Daily Archives: 02/12/2007

Feriado

Demorou para o homem ter um dia de folga que não fosse religioso

Fred Linardi

Não é de hoje que dedicamos certos dias do calendário a homenagens. Na Roma antiga, já havia feriados religiosos como os conhecemos hoje. Divindades como Vênus eram celebradas em procissões e jogos de gladiadores.

Romanos importantes, próximos ao império, também ofereciam festas particulares nesses dias, convidando pessoas do seu círculo de amizade para um banquete – que normalmente terminava em orgia. “No entanto, isso era uma manifestação às divindades, especialmente a deuses como Dionísio, que simbolizavam um desregramento”, explica Pedro Paulo Funari, historiador da Unicamp que mantém um blog semanal sobre curiosidades da Roma antiga no site de HISTÓRIA.

Na Antiguidade, havia apenas os feriados religiosos para quebrar a rotina da sociedade. Mesmo os dias que honravam imperadores (somente depois de mortos) eram baseados no divino. Só em 1789 surgiu o primeiro feriado civil. O dia 14 de julho, data da queda da Bastilha, que marcou o início da Revolução Francesa, é comemorado desde então como dia nacional do país.

Mas os feriados laicos só ganharam força 100 anos depois, devido às sucessivas lutas operárias e à solidificação da classe média. A Revolução Industrial, durante um século, obrigara homens, mulheres e crianças a passar até 16 horas trabalhando por baixos salários, sem folgas e fins de semana.

As sucessivas rebeliões ocorridas em diversos países no fim do século 19 acabaram por originar o Dia do Trabalhador, comemorado em muitos países no 1º de maio, dia em que, em 1886, a cidade de Chicago, nos Estados Unidos, parou por causa de uma greve geral.

O Brasil, que tem 12 feriados nacionais, é palco de rixas e picuinhas entre os estados acerca do ócio de seus habitantes. Há paulistas que dizem que no Rio há mais dias de folga, enquanto a Bahia é alvo nacional desse tipo de provocação. Todos os três têm, na verdade, apenas um feriado estadual. O estado que tem mais datas comemorativas é o Acre, com quatro.

Revista Aventuras na História

http://historia.abril.com.br/

Para fazer a globalização funcionar

O historiador Eric Hobsbawm e o economista Joseph Stiglitz sugerem mudanças de rumo na política

Antonio Gonçalves Filho

Saudada com euforia há duas décadas, a globalização passou a ser vista como invenção diabólica no fim da década de 1990 com um protesto em Seattle, quando operários americanos se viram ameaçados pela concorrência dos chineses. As duas faces da globalização – a de promotora de um modelo de economia de mercado e a de disseminadora da pobreza – são analisadas nas entrevistas do historiador Eric Hobsbawm e do economista Joseph E. Stiglitz concedidas ao Estado, ambas respondendo às mesmas questões propostas pela reportagem.

Dizem que a dinâmica do capitalismo globalizado está fora do controle dos governos e que os impérios acabaram. Qual o seu prognóstico para o futuro da globalização?

ERIC HOBSBAWM: Nações-estado, mesmo as maiores, são incapazes de controlar por mais tempo o que está acontecendo com a economia mundial, mas podem, contudo, determinar a forma e a natureza da globalização. Ela vai ter de conviver com as nações-estado, cenários das decisões políticas, porque a política tem resistido à globalização, continuando a confrontá-la. As pressões políticas, creio, irão refrear o processo de globalização na próxima década, embora seja pouco provável um revival do protecionismo verificado no período entre-guerras. A globalização vai continuar. Espero que os governos que hoje exercem liderança mundial sejam forçados a abandonar sua aposta no descontrole do mercado livre. Os EUA falharam em seus planos de impor uma política hegemônica sobre o globo após o 11 de Setembro e a guerra contra o Iraque mostrou os limites dessa que foi a mais extraordinária máquina de guerra de nossa época, o que nos dá segurança para dizer que a era dos impérios está definitivamente morta.

JOSEPH E. STIGLITZ: De fato, a turbulência que atingiu os mercados financeiros em 2007 parece mesmo mostrar que os problemas que tínhamos em meados do ano continuam a se avolumar e não há motivo algum para ser otimista, porque podemos enfrentar uma possível crise global. Contudo, não há motivos para suspeitar que a globalização não eleve os padrões de vida ou dificulte aos países pobres o acesso aos mercados externos. A globalização vai continuar e pode trazer uma grande contribuição para esses países. Não vai ser fácil fazê-la funcionar. Também é verdade que os Estados Unidos não conseguem viver de maneira autônoma e uma prova disso são os empréstimos cada vez maiores que o país toma e suas atitudes protecionistas.

A instabilidade da nova economia global parece evidente e as nações-estado são aparentemente incapazes de governar a si mesmas, correndo mesmo o risco de se desintegrar. Isso pode representar uma porta aberta para a desordem global? Elas serão obrigadas a se submeter à intervenção estrangeira?

HOBSBAWM: Muitas regiões do globo – a África, o Oriente Médio, parte do sudeste europeu e a ex-União Soviética – já estão vivendo a era da desordem global. A tendência à desintegração dos estados, principalmente após o colapso dos impérios do século 20, é reforçada por uma nova tendência: a da fragmentação das mais antigas unidades políticas estáveis do mundo rico, como Grã-Bretanha, Espanha, Bélgica, Itália e Canadá. Essa tendência à ‘balcanização’ e ao enfraquecimento do poder estatal certamente favorece a desordem global, mas sua causa principal tem sido a crença de Washington de que os EUA podem impor uma ordem mundial de mão única. O estabelecimento de um padrão mais razoável de política internacional, que reconheça os limites desse poder e a existência de um sistema pluralista, seria menos perigoso. Movimentos separatistas, de modo geral, recorrem à ajuda política de forças externas para conquistar autonomia ou independência, mas os estados que são incapazes de governar a si mesmos não se tornam necessariamente mais governáveis quando ocupados por exércitos estrangeiros.

STIGLITZ: Acho que os países industrializados têm condições de resolver os próprios problemas, mesmo que, aparentemente, mostrem-se incapazes de se governar. Naturalmente, os mais ricos têm como se proteger de modo mais adequado, enquanto os países em desenvolvimento não dispõem de recursos para se defender do fluxo do capital especulativo descontrolado, correndo, portanto, maiores riscos. A globalização expõe conflitos sociais e coloca em questão o papel do governo e dos mercados. É irônico que o secretário do Tesouro dos EUA exerça pressão sobre a Índia para que se abra para esse capital especulativo.

A miséria permanece um problema em economias emergentes. Particularmente no Brasil, os programas sociais destinados a aliviar a pobreza parecem inoperantes para atender às metas da globalização. Como a globalização pode ajudar países como Brasil e Índia?

HOBSBAWM: A globalização trouxe um rápido crescimento econômico e com ele uma diminuição significativa da pobreza mundial. Ao mesmo tempo, fez crescer a distância entre ricos e pobres. Isso parece evidente em países como a China, onde a globalização se torna visível pela rápida industrialização e geração de empregos. E, vale lembrar, o nome do crescimento econômico, para a maioria das pessoas , é emprego. A Índia, por exemplo, tem mais pobreza que a China porque seu crescimento econômico não se baseia na evolução da indústria de manufaturados. Ao mesmo tempo, a fase atual da globalização, que abre mercado e garante altos preços para produtos agrícolas, favorece países como o Brasil, mas, infelizmente, tem pouco efeito na promoção social dos pobres ou de pequenos agricultores. Os programas para minimizar os efeitos da pobreza têm pouco a ver com a globalização e mais com a correção de certas deficiências de cada país. Não estou capacitado para julgar o que está sendo feito no Brasil, mas o país continua como exemplo extremo de inadequação social e econômica.

STIGLITZ: Tudo depende de como a globalização é gerenciada – e ela ainda não é administrada de forma coerente com os princípios democráticos. Ela pode ajudar a dividir a riqueza e diminuir a pobreza, como na China, onde o rápido crescimento econômico, baseado nas exportações, conseguiu tirar mais de 300 milhões de chineses da pobreza. Há exemplos contrários de países no Leste Asiático e na América Latina que não evitaram o processo de expansão e contração, como a China, e só viram a pobreza e as crises se repetirem. Quando a globalização é mal orientada, o que se vê são pobres fazendeiros confrontando não outros fazendeiros, mas competindo com Washington – competição, aliás, difícil de vencer. Nos países em desenvolvimento, os governos tendem à corrupção e os pobres ficam mais vulneráveis quando a economia mundial freia.

O rápido crescimento da China provocou um tremendo impacto em quase todos os países, pequenos ou grandes, contribuindo para elevar o preço das mercadorias e, ao mesmo tempo, tornar economias dos pequenos mais vulneráveis. Qual a solução para essa dependência? Como essas pequenas economias vão encarar esse desafio?

HOBSBAWM: Considerando que o tamanho e a velocidade do crescimento da China salvaram a economia mundial dos efeitos de uma economia fraca e instável como a americana, ela deveria ser vista como benéfica para a economia de outros países, e não como um perigo. A dependência num único mercado exportador de produtos primários não é uma desvantagem, a menos que tal mercado entre em colapso. Aí, de fato, não haveria alternativa. Argentina e Uruguai, no começo do século 20, saíram-se muito bem ao se livrar da dependência do mercado britânico. Pequenas economias não são necessariamente mais vulneráveis que grandes economias – veja o caso da Islândia, Dinamarca, Noruega e Finlândia. Na verdade, pequenas economias podem até se adaptar mais facilmente à globalização que as grandes, concentrando-se em nichos particulares da economia mundial.

STIGLITZ: A China, com sua economia em expansão, é um exemplo positivo. A alta nos preços das mercadorias chinesas pode ter bons reflexos em países exportadores da América Latina, incluindo o Brasil. Por outro lado, traz desafios para países importadores. A China tem uma alta taxa de poupança, ao contrário dos EUA. É preciso entender a dinâmica da globalização. A liberalização do comércio pode ter sido favorável para a China, mas causou grande dificuldade para outros países que desejam competir com a economia chinesa. Os subsídios têm um papel relativo nessa história, como mostram os chineses. Países como os EUA têm de rever sua posição, porque a globalização econômica foi mais rápida que a política.

Países desenvolvidos manipulam as leis internacionais de comércio para se proteger, impondo altos custos a outros países e ameaçando-os ainda com a poluição e outras conseqüências negativas de suas atividades. Como fazer a globalização funcionar se os países desenvolvidos têm menos consciência ecológica que os não-desenvolvidos?

HOBSBAWM: Quais países são mais conscientes e quais os menos conscientes? E mesmo que eles sejam conscientes, isso determina um comportamento ecológico? O governo chinês, por exemplo, é mais consciente que o americano, embora os dois sejam igualmente grandes poluidores. O problema não reside em decisões de cunho nacional, mas na ausência de uma autoridade global capaz de impor medidas de controle para lidar com um problema que é global. Se ela existisse, haveria pontos a discutir sobre como suas decisões afetam países em desenvolvimento.

STIGLITZ: De fato, o crescimento da atividade econômica de países desenvolvidos, bem como de países em desenvolvimento, está provocando grande impacto ambiental. Considerando que a maior parte dos recursos ambientais não é global por natureza, não creio que seja possível lidar de forma imperativa com a poluição que transcende fronteiras. O aquecimento global é uma realidade, assim como é limitada nossa capacidade de gerir recursos naturais, mas sou otimista com relação à educação, à conscientização ambiental. Os países em desenvolvimento não têm como criar barreiras para os desenvolvidos, que são, naturalmente, os maiores poluidores por possuírem as maiores economias. Fazer a globalização econômica funcionar depende de como vamos gerir nossos recursos naturais.

A possibilidade de uma recessão mundial não está longe, considerando a mudança do sistema de reservas global motivada por uma economia instável. Há meios de eliminar a dependência de uma moeda única? Quais são as suas sugestões?

HOBSBAWM: Está além da minha competência fazer propostas sobre o sistema financeiro internacional, mas parece claro que o dólar não pode manter por mais tempo sua posição como padrão monetário internacional, considerando as quedas sucessivas da moeda americana. Não sabemos ainda quanto tempo demorará para ele ser substituído por outro parâmetro monetário internacionalmente aceito, tal como imaginou Keynes. É evidente que a maioria das pessoas e estados gostaria de se livrar de seus dólares, mas temem as conseqüências de um súbito colapso da moeda na economia mundial.

STIGLITZ: É como digo no nono capítulo de meu livro: o sistema financeiro mundial não funciona bem, em particular para os países em desenvolvimento. O custo do atual sistema global para eles é alto: torna a economia mais vulnerável, mais instável. As sucessivas quedas do dólar chocam o mundo financeiro e o sistema atual já se desgastou o suficiente. Muitos diretores de bancos centrais já estão saindo do dólar, seguindo o exemplo dos chineses. Isso enfraquece a moeda e nos faz concluir que ele não é o melhor meio de acumular reservas. Portanto, é preciso criar um novo sistema global de reservas e a solução está na velha proposta de Keynes, de criar numa nova forma de papel-moeda sem lastro que pode funcionar como reserva.

O terrorismo é uma ameaça real ao mundo. Como conciliar a idéia de globalização com antigas crenças?

HOBSBAWM: O terrorismo de pequenos grupos, que certamente deve ser combatido, não representa uma ameaça real ao mundo moderno. Os terroristas demonstraram sua habilidade em cometer massacres indiscriminados e chocantes, mas o terrorismo não é um fator político ou militar relevante e, mesmo em países onde é proeminente, representa apenas uma pequena célula de resistência à ocupação estrangeira. É ameaçador, sem dúvida, mas porque não o entendemos, não por representar perigo. Os efeitos do furacão Katrina nos EUA foram incomparavelmente maiores que o 11 de Setembro, em que morreram dramaticamente muitos inocentes. É essencial ter em mente os limites do terrorismo para que não fiquemos histéricos. Sobre antigas crenças e culturas ancestrais, há pouco de antigo no braço extremista islâmico que inspira uma organização como a Al-Qaeda. A fatwa que permite a matança indiscriminada de inocentes, incluindo aí muçulmanos, não havia sido aprovada pelo clero egípcio até o começo dos anos 1970. O barbarismo dos quais os terroristas modernos são representantes não está baseado na antiguidade ou na tradição, mas nas sociedades dos séculos 20 e 21.

STIGLITZ: Creio que, à medida que o mundo se torna mais globalizado, ele se torna também mais integrado. E, para fazer a globalização funcionar, reduzir o déficit democrático é essencial. Não vejo como antigas crenças possam impedir a convivência de uma cultura ancestral com outras civilizações. Na Europa, por exemplo, as diferenças culturais entre escandinavos e ingleses são enormes e nem por isso deixam de se integrar economicamente. Ficamos interdependentes na área econômica. O fundamentalismo econômico é, hoje, tão perigoso como o religioso.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

DESERTO DE ATACAMA A magia dos gêiseres de El Tatio

Haroldo Castro

Os fenômenos naturais sempre fascinaram os humanos. Quando manifesta sua força, a natureza nos adverte que nossa escala é acanhada. Somos insignificantes diante do movimento de um furacão, da energia de um vulcão ou da potência de um terremoto ou tsunami. Essa relação de respeito, amor e medo também provoca uma grande atração e temos de aproveitar a ocasião quando o planeta desvenda algum de seus segredos. Foi o que aconteceu comigo no Chile.

A razão principal da minha visita ao Deserto de Atacama era experimentar, com todos os meus sentidos, a explosão dos gêiseres de El Tatio. Na hora do nascer do Sol, dezenas de colunas de vapor e de água fervente brotam de um platô nas encostas andinas. Um espetáculo que somente a natureza pode produzir.

Logo que cheguei a San Pedro de Atacama, busquei informação sobre El Tatio. “Os gêiseres estão a 4.320 metros. Por conta da altitude e do frio, é bom esperar alguns dias para fazer essa visita”, me avisou a chilena Adriana Gómez, que conhecia bem a região. “Melhor deixar esse passeio para quando o seu organismo estiver mais habituado ao clima.”

Confesso que essas sábias palavras se transformaram em uma ducha de água gelada, tão fria como a temperatura de uma noite no deserto. Mas fazia sentido: a vila de San Pedro estava a 2.500 metros sobre o nível do mar e um par de dias para me acostumar ao oxigênio rarefeito seria uma boa tática.

O Deserto de Atacama é o lugar mais seco do planeta. As estatísticas das últimas quatro décadas comprovam que a média de chuva não passa de meio milímetro por ano. Duas são as razões para que esse superlativo seja realidade. De um lado, o Atacama é protegido pela Cordilheira dos Andes, que não deixa as nuvens bolivianas ou argentinas passarem para o Chile. De outro, as correntes de água fria do Oceano Pacífico dificultam a evaporação da água.

Todas as paisagens de Atacama são inusitadas e, seguindo dicas de mochileiros, resolvi passar o meu primeiro pôr-do-sol no Vale da Lua. Como o próprio nome sugere, é um lugar de montanhas e dunas desérticas. Escrevi “desérticas”? Nem tanto assim. Eu e toda a torcida do Colo-Colo, o time de futebol mais popular do Chile, pensamos no mesmo programa: subir as dunas e ver o Sol se esconder atrás da Cordilheira do Andes.

Quando cheguei ao anfiteatro criado pelas montanhas, vi que centenas de incansáveis jovens ascendiam uma trilha, em fila indiana. Todos subiam ao topo de um dos cerros para o ritual do fim do dia.

Tomei fôlego e segui os intrépidos. Como se não bastasse a dificuldade inerente de vencer uma gigantesca duna de areia fina, os grãozinhos rapidamente penetraram nos meus sapatos e meias, fazendo com que meus pés pesassem um quilo a mais a cada passo. Os primeiros cem metros foram penosos. Mas, à medida que a vista sobre o vale se tornava mais ampla, minhas interjeições negativas se convertiam em expressões de descobertas. Toda vez que eu levantava a cabeça, o deslumbramento aumentava. Com razão as pessoas faziam fila para ver esse espetáculo oferecido gratuitamente pela natureza.

Cheguei na cresta de um dos picos. A vista era excelente: não havia nenhuma cabeça entre meus olhos e a grande tela natural. Embriagado pelo lugar, percebi quando as montanhas pintadas de amarelo se transformaram em laranja; e quando passaram para o rosa e daí para um vermelho incandescente. No momento que o Sol se foi e o seu último pedacinho de brilho desapareceu, toda a platéia entrou em silêncio absoluto. Era como se estivéssemos prendendo a respiração para que o Sol não se apagasse por completo.

San Pedro de Atacama é bem mais simpática de noite do que de dia. Com o sol a pino, a luz forte e a constante poeira tornam a cidade atordoante. Poucas pessoas transitam pelas ruas e o estado precário das construções fica mais óbvio. Contudo, quando a noite aparece, os bares da Calle Caracoles ganham vida e cor.

A música andina invade o ambiente e as lareiras aquecem aqueles que ainda não tomaram uma taça de vinho. Reduto de viajólogos, restaurantes como La Casona, El Adobe ou El Enkanto acolhem os estrangeiros de todas as latitudes – ávidos para contar as aventuras do dia ou para conhecer as dicas do que devem fazer no dia seguinte.

Com tanta informação ao meu dispor – parecia estar em um Google ao vivo -, fui pescando dados para compor o meu quebra-cabeça. “Se você quiser ver flamingos, vá à Lagoa Chaxa, na reserva nacional que está dentro do Salar de Atacama”, me disse um biólogo chileno que se transformara em guia turístico. “Aproveite também para ver as salinas desse lago cristalizado de cem quilômetros de extensão, com o vulcão Licancabur ao fundo”, confidenciou um apaixonado de geologia.

“A cor da Lagoa Verde vale o desvio”, ressaltou um aventureiro francês. “A lagoa está do outro lado da fronteira, na Bolívia”, completou. Vários viajantes me recomendaram visitar o Museu Arqueológico do Padre Le Paige, em San Pedro mesmo. “Os tecidos indígenas são imperdíveis”, assegurou uma canadense dedicada à pesquisa etnográfica. “As múmias são surpreendentes. Seus cabelos ainda estão intactos”, concluiu.

Como a jornada a El Tatio é considerada o ápice da visita ao Deserto de Atacama, os que haviam visto os gêiseres naquela manhã já tinham preparado as suas malas para deixar San Pedro no dia seguinte. A maioria, no entanto, estava ansiosa para saber como chegar e o que fazer. Continuei minha investigação.

Sim, fazia muito frio em El Tatio. Eu deveria estar bem abrigado, com um agasalho impermeável, que cortasse o vento. Não poderia esquecer de usar meias bem grossas.

Sim, era preciso chegar antes de o Sol nascer. O ideal, entre as 5h30 e 6h30. Portanto, eu teria de percorrer os 95 quilômetros de terra de San Pedro aos gêiseres em plena escuridão.

Sim, não era fácil viajar até lá. Não existe transporte público, a estrada não é asfaltada e as diversas pistas parecem ter sido criadas para confundir o novato. Dirigir sozinho, no breu total, não era perigoso, mas era fácil eu parar em outro lugar.

Mas o fato de ter de acordar às 3 horas da matina era o maior desafio. Metade de meus neurônios estaria anestesiada pelo frio e pelo sono. A outra metade daria conta de dirigir a 4×4, mas não conseguiria interpretar nenhum mapa disponível. Deveria eu participar de uma excursão organizada, como me aconselhavam?

Não, a opção estava fora de cogitações, pois eu perderia o controle de meu tempo e velocidade. E se eu quisesse ser o último a deixar El Tatio? Concluí que a solução seria encontrar um co-piloto local que pudesse navegar comigo até meu destino.

Conversando com taxistas e guias, consegui identificar um motorista que estaria de folga naquela manhã. Pepe Perez conhecia bem o trajeto. Ele levava uma van de 15 pessoas quase que diariamente. Contente em ganhar uma verba adicional, Pepe se ofereceu até mesmo para dirigir a camioneta. “A las 3h30 de la mañana pasaré en su hotel”, confirmou com um aperto de mão que selava nosso trato.

Dito e feito. Coberto da cabeça aos pés como se estivesse partindo para uma expedição a um dos pólos do planeta, encontrei Pepe em pleno negrume. Entramos no carro e decidimos que ele tomaria a direção na ida e eu na volta. Durante as duas horas de percurso, trocamos poucas palavras. Não era a melhor hora para socializar.

Subimos quase dois mil metros de desnível para chegar até El Tatio. Até mesmo a camioneta sentiu o ar rarefeito. Quando chegamos e coloquei a cabeça para fora do veículo, foi como se eu tivesse enfiado meu cérebro no congelador. Tirei o relógio de pulso e o coloquei sobre o carro para confirmar a temperatura: fazia 7 graus negativos!

Mas a tremenda pancada de frio também me fez despertar: afinal, eu estava em um dos lugares mais espetaculares do planeta e precisava aproveitar. Os vapores dos gêiseres começavam a sair das entranhas da Terra e a natureza estava prestes a começar o seu show.

Quando o céu deixou de estar totalmente negro, os jatos de água fervente tomaram força. Havia gêiseres de todos os tipos: gordinhos e baixinhos, altos e esguios, fortes e fracos, femininos e masculinos. À medida que percebíamos melhor os contornos das montanhas que nos rodeavam, os turbilhões de vapor tomavam conta do lugar. Jatos que alcançavam dez metros de altura se misturavam com altas nuvens brancas que pareciam algodão doce. Era uma cena feérica – nem mesmo artistas gráficos do mundo virtual poderiam chegar a esse absurdo de encanto.

Como esperado, fiquei em El Tatio até as 10 horas. Com o sol forte e a temperatura bem acima do ponto de congelamento, todos os gêiseres, exaustos com suas ejaculações, murcharam. O preto da noite e o branco do vapor foram substituídos por cores vivas. As piscinas naturais mostravam um emaranhado de algas vermelhas, ocres e verdes, comprovando que existiam microorganismos que conseguiam prosperar até mesmo nesse mundo das águas borbulhantes.

Já não havia visitantes em El Tatio quando iniciamos nossa viagem de retorno. Decidi dirigir sem pressa, para desfrutar do panorama. Rodávamos tão devagar que duas vicunhas (um camelídeo andino selvagem) cruzaram nosso caminho passivamente. Parei e elas se deixaram fotografar. Foi nosso presente de despedida das terras mágicas do Atacama.

O Chile é um dos 222 países e territórios do Teste de Viajologia Mundial.

Revista Planeta

http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

O sombrio outono parisiense

Se o tiroteio contra policiais se repetir, a França ficará em situação grave e quase sem paralelos na Europa

Luiz Felipe Alencastro*

Na história da França há uma frase célebre do século 18 que tem sido citada em diversas circunstâncias até os dias de hoje. Trata-se do diálogo entre o rei Luís XVI e um aristocrata importante da corte francesa, o duque de Liancourt. No dia 12 de julho de 1789, dois dias antes da queda da Bastilha, quando o movimento antimonárquico crescia em Paris, Luís XVI, julgando que os acontecimentos ultrapassavam a esfera das simples émeutes (tumultos) questionou o duque: “É uma revolta?”, e Liancourt respondeu-lhe: “Não, majestade, é uma revolução!” Desde então, a frase tornou-se emblemática da argúcia analítica que capta o quadro político a partir do qual um movimento social muda de patamar, transformando sua dinâmica e sua essência.

Nos debates na mídia francesa sobre os graves incidentes da semana passada nos subúrbios (banlieues) de Paris, ninguém pensa, é claro, que o país esteja à beira de uma revolução. Mas há vários analistas que vislumbram um novo patamar nos incidentes dos subúrbios: passou-se o cabo dos tumultos e entrou-se no campo da revolta. Nos dias seguintes à morte de dois motoqueiros adolescentes numa trombada com um carro de polícia, houve pela primeira vez gente atirando deliberadamente nos policiais. Vários foram feridos de maneira mais ou menos grave com tiros de chumbo de cartucheira e, pelo menos um deles, com um tiro de bala de caçar javali.

Outros observadores vêem uma linha de continuidade entre os atuais incidentes, os distúrbios anteriores (44.157 carros foram queimados em 2006 na França, 45.588 no ano de 2005) e os graves tumultos de outubro e novembro de 2005, os quais sublevaram boa parte das banlieues durante três semanas. Note-se que nem em 2005 nem agora nenhum manifestante foi ferido por balas da polícia. Como em maio de 1968, a polícia francesa mantém o sangue-frio e a conduta republicana.

Na realidade, os incidentes da semana passada, que parecem ter-se amainado, irromperam no meio de uma temporada de movimentos sociais em toda a França. Depois das eleições presidenciais e legislativas de maio e junho, e após as férias de verão de julho e agosto, três ondas de greves ocorreram em outubro e novembro. As paralisações dos ferroviários, condutores de ônibus e metroviários que protestavam contra o plano governamental de extinguir os regimes especiais de aposentadoria; as manifestações estudantis contra a reforma universitária; e a greve, curta e mais ampla, dos funcionários públicos reivindicando melhores salários. No meio dessas manifestações surgiu mais chiadeira. Assim, advogados, magistrados e funcionários do Judiciário desfilaram contra a supressão de um certo número de tribunais, enquanto donos de bares e de casas de narguilé – a última moda em Paris – reclamavam nas ruas contra a entrada em vigor da lei proibindo fumar em lugares públicos.

No final das contas, o protesto dos funcionários públicos representa, sem dúvida, o mais grave desafio para o governo Sarkozy. Efetivamente, a extinção dos regimes especiais de aposentadoria constava do programa eleitoral de Sarkozy e a reforma universitária foi votada pelo Parlamento. Nessas circunstâncias, não se pode dizer que o governo agiu de sopetão. No caso dos funcionários públicos sucede o inverso. Sarkozy prometeu que iria garantir o poder de compra dos salários e até agora nenhuma das medidas governamentais vai nessa direção.

Nesse clima de insatisfação difusa sobressaem dois fatos tão complexos quanto inquietantes. Em primeiro lugar, malgrado um governo recém-empossado e composto por um número inédito de descendentes de imigrantes árabes e africanos, o problema das banlieues continua surpreendendo as autoridades e a opinião pública. Mais de 30 anos de “planos para as banlieues” programados, e sofrivelmente executados, por governos de esquerda e de direita, não conseguiram melhorar as condições de vida nos subúrbios das grandes cidades francesas. Caso o tiroteio contra os policiais venha a se repetir nos próximos incidentes, a França se encontrará numa situação bem mais séria e quase sem paralelos na Europa.

As revoltas deste outono também puseram a nu outra realidade que constitui o segundo problema grave da França. De fato, no meio dos protestos patenteou-se a absoluta ausência de propostas claras, e mesmo de qualquer proposta, por parte da oposição. Derrotado rotundamente por Sarkozy nas eleições presidencias e legislativas, desfalcado de alguns de seus líderes que aderiram ao novo governo, o Partido Socialista francês afunda cada vez mais.

Ora, a tradição do movimento social francês e da história política do país incorpora perfeitamente as etapas que passam pelo enfrentamento. Primeiro, organizam-se greves e manifestações para se medir forças. Em seguida, negocia-se com o governo e o patronato. Mas para isso, é preciso que existam sindicatos representativos e uma oposição estruturada, capaz de intermediar as negociações. E apta a apresentar-se como alternativa de governo. Não é o caso atualmente. Na verdade, a radicalização de protestos nas banlieues e o desmonte dos partidos da oposição parlamentar configuram uma situação grave na França no ano que vem surgindo aí em frente.

Luiz Felipe de Alencastro é professor titutar da cátedra de História do Brasil na Universidade de Paris Sorbonne.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

O que Putin quer com essa eleição?

Gilles Lapouge

A Rússia vota hoje para eleger os 450 deputados da Duma, a câmara baixa do Parlamento. Eleições legislativas, então? Certo. Mas, essas eleições legislativas encerram dentro de si, como as bonecas russas, um outro escrutínio bem camuflado, que nada mais é do que um referendo. Todo o russo sabe que hoje votará, na verdade, “por” Putin ou “contra” Putin. E sabe também que o vencedor será o partido de Putin, Rússia Unida, com uma maioria confortável, talvez com dois terços dos votos.

Duas explicações para essa vitória programada. Primeiro, não há nenhum partido capaz de competir com o de Putin. Segundo, Putin é adorado pelos russos porque lhes devolveu confiança, dinheiro e dignidade. Quando o beberrão Yeltsin entregou a Rússia a esse desconhecido funcionário chamado Putin, a Rússia era uma confusão. Em poucos anos, o país ressuscitou. A popularidade de Putin é tão alta, aliás, que não se compreende por que o Kremlin gasta tanta energia para assegurar a vitória da Rússia Unida.

Uma dupla operação se desenvolve para que o pleito se torne um plebiscito a favor de Putin. De um lado, os raros adversários são reprimidos. Quando 300 infelizes entoam slogans hostis a Putin, a polícia investe e coloca na prisão o líder dos opositores, o ex-campeão de xadrez Garry Kasparov. Paralelamente, todas as TVs, que estão nas mãos de Putin, não param de falar do presidente.

Essa vontade de conseguir uma maioria enorme, à moda soviética, levanta duas questões. Se sua vitória fosse menos arrasadora, pareceria menos séria? E o que Putin pretende fazer com a vitória? É preciso lembrar as próximas disputas eleitorais: em 2 de março de 2008, o povo votará para presidente, mas Putin não poderá se candidatar a um terceiro mandato.

O problema é que Putin ama o poder e não vê razão para sair de cena com uma popularidade tão alta. Então, ele imaginou um truque para conservar o poder sem desrespeitar a Constituição. É simples: nas eleições legislativas, ele conduz a Rússia Unida a uma vitória esmagadora. Os outros partidos são pulverizados. Como premiê, mesmo que ele deixe de ser presidente, continuará sendo o chefe da Rússia.

Mas que presidente será eleito em março? Circulam alguns nomes, todos com um ponto em comum: são aliados do presidente e tão vulneráveis que, se Putin quiser pode quebrá-los como se quebra uma casca de ovo na mão. Segundo Vitali Portnikov, da revista polonesa Politika, o futuro presidente será uma marionete de Putin, que se tornará o chefe espiritual da nação, um aiatolá Khomeini russo.

Quanto a mim, não imagino Putin contentando-se com o papel de conselheiro. Será que ele ousará transpor o desfiladeiro e inventar um posto talhado à sua medida para continuar governando o país? Será que ele terá coragem de realizar um golpe de Estado para cumprir um terceiro mandato? Certamente, sua saída será uma falsa saída. Putin continuará a empurrar a Rússia na via de seu renascimento como grande nação.

No plano interno, ele aumentará o controle do Estado sobre o aparelho produtivo por meio do gás e do petróleo – recursos que o Kremlin controla totalmente – nem que precise colocar na prisão alguns novos oligarcas. No plano externo, ele quer devolver à Rússia o título de superpotência perdido com a queda da URSS.

Putin aplicará uma política intratável em relação ao Ocidente, guerreando contra as antigas democracias populares, como Ucrânia e Geórgia, seduzidas pelo Ocidente. Ele não hesitará em se mostrar ameaçador se o campo ocidental o incomodar, mesmo que precise recorrer, como nos bons tempos da URSS, a ameaça nuclear.

Evidentemente, nas repúblicas russas e nas antigas repúblicas soviéticas, ele instalará seu pessoal, seus clientes, venderá seus produtos, seu petróleo e suas armas, enquanto seguirá destruindo na Chechênia, na Ingushetia ou alhures, povos inteiros culpados de amar a liberdade.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

Articulação Popular Pela Revitalização do Rio São Francisco

Blog Controvérsia na luta contra a trasnposição do Rio São Francisco. Favor enviar a carta abaixo para os e-mail que se seguem ao seu final.

————————

Exmo. Senhor Presidente da República – Luiz Inácio Lula da Silva

Exmo. Senhor Ministro da Integração Nacional – Geddel Vieira Filho

Saudações cordiais,

Acompanhamos com interesse os planos do Governo Brasileiro para o Rio São Francisco, tanto no que concerne ao Projeto de Transposição quanto ao Programa de Revitalização.

Respeitosamente, dirigimo-nos a V. Ex.a para compartilhar preocupações sobre os previsíveis impactos sociais e ambientais do Projeto de Transposição.

Sabemos a importância histórica, cultural, social, econômica e ambiental do “rio da integração nacional”. Temos também conhecimento dos problemas deste Rio, tais como o desmatamento, o assoreamento, a poluição por esgotos e agrotóxicos, as barragens e o avanço indiscriminado do agronegócio sobre o Cerrado e Caatinga. O estado atual de baixa vazão da barragem Sobradinho de 14% da sua capacidade é prova desta degradação.

O estado de degradação do São Francisco torna temerário qualquer acréscimo de novo uso aos atuais, múltiplos e, em muitos aspectos, já conflitantes.

Desde 27 de novembro de 2007, Dom Luiz Cappio, bispo da Diocese de Barra (Bahia), retomou seu jejum e suas orações em protesto contra a forma autoritária com que o governo federal impõe a obra de transposição do rio São Francisco sem um debate democrático sobre a viabilidade desta obra.

Em carta enviada ao presidente, Dom Luiz lembra que Lula não cumpriu o acordo assumido em outubro de 2005. Na ocasião, Dom Luiz suspendeu um jejum de onze dias, após o presidente ter se comprometido a suspender o processo da transposição e iniciar um amplo diálogo sobre o projeto com a sociedade.

A obra da transposição do Rio São Francisco não tem capacidade de levar água para 12 milhões de nordestinos, como a propaganda quer iludir. Ao contrário, ela é desenhada para beneficiar a produção de frutas nobres, etanol, aço e criação de camarão destinados principalmente para o mercado internacional, enriquecendo ainda mais poucas grandes empresas.

A região semi-árida tem grande diversidade de situações e potencialidades hídricas para o consumo humano e o desenvolvimento sustentável. Para atender à população do semi-árido, há alternativas melhores e mais baratas, por exemplo: as 530 obras sugeridas pela Agência Nacional de Águas (ANA) e que abasteceriam os 1,3 mil municípios da região a um custo de R$ 3,6 bilhões (quase metade dos R$ 6,6 bilhões da transposição). Para o meio rural tem as alternativas de Convivência com o clima desenvolvidas no âmbito da Articulação do Semi-Árido (ASA).

Diante deste quadro, o Projeto de Transposição exige questionamentos e cuidados. Ainda mais, porque se trata de um projeto com varias ilegalidades que estão sendo questionadas judicialmente e que ainda esperam posição do Supremo Tribunal Federal (STF).

Por isso, as pessoas, entidades e organizações abaixo-assinadas pedem que sejam suspensas as obras da transposição, que vem sendo realizadas pelo Exército Brasileiro.

Exigimos que seja ouvido o grito dos povos do São Francisco presente no jejum de Dom Luiz Cappio.

Atenciosamente.

(Seu Nome)

Seguem abaixo seguem os endereços e números de fax dos destinatários da carta:

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
e-mail: presidencia@planalto.gov.br
e-mail: protocolo@planalto.gov.br
e-mail: gabinete@planalto.gov.br
Fax: (0055) 61 3411 1865

MINISTRO DE INTEGRAÇÃO GEDDEL VIEIRA LIMA
e-mail: pedro.sanguinetti@integracao.gov.br
Fax: (0055) 61 3321 3122

MINISTRA DO MEIO AMBIENTE MARINA SILVA
e-mail: marina.silva@mma.gov.br
Fax: (0055) 61 3317-1755

Supremo Tribunal Federal:

GABINETE MINISTRA ELLEN GRACIE (Presidente)
e-mail: ellengracie@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174249

GABINETE MINISTRO GILMAR MENDES (Vice-Presidente)
e-mail: mgilmar@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174189

GABINETE MINISTRO CELSO DE MELLO
e-mail: mcelso@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174099

GABINETE MINISTRO MARCO AURÉLIO
e-mail: marcoaurelio@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174309

GABINETE MINISTRO CEZAR PELUSO
e-mail: mluciam@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174219

GABINETE MINISTRO CARLOS BRITTO
e-mail: gcarlosbritto@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174339

GABINETE MINISTRO JOAQUIM BARBOSA
e-mail: gabminjoaquim@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174159

GABINETE MINISTRO EROS GRAU
e-mail: gaberosgrau@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174399

GABINETE MINISTRO RICARDO LEWANDOWSKI
e-mail: gabinete-lewandowski@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174279

GABINETE MINISTRA CÁRMEN LÚCIA
e-mail: anavt@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174355 / 32174369

GABINETE MINISTRO MENEZES DIREITO
e-mail: alexandrew@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174129

Apoio ao Movimento:
apoio.dom.cappio@gmail.com

——————–

Para copiar e colar..

presidencia@planalto.gov.br
protocolo@planalto.gov.br
gabinete@planalto.gov.br
pedro.sanguinetti@integracao.gov.br
marina.silva@mma.gov.br
ellengracie@stf.gov.br
mgilmar@stf.gov.br
mcelso@stf.gov.br
marcoaurelio@stf.gov.br
mluciam@stf.gov.br
gcarlosbritto@stf.gov.br
gabminjoaquim@stf.gov.br
gaberosgrau@stf.gov.br
gabinete-lewandowski@stf.gov.br
anavt@stf.gov.br
alexandrew@stf.gov.br
apoio.dom.cappio@gmail.com
ricardo@controversia.com.br

Grato.

Ricardo Alvarez

Constituição Bolivariana, antes e depois da reforma, o que muda?

Destacamos os principais pontos do projeto de reforma constitucional que deverá ser aprovado ou rechaçado por meio de um referendo em dezembro.

Hugo Chávez propôs a modificação de 33 artigos da Carta Magna e, posteriormente, os deputados da Assembléia Nacional agregaram o indicativo de mais artigos para modificação.

No total, se propõe a modificação de 16% da Constituição elaborada em 1999 por meio de uma Assembléia Constituinte.

Comunas, núcleos socialistas
Artigo 16: Núcleo básico de organização dos municípios, as comunas deverão estabelecer sua própria geografia. As comunidades definirão onde começa e onde termina seu território baseadas nas primeiras ocupações. A proposta pretende reorganizar a geografia do Estado venezuelano, denominada Nova Geometria do Poder, restabelecendo as fronteiras entre os Estados e municípios, o que obrigará também a redefinição dos poderes locais tradicionais, como o cargo de governadores e prefeitos.

Redução da jornada de trabalho

Artigo 90: Reduz a jornada de trabalho para seis horas diárias, com um limite de 36 horas semanais. A legislação atual prevê uma jornada laboral de oito horas diárias e 44 horas semanais.

Seguridade Social
Artigo 87: Determina que o Estado é responsável por garantir os direitos de Seguridade Social aos trabalhadores (as) inseridos no mercado informal (51% dos trabalhadores (as) na ativa), incluindo donas de casa.

Propriedade social e coletiva

Artigo 115: A proposta de reforma inclui o conceito de propriedade social e coletiva ao artigo que se refere à propriedade. “Não compartilho a teoria daqueles que defendem a eliminação da propriedade privada. Temos que convencer os médios e pequenos produtores a se integrarem no projeto de desenvolvimento do país”, disse Chávez.

Poder Popular

Artigo 136: Prevê a criação do “Poder Popular” que será incluído na escala de poderes municipal, estatal e nacional. O “Poder Popular” será conformado por conselhos comunais, de camponeses, de trabalhadores, de mulheres e de estudantes.

* Eleitor aos 16
Artigo 64: Reduz a idade mínima para votar de 18 para 16 anos. O direito à participar das eleições se mantém facultativo. * Referendo revogatório Artigo 70: Se amplia de 20% do total de votantes para 30% o número de assinaturas necessárias para convocar um referendo revogatório do mandato dos cargos de eleição públicos. Em 2004, Chávez foi submetido a um referendo e saiu vitorioso das urnas com pouco mais de 60% dos votos a favor da continuidade do seu mandato.

Reeleição contínua
Artigo 234: O período do mandato presidencial se estende de seis para sete anos. O presidente poderá ser reeleito sem limites de número de candidaturas. A atual Constituição permite apenas uma reeleição imediata.

Banco Central sem autonomia
Artigo 318: O Banco Central da Venezuela deverá compartilhar com o Executivo as responsabilidades no que se refere a decisões sobre a política monetária. “Suas funções estarão submetidas à política econômica geral (…) para alcançar os objetivos superiores do Estado Socialista e a maior soma de felicidade possível para todo o povo”. Na atual Constituição, o BC é autônomo.

Milícias Bolivarianas
Artigo 329: Agrega o grupo Milícia Popular Bolivariana ao conjunto das Forças Armadas.

Proibição do latifúndio
Artigo 307: “Se proíbe o latifúndio por ser contrário ao interesse social. A República determinará mediante lei uma forma na qual os latifúndios serão transferidos ao Estado (…) comunidades ou organizações sociais capazes de administrar e fazer produtivas as terras”. Na Constituição vigente, apenas se destaca que o latifundio é contrário ao interesse social, sem tornar ilegal sua manutenção.

* Processo legal
Artigo 337: impede o direito ao devido processo legal (que ninguém será privado da liberdade sem o direito a responder um processo) à informação quando um Estado de exceção for declarado, por exemplo, um golpe de Estado ou uma catástrofe natural. A atual Constituição garante esses direitos.

* Propostas da Assembléia Nacional

Jornal Brasil de Fato
ttp://www.brasildefato.com.br/

Referendo define rumos da revolução bolivariana

Para o governo, a reforma corrige as limitações da atual Constituição, elaborada em 1999, e gera condições para modificar a estrutura do atual Estado

Claudia Jardim,
de Caracas (Venezuela)

Neste domingo (2), os venezuelanos vão às urnas para definir em um referendo se aprovam ou não a modificação de 69 artigos da Constituição do país, com os quais o presidente Hugo Chávez pretende abrir o caminho para a consolidação do socialismo.

A jornada eleitoral que começou às 6 horas da manhã será marcada por expectativas e tensão. Na reta final da acirrada campanha eleitoral, a oposição ameaçou não reconhecer os resultados no caso de uma derrota, alegando que o governo manipularia a eleição (leia reportagem). O governo diz que respeitará os resultados. Chávez advertiu a seus opositores que não tolerará atos de violência e responsabilizou ao governo dos Estados Unidos de tentar desestabilizar o país ao financiar a oposição.

Reeleição

A reforma constitucional lançada por Chávez em agosto acentuou uma vez mais a polarização no país. A inclusão da propriedade social e coletiva no bojo da propriedade pública e privada, a redução da jornada de trabalho de 40 a 36 horas semanais, a inclusão dos trabalhadores informais como beneficiários do seguro social são os pontos mais populares do projeto de reforma constitucional (Veja aqui as mudanças propostas pelas reforma).

O mais polêmico dos artigos sujeitos à mudança é o que permite a reeleição do presidente sem limites no número de candidaturas e estende o seu mandato de seis para sete anos. A oposição argumenta que Chávez pretende “perpetuar-se no poder” ao alterar a Carta Magna. O fim da autonomia do Banco Central, a atribuição de novos poderes ao presidente, como o de eleger mais de um vice-presidente e a idéia de um Estado socialista são temas criticados pela oposição.

A oposição – que estava dividida entre o grupo que chamava a votar pelo “Não” e o que convocava a abstenção – se aliou na reta final e decidiu entrar no jogo eleitoral. Um setor do emergente movimento estudantil, a alta hierarquia da Igreja Católica e os partidos políticos defendem o “Não” à reforma.

Para o governo, a reforma corrige as limitações da atual Constituição, elaborada em 1999, e gera condições para modificar a estrutura do atual Estado. Pouco mais de 16 milhões de venezuelanos poderão participar do referendo (o voto é facultativo) e definir se aprofundam as transformações em curso no país “ou se desaceleram a revolução”, como afirmou Chávez, ao explicar o que significaria uma derrota do “Sim”.

Parafusos soltos

Em uma curta campanha eleitoral, de apenas um mês, Chávez sofreu duas baixas, embora mantenha indíces de popularidade de 62%, . A saída do partido Podemos (social-democrata) da sua base aliada e a do general retirado e seu compadre, Raúl Isaías Baduel, que afirmou que Chávez pretendia dar um “golpe constitucional” enfraqueceram o apoio ao “Sim”. “Quanto mais fundo vai o submarino, os parafusos que estão soltos vão saindo”, justificou Chávez, ao afirmar que outros “parafusos soltos” deverão sair do processo conduzido por ele, se for aprovada a reforma.

Repetindo o cenário do referendo revogatório de 2004 – em que Chávez saiu vitorioso com 58% dos votos –, a oposição ameaça não reconhecer os resultados e na última semana passou a questionar a transparência e imparcialidade do Conselho Nacional Eleitoral.

Tanto o governo como a oposição cantam vitória. “Estamos totalmente seguros da nossa vitória (…) Ai estão as cifras, aí está a rua” disse Chávez neste sábado em uma entrevista coletiva. O CNE proibiu a divulgação de resultados de boca-de-urna. Na noite deste domingo ou na madrugada da segunda-feira se saberá se a festa será celebrada nos casarões do leste da capital Caracas, ou se pela décima vez consecutiva o festejo será no emblemático Balcão do Povo, no Palácio Miraflores.

Jornal Brasil de Fato
ttp://www.brasildefato.com.br/

“Eixos do mal” são alvo das armas nucleares americanas

Os alvos nucleares dos Estados Unidos de 2003 não incluem apenas os velhos adversários na Guerra Fria, mas também nações menores e ambiciosas

David Biello

As ogivas nucleares que descansam em mísseis balísticos alojados em silos, navegam pelo mundo a bordo de submarinos ou são carregadas – muitas vezes por engano – por aviões remontam a uma era em que os Estados Unidos tinham seus maiores inimigos na mira: a União Soviética e, mais recentemente, a Rússia e a China. No entanto, um documento obtido pela Federation of American Scientists (FAS), em Washington, D.C. – fundada pelos criadores da bomba nuclear original em 1945 e que vem monitorando armas nucleares desde então –, revela que nos últimos anos a lista de alvos dos Estados Unidos cresceu para incluir os chamados “proliferadores regionais”, nações menores que pretendem adquirir armas de destruição em massa.

“Essa é a primeira confirmação oficial de que esses países entraram na corrente principal do planejamento estratégico de guerra nuclear”, afirma Hans Kristensen, diretor do Projeto de Informação Nuclear da FAS, que obteve parte de uma declaração do Comando Estratégico dos Estados Unidos (U.S. STARTCOM) de 2002 sobre o novo plano de guerra que entraria em vigor em 2003. “Essa ‘expansão de alvos nucleares’ é preocupante”, diz Kristensen, “especialmente quando diplomatas argumentam que temos limitado o papel dessas armas”.

Denver Applehans, tenente da marinha americana, disse que a U.S. STRATCOM não quis comentar o assunto.

Mais especificamente, o documento incluía fotos de um míssil norte-coreano, de uma instalação subterrânea na Líbia para a produção de material nuclear, e de um míssil balístico russo SCUD de baixo alcance (arma que teve papel crucial na Guerra do Golfo). Apesar de esse míssil ser usado em muitos países, apenas cinco nações estavam listadas em uma “Reavaliação de Postura Nuclear” mais abrangente, realizada pela administração Bush em dezembro de 2001: Irã, Iraque, Líbia, Coréia do Norte e Síria.

O Iraque provavelmente saiu da lista após a invasão americana, em março de 2003, explica Kristensen, assim como a Líbia, quando seu líder, o coronel Muammar Qadhafi, renegou formalmente as armas em dezembro daquele ano. As reavaliações de 2003 para esses países incluem uma “série de opções redigidas” e uma “abordagem enfocada no cenário”, assim como “uma estrutura de ataque alterada para aumentar a flexibilidade de execução”.

No entanto, essas opções militares têm seu caminho obstruído por um “número reduzido de ogivas operacionais”, de acordo com o relatório. O problema foi abordado com a criação de uma “nova tríade”, formada por mísseis balísticos intercontinentais, bombas de gravidade lançadas no ar e mísseis balísticos lançados por submarinos, além de outros sistemas de armas.

“Sob o conceito (de uma nova tríade) basicamente tudo se torna estratégico – e ao incluir armas convencionais, defesa com mísseis e instalações para a produção de armas, eles podem dizer que a proeminência de armas nucleares tem sido reduzida”, diz Kristensen. “Mas como é mostrado pelo documento, a nova tríade também leva a uma expansão da política dos alvos nucleares”.

É claro que, como essas informações são secretas, não fica claro se uma foi feita uma versão mais atualizada da reavaliação em 2004. E outros documentos permanecem secretos, embora Kristensen tenha submetido um pedido de acesso a eles de acordo com o Ato de Liberdade de Informação. “Demorei três anos para ter acesso a esse documento, então imagine quando poderei ter acesso aos outros”, ele diz. “Perguntei a eles qual plano estava em vigor, e eles disseram que ainda era a reavaliação de 2004”. Mas parece claro que alvos mais flexíveis e abrangentes têm feito parte da política americana de armas nucleares desde pelo menos 2003.

Scientifc American Brasil

http://www2.uol.com.br/sciam/

Transposição do Rio São Francisco e a luta de Frei Cappio

Entrevista especial com Ruben Siqueira e Roberto Malvezzi (Gogó)

Por mais que os movimentos sociais sinalizem fortemente os problemas que a transposição do Rio São Francisco pode trazer para o Brasil e apresentem alternativas que irão beneficiar mais e custar menos, o governo está fechado em seu casulo sobre o assunto e não aceita outra verdade senão a sua. Há dois anos, quando retomou o projeto de transposição, Dom Luiz Cappio, bispo de Barra, na Bahia, queria conversar com o governo, mas num primeiro momento não obteve retorno. Assim, entrou em greve de fome em prol das lutas feitas para salvar o Velho Chico. O governo parou as obras e prometeu dialogar após as eleições. Lula se reelegeu e retomou o projeto sem ouvir quaisquer alternativas para o projeto que apresenta como a salvação para a sede do povo do semi-árido, mas que não passa de um projeto que viabiliza o desenvolvimento do agronegócio e hidronegócio na região. Dom Cappio tentou dialogar, não obtendo resposta daquele que ajudou a chegar à presidência. Refletiu, orou e novamente está em greve de fome pelo São Francisco e pela população nordestina.

A IHU On-Line conversou, por telefone, com Ruben Siqueira e com Roberto Malvezzi, o Gogó, ambos da Comissão Pastoral da Terra da Bahia. Eles comentam sobre as articulações que estão sendo feitas em torno do jejum do Bispo Cappio, da situação dos indígenas e camponeses e das comunidades que vivem e dependem do Rio São Francisco, além de analisarem as atitudes tomadas pelo governo federal.

Confira as entrevistas.

IHU On-Line – O movimento social, que se reúne em torno da luta contra a transposição do Rio São Francisco, tinha conhecimento da decisão de Dom Luiz Cappio de entrar novamente em greve de fome?

Ruben Siqueira – Existe um grupo que ele reúne, formado por algumas pessoas de sua confiança, com que Dom Cappio se aconselha. Essas pessoas são dos movimentos sociais. É o meu caso, que sou da CPT (Conselho da Pastoral da Terra), como também o do Gogó, o do Adriano Martins. Às vezes, ele se aconselha com o deputado Edson Duarte, que é do PV (Partido Verde). Ele vinha nos avisando que de estava chegando a hora em que deveria fazer isso e nos disse: “Então, vocês devem cuidar de tudo”. Portanto, nós começamos a trabalhar nessa direção, mas os movimentos, de um modo geral, não tinham conhecimento desse fato.

Gogó – Dom Luiz sempre vinha nos consultando sobre o andamento da obra. Então, ele indicava, com diversos sinais, que a qualquer momento ele poderia retomar essa greve de fome. No entanto, quando ele tomou a decisão final, nos comunicou no último momento, porque é uma decisão particular. Nós ficamos sabendo uns dois dias antes, quando ele telefonou a um grupo mais próximo seu, avisando que iria retomar a greve de fome.

IHU On-Line – Como vocês estão se articulando para acompanhar a decisão de Dom Luiz? Que iniciativas pensam em realizar?

Ruben Siqueira – Envolvidos nesta articulação estão os grupos da CPT, da Comissão Pastoral dos Pescadores, do Instituto Regional da Pequena Propriedade Apropriada de Juazeiro, do MST, do Movimento dos Pequenos Agricultores, do Movimento dos Atingidos por Barragens, do Sindicato dos Eletrecitários de Sobradinho e do Sindicato da Água e do Esgoto de Sobradinho. São essas instituições do movimento popular que estão aqui com Dom Cappio, além de seus familiares e pessoas da Diocese dele e da Diocese de Juazeiro. Então, esse grupo está se articulando com os seus movimentos, como a Via Campesina, a CPT Nacional, a Cáritas, o CIMI, a CNBB e com as representações das igrejas lá em Brasília e em suas sedes. A partir da articulação feita aqui, há o contato e a articulação com os movimentos do centro do país. Agora há pouco, chegou a informação de que o Marcos Arruda estaria articulando outros companheiros e personalidades para fazerem jejuns que se somassem, um seguido pelo outro ou em grupo, em apoio a Dom Luiz.

Gogó – Existe uma articulação em nível local, dos movimentos sociais, da Diocese de Juazeiro, da comunidade ribeirinha, de equipe de pastorais sociais que estão acompanhando o caso dia-a-dia. Também recebemos visitas, além haver de palestras sobre o rio, sobre a convivência com o semi-árido. Junto a tudo isso, está havendo uma articulação nacional. Eu mesmo estou em Goiânia, numa plenária da Via Campesina. Aqui estão sendo elaboradas uma proposta e manifestações públicas nesse período imediato para que possamos nos solidarizar com Dom Luiz e, ao mesmo tempo, mostrar ao governo que a sociedade brasileira está insatisfeita com o modelo de desenvolvimento brasileiro – no caso, especificamente, com a transposição do Rio São Francisco.

Vamos fazer também várias manifestações, convocar as igrejas para que elas, em nível nacional, possam fazer celebrações, jejuns solidários, cartas, abaixo-assinados, romarias, além de refletirem sobre a situação das águas nas suas regiões. Ao mesmo tempo, os movimentos sociais irão organizar manifestações por todo o país. Elas estão sendo preparadas e, logo na semana que vem, irão começar. A proposta é a de que sejam feitos mutirões de jejuns em nível nacional. As iniciativas, às vezes, se multiplicam sem que haja controle. Nós pensamos que o fato de ele retomar a greve de fome propicia essa multiplicação de fatos, eventos e reflexões e ajuda o povo brasileiro a entender a realidade, difícil e perigosa, a qual essa política governamental está nos conduzindo.

IHU On-Line – Por que Dom Cappio optou pelo município de Sobradinho para iniciar a greve de fome? Você pode descrever como é o local?

Ruben Siqueira – Dom Luiz está na Vila São Francisco, que é uma das três vilas que compõem o atual e recente município de Sobradinho. Essa cidade é resultado dos barrageiros, os operários que vieram de todos os cantos do Brasil, principalmente do Nordeste, para a construção da barragem de Sobradinho. Quando terminou a barragem, eles não tinham o que fazer, então fincaram o pé aqui, brigaram e conseguiram ficar. Era a antiga Vila São Joaquim, também conhecida por Cai Duro, em razão das mortes seguidas que aconteciam, tal o estado de degradação social e violência. A Vila São Joaquim era dos operários, e a Vila São Francisco era dos técnicos de nível médio. Havia, ainda, uma terceira vila, que era a Vila Santana, onde os engenheiros e chefes viviam. Essas três vilas hoje constituem o município de Sobradinho. Nós estamos a três quilômetros da barragem, da parede, do barramento de Sobradinho. A escolha de Dom Luiz para voltar à segunda greve aqui foi em função de essa barragem ter se tornado emblemática porque passou, depois de 30 anos, a ser o coração artificial do Rio São Francisco. Isso porque o rio está refém da produção de energia: 80% de sua vazão é para a produção dela. O que está acontecendo agora, no momento? Sobradinho está com apenas 14% de sua capacidade, e a vazão continua normal para produzir energia nas cinco barragens ajudantes de Sobradinho. Mas a energia, no momento, consome a água do São Francisco. Portanto, há uma seca terrível, e a população reclama. Ela está distante 30 quilômetros da água em torno do lago de Sobradinho, e essa situação emblemática foi escolhida por Dom Luiz para simbolizar que o São Francisco precisa de cuidados e não pode suportar mais um grande uso econômico de suas águas.

IHU On-Line – Como está a situação dos indígenas e camponeses que dependem, hoje, do Rio São Francisco?

Gogó – Nesse momento, o Rio São Francisco está passando por uma situação muito difícil porque não choveu nas cabeceiras e o nível de suas águas está muito baixo. Com isso, o lago de Sobradinho está com apenas 14% da sua capacidade total. Toda a vez em que o rio baixa, aparece um problema sério para as comunidades ribeirinhas. Neste ano, aconteceu um fato novo: quase 600 quilômetros de rio ficaram com a água de uma forma que sequer ela poderia ser utilizada para tomar banho, para pescar e muito menos para beber. A situação do rio é muito grave, e nesse momento se percebe a fragilidade dele, que necessita de uma revitalização. Desse modo, percebe-se o impacto que esta obra poderá causar o rio, já constantemente agredido. Os índios estão na luta por seus territórios, embora isso não apareça muito na mídia. Agora, ficamos sabendo que, na verdade, os canais da transposição irão atingir o território de 22 nações indígenas. Isso sequer é contado, falado ou citado no projeto de transposição, mas são realidades que precisam vir à tona.

IHU On-Line – Dom Luiz afirma que a sua decisão é “por amor ao rio, amor ao povo beradeiro do São Francisco e ao povo nordestino”. Você acha que ele despertará apoio popular à causa da luta contra a transposição?

Ruben Siqueira – A expectativa é de que o apoio seja maior do que a incompreensão e a reação contrária. Porque o que acontece com esse projeto da transposição é que ele foi vendido por uma poderosa propaganda como solução para sede de dois milhões de pessoas. Essa é a fachada propagandista que esconde a verdade do projeto. Na verdade, trata-se de um projeto do hidronegócio, que esconde, por trás, a comercialização da água bruta do Nordeste. O objeto é interligar as águas do Nordeste, para lugares onde ela é rara e tem custo econômico. A partir daí, será estabelecida cobrança pelo uso da água bruto, porque, atualmente, só se paga pelo sistema de beneficiamento e distribuição. A grande finalidade dessas águas traz consigo os grandes interesses econômicos, como a pesca de camarão, a produção de frutas novas e de aço para a exportação. Tanto é verdade que esses canais e túneis passam muito longe dos setores mais secos. As águas vão em direção aos grandes açudes do Nordeste, que estão evaporando, ou seja, são cemitérios de água. Então, esse aporte, que não é tão grande, traz grandes prejuízos para o São Francisco e não representa a grande contribuição de água para a água estocada e sem uso no Nordeste setentrional. As razões e mecanismos de funcionamento do projeto são desconhecidos da população. Então, aqueles que compreendem isso, e isso é um objetivo do gesto de Dom Luiz, devem gerar discussão para que se busque informação e fazer com que as pessoas descubram a chantagem da qual estão sendo vítimas. Baseado nisso, a expectativa é que o apoio seja maior do que a reação contrária.

Gogó – Eu creio que um impasse está sendo criado. Ele irá suscitar o apoio popular, sem dúvida, mas também muitas reações contrárias. Até porque o governo insiste num marketing perverso e não tem coragem de afirmar que seu projeto tem finalidade econômica, escondido por trás de uma pretensa sede das pessoas. Nós estamos dizendo sempre a ele: se a transposição abastecesse mesmo 12 milhões de habitantes, para nós seria muito pouco. Nós temos projetos na mão, tecnicamente estruturados e montados, como o projeto da Agência Nacional de Águas, para beneficiar mais de mil municípios, atingindo 32 milhões de nordestinos. Se você soma esses 32 milhões com os dez milhões beneficiados pelas obras da Articulação do Semi-árido Brasileiro, teremos 42 milhões de nordestinos beneficiados pela metade do preço do custo da transposição. Então, o nosso problema é desmistificar a fala do governo. Nós sempre dissemos que, se tivéssemos cinco minutos numa rede nacional de televisão para apresentar ao povo brasileiro as alternativas que existem, o governo estaria desmoralizado no dia seguinte.

IHU On-Line – E como você acha que o governo recebeu essa notícia de que Dom Luiz está novamente em greve de fome pelo Rio São Francisco?

Ruben Siqueira – A primeira reação do governo já era esperada: uma reação nervosa e impensada. A fala de Lula de que entre 12 milhões e um, ele irá ficar com 12 milhões, revela uma reação intempestiva. Nós sabemos que o fato gerou bastante estranheza e descontentamento de vários e amplos setores da sociedade, dos movimentos sociais, de setores ligados ao governo. São reações de incompreensão da crise que se estabeleceu desde que o governo tomou a decisão e começou a operar a transposição do São Francisco. É exatamente essa falsa democracia que nós vivemos que leva a esse tipo de situação, de cidadãos de alto nível de consciência e compromisso lançarem mão de recursos extremados radicais, mas que trazem o que não está acontecendo no país atualmente sobre o sentido do Brasil: o desenvolvimento. É preciso colocar em pauta a discussão de um projeto nacional em função de seu próprio povo e o uso de suas riquezas, suas florestas, suas águas, seus minerais, sua biodiversidade, sua agricultura, não em função de grandes projetos capitalistas de alta lucratividade externos ou globalizados, mas primeiramente em função do seu próprio povo. É essa discussão que nós gostaríamos que fosse aceita pelo governo, não a reação de quem está diante de um inimigo. Dom Luiz, desde o primeiro momento da construção do PT, abertamente, até contra a orientação da Igreja, lutou pela eleição de Lula, pela construção do partido e, tal como nós, achava que o nosso projeto popular, o projeto que expressava o anseio da maioria do povo, estivesse na pauta desse governo. No entanto, o governo Lula trocou de pauta. Então, a reação que ele tem demonstrado é de que ele é a única alternativa para o clamor do povo.

IHU On-Line – Você acredita que o bispo levará o seu enfrentamento até as últimas conseqüências contra o governo?

Ruben Siqueira – Infelizmente, é essa a percepção que a gente tem, porque, diferentemente da outra vez, eu penso que até por conta desses dois anos de tentativa de diálogo, de conversa, de debate, Dom Luiz passou refletindo sobre essa decisão que tomou há poucos dias. É uma decisão pensada durante muito tempo, de muita construção e oração. Ele está irredutível e afirma que não tem outra alternativa nem negociação. Afirma, também, que o governo não é capaz e não honrou a palavra. Assim, ele não tem o que procurar e não tem que ser procurado por esse governo. A única coisa que ele aceita é a suspensão do projeto e a retirada do exército. Aliás, essa é outra coisa absurda num país democrático: o uso das forças armadas para um projeto polêmico. Ou o governo consegue criar um consenso para um caminho mais democrático operar, ou então deveria evitar esse tipo de recurso. A expectativa nossa diante da incompetência do governo em tratar com as questões democráticas e populares é a pior possível.

Gogó – Essa é a decisão dele. Então, ele se colocou numa decisão radical: ou o governo revoga o projeto ou ele vai até o fim. Todas as pessoas que conhecem Frei Luiz sabem que ele não é uma pessoa de atitudes intempestivas: ele é um homem muito reflexivo, um homem de orações e um homem de decisões. Então, tudo indica que ele está decidido a ir até o fim.

IHU On-Line – Se o governo não der atenção à manifestação de Dom Luiz e ele levar essa decisão até o fim, o que será do movimento sem ele?

Gogó – Se ele for até o fim, se o pior dessa situação se consumar, evidentemente que Dom Luiz se tornará uma referência nacional e internacional para gerações presentes e futuras. Ou seja, no fundo, o seu gesto sinaliza que a loucura está no modelo de desenvolvimento que destrói os rios, as florestas, explora as pessoas e mais: que a sociedade brasileira, neste momento, está confusa diante do governo atual e não consegue perceber esse modelo de desenvolvimento. Mas, num futuro muito breve, a atitude de Frei Luiz trará luz ao que significou esse momento na história do Brasil em termos de mistificação e de um projeto predador, que desrespeita tanto a natureza quanto as pessoas. Eu acredito que ele tem muita consciência do que está fazendo e que está mais preocupado em falar com o povo brasileiro para que ele pense na sua situação do que falar com o próprio governo. Dom Luiz sabe que o governo está fechado ao diálogo desde o primeiro dia. O governo tem esse projeto fechado e jamais aceitou dialogar sobre alternativas que são reais e existem, mas as quais prefere desconhecer.

Instituto Humanitas Unisinos
http://www.unisinos.br/ihu/index.php

Aumento da demanda global por petróleo provoca nova crise de energia

Jad Mouawad

Com os preços do petróleo se aproximando do limiar simbólico dos US$ 100 o barril, o mundo caminha para seu terceiro choque de energia em uma geração. Mas o aumento atual é fundamentalmente diferente das crises do petróleo anteriores, com implicações globais mais amplas e duradouras.

Assim como as crises de energia dos anos 70 e 80, os altos preços atuais estão causando ansiedade e dor para os consumidores, além de provocarem maiores temores sobre o impacto sobre a economia.

Diferente dos choques do petróleo anteriores, que foram causados por interrupções repentinas nas exportações do Oriente Médio, desta vez os preços estão subindo constantemente à medida que o consumo de gasolina aumenta nos países desenvolvidos, à medida que centenas de milhões de chineses e indianos saem da pobreza e outras economias em desenvolvimento crescem em ritmo vertiginoso.

“Este é o primeiro choque de energia do mundo provocado pela demanda”, disse Lawrence Goldstein, um economista da Fundação de Pesquisa para Política de Energia, em Washington.

As previsões dos futuros preços do petróleo variam muito. Alguns analistas vêem uma queda no próximo ano para US$ 75, ou menos, enquanto alguns poucos projetam o barril a US$ 120. Virtualmente ninguém prevê um retorno ao barril a US$ 20 de uma década atrás, o que significa que os consumidores devem se preparar para uma era de custos significativamente mais altos dos combustíveis.

Na raiz do aumento atordoante do preço do petróleo, de 56% neste ano e 365% em uma década, está um fato positivo: um boom sem precedente na economia mundial.

A demanda apenas da China e Índia deverá dobrar nas duas próximas décadas à medida que suas economias continuarem expandindo, com as pessoas destes países comprando mais carros e se mudando para as cidades em busca de um modo de vida há muito considerado garantido no Ocidente.

Mas com o aumento dos preços, a economia mundial está entrando em território desconhecido. O aumento não parece até o momento estar prejudicando o crescimento econômico, mas muitos economistas se perguntam até quando isto vai durar. “Estes preços estão altos demais e acabarão prejudicando a todos, produtores e consumidores”, disse Fatih Birol, economista-chefe da Agência Internacional de Energia.

Os preços futuros de petróleo fecharam a US$ 95,46 na Bolsa Mercantil de Nova York, uma queda de quase 1% em comparação ao dia anterior. Mas o preço se tornou volátil e muitos analistas esperam que o limiar psicologicamente importante dos US$ 100 o barril será ultrapassado nas próximas semanas.

“Os mercados atualmente parecem a torcida em pé nos últimos minutos de um jogo de futebol, gritando: ‘Vai! Vai! Vai!’”, disse Daniel Yergin, um historiador de petróleo e presidente da Cambridge Energy Research Associates, uma firma de consultoria. “As pessoas parecem quase mais à vontade em relação aos US$ 100 do que em relação ao petróleo a US$ 60 ou US$ 70.”

O petróleo não está distante de sua alta histórica, corrigida pela inflação, atingida em abril de 1980, após a revolução iraniana. Naquela época o petróleo saltou para o equivalente a US$ 101,70 o barril em valores atuais.

Por grande parte do século 20, enquanto transformava o mundo moderno, o petróleo era barato e abundante. Ao longo dos anos 90, por exemplo, os preços do petróleo eram em média de US$ 20 o barril. Mesmo com as altas atuais, o petróleo é mais barato que água engarrafada importada, que custaria US$ 180 o barril, ou leite, a US$ 150 o barril.

“A preocupação de hoje é como o setor de energia atenderá o crescimento previsto para a demanda a longo prazo”, disse Linda Z. Cook, membro da diretoria da Royal Dutch Shell, a grande companhia de petróleo. “A demanda por energia está aumentando em uma taxa que nunca vimos antes. No lado da oferta, estamos vendo dificuldade para atender. Este é o desafio de energia.”

Mais do que qualquer outro país, a China representa o tamanho de tal desafio. Ao se transformar em um gigante econômico global ao longo da última década, a China também se transformou em uma grande usuária de energia. Sua economia está crescendo no ritmo furioso de cerca de 10% ao ano desde os anos 90, tirando quase 300 milhões de pessoas da pobreza. Mas a rápida industrialização teve um preço: a demanda por petróleo quase triplicou desde 1980, transformando um país que antes era auto-suficiente em um importador de petróleo.

A Índia e a China abrigam cerca de um terço da humanidade. As pessoas destes países estão exigindo acesso à eletricidade, carros e bens de consumo e cada vez mais são capazes de competir com o Ocidente pelo acesso aos recursos. Assim, os dois gigantes asiáticos estão transformando profundamente a balança mundial de energia.

Atualmente a China consome apenas um terço do petróleo consumido pelos Estados Unidos, que queimam diariamente um quarto do petróleo do mundo. Até 2030, a Índia e a China importarão juntas quase tanto petróleo quanto atualmente os Estados Unidos e o Japão.

Apesar da demanda estar crescendo rapidamente no exterior, o apetite americano por carros grandes e casas grandes também tem provocado aumento do consumo de petróleo nos Estados Unidos. A Europa conseguiu refrear o consumo de petróleo por meio de uma combinação de altos impostos sobre a gasolina, carros pequenos e transporte público eficiente, mas os americanos não. O consumo de petróleo nos Estados Unidos, onde a gasolina é bem mais barata do que na Europa, saltou para 21 milhões de barris por dia neste ano, em comparação a cerca de 17 milhões de barris no início dos anos 90.

Se os chineses e indianos consumirem tanto petróleo por pessoa quanto os americanos, o consumo mundial de petróleo seria de mais de 200 milhões de barris por dia, em vez dos atuais 85 milhões de barris. Nenhum especialista considera concebível tal nível de produção.

De forma mais realista, a demanda global deverá aumentar para cerca de 115 milhões de barris por dia até 2030, um nível que provavelmente sobrecarregará a capacidade mundial de extração. O mundo já enfrenta uma margem limitada de capacidade ociosa; qualquer interrupção no fornecimento, seja causada por furacões ou conflitos armados, faz os preços saltarem.

“Nós não temos nenhum pára-choque”, disse Goldstein.

Para as companhias de petróleo, os preços elevados provocaram uma busca frenética por novos recursos ao redor do mundo. Após uma longa calmaria nos investimentos ao longo dos anos 90 devido aos preços baixos, as grandes companhias de petróleo investiram bilhões de dólares para aumentar a oferta.

O problema é que estes grandes novos projetos demoram muito tempo e as empresas têm sido atrapalhadas pelos custos mais altos. O custo de equipamento de perfuração, por exemplo, uma ferramenta básica do setor, dobrou nos últimos anos. Os analistas dizem que levará tempo, mas oferta adicional acabará chegando até o mercado.

A oferta também é atrapalhada pela tensão política no Golfo Pérsico, pela guerra no Iraque, pelos furacões devastadores no Golfo do México produtor de petróleo, pelas dificuldades de produção na Venezuela e pela violência na província rica em petróleo da Nigéria. Muitos destes fatores geopolíticos contribuíram para um adicional de risco político estimado entre US$ 25 a US$ 50 o barril. Recentemente, em apenas nove semanas, o petróleo saltou de US$ 75 a US$ 90 o barril sem muito motivo aparente.

“Um barril a US$ 50 parece algo distante a esta altura”, disse Thomas Bentz, um analista de energia sênior da BNP Paribas, em Nova York, citando um valor que pareceria impossivelmente alto para o petróleo há poucos anos. “O petróleo deixará de subir assim que ocorrer uma quebra na demanda. Isto não aconteceu.”

Quando acontecerá? Veteranos do setor de petróleo, tendo experimentado booms e quedas, dizem que ninguém deve contar com um aumento eterno do petróleo. Desacelerações econômicas na China e nos Estados Unidos -ou especialmente em ambos- provavelmente provocariam uma queda nos preços.

Isto aconteceu há apenas uma década, depois que a crise financeira asiática fez as economias locais mergulharem em parafuso. Os preços globais do petróleo caíram pela metade, de US$ 20 o barril para US$ 10 em questão de meses.

“Seria um grande erro achar que as leis da oferta e demanda foram abolidas”, disse Yergin.

Jornal New York Times

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/

História do avesso

Filmes de cineastas como Miklós Jancsó e Clint Eastwood, com pontos de vista múltiplos, são exemplos a seguir para retratar os conflitos atuais

PETER BURKE

Ver os dois lados de uma disputa é uma arte que só podemos desejar que fosse mais praticada e cultivada do que parece ser hoje, para evitar os custos humanos dos conflitos violentos. As escolas poderiam ajudar nesse sentido, ensinando os futuros cidadãos a evitar a suposição de que outras pessoas, grupos ou nações são inferiores ou menos racionais ou mais egoístas que nós mesmos ou nossa comunidade.
Os romancistas há muito deram uma contribuição para esse tipo de entendimento, educando a emoção e a razão dos leitores ao incentivá-los a se identificarem, pelo menos temporariamente, com pessoas e problemas diferentes dos seus.
No entanto, se há um meio apropriado para nos conscientizarmos da variedade de atitudes e preconceitos humanos, certamente é o cinema, em que o termo “ponto de vista” tem um significado literal assim como um metafórico, e é possível para a câmera mover-se à vontade entre visões opostas dos mesmos fatos.
Não estou certo se os diretores de cinema têm usado esse modo de educar o público com a freqüência devida, mas não é muito difícil lembrar alguns exemplos que se destacam.

Um filme húngaro
Nesse sentido, um dos meus filmes favoritos faz 40 anos neste ano. É um filme húngaro, encomendado pelos russos na época do comunismo para comemorar o 50º aniversário da Revolução Bolchevique -é um pensamento purificador que essa revolução tenha ocorrido há 90 anos.
Dirigido por Miklós Jancsó na época em que ele começava a ser conhecido internacionalmente, é ambientado em 1918, em plena guerra civil russa, travada de 1917 a 1922 entre os defensores dos bolcheviques e uma aliança de forças antibolcheviques liderada pelo general Anton Denikin, o almirante Aleksandr Kolchak e outros. Conhecido em húngaro como “Csillagosok, Katonák” (Estrelas, Soldados) e em inglês como “The Red and the White” (Os Vermelhos e os Brancos), o filme, que data de 1967, se passa em uma aldeia russa capturada primeiro pelos soldados vermelhos e depois pelos brancos.
Os dois grupos são apresentados de maneiras diferentes -a brutalidade dos brancos é mais formal e disciplinada que a dos vermelhos-, mas é quase inevitável, e sem dúvida foi planejado pelo diretor que o espectador não compare os pontos de vista dos vermelhos e dos brancos, mas o dos soldados, sejam de que lado forem, e o dos infelizes civis, que não querem mal a ninguém, mas são os que realmente sofrem.
Quase 40 anos depois, dois filmes de 2006, ambos dirigidos por Clint Eastwood, “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima” [DVD Warner], abordam de outra maneira o problema dos pontos de vista opostos.
De certa forma esses filmes formam uma dupla improvável, assimétrica. Eles tratam do mesmo acontecimento -a captura pelos americanos da ilha japonesa de Iwo Jima-, mas de ângulos muito diferentes. “A Conquista” não é tanto um filme de guerra -”Eu não me preparei para fazer um filme de guerra”, disse Eastwood- quanto uma meditação sobre a celebridade, sua natureza acidental e sua manipulação pela mídia.
O hasteamento da bandeira americana no monte Suribachi ganha fama porque foi captado numa foto, e os três sobreviventes do evento -se é que realmente participaram dele- são exibidos nos EUA para angariar dinheiro para os bônus de guerra. No entanto o filme inclui um relato da captura da ilha do ponto de vista norte-americano. “Cartas de Iwo Jima”, por outro lado, é notável porque apresenta para o público americano a batalha vista pelo lado japonês. O filme foi rodado em japonês, com atores japoneses como Ken Watanabe, mais conhecido no papel de samurais.
A abordagem de Eastwood é ainda mais notável e de fato corajosa, diante das antigas opiniões americanas sobre o papel dos japoneses na Segunda Guerra, começando com um ato de traição, o ataque não-anunciado a Pearl Harbor, e continuando com o tratamento desumano de prisioneiros.

A resistência
“Cartas” consegue de maneira admirável transmitir a idéia de que os japoneses são pessoas comuns, que na maior parte do tempo pensam em suas famílias, assim como os americanos retratados em “A Conquista”.
O filme também sugere que os soldados japoneses não estavam mais confiantes na vitória. Pelo contrário, eles são apresentados como estoicamente resignados à derrota e à morte inevitáveis, acreditando que é seu dever continuar resistindo, apesar de os invasores americanos estarem em número muito superior.
Nos dois filmes se faz um bom uso, embora infreqüente, de imagens da ilha feitas do ponto de vista dos atacantes e dos defensores.
Para qualquer um que já tenha visto “A Conquista”, em que as forças americanas que invadem a ilha esperam uma feroz resistência, é um pouco chocante ver a cena repetida, desta vez sabendo que os japoneses estão com escassez de homens e de munição.
É intrigante o fato de ter sido Clint Eastwood quem decidiu fazer esses dois filmes, já que sua fama começou por sua atuação em papéis heróicos em filmes de western como “Por Uns Dólares a Mais” (1967), em que era fácil ver a distinção entre o lado certo e o errado.
É igualmente intrigante -e talvez um sinal de esperança política- que essa dupla de filmes, minando qualquer comparação simples entre heróis e vilões, tenha atraído o público americano na era da chamada “guerra ao terrorismo”. “Cartas de Iwo Jima” recebeu o Globo de Ouro [de filme em idioma estrangeiro] e foi indicado para o Oscar de melhor filme.
Sim, há uma longa e difícil distância entre retratar os japoneses com simpatia, 60 anos depois da Segunda Guerra Mundial, e apresentar os vários pontos de vista dos árabes ou dos muçulmanos hoje. Mas, se um diretor de cinema importante não tomar essa iniciativa, como as pessoas vão aprender a ver os dois lados?

Jornal Folha de São Paulo

http://www.folha.uol.com.br/

Aconteceu em 1962 nos EUA

MATRICULADO: o estudante James Meredith, primeiro aluno negro da história da Universidade do Mississippi. Rejeitado várias vezes pela instituição, que só aceita alunos brancos, Meredith, de 29 anos, foi à Justiça para garantir seu direito de participar das aulas. A vitória no tribunal não foi suficiente: o governador Ross Barnett, defensor da segregação racial na universidade, ordenou que sua entrada no campus fosse impedida. O presidente John Kennedy decidiu intervir, enviando tropas federais ao Mississippi para escoltar Meredith. Os protestos violentos e conflitos motivados pelo caso provocaram duas mortes na cidade onde se localiza o campus. Setenta e cinco pessoas ficaram feridas. Em discurso à nação, Kennedy defendeu uma resolução pacífica da crise. Meredith, que fez carreira militar por nove anos e freqüentou uma faculdade só para negros por mais dois, foi alvo das ofensas dos outros alunos a caminho de sua primeira aula – uma palestra sobre a história colonial dos EUA. Dia 1º, em Oxford.

Revista Veja
http://vejaonline.abril.uol.com.br/

Da desobediência civil

Ocupar uma fábrica para impedir que os homens, pagos pelo patrão que se manda dali, levem as máquinas; arrancar plantas geneticamente modificadas para proteger a saúde de alguém; casar homossexuais; manter silêncio absoluto em uma assembléia ou ocupar pacificamente uma rua são algumas das ações políticas que associamos à “desobediência civil”. Uma atitude já bem antiga…

Thierry Paquot

Thoreau recusa, por principio, dar dinheiro para o Estado posto que não concorda com sua política e que não quer absolutamente financiar a guerra contra o México
Em um dia de julho de 1846 (dia 23 ou 24), em Concord (Massachusetts, Estados Unidos) onde nascera em 1817- Henry David Thoreau encontra Samuel Staples, da polícia municipal, que cobra o pagamento de impostos e chega até a oferecer o dinheiro necessário para que ele possa pagar. David Thoreau que mora já há dois anos em uma cabana na floresta de Walden e está a caminho da cidade para ir ao sapateiro consertar seu sapato, fica um pouco sem saber o que dizer. Retruca que recusa, por princípio, dar dinheiro para o Estado posto que não concorda com a política deste Estado e que não quer absolutamente financiar a guerra contra o México.

Por isso é preso e passa a noite na delegacia apesar de sua dívida com a receita ter sido paga por uma “misteriosa mulher” (provavelmente, Maria Thoreau, sua tia). Muito popular na cidadezinha e convertido pelas idéias inovadoras de Ralph Emerson (1803-1882), rodeado por intelectuais e pressionado pela revista The Dial, David Thoreau deve relatar sua experiência e justificar sua posição. Ele redige “A relação do individuo com o Estado”, texto que apresenta em uma Conferência em Concord, em janeiro de 1848. Elizabeth Peabody – cunhada do romancista Howthorne – o publica na sua revista Aesthetic Papers, em maio de 1849, com o título de “Resistência ao Governo Civil” que nas Obras Completas de Thoreau, publicadas depois de sua morte em 1862, terá o título de “A desobediência civil”1.

Na verdade, este texto polêmico cai no esquecimento e o próprio Thoreau não faz nenhuma referência a ele.

O entusiasmo de Gandhi
Para Gandhi, o Satyâgraha não é outra coisa que a Verdade e a Doçura na vida política”, onde supõe a não-violência mas não a passividade
Foi Leon Tolstoi que, não se sabe exatamente como, o leu e convidou os americanos, em uma carta publicada pela North America Review, no início do século XX, a retomar essa atitude corajosa e exemplar de um individuo que ousa enfrentar o Estado. Pouco antes, um estudante indiano da Universidade de Oxford, Mohandas K. Gandhi, vegetariano, entra em contato com outros vegetarianos, entre os quais Henry S. Salt, biógrafo de Thoreau, que lhe empresta a pequena brochura.

Gandhi fica entusiasmado e, ao se tornar advogado na África do Sul, a publica na sua revista Indian Opinion, em 26 de outubro de 1907. Depois disso, e até o seu assassinato em 1948, não deixará de recomendar a desobediência civil que ele associa a pratica da não-violência.

Thoreau ficou impressionado com Bronson Alcott, habitante de Concord, cuja filha Louisa May pinta seu retrato e coloca em Little Women. Ele proclama sua decisão de não pagar imposto enquanto o governo não acabasse com a indigna política escravagista. Conta-se que o squire Samuel Hoar acerta o pagamento, porém o essencial está muito além disso: a idéia de que um só cidadão possa se colocar contra seu governo, com toda sua alma e consciência, para estar de acordo com os princípios constitutivos do seu Estado, estava definitivamente reconhecida.

Agir com a consciência
O rei Christian da Dinamarca a tinha compreendido perfeitamente e, diante da exigência dos nazistas de impor a estrela amarela aos judeus, também a alfinetava em seu casaco
É esta idéia que David Thoreau vai reivindicar. Do que se trata exatamente? Nas primeiras linhas do seu libelo, ele aponta a que ponto a presença de qualquer governo corresponde a um déficit de consciência entre os cidadãos. “A única obrigação que me cabe, justamente, consiste em agir sempre, em qualquer situação, de acordo com a idéia que me faz bem.”

Mais adiante, ele ilustra esse principio moral ao explicar que uma nação dita “livre” não pode ter um sexto da população reduzida à escravidão e que por isso “já está na hora das pessoas honestas se rebelarem e começarem a preparar a revolução”. Como existem leis injustas, o justo encontra seu verdadeiro lugar na prisão, junto das vitimas de um governo inútil. Quanto aos funcionários que querem servir o bem, eles deviam se demitir … Thoureau aceita pagar a taxa para a manutenção das estradas ou a da escola, mas não admite financiar uma guerra que, de fato, contribui para reforçar os Estados do Sul, escravagista.

Seu desejo de paz está associado a sua convicção abolicionista. Um Estado preocupado com a justiça para todos e o respeito para cada um anuncia, segundo ele, seu próprio fim…Procurar uma lei a qual se deva obedecer é sempre, a seus olhos, um sinal de servidão contraria a afirmação da singularidade de cada ser.

Evitar injustiças
Desobedecer é um verbo pouco utilizado pelos “políticos” e líderes de opinião, salvo, alguns anos depois, com um José Bové ou alguns militantes críticos da chamada globalização
Analisando este texto já emblemático do ponto de vista do Movimento dos direitos civis que então agitava a América, a filosofa Hannah Arendt2 explica que ele indica, não aquilo que seria preciso fazer para corrigir as injustiças, mas como evitá-las. Como Montesquieu, ela acredita no “espírito das leis” que varia de um país a outro. E assim considera que a desobediência civil está ligada às condições de origem da União.

Nela se encontra o ideal do “consentimento” e seu corolário, “o direito à discordância”, como fundamentos da “arte da associação em comum”, próprio dos colonos e de seus descendentes, que tanto admirava Aléxis de Tocqueville. Interrogando-se sobre a eventual exportação destas práticas para outros sistemas políticos-jurídicos dominados pela “tirania da maioria”, Hannah Arendt acha que ela será acompanhada pela contestação da máquina jurídica, burocrática e cínica.

Quanto ao governo americano, em guerra contra o Vietnã sem a ter declarado e incapaz de assegurar a igualdade de direitos entre Brancos e Negros, ele reativa, na prática, a desobediência civil. Nestas situações de alerta que são o disfuncionamento das instituições se multiplicando no mundo, Hannah Arendt vê o sinal de uma generalização da discordância, transformada em resistência.

Indecência dos “que decidem”
O direito de discordância e da desobediência civil é, para o individuo dotado de uma consciência, um dever
Era isso que Ghandi propagava com o Satyâgraha3, palavra que ele inventa e que significa “se ater” à verdade. Ele repete muitas vezes que “o Satyâgraha não é outra coisa que a Verdade e a Doçura na vida política”, onde supõe a não-violência mas não a passividade. Pelo contrário, a desobediência civil “é uma infração civil a decretos sem moral que a lei estabeleceu”.

Suas prisões, sua constância nesta atitude íntegra, sua abertura em relação aos outros e o respeito a cada um deles- inclusive aos seus inimigos- asseguram muitas adesões a Ghandi. Mas seu combate se revela sem fim pois a injustiça de certas leis, a perversão das instituições, a indecência dos “que decidem ” parecem possuir uma capacidade de renovação inquietante!

Às vezes a correlação de forças é tal que somente a desobediência civil é possível. O rei Christian da Dinamarca a tinha compreendido perfeitamente e, diante da exigência dos nazistas de impor a estrela amarela aos judeus, também a alfinetava em seu casaco durante a ocupação do país. Ele foi seguido por inúmeros dinamarqueses e os nazistas recuaram – o que não impediu diversas represálias.

Cegueira dos políticos
Na França, Léon Bazalgette, especialista de Whitman, apresenta o libelo de Thoreau no Magazine International em 1894, antes de publicar uma tradução em 1921. É ele que Romain Rolland vai ler e utilizar em Vie de Vivekananda [A vida em Vivekananda], e que marcará Jean Giono, durante os anos 30, a ponto de se inspirar no título para sua denúncia da guerra, de todas as guerras, Refus d’obéissance [Recusa à obediência].

Desta maneira, na França, são, primeiramente, os literatos que se impregnam do pensamento de Thoreau e depois os militantes libertários e, através de Ghandi e da mística Índia, os discípulos de Lanza Del Vasto (1901-1981). Percebemos que desobedecer é um verbo pouco utilizado pelos “políticos” e líderes de opinião, salvo, alguns anos depois, com um José Bové, um Noel Mamère ou alguns militantes críticos da chamada globalização que não hesitam em questionar o Direito e a Lei em nome do respeito ao ser humano.

Que cegueira é esta dos políticos que persistem em não reconhecer a obsolescência de uma lei, sua defasagem com as condições inéditas até então, seus efeitos humilhantes em relação a esse ou aquele grupo ou indivíduo, sua violência perpetrada em nome de um Estado já morto? O direito de discordância e da desobediência civil é, para o indivíduo dotado de uma consciência, um dever.

——————————————————————————————————–

1 – Mil e uma noites, Paris, 1997. Sobre David Thoreau consultar os seguintes textos: The days of Henry Thoreau. A biography, de Walter Haring, Alfred Knopf, New York, 1965; A history guide to Henry David Thoreau, editada por William E. Cain, Oxford University Press, New York, 2000, em particular o artigo de Lawrence A. Rosenwald, “The Theory, Pratices and influence of Thoreau’s Civil Deobedience”, pag. 153 e também “De desobedecer ao crime de obedecer”, de Louis Simon, Europe, número 459/460, 1967, pág.210.
2 – Hannah Arendt, “A desobediência civil”, em “Da mentira à violência, ensaios de política contemporânea”, Editora Calmann Levy, Paris,1972, pág. 57-109.
3 – Ver Gandhi, “A jovem Índia”, introdução de Romain Rolland, Editora Stock, Paris, 1924.

Jornal Le Monde

http://diplo.uol.com.br/

Insefusa questiona; ‘Diário’ rebate

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

O Diário publicou na edição de quinta-feira a reportagem Após 3 anos,
Insefusa é ‘fantasma’. O texto mostrou que, apesar de estimativas de gasto
acima de R$ 2 milhões desde a sua criação (2004), o Instituto de Políticas
de Segurança Pública da Fundação Santo André pouco fez. Um dos trabalhos
do Insefusa, segundo o seu coordenador Nelso Stepanha, é realizar
diagnósticos de segurança, o que a Secretaria Estadual de Segurança
Pública faz gratuitamente.

O instituto foi criado pelo deputado estadual Vanderlei Siraque (PT).
Parte dos funcionários foi ex-assessor do político. Na reportagem, Siraque
alegou que atualmente não possui vínculo com a entidade e que seus
ex-funcionários participaram de processo seletivo.

Na sexta-feira, o coordenador Stepanha enviou uma carta à redação do
Diário contestando informações da reportagem. O jornal publica na íntegra
a carta do coordenador com as devidas respostas. Leia abaixo.

1.As duas fotos publicadas na primeira página do jornal são dos corredores
do prédio que abriga a pró-reitoria de graduação, quatro salas de aula da
graduação, além do instituto. Portanto, os corredores não são do Insefusa,
como afirma equivocadamente a legenda.

DIÁRIO: Os corredores fazem parte do prédio que abriga o Insefusa. A
reportagem não afirmou que não havia outros departamentos no local.

2.Ao contrário do que afirma a matéria, Isabel Jacomini não é funcionária
do Insefusa, conforme a mesma afirmou em entrevista no dia 29/11/07, ao
repórter Bruno Ribeiro, autor da matéria. Ela se desligou do instituto em
setembro de 2007.

DIÁRIO: Isabel realmente informou à reportagem que havia se desligado do
Insefusa. Porém, o jornal salientou principalmente os valores somados
durante os anos em que ela pertenceu ao quadro de funcionários.

3.Ao contrário do que afirma a matéria, Maria Cezira Colombara nunca foi
assessora de Vanderlei Siraque.

DIÁRIO: A reportagem reafirma que Maria Cezira já trabalhou com o deputado.

4.O professor-mestre Nelso Stepanha é professor concursado da Fundação
Santo André há 21 anos e, ao contrário do que afirma a matéria, não foi
“assessor de Vanderlei Siraque na Câmara Municipal de Santo André até
2004”, até porque Siraque é deputado estadual desde 1998.

DIÁRIO: Stepanha foi assessor de Siraque até 1994. A reportagem errou ao
digitar o ano.

5.Ao contrário do que afirma o organograma da matéria, Gabriel Clemente,
Maria Cezira Colombara e Pablo Assolini não são funcionários do Insefusa.
Pablo e Gabriel trabalham no Departamento de Comunicação da Fundação Santo
André. Já Maria Cezira trabalha na assessoria de gabinete da reitoria.

DIÁRIO: Os nomes desses funcionários estavam no site do Insefusa – tirado
do ar na véspera da publicação da reportagem –, nos panfletos da entidade
entregues à reportagem quando o Diário visitou a instituição e na tabela
de folha de pagamento do Insefusa obtida pela reportagem.

6.O Insefusa possui quatro funcionários, e não oito, como afirma legenda
das fotos da primeira página do jornal.

DIÁRIO: O número de funcionários estava no site, no panfleto e na tabela
da folha de pagamento.

7.Em 2007, pelos contratos firmados pelo Insefusa, já foram arrecadados R$
300.800, e não R$ 59,1 mil, como afirmado na matéria.

DIÁRIO: O valor de R$ 59,1 mil é a previsão de arrecadação do Insefusa
para 2007 declarada na 41ª reunião do Conselho Diretor da Fundação,
ocorrida em setembro deste ano no Fórum João Mendes, na Capital. Se o
valor arrecadado foi maior, deveria ter sido declarado nos balancetes da
Fundação apresentados à Câmara.

8.Quanto à afirmação de que o trabalho desenvolvido pelo Insefusa é
“idêntico ao feito pelas Polícias Civil e Militar”, temos a informar que
os dados disponibilizados pelo Infocrim (Sistema de Informações Criminais)
aos municípios referem-se apenas ao tipo de delito, local, horário e data
da ocorrência. O diagnóstico da violência elaborado pelo Insefusa é
científico e levanta o tipo de ocorrência, local, horário, data, perfil do
autor, perfil da vítima e modus operandi do autor do delito. Portanto, o
trabalho do Insefusa permite a elaboração de um diagnóstico mais amplo da
violência e da criminalidade nos municípios, facilitando o desenvolvimento
de planos de segurança.

DIÁRIO: As polícias Civil e Militar também fazem esse trabalho e os
utilizam no planejamento de combate à violência.

9.Referente ao box da matéria Entenda o que é, destacamos que o Insefusa
realizou, até presente data, Diagnóstico da Violência e Criminalidade nos
seguintes municípios: Guaira; Várzea Paulista; Embu-Guaçu; Suzano. Plano
Municipal de Segurança Pública nos municípios de Embu-Guaçu e Suzano.
Curso de Formação da Guarda Municipal de Santo André. Curso de Capacitação
para Guardas Municipais de São Bernardo e Embu-Guaçu. Oficinas
Comunitárias sobre Prevenção à Violência no município de Porto Feliz.
Concurso de Promoção Vertical da Guarda Civil Municipal de Santo André,
além de promover debates e discussões com a sociedade por meio de fóruns e
seminários.

DIÁRIO: As informações sobre as atividades do Insefusa foram passadas pelo
próprio coordenador do instituto, Nelso Stepanha, em conversa telefônica
gravada pela reportagem.

10.O deputado estadual Vanderlei Siraque não indicou nenhum dos atuais
funcionários do Insefusa, que passaram por processo de seleção pelo
departamento competente e, posteriormente, foram nomeados pelo presidente
da Fundação Santo André.

DIÁRIO: A posição do deputado está no texto da reportagem.

11.O deputado estadual Vanderlei Siraque nunca possuiu vínculo
institucional com o Insefusa, ao contrário do apresentado equivocadamente
no organograma da matéria.

DIÁRIO: Siraque confirmou ser o fundador do Insefusa. Ele coordenou o
curso de pós-graduação de Segurança Pública da Fundação Santo André
divulgado pelo Insefusa.

12.O deputado estadual Vanderlei Siraque apresentou emenda ao orçamento do
Estado no valor de R$ 1 milhão para realização de pesquisas científicas na
Fundação Santo André. O governo não liberou a verba por causa de denúncias
contra a Fundação.

DIÁRIO: Embora o professor não tenha descrito as pesquisas científicas que
o deputado pleiteou junto ao governo do Estado, o Diário vai se informar a
respeito do pedido.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

Bandeira

Verissimo

Lembro que o jogador se chamava Bandeira. Tinha recém-sido contratado pelo Internacional e no seu primeiro jogo pelo time principal fez um gol sensacional. Daqueles que a TV repete e repete, e correm mundo. Driblou toda a defesa adversária, driblou o goleiro e – a frase suprema, no vocabulário pronto do torcedor entusiasmado – “entrou com bola e tudo”. Hoje não se usa muito entrar com bola e tudo. Mesmo depois de passar pelo goleiro, com nada entre ele e o fundo do gol, o jogador prudente prefere chutar a entrar com bola e tudo. Não só para prevenir contra a chegada de algum desesperado de última hora no seu calcanhar, mas porque “entrar com bola e tudo” adquiriu um certo ar de acinte, de desrespeito ao adversário. Entrar com bola e tudo equivale a dar as costas para o touro cansado, que é quando o toureiro acrescenta a humilhação a todas as outras agruras do bicho. Mas o Bandeira entrou no gol com a bola e só a chutou quando ele mesmo já se misturava com a rede, lá no fundo. Aliás, acho que foi a última vez que vi alguém entrar com bola e tudo daquele jeito. Consagração.

No resto do jogo, o Bandeira não fez mais nada. No resto da sua passagem pelo Internacional, o Bandeira não fez mais nada. Durante algum tempo, ia gente ao estádio só para ver o Bandeira fazer outro gol como aquele. Era o Bandeira receber a bola e passava um arrepio audível de antecipação pela platéia. É agora! Mas o Bandeira nunca mais fez um gol parecido. O Bandeira nunca mais fez um gol de espécie alguma, no Internacional. Quando se convenceram que ele não tinha outra coisa a contribuir ao time, que sua contribuição se resumira naquele gol, o Bandeira foi para a reserva. Ficava no banco. Por algum tempo, toda a vez que o técnico mandava o Bandeira se preparar para substituir alguém, passava o mesmo frisson pela torcida. Talvez agora! Mas depois, nem isto. Depois, nem no banco o Bandeira ficava, e quando ficava era vaiado. Foi vendido.

Não sei que fim levou o Bandeira. Nunca mais ouvi falar nele. Não deve mais estar jogando, esta história é antiga. E também não sei se ele trocaria aquele único gol com bola e tudo por muitos gols normais, que talvez lhe assegurassem uma carreira mais estável, ou se a glória daquele momento compensava tudo, até um fim anônimo. Quem pode dizer?

Se já é difícil entender as pessoas, o que dirá os centroavantes.

ESTERIOTIPAGEM

Jogadores de futebol podem ser vítimas de estereotipagem. Por exemplo, você pode imaginar um jogador de futebol dizendo “estereotipagem”? E no entanto, por que não?

- Aí, campeão. Uma palavrinha pra galera.

- Minha saudação aos aficionados do clube e aos demais esportistas, aqui presentes ou no recesso dos seus lares.

- Como é?

- Aí, galera.

- Quais são as instruções do técnico?

- Nosso treinador vaticinou que, com um trabalho de contenção coordenada, com energia otimizada, na zona de preparação, aumentam as probabilidades de, recuperado o esférico, concatenarmos um contragolpe agudo com parcimônia de meios e extrema objetividade, valendo-nos da desestruturação momentânea do sistema oposto, surpreendido pela reversão inesperada do fluxo da ação.

- Ahn?

- É pra dividir no meio e ir pra cima pra pegá eles sem calça.

- Certo. Você quer dizer mais alguma coisa?

- Posso dirigir uma mensagem de caráter sentimental, algo banal, talvez mesmo previsível e piegas, a uma pessoa à qual sou ligado por razões, inclusive, genéticas?

- Pode.

- Uma saudação para a minha progenitora.

- Como é?

- Alô mamãe!

- Estou vendo que você é um, um…

- Um jogador que confunde o entrevistador, pois não corresponde à expectativa de que o atleta seja um ser algo primitivo com dificuldade de expressão e assim sabota a estereotipagem?

- Estereoque?

- Um chato?

- Isso.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

Quem foi Joseph Schumpeter, o teórico da “destruição criativa”?

O teórico da “destruição criativa”, que foi um dos maiores economistas do século 20, não era estranho a rompimentos violentos em sua vida pessoal, conforme revela nova biografia

Robert Skidelsky

Joseph Alois Schumpeter (1883-1950) foi um dos maiores economistas do século 20. Ele é mais famoso por sua teoria da “destruição criativa” -que sustenta que o sistema capitalista progride por revolucionar constantemente sua estrutura econômica: novas firmas, novas tecnologias e novos produtos substituem constantemente os antigos. Como a inovação acontece aos trancos e barrancos, a economia capitalista está, de forma natural e saudável, sujeita a ciclos de crescimento e implosão.

O agente deste processo revolucionário é o empresário heróico: o proprietário individual do século 19 e as grandes empresas do século 20. A inovação precisa de recompensa, daí a economia dinâmica permitir enormes lucros ao inovador. O monopólio temporário é a forma de a natureza permitir que os inovadores ganhem com suas invenções. A desigualdade de curto prazo é o preço do progresso no longo prazo.

Junto com sua contribuição positiva, Schumpeter fez uma crítica persistente à economia convencional, cuja preocupação com problemas estáticos de alocação em mercados perfeitamente competitivos elimina a mudança e o papel do empresário. Mas as especulações de Schumpeter foram muito além, para a questão da durabilidade de uma civilização que vive continuamente destruindo o que criou -uma linha de pensamento que vinha desde Marx e seu Manifesto Comunista.

Talvez Schumpeter tenha mais a dizer sobre a natureza do capitalismo do que a nova safra de idealistas do mercado gerada pela globalização ou pelos apóstolos do século 20 da estabilização, como Keynes.

Ao menos, esse é o argumento de Thomas K. McCraw, em “Prophet of Innovation” (profeta da inovação), sua nova biografia do grande Schumpeter e das pessoas e locais importantes da vida dele. O tema da destruição criativa surge no cenário da migração da própria família de Schumpeter, da dissolução do império Austro-Húngaro, do descontentamento dos anos entre as guerras e de algumas circunstâncias trágicas de sua vida pessoal adulta.

A principal idéia de McCraw diz respeito ao efeito do impacto do capitalismo na ordem ainda muito feudal da Europa Central e Oriental sobre o pensamento de Schumpeter. Foi a velocidade da transformação e a extensão dos deslocamentos que se seguiram que o levaram a rejeitar os modelos de equilíbrio estático dos economistas britânicos, derivados de uma sociedade onde a mudança econômica era evolucionária, e as instituições, muito estáveis. Diferentemente de seu contemporâneo Keynes, Schumpeter sempre viu a economia do ponto de vista de um empresário inovador, não do tesouro ou do banco central.

Dois anos após sua graduação pela Universidade de Viena, Schumpeter publicou um livro de 600 páginas sobre o método econômico e, três anos depois, um volume mais fino, “The Theory of Economic Development” (A teoria do desenvolvimento econômico), que iniciou sua ascensão para o estrelato de um emprego de professor temporário em uma universidade provinciana austríaca.

“The Theory of Economic Development” é a primeira declaração de Schumpeter sobre o papel crucial que empresários têm ao romper com as estruturas antigas e criar novas e estimular novos desejos, e o papel do crédito bancário em financiar a inovação -temas que passou a perseguir pelo resto da sua vida.

O livro também estabeleceu o que se tornou a principal linha de sua defesa do capitalismo -que sua destrutividade era inseparável de sua criatividade. Schumpeter não era um total não-intervencionista como seus colegas da escola austríaca Ludwig Mises e Friedrich Hayek, mas decididamente falou contra a política de estabilização sistemática recomendada por Keynes, por medo que ia pôr fim ao progresso prematuramente.

Dois golpes devastadores em curta sucessão trouxeram um “estabelecimento tardio de… maturidade”. Sua tentativa de fazer dinheiro como banqueiro fracassou em 1924, com o colapso de uma falsa fabricante de vidro, cujos empréstimos ele havia garantido. Uma ação legal adversa, apesar de exonerá-lo de más intenções, deixou-o com dívidas que levaram anos para ser pagas e mancharam sua reputação.

Enquanto isso, Schumpeter apaixonara-se desesperadamente por Annie Reisinger, 20 anos mais moça, bela filha do porteiro do prédio no qual ele crescera. Inventando uma educação de classe média para ela e ignorando o fato inconveniente de que ele já era casado, Schumpeter levou-a para o altar em novembro de 1925. Poucos meses depois, veio a morte de sua adorada mãe e, em agosto de 1926, da própria Annie, de parto.

Schumpeter nunca se recobrou totalmente dessa destruição dos sonhos de riqueza e felicidade pessoal. O resto de sua vida foi dedicado a ensinar, pensar e escrever. Ele assumiu uma vaga na cátedra em Bonn em 1925 e depois foi para Harvard em 1932, onde permaneceu até sua morte, em 1950. Nesse processo, conseguiu duas ajudantes dedicadas, Mia Stockel, que administrava sua agenda pessoal em Bonn, e Elizabeth Boody, com quem se casou em 1937. Em Harvard, tornou-se uma celebridade no campus, reunindo-se a cada tarde com seus seguidores em um café na Biblioteca Widener.

McCraw fornece relatos excelentes dos três grandes livros que Schumpeter escreveu em Harvard -”Business Cycles”, “Capitalism, Socialism and Democracy” e seu excelente “História da Análise Econômica”, publicado após sua morte, em 1954.

“Capitalism, Socialism and Democracy” foi um dos livros mais influentes do século 20. Ele transferiu a defesa do capitalismo com base de superioridade dos mercados sobre o planejamento central para a da superioridade do capitalismo sobre o socialismo como motor de progresso tecnológico, mas inseparável dos custos enormes em termos de rompimentos e desigualdades, e por causa disso, inerentemente frágil. A falha fatal do capitalismo é exatamente o que Marx percebeu no Manifesto Comunista: ele gera um interesse na inquietação social ao minar o governo tradicional sem ser capaz de criar uma classe dominante própria.

Diferentemente de Hayek, Schumpeter defende a viabilidade teórica do socialismo, mas argumenta que as condições para seu estabelecimento são tais que o tornam intoleravelmente opressivo. McCraw salienta com razão a ironia da forma como Schumpeter trata o socialismo -que levou alguns críticos a acreditarem que o estava defendendo- mas não percebe as implicações trágicas da tese: a civilização capitalista está mal fadada, mas sua alternativa, socialismo, é terrível.

Também me parece que ele subestima a enorme importância que a discussão de Schumpeter sobre a democracia teve no desenvolvimento da ciência política moderna, particularmente quando propõe que os políticos são empresários em votos e que a verdadeira função da democracia é escolher líderes, não políticas. O que Schumpeter estava argumentando era que a democracia elitista, ou oligarquia, poderia dar às sociedades as vantagens de ditadura e mais liberdade. Ele via o Reino Unido como epítome de tal sistema. Mas, em geral, duvidava da habilidade das democracias contemporâneas de exercitar o exigido auto-controle.

Schumpeter foi uma das mentes intrigantes do século 20, mas terá sido um grande economista? Diferentemente de Smith, Ricardo e Keynes, ele não criou uma teoria nova, não fundou nenhuma escola. Em Harvard, ele ensinou muitos alunos brilhantes, alguns dos quais vieram a receber o prêmio Nobel, mas que freqüentavam seus seminários mais para discutir do que para aprender. Ele certamente sabia “fazer” economia e de fato sua erudição na história da disciplina era incomparável, mas ele a via em grande parte de fora -ou seja, sociológica e historicamente.

Dada a magnitude das conquistas de Schumpeter fora da economia, este leitor continua com uma pergunta: a economia, como ensinada e praticada nos departamentos de economia das altas universidades e publicada nos principais revistas, tão diferente da forma que Schumpeter a compreendia, tem alguma coisa importante a nos dizer sobre as condições da vida política e econômica contemporâneas? Ou é, como o jogo de bolas de gude no romance de Herman Hesse “Magister Ludi”, um tipo de xadrez intelectual jogado por uma elite de padres seculares?

*Robert Skidelsky é vice-editor da revista Prospect.

Tradução: Deborah Weinberg

Prospect
http://www.prospect-magazine.co.uk/

Psol prepara estratégia e almeja conquistar prefeituras na região

Leandro Baldini
Da Sucursal de Diadema


Heloisa Helena e Ricardo Alvarez no calçadão da Oliveira Lima neste sábado (01/12)

Formado há cerca de dois anos, o Psol promete incomodar os demais partidos nas eleições municipais do próximo ano. Na tarde de ontem, a presidente nacional da legenda, a ex-senadora Heloísa Helena, esteve em visita a Santo André para participar de um encontro partidário.

“Devemos ter candidatos a prefeito em Santo André, em São Bernardo, em São Caetano e em Mauá. No entanto, vamos trabalhar para tentar indicar nomes em todas as cidades do Grande ABC para mostrar a força do partido, hoje o mais transparente do País”, afirmou, durante caminhada no calçadão da Oliveira Lima, no Centro da cidade.

Na companhia dela estiveram presentes o deputado federal Ivan Valente, o ex-vereador de Santo André Ricardo Alvarez e o vereador de São Caetano Horácio Neto.

“No próximo sábado, faremos uma reunião que provavelmente formalizará a minha candidatura. Estou preparado para o desafio”, comentou Alvarez, possível nome do Psol em 2008.

Já Horácio ressaltou que ainda não fez um planejamento. “É uma situação possível, mas ainda estamos buscando a viabilidade. É cedo para pensar nisso”, respondeu.

SANTO ANDRÉ – Heloísa Helena garante que a visita a Santo André não tem qualquer relação com o atual momento da administração petista na cidade, que na última semana enfrentou algumas crises internas. “Estou com uma programação de visita que passa por muitas cidades. Aqui no Grande ABC, o município é uma das referências e a visita já estava agendada. Não tem nada a ver com a situação do PT por aqui”, comentou.

Alvarez afirmou, no entanto, que o prefeito João Avamileno se equivocou e o partido vai enfraquecido para a disputa eleitoral. “Ele não poderia ter se posicionado antes da prévia. Isso causou um grande mal estar, que os adversários poderão tirar vantagem no próximo ano”, avaliou o ex-petista.

Ele também aproveitou a oportunidade para comentar sobre o possível confronto contra o deputado estadual Vanderlei Siraque, candidato petista em 2008. “Se formalizamos minha candidatura, afirmo que será difícil enfrentar o PT, que está no governo. Contudo, tenho certeza que fomos beneficiados com a vitória do Siraque sobre a Ivete (Garcia, vice-prefeita), pois ele tem um projeto inferior”, disse.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

PORQUE CANTAMOS

Se cada hora vem com sua morte
Se o tempo é um covil de ladrões
Os ares já não são bons ares
E a vida
É nada mais que um alvo móvel
Você perguntará porque cantamos
Se nossos bravos ficam sem abraço
A pátria está morrendo de tristeza
E o coração do homem se faz cacos
Antes mesmo de explodir a vergonha
Você perguntará parque cantamos
Se estamos longe como um horizonte
E quando soa o rio / soa o rio
Cantamos porque o cruel não tem nome
Embora tenha nome o seu destino
Cantamos pela infância e porque tudo
E porque algum futuro e porque tudo
E porque algum futuro e porque o povo
Cantamos porque os sobreviventes
E os nossos mortos querem que cantemos
Cantamos porque o grito só não basta
E já não basta o pranto e a raiva
Cantamos porque cremos nessa gente
E porque venceremos a derrota
Cantamos porque o sol nos reconhece
E porque o tempo cheira à primavera
E porque nesse talo e lá no futuro
Cada pergunta tem a sua resposta
Cantamos porque chove sobre o sulco
E somos militantes desta vida
E porque não podemos nem queremos
Deixar que a canção se torne cinzas.

Mário Benedetti

Odair Bermelho ameaça demitir diretora do Colégio da FSA

Júlio Gardesani (julio@abcdmaior.com.br)

A diretora Ana Paula Cruz foi impedida de realizar prova que concederia bolsas a alunos

A diretora do Colégio do Centro Universitário Fundação Santo André, Ana Paula Mazza Cruz, foi impedida de realizar a prova que concederia bolsas de estudo aos novos alunos do 1º ano do Ensino Médio, que deveria ser realizada nesta sexta-feira (30/11). Odair Bermelho, reitor e diretor da instituição, ameaçou demitir Ana Paula, caso insistisse em aplicar o exame.

“Odair Bermelho foi muito direto e impôs a condição. Ele me disse por telefone que eu seria mandada embora da universidade se eu continuasse com a idéia de realizar a aprova. O autoritarismo de Bermelho ficou explicíto nesta ação”, garantiu Ana Paula.

Uma reunião foi realizada logo após a suspensão da prova. Entre os participantes estavam o pró-reitor de graduação, Diolino José dos Santos Filho, professores da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras), coordenadores da Fundação, alunos do colégio e pela própria Ana Paula. O ponto da pauta era o de entender as ações da coordenação do Colégio e o que levou ao desentendimento entre a reitoria.

O edital que convocava o concurso de bolsas de estudo confundiu os participantes da reunião, que não chegaram a um consenso sobre o assunto. De acordo com o Departamento Jurídico da Fundação, o edital deixa claro que para a realização da prova seriam necessários 44 alunos inscritos, mas apenas 33 efeturam o pagamento e estavam efetivamente inscritos.

A prova foi adiada para o dia 10 de dezembro, mas a decisão se haverá ou não o exame caso não se chegue aos 44 jovens inscritos ainda será discutido. “Levarei para a reunião do Conselho que foi instalado na universidade para discutir os problemas que passamos nos últimos dias, a minha posição de que o adiamento era extremamente necessário, pois devemos esperar que mais alunos se inscrevam’, afirmou Diolino

ABCD Maior
http://www.abcdmaior.com.br/index.php

O PMDB e o fisiologismo político

Dejalma Cremonese

A máxima política que diz “se hay gobierno soy contra” pode ser facilmente invertida na ótica peemedebista para “se hay gobierno soy a favor”, tal a vocação governista (fisiológica) e adesista do partido.

Provindo do antigo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partido de oposição durante a ditadura militar (1964-1985), o PMDB é, nos nossos dias, o maior partido brasileiro. Possui 93 deputados federais – a maior bancada no Congresso Nacional, administra o maior número de estados, no total de 7 governadores (SC, PR, MS, RJ, ES, TO, AM) e 5 vice-governadores. É a primeira força no Senado Federal com 20 senadores. Possui 170 deputados estaduais, administra 4 prefeituras de capitais, além de 1.071 prefeituras por todo o Brasil (em torno de 20%), mais de 900 vice-prefeituras, 8.308 vereadores eleitos e conta com um milhão e oitocentos mil filiados, aproximadamente.

No espectro político, o PMDB se situa no campo ideológico de centro, ou seja, procura manter o status quo (situação vigente), fazendo “reformas” para deixar as coisas como estão. Muitas são as facetas do partido: quando falamos do PMDB do Simon ou do Rigotto (Sul), do Quércia, Garotinho e Cabral (Sudeste), ou do Sarney, Temer e Calheiros (Norte e Nordeste), estamos falando de diferentes peemedebês. No entanto, as decisões tendem a ser unânimes quando estão em jogo os interesses do partido. Um exemplo de fisiologismo explícito foi o caso do voto dos senadores peemedebistas contra a MP que criava a Secretaria de Longo Prazo (SALOPRAZ). O que se pleiteava, no caso, era um maior espaço no governo Lula.

O fisiologismo não é uma particularidade apenas do PMDB; no entanto, é o partido em que mais transparece essa característica por buscar, de qualquer forma, a manutenção do poder, independente de quem esteja no poder. Assim, segundo o Dicionário Houaiss, entende-se o termo “fisiologismo” como a conduta ou prática de certos representantes e servidores públicos que visa à satisfação de interesses ou vantagens pessoais ou partidários, em detrimento do bem comum. Ou seja, o fisiologismo está muito próximo do clientelismo político que é um tipo de relação de poder em que as ações políticas e decisões são tomadas em troca de favores, favorecimentos e outros benefícios a interesses individuais.

Fisiologista ou não, o certo é que nenhum partido que chegue ao poder hoje, no Brasil, pode prescindir da participação do PMDB. Aliás, o partido está ali para isso mesmo. A vocação governista do PMDB vem de longa data. Desde a abertura democrática em 1985, com Sarney, bem como na expressiva vitória do partido em 1987, elegendo 21 governadores em todo o Brasil. O PMDB esteve no poder com Itamar Franco (que começou sua carreira política no antigo MDB, embora tivesse passado pelo PL e ingressado, mais tarde, no PRN, para ser vice de Collor de Mello em 1989), assumiu a presidência após o impeachment de Collor. Em seguida, o PMDB apoiou incondicionalmente o governo de FHC (nos dois mandatos) e, agora, ocupa um espaço privilegiado no governo Lula, tendo a administração de 4 ministérios: Nelson Jobim (RS), no Ministério da Defesa, Reinhold Stephanes (PR), no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Hélio Costa (MG), no Ministério das Comunicações, José Gomes Temporão (RJ), no Ministério da Saúde e, até bem pouco tempo atrás, o ministério de Minas e Energia era ocupado por Silas Rondeau Cavalcanti (que pediu demissão por ter seu nome envolvido na “Operação Navalha”). O PMDB luta por ter novamente este ministério.

Seguindo nesta mesma lógica, é bem provável que, em 2010, o PMDB nem venha a lançar candidato à presidência da República, ficará na cômoda posição de apoiar o novo presidente eleito. Claro, para isso, pleiteará os cargos que achar necessários para continuar onde sempre esteve, no poder.

Correio da Cidadania

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1

O quilombo de José

José Vicente
Reitor da Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares
Às vésperas do 20/11, sociólogo festeja a única universidade com maioria negra no País: a sua

Mônica Manir

Diz que negro é que nem morcego: não entra em festa de pássaro porque mama e não entra em festa de mamífero porque voa. José Vicente usa o chiste para ilustrar a situação do negro à porta da universidade: ele não ingressa na escola pública porque sua qualificação é acidentada, nem entra na particular por falta de cascalho, grana, money. Diante de tamanho dilema, José Vicente matutou o seguinte: o negócio é virar o desenho de ponta-cabeça. Criar uma universidade em que pelo menos 50% dos estudantes sejam negros. É assim, ou não é. Em vez de esperar que uma instituição de ensino adote o sistema de cotas, metade das reservas já está lá para quem se autodeclarar da raça. A matutação foi há seis anos. Em dezembro terminam as aulas da primeira turma de Administração da Unipalmares. São 160 alunos, 140 deles negros, que vestirão black-tie na festa de encerramento de curso no Jockey Club paulistano, em março. Outras formaturas, com mais estudantes de Administração e outros de direito, vêm por aí. A Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares abriga 1.400 jovens, dos quais 1.120 negros autodeclarados, na maior proporção de jovens negros numa instituição de ensino superior da América Latina.

José Vicente não foge à raça: autodeclara-se negão. Negão caipira de Marília. Nasceu a cerca de 500 quilômetros da capital paulista e se forjou sob infindáveis pés de café. A família toda – pais e cinco irmãos – era de bóias-frias, também explorados nas lavouras de algodão e cana. O pai morreu quando o caçula, José Vicente, o Zezinho, tinha 1 ano. Morreu com 45, 50 anos, não se sabe de quê. De velhice, talvez. Meio século era, na época, o prazo médio de validade do trabalhador do campo.

Poucos anos depois a família se desconjuntou e cada filho foi morar com um tio. A Zezinho coube o tio Benedito, que arrendou um pedaço de terra em Limeira, também no interior de São Paulo, para plantar horta. Num certo período do dia o menino ajudava a vender alface na cidade ou ia cortar árvore para montar lenha. No outro, tentava retomar os estudos. Certa feita a professora disse, depois de uma leitura não sei das quantas: “Muito bem, Zezinho, você lê como um deputado”. Mas o aprendiz de parlamentar abandonou o cargo, sem pedir licença. Para escapar da tia, que batia de chicote, ele fugiu pro meio do mato e ficou escondido numa manilha pluvial por dois dias. “Não foi pra isso que fizemos a revolução!” Foi caçado, com cedilha, e devolvido para a mãe.

Em Marília, moraram encostados no Morro do Querosene, que a comunidade insistia em chamar de Morro da Querosene. Era onde o pobre comprava o combustível para suas lamparinas. Também era a confluência dos caminhões de bóias-frias, das prostitutas, dos marginais. O grande barato: conversar sobre a roça de amanhã avaliando a oferta dos “gatos”, os agenciadores que arregimentavam os bóias-frias a troco de banana. No Morro do Querosene, Zé Vicente se aculturou. “Foi onde realmente começou minha efervescência social subterrânea.”

O moleque ainda entregou leite, vendeu chuchu e biscoito maisena e foi cobrador de biscates antes de voltar para a lavoura, agora abanando amendoins. “Aquele sol, a fome, as costelas doendo, eu repetia pra mim mesmo: ‘Vou ser uma grande personalidade e jamais volto a trabalhar num treco desses, nem um filho meu vai trabalhar nesse negócio’”. A saída foi a banda marcial da cidade, onde tocava bumbo. Participante da banda tinha bolsa na Associação de Ensino de Marília e a possibilidade de viajar o Brasil, com uma pisadela no Paraguai. A banda dava status, era chamariz para o mulherio. Para conquistar as moças de vez, ele começou a fazer poesia, compor música. Uma das canções terminou em quinto lugar num festival. José Vicente, ô, José Vicente, você achou que dava para viver de poema, rapá…

Um oficial da PM lhe abriu o olho: “Com todo esse porte, você seria um ótimo força pública e ainda ganharia cinco vezes mais do que se trabalhasse na fábrica de biscoito”. A fábrica era o top da linha de produção na cidade. José Vicente virou foi soldado em São Paulo. Mas aquilo era circunstancial, porque ele sofria com o policiamento ostensivo. “Alguns ficaram encantados com a imagem de super-herói que o Tático Móvel dava, mas revólver na cintura era terrível para um poeta.” Refez o segundo e o terceiro colegial e entrou na Faculdade de Direito da Universidade Guarulhos. Conseguiu emprego de escrivão de plenário na Justiça Militar. Já na bica para virar segundo-sargento, teve de decidir entre o Direito e a carreira policial. Não carecia se vingar de ninguém, como o aspira André Matias. Pediu baixa. Queria ser de outra elite. Formou-se.

Na OAB, participou da Comissão de Direitos Humanos e, depois, da Comissão do Meio Ambiente. Todas as vezes que saía da Justiça Militar passava em frente da Escola de Sociologia e Política (ESP). “Che não morreu, viva Stalin, que muvuca, era minha cara aquilo ali!” Inscreveu-se. O lema da Sociologia e Política era o seguinte: se o cara não consegue intervir para mudar a sociedade, não serve para nada. Então um grupo começou a discutir que negro daqui, que negro de lá, que a capacidade de mutação do ser humano é algo fabuloso, que estímulos certos podem dar uma força descomunal, que negro e morcego estão muito distantes entre si…

Criaram o Cais, cursinho pré-vestibular que visava a ajudar os jovens afrodescendentes a entrar na universidade pública. Rodaram as apostilas num mimeógrafo, alugaram um espaço do próprio bolso na ESP e abriram as portas com 120 jovens. “Em seis meses, estão chegando à USP os primeiros negros”, bradavam. Menos. Bem menos. Nenhum deles passou. O Cais emborcou em sete meses. Acharam que era o caso, então, de selecionar um grupo de jovens negros, muitos com passagem pelo cursinho, e bater nas universidades pedindo bolsas. Conseguiram 15 da Metodista de Piracicaba e mais 15 da Metodista de São Paulo. O aluno entrava com 30% do valor. Logo estavam com 450, em diferentes cursos e instituições. Uma massa crítica substancial.

Veio, então, um filho de Deus perguntar por que não criavam uma universidade com maioria negra. Ninguém discutia cotas nessa época. Pareceu brincadeira, coisa de maluco. Mas vai daqui, vai de lá, pediram auxílio para a Metodista, que doou o projeto. Espelharam-se nas experiências americanas (são 117 as universidades do gênero nos EUA), mas não quiseram radicalizar. Lá é escola para negro ou escola para branco. A turma de José Vicente propôs uma mescla. “Caso contrário, não dá liga, temos que botar as duas partes para interagir e construir os fundamentos da tolerância, do respeito, da igualdade, da auto-estima etc., etc. e tal.” A primeira metade das vagas seria destinada aos negros autodeclarados. A outra, a todos os demais filhos de quem quer que seja.

No ato da inscrição, o candidato escreve se é negro ou não. José Vicente não entra no mérito da veracidade dos fatos. “Negro é quem se autodeclara assim; se o cara estiver mentindo, no mínimo ajuda a melhorar a estatística.” Ele recorre ao IBGE para explicar a matemática que tem na cabeça. Segundo o instituto, os negros aglutinam pretos e pardos, o que corresponde a 46% da população brasileira. Por esse critério, depois da Nigéria, o Brasil é o país com mais negros neste mundo.

Apesar da política de eqüidade da Unipalmares, aproximadamente 80% dos alunos se dizem negros. “Provavelmente porque é a primeira vez na história nacional em que eles se vêem protagonistas.” José Vicente traz à tona mais números para mostrar a participação exígua dos afrodescendentes nos degraus de cima: a TV Cultura tem 60 conselheiros, apenas 1 negro; são 368 desembargadores em São Paulo, nenhum negro; somente 26,4% dos funcionários contratados nas 500 maiores empresas do País são negros; a USP possui 5.400 professores, 4 deles negros (na Unipalmares são 28).

A mensalidade, na Universidade Zumbi dos Palmares, é de R$ 260, e 40% dos alunos fazem estágios no sistema financeiro ou em grandes corporações. Dos que se formam agora, 38 foram efetivados. Os alunos têm aula de inglês com profissionais do Alumni e disciplinas como a de Antropologia, Raça e Etnia. Fala a professora Elisabete Aparecida Pinto, que ministra a matéria no curso de Direito: “Quando se mexe com a energia da potência, o aluno vê que pode ser porta-voz da própria história”.

Fala José Vicente: “No Brasil vigora o racismo do cinismo e da ambigüidade, enquanto nos EUA a discriminação é mais evidente”. Qual ele prefere? O caipira de Marília acentua o friso entre os olhos e encorpa a voz de tenor. Diz, usando o dedo indicador, que no racismo americano coloca-se um revólver entre os olhos do negro. No racismo à brasileira, a arma toca a nuca. Entre a guerra franca e a velada, ele fica com a última. Porque, aos 48 anos, depois de ter vivido dos dois lados do balcão, de bóia-fria a reitor, de soldado a advogado da Justiça Militar, vê que existem ferramentas eficazes para mudanças de comportamento. Ferramentas de outra natureza.

HOLOFOTE
“De repente vem um negro e põe a educação de pé. Você acaba
virando ‘o’ cara”

INTERVENÇÃO
“Queríamos que a Unipalmares tivesse estatura. O ideal seria erguê-la na Av. Paulista”

TROFÉU RAÇA NEGRA
“Nos 500 anos do Descobrimento, não tinha negro na agenda. Daí criamos o prêmio”

Jornal O Estado de São Paulo

http://txt.estado.com.br/