante era a postura anticorrupção de Odinga. No dia 22 de setembro de 2007, ele declarou que não haveria anistia geral para os antigos chefes de Estado, e que tanto o antigo presidente, Daniel arap Moi, como Kibaki seriam chamados pessoalmente a prestar contas de seus desmandos. Essa declaração foi feita duas semanas após a denúncia de que Moi e sua família haviam desviado dinheiro público estimado em 130 milhões de shillings quenianos (US$ 2 bilhões) e depositaram essa quantia em contas fora do país.

O poder por ele mesmo

Estar presente ou próximo do poder central tem sido a principal via para o acúmulo primitivo de riqueza no Quênia. Todos os que dizem pertencer à burguesia indígena do Quênia obtiveram status e fortuna graças às suas ligações com o poder. Nesse particular, a concentração do poder na região central foi particularmente benéfica. Dessa forma, o pacote lançado por Odinga em prol da devolução, e contra a desigualdade e a corrupção, foi considerado pelos capitães da política e da indústria como algo na contramão da ordem natural das coisas.

A personalidade e o histórico de Odinga tampouco o favorecem. Desde o início da campanha, Odinga não se definia como candidato. Ele se declarava simplesmente "o presidente do povo". Odinga não pode afirmar que pertence ao proletariado. Nem ao campesinato. Tampouco seu pai, Jaramogi Oginga Odinga. Na verdade, embora filho de um simples professor, Odinga teve uma vida relativamente privilegiada, pois seu pai abandonou o magistério quando ele ainda era adolescente, construiu um império nos negócios e rapidamente mergulhou na luta nacionalista pela independência.

Odinga era o único sério candidato à presidência que buscava um mandato parlamentar em um eleitorado metropolitano (os demais só se sentiam seguros em suas bases rurais, cercados pela população de seus grupos étnicos). Hoje, ele representa um eleitorado no qual a maioria dos eleitores é de moradores de uma das maiores favelas da África (kíbera). Odinga é um dos poucos políticos que se sentem à vontade tanto como freqüentador de um botequim na favela como de um clube exclusivo. Pela manhã, ele se encontrava com um dignitário estrangeiro. À tarde, sentava-se na arquibancada de um campo de futebol e, à noite, comparecia a uma reunião para angariar fundos para um enterro. Sentia-se totalmente à vontade usando um terno de um designer ocidental ou um kanzu swahili ou ainda um agbada nigeriano.

Herança Complicada

Observar os acontecimentos no Quênia apenas sob a ótica da etnia nos dá uma visão apenas nebulosa da situação. Isto não significa que a etnia não constitua um fator importante. No entanto, ela é usada como uma espécie de droga que os governantes continuam a administrar às suas vítimas para toldar sua visão. É uma visão escapista. Não vi nenhum residente Kikuiu de Karen, elegante subúrbio de Nairóbi, matar a machadadas seus vizinhos de Luo e Kalenjin, ou pior, atirarem uns nos outros, embora a maioria deles possua revólveres.

Foi nos assentamentos informais que os vizinhos lutaram uns contra os outros. Isso porque acreditam – erradamente, é claro – que seus vizinhos estavam sendo beneficiados por uma distribuição injusta de recursos, e, já que não podem punir os culpados, acertam as contas com seus "representantes".

Com a independência, o Quênia, como todo o resto da África, herdou uma estrutura que veio acompanhada de um cenário de forte dependência e corrupção, tanto do ponto de vista econômico como político.

No setor econômico, o país herdou uma economia altamente atrasada, baseada no regime de subsistência agrícola dominada pelo campesinato e pela produção e exportação de suas safras agrícolas girando em torno de três produtos (café, chá e piretro), cuja produção estava concentrada quase que totalmente nas mãos de fazendeiros estrangeiros.

A produção de commodities era feita em pequena escala, e dominada por agricultores retrógrados, extremamente supersticiosos, que surgiram após um pesadelo de décadas de opressão e desumanização – esta era a situação predominante das atividades rurais no Quênia. A maioria da população vivia em situação de subdesenvolvimento econômico sem perspectivas de melhora; a agricultura estava fragmentada em minúsculos lotes de terra, cada um deles quase insuficiente para sustentar uma única família.

Para que houvesse um desenvolvimento realmente significativo, era necessário e urgente tratar esse problema como questão prioritária. Contudo, as lideranças recentemente instaladas passaram a depender dos "especialistas" do Ocidente, cujas experiências eram unicamente com as metrópoles e cujos antecedentes eram empresariais.

Em outras palavras, os líderes do Quênia buscavam a solução para esses problemas urgentes nos manuais das empresas e com economistas que haviam estudado em Harvard, e secundados pelo Banco Mundial, pelo FMI ou por "parceiros do desenvolvimento" bilaterais, em vez de buscarem a solução na realidade da situação. O resultado é que a nova liderança não fez senão perpetuar a divisão colonialista do trabalho, na qual o papel da África era de extrair e exportar (sem beneficiamento) suas matérias-primas e importar e consumir bens manufaturados e processados.

Os processos decisórios que regem os fluxos internacionais de bens, serviços, conhecimentos, finanças, capital e tecnologia são controlados pelas principais nações industrializadas do hemisfério Norte, pelas instituições internacionais, e mantidos sob seu rígido controle.

O Quênia – e todo o continente africano – encontra-se em posição desfavorável e, portanto, irremediável dentro do sistema econômico global. O país está economicamente ligado, principalmente, às economias capitalistas da Europa industrializada – legado tanto do tráfico de escravos como do passado colonial sustentados pelo poder econômico relativo da Europa, e conseqüência das estratégias desenvolvimentistas adotadas pelas lideranças pós-colonialistas.

O Ocidente, em particular a Europa e os Estados Unidos, é parte tão interessada quanto os nossos líderes. Não surpreendente, pois, que a União Européia, os Estados Unidos e outros países importantes do Ocidente tenham mostrado mais preocupação do que os nossos "irmãos africanos".

Na frente política, a nova liderança pós-independência herdou um Estado monstruosamente opressivo e que, na verdade, tinha sido organizado para atender aos interesses dos opressores colonialistas; um Estado que não estava voltado para o progresso do bem-estar social do povo e do desenvolvimento econômico do país, mas que obrigava esse povo a aceitar e submeter-se ao jugo colonialista de modo a produzir para as economias metropolitanas, por meio de trabalho forçado e outros mecanismos de coerção.

Era um Estado construído para inspirar o medo, a subserviência e a timidez no seu povo, minando a sua auto-estima com um tratamento desumano e degradante. Essa situação evidenciou-se de forma dolorosa quando cenas de televisão mostraram o aparelho de segurança do Estado atirando e matando manifestantes desarmados em um canto do país, enquanto praticamente escoltava bandos armados em outro ponto, de acordo com o que julgavam ser o lado preferencial da liderança.

Desde a independência de Gana, em 1957, até a libertação da África do Sul do apartheid, em 1994, muitas tentativas dolorosas, e em grande parte sem êxito, foram feitas para ingerir as economias dos mais de 50 países africanos no rumo da democracia e da realização da dignidade humana.

Praticamente em todos os casos, essas tentativas de mudar a situação social e econômica da população encontraram uma enorme resistência interna e obstáculos externos. Como já mencionamos, as economias dos países africanos recém-independentes eram fracas e fragmentadas, refletindo séculos de jugo colonialista e exploração. As indústrias e a infra-estrutura física – estradas, energia e comunicações – eram praticamente inexistentes. A infra-estrutura para o desenvolvimento dos recursos humanos, por meio da educação e do treinamento, também era totalmente inadequada. Os patamares de desenvolvimento da educação, alfabetização e especialização eram tristemente baixos.

Se somarmos a essas deficiências econômicas e sociais o espectro de um crescimento populacional exponencial e de uma rápida urbanização, o quadro se torna mais claro. À medida que as pessoas se aglomeravam nas cidades, municípios e outros centros urbanos, na esperança de melhorar o seu padrão de vida, a pressão sobre os serviços públicos e de saúde começou a assolar as autoridades, que não tinham nem a capacidade administrativa nem os recursos para atender a essas necessidades da população.

Raila Odinga prometia aos quenianos que iria resolver esses problemas. Ele falava a linguagem do povo, e este o compreendia. Mesmo que fazendo um jogo populista, os quenianos o levaram a sério. Decidiram dar-lhe uma chance. Kibaki roubou essa chance. Os quenianos se revoltaram. Todas os ressentimentos voltaram à tona. Hoje o Quênia é um país em conflito consigo mesmo. Somente uma reforma fundamental na sua política e na sua economia poderá curar essas feridas – em lugar de girarmos em torno de nossas desigualdades, nossas diferenças étnicas, nossa política de exclusão e nossa auto-ilusão.

Oduor Ong’wen é jornalista, membro do Fórum Social Africano.

Correio da Cidadania

Das relíquias à INTERNET

“A Idade Média Explicada aos Meus Filhos” e “O Corpo das Imagens” identificam nos valores e nas crenças medievais a origem da época atual

HILÁRIO FRANCO JR.

A Idade Média Explicada aos Meus Filhos”, de Jacques le Goff, e “O Corpo da Imagem”, de Jean-Claude Schmitt, apresentam concepções bem diferentes e, ao mesmo tempo, pontos em comum.
O primeiro livro, como seu título indica, é dirigido aos jovens (ou àqueles que desejam se iniciar no assunto); o segundo está voltado para um público já familiarizado com a cultura medieval. Um faz um apanhado geral da história européia na Idade Média em pouco mais de uma centena de páginas em formato menor que o tradicional. Outro trata da cultura visual daquela época em quase 400 páginas em formato maior.
Em razão dos diferentes objetos de estudo, um não precisa recorrer a imagens, outro reproduz mais de 70 (embora nem sempre de boa qualidade visual na edição brasileira). As dificuldades que os dois estudiosos enfrentaram também foram inversas: no caso de Le Goff, a abundância de dados e de trabalhos a serem sintetizados; no de Schmitt, a relativa carência, compreensível, de um campo de estudo recente.
Mas ambos respondem com sucesso aos desafios que se colocaram. O de Le Goff, explicar em linguagem simples, mas sem concessão ao rigor, um tema muito amplo, toda a Europa Ocidental por mais de dez séculos nas suas mais variadas expressões.
O de Schmitt, examinar em profundidade alguns aspectos do caráter e das funções das imagens na Europa medieval. Ambos, por caminhos bem diversos, reafirmam a importância da Idade Média para a civilização ocidental.
O Le Goff cidadão entusiasta da Comunidade Européia leva o Le Goff historiador a lembrar seus interlocutores que “a Idade Média foi o período no qual surgiu e foi construída a Europa”, foi o período que legou a esta “um movimento ao mesmo tempo de unidade e diversidade, que ainda pode servir de inspiração”.
Schmitt, de seu lado, mostra que nossa atual “civilização da imagem”, apesar de tecnicamente mais sofisticada e diversificada (fotografia, cinema, televisão, internet), tem sua base na valorização e amplo uso cultural da imagem na Europa cristã medieval.
Se o primeiro empreendimento poderia parecer simples, seria apenas por desconhecimento do observador quanto ao risco constante de se cair em simplificações abusivas e escolhas arbitrárias, armadilhas evitadas pelo grande especialista que é o autor.

Diálogos imaginários
Para enfrentar a tarefa, Le Goff recorreu ao artifício (muito usado, aliás, pelos próprios medievais) de estabelecer diálogo com jovens imaginários, que lhe formulam questões e fazem observações.

As 129 intervenções desses interlocutores ao mesmo tempo dão ritmo ao texto e servem de pretexto para o historiador abordar diferentes aspectos da vida na Europa medieval. Assim, em respostas de, em geral, um curto parágrafo, ele sintetiza a cronologia e o sentido do rótulo “Idade Média”, descreve a função social e o cotidiano dos cavaleiros e dos castelos, dos clérigos e das catedrais, dos burgueses e das cidades, dos camponeses e dos campos.
Também discute o papel do papa, do imperador e dos reis naquela sociedade, sem esquecer, contudo, de seus marginais (pobres, doentes, hereges, judeus). Apresenta em linhas gerais as artes, as letras, o teatro e o ensino, bem como a manifestação cultural de todos que eram as festas.
Insiste, como não poderia deixar de ser, no papel central da devoção na vida daquela época, repleta de anjos, demônios, santos, fadas e dragões. Sentimento religioso enraizado e vigoroso que dava unidade profunda àquela Europa então dividida em feudos, cidades autônomas, condados, ducados, reinos, não poucas vezes em conflito aberto entre si.
Se o segundo empreendimento poderia parecer excessivamente ousado, seria apenas por desconhecimento das fecundas reflexões a respeito que têm sido feitas nas duas últimas décadas por vários historiadores, inclusive o autor. Sendo, no entanto, ainda precoce qualquer tentativa de síntese, Schmitt reuniu em seu livro 11 ensaios independentes, embora fortemente articulados por uma mesma problemática -a de pensar o lugar das imagens na cultura medieval e o da cultura medieval nas imagens.
Essas imagens têm um “corpo”, como diz o título do livro, não somente pela sua própria materialidade (pedra, metal, tinta etc.), mas também por corporificar pensamentos e sentimentos da sociedade que as produzia e consumia.

À semelhança de Deus
Dentre os ensaios, alguns são mais teóricos, discutem a relação do historiador com as imagens e a formação do próprio estatuto da imagem na cultura ocidental. Outros estudam o culto a certos tipos de imagens, caso do crucifixo, do Volto Santo [objeto com imagem do rosto de Cristo] e das relíquias. Outros estão dedicados a formas imagéticas ainda mais impalpáveis, porém de grande importância social para aquela época e de imenso interesse para o historiador: os sonhos, as visões, os fantasmas.
O que cimenta esse conjunto de estudos instigantes é a constatação de que a imago é o fundamento da antropologia cristã, é o centro da concepção de homem feito “à imagem e semelhança de Deus”. Disso decorre que tudo na cultura cristã -cujo modelo se afinou e se consolidou justamente na Idade Média- é figurável, mesmo Deus. Para os medievais, nota com razão o autor, toda imagem era de certa forma uma aparição, uma materialização (nos moldes da Encarnação), uma percepção visível do invisível.

Jornal Folha de S. Paulo
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Guatemala, um Estado falido?

O espanhol Carlos Castresana, presidente da Comissão Internacional contra a Impunidade, dirige a luta para fazer do país um autêntico Estado de direito

M. Á. Bastenier

A Guatemala é a Somália da América Latina? Ou seria mais o Haiti da Ibero-América? O Estado guatemalteco cumpre com impecável tenacidade todos os requisitos para se transformar em um Estado falido, se é que ainda não o é: áreas do país -chamadas de corredores estratégicos- escapam ao controle das forças de segurança e são santuários do narcotráfico; 60 mortes violentas por 100 mil habitantes por ano, quando o índice na Espanha não chega a 3; a impunidade que sorri tanto para o que joga lixo na porta do vizinho quanto para o assassino industrial em série; e um governo indiferente, que prima pela passividade, em vez de prestar serviços ao cidadão.

A Guatemala tem um novo presidente eleito democraticamente, Álvaro Colom, 57 anos, que tem o sangue-frio de se declarar social-democrata em meio a esse pandemônio, e muitos o vêem como o último trem para a salvação nacional, tarefa hercúlea para a qual conta com um Eliot Ness espanhol, como o chama o presidente da patronal, Carlos Zúñiga, cuja missão é reinventar a justiça. Como presidente da Comissão Internacional contra a Impunidade, o jurista Carlos Castresana, nomeado pela ONU por dois anos, deverá ser xerife e magistrado, policial científico e alquimista social. Sabe que sua ambição beira o milagre, mas é otimista porque pessimismo é apenas outra forma de dizer Guatemala.

O país centro-americano assinou em 1996 acordos de paz que quase pareciam consagrar a vitória da guerrilha, 200 mil mortos e três décadas depois de iniciado o conflito. Castresana explica que aquilo foi uma ilusão. Os serviços de espionagem do exército, que tinham se infiltrado na guerrilha, foram os verdadeiros vencedores. Não só nenhum dos compromissos democratizantes foi cumprido, como a incorporação dos guerrilheiros à vida civil derivou em massacre e a desmobilização de um exército reduzido em seus efetivos aos 15 mil atuais criou uma grande massa de manobra para o crime.

A professora de literatura e analista social Carmen Aida, da Fundação Myrna Mack, distingue quatro grandes causas de violência: criminalidade comum; bandos de jovens, as “maras”, que já se conhecem na Espanha, que começaram como mecanismos de dominação territorial e hoje são máquinas de extorsão e poder; o crime organizado ou máfias que cultivam o narcotráfico; e violência autônoma, como a dos exércitos privados de “finqueros”, militares desmobilizados e antigos patrulheiros civis que colaboravam com a milícia na guerra e que agora atuam freqüentemente por impulso ideológico para salvar o país. Para Aida, a Guatemala é uma macro-radiografia da dor.

Falência do Estado?
A socióloga e o jurista concordam, como praticamente o coro de personalidades consultadas, em que não há Estado falido, mas sim uma gravíssima perda de governabilidade, que empurra para o precipício. O empresário Zúñiga mede suas palavras como filigrana quando diz: “Se não se fizer algo será a perdição da Guatemala”. E o diretor do jornal “Prensa Libre”, Gonzalo Marroquín, lamenta que “o país tenha se acostumado a conviver com o fracasso”.

O otimismo reservado de Castresana se baseia no fato de ele crer que algo importante mudou. “A elite compreendeu que se não apoiar com o esforço necessário, inclusive econômico, para a reformulação da Guatemala, perderá tudo.” Até poucos meses atrás destacados representantes dos poderes reais e até do Estado se opunham à formação da comissão presidida pelo jurista, alegando que isso significava uma “perda de soberania”; mas Castresana replica que, ao contrário, é “soberania o que se tenta devolver ao país”.

Muitas vozes indicam que foi o assassinato de três deputados de El Salvador na Cidade da Guatemala em fevereiro passado, com grande probabilidade pelas mãos da narco-máfia, o que acabou vencendo as maiores resistências à intervenção internacional. A comissão terá 150 especialistas, dos quais 40 já estão contratados, alguns deles espanhóis, e seu primeiro encargo será resgatar a Guatemala do paleolítico da investigação judicial. “Hoje só se pratica a prova testemunhal, de forma que o suborno e a intimidação eliminam qualquer testemunha, e o que é preciso é a prova científica irrefutável, para a qual é preciso adquirir tecnologia e formar a equipe para utilizá-la”, diz Castresana. Não só Elliot Ness, mas também David Caruso, do “CSI”.

O procurador para os Direitos Humanos Sergio Morales também se nega a admitir que isso seja a falência do Estado, mas a linguagem corporal não acompanha quando, com resignação bíblica, lembra: “De cada 250 mil crimes, só 240 investigações levam a julgamento”. E a isso poderíamos acrescentar que há 250 assaltos diários a ônibus urbanos e interurbanos. Tomar um ônibus hoje aqui é a maior profissão de risco.

Mas Morales, uma fortaleza dentro do realismo, acrescenta: “Sou otimista porque não é produtivo ser pessimista”. Há quem lembre com sarcasmo que há dois anos salvadorenhos pouco amistosos ergueram muros em um posto de fronteira nos quais se lia: “Bem-vindos a Guate (em letras pretas) Mala (em letras vermelhas que escorriam sangue)”.

Novo presidente
O presidente eleito Álvaro Colom é o homem adequado, no momento adequado e no lugar adequado? Carmen Aida acredita que “ele improvisou tudo; o governo, no qual só há uma mulher e um indígena, adota muito mais um aroma de social-democracia do que verdadeira competência”. E acrescenta que, embora o presidente exerça o poder formal, não está claro quais são seus apoios no poder real para prevalecer sobre o crime.

Monsenhor Álvaro Ramazzini, presidente da conferência episcopal, não acredita que o presidente anterior, Óscar Berger, conduzisse com acerto seus ministros, “e os congressistas também não sei o que faziam além de cobrar o salário”. Com a exceção do titular do Interior, Carlos Vielmann. Ele diz que “não enfrentavam o problema”, razão pela qual sente que é preciso dar um voto de confiança a Colom. Os entrevistados concordam que finalmente há esperança, mas não falta quem indique que quando Colom pronunciava seu discurso de posse e falava em ser “o privilégio dos pobres” exibia um relógio de ouro de 18 mil euros.

O embrulho guatemalteco ainda deveria ser mais labiríntico se levarmos em conta que os indígenas representam os dois terços mais pobres da nação. Mas a divisão étnica extrema, como conta o espanhol residente na Cidade da Guatemala, o escritor Francisco Pérez Antón, faz que “o indígena não tenha como população um papel significativo, porque não é leal a nenhuma ideologia, mas se move através de caciques clientelistas que negociam com o poder branco um apoio sempre submisso”. E o crescimento do protestantismo evangélico, majoritariamente indígena, fomenta essa desmobilização política.

A Guatemala de Álvaro Colom tem, apesar de tudo, uma oportunidade. A UE, segundo fontes espanholas fidedignas, guarda na manga 25 bilhões de euros para consolidar essa reengenharia. O presidente sabe disso e só é preciso ter a decisão necessária para empreender a fundo a limpeza dos estábulos de Áugias.

El País
http://www.elpais.com/

ASSASSINATOS POLÍTICOS NO BRASIL HOJE

Natalia Viana

Passado o carnaval, é hora de encarar 2008, ano em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 60 anos. E o Brasil já entra na comemoração com um puxão de orelha: segundo relatório lançado pela organização internacional Human Rights Watch, a impunidade segue sendo o principal combustível das violações aos direitos humanos no país. O relatório diz ainda que o governo federal até tem ações em defesa dos direitos humanos, mas falha em não “apontar os responsáveis”.

O ministro da Justiça, Tarso Genro, protestou, disse que é “óbvio” que há impunidade, mas que a coisa está mudando. Apesar da cara feia, o veredito da HRW é claro: o governo Lula, já no seu segundo mandato, não faz o suficiente para mudar esse quadro.

Se a impunidade reina, ela é ainda mais grave no caso dos assassinatos políticos de hoje em dia. A cada ano, centenas de militantes dos direitos humanos são vítimas de violência – muitos acabam assassinados – por estarem lutando por direitos expressos na Constituição. Infelizmente, ao permitir que essa rotina siga impune, nosso governo permite que a democracia brasileira continue sendo decidida a bala.

Isso porque o assassinato político não é só a morte de um militante, é um pouco a morte da causa que ele defende. Seu intuito é refrear a demanda legitima de um grupo representado por aquela pessoa. São os chamados defensores de direitos – no linguajar da ONU – ou militantes de movimentos sociais, tema do livro “Plantados no Chão”, que publiquei pela editora Conrad no ano passado.

Conseguimos listar mais de 180 casos de militantes assassinados somente durante o primeiro mandato de Lula. Para cada caso, um resumo, para cada resumo uma nova impunidade. Além disso, o livro relata com detalhe seis casos ocorridos em diferentes contextos – sindicalistas, sem-terras, militantes – dando especial atenção à lentidão judicial e à impunidade que acaba unindo todos eles num único drama. Por exemplo, no caso dos conflitos por terra, o livro conta o seguinte: de 1985 a 2006 haviam sido assassinados 1.464 trabalhadores; só 85 casos haviam ido a julgamento, e só 71 executores e 19 mandantes condenados. Desde então, a situação mudou pouco.

Está na hora de ampliar esse grito de indignação. A partir desta semana, o livro “Plantados no Chão” estará disponível para download gratuito no site www.conradeditora.com.br. Queremos que o seu conteúdo se espalhe bem mais do que seria possível no formato papel, para que esse debate encontre espaço nos mais diferentes cantos possíveis. Por isso, como autora, peço: baixe o livro, copie, imprima, critique, entre no debate. Espalhe.

Dá para acabar com esse ciclo de impunidade sim, desde que haja genuína disposição. A impunidade aos que matam quem defende direitos não pode mais ser, como disse o ministro Tarso Genro, um dado “óbvio”.

Fazendo Media

http://www.fazendomedia.com/index.htm

Os britânicos na armadilha iraquiana

Há 90 anos os ingleses se lançavam na mesma aventura que hoje obceca George W. Bush, cometendo os mesmos erros e inaugurando a era dos governos manipulados pelo Ocidente no Oriente Médio

Rémi Kauffer

“O governo que instalamos é de tipo britânico e sua língua é o inglês. Lá temos 450 agentes de execução para fazê-lo funcionar, sem nenhum responsável iraquiano. (…) Os 80 mil soldados que temos ali estão ocupados com tarefas policiais, não com a proteção das fronteiras. Eles mantêm o povo sob o nosso jugo. (…) Os iraquianos esclarecidos se sentem muito irritados por serem privados do privilégio de compartilhar a defesa e a administração de seu país. (…) Eles esperaram pela notícia de nosso mandato e a acolheram bem. (…) Agora, começam a duvidar de nossas boas intenções.”

Não, esse parágrafo não foi extraído de nenhum relatório contemporâneo de algum oficial do exército inglês servindo no Iraque. Ele foi escrito por Lawrence da Arábia em uma carta enviada ao chefe de redação do jornal The Times em 22 de julho de 1920. No entanto, tendo em vista o atoleiro no qual os americanos e ingleses se meteram no Oriente Médio depois da queda de Saddam Hussein, as linhas acima adquirem o status de uma verdadeira profecia. Outra carta de Lawrence, daquele mesmo ano, publicada na edição de 8 de agosto do jornal The Observer, pinta um quadro ainda mais sombrio: “O povo inglês foi presa, no Iraque, de uma armadilha da qual será difícil sair com dignidade e honra. (…) Quanto tempo ainda permitiremos o sacrifício de milhões de libras, de milhares de soldados do Império Britânico e de dezenas de milhares de árabes, em nome de uma forma de administração colonial que só beneficia seus administradores?”.

A aventura iraquiana da Inglaterra começou imediatamente após a declaração de guerra entre Istambul e Londres, em 5 de novembro de 1914. A Força D, pequeno corpo expedicionário constituído na Índia entre setembro e outubro daquele ano, desembarcou em 14 de novembro em Chat-al-Arab, o estreito onde os rios Tigre e Eufrates confluem antes de desembocarem no Golfo Pérsico. Foi a partir dali que as tropas comandadas pelo general Charles Townshend ocuparam o porto de Basra e marcharam sobre a Mesopotâmia, nome pelo qual a região onde atualmente está o Iraque era conhecida na época.

Uma vez instalados em Basra, os ingleses começaram a aumentar seu campo de ação a partir de agosto de 1915. O comandante-em-chefe britânico na Mesopotâmia lançaria a divisão Townshend bem mais ao norte, em direção à cidade de Kut al-Amara, localizada a 200 km de Bagdá. Tendo chegado até ali, por que não avançar sobre a capital? Foi nesse momento que a demonstração de força se transformou em invasão. Townshend tentou alertar sobre a modéstia de seus efetivos. O general contava então com 13 mil homens e, segundo suas próprias palavras, “para tomar Bagdá, necessitaríamos de um exército”. As ponderações de Townshend, porém, se perderam no vazio. Não havia muito o que fazer quando o diplomata e chefe do corpo expedicionário, Percy Cox, já declarara que a queda de Bagdá teria “a mesma importância que a de Constantinopla”. De fato, a armadilha acabou funcionando contra Charles Townshend: depois de avançar até Ctesifon, a 100 km de Bagdá, sua divisão teve de bater em retirada em face da contra-ofensiva das forças otomanas instruídas por oficiais alemães. Retrocedeu até Kut al-Amara onde, sitiada por cinco meses seguidos, de dezembro de 1915 a abril de 1916, acabou hasteando a bandeira branca.

Kut al-Amara foi a única capitulação de uma grande unidade britânica durante a Primeira Guerra Mundial. A derrota, no entanto, não impediu que as tropas de Sua Majestade criassem raízes no sul da Mesopotâmia. Nem poderia ser diferente: vários organismos da burocracia imperial traçavam seus planos para o Oriente Médio. De um lado estavam o Raj, governo britânico das Índias, e o Índia Office de Londres e de Bombaim. De outro, o Arab Bureau do Cairo, um serviço rival que apoiava a guerrilha antiturca que desde junho de 1916 eclodira no centro da Península Arábica. Os chefes da guerrilha, Hussein ibn Ali, o xerife de Meca, e seus quatro filhos pertenciam à prestigiosa linhagem dos hachemitas.

Foi nesse contexto que os britânicos retomaram a ofensiva no front da Mesopotâmia sob as ordens de um novo comandante-em-chefe, o major-general Stanley Maude. Esse experiente militar de 53 anos, que recebeu o merecido apelido de “Systematic Joe”, planejou a nova campanha meticulosamente. Em 24 de fevereiro de 1917, Kut foi retomada. Em 11 de março, a 13a divisão britânica arrancou Bagdá das mãos dos otomanos depois de dois dias de combate. Dia 18, cairia Bakuba e, no dia seguinte, Falluja.

Após a conquista restava decidir o que fazer com a Mesopotâmia, e os vários organismos britânicos envolvidos na operação se lançaram num debate que definiu três posições: de um lado, Maude e os militares, que desejavam manter a ordem; de outro, o India Office, que gostaria muito que o Iraque passasse para o controle do Raj; e, por fim, uma terceira linha defendida pelo Foreign Office, o War Office e o Arab Bureau, cuja estratégia consistia em criar um estado árabe no norte da Mesopotâmia, baseada no desejo da família dos hachemitas. Abdallah, segundo filho do xerife de Meca, subiria ao trono desse novo Estado, que seria batizado de Iraque, enquanto Faissal, o mais novo, ficaria com a Síria.

Essa divisão de poder entre as potências européias no Oriente Médio, porém, contrariava o acordo secreto assinado um ano antes pelo diplomata inglês sir Mark Sykes e seu colega francês, François Georges-Picot, que previa que a França, a Grã-Bretanha e, mais tarde, a Rússia iriam compartilhar a mesma Síria.

Em meio à complexa situação política da região, os britânicos precisavam decidir quem ficaria encarregado de administrar o Iraque. Inicialmente, o general Stanley Maude assumiu a responsabilidade, comprometendo-se a respeitar a autonomia iraquiana. Maude se engajou na construção da estrada de ferro Bagdá-Kut e adotou medidas sanitárias, que, ao menos para ele, não foram suficientes: em 14 de novembro de 1917, ao visitar uma escola israelita em Bagdá (a cidade contava então com uma das comunidades judaicas mais importantes do Oriente Médio), o major-general bebeu um copo de leite infectado e morreu de cólera quatro dias mais tarde.

Os partidários da Rule Britannia mais estrita aproveitaram-se da morte de Maude para retomar seus interesses. Uma nova oportunidade surgiria para eles em março de 1918, com a nomeação de Percy Cox para o posto de embaixador em Teerã. Este deixaria em Bagdá uma equipe composta pelo novo comissário civil, seu adjunto Arnold Wilson, conhecido como “AT”, de caráter excessivamente rígido, e de Gertrude Bell, a secretária oriental para questões administrativas.

Em abril de 1920, a Conferência de San Remo submeteu o Iraque e a Palestina a um mandato britânico por decisão da Liga das Nações, ancestral da ONU que concedeu à França um mandato análogo sobre a Síria e o Líbano. Em agosto do mesmo ano, ao mesmo tempo que Lawrence da Arábia redigia seu protesto ao Observer, dos 534 funcionários de postos elevados no alto comissariado britânico na Mesopotâmia, apenas 20 eram iraquianos. Entre os subalternos a proporção era de 2.167 autóctones contra 1.831 indianos. Como se não bastasse o elevado número de estrangeiros na administração do novo Iraque, os britânicos também tentaram transferir o poder das tradicionais estruturas tribais para uma nova aristocracia local baseada no modelo inglês. Junte-se a isso o fato de os ingleses terem destituído uma série de notáveis iraquianos em quem não confiavam e outros erros do mesmo calibre e teremos a receita perfeita para a insurreição que eclodiu naquele ano contra as forças de ocupação.

Iniciado em junho, o levante estendeu-se por toda a região rural do Iraque, com exceção do Curdistão. À frente da revolta estava a maioria xiita, encabeçada pelos dignitários religiosos das cidades santas de Nadjaf e Kerbala, e as tribos beduínas, em particular as do médio Eufrates. A resposta inglesa veio na forma de uma repressão impiedosa, em uma operação na qual os aviadores da Royal Air Force não hesitaram em lançar sobre os insurgentes o famoso gás mostarda que tantos estragos havia causado no front europeu. A ação tinha o respaldo do próprio ministro inglês da Guerra e do Ar, Winston Churchill, que em maio de 1919 havia afirmado ser favorável ao uso do gás envenenado “contra as tribos não civilizadas”. Segundo ele, “a perda de vidas deveria ser reduzida ao mínimo. Inútil se servir unicamente dos gases mais mortíferos: podemos utilizar outros que provoquem um sério desconforto e permitam semear uma boa dose de terror sem causar efeitos permanentes graves sobre aqueles que podem ser atingidos por eles”.

A situação logo assumiria contornos de pesadelo: cerca de 9 mil mortos e feridos do lado árabe contra 1.500 a 1.800 do lado britânico, sem contar os 600 desaparecidos. Diante do desastre, Churchill começou a cogitar uma retirada das tropas de Sua Majestade. Militarmente, a situação melhorou a partir de setembro, com a reconquista das regiões a norte, oeste e leste de Bagdá, o que permitiu o isolamento da zona rebelde do médio Eufrates. Nesse contexto, os ingleses decidiram reorientar sua política em relação ao Iraque e para isso sir Percy Cox foi chamado de volta às pressas, em outubro de 1920, para assumir o posto de alto-comissário no lugar de Arnold “AT” Wilson.

Partidário de um “autogoverno” árabe (“de fachada”, precisaria em suas cartas), Cox encarregou, em 11 de novembro de 1920, um notável bagdali, Mohammed al-Kailani, da formação de um gabinete autóctone, o primeiro governo árabe no Iraque desde o saque de sua capital pelos mongóis, em 1258. A iniciativa, naturalmente, tinha segundas intenções: o objetivo dos britânicos era contemplar seus fiéis aliados hachemitas. Em julho de 1920, Faissal, terceiro dos quatro filhos do xerife de Meca, havia sido expulso do trono da Síria pelo exército francês três meses após sua coroação em virtude dos acordos Sykes-Picot e da Conferência de San Remo. Imediatamente, Londres procurou um reino substituto para esse fiel aliado. Inicialmente a Mesopotâmia estava prometida para o filho mais velho do xerife de Meca, Abdallah, mas como este havia montado por conta própria um feudo na Transjordânia (ver glossário), o futuro Iraque surgiu como uma ótima opção para contemplar Faissal.

A política do Império Britânico para o Oriente Médio foi sacramentada em uma conferência realizada em março de 1921, na cidade do Cairo, no Egito, sob a presidência do recém-empossado secretário de Estado britânico nas Colônias, Winston Churchill. Foi essa reunião que definiu a divisão de poderes na região: para Abdallah foi dada a coroa da Transjordânia, para Faissal, a do Iraque. Agora, só restava garantir o aval dos próprios iraquianos para a decisão. Essa, porém, não seria uma tarefa fácil, como bem observou o perspicaz secretário de Estado para a Índia, Edwin Montagu, já que os funcionários britânicos no Iraque continuavam a privilegiar a minoria sunita em detrimento dos xiitas, sempre muito renitentes, e a usar os curdos como “tampão” face aos turcos, confinando-os nas regiões montanhosas.

O próprio Faissal, como todos os hachemitas, era sunita, e a primeira coisa que fez ao desembarcar no Iraque em junho de 1921 foi realizar um hábil périplo pelas cidades santas xiitas de Nadjaf e Kerbala, antes de chegar a Bagdá. Em julho, um “referendo” faria dele o futuro rei, com 96% de aprovação da população. O resultado, no entanto, tinha pouco de espontâneos, os ingleses haviam manipulado a consulta lançando mão de artifícios como o de fazer eleitores iletrados acreditar que se tratava de uma consulta sobre o abastecimento de açúcar ou convencer os xiitas de que os hachemitas eram partidários de sua concepção do Islã.

Em 23 de agosto, Faissal foi coroado na presença de Percy Cox e do general Aylmer Haldane ao som de uma fanfarra que tocava God save the King, o hino nacional do Reino Unido. A mensagem foi plenamente compreendida e correspondida pelo recém-empossado soberano, que em 10 de outubro de 1922 assinaria o primeiro tratado de amizade anglo-iraquiana. O mandato britânico sobre o Iraque expiraria em setembro de 1932, mas a influência inglesa permaneceria graças a pessoas como Gertrude Bell, que havia sido a principal conselheira britânica do rei Faissal, e Kinahan Cornwallis, veterano do Arab Bureau transformado em “conselheiro especial” do ministro iraquiano do Interior. Apoiada pelo poder inglês, a dinastia hachemita permaneceria no poder por mais 25 anos após a morte de Faissal, em 1933. Esse período, porém, se encerraria abruptamente em 14 de julho de 1958 com o assassinato do rei Faissal II e de sua família por militares golpistas. O atentado iniciaria o ciclo de agitações políticas que conduziram Saddam Hussein ao poder em 1979.

CRONOLOGIA

1914
Tomada do porto iraquiano de Basra por um corpo expedicionário britânico durante a Primeira Guerra Mundial

1916
Assinatura do acordo Sykes-Picot. Otomanos derrotam as tropas inglesas no Iraque em abril, na cidade de Kutal-Amara. O xerife de Meca, Hussein ibn Ali, e seus filhos iniciam uma guerrilha antiturca no centro da Península Arábica com o apoio de Londres

1920
Liga das Nações coloca o Iraque e a Palestina sob mandato britânico

1921
Faissal, filho de Hussein ibn Ali, é eleito rei do Iraque

1945
Os britânicos deixam o Iraque

1979
Saddam Hussein sobe ao poder

1991
Iraque invade o Kuait e Estados Unidos interferem, dando início à Guerra do Golfo

2003
Invasão do Iraque pelo exército americano com o apoio dos ingleses

GLOSSÁRIO
TRANSJORDÂNIA: compreendia o território da atual Jordânia mais a Cisjordânia.

ACORDO SYKES-PICOT: acordo secreto firmado em 1916 pelos governos da Inglaterra e da França para estabelecer as zonas de influência de cada país sobre os territórios do antigo Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial.

História Viva
http://www2.uol.com.br/historiaviva/

Fed inclinado a continuar com reduções de juros para tranqüilizar o mercado

Chris Flood

O espectro ameaçador da recessão indica que há uma grande expectativa de que o Federal Reserve dos Estados Unidos (o banco central norte-americano) reduza ainda mais as taxas de juros na quarta-feira, depois da redução de emergência da semana passada, em 75 pontos-base. A única incerteza parece ser a de saber se são necessários outros 25 pontos-base ou 50 pontos-base de tranqüilidade monetária.

Os números de quarta-feira sobre o produto nacional bruto dos EUA vão mostrar que o crescimento se desacelera drasticamente, mas os dados desta semana podem revelar se os receios dos investidores sobre a aparentemente inevitável recessão são totalmente justificados pelos dados mais atuais de atividade econômica.

As esperanças de que o mercado imobiliário americano esteja chegando a um ponto de virada foram disseminadas por um encorajador declínio no estoque de casas à venda em dezembro, anunciado na semana passada.

As vendas de casas novas tiveram uma retração para seu nível mais baixo em quase 13 anos e uma nova queda é esperada, de 647.000 em novembro, para 645.000 nos dados de dezembro, que serão divulgados esta segunda-feira (28). Mais fragilidade nos preços de imóveis parece ser inevitável, com a queda em relação ao ano anterior, no indicador Case-Shiler Home Price, que será divulgado na terça-feira, e se espera que vá de 6,1% em novembro para 7,2% em dezembro.

Prevê-se que a confiança do consumidor americano, a ser divulgada na terça-feira, caia de 88,6 em dezembro, para 87 em janeiro, refletindo os elevados custos da energia e a desaceleração no mercado de trabalho dos EUA.

A previsão de consenso para o PIB do quarto trimestre, que sai na quarta-feira, é de que o crescimento anualizado se desacelere de 4,9% no terceiro trimestre para 1,2%. Os mercados monetários estão avaliando os preços com uma nova redução nas taxas de juros nos EUA para 2,5% até o final do ano e a declaração do Fed, acompanhando o anúncio da taxa na quarta-feira será vital para avaliar se já foi calculado o preço de um excesso de tranqüilidade monetária.

As pressões inflacionárias serão fundamentais para o julgamento dos responsáveis pelas instâncias decisórias, com a medida de inflação preferida do Fed, esperando-se que o deflator do núcleo do consumo pessoal fique em 2,2% em dados de dezembro a serem divulgados na quinta-feira.

A desaceleração no mercado de trabalho americano é evidente com a alta na taxa de desemprego de 4,4% em março para 5% em dezembro. Os ganhos em empregos forneceram um apoio crucial para gastos com consumo, e um grau mais elevado de sensibilidade da parte dos investidores pode ser esperado ante qualquer novo abrandamento no crescimento de empregos. A previsão de consenso para as folhas de pagamento do setor não-agrícola de janeiro, que sai na sexta-feira, é de uma alta de 55.000 depois de uma desanimadora alta de 18.000 em dezembro.

A atividade industrial está se enfraquecendo, esperando-se que a medida da pesquisa do Institute of Supply Management (ISM) a ser divulgada na sexta-feira mostre queda de 47.7 em dezembro, para 47 em janeiro.

Financial Times

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/

O impacto dos mergulhos

Áreas que concentram atividades, como aulas ou exploração turística, podem estar ameaçadas e por isso mesmo exigem controle maior

Daniela Muramatsu e Fábio Lang da Silveira

O mergulho autônomo já foi considerado uma atividade de impacto reduzido para os ecossistemas marinhos. Evidências recentes, no entanto, demonstram que as comunidades coralíneas podem ser degradadas se submetidas a planos de manejo malfeitos ou a intensa atividade turística.

Estudos sobre a reprodução de corais pétreos brasileiros surgiram apenas recentemente, entre o fim da década de 90 e início de 2000. Das 16 espécies que vivem em profundidades até 30-40 metros, ou em águas rasas descritas para o Brasil, metade já foi estudada quanto a seus aspectos reprodutivos. Esse tipo de abordagem geralmente envolve a coleta de animais em seus habitats marinhos, o que exige planejamento adequado e deve levar em conta não só os objetivos finais da pesquisa, mas também os potenciais impactos negativos, principalmente na etapa de coleta (Quantas coletas? Quantos corais por coleta? Qual o tamanho desses corais? Como vamos coletar?).

Os organismos marinhos estão sendo confrontados com distúrbios ambientais gerados pelo homem muitas vezes com caráter contínuo e crônico, que impossibilitam a recuperação. Além disso esses distúrbios podem ocorrer com grande freqüência e intensidade, pondo em xeque a capacidade desses animais de se adaptarem às condições não familiares em um curto período de tempo. Por isso mesmo é importante que as pesquisas com corais e outros organismos marinhos produzam o mínimo impacto tanto aos indivíduos quanto às comunidades a que pertencem.

Essa preocupação em minimizar os impactos surgiu logo no início do desenvolvimento do projeto de mestrado de um dos autores deste artigo (Daniela Muramatsu), realizado na área de zoologia da Universidade de São Paulo (USP) entre os anos de 2004 e 2007. O projeto envolveu a coleta (devidamente autorizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama) com mergulho autônomo (scuba, em inglês) de colônias do coral pétreo Madracis decactis, que ocorrem na baía de Ilha Grande, RJ, na Estação Ecológica de Tamoios.

O primeiro passo para a elaboração da metodologia foi um levantamento bibliográfico dos estudos sobre a reprodução de corais que utilizavam uma metodologia parecida com a que iríamos empregar. Esse passo inicial foi fundamental para a definição de um número mínimo de coletas e de corais e seu devido tamanho, o que garantiria o desenvolvimento da pesquisa ao mesmo tempo que produziria o menor impacto possível. Entretanto, logo no início dos mergulhos, observamos que alguns aspectos da metodologia estabelecida deveriam ser ajustados à realidade que encontramos no ambiente de coleta (na baía da Ilha Grande, RJ). O objetivo desse cuidado foi o de minimizar esses impactos. Assim, por exemplo, optamos por coletar colônias que já estavam soltas em vez de quebrar partes maiores de corais e reduzimos o tamanho das amostras, pois percebemos que não havia necessidade de analisar amostras grandes para o tipo de estudo que faríamos.

As áreas marinhas protegidas são, atualmente, um dos melhores instrumentos de gerenciamento para a conservação de comunidades coralíneas e recifes de corais e por isso atraem tanto pesquisadores como turistas mergulhadores, permitindo um contato íntimo e inesquecível com a vida marinha. Durante o desenvolvimento do trabalho observamos muitos turistas mergulhadores no local de coleta (muitos deles iniciantes em treinamento), principalmente nas estações de verão e primavera, o que nos chamou a atenção sobre os potenciais impactos dos mergulhos turísticos na região.
Impacto Subestimado

O mergulho autônomo já foi considerado uma prática com impacto irrelevante para os ecossistemas marinhos se comparado a outras atividades, como as práticas extrativistas. No entanto, evidências recentes demonstram que as comunidades coralíneas podem ser degradadas quando submetidas a planos de manejo malfeitos, ou a intensa atividade turística. Muitos trabalhos têm demonstrado que a recuperação de recifes degradados é muito mais lenta que a de recifes saudáveis. A sobrepesca, a poluição, a atividade extrativista e mesmo a de mergulho podem comprometer a capacidade de uma comunidade em resistir e restabelecer-se após eventos de distúrbios.

Assim, já que os nossos ambientes coralíneos são impotentes para impedir as alterações climáticas globais, como a acidificação (ou a perda da alcalinidade) e a elevação da temperatura do mar, é importante que ao menos os conservemos saudáveis para resistir e/ou se recuperar desses eventos. Em 1998, por exemplo, a elevação média da temperatura do mar eliminou cerca de 16% dos corais mundiais de águas rasas, incluindo recifes no Pacífico Oeste, na Austrália e no oceano Índico, considerados os mais bem cuidados e protegidos do mundo.

Quem teve a oportunidade de mergulhar em águas claras e passou alguns minutos apreciando a beleza do fundo do mar pode não saber dos potenciais impactos negativos que alguns de seus comportamentos podem provocar. Não se trata de poluir o ambiente com o lançamento indiscriminado de lixo ou coletar clandestinamente animais e plantas. Esses comportamentos talvez até sejam evitados por orientação dos próprios profissionais do mergulho. Estamos falando dos impactos que muitas vezes passam despercebidos pelo mergulhador e até pelas próprias empresas de mergulho.

Alguns trabalhos têm discutido o efeito do mergulho turístico em ambientes recifais. A pouca flutuabilidade dos mergulhadores, somada à falta de aviso das escolas e operadoras de mergulho sobre os cuidados a serem tomados (e até o próprio desconhecimento dessas empresas a respeito dos danos potenciais de mergulhadores mal preparados), podem provocar impactos nas comunidades visitadas. A quebra de partes da colônia de corais é um dos exemplos mais comuns desse efeito. Pesquisadores estimaram que num mergulho autônomo típico de 60 minutos, entre 4 a 8 metros de profundidade nos recifes de Eilat, no mar Vermelho, um mergulhador quebrava cerca de 1,7 ± 4,9 corais. Multiplicado pelo número de mergulhadores que visitaram esses recifes em 1996, os pesquisadores estimaram mais de 400 mil quebras de colônias de corais por ano.

No Brasil, a maioria das espécies de corais pétreos tem forma maciça e robusta e, portanto, devem ser mais resistentes à quebra. Entretanto, os mergulhos podem afetar os corais sem necessariamente quebrá-los fisicamente.

Sedimentos e Âncoras

A abrasão dos tecidos parece ser suficiente para favorecer a suscetibilidade a doenças infecciosas, resultando muitas vezes em alta mortalidade e perda da cobertura de corais. Outro episódio bastante comum é a ressuspensão de sedimentos provocada pelo toque das nadadeiras no fundo inconsolidado. Aquelas nuvens de sedimentos que se formam quando tocamos as nadadeiras no fundo não prejudicam apenas a visibilidade e o mergulho de outros mergulhadores. Estudos mostraram que corais expostos a curtos períodos de sedimentação (principalmente de grânulos muito finos, do tamanho de siltes) são estressados, apresentam redução da produtividade e aumento da produção de muco, com custos elevados para o animal.

Em recifes onde prevalecem correntezas fortes os mergulhadores atingem rapidamente a postura horizontal uma vez obtida a flutuação neutra. Dessa maneira, suas nadadeiras não tocam os recifes com muita freqüência e poucas quebras de colônia ou ressuspensão são observadas. Mas parece que, nessa situação, os mergulhadores muitas vezes usam as mãos protegidas por luvas para se desviar de corais ou se segurar neles, principalmente para fotografar. Além dos impactos trazidos pelo mergulho em si, as próprias embarcações também podem provocar distúrbios aos ambientes turísticos com a poluição das águas e o lançamento indiscriminado de âncoras sobre os recifes.

O turismo subaquático cresceu muito nas últimas décadas e por isso é fundamental estabelecer um nível de uso adequado, em que o ecossistema seja capaz de lidar com certo limite de distúrbios e stress, acima do qual a degradação começa a manifestar-se, uma vez que mesmo níveis baixos de stress crônico ou repetitivo podem ter impactos severos na reprodução e nas taxas de crescimento dos corais. Alguns pesquisadores sugerem que, na ausência de dados específicos para um determinado local, uma boa regra seria manter o uso em níveis até um máximo de 5 mil a 6 mil mergulhos/ano.

Com freqüência, os ambientes marinhos não têm um “preço ambiental” a ser pago pelos consumidores, e a conseqüência disso é que podem permanecer por um preço muito baixo, o que leva a uma sobrecarga. Quando o acesso é livre, usuários individuais (mergulhadores) provavelmente não são incentivados à conservação, o que pode resultar na sensação de que a propriedade de todos é responsabilidade de ninguém.

Um bom gerenciamento de ecossistemas perturbados pelo homem é extremamente necessário, e decisões difíceis terão de ser tomadas com os limitados recursos para conservação. Por isso, estudos mais específicos a respeito do impacto de mergulhos são importantes, principalmente em locais com grande demanda turística e/ou muito utilizados para aulas de mergulho autônomo, com a presença de aprendizes com pouco controle de flutuabilidade e com maior potencial de danos ao ambiente.

Essas decisões difíceis devem passar por ações diretas, como a limitação do número de mergulhos por local/ano, a transferência dos cursos de mergulho e dos mergulhos introdutórios de locais com comunidades marinhas mais frágeis para locais onde as comunidades marinhas são menos diversificadas (por exemplo, sobre fundos arenosos com baixa cobertura de organismos vivos), a instrução de escolas e operadoras de mergulho a respeito dos impactos causados por mergulhadores mal preparados e a conscientização da necessidade do trabalho em conjunto para a conservação desses ambientes, dos quais as escolas e operadoras também dependem de forma direta, justamente pelo atrativo natural propiciado pela vida marinha.

CONCEITOS-CHAVE

É importante que as pesquisas com corais e outros organismos marinhos produzam o mínimo impacto tanto aos indivíduos quanto às comunidades a que pertencem.

- Os organismos marinhos estão sendo confrontados com distúrbios ambientais gerados pelo homem, muitas vezes com caráter contínuo e crônico, que impossibilitam a recuperação.

- A sobrepesca, a poluição, a atividade extrativista e mesmo a de mergulho podem comprometer a capacidade de uma comunidade em resistir, reorganizar-se e restabelecer-se após eventos de distúrbios.

- O mergulho autônomo já foi considerado uma atividade de impacto reduzido para os ecossistemas marinhos. Evidências recentes, no entanto, demonstram que as comunidades coralíneas podem ser degradadas se submetidas a planos de manejo malfeitos ou a intensa atividade turística.

AMEAÇAS SUTIS
Um conjunto de atitudes quase sempre desconsideradas pode provocar danos irreversíveis aos corais. É o caso do contato com luvas, ou ainda mais graves, de lançamento de âncora, capaz de produzir rupturas na estrutura. A suspensão de sedimentos provocada pelo toque das nadadeiras no fundo estressa os corais, que apresentam redução da produtividade e aumento da produção de muco, com custos elevados para o animal.

Nos recifes com correntezas fortes os mergulhadores atingem rapidamente a postura horizontal. Nessa situação, eles muitas vezes usam as mãos protegidas por luvas para se desviar de corais ou se segurar neles.

A abrasão dos tecidos favorece a suscetibilidade a doenças infecciosas, implicando alta mortalidade e perda da cobertura de corais.

As embarcações também podem prejudicar os locais de mergulho, pois provocam a poluição das águas e o lançamento de âncoras sobre os recifes.

PARA CONHECER MAIS
Reef Check – Monitoramento dos Recifes de Coral do Brasil(http://www.recifescosteiros.org.br/reefcheck/historico.php).

Projeto Coral Vivo. Aplica estudos recentes sobre reprodução, recrutamento e distribuição de corais brasileiros no estabelecimento de práticas de recuperação das populações de corais de recifes degradados (www.coralvivo.org.br).

Projeto Recifes Costeiros. Realiza pesquisa, experimentos de manejo, educação ambiental e implementação dos Conselhos Municipais de Defesa do Meio Ambiente (www.recifescosteiros.org.br/prc).

Programa de Monitoramento dos Recifes de Coral do Brasil publicado pelo Ministério do Meio Ambiente – Série Biodiversidade 18, de autoria de Beatrice P. Ferreira e Mauro Maida (http://www.recifescosteiros.org.br/reefcheck/download.php).

Biologia marinha. Renato Crespo Pereira e Abílio Soares-Gomes (organizadores). Interciência, 2002.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

MUITO POUCO PARA VIVER

A miséria da discussão sobre o salário mínimo

Robert Kurz

É a retoma do miserabilismo. A duvidosa sorte do “emprego” transformou muitos até agora desempregados apenas em trabalhadores com baixos salários, em diversas categorias, graças à pressão desmesurada dos serviços de emprego. O que até há poucos anos era considerada uma “relação de trabalho atípica” é agora a normalidade para quase metade dos assalariados: trabalho a tempo parcial, ocupação marginal, trabalho subcontratado, contratos a prazo abaixo dos acordos sectoriais, falsa autonomia na base de recibos verdes, os chamados estagiários. Uma grande parte destas relações de trabalho precarizadas é ultimamente classificada como emprego com segurança social obrigatória, de tal modo que o aumento estatístico deste já não significa o regresso à antiga normalidade. E a maioria destes estimados colaboradores de segunda classe ganha entre “menos de 9 euros” e “menos de 4,5 euros por hora”. Muito pouco para viver, demasiado para morrer.

A miséria do debate sobre o salário mínimo reside sobretudo no facto que ele parece estar bem agarrado nas mãos da classe política. Com um piscar de olho ao rebanho eleitoral, de olho nas sondagens, naturalmente; afinal vem aí uma série de eleições. A posição eleitoral tem que ser ajustada. Portanto, apertar aqui um pouco o parafuso da justiça social, ali desabafar um pouco a frustração. E sobretudo nunca magoar o imprescindível capitalismo. Uma difícil tarefa de spin doctor. A grande coligação chegou de facto a um acordo, após prolongada demora, para um salário mínimo nos correios entre 8 e 9,8 euros. Trata-se de uma concessão para que no sector de ex-serviço público, após a queda do monopólio postal, não ocorra nenhum desassossego, como na Telekom e nos caminhos-de-ferro. Agora prossegue a saga para a fixação do salarial mínimo (cada vez mais baixo) em cada sector. Um salário mínimo legal geral é recusado fundamentalmente pela CDU. O SPD exige-o mostrando músculo para o palco mediático, de olho nas sondagens, sabendo porém, para seu descanso, que o mesmo não é realizável em qualquer coligação presentemente imaginável.

Em qualquer constelação política a questão é sempre a mesma: a despeito de todas as falinhas mansas sociais, o consenso neo-liberal que inclui todos os partidos políticos impôs limites estritos ao discurso sobre o salário mínimo. Os concorrentes dos Correios Alemães, S.A. protestaram contra o acordo do salário mínimo. Ele prejudicaria a concorrência e colocaria em causa a abertura do mercado no sector. Por outras palavras: estas empresas privadas de distribuição de correspondência, segundo as suas próprias declarações, apenas são viáveis no mercado se pagarem salários abaixo do mínimo de existência. Em vez de se tirar a conclusão lógica de que tais empresas não têm direito à existência, força-se a original lógica de que qualquer trabalho de miséria com salário de fome seria “melhor do que nada”. O Grupo Pin (da editora Springer-Verlag) já anunciou, qual gesto ameaçador, o despedimento de milhares de mal pagos. Parece portanto que o salário mínimo constitui uma linha de resistência contra a tarefa “exigida” pelos serviços de emprego, de que os desempregados se devem enfronhar no salário de miséria a qualquer preço, de modo a deixarem de causar custos e desaparecerem das estatísticas. Por isso o acordo havido nos correios quanto à elevação do salário mínimo deve constituir a grande excepção.

“Os salários mínimos são inofensivos se forem baixos”, nas palavras do conhecido presidente do Instituto IFO, Hans-Werner Sinn. E ele aponta com agrado o caso dos Estados Unidos, onde o seu valor se fica por uns notáveis 4 euros. Em Espanha e na Europa Oriental ainda fica um pouco abaixo. Só em comparação com estes casos e com situações extremas aqui na Alemanha, que surgem apenas nas áreas da limpeza e da restauração, é que parece à primeira vista aceitável a exigência do SPD, apoiada pelos sindicatos, de um salário mínimo legal de 7,5 euros. Para uma semana de 40 horas de trabalho isso perfaz 1.200 euros por mês, ilíquidos naturalmente. Na periferia das grandes cidades só a renda da casa custa mais de metade disso. E será isso um “bom pagamento para um bom trabalho” (Müntefering)? Na melhor das hipóteses tratar-se-ia de progredir da miséria para a pobreza. Todo o debate mostra apenas até que ponto já chegaram as relações de descaramento. O capitalismo já não paga “um salário justo para um dia de trabalho justo”, pelo contrário, é óbvio que a única resposta adequada à situação caiu manifestamente no mais completo esquecimento. Se o nível de reivindicação não é para descer abaixo do nível da relva, é preciso um “abanão” à sociedade, mas seguramente em sentido completamente diferente do que o ex-presidente federal Herzog tinha em mente. (1)

(1) Referência ao dito do referido personagem, mencionado no capítulo I do Manifesto contra o Trabalho: “Enquanto para uns o desemprego se deve a reivindicações exageradas, à falta de disponibilidade ou de flexibilidade, outros acusam os «seus» gestores e políticos de incompetência, de corrupção, de ganância ou de traição a determinadas regiões. Mas, ao fim e ao cabo, toda essa gente está de acordo com o ex-presidente da Alemanha, Roman Herzog: seria preciso um «abanão» em todo o país, exactamente como se o problema fosse idêntico à falta de motivação de uma equipa de futebol ou de uma seita política. Todos devem, «de uma forma ou de outra», agarrar-se ao remo com força, mesmo que o remo tenha desaparecido há muito, e todos devem, «de uma forma ou de outra», pôr mãos à obra, mesmo que já não haja nada para fazer (ou só coisas sem sentido). O subtexto desta mensagem triste é inequívoco: aquele que, apesar da sua aplicação, não obtiver as boas graças do ídolo trabalho é responsável por essa situação, e não tem que haver problemas de consciência em abatê-lo ao activo ou pô-lo na rua.” http://obeco.planetaclix.pt/mctp.htm (NT)

Obeco

http://obeco.planetaclix.pt/