Daily Archives: 13/12/2007

O FANTASMA DA INFLAÇÃO

Robert Kurz

O princípio da realidade quotidiana no capitalismo é o porta-moedas. Há muito que toda a gente percebeu que a vida está cada vez mais cara. Desde a entrada do Euro que o vestuário ou a restauração, por exemplo, passaram a custar bastante mais. Na altura falou-se, para acalmar os ânimos, que se tratava de uma mera “inflação sentida”, porque a estatística de maneira nenhuma queria estar de acordo com a experiência prática. O caso da taxa oficial de inflação é sem dúvida semelhante ao da estatística oficial do desemprego: ela está retocada, pois não são tidos em conta na determinação da taxa básica importantes bens de primeira necessidade, entre os quais uma parte dos custos da alimentação e da energia. Entretanto explodiram de sobremaneira os preços das matérias-primas. Com o record histórico de 90 dólares por barril, o preço do petróleo atingiu o limite máximo da dor. As distribuidoras de combustíveis anunciam para o início de 2008 aumentos até 10 %, que serão repercutidos pelos sectores da indústria e dos serviços, numa frente mais alargada. Na mesma ordem de grandeza se apresentarão os preços dos bens alimentares, dos produtos lácteos à cerveja.

O presidente do Bundesbank, Axel Weber, deu o “alarme da inflação”: até ao fim de 2007 a taxa oficial de inflação poderá atingir os 3 %, o valor mais alto desde há 13 anos. Segundo o guru financeiro Douglas Casey, nos Estados Unidos a inflação “real” já andará entre 6 e 10 %. A razão apontada para isso é a elevada procura dos países emergentes, na senda da globalização, com a exportação de sentido único. Mas não se trata, de modo nenhum, da simples relação da oferta e da procura no mercado mundial. A elevada procura é “financeiramente induzida”, o que quer dizer induzida por um enorme crescimento global da massa monetária, na ordem dos dois dígitos. A originária doutrina neoliberal do “monetarismo”, que previa uma estrita limitação da massa monetária, há muito que está fora de serviço. Por todo o mundo, há anos que os bancos centrais alimentam o boom da conjuntura baseada no déficit com um excesso de dinheiro barato, com mínimos históricos da taxa de juro de referencia. As taxas de inflação permaneceram baixas enquanto a “asset inflation” (inflação dos activos), alimentada pelas bolhas financeiras, não se manifestou como procura real. Porém, na medida em que, com o dinheiro das bolhas, que não representa qualquer criação de valor real, se movimentam desde 2000 enormes correntes de bens, regressa o fantasma da inflação.

Com isto se coloca de novo a questão da natureza do dinheiro, já posta de lado pela ciência. Para Marx, o dinheiro era a “mercadoria à parte”, como equivalente geral, o qual em última instância não pode ser desacoplado da substância do valor. Perante a “desmonetarização” empírica do ouro na história do pós-guerra, que parecia já não se coadunar com isso, a teoria de Marx sobre o substancial carácter de mercadoria do dinheiro foi posta em dúvida, mesmo entre os marxistas. Porém, a história da inflação secular do século XX apontava precisamente para o facto de que ao crescente esvaziamento social da produção de mercadorias da sua substância de trabalho, que se agudizou com a revolução microelectrónica, corresponde uma “dessubstancialização” e uma crise do dinheiro. Uma vez que, em resultado da crise financeira que arde em lume brando, de repente se invoca a função durante muito tempo desprezada do dinheiro como “meio de monetarização do valor”, também começa a explodir o preço do ouro já amortizado. A “desvalorização do valor” e com ela o limite do moderno sistema de produção de mercadorias manifesta-se agora também no plano do sagrado dinheiro.

Original DAS GESPENST DER INFLATION in www.exit-online.org. Publicado em Neues Deutschland, 26.10.2007.

http://obeco.planetaclix.pt/

O Brasil está perdendo uma oportunidade histórica

Manuela Carneiro da Cunha

No princípio eram as estruturas matemáticas: nascida na cidade portuguesa de Cascais, Maria Manuela Ligeti Carneiro da Cunha se formou em Matemática na França. A Antropologia só entrou em sua vida um pouco mais tarde – seu mestre foi ninguém menos que o francês Claude Lévi-Strauss. Poucos imaginam, mas Matemática e Antropologia têm muito em comum: “Lévi-Strauss só me aceitou porque eu era formada em Matemática”.
No Brasil, Manuela lutou pelo reconhecimento dos direitos dos índios na Constituição de 1988 e publicou verdadeiras obras de referência sobre História dos Índios. A antropóloga se diz a favor da política de cotas nas universidades. Afirma, porém, que o sistema necessita de um plano específico para os índios.
Professora da Universidade de Chicago, Manuela não abandonou o trabalho de campo na floresta amazônica. Em sua casa, no quatrocentão bairro paulistano do Pacaembu, conversou com a equipe da Revista de História e a antropóloga Lilia Schwarcz. Entre biscoitos recém-saídos do forno e sucos saborosos, Manuela não evitou temas amargos. Acredita que o governo brasileiro deve priorizar investimentos em ciência e tecnologia para a floresta em pé. As políticas de incentivo ao agronegócio, segundo a antropóloga, estariam promovendo um desenvolvimento nada sustentável no país: “Nós já arrasamos a Amazônia Oriental, agora é a vez da Amazônia Ocidental. Se a política é apenas atrelada ao agronegócio e se a noção de desenvolvimento é apenas o aumento do PIB, estamos perdidos…”

Revista de História Da Matemática para a Antropologia foi um grande salto. Como isto aconteceu?

Manuela Carneiro Cunha Formei-me em Matemática em 1967, na França. Meus professores eram de um grupo que usava o pseudônimo coletivo de Nicolas Bourbaki e pretendia refundar a matemática a partir de algumas estruturas básicas. Havia uma grande afinidade entre a matemática bourbakiana e o estruturalismo de Lévi-Strauss. Quando estava escrevendo seu primeiro grande livro, As Estruturas Elementares do Parentesco, Lévi-Strauss consultou um grande matemático francês da velha escola, Hadamard, e perguntou-lhe se a formalização que estava propondo para as regras do casamento não seria passível de um tratamento matemático. Hadamard teria respondido: “Só conheço quatro operações: soma, subtração, multiplicação e divisão. Não vejo como o casamento se enquadra nelas”. Lévi-Strauss falou então com o André Weil, um matemático bourbakiano, que disse: “É claro que dá para matematizar isso”. E há um capítulo dele, dentro do Estruturas Elementares do Parentesco, que é uma matematização algébrica de sistemas de casamento australianos. Havia, portanto, uma afinidade óbvia entre o tipo de matemática que eu tinha feito e aquela na qual Lévi-Strauss se inspirava.

RH E como você chegou até ele?

MCC Lévi-Strauss me inspirava um terror sagrado. Uns amigos me encorajaram a marcar uma entrevista com ele para poder freqüentar o seu seminário. No dia, disse que era brasileira, mas ele só me aceitou porque eu era formada em Matemática.

RH Começaram então suas pesquisas mais dirigidas à Antropologia?

MCC É, só que eu não tinha estudado realmente Antropologia. Não tinha uma formação sistemática. Em 1970 voltei ao Brasil, e Lévi-Strauss me deu uma carta de recomendação: seria meu passaporte. Ouvi falar de um curso na Unicamp que estava começando e fui para lá. Foi ótimo aprender Antropologia Social britânica com Peter Fry e Verena Stolcke, um contraponto total ao que tinha lido até então. Meu primeiro artigo foi sobre a relação entre mito e história, a partir de um movimento messiânico que ocorreu entre os índios canela, do Maranhão, em 1963. Esse movimento anunciava que iria mudar a relação de forças entre os brancos e os índios: os índios teriam todos os bens industriais, seriam donos de fazenda, e os brancos iriam caçar na floresta. Entre os canela – como em praticamente todos os grupos indígenas de língua gê –, conta-se o mito de Aukê, sobre a origem dos brancos. Aukê é um menino índio que é morto e que reaparece como um fazendeiro ou como D. Pedro II. Ele pergunta para os índios e para os brancos que armas e que utensílios para comer eles preferem. Os índios escolhem o arco e os brancos, a espingarda. Os índios, a cuia, e os brancos, o prato. Esta seria a origem da desigualdade. No artigo, mostro que esse movimento messiânico se moldou em uma inversão estrutural do mito de Aukê, como se a história e a desigualdade fossem assim, por sua vez, se inverter também.

RH Como é que o Brasil lida com a questão da preservação do patrimônio imaterial da cultura indígena?

MCC A idéia de patrimônio histórico nacional – e do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) – foi toda formulada e voltada para o patrimônio material, de pedra e cal. Mas no patrimônio imaterial, o importante mesmo é o processo, e o Estado só tem a tradição de legislar sobre produtos acabados. A cultura não é um produto, é um processo dinâmico que está em perpétua modificação. A grande dificuldade é preservar as condições de produção do patrimônio imaterial, como, por exemplo, o conhecimento tradicional. Às vezes, são coisas muito sutis.

RH E como isso é visto na perspectiva dos índios?

MCC Muita gente acha que, como a terra não é propriedade privada nas sociedades indígenas, tudo nessas sociedades é coletivo e comunitário, mas não é assim. No direito costumeiro dessas sociedades, há uma elaboração sobre patrimônio imaterial que pode nos parecer complexa. Por exemplo, os direitos sobre nomes, rituais, canções, danças nos grupos de língua gê, ou padrões de desenhos e nomes nos grupos de língua pano. Entre os gê, ¬há toda uma economia dos nomes próprios. Você não pode dar qualquer nome a uma criança. Existe um acervo de nomes, e determinadas pessoas ou casas têm determinados direitos de usufruto ou de posse do nome. O patrimônio imaterial é regulamentado internamente em cada uma dessas sociedades.

RH Como o Estado deve intervir nessas questões?

MCC A proteção dos direitos intelectuais relativos ao conhecimento tradicional é fundamental e cabe ao Estado. Isto não quer dizer que se deva simplesmente estender direitos de propriedade intelectual – desenvolvidos e ampliados a partir do século XVII – às sociedades indígenas. Há mais de uma década se discute na ONU que mecanismos seriam mais apropriados. Fazer as sociedades tradicionais participarem das decisões e dos benefícios que advêm de seus conhecimentos sem interromper o processo de produção destes está longe de ser algo simples.

RH Como é que você, tendo militado desde muito cedo nessa ação de defesa dos índios, vê hoje o movimento indigenista?

MCC Os índios têm agora seus próprios movimentos, cada vez mais eficazes e organizados. As antigas associações pró-índio, de onde emergiu a maioria dos movimentos propriamente indígenas, não são mais seus porta-vozes ou intermediários. No entanto, acho que existem funções importantes que elas continuam a desempenhar. O Instituto Socioambiental, por exemplo, é um órgão extremamente importante de documentação, treinamento e apoio a projetos indígenas. A Comissão Pró-Índio do Acre teve e continua tendo um papel importantíssimo na questão da educação indígena, formou professores indígenas e agentes agroflorestais de forma excelente – pessoas capacitadas a desempenhar papéis importantes nas comunidades indígenas. Esses órgãos têm hoje papéis essenciais de assessoria. Quanto ao resto, os índios, cada vez mais, têm tomado as rédeas.

Revista de História

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Cultivo de banana tem trabalho degradante

Trabalhadores rurais são pulverizados por aviões agrícolas que lançam agrotóxicos nas plantações do Vale do Ribeira

Blitz de procuradores e auditores do trabalho no interior de SP também identifica informalidade e riscos ambientais

FÁTIMA FERNANDES e CLAUDIA ROLLI

Trabalhadores da maior região produtora de banana do país, o Vale do Ribeira (SP), não têm registro em carteira, não usam equipamentos de proteção, têm de arcar com os custos de suas ferramentas e são até pulverizados por agrotóxicos.
É o que constataram procuradores e auditores fiscais do Trabalho em blitz feita na última quarta-feira em sítios da região de Miracatu (SP), acompanhada pela Folha.
Em outras diligências feitas neste ano na região se verificou ainda que produtores pagam trabalhadores com vales -descontados em mercadinhos da cidade- e os alojam em sítios em condições precárias.
As blitze que ocorreram neste ano e resultaram em 38 autuações por falta de cumprimento da legislação trabalhista são conseqüência de denúncia feita por um trabalhador ao Ministério Público do Trabalho da 15ª Região (Campinas).
“Com as diligências, pudemos verificar que a situação de trabalho na região é mais degradante do que imaginávamos. Além de a informalidade predominar, não há orientação para manipulação de agrotóxicos. Trata-se de dumping social. Como não há perspectivas de trabalho na região, eles se submetem a condições degradantes”, afirma Cláudia Marques de Oliveira, procuradora do Trabalho de Campinas.
Na última quarta-feira, procuradores e fiscais, com o apoio de policiais ambientais de Registro (SP), visitaram dois sítios na região de Miracatu.
A plantação do sítio Taquaruçu, no bairro Barra Funda, de propriedade de Paulo Candido da Silva, foi pulverizada por volta das 10h por um pequeno avião. De perto, parecia um show aéreo, com vôos rasantes, em que o piloto colocava o avião a poucos metros do chão.
Dois empregados do sítio estavam no local, sem se incomodarem com o avião e o “chuvisco químico” que vinha do céu. “Já estou acostumado com isso”, disse Geraldo dos Reis, 40, que trabalha e reside no local há um ano e dois meses.
A poucos quilômetros dali, no sítio Auribe, de propriedade de Alfeu Ribeiro, a fiscalização encontrou trabalhadores sem registro e outros com salário abaixo do piso mínimo no Estado de São Paulo -R$ 410. “Há sonegação de informações. As carteiras de trabalho dos funcionários não espelham o contrato que eles dizem ter feito”, afirma Dimas Moreira da Silva, procurador do Trabalho.

Procedimentos
O MPT informa que abriu procedimento administrativo para avaliar a situação do Vale do Ribeira e orientar produtores e trabalhadores. Uma audiência pública está marcada para dezembro para conscientizar a população e produtores na tentativa de melhorar condições de trabalho e do ambiente. Relatórios serão encaminhados a Cetesb e Ministério Público (estadual e federal).
“Na região, também existem falsas parcerias entre produtor e trabalhador. Os produtores alojam as pessoas, dizem que são parceiros e pagam o que querem. Isso ocorre na maioria dos sítios da região”, diz Silva.
No Vale do Ribeira há cerca de 4.000 pequenos produtores de banana espalhados em 17 municípios, onde trabalham ao menos 28 mil pessoas.
A produção chega a 1 milhão de toneladas, o que equivale a aproximadamente R$ 400 milhões anuais. A área plantada está próxima de 40 mil hectares, segundo dados do Instituto de Economia Agrícola, da secretaria paulista da Agricultura. No Estado, o cultivo da banana só perde para o de cana-de-açúcar e o de laranja.
“É inconcebível que o trabalhador na plantação de banana fique exposto a essa situação irregular”, diz o procurador. “É de longe uma das situações mais degradantes que já presenciamos”, afirma Lucíola Rodrigues Jaime, delegada do Trabalho de São Paulo.

Trabalhador pulverizado
Ao pulverizarem plantações na tentativa de conter doenças que atacam as bananeiras, aviões de empresas agrícolas espalham fungicidas não só sobre trabalhadores e moradores mas também em áreas próximas a córregos e minas de água que abastecem a população.
“Esse veneno vai para as casas. E essa é uma região de nascentes. Precisamos fazer um trabalho conjunto com outros órgãos para verificar se há danos causados ao ambiente. Não sou técnico e ainda não há laudos concluídos, mas a banana que sai daqui pode até estar contaminada”, diz Dimas.
É dessa região que vem a banana vendida em supermercados de São Paulo, Paraná, Rio e Espírito Santo. Pequena parte da produção vai para Paraguai, Uruguai e Argentina.
Um dia após a blitz, os proprietários dos dois sítios -Paulo Candido da Silva e Alfeu Ribeiro- assinaram TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o Ministério Público do Trabalho. Eles se comprometeram a regularizar a situação dos trabalhadores.
Paulo Rogério Moreira de Oliveira, auditor do trabalho da subdelegacia em Santos, que acompanhou a blitz, diz que o Ministério do Trabalho tem de intensificar a fiscalização no local, o que significa manter um fiscal fixo no Vale do Ribeira.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

Sabores do cacau com consciência

No Equador, uma rede de produção e comércio solidário reúne 26 mil pessoas, tem gestão baseada em assembléias e conquista consumidores em muitos países. Experiência revela: é possível ser viável oferecendo, ao invés das “vantagens” mercantis, respeito aos direitos sociais e à natureza

Carola Reintjes

Iniciativas de economia solidária e alternativa têm alcançado sucesso crescente em todo o mundo. Parte importante dos consumidores está deixando o hábito capitalista de buscar apenas o preço mais vantajoso e começa a se preocupar com a qualidade dos produtos e — novidade principal — com as condições sociais e ambientais em que são produzidos. Esta mudança cultural torna possíveis experiências como a interessantíssima MCCH, do Equador.

Original desde seu nome, a MCCH reúne as iniciais — em quéchua e espanhol — do princípio que rege a associação: Maquita Cushunchic, ou Comercializamos como Hermanos…. É uma grande organização guarda-chuva de comércio justo, comprometida com os valores e as práticas da Economia Solidária. Não é obra de um pequeno grupo: envolve 26 mil pessoas, produtores, consumidores e comerciantes de produtos que procedem de mais de 400 organizações en 21 províncias equatorianas. Agrupa 12 empresas comunitárias agrícolas e uma empresa comunitária de armazenagem, que presta serviços a cem organizações.

Nasceu de uma experiência de comercialização alternativa nos bairros do sul de Quito, com o objetivo principal de melhorar as relações de intercâmbio de produtos entre a cidade e o campo — tradicionalmente nas mãos de alguns monopólios. A MCCH foi fundada em 1985 com o único objetivo de abastecer as populações das favelas de Quito com produtos alimentícios mais baratos, procedentes de pequenos agricultores. Com o tempo, foram se desenvolvendo progressivamente muitas “lojas populares ou camponesas”, pequenos comércios que oferecem produtos básicos de alimentação. A MCCH é célebre em várias partes do mundo por seu produto mais conhecido, o cacau, mas produz também alimentos ecológicos, como o açúcar da cana, a rapadura, e os fungos secos. Também oferece produtos artesanais, como malhas e objetos em madeira de balsa.

A rede orgulha-se de sua viabilidade econômica. E é gerida por meio de assembléias de produtores
Atualmente, o principal objetivo da MCCH é apoiar o fortalecimento das organizações associadas, através de ações comunitárias de comercialização e formação, segundo princípios de solidariedade, e com a vontade de transformar a sociedade equatoriana. Os camponeses trabalham em fazendas ecológicas, nas quais produzem para consumo próprio e para a exportação. A produção é diversificada, para diminuir a dependência: pimenta, coração de alcachofra, milho anão, batatas para chips, fibra de alpaca.

A MCCH obteve a viabilidade econômica. 100% do artesanato e 95% dos alimentos que produz são comercializados através de canais de comércio justo, assim como 6% do cacau. Do total de suas receitas, 15% vem de um setor inovador, o turismo local. Realizam trabalhos de incidência política através da associação de cacaueiros.

A participação democrática dos grupos de gestão realiza-se por meio das assembléias regionais e da assembléia geral, compostas por representantes de todos os grupos.

A MCCH tem como um de seus principios fundamentais trabalhar sob critérios de produção ecológica ou, ao menos, de tecnologia amigável com o meio ambiente. Isso significa a ausência de agroquímicos prejudiciais. A certificação ecológica não se faz de forma parcial, para cada produto, mas para o conjunto de cada propriedade. Vigora o conceito de “bem integral”, onde também os animais interagem com o ambiente, num processo produtivo ecológico. A maior parte do que se produz nas terras é o cacau ou a cana de açúcar, mas também os outros produtos destinados ao consumo são ecológicos.

Ao invés das pressões mercantis por preço baixo, o apoio dos consumidores conscientes
A MCCH é filiada à IFAT, a Associação Internacional de Comércio Justo, mas, mesmo antes de se associar, já trabalhava com os princípios da agricultura ecológica. Enrique Medina, o economista agrícola da organização, relata. “Nosso trabalho consiste mais em manter os valores e condutas que os produtores herdaram de sua cultura ancestral. Na gestão de seus cultivos, eles seguem naturalmente os critérios do comércio justo. Entretanto, correm o risco de ser invadidos por tecnologias introduzidas pelas grandes empresas, que fomentam o cultivo convencional. Ao ofercer alguma assistência agropecuária, o pessoal do MCCH, ratifica os princípios originais da produção nativa. O que mais tem influido na conservação de suas formas produtivas é a motivação”.

Medina explica que, além do orgulho por seus métodos conscientes de cultivo, os produtores têm se animado com a abertura crescente dos consumidores a estes princípios. “O que mais os motiva é saber que o produto cultivado sobre as mesmas premissas que vinham trabalhando historicamente tem valor no mercado. Desta maneira, as tradições culturais dos agricultores entram em sinergia com os critérios do consumo responsável que estão se difundindo pelo mundo”.

Esta mudança de hábitos tem sido capaz de evitar a introdução das lógicas capitalistas no cultivo. O economista prossegue. “Diante de situações adversas, o pequeno agricultor encontra duas possibilidades para manter-se no modelo convencional: ou super-explorar a mão de obra, ou os recursos naturais. Muitos produtores, como não dispõem de capital de inversão, super-exploram a mão de obra familiar, as terras ou ambos, para chegar ao mercado”.

Projeto: ser “opção não apenas para a classe média, mas para todos os consumidores”
As conseqüências são duras: “No Equador, está sendo rompida a fronteira agrícola da produção a 4 mil metros acima do nível do mar, onde antes só havia desertos e pastagens. Isto não é sustentável. O sistema econômico operante levou os camponeses a explorar a única coisa que têm: pouco terreno e mão de obra. Há outros fatores adversos, que também atacam drasticamente os produtores no Equador, como uma refoma agrária inadequada e uma má distribuição de terras. Esta dinâmica de sobre-exploração dos recursos naturais, que considera a agricultura e o terreno como simples mercadorias, vai encurralando o desenvolvimento das pessoas e da terra”.

A MCCH não se limita a denunciar. Propõe saídas: “Estamos dando impulso a opções mais sustentáveis, mais dinâmicas, e vamos recuperando alternativas para não abusar desses espaços. Como organizações de comércio justo, temos que fazer a cadeia de comercialização mais eficiente. No momento que superarmos esta dificuldade e tivermos preços mais competitivos, veremos resultados. Seremos verdadeiramente uma grande opção, não somente para um cidadão de classe média-alta, mas também para todos os consumidores”.

Os objetivos são ambiciosos. Enrique Medina explica. “Fazer a cadeia mais eficiente passa por incrementar volumes de produção e comercialização. Se continuarmos sendo marginais quanto ao nível de consumo, isso vai gerar problemas em todos os pontos da rede. Por outro lado, é importante continuar trabalhando na sensibilização. Quando o volume de compras e consumo for maior, estou completamente convencido de que a cadeia será mais eficiente. Nossa dinâmica poderá enfrentar o Golias dos valores mercantis. Queremos conquistar os consumidores gerando consciência”.

Jornal Le Monde
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Os erros da esquerda sobre Tropa de Elite

Luiz Antonio Magalhães

O autor desta coluna já estava se sentido um verdadeiro ET, mas finalmente viu o filme que todo mundo anda comentando. E achou Tropa de Elite excelente, bem acima da expectativa que tinha a respeito da fita. É violento? Sim, Tropa de Elite é violento, mas não mais do que Pixote ou Carandiru, por exemplo. Na verdade, a polêmica que o filme causou se deve muito menos à violência presente na tela do que a um certo esforço de setores da intelectualidade em estigmatizar Tropa de Elite e o protagonista, o capitão Nascimento, como uma fabricação da direita a serviço da visão linha-dura da política de segurança no país, especialmente no Rio de Janeiro. Ou, em outras palavras, que o filme é “fascista” porque estaria a indicar medidas de força como as únicas possíveis para o problema da violência.

Vamos por partes. Primeiro, dá para compreender este tipo de leitura do filme, mas ela é profundamente injusta. Na verdade, intelectuais de esquerda têm uma dificuldade grande para formular idéias razoáveis na área de segurança pública. Em geral tratam a questão a partir do que escreveu o filósofo Michel Foucault, autor de Vigiar e Punir – e mesmo isto está presente no filme, em uma passagem que se revela bastante irônica com Foucault. Portanto, para a maior parte da militância de esquerda, segurança é sinônimo de “aparelho repressor do Estado” (capitalista, naturalmente). Partindo deste referencial, de fato sobra muito pouca coisa além de pregar a melhoria das condições de vida dos mais pobres, como se isto pudesse significar necessariamente uma diminuição da violência. É até óbvio que a violência seja menor com a redução da desigualdade social, mas isto não é suficiente e deixa de fora fenômenos importantes como o tráfico de drogas. Afinal, que outra atividade – concessões de estradas em gestões do PSDB à parte – tem taxa de retorno tão alta? Em outras palavras, não basta apenas trazer perspectivas de educação e emprego para os pobres, porque o tráfico é uma máquina de fazer dinheiro a serviço de uma melhoria rápida e profunda na vida dos que com ele se envolvem, em que se pesem os riscos envolvidos na atividade.

A questão das drogas

A esquerda certamente se irrita com a forma com que os estudantes maconheiros e cheiradores são apresentados no filme. Mas o que se apresenta ali é uma caricatura, necessária para o que o diretor se propôs a discutir. Afinal, não é simplismo algum dizer que o sujeito que cheira cocaína está, em última análise, financiando um esquema criminoso que resulta nas mortes e verdadeiras carnificinas nos morros. Isto é fato, não é simplificação. Quem toma Red Label pode eventualmente matar alguém no trânsito, mas jamais terá fornecido recursos ao crime organizado (a menos, é claro, que compre a bebida de contrabandistas)…

No fundo há duas formas de ver as coisas quando o assunto é droga: ou se defende a liberação total e completa de todo tipo de substância tóxica, como defendem muitos economistas liberais da Escola de Chicago, sob a alegação de que o custo para combater o tráfico é mais alto do que os benefícios deste combate; ou se enfrenta o tráfico e se reprime o consumo. Uma parte da esquerda aceita bem a idéia da liberação das drogas e pode assim ter motivos para a indignação com a maneira como o filme trata os jovens consumidores. A parte da esquerda que concorda com a proibição dos tóxicos, porém, também reclama e se apega na questão dos “direitos humanos” – exige da polícia tratamento, digamos, mais civilizado com o tráfico e também alguma tolerância com os consumidores. A segunda postura, no fundo, é apenas uma fuga do debate real.

Herói para quem precisa

Voltando ao filme, o que o diretor José Padilha fez foi mostrar as várias faces de uma questão bastante complexa, qual seja, a da violência urbana que, em boa parte, mas não apenas, se deve ao tráfico de drogas. O capitão Nascimento, protagonista de Tropa de Elite, não é retratado de forma alguma como um super-herói: tem síndrome do pânico, bate em mulher, faz uso da tortura e é assumidamente um justiceiro.

Aliás, alguém já escreveu, em observação bastante perspicaz, que Padilha não utiliza certas artimanhas, muito comuns em filmes norte-americanos, para fazer o público simpatizar com o “herói”: ninguém ameaça o filho do capitão ou mexe com a mulher dele. Pode-se acrescentar que também não há nenhum momento em que Nascimento sofra uma emboscada ou apareça em situação difícil da qual consegue se livrar milagrosamente.

Na verdade, o fato de boa parte do público aceitar o capitão Nascimento como herói diz mais a respeito de um estado de espírito presente na população, especialmente no Rio e São Paulo, do que é propriamente fruto da intenção do diretor. É evidente que para quem já sofreu ou sofre com a violência urbana, o modo de agir do Batalhão de Operações Policiais Especiais acaba sendo celebrado como solução, até porque, na polícia convencional, como o filme deixa claro, poucos confiam…

Assim, não se pode dizer que o filme seja fascista, embora parte do público esteja ávida por soluções fascistas para a tragédia da violência brasileira. Quando o capitão Nascimento diz que quem entra no Bope está indo para guerra, isto é apenas verdadeiro e não havia outra forma para o diretor de Tropa de Elite retratar tal realidade.

No fundo, do ponto de vista da esquerda, melhor do que discutir se o filme está a serviço da direitosa política linha-dura da segurança é tentar formular com alguma clareza o que deve ser uma política cidadã de segurança pública. Nas atuais circunstâncias, o autor destas mal traçadas duvida que fosse possível prescindir de gente como o capitão Nascimento e de uma tropa de elite tal e qual a do Bope. Por uma razão simples: há mesmo, nas duas maiores cidades do país e em alguns entrepostos ou cidades estratégicas para o tráfico, como Campinas, uma guerra urbana em andamento. Infelizmente , é esta a realidade hoje e dá para entender o motivo de tamanho entusiasmo com o Bope.

Em tempos de paz, quem sabe o Batalhão de Operações Policiais Especiais seja simplesmente desnecessário e o capitão Nascimento compreendido apenas e tão somente como um personagem de dias confusos que o país enfrentou. É pelo que nos resta torcer.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

O futebol e suas razões de Estado

As relações entre o mundo político e o da bola sempre foram íntimas. Com a confirmação do Brasil como sede da Copa de 2014, ficam também mais perigosas

Flávia Tavares e Fred Melo Paiva

O historiador e torcedor Hilário Franco Júnior está feliz da vida. Torcedor feliz, hoje, significa torcedor são-paulino. Hilário é são-paulino de verdade, daqueles de freqüentar estádio. Na quarta-feira passada, perdeu o jogo do título porque vive metade do ano na França. Até planejara a volta para aquele dia. Mas, com a Air France em greve (e o apagão aéreo na ativa), ficou em casa. Ele acordou de madrugada para ver na internet o placar da partida. Resultado: ficou feliz da vida.

O paulistano, de 59 anos, é um especialista em futebol. Desde 2003 ministra curso sobre a história social desse esporte para alunos de pós-graduação da Universidade São Paulo. Seu interesse pelo tema extrapola as quatro linhas e o limite dos estádios. A partir da análise do jogo e suas adjacências, Hilário trabalha em campos diversos, da sociologia à religião, da antropologia à lingüística. “O futebol é uma manifestação tribal, antropológica, de sociedades de todos os cantos do mundo há muito tempo”, diz. Ganhador de dois prêmios Jabuti – por A Eva Barbada (Edusp) e Cocanha (Companhia das Letras) -, é autor também de A Dança dos Deuses (Companhia da Letras), o fruto de seu mergulho no universo da bola.

Na França ninguém sabe que Hilário entende de futebol. Pesquisador da École des Hautes Études en Sciences Sociales, seu negócio, por lá, é história medieval. Trabalha com o maior especialista do mundo na matéria, Jacques Le Goff. Na semana em que o Brasil foi confirmado como sede da Copa de 2014, ele conversou pela primeira vez sobre a possibilidade de traduzir para o francês seu livro de futebol – é possível que, agora, mais gente se interesse pelos pontos de vista de alguém nascido na República do Futebol. Ou na meca do esporte, como sugeriu Michel Platini. “O Brasil está no mapa-múndi em boa parte graças ao futebol.”

De sua casa em Paris, Hilário Franco Júnior concedeu ao Aliás a seguinte entrevista:

O que o senhor achou da caravana de políticos brasileiros que foi a Zurique para ouvir a confirmação do Brasil como sede da Copa de 2014?

O futebol hoje é business, espetáculo e aparências. Essa caravana, embora desnecessária, faz parte dessa lógica. Desnecessária porque se sabia qual seria a revelação da Fifa, já que o Brasil era o único candidato para sediar a Copa. Mas justamente o fato de ser o único candidato esvaziava o impacto da oficialização. Para recuperar esse impacto, que interessa a muitos, montou-se essa cena toda.

A CPI do futebol apontou diversas irregularidades das entidades que comandam o esporte no Brasil. Mas os governos mantêm uma boa relação com elas . Por que há tanta tolerância com a corrupção no futebol?

Eu diria que pela mesma razão que nós toleramos o mensalão, a crise aérea, etc. O Brasil tem uma história de tolerância que países mais críticos não têm. Por ser o futebol um produto tão popular, os políticos tentam se aproximar dessa fonte de popularidade e não medem o grau ético do mundo dos cartolas.

O futebol continua servindo de trampolim para carreiras políticas?

Não da forma que servia há algumas décadas, quando dirigentes se elegiam para cargos públicos. Atualmente, há exceções como o Eurico Miranda (Vasco), o Roberto Dinamite (Vasco) e o Reinaldo (Atlético Mineiro). Mas essa aproximação não é mais tão direta e, por isso mesmo, ela é mais problemática – para não dizer mais perigosa. Isso porque essas alianças acontecem nos bastidores, em negociações escusas. Há indícios que nos permitem deduzir que o casamento política-futebol continua bastante forte.

Isso se agrava com a confirmação da Copa 2014?

A Copa pode ser positiva para o Brasil. Porém, a comparação com os Jogos Olímpicos de Barcelona, por exemplo, não procede. Afinal, a Olimpíada aconteceu em uma cidade e a Copa acontecerá no país inteiro – com pelo menos dez cidades-sede. Então, serão necessários aeroportos eficientes, uma rede rodoviária que funcione, uma rede ferroviária que exista, hotéis para todos os bolsos e bem distribuídos geograficamente. Se existem recursos para que essas coisas sejam feitas, por que elas não foram feitas antes? Se não existem, de onde eles virão? É aí que entra a relação com os políticos. Os governadores querem que seus Estados tenham uma cidade-sede para captar e gerir esses recursos e usufruir da infra-estrutura resultante do esforço pela Copa.

Concretamente, como a política pode atrapalhar a Copa?

Vou dar um exemplo prático. Em 1950, nós perdemos a Copa por vários motivos. Um deles foi a soberba. Mas os políticos tiveram um papel decisivo na derrota. A seleção estava concentrada em um hotel nos arredores do Rio de Janeiro, isolada. Na véspera do jogo, os políticos transferiram a seleção para a concentração do Vasco, no meio do Rio. A partir daí começou uma romaria de figurões à concentração. A Copa era em junho e as eleições viriam em outubro. Então, muitos vereadores, deputados e governadores queriam ser fotografados com os futuros campeões mundiais. No dia da final, acordaram os jogadores às 6 da manhã para ouvir blábláblá de um candidato qualquer. Foram dois dias sem sossego. Dá para tirar uma importante lição desse episódio. Poderíamos manter os políticos afastados da seleção, do começo ao fim da Copa.

Novamente, teremos eleições no Brasil em ano de Copa.

Isto é só uma infeliz coincidência. A Copa não seguiu uma seqüência fixa. Foi interrompida com a 2ª Guerra Mundial, por exemplo. E, no Brasil, já tivemos mandatos presidenciais de cinco anos.

Teria sido deselegante o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, responder à pergunta sobre violência no Brasil, feita por uma jornalista canadense, dando exemplos de violência em outros países?

Deselegante é pouco. Esse foi mais um rompante do autoritarismo que ele exerce. Se há uma pergunta que não agrada, use argumentos sobre sua casa. Mesmo porque perderemos em todas as comparações – a não ser a de número de títulos mundiais ganhos.

O que o senhor achou da ausência de Pelé na cerimônia da Fifa?

É, mais uma vez, uma combinação entre deselegância e autoritarismo. Se o Pelé estivesse lá, ele seria o centro das atenções. Espero que isso mude, que ele se envolva. É impensável que a Alemanha organize uma Copa sem que o Beckenbauer esteja à frente do evento. Ou que a França faça a sua sem o Platini.

Chegaremos a 2014 com a infra-estrutura necessária para a Copa?

Sou bastante cético. Espero me enganar, mas os dados históricos sobre comportamentos de instituições dão a entender que não. Nada disso muda da noite para o dia. Vai depender muito de quais pessoas estarão à frente desse projeto. Em sete anos, há uma rotatividade de governos. O que não vai mudar, certamente, é o comando da CBF.

Como o presidente da CBF se mantém no poder há tanto tempo?

O futebol é uma estrutura pouco democrática em todos os seus níveis. Tanto na Fifa quanto nas confederações nacionais, nas federações estaduais e nos clubes. Os presidentes de clubes, no cargo há anos, elegem os presidentes das federações estaduais, que, por sua vez, elegem o presidente da CBF. E os estatutos permitem a reeleição continuada. É quase um poder monárquico.

Não existe oposição?

Sim, existe. Mas sistemas pouco democráticos são tão fortes que conseguem cooptar ou abafar os oposicionistas. Na Copa de 2014, por exemplo, a CBF vai manobrar as federações estaduais com a possibilidade de um Estado ter ou não cidade-sede. A partir daí, veremos uma enorme troca de favores que reproduzirá o que acontece no Congresso brasileiro. A política do é-dando-que-se-recebe acaba por dizimar a oposição, que não consegue aliados suficientes para derrubar o poder instituído.

A Fifa é comparada à ONU quanto à abragência de seus filiados. Que poder ela tem para além do futebol?

A Fifa reúne 208 países e, portanto, movimenta direta e indiretamente bilhões de reais todo ano e envolve milhões de pessoas no mundo. Ela acaba sendo uma instituição que, embora voltada para um único esporte, tem um poder de influir em uma série de setores. A Fifa tem uma atuação mais ativa do que a da própria ONU, que tem um sistema interno razoavelmente democrático. Quando se percebe um absurdo qualquer em algum país, não se entra de um dia para o outro ali. Há um processo de discussões que acaba amarrando a ONU. A Fifa não tem nada de democrático. Por isso, ela tem agilidade para interferir no que lhe parece importante. Nesse paralelo, guardadas as proporções, sente-se mais no cotidiano das pessoas o papel da Fifa do que o da ONU.

A relação entre clubes e jogadores também é algo que beira a disciplina militar. Afinal, não há espaço para a democracia no futebol?

Há um grupo de países, do qual o Brasil faz parte, em que a gestão dos clubes não é democrática. As presidências dos times são passadas quase de pai para filho. Ficam sempre na mão do mesmo grupo. Não é casual o sucesso do São Paulo: além da boa administração, ele é um dos poucos clubes que têm uma democracia interna, com disputas eleitorais reais entre situação e oposição. Nos clubes de países mais democráticos, é um pouco diferente. Por exemplo, o Silvio Berlusconi pode até ser o “dono” do Milan, mas o clube tem ações cotadas em bolsa. Os proprietários minoritários têm instrumentos legais para intervir na empresa-clube se eles acharem que suas ações estão prejudicadas. Isso se reflete nos jogadores, que têm mais liberdade, porque são mais conscientes profissionalmente. Os clubes europeus não fazem concentração antes dos jogos. No Brasil, isso ainda é preciso.

De modo geral, as Copas mudaram radicalmente a infra-estrutura dos países onde foram realizadas?

Não. Há fatos pontuais. O belíssimo Estádio Centenário, no Uruguai, por exemplo, foi construído para a Copa de 1930. Só que o Uruguai tinha um altíssimo nível de vida naquela época. Países com uma situação mais sólida do que a nossa fizeram investimentos grandes, mas para melhorias específicas. A rede rodoviária alemã recebeu reparos para a Copa 2006, mas é de alta qualidade há 40 anos.

Quando sediamos a Copa de 1950, tivemos uma melhora significativa?

Não. Se em 1950 tivéssemos começado a construir metrô no Rio de Janeiro e em São Paulo, muita coisa hoje seria melhor. Nessa lógica, a Copa de 1950 não ajudou o desenvolvimento do Brasil. A vantagem que tínhamos é que os dois principais estádios do País, Pacaembu e Maracanã, eram novos. Agora, estão todos precisando de reformas drásticas. Em compensação, a decisão de que receberíamos a Copa de 1950 aconteceu em 1948. Desta vez, temos sete anos para nos preparar.

Ou para fazer bobagens.

Exatamente. O presidente da Fifa pediu que não fizéssemos a CPI do Corinthians para não atrapalhar a Copa. Atrapalhar em quê? Em dois anos, essa CPI se resolveria e não teria nada a ver com o evento. Um prazo longo pode servir de pretexto, tipicamente brasileiro, para empurrar as coisas com a barriga.

Por falar em CPI, não é estranho que o futebol puna aquele que vai à Justiça comum contra as decisões de suas entidades controladoras?

O futebol tomou uma dimensão que o levou a criar quase um mundo paralelo. Houve um choque muito importante com a decisão da Corte Suprema Européia no caso da Lei do Passe. Um jogador desconhecido de um time pequeno da Bélgica entrou na Justiça “comum” (uma terminologia pejorativa usada no mundo do futebol para definir a única justiça que existe) para dizer que se sentia cerceado em seu direito de trabalhar, já que o clube não queria negociar seu passe. Mas as instituições não têm coragem de ir à Justiça comum, porque correm o risco de ser desfiliadas da Fifa.

O futebol tem o poder de colocar países no mapa?

Sem dúvida. Se não fosse o futebol, acho que estaríamos excluídos de muitos mapas do mundo. Temos uma grande rivalidade com a Argentina, mas temos que admitir que os argentinos são melhores que os brasileiros em muitos planos – talvez só não o sejam no futebol. Claro que o Brasil é um país enorme e não seria ignorado. Porém, o futebol dá uma cidadania internacional a certos países que não têm direito a ela por vias, digamos, mais nobres. Países que não têm uma produção científica, uma história longa, uma contribuição reconhecida internacionalmente acabam aparecendo via futebol. As referências ao Brasil no exterior acontecem em momentos que têm a ver com o futebol ou tragédias.

O craque francês Michel Platini se referiu à Copa no Brasil como uma peregrinação a Meca.

Há um respeito enorme pelo futebol brasileiro. A principal publicação esportiva da França, a revista France Foot, fez, em sua mais recente edição, um dossiê sobre o Brasil. A capa traz estampada uma bandeira brasileira. Nas reportagens, há uma preocupação: eles dizem que o brasileiro é muito bom com a bola no pé, mas fora do campo, em sua organização, há problemas. Se tirarmos o futebol do Brasil, do que falariam sobre o País no exterior? Pontualmente, poderiam surgir alguns aspectos positivos, mas não são muitos.

Por que o orgulho que o brasileiro tem de seu futebol não contagia outras esferas do País, possivelmente melhorando outros aspectos?

Porque o futebol, por mais importante que seja, é um produto da sociedade. Não é a sociedade que é produto do futebol. Quando se tem uma sociedade bem estruturada, o futebol desperta esse nacionalismo de uma forma forte e saudável. A Alemanha tinha uma questão nacionalista muito reprimida, porque toda manifestação remete ao nazismo. Na Copa de 2006 isso foi recuperado, porque a seleção alemã, que começou desacreditada, embalou e a organização do evento foi excelente. O nacionalismo que estava abafado reapareceu a partir do futebol. Nós não temos esse perfil nacional. O nacionalismo brasileiro surge do nada perto da Copa e desaparece depois da Copa, tendo o Brasil ganhado ou perdido.

O músico e escritor José Miguel Wisnik tem uma teoria de que o futebol é a única área em que o jeitinho brasileiro, representado no drible, dá certo. O senhor concorda?

O jeitinho funciona numa representação social, que é o futebol. Mas isso levado para uma vida que pede um plano de organização e rigidez maior não funcionou até hoje e não sei se funcionará. Fora do campo, o que funciona é o estilo inglês e alemão. Pode ser feio para ver o futebol, mas é como a sociedade funciona melhor. As regras do futebol têm um paralelismo com as regras sociais, mas as sociais são mais complexas. A essência do futebol é enganar o outro. Como uma sociedade pode funcionar baseada nesse preceito?

No Brasil, duas das maiores manifestações populares – o carnaval e o futebol – são geridas por pessoas e entidades sob suspeita. O que isso revela sobre o caráter nacional?

Se o objetivo do futebol é enganar o outro, o do carnaval é criar uma ilusão de um mundo perfeito e sem normas por três dias. Tanto um quanto outro são representações do mundo real, mas levadas a um tal nível que acabam se descolando da realidade. Os políticos usam futebol e carnaval como instrumentos. Não podemos dar um diagnóstico fechado, mas, num país onde essas duas manifestações são os eventos mais importantes, isso dá uma pista, sim, sobre o caráter nacional. Somos muito bons na arte de representar e de enganar. O problema é que isso nos leva a mentir para nós mesmos e, assim, a não fazer um plano de nação.

Diz-se que o futebol, com seus uniformes, hinos, bandeiras e gritos de guerra guarda semelhança com uma manifestação fascista. O senhor concorda?

Na verdade, o futebol é uma manifestação tribal, antropológica, de sociedades de todo o mundo há muito tempo. Que esse tipo de manifestação tenha sido incorporado por um regime político X ou Y não pode desnaturar uma manifestação que é maior e mais antiga que esse regime. O fascismo, o nazismo, o stalinismo e até a ditadura brasileira recorreram a tudo isso, mas não por isso o futebol é um esporte de direita ou ditatorial.

Os times de futebol em dificuldade financeira devem ser ajudados pelo governo?

É preciso fazer alguma coisa, mas são as comunidades em questão que devem agir, e não toda a sociedade. Eu, cidadão brasileiro pagador de impostos, não vejo por que teria que pagar pelos desmandos que as diretorias de Flamengo ou Corinthians possam ter feito. Mas, se a comunidade flamenguista ou corintiana se organizar e se cotizar, será importante, porque são instituições que têm história.

O que se pode dizer da exportação dos nossos jogadores e da “obrigação” de que joguem no exterior para que sejam convocados pela seleção?

Eles não são obrigados a jogar no exterior para ser convocados. O caso é que os melhores jogam no exterior. Eles saem porque as propostas dos clubes europeus são atraentes demais para o jogador. Mas quem é esse jogador que vai jogar no exterior? São jovens como outros milhões que não têm oportunidades no Brasil e tentam uma vida melhor lá fora. A gente só percebe mais a ida desses jogadores por conta da profissão deles, que vive sob holofotes. Eles são um porcentual pequeno de jovens de mesmo perfil sociológico que deixam o Brasil para ser motoristas, carregadores, pizzaiolos. Não podemos cercear a liberdade de trabalho de quem tem o dom de jogar bola e deixar o que vai ser pizzaiolo ir embora.

Os brasileiros dão a mesma importância para a seleção que davam no passado?

O torcedor tem uma relação mais forte com o próprio time que com a seleção. Não só porque os jogadores atuam no exterior e não há identificação com o elenco da seleção. Mas, ao torcer por um time, você se identifica com um número menor de pessoas. As emoções ganham um gosto especial, porque você sabe que esse sentimento (de vitória ou derrota) é mais exclusivo, atinge menos pessoas, não o País inteiro. Além disso, a Copa do Mundo tem sete partidas e acontece a cada quatro anos.

O público nos estádios brasileiros passou por um longo período de baixa e agora se recupera. O que isso quer dizer?

O público demorou a se acostumar com o sistema de pontos corridos. No mata-mata, o que podia decidir um campeonato era o improviso e a sorte. O campeonato de pontos corridos exige planejamento. Ora, o brasileiro não tem o hábito de pensar no longo prazo. A organização nunca foi valorizada por nós. Se isso está dando certo no futebol, pode ser um indício positivo para a sociedade.

Jornal Estado de S. Paulo
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A ERA DOS FURACÕES – Cada vez mais numerosos e violentos

Nos últimos anos, o aumento das ocorrências de furacões de categoria 4 e 5 – os mais fortes e destruidores – é apenas uma das conseqüências do aquecimento global. Conheça também as outras.


Por Equipe Planeta

Katrina, o furacão que em 2005 destruiu a cidade de Nova Orleans (EUA), não foi uma surpresa para os meteorologistas. Há muito eles sabem que a aceleração do aquecimento global está aumentando a violência dos fenômenos naturais. A Terra chegou ao ponto de não conseguir mais balancear as piruetas do clima. Assim, como já aconteceu no passado, diversos cenários novos podem aparecer: numa única estação, poderemos nos encontrar num ambiente tropical, ou no início de uma era de frio intenso.

Os norte-americanos não esquecerão agosto de 2005, mês em que o furacão Katrina arrasou a cidade de Nova Orleans: uma catástrofe climática sem precedentes na história dos Estados Unidos. Tratava-se, no entanto, de uma tragédia anunciada. Já no início daquele ano os centros de meteorologia do país avisavam que a temporada de furacões de 2005 seria particularmente intensa. Katrina, por sinal, foi apenas um dos vários ciclones que nos últimos anos varreram a costa sul dos Estados Unidos. O que está acontecendo com o clima nestes primeiros anos do século 21?

Uma primeira resposta chega do prestigioso Massachusetts Institute of Technology, cujos cientistas descobriram uma clara conexão entre o aquecimento global e o aumento da violência dos ciclones tropicais. Segundo esses estudos, nos últimos 30 anos o potencial destrutivo dos furacões atlânticos aumentou em 50%. Também alarmantes são as recentes simulações do National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), que prevêem para o futuro furacões cada vez mais intensos e numerosos como conseqüência do aquecimento global.

Uma pesquisa do Georgia Institute of Technology mostra que, nos últimos 35 anos, a freqüência dos furacões mais violentos praticamente dobrou em relação ao último século. Não apenas: nos anos 70, somente 20% dos furacões atingiam os níveis de força 4 e 5, os mais altos. Mas, nos últimos dez anos, esses furacões se tornaram 35% do total.

A culpa, em princípio, é da temperatura da Terra que não pára de subir. Mas as temperaturas do planeta estão subindo há mais de cem anos. Por que, então, só nos últimos anos, e de repente, os ciclones tropicais parecem ter se tornado mais violentos e destruidores?

Uma resposta poderia ser dada pela teoria segundo a qual as mudanças climáticas raramente acontecem de maneira lenta e gradual, mas sim com variações bruscas e intensas, como a que la que há poucos milhares de anos mudou toda a face do Atlântico Norte.

Há mais ou menos 12 mil anos, alguns milhares de anos depois do período mais frio da última glaciação, a Terra estava rapidamente se aquecendo, e os verões já eram similares aos de hoje em dia. De repente, no curtíssimo período de 50 anos, em toda a América do Norte e na Europa, as temperaturas caíram alguns graus, favorecendo um novo avanço das geleiras e o retorno do gelo.

Aconteceu aquilo que os meteorologistas definem como um Younger Dryas, um “estertor da glaciação”. Ele durou algumas centenas de anos, até que no arco de poucas décadas, em toda a região norte, o clima voltou a ser quente e os gelos se derreteram. Uma brincadeira de mau gosto da natureza? Nada disso.

Até há pouco, os cientistas achavam que as grandes variações climáticas levassem séculos ou até mesmo milhares de anos para se completar. Mas uma das descobertas recentes mais surpreendentes foi a detecção, na história climatológica da Terra, de numerosas variações bruscas e imprevistas do clima, similares à do “estertor da glaciação” descrita ao lado. Atualmente, a ciência faz uma releitura do início e do fim das eras glaciais a partir dessa nova luz.

Com efeito, os ciclos das grandes glaciações, com alternância de picos glaciais (nos quais boa parte das terras do planeta ficam cobertas por espessas camadas de gelo) e períodos quentes intermediários (como este em que estamos vivendo), são regulados pelas variações da órbita da Terra, tanto a sua rotação ao redor do Sol quanto a rotação ao redor do seu eixo: todos eles são ciclos que duram algumas dezenas de milhares de anos.

O estudo das bolhas de ar contidas nos gelos perenes do Ártico e da Antártida, e nos fósseis que jazem no fundo dos oceanos, parece, no entanto, demonstrar que a passagem de períodos quentes a períodos frios aconteceu no passado em apenas algumas centenas e até mesmo algumas dezenas de anos.

De acordo com essa teoria – chamada snowblitz e apresentada já na década de 1970 pelos cientistas Hubert Lamb e Alastair Woodroffe -, a passagem do calor ao frio pode ocorrer na passagem de um único verão! Se, durante uma fase caracterizada por uma queda da intensidade da energia solar que chega à Terra, um inverno particularmente frio fosse seguido por um verão muito ameno, poderia se instaurar um mecanismo em cadeia que em pouco tempo levaria à formação de extensas camadas de gelo sobre a superfície do planeta.

Com um verão ameno, a neve acumulada durante o inverno não se derreteria completamente. A neve que permanecesse refletiria parte da já reduzida radiação solar inclusive durante o outono: um solo coberto de neve absorve apenas 10% dos raios solares e reflete os outros 90%. Seria aberta assim a estrada para outras nevascas abundantes que iriam tornar mais espessa a calota glacial em formação. Em poucas estações, regiões inteiras seriam cobertas por extensas placas de gelo em expansão, dando origem de maneira totalmente imprevista a uma nova glaciação.

Não importa quais forças o obrigam a mudar, o clima possui uma inércia que se opõe às transformações. Quando, porém, os fatores que levam à mudança (alterações da órbita terrestre, anomalias da circulação das correntes marítimas, ciclos solares e o efeito estufa, por exemplo) se tornam insustentáveis, o sistema climático muda de repente e quase sempre de modo radical.

O clima do planeta, em resumo, não varia um pouco de cada vez, de ano em ano, mas parece sujeito a sofrer, de forma imprevisível, grandes variações. Uma das leis fundamentais que regulam a física da atmosfera é que “pequenas ações podem produzir grandes reações”. De repente, forças que agem sobre o sistema climático podem levá-lo à superação de certos pontos críticos, a partir dos quais tem início uma nova fase climática completamente diferente. Esta é a razão pela qual, embora o aquecimento global esteja acontecendo a mais de um século, os ciclones tropicais apenas nos últimos anos estejam se tornando mais numerosos e violentos.

A partir da segunda metade do século 19, as temperaturas médias do planeta se elevaram notavelmente. O aquecimento, porém, não foi constante: existem períodos em que as temperaturas subiram muito pouco, e outros em que a elevação foi vertiginosa. Nesse período, ocorreram também momentos em que o clima voltou temporariamente a esfriar.

A máquina climática, assim, tem a capacidade de se mover em diversas velocidades, bem como de engatar a marcha à ré. Assim se explica a aceleração sofrida pelo processo de aquecimento do planeta nos últimos anos.

Segundo estudos do National Climatic Data Center do Noaa, no século 20, a temperatura média da Terra aumentou em cerca de 0,6º. Esse ritmo, porém, foi muito mais rápido e elevado a partir da década de 1970, quando o aumento da temperatura alcançou a velocidade de 1,7o centígrado. Significa que nos últimos 30 anos o planeta se aqueceu bem mais que nos 70 anos precedentes. O sistema climático parece ter engatado uma marcha superior e ter entrado em uma fase nova na qual o aquecimento veloz chega acompanhado por uma intensificação de fenômenos atmosféricos extremos, como os furacões.

Revista Planeta

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Estética e as Artes Plásticas

Da representação ideal da natureza a uma arte que se realiza na recepção do espectador

Claudia Valladão de Mattos

Ainda que, hoje, o termo “estética” seja em geral aplicado para designar a sub-área da filosofia que se dedica ao estudo do fenômeno artístico e à formulação de uma teoria geral das artes, a Estética, em sentido estrito, é uma disciplina que nasceu no século 18, intimamente associada ao surgimento da concepção de indivíduo moderno. Seu campo de investigação constituiu-se a partir da consciência que se desenvolveu naquele período a respeito da posição singular ocupada por cada sujeito em relação ao mundo e, portanto, da necessidade de conhecer os caminhos que levariam da percepção individual e singular sobre o mundo sensível (seu aspecto harmonioso ou dissonante, por exemplo) à construção de conceitos universais, tais como os de belo, sublime, grotesco, entre outros, que formariam a base para um julgamento seguro sobre a arte. Nesse sentido, podemos dizer que a fundação da Estética, no século 18, significou uma virada da teoria da arte, do campo da investigação sobre a relação da obra com seu modelo, isto é, do campo da teoria da mímesis, para o campo da recepção da obra pelo espectador.

Aqui analisarei as mudanças que a virada em direção às teorias da recepção, ocorrida no século 18, provocou no campo das artes visuais, tentando mostrar como ela contribuiu para a desconstrução do edifício conceitual que sustentava a produção artística, desde o Renascimento, abrindo caminho para os desenvolvimentos ocorridos no campo das artes plásticas nos séculos seguintes. Em seguida, farei algumas observações sobre a relação entre Estética, Crítica de Arte e História da Arte, do século 19 à contemporaneidade.

A Teoria da Arte, tal como ela foi pensada desde o Renascimento, nasceu a partir da herança da retórica clássica. Seus principais pilares de sustentação eram: 1) a idéia de mímesis, ou o princípio de que as artes visavam à imitação do mundo natural; 2) a pressuposição de uma traduzibilidade entre as diferentes artes e 3) a exigência de idealização, o que de certa forma reorientava o preceito da mimesis em direção à imitação, não da natureza sensível, mas do seu ideal. Decorria daí uma hierarquia de gêneros, que situava a obra histórica como o mais elevado gênero da arte e uma prevalência do desenho (associado à razão) em oposição à cor (associada aos sentimentos). No século 17, momento de consolidação desse edifício teórico no contexto de fundação da Academia Francesa, o artista Nicolas Poussin tornou-se o grande modelo para a arte.

De uma forma geral, a arte barroca seguiu esses mesmos princípios, porém sua insistência na arte como instrumento de conversão deslocou pela primeira vez o espectador (no caso, os fiéis) para o centro do discurso sobre arte. A cor, tradicionalmente associada aos sentimentos, ganhou novo valor nesse contexto. Na França a disputa entre Clássico e Barroco concretizou-se na famosa querelle, ou disputa, entre os defensores de Poussin, de um lado, e de Rubens, de outro. Um personagem de destaque nesse contexto, assíduo defensor da arte de Rubens, foi o teórico da arte Roger de Piles. Seu livro Cours de peinture par príncipes, publicado em 1708, pode ser visto como um marco importante no caminho que levou ao surgimento da Estética como campo autônomo do conhecimento. No livro, deixando qualquer função religiosa da arte de lado, Roger de Piles postulava que a qualidade de uma pintura não dependia do tema adotado, mas sim do efeito que produzia sobre o espectador. Em 1699, Roger de Piles foi nomeado conselheiro honorário da Academia, provocando uma importante mudança de rumos na instituição e contribuindo para o surgimento do estilo conhecido como rococó francês, representado por artistas como Boucher, Watteau e Fragonard.

Roger de Piles é sem dúvida um precedente importante para os primeiros teóricos da Estética, porém falta em seus escritos uma teoria da percepção que se centre na relação do espectador com a obra. Essa mudança de perspectiva ocorreria apenas uns 50 anos mais tarde.

Alexander Baumgarten pode ser considerado o fundador da Estética. Seu livro que traz esse título foi publicado em 1750 e dedica-se a desenvolver uma filosofia da faculdade de sentir, investigando como a sensibilidade pode levar à produção de conhecimento. Apesar da importância de Baumgarten como fundador de um novo campo de conhecimento, seu pensamento não teve um impacto direto sobre a produção artística. No entanto, ele preparou o terreno para uma série de outros filósofos que dialogaram de perto com as artes plásticas, impulsionando uma verdadeira “revolução” nesse campo.

Na Inglaterra, Edmond Burke foi talvez o teórico dessa nova abordagem que maior influência teve sobre os rumos das artes plásticas na segunda metade do século 18. Em seu livro Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo, Burke propõe um modelo quantitativo para o funcionamento de nosso aparato psíquico, que lhe permite diferenciar duas formas de prazer estético: os sentimentos do belo e do sublime. Enquanto que o belo diria respeito a objetos passíveis de representação, o sublime estaria relacionado a objetos não-representáveis e que, portanto, sobrecarregariam o nosso aparato psíquico, ameaçando sua estrutura. As representações das idéias de Deus, de infinito, ou de morte, por exemplo, poderiam ser associadas a esta última categoria, sendo capazes de gerar um sentimento sublime.

A idéia de que uma representação poderia servir de meio para gerar determinados sentimentos no espectador abriu novas portas para a arte. O pintor alemão Caspar David Friedrich, por exemplo, passou a usar a paisagem como veículo para transmissão de seus sentimentos religiosos e nacionalistas, deixando de ver a arte como imitação da natureza para fazer dela o veículo de transmissão de um sentimento interior. Da mesma forma, as últimas obras de William Turner são marcadas pela evocação de sentimentos sublimes, à maneira descrita por Burke.

É importante notar o papel ativo que o espectador adquire no processo de construção da imagem, para essas novas teorias estéticas. De acordo com Burke, o efeito do sublime dependeria em grande parte da imaginação do espectador, de sua capacidade de se pôr no lugar do outro nesse jogo da arte. A imaginação se tornará ao longo da segunda metade do século 18 um campo importante de investigação estética, e estará no centro de várias teorias do período. Ela ocupa um papel fundamental também para Denis Diderot, considerado por muitos o pai da Crítica de Arte. Em suas críticas de salão, Diderot desenvolveu critérios para o julgamento da qualidade de uma obra de arte, calcados em sua própria experiência de espectador. A análise do efeito da obra sobre si mesmo tornou-se para ele a medida de sua qualidade. A função da arte deveria ser a de iludir completamente o espectador e fazer com que este, diante de um quadro, por exemplo, acredite se encontrar diante da própria natureza.

A imaginação também foi colocada a serviço da recuperação da Antiguidade na obra do teórico alemão Winckelmann. Em seus escritos, ele pregava a imitação dos antigos como caminho para a renovação da arte no presente, e desenvolveu um método de descrição de obras de arte que visava à enargea, isto é, a tornar a obra viva diante dos olhos do observador. Nesse contexto, é interessante lembrar da grande popularidade do mito de Pigmalião e Galatéa naquele período. A teoria estética de Winckelmann teve uma importância enorme para a estruturação do ambiente neoclássico em toda Europa. Várias gerações de artistas, de Mengs a Jacques-Louis David e Ingres (passando inclusive por artistas de nossa Academia de Belas Artes no Rio de Janeiro), formaram-se sob a autoridade de suas idéias.

O caráter sensualista que marcou a produção estética ao longo da segunda metade do século 18 encontrou uma reformulação no conceito de interessenlose Wohlgefallen (prazer desinteressado) de Immanuel Kant. Com seu formalismo, Kant tentou minimizar a importância das forças irracionais, antes tão valorizadas por teóricos como Burke. As idéias de Kant tiveram muita importância para teóricos e artistas neoclássicos do fim do século 18 e início do 19, especialmente na Alemanha. Os escritos de Kant levaram, por exemplo, a uma interpretação mais formal do ideal grego proposto por Winckelmann, desvalorizando seu conceito de graça a favor da idéia de uma beleza sublime, quase desmaterializada. Carl Ludwig Fernow, por exemplo, fará duras críticas ao escultor Antonio Canova, devido ao excesso de graça que ele impunha a seus trabalhos, valorizando, em contrapartida, as obras de Berthel Thorvaldsen. Tal tendência formalista será retomada no século 19 por teóricos como Conrad Fiedler e por artistas-teóricos como Adolf von Hildebrand e Hans von Marées.

Nas últimas décadas do século 19 a História da Arte surge como um campo autônomo de conhecimento. Assim como a Crítica de Arte, a História da Arte possui muito em comum com a Estética, tornando fluidas as fronteiras entre essas disciplinas. Se no século 19 a História da Arte conseguiu afirmar-se por meio de seus métodos positivistas, provocando a crítica de teóricos da Estética como Benedetto Croce, que estava à busca da especificidade do artístico, o limite entre os três campos tornou-se, ao longo do tempo, cada vez mais tênue. Já no início do século 20 nos deparamos com historiadores da arte, como Aby Warburg, que almejavam construir uma teoria geral da imagem, postando-se entre as duas disciplinas. Hoje a situação não é diferente. Especialmente no campo da arte contemporânea, os papeis de crítico, historiador e teórico da Estética freqüentemente se confundem. Didi-Huberman e Arthur Danto são filósofos que se tornaram referência no campo da história da arte e da crítica, ao passo que um autor como Hans Belting faz o caminho inverso, partindo da história da arte em direção ao campo da Estética. Essas aproximações foram provavelmente também responsáveis pela ampliação do conceito de Estética, que hoje ultrapassa em muito o uso restrito que o termo possuía no século 18.

Claudia Valladão de Mattos é professora de História da Arte no Instituto de Artes da Unicamp.

Revista Cult