Monthly Archives: dezembro 2007

Quem foi Jesus?

Ele não nasceu em Belém, teve vários irmãos e sua morte passou quase despercebida no Império Romano. A história e a arqueologia desencavam o Jesus histórico ¿ um homem bem diferente daquele descrito nos evangelhos

Rodrigo Cavalcante

Foi um dia de trabalho como outro qualquer. Depois da festa da Páscoa do ano 3790 do calendário hebraico, a maioria dos camponeses seguia sua rotina normalmente, assim como os coletores de impostos, os pescadores, os soldados romanos, os carpinteiros, os sacerdotes e as prostitutas. Em Jerusalém, contudo, algumas pessoas deviam estar comentando o tumulto do dia anterior, que resultou na morte de um judeu. Nada que não estivessem acostumados a ouvir. Naquele tempo, a cidade já era palco de conflitos político-religiosos sangrentos e quase sempre algum agitador morria por incitar a rebelião contra os romanos, que governavam a região com o apoio da elite judaica do templo de Jerusalém. Dessa vez, o fuzuê foi causado por um judeu camponês chamado Yeshua, que foi aprisionado e condenado à morte por ter desafiado o poder romano e o templo de Jerusalém em plena Páscoa. “Se você quisesse chamar a atenção de multidões para as suas idéias, essa era a data ideal”, afirma Richard Horsley, professor de Ciências da Religião na Universidade de Massachusetts e autor do livro Bandidos, Profetas e Messias – Movimentos Populares no Tempo de Jesus. “A festa tinha um forte conteúdo político, já que comemorava a libertação dos hebreus do Egito, que agora estavam sob o domínio dos romanos.” No meio da multidão (imagine a cidade paulista de Aparecida do Norte em dia de peregrinação), pouca gente deve ter se comovido com a prisão e morte de mais um judeu agitador – a não ser um punhado de parentes e amigos pobres. Mas nem eles poderiam imaginar que a cruz em que Jesus pagou sua sentença (sim, Yeshua é Jesus em hebraico) seria, no futuro, o símbolo mais venerado do mundo. Da suntuosa Basílica de São Pedro, no Vaticano, à pequena igrejinha da Assembléia de Deus, encravada no interior da Floresta Amazônica, a cruz se tornou o símbolo de fé para mais de 2 bilhões de pessoas. Sua morte dividiu, literalmente, a história em antes e depois dele. Mas, afinal, quem foi Jesus?

Pode parecer estranho, mas para os estudiosos há pelo menos dois Jesus. O primeiro, que dispensa apresentações, é o Cristo (o ungido, em grego), cuja história contada pelos quatro evangelistas deixa claro que ele é o enviado de Deus para salvar os homens com a sua morte. Os judeus costumavam sacrificar animais como cordeiros no templo para se purificarem. Ao morrer na cruz, Cristo torna-se o símbolo do cordeiro enviado por Deus para tirar o pecado do mundo.

O outro Jesus, já citado no início da matéria, é Yeshua, o homem que morreu sem chamar muita atenção dos cidadãos do Império Romano. Além dos evangelhos – que não podem ser considerados fontes imparciais de sua vida, já que foram escritos por seus seguidores – há apenas uma menção direta a ele citada pelo historiador judeu Flávio Josefo, que escreve sobre sua morte no livro Antiguidades Judaicas, feito provavelmente no fim do século 1. Para os pesquisadores, essa falta de citações seria um indício da pouca repercussão que Jesus teria tido para os cronistas da época. “Se existisse um grande jornal em Israel no tempo de Jesus, sua morte provavelmente seria noticiada no caderno de polícia, e não na primeira página”, diz John Dominic Crossan, professor de Estudos Religiosos da Universidade De Paulo, em Chicago, Estados Unidos. Autor dos livros O Jesus Histórico – A Vida de um Camponês Judeu no Mediterrâneo e Excavating Jesus – Beneath The Stones, Behind The Texts (“Escavando Jesus – Por Baixo das Pedras, Por Trás dos Textos”, inédito no Brasil), ele diz que a escassez de fontes diretas sobre Jesus não significa que seja impossível recompor a vida do homem de carne e osso que morreu em Jerusalém. “A interpretação correta dos textos históricos e a arqueologia estão trazendo surpreendentes revelações sobre o Jesus histórico.”

Uma dessas revelações pode estar contida numa pequena caixa de pedra cor de areia encontrada em Jerusalém com uma inscrição feita em língua e caligrafia de 2 mil anos atrás. Ao lê-la em aramaico, da direita para esquerda, como a maioria das línguas semitas, está escrito inicialmente “Yaákov, bar Yosef”, ou seja: Tiago, filho de José. E continua, mais desgastada, “akhui di…” irmão de “Yeshua”, Jesus. Isso mesmo. Segundo André Lemaire, especialista em inscrições do período bíblico da Universidade de Sorbonne, em Paris, há uma alta probabilidade de que a caixa tenha sido usada como ossário de Tiago (São Tiago, para os católicos), o mesmo do Novo Testamento, já que a possibilidade que a associação entre esses três nomes seja uma referência a outras pessoas é estatisticamente baixa.

Apesar de não ter sido encontrada num sítio arqueológico (como foi comprada por um colecionador num antiquário, as chances de fraude seriam maiores), ela poderá se tornar a primeira evidência material associada a Jesus. “Caso fique provado que a inscrição é verdadeira, a descoberta levantará uma série de novas questões”, diz Crossan. “Vamos ter que nos perguntar, por exemplo, se termos como irmão e pai significam exatamente o mesmo que hoje: pai e irmão de sangue.

Apesar de o Evangelho de São Mateus, no capítulo 13, versículos 55-56, citar: “Porventura não é este o filho do carpinteiro? Não se chamava sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas: e suas irmãs não vivem elas todas entre nós?”, a Igreja sempre pregou aos fiéis que irmão e irmã, nesse caso, significavam apenas primos ou um forte vínculo de amizade e companheirismo entre os que faziam parte de um grupo.

“Como esse é um campo cheio de fé e paixões, a busca do Jesus histórico sempre foi um desafio”, diz André Chevitarese, professor de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos maiores especialistas sobre o tema no país. “Enquanto um religioso conservador ressalta a dimensão espiritual de Jesus, um teólogo da libertação vai buscar nele sua atuação como revolucionário político.”

Mesmo que a diversidade de visões de Jesus seja proporcional ao número de igrejas, correntes e seitas que existem em seu nome, historiadores e arqueólogos estão conseguindo reconstituir como era o mundo em que ele vivia: um retrato fascinante da política, da religião, da economia, da arquitetura e dos hábitos cotidianos que devem ter moldado a vida de um homem bem diferente daquele retratado pelas imagens renascentistas que povoam a imaginação da maioria dos cristãos. A começar pela aparência. Baseados no estudo de crânios de judeus que viviam na região na época, os pesquisadores dizem que a fisionomia de Jesus deveria ser mais próxima da de um árabe moderno, como na imagem que abre essa reportagem. “Em tempos turbulentos como o de hoje, ele provavelmente teria dificuldades de passar pela alfândega de um aeroporto europeu ou americano”, diz Chevitarese.

Um presépio diferente
Imagine que nesse Natal você pudesse entrar numa máquina do tempo para visitar Jesus recém-nascido (quem conhece o argumento da série Operação Cavalo de Tróia, do escritor J. J. Benítez, sabe que a idéia não é original). Se isso fosse possível, os arqueólogos garantem que você teria algumas surpresas. A primeira delas teria relação com a data da viagem. Ao programar a engenhoca para o ano zero, provavelmente você iria se deparar com um menino de quatro anos. É que Jesus deve ter nascido no ano 4 a.C. – o calendário romano-cristão teria um erro de cerca de quatro anos. Tampouco adiantaria chegar em Belém no dia 25 de dezembro. Em primeiro lugar, porque ninguém sabe o dia e a data em que Jesus nasceu. O mês de dezembro foi fixado pela Igreja no ano 525 porque era a mesma época das festas pagãs de Roma. E o segundo problema, ainda mais grave, é que provavelmente Jesus não nasceu em Belém. “Há quase um consenso entre os historiadores de que Jesus nasceu em Nazaré”, diz o padre Jaldemir Vitório, do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte. Então por que o evangelho de Mateus diz que o nascimento foi em Belém? Vitório explica que o texto segue o gênero literário conhecido por midrash. Basicamente, o midrash é um forma de contar a história da vida de alguém usando como pano de fundo a biografia de outras personalidades históricas. No caso de Jesus, ele explica, a referência a Belém é feita para associá-lo ao rei Davi do Antigo Testamento – que, segundo a tradição, teria nascido lá. Mas as associações não parariam por aí. Assim como o nascimento em Belém, a terrível execução de recém-nascidos ordenada por Herodes e a fuga de Maria e José para o Egito também teriam sido uma “licença poética do texto”, dessa vez para simbolizar que Jesus é o novo Moisés – já que essa narrativa é bem semelhante ao que se contava da vida do patriarca bíblico. “Isso não foi uma criação maquiavélica para glorificar Jesus, era apenas o estilo literário da época”, diz Vitório. Até os simpáticos três reis magos estariam ali para representar que Jesus foi reconhecido como messias por povos do Oriente – e quase nenhum historiador defende que, de fato, eles tenham existido. (Apesar dos muitos fiéis que visitam todos os anos a Catedral de Colônia, na Alemanha, que acreditam que os restos mortais dos três estão lá.)

Mas se essas passagens são representações e não fatos históricos, o que um viajante no tempo encontraria de semelhante às imagens estampadas nos cartões de Natal? “Jesus deve ter nascido numa casa de camponeses extremamente pobres, cercada de animais”, diz Gabriele Cornelli, professor de Teologia e Filosofia da Universidade Metodista de São Paulo. “Cresceu numa das regiões mais pobres e turbulentas daquela época.”

Um judeu pobre da Galiléia
Um vilarejo de trabalhadores rurais numa encosta de serra com, no máximo, 400 habitantes. Segundo os arqueólogos, essa é a cidade de Nazaré no tempo em que Jesus nasceu. De tão pequena, a vila praticamente não é citada nos documentos da época. “As escavações arqueológicas na cidade não encontraram nenhuma sinagoga, fortificação, basílica, banho público, ruas pavimentadas, enfim, nenhuma construção importante que datasse do tempo de Jesus”, diz o historiador John Dominic Crossan. “Em compensação, foram encontradas pequenas prensas de azeitonas para a fabricação de azeite, prensas de uvas para vinho, cisternas de água, porões para armazenar grãos e outros indícios de uma vida agrária de subsistência.”

A casa em que Jesus cresceu devia ser como a de todo camponês pobre da época: chão de terra batida, teto de estrados de madeiras cobertos com palha e muros de pedras empilhadas com barro, lama ou até uma mistura de esterco e palha para fazer o isolamento. Ao entrar na casa, talvez alguém lhe oferecesse água tirada de uma cisterna servida num dos muitos vasilhames de pedra e barro achados pelos arqueólogos na região – a água era preciosa, já que a chuva era escassa. Para comer, a cesta básica era formada por pão, azeitona, azeite e vinho e um pouco de lentilhas refogadas com alguns outros vegetais sazonais, servido às vezes no pão (que você deve conhecer como pão árabe). Com sorte, nozes, frutas, queijo e iogurte eram complementos bem-vindos, além de um peixe salgado vez ou outra. Segundo os arqueólogos, a carne era rara, reservada apenas para celebrações especiais. A maioria dos esqueletos encontrados na região mostra deficiência de ferro e proteínas e sinais de artrite grave. “A mortalidade infantil era alta e a expectativa de vida girava em torno dos 30 anos”, diz Crossan. “Só raros privilegiados alcançavam 50 ou 60 anos de idade.”

Para garantir o sustento, as famílias precisavam ter um número razoável de filhos que ajudassem no duro trabalho no campo. “É pouco provável que Jesus tenha sido filho único”, diz o historiador Gabriele Cornelli. “Assim como um menino de roça que vive em comunidades pobres no interior, ele deve ter crescido cercado de irmãos.” Mesmo pesquisadores católicos como o padre John P. Meier, autor dos quatro volumes da série Um Judeu Marginal, sobre o Jesus histórico, dizem que é praticamente insustentável o argumento de que, no Novo Testamento, “irmão” poderia significar “primo”. “A palavra grega adelphos, usada para designar irmão, deve ter sido usada no sentido literal”, diz Meier. Sua conclusão reforça ainda mais as chances de que o ossário atribuído a São Tiago, irmão de Jesus, possa ser verdadeiro.

E quanto à profissão de Jesus? O historiador Gabriele Cornelli diz que, baseado nas parábolas atribuídas a ele, é muito provável que Jesus tenha sido um camponês. “Sua pregação está repleta de imagens detalhadas da vida agrícola”, diz Cornelli. “É quase impossível que esse grau de detalhamento possa ter surgido de alguém que não lidava dia a dia no campo.” Mas José não era carpinteiro e seu filho não o teria seguido na profissão?

O professor de Ciências da Religião Pedro Lima Vasconcellos, da PUC de São Paulo, diz que a palavra carpinteiro (tekton) usada no Novo Testamento pode significar também “biscateiro”, no sentido de uma classe inferior que faz serviços manuais. “É o que chamamos atualmente do trabalhador pau-pra-toda-obra.” Uma das hipóteses levantadas pelos arqueólogos é de que Jesus pode ter trabalhado no campo e, eventualmente, atuado em algumas obras de construção civil. Os arqueólogos descobriram que, a apenas 6 quilômetros de Nazaré, uma série de novos edifícios em estilo greco-romano estava sendo construída na cidade de Séforis. “É possível que Jesus tenha trabalhado lá”, diz Vasconcellos. A construção era apenas uma das várias obras que estavam sendo erguidas por Herodes Antipas, governante da Galiléia no tempo de Jesus. Além das intervenções em Séforis, os edifícios construídos nas cidades de Tiberíades e Cesaréia Marítima (nome dado em homenagem ao imperador Júlio César) tornavam a região cada vez mais parecida com as cidades romanas. “O problema é que todas essas obras representavam um fardo a mais aos camponeses pobres, que já pagavam muitos impostos”, diz o historiador Richard Horsley. “Não é à toa que surgiram nesse período vários movimentos populares de contestação ao poder romano, do qual Jesus era mais um representante.”

Messias de um novo reino
Se o rei Herodes Antipas precisasse se candidatar para se manter no poder na Galiléia no tempo de Jesus, seus assessores de marketing o venderiam como o “realizador de grandes obras” e seu slogan provavelmente seria “Herodes faz”. No seu governo (4 a.C. a 39 d.C.), enormes palácios foram construídos na Galiléia, muitos deles para abrigar a elite judaica que dominava a imensa massa de judeus pobres na região. O esquema de poder na Galiléia, assim como em outras regiões de Israel, funcionava num sistema de clientela: para reinar, Herodes contava com o apoio dos romanos. Estes, por sua vez, exigiam em troca que ele recolhesse impostos para Roma e se responsabilizasse pela repressão de qualquer movimento de contestação ao poder imperial. Sob essas condições, Roma permitia que os judeus cultuassem o seu Deus único, Javé, em vez de celebrarem as várias divindades do panteão romano. Estando bom para ambas as partes, o equilíbrio de poder era mantido. “O problema é que apenas os romanos e uma elite sacerdotal judaica eram beneficiados”, diz o professor André Chevitarese. “A maioria dos judeus tinha que trabalhar cada vez mais para sustentar essas duas classes.”

Ninguém sabe ao certo até que ponto Jesus começou a sua pregação motivado por esse sentimento de injustiça social. Até mesmo porque a tentativa de retratá-lo como um revolucionário político (e não um líder espiritual) parece fazer pouco sentido considerando-se a época em que ele viveu. “Essa distinção de uma consciência política separada da espiritualidade é uma invenção dos pensadores ocidentais modernos, como Maquiavel”, diz Chevitarese. “Para os movimentos apocalípticos de então, o modelo de sociedade perfeita é o Reino de Deus, algo que para essas pessoas estava prestes a se concretizar.”

Os estudiosos dizem que há uma dificuldade natural de quem vive nas sociedades modernas de entender a verdadeira dimensão da palavra apocalipse na época de Jesus. “Algumas pessoas hoje entendem o apocalipse como um futuro distante, o fim dos tempos que chegará somente quando todos estiverem mortos”, diz Paulo Nogueira, professor de Literatura do Cristianismo Primitivo da Universidade Metodista de São Paulo. “Na época de Jesus, os movimentos apocalípticos viam esse futuro como algo para daqui a alguns dias, quando o Reino dos Céus fosse se sobrepor ao Reino da Terra.” Enfim, era preciso se preparar logo.

Para os judeus pobres, estava claro que o tal reino terrestre prestes a ruir era aquele formado por Roma, pelos governantes locais e pela elite judaica representada pelo suntuoso Templo de Jerusalém. E o que as pessoas deveriam fazer para se preparar para o advento do novo reino? Um bom começo era ouvir as profecias de um dos mais conhecidos pregadores da época: João Batista. “Naquele tempo, a figura de João Batista era mais importante do que a de Jesus, que somente se tornou uma ameaça a Roma depois da crucificação”, diz o historiador John Dominic Crossan. Depois de ouvir suas profecias, as pessoas podiam se preparar para a chegada da nova era submetendo-se a um ritual de imersão na água: o famoso batismo de João Batista. “Ao entrar e sair da água, as pessoas sentiam-se como se estivessem deixando para trás os pecados e renascendo purificadas para o novo reino de Deus”, diz Nogueira. (Não é à toa que algumas igrejas até hoje só batizam o fiel quando ele já é adulto – e tem consciência da força do ato como marca da conversão.)

A maioria dos historiadores acredita que João Batista, de fato, deve ter batizado Jesus adulto. “Afinal, não deve ter sido fácil para os evangelistas explicar por que o messias foi batizado, já que, como enviado de Deus, ele é que devia batizar os outros”, diz o historiador André Chevitarese. Mas ele explica que o evangelho logo “resolve” a polêmica ao narrar que, na hora do batismo, a pomba do Espírito Santo aparece sobre Jesus e João Batista diz que ele é que deveria ser batizado.

“As fontes que estão nos ajudando a compreender esses movimentos apocalípticos são os manuscritos do mar Morto”, diz Paulo Nogueira. Descobertos em 1947, os manuscritos foram encontrados no convento de Qumran, uma espécie de condomínio de cavernas habitado pelos essênios, grupos de judeus que viviam como monges seguindo uma rígida disciplina de orações e uma dieta rigorosa. “Apesar de os manuscritos não revelarem nada diretamente sobre Jesus, eles mostram como os cultos apocalípticos já estavam disseminados nessa época”, diz Nogueira. Há até quem defenda a hipótese de que Jesus tenha tido uma ligação direta com os essênios.

Do que os crentes e céticos parecem não ter dúvida é que o batismo de João Batista foi um divisor de águas na vida de Jesus. A partir dali, ele teria se retirado para o deserto para depois dar início à trajetória de sermões e milagres que o levaria à condenação na cruz.

Milagres subversivos
Se os historiadores e arqueólogos estão conseguindo reconstituir o ambiente físico em que Jesus viveu e até têm bons palpites sobre a veracidade de certas passagens da sua vida, tudo muda da água para o vinho quando o assunto são os milagres. Afinal, como um pesquisador pode estudar objetivamente feitos considerados sobrenaturais?

Uma moda no passado (que até hoje tem muitos adeptos nos Estados Unidos) foi a tentativa de explicar a origem de alguns desses fenômenos como tendo causas naturais. Você provavelmente conhece algumas dessas teses: a estrela de Davi no nascimento de Jesus era na verdade o cometa Halley, Lázaro foi ressuscitado por Cristo porque estava em coma, não havia morrido biologicamente…

“Explicações desse tipo conseguem às vezes ser mais absurdas do que o próprio milagre”, diz André Chevitarese. Para ele, em vez de querer esclarecer racionalmente esses fenômenos, o historiador deve manter a mente aberta para entender como as comunidades da época encaravam esses feitos, estudando, por exemplo, qual a noção que se tinha então da doença e da cura.

Os pesquisadores sabem que no tempo de Jesus a doença estava associada à impureza. “A grande preocupação da lei judaica, já prevista em textos como o Levítico, era demarcar o que é puro e o que não é puro”, diz o professor Manuel Fernando Queiroz dos Santos Júnior, da Faculdade de Saúde Pública da USP. “E as doenças de pele, as mais visíveis, logo eram associadas à impureza espiritual.” Especialista em hanseníase, o professor diz que o que a Bíblia chama de lepra servia para nomear, na verdade, todas as doenças de pele na época, de eczemas a micoses. “Traduzir a palavra sara’at na Bíblia para o termo lepra ou hanseníase é errado”, diz o professor. “Quem lê a Bíblia sem atentar para esse detalhe tem a impressão errônea de que existia uma verdadeira epidemia da doença na época de Jesus.” O pior é que, graças a esse erro, os leprosos foram segregados por centenas de anos como portadores de uma doença impura.

Segundo os historiadores, essa associação perversa entre doença e impureza (ou pecado) terminava favorecendo a elite judaica do Templo de Jerusalém. “Afinal, para se curar, o doente tinha que pagar mais taxas e oferecer mais sacrifícios no templo”, diz Crossan. “Isso gerava para o doente um ciclo interminável de sofrimento e dívidas.” O templo era comandado por uma casta sacerdotal que detinha o monopólio de conduzir os fiéis aos rituais de purificação – que, na época, incluíam o sacrifício de animais como cordeiros (quem não tinha posses para tanto, podia sacrificar uma pomba branca comprada no mercado do templo).

Imagine agora o mal-estar que os sacerdotes deviam sentir ao ouvir relatos de que, com um simples toque, um judeu pobre da Galiléia andava curando doentes, declarando, com esse gesto, que a pessoa estava livre dos pecados. “Hoje é difícil de entender como um ato desses era radicalmente subversivo”, diz Richard Horsley. Ele diz que Jesus não estava só. “Uma série de outros curandeiros também usavam esse ritual para desafiar o poder do templo naquela época”, diz o historiador.

Como Jesus conseguia curar as pessoas? Poucos pesquisadores se arriscam a dar palpites. O certo é que, ao se misturar com doentes, mendigos, gentis, prostitutas, enfim, toda classe de pessoas consideradas impuras, Jesus conseguiu incomodar a maioria dos grupos judaicos da época. Entre esses incomodados, se incluíam os fariseus, membros de uma escola religiosa que insistia na completa separação entre os judeus e os gentios (fariseu quer dizer “o que está separado”). Eram provavelmente hostis a Jesus e não deviam entender por que ele comia na mesma mesa dos “impuros” – se você leu os evangelhos, deve ter notado como os primeiros cristãos retratam os fariseus de forma pouco lisonjeira. Jesus provavelmente também não agradou saduceus, pequeno grupo judeu que não acreditava na imortalidade da alma nem nos anjos, muito menos nos milagres de Jesus. “Seu estilo de ensinar e de viver desagradou muitos judeus, que o colocaram à margem do judaísmo palestino”, diz o padre e historiador John P. Meier, no seu livro Um Judeu Marginal. “Mesmo sendo um galileu rústico que nunca freqüentou uma escola de escribas, ele ousou desafiar as doutrinas da época”, diz Meier.

A escolaridade é outro ponto polêmico sobre a vida de Jesus – já que, para muitos historiadores, ele provavelmente era analfabeto. “Somente uma ínfima parcela da população que trabalhava para os governantes sabia ler e escrever”, diz Richard Horsley. “Não acredito que ele fizesse parte dessa parcela.” Então, como explicar o trecho do evangelho que o retrata lendo numa sinagoga? “A palavra ler no evangelho pode significar recitar”, diz Horsley. “O fato de Jesus não saber ler nem escrever não significa que ele não conhecesse os textos e as tradições judaicas.” Juan Arias, correspondente do jornal El País no Brasil e autor do livro Jesus, Esse Grande Desconhecido, discorda. “Apesar de ter vindo de uma família muito pobre, é difícil imaginar que as discussões polêmicas que ele teve com seus contemporâneos relatadas nos evangelhos possam ter sido feitas por um homem que não sabia ler”, diz Arias.

Mesmo que não tenha sido analfabeto, o judeu pobre da Galiléia não deve ter chamado a atenção da elite intelectual da época. A não ser, talvez, pelos tumultos que deve ter causado quando resolveu pregar diretamente em Jerusalém, chegando a derrubar barracas dos mercadores que comerciavam no templo. O resto da história você conhece: para os romanos, apenas mais um agitador crucificado, nada anormal em meio a centenas de outras crucificações. Para um punhado de seguidores, o símbolo de uma nova fé que mudaria o rumo da humanidade.
De Jesus a Cristo
Imagine Nova York como o centro espiritual do mundo muçulmano. Ou mesmo a Basílica de São Pedro, no Vaticano, transformada numa mesquita dedicada ao profeta Maomé. Improvável, não? “Foi algo dessas proporções que aconteceu com a expansão do cristianismo”, diz André Chevitarese. “Em cerca de três séculos, a crença de uns poucos seguidores se tornou a religião oficial do Império Romano, o mesmo império que havia ordenado a sua morte.”

Como isso ocorreu?

Para os cristãos, a resposta é simples: Jesus ressuscitou. Essa seria a evidência de que o homem crucificado não era, afinal, apenas um homem e sim Cristo, o messias esperado pelo povo judeu. Mas como entender o evento da ressurreição? “Nenhum outro tipo de milagre se choca mais com a mentalidade cética da moderna cultura ocidental”, diz o padre John P. Meier. Para ele, ficar especulando sobre o que aconteceu com o corpo de Jesus é, do ponto de vista da história, uma tarefa inútil. “A essência da crença na ressurreição é que, ao morrer, Jesus ascendeu em sua humanidade à presença de Deus”, diz Meier. “Descobrir qual a ligação dessa humanidade com o seu corpo físico não é matéria dos historiadores.”

Mas se a ressurreição é uma questão de fé e não de história, os estudiosos estão pelo menos conseguindo esclarecer detalhes sobre o terrível momento que a teria antecedido: a crucificação. Tudo começou em 1968, quando foi descoberto na região de Giv’at há-Mivtar, no nordeste de Jerusalém, o único esqueleto de um crucificado conhecido pela ciência. Depois que os ossos foram analisados pelos pesquisadores do Departamento de Antiguidades de Israel e da Escola de Medicina Hadassah, da Universidade Hebraica de Jerusalém, conclui-se que os braços não foram pregados, mas amarrados na travessa da cruz. Já as pernas do condenado foram colocadas em ambos os lados da base vertical de madeira, com pregos segurando o calcanhar em cada lado. Não havia evidências de que suas pernas haviam sido quebradas depois da crucificação para apressar a sua morte. “O curioso é que uma revelação surpreendente sobre a morte na cruz não surgiu da descoberta de esqueletos, mas da falta deles”, diz Pedro Lima Vasconcellos, da PUC de São Paulo. “Afinal, se centenas e até milhares de pessoas foram crucificadas na época, por que apenas um esqueleto foi encontrado?”

O historiador John Dominic Crossan diz que há uma razão terrível para isso: “As três penas romanas supremas eram morrer na cruz, no fogo e entregue às feras”, diz Crossan. “O que as tornava supremas não era a sua crueldade desumana ou sua desonra pública, mas o fato de que não podia restar nada para ser enterrado no final.” Apesar de ser fácil de entender por que não sobraria nada de um cadáver consumido pelo fogo ou devorado por leões, ele diz que a maioria das pessoas esquece que, no caso da crucificação, o corpo era exposto aos abutres e aos cães comedores de carniça. Como um ato de terrorismo de Estado, a extinção do cadáver também tinha como vantagem para as autoridades evitar que o túmulo do condenado se tornasse local de culto e resistência.

Mesmo que ninguém saiba o que ocorreu após a morte de Jesus (alguns historiadores acham razoável que a família e os amigos pudessem ter reivindicado o seu corpo), o fato é que seus seguidores passaram a relatar suas aparições. “Não se deve subestimar o poder dessas experiências em nome do racionalismo”, diz Paulo Nogueira, professor da Universidade Metodista de São Paulo. “Afinal, as pessoas tinham visões, entravam em transe. É uma simplificação, por exemplo, ficar tentando encontrar razões sociológicas para explicar a experiência mística responsável pela conversão de Paulo.”

Nascido na cidade de Tarso, na atual Turquia, Paulo (São Paulo, para os católicos) talvez seja o homem que, sozinho, fez mais pela expansão do cristianismo que qualquer outro dos seguidores de Jesus. O curioso é que, antes de se converter, ele era uma espécie de agente policial encarregado de perseguir os cristãos. “Sua conversão foi tão surpreendente na época como seria hoje ver um embaixador israelense se converter à causa palestina”, diz Monica Selvatici, doutoranda em História da Unicamp e especialista em Paulo. “Suas idéias terminaram afastando o cristianismo do judaísmo da época.”

Ela explica que, depois da morte de Jesus, não havia uma distinção clara entre judeus e cristãos. “Os seguidores de Jesus eram apenas judeus que defendiam a tese de que ele era o messias, ao contrário daqueles que não o reconheciam como tal”, diz Mônica. “Eram uma ala do judaísmo, assim como o PT tem alas que não representam as idéias predominantes do partido.” Como falava grego muito bem e foi um dos cristãos que mais viajaram, ele discordava dos judeus-cristãos que defendiam a tese de que os gentios convertidos precisavam seguir rigorosamente a lei judaica, incluindo aí a necessidade da circuncisão – não vista com bons olhos pelos estrangeiros. Em suas cartas (epístolas), são famosas as polêmicas travadas com Tiago (São Tiago, para os católicos), suposto irmão de Jesus, que teria sido um defensor de um cristianismo mais fiel ao judaísmo.

Mas a idéia central de Paulo, resumida na frase de que “o verdadeiro cristão se justifica pela fé e não pelos trabalhos da lei”, prevaleceu. Os gentios podiam agora se converter sem tantos empecilhos e o cristianismo ganhou novas fronteiras. “Paulo ajudou a tirar de Jesus a imagem de um messias para o povo hebreu, transformando-o num salvador de todos os povos”, diz Mônica. “Jesus deixou de ser um fenômeno regional para ganhar um caráter universal.”

A influência de Paulo é tão grande, que há historiadores que chegam a dizer que o cristianismo como o conhecemos é, na verdade, um “paulismo”. “Isso é um exagero”, diz Paula Fredriksen, professora de estudos religiosos da Universidade de Boston e autora do livro From Jesus To Christ (“De Jesus a Cristo”, inédito no Brasil). “Com ou sem Paulo, já havia um movimento forte entre os judeus cristãos de que os gentios não precisavam seguir estritamente as leis para serem salvos”, diz Paula.

Mas o que levaria um cidadão romano a trocar os seus deuses para cultuar um judeu da Galiléia? (Lembrando que, na época da morte de Jesus, um cidadão romano sabia tão pouco sobre as várias correntes do judaísmo como um ocidental hoje sabe sobre as linhas do Islã.) “O cristianismo trouxe uma idéia de salvação da alma que não existia na religião romana”, diz Pedro Paulo Funari, professor de história e arqueologia da Unicamp. “A religião romana tinha um aspecto formal, público, pouco ligado às inquietações da vida depois da morte”. Mas Funari explica que, apesar do formalismo das crenças romanas, a idéia de salvação da alma já estava difundida na população pela influência de algumas religiões orientais, como o culto a Íris e Osíris, do Egito. “Isso deve ter facilitado ainda mais a expansão do cristianismo em Roma”, diz Funari.

O ápice dessa expansão se deu quando o imperador romano Constantino converteu-se ao cristianismo, no século 4. Ninguém sabe ao certo se ele foi motivado mais por dilemas espirituais do que razões políticas (afinal, ao se converter, ele pôde contar com o apoio dos cristãos e com a estrutura de um Igreja já bem organizada.)

O certo é que alguns séculos depois, a cruz, imagem brutal da sua crucificação, foi usada para invocar a guerra e a paz entre os povos. E Yeshua, o judeu pobre que morreu praticamente despercebido durante a Páscoa em Jerusalém, já era conhecido por boa parte do mundo como o Cristo. O mesmo Cristo cujo nascimento passou a ser celebrado todos os anos, no mês de dezembro, no dia de Natal.

Revista Superinteressante
http://super.abril.com.br/super2/home/

Os bancos são mais iguais

Emir Sader

O lema fundamental da dominação capitalista e imperialista continua sendo “Civilização ou barbárie”. Civilização para os dominantes e barbárie para todos os outros. Civilização para os brancos, ocidentais, protestantes ou católicos, europeus ocidentais ou estadunidenses. Mas é a cor da pele a bandeira da sua superioridade.
Não por acaso, Hollywood, a maior fábrica de racismo do mundo, promove a criminalização das outras “raças”, sejam índios dos EUA, os africanos, árabes, japoneses, chineses, coreanos, mexicanos ou qualquer outra variante dos não-brancos. O único filme produzido nos EUA contra a potência que promoveu a maior “limpeza étnica” da história da humanidade, a Alemanha, foi realizado por um não-estadunidense, Charles Chaplin, com “O grande ditador”. O clima contra ele ficou tão insuportável que precisou sair às pressas dos EUA, antes mesmo do lançamento do filme.
Hollywood narrou a história do massacre das populações indígenas nos EUA como uma saga da “civilização” resgatando palmo a palmo o território dominado por “peles vermelhas” “traiçoeiros”. Indômitos cowboys, chamados de “mocinhos”, enfrentando os “bandidos” das populações originárias.
Recorrentemente, renascem as teorias e as afirmações racistas sobre a suposta inferioridade intelectual dos negros. Bem antes das declarações do prêmio Nobel sobre o tema, surgiu a “teoria dos sinos”, que repetia a mesma ladainha de sempre. Os negros teriam características que os tornam excelentes para as atividades atléticas. Chega-se ao requinte de elaborar mapas da origem dos africanos, pois certas regiões estariam mais adaptadas para a produção de atletas para corridas de longas distâncias, pela resistência, enquanto, outras, produzem os de curta distância, pela rapidez. Este reconhecimento do desempenho atlético é uma espécie de “compensação” à inferioridade intelectual que se lhes quer impor. Um autor que vive recomendando as melhores leituras para todo o mundo, não hesitou em perguntar onde estaria o Shakespeare africano. Um modo de dizer que só está disposto a rever sua tese sobre a inferioridade intelectual e cultural dos africanos quando estes forem capazes de apresentar conquistas intelectuais similares às européias.
A colonização e a escravidão, que parecem fenômenos passageiros, que não deixaram marcas na trajetória nem dos que se enriqueceram, nem dos que se empobreceram com elas, nunca aparecem nos seus preciosos “cálculos” . Colonização e escravidão foram formas de recrutar uma raça inferior para trabalhar para a raça superior, em nome do “progresso” e do “desenvolvimento”. Colonização e escravidão transformam-se em categorias atemporais, que beneficiaram a “humanidade”, a “civilização”, apropriada pelos brancos ocidentais cristãos.
Esses raciocínios pseudo-científicos procuram desqualificar as outras etnias e combater algumas conquistas políticas, como é o caso especialmente das cotas. Afinal, de que adianta promover os negros, já que sua inferioridade é genética!
Quando esta concepção ganhou a Califórnia, o resultado foi arrasador para os negros, pois os brancos e os de origem asiática se repartiram entre si as vagas das universidades e os negros foram praticamente excluídos. É uma manobra intelectual para justificar a imposição da hegemonia das idéias dominantes na sociedade mercantilizada dos EUA: os pobres – entre eles os negros – não são produzidos pela estrutura econômica e social capitalista, eles são os “perdedores” de um jogo onde tiveram as mesmas oportunidades que os outros, mas foram vencidos no concurso meritocrático da excelência, da produtividade, do custo-benefício.
Todos são iguais, mas os brancos são os mais iguais, os mais “civilizados”, os mais inteligentes – e mais ricos, mais poderosos, mais beligerantes, os mais agressivos, os mais discriminadores, os mais exploradores.

Carta Maior

Retrospectiva da economia brasileira em 2007

Guilherme Delgado

21-Dez-2007

As editorias, refletindo a natural curiosidade do leitor, estão ávidas neste final de ano por um balanço retrospectivo da economia brasileira, de preferência descomplicado e sem muito “economês”. As perguntas implícitas seriam mais ou menos estas: como estamos (quem?) indo na economia e como se explica a situação presente. A perspectiva para um futuro próximo (2008) ficaria para um outro artigo, embora algo já se possa deduzir da análise da conjuntura atual.

Com relação à primeira pergunta pode-se dizer que caminhamos melhor no rumo do crescimento da produção e do emprego em 2007, agora que metas de Produto Interno Bruto (PIB) são perseguidas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – enquanto que no primeiro governo Lula somente havia a meta de estabilização monetária do Banco Central (meta de inflação), como uma espécie de “samba de uma nota só” da política macroeconômica. Mas aqui é preciso fazer um pequeno esclarecimento: o emprego formal vem crescendo fortemente desde 2001, com taxas de incremento substancialmente mais altas que as do PIB.

Há um processo de formalização da força de trabalho (que já dura sete anos), em geral de baixos salários e precárias condições de trabalho (até 3 salários mínimos), que este ano incrementará mais de 2 milhões de novos segurados ao INSS. Mas este é um resultado até certo ponto inesperado do PAC, que também não contempla metas de emprego, seja formal, seja informal. Este assunto (metas de emprego) também não entrou na agenda do Fórum Nacional da Previdência, encerrado em outubro de 2007. Provavelmente o crescimento econômico continuado sustentará este movimento, como o fez em 2007 (o PIB deverá crescer a 5% ao ano e o emprego formal a taxa ligeiramente superior).

Tudo indica que há outras causalidades, que não cabem aqui tratar, que de certa forma explicam este ciclo virtuoso de recuperação do emprego formal. O lado não tão virtuoso desse ciclo são as condições de trabalho dos novos segurados, que ao que tudo indica padecem de processos de super-exploração, medidas pelas condições de morbidade que se observam nas perícias do INSS.

Um outro lado importante da análise retrospectiva é o chamado setor externo da economia, cuja síntese se expressa pela chamada “conta corrente” com o exterior. Aqui, os resultados de 2007 significam clara sinalização de luz amarela. Deve cair o superávit comercial em 3 bilhões de dólares a menos daquilo que foi no ano passado (em números redondos, US$ 38 bilhões em 2007 contra US$ 41 bilhões em 2006), enquanto que as remessas para o exterior de juros, lucros, dividendos, assistência técnica, “outros serviços”, etc, devem se elevar. Isto pode significar que em muito pouco tempo a nossa conta corrente com o exterior passaria à situação deficitária. Esta situação foi revertida em 2003, depois do país acumular pesadíssimos passivos externos durante os governos FHC, principalmente no primeiro governo, quando o regime cambial favorecia o déficit externo.

O Brasil reverteu a situação externa, mas o fez sustentado basicamente pela expansão das exportações de bens primários. Deixou de depender de dívida externa para fechar seu balanço de pagamentos e hoje se jacta de financiar a dívida externa norte-americana, aplicando suas caras reservas (financiadas por títulos a juros da dívida interna) em títulos baratos do Tesouro norte-americano, que apresentaram juros reais negativos em 2007 se considerarmos que a desvalorização do dólar face as demais moedas-fortes superou em muito a taxa básica de juros norte americana (ao redor de 4% ao ano).

Outro campo em que os “equilíbrios precários” se alteraram é na economia fiscal e desta para sua relação com a dívida interna. A Emenda Constitucional do Fundo Social de Emergência, que data de 1994 (quando o presidente era Itamar Franco e o seu ministro da Economia era FHC), sendo sucessivamente prorrogada com outros nomes (primeiro Fundos de Estabilização Fiscal e por último Desvinculação de Receitas da União – DRU) promovia e ainda promove a retirada de 20% de todos os tributos vinculados a alguma aplicação pré-estabelecida, devolvendo-os ao caixa geral do Tesouro para “livre” aplicação (leia-se recursos para  gerar superávit-primário, que pagam juros da dívida interna).

Posteriormente, por pressão das circunstâncias e ação concertada pelo então ministro da Saúde Adib Jatene, cria-se o IPMF (Imposto Provisório Sobre a Movimentação Financeira), posteriormente convertido em Contribuição – a CPMF – e prorrogada sucessivamente até 31 de dezembro de 2007, sendo destinada originalmente à área da Seguridade Social.

Este rememorar dos arranjos tributários recentes é para lembrar o leitor de que neles havia um certo equilíbrio precário. Para usar uma expressão antiga, completamente apropriada, era um acordo provisório de economia política. De um lado a DRU, extraindo recursos da área social para o superávit primário. De outro, a CPMF, devolvendo parte desses recursos (pois ela própria também é taxada pela DRU) para o Orçamento da Seguridade Social.

O mentor desse equilíbrio precário – o ex-presidente Fernando Henrique – resolveu liderar um processo do tipo “puxar a escada”: derrotou a CPMF no Senado. Agora, o governo procura no escuro os recursos da Seguridade Social para 2008 e, de tesoura em punho, prenuncia cortes de recursos em todas as áreas, exceto uma. Os recursos do superávit primário dependem da aprovação da Emenda da DRU, que também vence no último dia de 2007. Parecem ser os únicos sagrados, para os a quais não há divergência governo-oposição e praticamente nenhuma análise isenta da grande mídia.

Finalmente, os recursos para investimento em energia, que em quase nada dependem do orçamento fiscal e da Seguridade, devem continuar bancados pela Petrobras, BNDES, empresas do setor elétrico e parcerias público-privadas recém vitoriosas no leilão das hidroelétrica do Rio Madeira.

Em síntese, o ano de 2007 mostra um crescimento do PIB e do emprego formal (no entorno dos 5% ao ano), mas revela sinais preocupantes de precarização das condições de trabalho. Mostra ainda um setor externo com sinal amarelo, que poderá ir a vermelho se houver recessão nos Estados Unidos. No setor doméstico, a manobra da extinção da CPMF e a manutenção da DRU sinalizam um péssimo estilo da nossa elite para resolver os seus dilemas: privatizam-se benefícios e socializam-se perdas.

Guilherme Costa Delgado é doutor em economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. Tecnico do IPEA.

 

Correio da Cidadania

O amor perdido pelos trabalhistas

Como o novo primeiro-ministro britânico perdeu o rumo

George Parker

Erros e infortúnios deixaram Gordon Brown parecendo uma figura muito menor, mas comparações com o governo fracassado de John Major podem ser prematuras.

Gordon Brown era um caso de raiva impotente, com olhar vazio à frente, punhos cerrados, rosto lívido de fúria. Atrás dele nos bancos verdes de couro da Câmara dos Comuns, fileiras de parlamentares trabalhistas desanimados olhavam para baixo. Isto raramente aconteceu antes: o novo primeiro-ministro britânico tinha se tornado objeto de ridículo.

Após cinco meses no cargo, uma série extraordinária de erros e eventos o deixaram diminuído, em vez da figura dominante de meados do ano, que estava confiante o suficiente para contemplar uma fácil eleição.

Brown costuma provocar de forma alternada medo e admiração, ódio e respeito. Mas nesta semana, na cruel arena de Westminster, era quase possível sentir compaixão por um primeiro-ministro acuado.

“As pessoas não estão perguntando com razão se ele está à altura do cargo?” rosnou David Cameron, o líder conservador da oposição, diante do primeiro-ministro. Então veio o habitualmente gentil Vince Cable, o líder em exercício dos democratas liberais, ponderando de forma devastadora a transformação de Brown “de Stalin a Mr. Bean”.

“Inacreditáveis” foi a primeira palavra usada por muitos parlamentares trabalhistas para descrever os eventos que calaram Brown. O número de trabalhadores migrantes no Reino Unido foi contado de forma errada, a crise do Northern Rock viu a primeira corrida a um banco britânico desde os tempos vitorianos; um funcionário público perdeu os dados pessoais de 25 milhões de requerentes do subsídio infantil.

E agora há a revelação de que os trabalhistas aceitaram doações ilegais de um empresário controverso que declarou diferentes nomes, idades e estado civil. David Abrahams deu dinheiro por meio de terceiros, em uma violação das leis introduzidas pelos próprios trabalhistas para tornar o financiamento dos partidos mais transparente.

Raramente a posição de um líder político se deteriorou tão rapidamente. No início de outubro, o ex-chanceler de ferro do erário planejava uma eleição tranqüila. No final de novembro, uma pesquisa apontou os trabalhistas com 13 pontos atrás dos conservadores, a maior desvantagem desde o auge de Margaret Thatcher, em 1988. Como Brown chegou a esta situação e -mais importante- como ele pode sair dela?
Os problemas de Brown podem ser rastreados até o momento na manhã de 5 de outubro em que Stan Greenberg, o consultor americano de pesquisas para os trabalhistas, abriu seu laptop e deu ao primeiro-ministro seu veredicto sobre o provável resultado das eleições antecipadas no final do ano. “Ele disse que o primeiro-ministro venceria, mas que sua maioria ficaria entre 40 e 20″, disse um dos assessores de Brown.

Dado que Brown já contava com uma maioria de 66 e não precisava realizar uma eleição até 2010, o assunto estava resolvido. No dia seguinte o primeiro-ministro confirmou que a eleição prevista para 1º de novembro estava descartada; Brown precisava de mais tempo para estabelecer sua “visão de mudança” no Reino Unido.

Tal decisão transformou a política britânica. Um partido trabalhista colocado em ritmo eleitoral febril pelos jovens assessores de Brown ficou esvaziado. A lua-de-mel de Brown, que vinha desde que sucedeu Tony Blair em junho, tinha acabado.

Os conservadores de David Cameron, por outro lado, foram rejuvenescidos. Uma semana antes, a equipe de Brown alegava que Cameron estava liquidado e que os conservadores seriam “esmagados” na eleição iminente.

O brilhantismo político do verão dourado do primeiro-ministro desapareceu rapidamente. À medida que o outono se transformou em inverno, a reputação arduamente estabelecida por Brown de líder honesto, competente e sem distorção dos fatos de um “governo de todos os talentos” foi sendo minada semana a semana.

As pessoas começaram a se perguntar quando ouviriam as mudanças prometidas por Brown. Mas, como o primeiro-ministro explicou nesta semana, elas já ouviram. É um programa pragmático que inclui mais casas, ensino pós-16 anos, reformas na saúde e grandes projetos de infra-estrutura como ampliações de aeroportos e prováveis usinas nucleares.

Os críticos de Brown alegam que a lista de políticas foi uma imitação pálida da agenda de Tony Blair, despojada de parte do entusiasmo do ex-primeiro-ministro no uso do setor privado para promover reforma no setor público. “É isto o que estávamos esperando?”, perguntou Cable.

Os parlamentares trabalhistas estão perguntando se Brown conta com a habilidade e a equipe para ressuscitar o partido para uma quarta vitória eleitoral sucessiva. “Até esta semana eu considerava a situação recuperável, mas agora não tenho certeza”, reconheceu um importante parlamentar trabalhista. Perguntas são feitas sobre a dependência de Brown de um círculo interno de conselheiros de confiança -conhecidos como “os três mosqueteiros”- para planejar sua escapada.

Ed Balls, Ed Miliband e Douglas Alexander ascenderam de consultores não oficiais a ministros do Gabinete sob Brown. Todos em seus 30 ou 40 anos, eles participam das teleconferências matinais para discussão de táticas e estratégia com o primeiro-ministro. A influência deles os torna alvos de suspeita e inveja.

“Adolescentes”, murmurou outro parlamentar trabalhista veterano. O fato de todos os três estarem envolvidos no incitar da febre eleitoral de outono -e na previsão da morte política iminente de David Cameron- fez com que alguns questionassem se Brown precisa de novos assessores. Um alto funcionário a chamou de “governo por panelinha”.

Colegas pediram que Brown ampliasse seu círculo. Um ministro do Gabinete disse: “Se a intenção é ter um governo de todos os talentos, é preciso usar todos os talentos e perícia ao seu dispor”.

Mas vários ministros apontam que mesmo existindo um círculo interno, Brown faz mais consultas do que Blair costumava. Reuniões políticas para discussão da estratégia geral também são mais comuns. “As discussões também são mais inclusivas e abertas”, disseram os ministros.

Então ele conta com a equipe ministerial para ajudá-lo a sair do problema? Ao buscar rotular-se como uma mudança em relação a Tony Blair, o novo primeiro-ministro montou um novo Gabinete, com algumas figuras relativamente não testadas em cargos importantes.

Alistair Darling, o chanceler do erário (ministro das finanças), é experiente mas foi arranhado pelo caso do Northern Rock, pela perda dos registros do subsídio infantil e sua decisão altamente questionada de aumentar o imposto sobre os ganhos de capital para os empreendedores.

Jacqui Smith, a ministra do Interior, é virtualmente invisível. David Miliband, o ministro das Relações Exteriores, não é uma celebridade e entrou em choque com Brown depois que o gabinete do primeiro-ministro diluiu parte de um discurso que Miliband faria sobre a Europa. Nenhum deles proporciona a Brown muita proteção no flanco político.

Cada vez mais ele recorre aos “barbas grisalhas”, um grupo sem barba de sobreviventes experientes da era Blair. Jack Straw, o ministro da Justiça (e ex-ministro das Relações Exteriores), se transformou em um vice-primeiro-ministro virtual. Geoff Hoon, o articulador dos trabalhistas, é cada vez mais usado por Brown como bombeiro na mídia.

Kenneth Clarke, o ex-chanceler do erário conservador, alega que a relativa ausência de figuras de peso em cargos importantes não é casual. “Gordon Brown é maníaco por controle -ele não deseja colegas poderosos.” Clarke, um estudante de Brown por muitos anos, acrescentou: “Ele parece cansado, desconcertado e não está tomando as decisões necessárias para lidar com estes problemas”.

As críticas à abordagem do primeiro-ministro às grandes decisões o persegue a anos. Sua decisão de entregar a política de taxa de juros ao Banco da Inglaterra em 1997 mostra que ele é capaz de ação ousada, mas como chanceler ele agonizava por dias ou semanas em torno das escolhas políticas. “Gordon tem um problema com decisões”, reconheceu um assessor de Downing Street.

Seu governo gerou um acúmulo de análises, cobrindo de tudo, de supercassinos, combate ao crime e enchentes. No final decisões terão que ser tomadas.

A hesitação doméstica é refletida na menor visibilidade do Reino Unido no cenário mundial -um descanso, talvez, para aqueles eleitores cansados das aventuras de Tony Blair no exterior. Mas a discrição de Brown coincide a ascensão de Angela Merkel, a chanceler alemã, e particularmente Nicolas Sarkozy, o presidente francês.

A frieza estudada de Brown com o presidente Bush em uma visita a Washington foi notada, contrastando com o abraçar entusiástico de Sarkozy ao presidente. Funcionários do governo Bush disseram que o trabalho com o Reino Unido em segurança e outras questões práticas continua, mas um acrescentou: “Na esfera política, mal existe”.

O mesmo é observado pelos diplomatas de países liberais da União Européia em Bruxelas, que estão pedindo para que Brown se envolva na Europa para agir como um contrapeso para os impulsos protecionistas de Sarkozy. “Nós ainda não atingimos um momento crítico, mas ele chegará”, alertou um.

Mas com seu governo afundado em problemas em casa, o foco de Brown permanecerá voltado aos assuntos domésticos. Ele conquistou sua reputação ao presidir uma década de sucesso econômico no Tesouro e acredita que sua habilidade de mapear “um trajeto de estabilidade em momentos turbulentos” continua sendo seu maior trunfo.

Recentes pesquisas mostram que a vantagem de Brown na área econômica está evaporando depois do Northern Rock e da perda dos dados pessoais mas -como ele aponta- ninguém perdeu dinheiro (ainda) em conseqüência de ambos os casos. Ele espera uma piora da economia, mas diz que o público sabe em quem pode confiar quando os tempos se tornam difíceis.

O primeiro-ministro zomba quando comparações são feitas entre seu governo e o de John Major, o infeliz líder conservador dos anos 90, cujos problemas começaram com a humilhação econômica do descarte da libra esterlina do mecanismo de taxa de câmbio da Europa.

As comparações não são exatas: Major enfrentou a dupla formidável Blair-Brown na oposição -claramente um governo a espera- enquanto David Cameron ainda não foi testado e as políticas de seu partido ainda estão em desenvolvimento.

Enquanto o Novo Trabalhismo na oposição apresentava uma vantagem sustentada nas pesquisas de opinião, as atuais são mais voláteis: Cameron estava 10 pontos atrás nas pesquisas em setembro. Isto não sugere que a população já leva a sério os conservadores.

Mas comparações com Major são inevitáveis. Será Gordon Brown apenas uma nota de rodapé para a década de governo de Tony Blair, assim como Major foi uma coda para a era Thatcher? Ou como colocou o líder conservador Michael Gove (em uma analogia a James Bond), será que Brown é o Roger Moore para o Sean Connery de Blair?

A política britânica raramente foi mais febril. A maioria dos parlamentares trabalhistas está olhando a longo prazo, com a expectativa aumentando de que Brown aguardará até o último momento possível em 2010 antes de fazer campanha. “Nós perdemos a oportunidade de mostrar que somos ‘a mudança’”, disse um estrategista trabalhista. “Agora temos que provar que somos competentes.”

Diferente de Major, Brown preside um partido unido, fora um grupo de blairitas radicais que alegam que ele está recuando na reforma do funcionalismo público. Por ora, a maioria dos parlamentares trabalhistas está preparada para dizer que uma fase extraordinária de má sorte -mais do que erros básicos- foi a principal responsável pela sua situação ruim.

“Um senso trágico de infortúnio em grande escala”, é como colocou Bob Marshall-Andrews, o parlamentar trabalhista independente. Mas como apontou um estrategista trabalhista, os primeiros-ministros só têm direito a uma dose limitada de má sorte antes da credibilidade deles ser arruinada. “Napoleão disse que precisava de generais com sorte”, ele disse. “Nós precisamos de um primeiro-ministro sortudo.”

Financial Times

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/

Ortodoxos versus desenvolvimentistas

Jurandyr O. Negrão

Indicado às pressas, em março de 2006, para o lugar até então ocupado por Antonio Palocci, Guido Mantega foi confirmado no comando do Ministério da Fazenda ao iniciar-se o segundo mandato de Lula. O ministro manteve de início perfil mais discreto, coerente com o fato de ter assumido a pasta em pleno período eleitoral. Já em 2007 adotou tom um pouco mais incisivo em defesa de posições “desenvolvimentistas”, marcando um contraste com seu antecessor (que, ao assumir o papel de líder e porta-voz da “domesticação” do discurso econômico do PT e ao evitar críticas à atuação do Banco Central, caíra nas graças do sistema financeiro). Já no Banco Central Henrique Meirelles foi confirmado como presidente, e a diretoria passou por mudanças que pouco modificaram seu perfil extremamente ortodoxo.

O reforço da retórica “desenvolvimentista” não se limitou ao ministro da Fazenda. Outros integrantes do governo, como os novos presidentes do BNDES e do IPEA (este último indicado mais recentemente), engrossaram esse coro que defende que o Estado implemente algumas políticas de caráter mais intervencionista.

Conforme se apontou em colunas anteriores, essa disputa em torno da política econômica reflete, mais do que divergências ideológicas entre integrantes do governo (bem mais discretas do que num passado não tão remoto), disputas substantivas em torno dos fundos públicos, num contexto em que a penúria das contas públicas diminuiu.

Os “desenvolvimentistas” defendem usar os recursos para finalidades como o gasto social, a recuperação salarial do funcionalismo e a política industrial. Já os setores de inclinação mais liberal enfatizam a aceleração do corte de impostos como o caminho a seguir – mas vários grupos de interesse empresarial não deixaram de defender o reforço de gastos que atendam a seus interesses imediatos, como no caso de investimentos públicos em infra-estrutura de transporte. Daí a recepção “mista” ao anúncio, no início do ano, do programa de investimentos públicos embutido no chamado PAC: alguns analistas criticaram o “estatismo” redivivo, outros saudaram a tentativa de remover gargalos de infra-estrutura.

A execução do PAC em seu primeiro ano foi frustrante – reflexo, entre outros fatores, do fato de que décadas de prioridade ao corte de gastos e paralisia operacional corroeram a eficácia do setor público para investir.

Foi a percepção de que a menor penúria fiscal aumenta o espaço para o governo federal fazer gastos que podem favorecer seu cacife eleitoral o que animou a oposição a derrubar a CPMF. Embora a resposta do governo à perda dos R$ 40 bilhões da CPMF ainda não seja conhecida, não resta dúvida que o saldo final será uma redução da sua margem de manobra para anunciar “bondades” (sejam investimentos e aumentos salariais, sejam reduções de impostos).

Outro foco do embate entre “desenvolvimentistas” e liberais foi a taxa de câmbio. O primeiro grupo vem manifestando há tempos preocupação com o efeito deletério da apreciação progressiva do real sobre o setor industrial (que perde espaço seja no mercado externo, seja no interno, ante a enxurrada de importações). Já os liberais minimizam esse risco, apontam a apreciação como “natural” (como se a taxa de juros praticada no Brasil, ainda altíssima para os padrões internacionais, nada tivesse com isso) e enfatizam as vantagens do real forte: maior facilidade para as empresas modernizarem suas plantas por meio da importação de máquinas, bem como para derrubar a inflação mais rapidamente.

Esse último ponto remete à definição da meta de inflação para 2009, raro aspecto em que o Ministério da Fazenda pareceu vencer uma disputa com o BC. Este defendia diminuir a meta de 4,5% (taxa determinada para 2007 e 2008) para 4%, mas a decisão, anunciada em junho, foi a manutenção da meta (reflexo da preocupação de não dificultar ainda mais uma redução mais rápida da taxa de juros e, portanto, um alívio mais rápido da pressão de valorização do real).

Com relação ao câmbio, sua evolução ao longo de 2007 frustrou a corrente “desenvolvimentista”: em comparação com 2006, a cotação média do dólar caiu 13% – ou seja, o real se valorizou nessa proporção. Levando em conta, além do dólar, as moedas de outros países que são importantes no comércio exterior do Brasil (assim como a diferença entre a nossa inflação e a desses parceiros), o real terminou o ano valendo cerca de 20% a mais do que valia no começo do ano, e quase 40% a mais do que no final de 2004.

Em suma, a despeito das queixas dos “desenvolvimentistas”, o populismo cambial teve continuidade em 2007.

Jurandyr O. Negrão é economista

Luandino quebra seu silêncio

Convidado da Balada Literária, angolano diz que recusou Prêmio Camões pois se achava “escritor morto’

Autor angolano prepara uma trilogia, reconhece a influência de Guimarães Rosa em sua obra e cita ainda ecos de Jorge Amado

DA REPORTAGEM LOCAL

Pode-se considerar singular a participação do angolano José Luandino Vieira, no dia 18, na Balada Literária. O autor do recém-lançado “A Cidade e a Infância” (Companhia das Letras; R$ 36, 136 págs.), livro de contos dos anos 1950, é um tanto recluso. Segundo sua assessoria, o escritor vive num mosteiro, de onde redigiu à mão as respostas à entrevista da Folha abaixo. Essas foram depois transcritas e enviadas por e-mail à reportagem.
Foi o mesmo Luandino que, em 2006, recusou 100 mil euros (cerca de R$ 254 mil) do Prêmio Camões, alegando “motivos íntimos e pessoais”.
À Folha, Luandino disse que declinou a honraria por se considerar, à época, um “escritor morto”. “Por que haveria de ser premiado um escritor em silêncio, que não entregava a seus leitores um simples escrito havia 35 anos? Não me parece que pudesse receber o prêmio sabendo o elevado número e a qualidade de obras de tantos autores de língua portuguesa.” Leia trechos da entrevista. (EDUARDO SIMÕES)

FOLHA – Logo após a recusa do prêmio o senhor anunciou uma trilogia, “De Rios Velhos e Guerrilheiros”…
LUANDINO VIEIRA- A decisão de uma trilogia foi tomada talvez para quebrar um pouco mais cedo aquele silêncio. Originalmente estava pensado como um único romance, uma longa travessia da vida, em fatos e memórias de um guerrilheiro na luta e libertação de Angola. O que seria o meu modo de homenagear natureza e povo que a levaram a cabo com sucesso. O segundo volume está quase pronto. O terceiro, em fase de escrita. Porém sempre regressa, manhosamente, a tentação de os unificar como estava guardado em minha cabeça.
FOLHA – Em “A Cidade e a Infância”, a vida nos musseques (favelas) de Luanda está em destaque. Após 50 anos, o retrato permanece atual?
VIEIRA- O que é atual, e infelizmente multiplicado, é essa presença na cidade: seus musseques. Quaisquer que sejam os novos nomes que se lhe atribuam, subúrbios, favela etc. A presença da pobreza, da miséria, da vida em condições precárias de habitação, saúde, higiene. Enfim, os padrões mínimos que o desenvolvimento do mundo já permitiria. E não são ainda usufruto de quem tem de viver naquelas condições e tanto contribuiu, com sua vida e seu trabalho, para esse desenvolvimento. Não é justo.

FOLHA – Qual o papel da tradição oral em sua obra?
LUANDINO VIEIRA- É fulcral. Comecei a escrever também por ouvir contar muitas histórias nos serões, à porta das casas, na infância e na adolescência. Depois, na escola, em nossas brincadeiras era o intercâmbio de histórias. Tudo isso marcou o meu trabalho de escritor, em opções estilísticas, em formas de comunicar, obrigando-me a incorporar, consciente e inconscientemente, na linguagem literária, traços da oralidade. Creio que essa presença ficará sempre no que escrever. Narro mais do que escrevo.

FOLHA- A identidade angolana ainda é central em sua obra?
VIEIRA- Num país jovem como Angola, um Estado que não tem meio século, como deixar de ser? É para seus cidadãos. Em permanente construção, diálogo e confronto com outras identidades, tudo ampliado pela inclusão em espaços regionais, globais. Felizmente é assunto de presença permanente, mesmo que em conflitos e contradições que, à primeira vista, podem parecer perda de tempo e energia, mas que a necessidade histórica justifica.

FOLHA – Seus livros foram em parte escritos na prisão, quando lutou pela independência de Angola. O que representava escrevê-los?
VIEIRA- Representavam um modo de resistência à desagregação psicológica e espiritual. E um modo de sobrevivência espiritual, trabalhando e retrabalhando o material acumulado na memória. Porque nos impunham um viver em ambiente de desertificação intelectual. Para mim, também de esclarecimento pessoal, avaliação e revisão permanentes dos motivos de minha presença naquelas prisões e participação no movimento de libertação no meu país. Nunca esqueci que era branco, instruído, classe média.

FOLHA – O senhor identifica interseções entre sua obra e a de Guimarães Rosa, em especial o caráter lúdico e reinvenção de linguagem de “Luuanda” e “Primeiras Estórias”.
VIEIRA- Com Guimarães Rosa aprendi muito. O caráter lúdico, menos. Mas e sobretudo a liberdade para criar uma linguagem literária a partir de materiais de outras linguagens. Aprendi que essa liberdade tem sempre em si o conhecimento, e não a ignorância, da língua em que escreve. E que implica ainda uma grande responsabilidade que só pode ser exclusivamente assumida por quem escreve. Não adiantam defesas acadêmicas ou outras. Seu resultado é sempre um risco, uma aposta. Mas foi isso que o bom professor Guimarães Rosa ensinou a um mau aluno.
Com Jorge Amado aprendi também, aprendi a ver o mundo dos oprimidos, dos explorados. Ele me ajudou em minha formação pessoal e literária com a teimosa procura ou presença da beleza, da poesia, mesmo lá onde ela não pode morar, em meio a condições subumanas de existência. E outros como Lins do Rego, Erico e Clarice. Tantos outros que li da literatura mundial e de todos sou tributário. Não só de língua portuguesa. Sou escritor porque primeiro, fui leitor, lia tudo o que me vinha às mãos.

Jornal Folha de S. Paulo
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A invenção de “bairros problemáticos”

A espacialização dos problemas socias marginaliza a questão central da pobreza estrutural urbana. A periferia transcende o espaço físico e esbarra na mentalidade segregacionista e na manutenção de uma sociedade “moderna” de castas

Sylvie Tissot

“Cités -guetos”, [1] “bairros problemáticos” ou outros “bairros de exílio” são, há vinte anos, objeto de reportagens dramáticas e às vezes sensacionalistas [2].Mas essa é a única coisa que deve nos instigar ou inquietar? Porque essas categorias territoriais, surgidas na França de 1985-1995, não são um simples “reflexo”, mesmo que deformado, da realidade social; não são apenas exageros ou mentiras. O que está em questão é também, e principalmente, uma nova maneira de olhar e de refletir sobre a pobreza urbana, que, paradoxalmente, mesmo insistindo sobre a gravidade do “problema”, tem como característica principal deixar de lado a origem da dominação social, econômica ou racista.

Como chegamos a essa situação? Para compreender, é preciso desviar o olhar – pelo menos por um instante – desses eternos objetos de investigação, os “bairros problemáticos” e seus moradores, e se interessar pela maneira como o “problema das periferias” foi definido nos anos 1985-1995. Foi nessa época que uma nova política pública foi implementada nos 500 bairros de habitação social. Esse foco teve um duplo efeito. Os dispositivos da chamada política do município permitiram a renovação de inúmeras cités, oferecendo também um acompanhamento realizado localmente por profissionais do desenvolvimento social. Ao mesmo tempo, os financiamentos suplementares obtidos e gastos jamais tomaram a forma de uma redistribuição social e espacial das riquezas que poderia refrear o fosso das desigualdades econômicas. Apesar dos inúmeros apelos aos “Planos Marshal para as periferias”, eles foram limitados. Por outro lado, na mesma época, cortes significativos estavam sendo infligidos às políticas de direito comum, em matéria de educação ou de saúde, nesses mesmos bairros populares.

Além do que, o foco nos “bairros problemáticos” atinge apenas alguns problemas. O diagnóstico sobre o qual a política municipal se apoiou não se limitou às estruturas; a reabilitação das cités degradadas foi conduzida com base em uma nova palavra de ordem: a participação dos moradores. Foram desenvolvidos então, e pela iniciativa dos agentes locais, reuniões de deliberação conjunta sobre a reabilitação das cités, piqueniques coletivos e conselhos de bairros, em que estes podem expressar suas reivindicações para que elas realmente sejam levadas em consideração.

Tais medidas são necessárias. Mas, enquanto elas eram priorizadas, eram relegadas a um segundo plano as realidades econômicas, como o desemprego que os moradores desses bairros, em sua maior parte operários e/ou imigrantes, sofrem diretamente. Os “bairros” chamaram a atenção dos poderes públicos, mas à custa de uma outra maneira de ver os “problemas”. As categorias territoriais, amplamente utilizadas para se pensar a pobreza, representaram um papel paradoxal, funcionando como eufemismos para designar os moradores descritos, não mais em referência ao estatuto social, mas em função de suas “origens” nacionais, culturais ou “étnicas”. Essa “etnização” da questão social (cujas raízes estão bem além da política do município) teve como efeito apresentar as raízes étnicas como sendo a única origem dos problemas – e mesmo das ameaças – para o resto da sociedade e não como um problema também para as pessoas que sofrem o racismo.

“Cidadania”, “participação dos moradores”, “projetos”, valorização da “vizinhança” e do “lugar”, “transversalidade” e “concertação” entre “parceiros”: é difícil questionar essas palavras de ordem de tão familiares que se tornaram. A questão torna-se ainda mais difícil quando esse vocabulário passa a nos parecer humanista e progressista, em um contexto político em que a retórica da insegurança, da “escória” e das “zonas do não-direito” prevalece. No entanto, desde que a participação dos moradores se tornou o remédio miraculoso para cuidar dos “males das periferias”, ela foi definida de maneira singularmente restritiva: ocultação das condições de vida material em benefício do “diálogo” e da “comunicação” entre os moradores; psicologização e, portanto, despolitização dos problemas sociais, alimentadas por uma representação do bairro como um espaço neutro e pacificador; valorização da boa vontade individual e das soluções modestas e pontuais, desvalorização concomitante do conflito e das reivindicações consideradas “políticas” demais.

Uma série de livros e outros manuais destinados aos novos profissionais do desenvolvimento social explica, por exemplo, como “transformar as reivindicações em proposições”, “os pedidos de assistência em projeto de desenvolvimento” e, sobretudo, segundo o consagrado provérbio, ensinar os moradores a “pescar o peixe” em vez de recebê-lo. Vemos assim como a política do município participou da redefinição das políticas sociais enquanto intervenções individualizantes e “responsabilizantes”, convidando os moradores à “tomar nas mãos” as transformações necessárias.

Além disso, a virada repressiva que aconteceu a partir de 1997 não está desvinculada da maneira como o problema dos bairros foi definido de 1985 a 1995. Ela se baseia nas mesmas categorias territoriais, e parecerá bem mais legítima já que há dez anos a pobreza vem sendo apresentada mais como uma questão psicológica e local, e os indivíduos por ela afetados são convidados a transformar a si mesmos em vez de apontar os mecanismos estruturais que os condicionam.

A história dessa despolitização apresenta, porém, aspectos surpreendentes. Ela tem de fato suas raízes em um movimento contestatório particularmente poderoso. Durante a década de 1960, urbanistas, assistentes sociais, militantes e pesquisadores denunciaram a atitude autoritária e tecnocrática do Estado planejador para promover, em nome do “meio ambiente”, uma ação global de reabilitação das cités, implicando as coletividades locais e funcionando com base em uma concertação maior com os moradores. Um movimento particularmente importante se desenvolveu na França, bem como em outros países europeus e americanos, contra o urbanismo de altos edifícios, de conjuntos habitacionais e auto-estradas, e contra as brutais operações de renovação dos centros das cidades.

Os princípios fundadores das políticas de habitação desde o pós-guerra (o planejamento urbano e a afirmação do Estado, representante e promotor do interesse geral) têm na década de 1970 um impulso suplementar, mesmo que a inspiração ideológica seja bem diferente, com a ascensão dos dogmas neoliberais. A profunda crise que se seguiu abriu caminho para outras formas de fazer e de pensar os problemas urbanos.

A Política do Município é o resultado desses novos movimentos reformadores, mas suas manifestações concretas só podem ser compreendidas em relação ao contexto em que ela se institucionalizou. Na década de 1980, a esquerda no poder assume posições políticas e econômicas ditas da austeridade.

Oriundos, em sua grande maioria, do meio associativo e para-público, mas também de todo o movimento crítico e contestador do pós-maio de 1968, os promotores do desenvolvimento social dos bairros ocupavam posições marginais na administração. A Política do Município, por meio da qual eles vão procurar consolidar as experiências conduzidas nos bairros de habitação social lhes oferece uma reclassificação profissional e um lugar de reconversão militante. [3] Mas isso só é possível à custa de uma adesão a um reenquadramento orçamentário e a uma redefinição das políticas sociais, concebidas não mais como políticas de redistribuição, mas como a implantação local e mínima de uma rede de assistência aos mais desfavorecidos.

O termo “bairro”, primeiramente de “habitação social” depois “de risco” e finalmente “problemático”, se impregna de conotações negativas: esses territórios são descritos como necessitando menos do desenvolvimento de uma ação autônoma do que da intervenção de terapeutas. De forma que a dimensão contestadora, muito presente no apelo à mobilização dos moradores, se dilui para dar lugar a uma ação pública racionalizada e profissionalizada, com produção estatística e desenvolvimento de uma nova função: o desenvolvimento social urbano.

Não somente os agentes da Política Municipal se submetem a esse novo quadro político, mas alguns, desejosos de reformar o Estado e não somente os bairros carentes, vão retomar por sua conta a temática da “modernização dos serviços públicos” que, nas versões liberais dominantes, se reduzem com freqüência a um simples recuo. [4] Vemos assim antigos militantes (como, por exemplo, os originários do movimento maoísta) desenvolverem uma crescente desconfiança em relação aos moradores, acusados de se comprazer com o assistencialismo e sobretudo em relação ao Estado como tal, suspeito de encorajar esse assistencialismo e de só gerar disfunções e rigidez.

Além das trajetórias dos promotores de uma ação nos “bairros” e das escolhas da esquerda governamental, os intelectuais representaram igualmente um papel chave. Nas universidades como nos ministérios, a questão das periferias suscitou uma importante literatura, que não se limita a uma análise dos problemas sociais e econômicos. Vários intelectuais desenvolveram a idéia de que esses territórios marcavam ou encarnavam o advento de uma nova questão social. Ora, essa categoria de análise, retomada pela mídia e igualmente utilizada pelos agentes da política municipal, postula que os problemas sociais colocariam em questão os “excluídos” e os “incluídos”, e estariam ligados exclusivamente à cidade. Estreitamente associados ao conceito de exclusão, alguns trabalhos vieram assim legitimar o abandono das questões ligadas ao trabalho. Esses últimos pertenceriam a um período pretensamente terminado, e seria necessário então olhar para as periferias, territórios percebidos como “separados” ou “relegados”, e ajudar as populações descritas como “esquecidas”, e não mais “exploradas” ou “dominadas”. [5]

Último elemento-chave: a atitude das municipalidades, em primeiro lugar aquelas que são administradas pela esquerda, onde se encontra a maior parte dos bairros de habitação social. Desde o final da década de 1980, essas municipalidades adotaram a temática da “exclusão” nos “bairros” e validaram sua dimensão despolitizante. A política da municipalidade trouxe confiança e, sobretudo, apareceu no início da década de 1990 como portadora de novas soluções para enquadrar a juventude popular (e assim evitar as “revoltas”). Principalmente, a “democracia local” suscitou a esperança de preencher o fosso que se criou entre a classe política e os cidadãos, e mais particularmente as classes populares. [6]

A “espacialização dos problemas sociais” [7] tem como efeito tornar invisível tudo o que a situação dos bairros mais pobres deve ao que se passa em outros universos, como nos “bairros nobres” menos mediatizados, mas também segregados, ou ainda no mundo do trabalho onde a “condição trabalhadora” se desfaz e se recompõe. [8] Mas é preciso insistir sobre as batalhas simbólicas de efeitos verdadeiramente decisivos que são travadas nos ministérios, nos escritórios de especialistas, na mídia… e mesmo entre os intelectuais, e cuja saída há várias décadas conduz ao esquecimento do impacto das políticas macroeconômicas, do questionamento da função redistributiva e protetora do Estado social ou ainda da amplitude e da impunidade das discriminações.

A espacialização dos problemas socias marginaliza a questão central da pobreza estrutural urbana. A periferia transcende o espaço físico e esbarra na mentalidade segregacionista e na manutenção de uma sociedade de castas «moderna»

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[1] Cité: A partir da década de 1980 a palavra cité também é usada como sinônimo de periferia (N.T.)

[2] Loïc Wacquant. Parias urbains, Ghetto. Banlieues. Etat. Paris : La Découverte, 2006.

[3] Sylvie Tissot, Christophe Gaubert e Marie-Hélène Lechien. Reconversions militantes. Limoges : PULIM, 2006.

[4] Yasmine Siblot. Faire valoir ses droits au quotidien: Les services publics dans les quartiers populaires. Paris : Presses de la Fondation nationale des sciences politiques, 2006.

[5] François Dubet et Didier Lapeyronnie, Paris. Les quartiers d’exil. Seuil, 1992.

[6] Michel Koebel, Le Pouvoir local ou la Démocratie improbable. Broissieux : Editions du Croquant, 2006.

[7] Sylvie Tissot e Franck Poupeau, “La spatialisation des problèmes sociaux”, Actes de la recherche en sciences sociales. Paris, set. 2005, n° 159, pp. 5-9.

[8] Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot, Grandes fortunes: dynasties familiales et formes de richesse en France. Paris : Payot, 2006; Stéphane Beaud e Michel Pialoux. Retour sur la condition ouvrière: enquête aux usines Peugeot de Sochaux. Paris : Fayard, 2005.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

Ar, ar!

Verissimo

O velho entrou na catedral pelos fundos, como fazia todos os domingos. Dirigiu-se para o seu nicho. Ficou sentado na laje fria, encostado na parede, encaracolando e desencaracolando uma mecha de barba branca enquanto esperava pelo sacristão. Pensando na sua vida. Pensando em nada.

O sacristão trouxe o pão e o vinho, como fazia todos os domingos. Contou que a igreja estava cheia. Ele não queria olhar? O velho deu de ombros. Cheia ou vazia, era a mesma igreja de todos os domingos. Só queria comer, fazer seu trabalho e ir embora.

- Sabe quem vai tocar aqui hoje? – perguntou o sacristão.

- Quem?

- Bach.

- Quem?!

- Bach, o grande Bach. Por isso a igreja está cheia. Você não sabe quem é Bach?

O velho deu de ombros. Nem queria saber. Só estava ali para fazer seu trabalho. O sacristão disse que tinha pena do velho. O grande Bach ia tocar no órgão da catedral de Freiberg, no grande órgão que o grande Gottfried Silbermann levara quatro anos construindo para a grande catedral de Freiberg, e o velho nem se importava? Você merece a vida insignificante que leva, disse o sacristão, recolhendo o copo tosco em que trouxera o vinho e deixando o velho no seu nicho, encaracolando e desencaracolando a barba.

Dali a pouco o velho ouviu um “Pst”. Depois uma voz que dizia:

- Você está aí?

Não respondeu. Não se moveu do seu nicho. Outro “Pst”. O velho nada. Só quando a voz cochichou mais alto, com uma ponta de apreensão, “Ei, você está aí?” é que respondeu.

- Estou.

- Pode começar! – disse a voz.

O velho dirigiu-se para os foles. Mas não começou a acioná-los. Esperou. Se alguém olhasse a sua cara naquele instante, não saberia identificar o que via. Alguma coisa estranha tomara conta das suas feições. Alguma coisa que nunca aparecera naquele rosto antes. O próprio velho não se reconheceria se visse seu rosto no espelho. Se conhecesse espelho.

- Ei! – disse a voz. – Comece!

- Você é Bach? – perguntou o velho.

- Sou.

- O grande Bach?

- Sou. Quem é você?

- Você não me conhece.

- Olhe, seja lá quem você for…

- Ninguém me conhece.

- Está bem. Mas comece a…

- Ninguém nunca me conheceu.

- Certo, certo. Mas por favor…

- Ninguém nunca vai me conhecer.

- Escute. Eu não quero ser grosseiro. Mas se você não começar a acionar esses foles agora, eu…

- Sou o anônimo mais anônimo do mundo. Meu anonimato atravessará os séculos. Nasci desconhecido e vou morrer mais desconhecido ainda.

- Depois a gente conversa sobre isso, meu caro. O importante agora é acionar esses foles!

- Eu não sou seu caro. Você nunca me viu. Você nunca me verá. O grande Bach nem sabe que eu existo.

- Neste momento você é a pessoa mais importante da minha vida! Se não acionar esses foles, eu não posso tocar!

- É isso mesmo. Sem mim, o grande Bach apertará as teclas e o grande órgão não produzirá um som. Os grandes tubos do grande órgão da grande catedral de Freiberg não emitirão um suspiro, um pum. O grande Bach dará um concerto de silêncio. Um recital de pausas!

- O que é que você quer? Mais dinheiro? Isso não é comigo. Fale com o bispo. Só o que eu preciso é de ar. Ar! Por favor, me dê ar. Eu imploro.

Ar! Ar!

O velho ouviu o murmúrio que percorria a igreja lotada. Por que o grande Bach não começava a tocar? Com quem ele estava falando? Por que parecia tão agitado?

- O que você quer em troca do ar? Reconhecimento? Eu anuncio o seu nome no fim do recital. Você pode vir até aqui, eu apresento você ao público. Eu acabo com o seu anonimato. Eu digo que sem você eu não seria nada, o órgão não seria nada. Eu beijo os seus pés. Eu…

Mas Bach não precisou continuar. O velho começara a acionar os foles, o ar subia pelos tubos. Bach pressionou as teclas, sua música encheu a grande catedral de Freiberg e o público respirou, aliviado, encantado.

Gênio, gênio.

Parece que no fim do recital Bach espiou atrás do órgão e não viu ninguém. Ou esqueceu e nem espiou. Não sei.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

2008 será diferente: depende de você apenas

2007 foi um ano igual aos outros:

As revistas exibiram as belas faces de garotas maquiadas, brancas, loiras com seus dentes reluzentes e suas roupas caras. Entrevistaram-nas e elas, aos sorrisos, expuseram seus planos de vida e os trabalhos vindouros.

Os jornais publicaram que as leis de mercado são maravilhosas, cai dólar e sobe Bolsa, num balanço próprio da natureza, manipulado pelos céus e inquestionável em seus fundamentos. A mensagem subliminar martela insistentemente: é assim que funciona e nada podemos fazer.

Os pappers rapidamente noticiaram que o CEO de uma grande multinacional agora mudara de camisa e comandaria outra grande emprersa. Seu contentamento expresso na foto evidenciava que se tratava de um grande negócio onde todos ganham.

As TVs, por sua vez, deram a maior contribuição ao ano de 2007 e não deixaram parecer que 2006 havia acabado. Muita gente deu o ar da graça e despejou seus adjetivos aos borbotões.

Na política caiu político, mas o sistema não muda e as regras permanecem as mesmas. Enfim, troca-se o título mas a nobreza é a mesma.

O destaque ficou diante das denúncias sobre o aquecimento global. Páginas e mais páginas foram publicadas mostrando fotos de gelo derretendo, pinguins com calor e ursos se depilando.

Mas 2008 não será igual:

Pobres e miseráveis continuam lutando brava e cotidianamente por sua sobrevivência, catando papelões e latas nas ruas, batalhando por emprego e salário, a despeito das platinadas e globais que merecem destaque.

A economia não é uma ciência exata e nem tampouco o mercado capitalista insubstituível. Uma sociedade que tenha o ser humano, suas necessidades e dignidade como foco, e não resultados de negócios, é possível e necessária.

Uma nova educação que se apegue nos saberes acumulados, que desenvolva as capacidades de nossos jovens e projete um futuro apoiado no conhecimento tornaria a escola um centro de atração e prazer. Nada de disputa em vestibulares por vaga, nada de shoppings universitários, nada de carreiras de moda.

A essência do fazer político vai, aos poucos, sendo alterada, à despeito da grande imprensa que fustiga a população permanentemente com a mensagem da desilusão e da descrença. Dinheiro e projetos políticos futuros não combinam, eleições devem priorizar propostas e debates de conjuntura, soluções para os problemas e a participação popular. Queres acabar (ou ao menos minimizar) com a corrupção? Participe da política mais intensamente e não se afaste dela.

E quanto ao meio ambiente não se preocupe: o alarmismo está a serviço do capital e dos lucros das grandes empresas. Devemos nos preocupar sim com a natureza, mas não devemos nos culpar pelo estrago que dela se promove. Os países ricos e o consumo exacerbado destroem impiedosamente o meio natural, e não você quando lava suas mãos e escova seus dentes. A natureza, para o capitalismo, é uma mercadoria que se compra e vende sem dores de consciência e muito menos preocupações ambientais. Afinal, por que tanto alarde? Se diariamente pessoas são compradas e vendidas a preço vil, por que não sê-lo um pedaço de madeira ou um bocado de minério?

Enfim ao prevalecer a crença de que os badulaques que o capitalismo nos oferece são o verdadeiro sentido da felicidade humana, 2008 será absurdamente igual a 2007, 2006, 2005, 2004…… Se você não se conforma com uma organização social que moe impiedosamente pessoas, destroe a natureza em nome do consumo e se mobiliza por uma outra sociedade e uma outra ordem econômica, 2008 promete ser diferente.

Boas festas aos lutadores incansáveis à todos aqueles que enxergam o verdadeiro foco dos problemas. Boas festas também aos que querem incoporar esta luta que se desenvolve no seu local de trabalho, na escola em que estudas, no ônibus que viaja, na roça de seu terreninho, no seu culto por dias melhores ou no quintal de sua casa.

Grande abraço.

Ricardo Alvarez
blog.controversia.com.br

Os sotaques dos sinais

Mesmo sem som, a Libras (Língua de Sinais Brasileira) também tem variações regionais, a ponto de ser possível identificar um surdo do nordeste ou do sul só com base no seu gestual

Rachel Bonino

Paola Ingles Gomes cursa a 8ª série em São Paulo numa tradicional escola municipal para deficientes auditivos no bairro da Aclimação, a Helen Keller. Como outros colegas adolescentes, costuma ir à festa junina promovida pelo Instituto Santa Teresinha, um evento que virou referência entre estudantes surdos de todo o país. Paola conversava com um amigo de outro estado numa dessas comemorações anuais quando, entre risos, sinalizou que ele era um “palhaço”, um tolo. O sinal usado indicava uma bola no nariz, assim como usam os palhaços. O rapaz não entendeu a “gíria” e coube a Paola indicar o contexto da palavra, por meio de outros sinais. Casos assim se repetem a cada interação entre deficientes auditivos de regiões diferentes, mas que adotam a mesma gramática gestual adotada pela Libras, sigla para Língua de Sinais Brasileira. Nesse universo sem sons, há gírias, regionalismos e até mesmo o que podemos chamar de sotaques.

De fato, determinados termos possuem variações maiores ou menores quando “pronunciados” por gestos. Só a palavra “abacaxi”, no sortido espectro de variantes em forma de gesto, tem ao menos cinco sinais diferentes em todo o país, com pequenas mudanças de movimentos entre os compartilhados por Bahia e Pará e os usados no Mato Grosso ou em Santa Catarina.

A Libras é reconhecida desde 2002 por lei federal. Tem como base cinco parâmetros: a direcionalidade (para onde as mãos e o rosto se dirigem), o ponto de articulação (de onde parte o movimento), a configuração de mão, o movimento propriamente dito e as expressões faciais e corporais. A variedade lingüística dos sinais ocorre, em alguns estados, quando se modifica ao menos um desses parâmetros.

- É como se houvesse uma “pronúncia” diferente. É um tipo de sotaque, só que sem som – afirma a lingüista Tanya Amara Felipe, professora da Universidade de Pernambuco (UPE) e coordenadora do Programa Nacional Interiorizando a Libras.

Dizer sem falar

Quase não existem pesquisas sobre variações regionais em Libras, mas já há base empírica para os estudiosos arriscarem configurações. A psicóloga Walkiria Duarte Raphael, uma das autoras do Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngüe da Língua de Sinais Brasileira (Edusp, 2001), diz conseguir identificar um r arrastado nos sinais dos surdos cariocas.

- Eu, lidando com os diferentes sinais, percebo que no Rio eles soletram mais arrastado, embora não exista estudo com base científica sobre o assunto. Os surdos que oralizam bem [que reproduzem com os lábios as palavras sinalizadas] acabam falando junto com o sinal. E aí também se consegue perceber o sotaque. É possível sentir claramente isso, no sinal – diz.

Embora não haja equivalência entre o verbo e os gestos de cada lugar, os sotaques dos sinais parecem acompanhar as sutilezas das falas de cada região. Para Walkiria, é possível perceber a diferença regional pela observação da mão de apoio – é comum que os surdos destros façam o movimento com a mão direita e a esquerda sirva de suporte. No Rio de Janeiro, segundo a estudiosa, a maioria dos sinais é feita com a mão de apoio fechada. Em São Paulo, a mão de apoio é aberta.

- Essa é uma diferença que notei quando estava juntando os sinais para o dicionário. Isso pode ser considerado um sotaque? Pode – diz Walkiria.

Sueli Fernandes, lingüista , assessora técnico-pedagógica do Departamento de Educação Especial da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, concorda:

- Sejam faladas ou sinalizadas, é próprio das línguas a pluralidade de manifestações. A unidade lingüística é um mito mesmo na linguagem por sinais – analisa a profissional, que também é colaboradora do Libras é Legal, projeto de difusão da língua coordenado pela seccional do Rio Grande do Sul da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis-RS).

Ambiente virtual

Coordenadora do curso a distância de Letras-Libras na Universidade Federal de Santa Catarina, único nos moldes no país, a lingüista Ronice Müller de Quadros mantém contato com 500 alunos de nove estados no ambiente virtual. Desse total, 447 são surdos. A quantidade de sinais variantes é tão grande que eles criaram um glossário para padronizar aqueles usados e criados no curso.

- Dá para identificar quem não é de Santa Catarina pela variação dos sinais, e pelas diferentes expressões faciais e corporais – conta.

Ela lembra que os falantes do Rio de Janeiro costumam usar muito o alfabeto manual na comunicação. Ou seja, no lugar do sinal, em muitas situações, o termo é soletrado. Característica que não é típica dos usuários de São Paulo, segundo Ronice.

- Os surdos do Norte do país se apóiam bastante nas expressões facial e corporal. O tamanho do sinal é maior, ocupa mais espaço. Mas essa diferença não tem implicação no significado do sinal. Manaus, por exemplo, é um dos pólos em que os estudantes apresentam mais variações. Talvez pelo fato de estarem muito distantes – analisa.

Mas nem sempre os surdos encararam com bons olhos o contato com sinais de outras regiões. No início da produção da primeira edição do dicionário, a psicóloga Walkiria Raphael – que atualmente trabalha na segunda edição do livro – percebeu que diante de um termo diferente os surdos tendiam a dizer que aquele sinal estava “errado”. Hoje, as variações são mais aceitas.

- A própria comunidade surda tinha uma rixa. Daí a resistência dos surdos que estavam nos ajudando, na elaboração do dicionário, de incluir sinais que não são usados em São Paulo. Tínhamos de convencê-los de que aquele sinal era representativo para determinada região. Havia bairrismo – diz.

Se no caso do sotaque os sinais envolvidos têm diferenças sutis de estado para estado, no caso dos regionalismos, ao contrário, as mudanças são totais. A linha de pensamento é a mesma da palavra “mandioca” com suas variações “macaxeira” e “aipim”. A mesma palavra, “abacaxi”, tem sinais muito diferentes, como os de São Paulo e os do Rio de Janeiro. Dá pra dizer então que os sinais regionais são aqueles que representam a mesma coisa só que com ponto de articulação, movimentos, direcionalidade e expressões faciais, todos diferentes.

- Quando comparamos sinais usados por jovens surdos e surdos idosos, nas associações, por exemplo, percebemos mudanças na forma e no conteúdo dos sinais, por vezes até condenados pelos mais velhos que se orgulham de utilizar “sinais puros”, sem a interferência do português, tal como o fazem as gerações atuais.

Nova geração

O atual cenário educacional é responsável por uma revolução na cultura surda. No passado, o isolamento era grande. Os sinais eram passados de geração a geração e se restringiam à representação do cotidiano, nada muito específico. Hoje, a presença no ambiente escolar tem estimulado a criação de muitos novos sinais, já que há disciplinas e termos técnicos, além de permitir o contato do estudante com os sinais de outras regiões. A estrutura que, nesse processo, mais tem sido renovada são os substantivos.

- Sinais vêm sendo criados, simultaneamente, em diferentes regiões, para atender às necessidades de conceituação e comunicação, repercutindo na ampliação do léxico. A especificidade das disciplinas e seus objetos de estudo requer um vocabulário técnico sinalizado que, enquanto não padronizado, contribui para a fomentação dos regionalismos – analisa Sueli Fernandes.

Algumas instituições de ensino que têm salas mistas – com alunos surdos e ouvintes – já estruturaram equipe para apoiar o contato entre professor e estudante durante as aulas. Sidney Feltrin é tradutor e intérprete de Libras há 12 anos. Há dois, ele trabalha com mais seis profissionais na Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), que tem sete alunos surdos.

- Todos os sinais criados em sala de aula são encaminhados à Feneis para que sejam disseminados e adotados nas demais universidades do país, criando assim um padrão – conta.

Sinais de guetos

Além da linguagem mais técnica e específica, a escola ou faculdade coloca o deficiente auditivo em contato com outros grupos que não a própria família e os colegas. Só esse fator é responsável pela criação de mais uma penca de novos sinais usada no bate-papo dos corredores. Na escola municipal Helen Keller, em São Paulo, os jovens do ensino fundamental e do médio têm suas próprias gírias, muitas vezes variando de sala para sala, de panelinha a panelinha.

É inegável que a língua portuguesa acaba por determinar a constituição de vários elementos semânticos, estruturais e discursivos da língua de sinais. Isso não deixa de acontecer também no universo das gírias. É o caso do xingamento “palhaço”, usado pelos alunos da escola com o mesmo sentido da língua portuguesa. Na Helen Keller, os estudantes também criaram seus próprios sinais para Orkut e MSN (programa de conversa on-line).

Assim como no português, a língua de sinais também registra os idioletos, ou seja, as maneiras únicas no modo de falar ou sinalizar de um indivíduo. Diferenças de idade, escolaridade, maior ou menor contato com a comunidade surda, tudo isso aumenta a diversidade de sinais.

- Todos os usuários da Libras conseguem comunicar-se uns com os outros e entendem-se bem, apesar de não haver sequer dois que façam sinais da mesma maneira – explica a lingüista Lodenir Becker Karnopp, também professora do curso Letras-Libras na UFSC.

Nesse mar de sinais e variações, quem não é surdo pode pensar que o entendimento entre os deficientes auditivos de estados diferentes fica quase impossível. Basta lembrar a quantidade de palavras usadas na língua portuguesa e suas variações, tão criativas quanto as dos sinais.

- Há, sim, uma tentativa de padronização das associações de apoio ao surdo. Há muitos sinais que já são padronizados e usados em congressos, por exemplo. Mas é preciso respeitar a diversidade – comenta Walkiria Duarte.

A mesma diversidade, aliás, que torna a Libras e a língua portuguesa admiradas pelos seus usuários.

História da Libras

A primeira instituição brasileira criada para apoiar a alfabetização dos surdos foi o Instituto Nacional de Surdos-Mudos, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), criado por D. Pedro II, em 1857. Dezoito anos depois, em 1875, foi publicado o primeiro livro com os sinais usados por aqui, o Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos, de Flausino da Gama. O autor utilizou os mesmos sinais franceses, colocando a tradução em português. Daí a influência da língua francesa de sinais na brasileira.

- Esse sinais do livro deveriam ser usados concomitantemente com outros já usados no Brasil naquele período [1875].

Provavelmente havia dois sinais e um “vingou”. Pude observar em viagem aos Estados Unidos que há sinais do livro de Flausino que são usados pela ASL [American Sign Language], o que comprova o parentesco lingüístico entre as três línguas – analisa a lingüista Tanya Amara Felipe.

Quase um século depois, em 1969, estudiosos descobriram que no Brasil há outra língua de sinais usada pelos índios urubus-caapores, do Maranhão, que têm elevada taxa de surdez (1 surdo para cada 75 ouvintes).

Naquela década também foram publicadas, por iniciativa estrangeira, mais duas obras sobre os sinais brasileiros e que por muitos anos foram usadas no ensino de sinais: Linguagem das Mãos, de E. Dates; e Linguagem de Sinais do Brasil, de H. Hoeman. Ambas muitos influenciadas pela ASL.

Só na década de 80 é que estudos mais aprofundados em lingüística foram feitos. Nessa época, constituíram-se as principais instituições de apoio ao surdo. São Paulo e Rio de Janeiro influenciaram os sinais dos outros estados por terem sido os pioneiros no estudo do tema.

Foi em 2002 que o governo federal reconheceu a Libras como língua. Com a lei, a educação inclusiva dos surdos passou a ser obrigatória nas escolas públicas de todos os níveis. Dados do Censo 2000, reunidos pelo IBGE, indicam que dos 5,7 milhões de brasileiros com algum grau de deficiência auditiva, pouco menos de 170 mil se declararam surdos.

Dicionário de libras vai incluir sinais regionais
Publicação com quase 12 mil verbetes terá dois mil sinais só para palavras e expressões que variam de estado para estado

Antes da publicação do Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngüe da Língua de Sinais Brasileira (Libras), em 2001, pela Edusp e apoiada pela Feneis, não havia registro oficial da linguagem gestual ensinada a surdos no Brasil. Os materiais existentes estavam espalhados pelo país em apostilas produzidas por associações de apoio ao deficiente auditivo. Uma realidade bem diferente da de outros países, como os Estados Unidos, onde há algum tempo já existem dicionários do gênero.

Seis anos depois, e com a menção honrosa na categoria Educação e Psicologia do Prêmio Jabuti conquistada em 2002, os autores do trabalho, os psicólogos Fernando Capovilla e Walkiria Duarte Raphael, preparam a segunda edição do dicionário. A previsão de lançamento é para o começo de 2008. Mais dois mil verbetes de sete estados serão incorporados ao catatau que já havia reunido 9,5 mil sinais, divididos em dois volumes. Será inserida a soletração do verbete, além da indicação dos lugares onde aquele sinal é usado.

No início da pesquisa, os autores se reuniram com um grupo de 14 surdos da Feneis-SP, que passaram cada sinal e seu significado. A meta nessa segunda etapa é “aumentar o vocabulário em português e o léxico em sinais”, como explica Walkiria Raphael. Confira trecho de entrevista com a estudiosa:

Língua Portuguesa – Quais as dificuldades para montar o dicionário?

Walkiria Raphael – O surdo não se baseia nos verbetes escritos, mas no conceito, o contexto. É muito comum quando um ouvinte pede a um surdo soletrar uma palavra, como “essencial”, e ele perguntar o que é. Depois de entender o contexto, aí, sim, ele faz o sinal referente. Outros surdos podem empregar um sinal diferente para “essencial”, mas que contenha o mesmo sentido. Além do regionalismo nos estados, em São Paulo há grupos de jovens que criam seus próprios sinais, como no resto do país, aliás. Não dá para abarcar todos os sinais. Outra dificuldade é que não há uma correspondência tão direta entre o sinal e a palavra. Nós tivemos muito cuidado para fazer essa tradução.

Há sinais que já caíram em desuso?

Sim. Do primeiro ao segundo dicionário, já notamos isso. Mas a gente resolveu manter. É como no português: ainda encontramos termos que não existem mais, mas estão lá. O próprio sinal de Libras já mudou. Ainda assim, o outro sinal não deixou de ser usado. Como há pessoas que só conhecem as versões antigas das palavras, preferimos não eliminar esses termos.

As gírias surdas
Por Sueli Fernandes

As gírias são a parte mais interessante do discurso em Libras. É justamente nele que se manifesta o universo metafórico da língua, no qual os sinais são “manipulados” de forma a seduzir, enganar, disfarçar, determinar… Testemunhamos o riquíssimo universo da polissemia e polifonia da língua da forma mais rica e diversa, em um contínuo de relações e situações determinadas pelo contexto, pelas expectativas dos interlocutores.

Existem muitos exemplos corriqueiros, bastante conhecidos nas línguas faladas, em que se usam gírias para se referir a garotas ou rapazes bonitos: “gato”, “gostosa”, “de cair o queixo”; ou quando precisamos informar necessidades fisiológicas como: “ir ao banheiro”, “fazer xixi”, “apertado” etc. Sejam faladas ou sinalizadas, as gírias são semanticamente bastante semelhantes nesses casos.

O que mais fascina na Libras são os artifícios usados pelos surdos para escapar dos olhos dos demais membros do grupo, em momentos em que necessitam endereçar mensagens subliminares, ou secretas, a algum interlocutor. Pela visualidade que é inerente à sinalização, inúmeros sinais “discretos” são criados, reduzindo-se o espaço da sinalização ou o ponto de articulação de modo a não deixar pistas aos bisbilhoteiros.

Por exemplo, se em uma roda de adolescentes surgem temas tabus como sexo ou masturbação, é comum que eles modifiquem os sinais usados convencionalmente. Da mesma forma, se uma menina quer confidenciar a outra que vai menstruar e há meninos por perto, ela muda a forma de sinalizar, usando um sinal “disfarçado”. Quando se quer falar de alguém que está presente, usam-se mecanismos conversacionais de indicação disfarçada ou relações espaciais em que se estabelece uma localização neutra no espaço para o “dito cujo”, mesmo que ele esteja presente, passando-se a enunciar indicando aquele ponto no espaço, sem que ninguém saiba de quem, exatamente, se fala.

São fartos, também, os exemplos de gírias que têm como sentido “tô nem aí com você”, “qual é a dele?”, “você me sacaneou”, “tá me enrolando”, “fiquei com o rabo entre as pernas”, e assim por diante, que nada têm a ver com os sinais convencionais. Alguns são até modificados para a adequação discursiva.

Outros sinais são “intraduzíveis” isoladamente, pois uma mesma forma pode indicar inúmeros sentidos a depender do contexto. Um exemplo é o sinal em que a configuração de mão com o dedo médio colocado no topo da cabeça, acompanhado de uma expressão facial característica (mau humor, surpresa), pode significar “tô na minha”, “que mico”, “tô boiando” e assim por diante.

Enfim, a riqueza da Libras repousa justamente nesses elementos que chamaríamos extralingüísticos nas línguas faladas, mas que constituem a estrutura gramatical, semântica e discursiva da língua de sinais: movimentos de sobrancelhas, jogo de olhares, menear de ombros e de cabeça, “balanço” ao sinalizar, leveza ou ênfase no movimento, duração do olhar ou do movimento no ar, maior ou menor amplitude do espaço de sinalização. Ou seja, um universo quase desconhecido para aqueles que ainda não experimentaram constituir sentidos com palavras-imagens.

Sueli Fernandes é lingüista, assessora técnico-pedagógica do Departamento de Educação Especial da Secretaria de Estado da Educação do Paraná e colaboradora do projeto Libras é Legal

Revista Língua Portuguesa

http://revistalingua.uol.com.br/default.asp

Setenta anos após o "Massacre de Nanquim"

O massacre brutal de até 300 mil civis chineses em Nanquim ocorreu 70 anos atrás. Mas as repercussões do ataque ainda podem ser sentidas hoje nas relações sino-japonesas. E a memória coletiva da carnificina continua sendo vital para a coesão do país.

Wieland Wagner

Quando os japoneses entraram em Nanquim, a antiga capital chinesa na margem sul do Rio Yangtzé e cerca de 250 quilômetros a oeste de Xangai, Xia Shuquin tinha oito anos de idade. "De repente, os soldados invadiram a minha casa. Eles mataram o meu pai a tiros sem proferir uma palavra", recorda-se ela. A seguir os japoneses estupraram e mataram as mulheres da residência, deixando vivas apenas Xia e a sua irmã mais nova.
Sho Mitani tinha 18 anos à época, sendo dez anos mais velho que Xia Shuqin. Ele servia em uma equipe de artilharia no navio de guerra japonês "Umikaze" ("Brisa Marítima"). Quando ele chegou a Nanquim, a matança já estava em andamento. "Havia corpos empilhados por toda parte, em parques e em quadras de tênis", conta o ancião na sua casa em Osaka. Dia após dia, o exército trazia caminhões carregados de chineses até as margens do Yangtzé e abatia os prisioneiros indefesos com rajadas de metralhadoras.
Nesta semana faz 70 anos que ocorreu o massacre de Nanquim. Foi um dos ápices sangrentos da invasão japonesa da China que finalmente terminou com a derrota de Tóquio na Segunda Guerra Mundial, depois que os norte-americanos lançaram duas bombas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945.

Nir Elias/Reuters

Crianças chinesas seguram velas durante cerimônia que lembrou os 70 anos do massacre

Somente em Nanquim, os japoneses mataram pelo menos 100 mil civis chineses. A China alega que o número de vítimas foi três vezes maior. Os dois vizinhos asiáticos atualmente ainda não concordam quanto ao número exato, e às vezes discordam até a respeito da existência ou não do episódio. Vários nacionalistas japoneses negam que o massacre – muitas vezes chamado de Estupro de Nanquim – tenha ocorrido.
Nanquim e o patriotismo chinês
Mas os chineses estão igualmente determinados a manter viva a memória do sangrento massacre de Nanquim – uma metáfora para crimes de guerra de todo o mundo. As relações entre Pequim e Tóquio podem hoje em dia estar mais tranqüilas do que foram durante um longo período, mas é difícil que se passe um dia sequer sem que um programa sobre os crimes de guerra japoneses seja transmitido pela televisão chinesa. Afinal, a luta heróica para repelir a opressão japonesa é um importante elemento do esforço dos comunistas para manter os 1,3 bilhão de habitantes do país unidos sob seu comando, especialmente no atual sistema essencialmente capitalista. Só a questão de Taiwan tem a mesma importância para Pequim. Nanquim continua sendo vital para a política chinesa, mesmo hoje em dia.
O memorial existente no local do horrível massacre está sendo atualmente renovado. O diretor do museu, Zhu Chengshan, 53, exibe um modelo em madeira do novo projeto. O formato é de um navio e ele será mais de três vezes maior que o atual museu. Os trabalhadores tiveram que tomar cuidado especial durante as obras de renovação, diz ele, devido aos incontáveis esqueletos remanescentes do massacre que ainda estão sob o local. O número 300.000 – representando o total de mortos – está gravado em uma parede de concreto.
Em Nanquim, o passado é onipresente. Quase todo lugar é politicamente simbólico, incluindo a casa que pertenceu a John Rabe, o "Bom Nazista" de Nanquim, que protegeu milhares de civis dos seus algozes japoneses. O funcionário da Siemens e autoridade do Partido Nazista criou uma zona de segurança de cerca de 250 mil moradores que moravam junto com estrangeiros ocidentais. Lá, atuando para todos os fins e intenções como prefeito, chefe de polícia e juiz, ele desafiou os japoneses. Os chineses reverenciam o alemão como um "Buda vivo". Duas das pessoas que ele colocou na zona de segurança foram a jovem Xia e a sua irmã, que desde então se referem ao alemão como sendo um "santo". As anotações de Rabe continuam tendo um valor inestimável para os chineses: o ex-funcionário da Siemens é uma importante voz estrangeira que dá legitimidade à posição chinesa no debate em torno das atrocidades de guerra japonesas.
O diário é um compêndio repulsivo de acontecimentos chocantes e atualmente está sendo transformado em filme pelo diretor Florian Gallenberger, que já foi agraciado com um Oscar. "A cada 100 ou 200 metros nós encontrávamos novos corpos", observou o nazista. "O observador fica asfixiado pela náusea ao ver sistematicamente corpos de mulheres que tiveram estacas de bambu enfiadas nas vaginas. Até mesmo mulheres idosas, de mais de 70 anos, estão sendo constantemente estupradas".
Bandeira com suástica
A ex-mansão de Babe é atualmente utilizada como um centro para o estudo da paz. Porém, os financiadores do projeto em Berlim temem que o local transforme-se em um centro de peregrinação de direitistas, e a abordagem do "Oskar Schindler da China", conforme o "New York Times" já se referiu a Rabe, é algo que exige extrema cautela diplomática. Na sua recente visita a Nanquim, a chanceler alemã Angela Merkel evitou o memorial porque o seu itinerário envolvia uma passagem pelo Japão.

70 ANOS DEPOIS

Michael Reynolds/EFE

Oficial da polícia juntoa escultura do Monumento em Memória das Vítimas do Massacre de Nanquim

Nir Elias/Reuters

Visitante de memorial do Massacre de Nanquim observa restos humanos de vítimas chinesas

Nir Elias/Reuters

Visitantes observam mural com nomes das vítimas do massacre

Nir Elias/Reuters

Parentes e sobreviventes durante cerimônia em Nanquim

Nir Elias/Reuters

Visitantes de memorial acendem velas que formam a palavra "paz" em chinês

Afinal, Nanquim continua sendo em grande parte um tabu no Japão, e muitos políticos japoneses justificam a invasão imperial alegando que ela foi parte de uma luta asiática de libertação contra o jugo das potências coloniais ocidentais. Porém, na realidade, os japoneses foram parceiros do Ocidente na aceleração da partilha da China.
Já na primeira guerra sino-japonesa em 1889 e 1895,o Japão assumiu o controle sobre Taiwan; na Primeira Guerra Mundial, Tóquio conquistou Tsingtao, que era controlada pelos alemães. A seguir, em 1932, os japoneses criaram o Estado fantoche de Manchukuo – uma região historicamente conhecida como Manchúria – sob o governo de Puyi, o último imperador da China.
Mas eles também queriam subjugar o resto da China, e em 1932 forças japonesas continuaram o seu assalto atacando Xangai. Todavia, a verdadeira guerra com a China finalmente irrompeu em 7 de julho de 1937 – quando um embate noturno com tropas chinesas na Ponte Marco Polo, perto de Pequim, serviu como pretexto para o combate. O imperador Hiroito e seus assessores esperavam conquistar o país em apenas alguns meses como parte daquilo que desejavam que se tornasse uma "nova ordem" no Extremo Oriente controlada pelos japoneses. Eles também desejavam deter Chiang Kai-Shek, o enigmático general e inimigo ferrenho dos comunistas que, com as suas tropas do Kuomintang, conseguiu com bastante sucesso unir o país fragmentado. Chiang desafiou os invasores japoneses e atraiu-os para Xangai, na esperança de que as potências ocidentais, fortemente representadas à época naquela metrópole econômica, unissem-se à sua batalha.
Em agosto de 1937, aviões do Kuomintang atacaram navios de guerra japonesas no Rio Huangpu, mas erraram grosseiramente os seus alvos. Dos bares dos hotéis do Bund, a agradável passarela de Xangai, empresários estrangeiros observavam incrédulos enquanto os aviões chineses sem pontaria bombardeavam a sua própria cidade. Cerca de 2.000 pessoas foram mortas no trágico ataque.
Comemorando Pearl Harbor
A vitória japonesa acabou ocorrendo após uma luta longa e difícil, na qual cerca de 200 mil chineses tombaram vítimas dos ataques japoneses. Chiang Kai-shek recuou para o interior do país, primeiro para a capital Nanquim, e a seguir, através de Wuhan, para Chongqing. Os chineses desmontaram fábricas inteiras no leste para transportá-las para o oeste do país pelo Rio Yangtzé.
Chiang passou a morar em uma pequena colina na cidade, que usava como o seu quartel-general. As casas camufladas de cinza são hoje um museu. Aqui, em 7 de dezembro de 1941, ele comemorou o ataque japonês contra a base naval dos Estados Unidos em Pearl Harbor. Agora, conforme a China esperava, a superpotência norte-americana iria entrar oficialmente na Segunda Guerra Mundial contra o Japão.
Porém, as esperanças de Chiang de uma vitória rápida sobre os japoneses foram frustradas. Os Estados Unidos de fato enviaram ao general encurralado mais suprimentos e dinheiro, mas a ajuda dos norte-americanos ao ditador foi fornecida sem muito entusiasmo. A prioridade de Washington era a vitória sobre o Terceiro Reich. Além disso, os Estados Unidos avançaram contra o Japão principalmente a partir das ilhas do Oceano Pacífico, e um número relativamente pequeno de operações foi lançado da China.
A segunda Guerra Sino-Japonesa continuou se arrastando. Após as suas primeiras vitórias, os japoneses viram-se atolados nas profundezas da China. Incapazes de de destruir a resistência, mesmo como o auxílio do regime fantoche que instalaram em Nanquim em 1940, eles recorreram a métodos cada vez mais brutais.
Diversas técnicas utilizadas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de causar destruição maciça, tais como os ataques aéreos sistemáticos contra cidades do interior com número elevado de habitantes, haviam sido usadas anteriormente pelos japoneses. O bombardeio de Chongqing teve início na primavera de 1938, matando mais de 5.000 civis em apenas dois dias. Segundo testemunhas, os mortos estavam empilhados pelas ruas.
A estratégia de terra arrasada do Japão estimulou os excessos cometidos pelos soldados imperiais, levando a comportamentos como aquele presenciado em Nanquim. Os soldados podem não ter recebido ordens oficial para realizar o massacre, mas a doutrinação de obediência incondicional ao divino Tenno (o imperador) encorajou-os a abusar dos chineses, tratando-os como uma raça inferior. Eles eram, no entanto, quase tão impiedosos consigo próprios. "Desde pequenos fomos criados para morrer pelo imperador", explica Sho Mitani, um ex-fuzileiro naval que mais tarde participou no ataque à bomba contra Chongqing na função de engenheiro.
Cooperação brutal entre Japão e Alemanha
Os japoneses também usaram gases venenosos e armas biológicas contra os seus inimigos. A infame "Unidade 731" em Pingfang, no nordeste da China, matou milhares de prisioneiros chineses em brutais experiências médicas com seres humanos. O diretor da unidade, Shiro Ishii, trouxe a idéia das experiências de uma viagem à Alemanha.
Durante a guerra com a China, os médicos militares japoneses trocaram experiências com os seus aliados nazistas: sob recomendação de Hitler, oficiais médicos alemães viajaram ao leste da Ásia em fevereiro de 1938, a fim de pesquisar os efeitos de novas técnicas de combate. Mais tarde os médicos alemães forneceram à Unidade 731 o vírus da febre amarela, de forma que os japoneses pudessem testá-lo na China – uma cooperação macabra no intuito de exterminar um grande número de pessoas. Os criminosos de jaleco branco jamais foram levados a julgamento no Japão. Mais tarde as forças de ocupação dos Estados Unidos prometeram imunidade a Shiro Ishii para que este fornecesse a elas os resultados das suas pesquisas. As autoridades norte-americanas ainda mantêm bem guardado o material da Unidade 731, e utilizaram algumas das descobertas japonesas nas suas campanhas no Vietnã.
Wu Xuelong ainda sofre as conseqüências das "bombas sujas" japonesas. No seu casebre em Jinhua, na província de Zhejiang, Wu levanta as bainhas da calça e mostra as pernas. Das canelas até os pés os membros têm uma cor negra, como se estivessem carbonizados. Wu, que é agricultor, é uma das diversas vítimas em Zhejiang. A maioria morava ao longo da ferrovia quando os japoneses lançaram bombas durante os seus ataques. Assim como Wu, os outros apresentam sintomas que indicam o uso de antraz. "Os médicos queriam amputar a minha perna", conta Wu com um sorriso amargo. "Mas eu ainda preciso delas".
Wu não pode esperar indenização do Japão. Embora um tribunal japonês tenha reconhecido os danos causados por armas biológicas, a lei chinesa anulou a decisão: indivíduos não têm o direito de entrar com processos por indenizações relacionadas à guerra.
Assim, a controvérsia em relação ao passado foi se transformando cada vez mais em uma polêmica de ordem moral. Mas no 70° aniversário do massacre de Nanquim, é improvável que haja gestos amplos de reconciliação por parte de Tóquio – até hoje nenhum primeiro-ministro japonês visitou Nanquim.
Tradução: UOL

Visite o site do Der Spiegel

O Cordel do Manifesto Comunista

Medeiros Braga

“Morro revolucionário
Proletário, marxista,
Sigo o método dialético,
Sou ateu, materialista,
Com muita esperança e fé
No futuro comunista.”

“Faço verso sem desdém
Voltado à posteridade,
Compreendo muito bem
Que, com pouca claridade,
Deve a poesia, também,
Ser a luz da humanidade.”

Medeiros Braga
Afirmava Leon Trotsky
Que a lição mais evidente
Pra chegar ao mundo justo,
Ideal, mais conseqüente,
Era estudando e seguindo
A Revolução Permanente.

A Revolução Permanente
Que Trotsky teorizou
Foi o fato mais marcante
Desse grande pensador…
Foi um alerta, um exemplo
Que na ação se comprovou.
…………………………………………………………………….
Trotsky, também, discorreu
Sobre o Desenvolvimento
Desigual e Combinado
Como vital segmento
Para viabilizar
A Revolução Permanente.

A lei do Desenvolvimento
Desigual e Combinado
Foi aplicada em processo
De crescimento variado
De país para país,
Avançado e atrasado.
…………………………………………………..
No entanto, o “socialismo
Em um só país”, prenuncia
Um sistema nacional
De política e economia,
De um Estado vulnerável
Aos golpes da tirania.

Pra Trotsky a burocracia,
Que de fato aconteceu,
Viria a se consumar
Em seu funesto apogeu
Como a pior ditadura
Que a história conheceu.

De Trotsky, a nova edição
“Em Defesa do Marxismo”
No seu prefácio é externado
A traição do stalinismo,
Bem como, a comprovação
Do mais cruel terrorismo.
……………………………………………………………..
Stalin além do poder
Concentrado em sua mão,
Manipulou o partido
Permitindo a admissão
De muitos participantes
Sem identificação.

Após a morte de Lênin,
Contra Trotsky, recrutou
Milhares de burocratas,
Os de cargos de assessor,
Camponeses médios, ricos,
E a burguesia a favor.

Com o controle do partido
Conseguiu pela raiz
Aprovar com muita folga
Suas propostas servis,
Até mesmo o socialismo,
Polêmico, em um só país.
……………………………………………….
Com o passamento de Lênin,
Tendo assumido o poder,
A liderança de Trotsky
Stalin pôde deter
Proibindo de falar,
De agir, de escrever.

Mas sua notoriedade,
Sua postura e ética,
Sua coerência política,
Eloqüência, dialética
Não puderam suprimir
Da esquerda soviética.

Mas, por força, em vinte e nove
Trotsky da Rússia é banido,
Na Noruega, Turquia,
E na França, é perseguido
Foi de país em país
Sendo em todos repelido.

Como um mendigo no mundo
Que não tem onde ficar,
Bateu em portas fechadas
Mas, ninguém quis convidar
A entrar enquanto a chuva
Pudesse, fora, passar.

As cancelas de fronteira
Estavam de cadeado,
Todos países do mundo,
Como se fosse ensaiado,
Negaram abrigo ao maior
Líder proletariado.
………………………………………………………
CONFISSÕES SENTIMENTAIS
DE
LEON TROTSKY

Leon Trotsky confessou
Sem qualquer desfaçatez:
Não tenho o que redimir
Por isso, mais uma vez
Não preciso refutar
O que Stalin disse e fez.

Não existe uma só mancha
Na minha honra e passado,
Direta ou indiretamente,
Nunca um acordo foi firmado
Em bastidor com o inimigo
Para ser negociado.

Dos meus quarenta e três anos
Quarenta e dois, coerente,
À bandeira do marxismo,
Eu combati permanente
Como um revolucionário
Na trincheira, consciente.

Morro revolucionário
Proletário, marxista,
Sigo o método dialético,
Sou ateu, materialista,
Com muita esperança e fé
No futuro comunista.

Sofri bastante na vida
As agruras do poder,
Mas, morrerei resoluto
Com aquele imenso prazer
Que nenhuma religião
Poderia conceder.

Minha fé no comunismo
Contemplando a humanidade,
Nos sonhos da juventude,
É mais ardente, em verdade,
Do que foi pra mim nos dias
Distantes da mocidade.

A vida é bela, é esperança…
Que as gerações, permanente,
A limpem de todo mal,
De toda opressão patente,
Da violência e, felizes,
Possam gozar, plenamente.

Em Trotsky, o socialismo
Vencido nessa disputa
Não falhou no seu teor,
Não quedou na sua luta,
Foi suprimido por uma
Burocracia corrupta.

Numa homenagem ao líder
Fecho em paródia, segundo
Carlos Drumont de Andrade
No seu poema fecundo:
Tinha Trotsky duas mãos
E o sentimento do mundo.
……………………………………………………..

PARTE CONCLUSIVA

E Trotsky tinha razão
Pelo que profetizou:
O socialismo em um só país
Que não se concretizou
E o cruel capitalismo
Que com mais força voltou.

Via ele que o sistema
Já dominado, arbitrário,
Tendia a prevalecer
Sobre o revolucionário
Ao trocar a burocracia
Pelo poder operário.

Após cair o sistema
Na Rússia e Leste Europeu,
Alguns anos decorridos
Muita coisa apodreceu
Nas relações sociais
Com a mudança que se deu.

O atraso fez-se catástrofe
Mesmo nos tempos de paz,
Caíram, geral, os índices
Das medições sociais,
Todas ações só deixaram
Os homens mais desiguais.

Em tempo de vacas gordas,
Vai a Rússia na descida,
Baixou o nível de emprego,
A expectativa de vida…
Há ano, e a mortalidade
Supera o grau de nascida.

A persistir esse índice
Já existe uma previsão
De que em cinqüenta anos
Haverá por convulsão
A redução de um terço
Da sua população.

Um país sem desemprego,
Sem dívida no exterior
De repente se sentiu
Sem emprego e devedor,
Enquanto que novos ricos
Fazem do povo um andor.

Em toda parte da Rússia,
Se assiste a degradação,
Uma gigantesca crise,
Sem precedente, a nação
Atravessa e mais sem chance
De uma recuperação.

Depois que foi implantado
Na república o capital
Há um déficit orçamentário
E uma dívida social,
Embora vendida quase
Toda sua empresa estatal.

Cresce o exército de reserva,
Bem como, subempregados,
A classe média instruída
Vê seus ganhos achatados
Em breve fazendo parte
Já do proletariado.

No outro pólo, já dito,
Uma pequena camada
De grandes bilionários
De repente é ali formada
Precisando para isso
Vivacidade e mais nada.

Surge, então a outra Rússia
Contrastante, desigual,
Com novos bilionários
Detentor de capital
E de rendas elevadas
Para um padrão colossal.

A Rússia ocupa, de ricos,
Hoje, o terceiro lugar,
Trinta e seis bilionários
Com fortuna a ultrapassar
Cento e dez bilhões de dólares,
Podendo tudo comprar.

Esses trinta e seis mais ricos
Que detêm tanto bilhão,
Podem comprar a metade
Das empresas da nação,
Haja vista as facilidades,
Desigualdade, extorsão.

Vêm encostados a eles
Os novos milionários,
Os novos capitalistas
Com título de empresários
Bem sucedidos, mais ricos
Com lucros acionários.

Um pouco abaixo acompanham
Seus gênios executivos,
Presidentes, adjuntos,
Outros administrativos
Que auferem rendas fixas
Mais bônus como incentivos.

Os “novos russos” chamados
Vivem mais no estrangeiro,
Sendo o lugar preferido
Para gastarem dinheiro
A bela Londres burguesa,
Com espírito aventureiro.

Freqüentam seus bons hotéis,
Clubes VIP, restaurantes,
Teatros, museus e bares,
Aeroplanos galantes,
Compram cavalos, iates
E jóias para as amantes.

Também, fazem investimentos,
Tão-só, na grande cidade,
Compram terrenos, mansões,
Sempre que sentem vontade,
E se há tempo, deleitam-se
Em comprar antiguidade.

A liberdade mais plena,
Bem como, a democracia
Entre miséria e censura
Crescentes no dia-a-dia
São vistas pelo operário
Como palavra vazia.

A Revolução Permanente
Que o poder declarou guerra
E suprimiu com seus meios
Foi, pela idéia que encerra,
A grande oportunidade
Que a Rússia jogou por terra.

Trechos do livro “O Cordel do Manifesto Comunista”, Editora Alfa-Omega/SP.

O dia em que Portugal fugiu para o Brasil

Momentos dramáticos marcaram os preparativos de um acontecimento inédito: a transferência em peso de uma casa real européia, a bordo de 15 navios, para o continente americano

Lilia Moritz Schwarcz

Na madrugada de 25 de novembro de 1807, quando d. João encerrou a sessão do Conselho de Estado, a decisão estava tomada. A família real deveria embarcar para o Brasil daí a dois dias, antes que as tropas de Napoleão, que já tinham cruzado as fronteiras lusitanas, alcançassem Lisboa. Chegara enfim a hora de se executar um plano que já se conhecia de cor, e de traçar, rapidamente, o procedimento operacional de uma gigantesca tarefa: mudar, da terra para o mar, tudo e todos que significassem a sobrevivência e a sustentação do governo monárquico a ser instalado no Rio de Janeiro.

Fazer as malas, zarpar rumo ao Brasil e lá estabelecer um império não era uma idéia nova. O translado da família real para essa colônia pairava como uma possibilidade acalentada há tempos e sempre ventilada nos momentos em que a realeza portuguesa sentia-se ameaçada em sua soberania. Já em 1580, quando a Espanha invadiu Portugal, o pretendente ao trono português, o prior do Crato d. Antônio – filho ilegítimo do infante d. Luís – foi aconselhado a embarcar para o Brasil. Também o padre Vieira apontou o Brasil como refúgio natural para d. João IV – “ali lhe assinaria o lugar para um palácio que gozasse, ao mesmo tempo, as quatro estações do ano, fazendo nele o quinto império (…)”. Em 1738, no reinado de d. João V, o conselho veio de d. Luís da Cunha, que via na mudança possibilidades de um melhor equilíbrio entre a metrópole e a colônia, então abarrotada de ouro. Em 1762, temendo uma invasão franco-espanhola, Pombal, ministro de d. José I, fez com que o rei tomasse “as medidas necessárias para a sua passagem para o Brasil, e defronte do seu Real Palácio se viram por muito tempo ancoradas as naus destinadas a conduzir com segurança um magnânimo soberano para outra parte de seu Império (…)”.

Não é, pois, de estranhar que, no meio da convulsão européia, os políticos que rodeavam o príncipe d. João trouxessem à tona a velha idéia. Mas o tempo era curto, a viagem longa e cheia de imprevistos. Era a primeira vez que uma casa real cruzava o Atlântico e tentava a sorte afastada do continente europeu. Longe dos tempos dos primeiros descobridores, que atravessaram o oceano para encontrar riqueza e glória em terras americanas, agora era a própria dinastia de Bragança que fugia (na visão de alguns), evitava sua dissolução (na visão de outros), ou empreendia uma política audaciosa, escapando da posição humilhante a que Napoleão vinha relegando as demais monarquias.

O plano era mais complexo do que se podia imaginar. Afinal, seguiriam viagem, acompanhando a Família Real, não apenas alguns poucos funcionários selecionados. Já em relativa prontidão e expectativa, encontravam-se outras inúmeras famílias – as dos conselheiros e ministros de Estado, da nobreza, da corte e dos servidores da Casa Real. Não eram, porém, indivíduos isolados que fugiam, carregando os seus objetos pessoais, suas indecisões e receios. Era, sim, a sede do Estado português que mudava temporariamente de endereço, com seu aparelho administrativo e burocrático, seu tesouro, suas repartições, secretarias, tribunais, seus arquivos e funcionários. Seguiam junto com a rainha e o príncipe regente tudo e todos que representassem a monarquia. As personagens, os paramentos necessários para os costumeiros rituais de corte e cerimoniais religiosos, as instituições, o erário… enfim, o arsenal necessário para sustentar e dar continuidade à dinastia e aos negócios do governo de Portugal. Como disse Joaquim José de Azevedo, futuro visconde do Rio Seco, o que atravessaria os mares era aquela “amplidão que tinha exaurido sete séculos para se organizar em Lisboa”, e todo esse aparato devia tomar o rumo do cais.

No cais de Belém, de um momento a outro, acorreram milhares de pessoas, com suas bagagens e caixotes, isso sem esquecer de toda burocracia do Estado e das riquezas que viajavam com o rei. Não havia tempo a perder, e imediatamente deliberou-se que os ministros de Estado e empregados do Paço viajassem com a família real. Outra ordem deixou claro que todos os súditos que pretendessem seguir viagem estavam livres para tanto e, não havendo lugar nas embarcações, poderiam preparar navios particulares e acompanhar a real esquadra.

Já era meia-noite, mas, apesar do horário avançado, Joaquim José de Azevedo foi chamado ao Palácio da Ajuda e nomeado superintendente geral do embarque. Além dele, foram convocados o marquês de Vagos, chefe da câmara real, e o conde do Redondo, responsável pela ucharia – setor equivalente à despensa, onde se abrigavam todos os pertences da casa real, tanto os alimentos, como os utensílios domésticos. Já o almirante Manoel da Cunha Souto Maior, comandante geral da esquadra portuguesa, ficou encarregado de apresentar mapas das disposições dos navios. Em seguida, o superintendente tratou dos procedimentos para o traslado dos tesouros reais do Palácio das Necessidades e o da Igreja Patriarcal. Foi depois para o cais de Belém, onde, munido dos mapas entregues pelo almirante, mandou armar uma barraca “para dali repartir as famílias pelas embarcações, segundo a escala de seus cômodos, assim como para enviar todos os volumes do Tesouro que chegavam. Tal lida continuou até o momento de embarque de d. João”. Havia uma ordem de que ninguém poderia embarcar se não tivesse em mãos uma “guia” fornecida por ele.

Quem também não perdeu tempo foi d. Antonio de Araújo e Azevedo, famoso representante do grupo francês. Naquela mesma madrugada, mandou que seu funcionário, Cristiano Müller, encaixotasse os papéis de Estado que estivessem sob seus cuidados e nesse lote incluiu também sua livraria particular: 34 grandes caixotes foram acomodados na nau Medusa. Foram eles que embarcaram no lugar da Real Biblioteca, que ficou esquecida no cais.

A pressa impedia que os procedimentos se dessem de maneira organizada. As autorizações, licenças, nomeações e ordens de embarque vinham de variadas fontes. Bom exemplo é o caso do mestre de equitação do palácio real, Bernardo José Farto Pacheco que, para poder embarcar, recebeu ordens do estribeiro-mor, do intendente das reais cavalariças e ainda do conde de Belmonte. Detalhe: Bernardo não conseguiu viajar, pois apesar do alvará, o comandante da fragata não o aceitou a bordo, pela falta da guia necessária.

A despeito do estado de alerta e do fato de que a frota, ou parte dela, estivesse sendo armada desde fins de agosto, o ambiente era caótico. No começo de novembro, antes da partida da família real, um rico mercador de Lisboa escrevia ao sogro que ainda não conseguira passagem porque muitos queriam partir e eram poucos os navios. Porém, desconfiado, parecia decidido a deixar a capital, pois “os preparativos nos navios continuam a toda pressa e tudo indica que se trate de embarque”.

Mesmo assim, nenhum expediente realizado previamente e nem as prontas providências coordenadas por Joaquim José de Azevedo foram suficientes para impedir que o caos se estabelecesse na hora do embarque. Pior é que Lisboa vinha sendo castigada por um forte vento sul; chovia torrencialmente e as ruas e caminhos se transformaram em passarelas de lama, dificultando as idas e vindas até o cais de Belém. E não era tarefa simples reunir, distribuir e embarcar os ilustres viajantes, dividir os marinheiros e oficiais da Marinha e ainda abastecer os porões dos navios com uma quantidade suficiente de víveres e água potável. No registro de uma testemunha, arregimentou-se “muita gente para dar a 17 navios de guerra um bastante número de marujos e finalmente procurou-se pôr neles os mantimentos necessários, que contudo alguns navios não puderam haver como precisavam na confusão causada pela urgência do caso”.

Os casos e incidentes se multiplicavam. Foi durante esses dias de corre-corre, ainda antes do embarque, que o núncio apostólico de Lisboa, d. Lourenço de Caleppi, compareceu ao palácio da Ajuda, em visita de solidariedade. Freqüentador da Corte, foi convidado por d. João a acompanhá-lo na viagem. Apesar de seus 67 anos, o núncio aceitou a proposta e, conforme as instruções recebidas, foi imediatamente procurar o ministro da Marinha, visconde de Anadia, que lhe destinou a nau Martim de Freitas, ou a Medusa, onde, junto com seu secretário, Camilo Luis Rossi, teria lugar garantido. Mas a confusão era tamanha que de nada adiantaram as referências de Caleppi, que não conseguiu lugar em nenhuma das naus que lhe haviam sido reservadas.
O tenente irlandês Thomas O’Neill, que estava em um dos navios da esquadra inglesa, consultou a descrição feita a ele por um oficial a serviço de d. João. Ainda que evidentemente exagerado, o relato não deixa de passar uma idéia do ambiente naqueles dias, quando o “pânico e o desespero tomaram conta da população e muitos homens, mulheres e crianças tentaram embarcar nas galeotas até algum navio”. Foi o irlandês quem registrou que “muitas senhoras de distinção meteram-se na água, na esperança de alcançar algum bote, pagando algumas com a própria vida”.

Agravando ainda mais a situação, famílias de camponeses, assustadas com as notícias de que os franceses estariam se aproximando, haviam abandonado tudo – “o trigo nos celeiros, o milho um nas eiras, outro nas terras, a fruta nas árvores, a uva nas vinhas, os gados dispersos (…) e cheias de aflição se refugiaram na capital, onde se acham receando não terem com que subsistir. Mas neste caso o remédio é recorrer aos amigos; estes são os Santos, e mais que todos o Santo dos Santos, Jesus Cristo. (…)”

Nas praias e cais do Tejo, até Belém, espalhavam-se pacotes, caixas e baús largados na última hora. No meio da bagunça e por descuido, a prataria da Igreja Patriarcal, trazida por quatorze carros, foi esquecida na beira do rio e só alguns dias depois voltou para a igreja. Carros de luxo foram deixados, muitos sem terem sido descarregados. Alguns até optaram por largar a mala, embarcando de mãos vazias, apenas com a roupa do corpo. O marquês de Vagos percebeu um pouco tarde que as carruagens e arreios da casa real tinham sido esquecidos, e ali mesmo, do convés do navio onde se acomodara e que já partia, teve tempo de expedir um aviso, “em linguagem rude”, para que fretassem um “iate” para transportar todo aquele equipamento para o Brasil.

O tom geral era de nervosismo e destempero. “A desgraça, a desordem e o espanto existiam por toda a parte em Lisboa, quer em terra quer no mar (…). Copiosas e tristes algumas lágrimas derramaram-se por esta ocasião, uns choravam a separação de pais, maridos, filhos e mais pessoas queridas, outros a criticar posição da pátria invadida por exército inimigo e ao recordarem-se dos males que iriam sofrer ficando sem protetores e no meio dos terríveis franceses.” De fato, a reação dos lisboetas oscilava do espanto à revolta. Joaquim José de Azevedo, que, como vimos, tinha armado uma barraca no cais para organizar o embarque, assim interpretou o sentimento do povo: “vagando pelas praças e ruas, sem acreditar no que via, desafogava em lágrimas e imprecações a opressão dolorosa que lhe abafava na arca do peito, o coração inchado de suspiros: tudo para ele era horror; tudo mágoa; tudo saudade; e aquele nobre caráter de sofrimento, em que tanto tem realçado acima de outros povos, quase degenerava em desesperação!”

As descrições de época sobre o embarque de d. João são em geral tão dramáticas quanto contraditórias. Numa das versões, ele teria chegado ao cais vestido de mulher; em outra teria partido durante a noite a fim de evitar maior reação popular. Em outra, ainda, teria entrado no porto acompanhado apenas por seu sobrinho e ninguém o aguardava. Dois cabos de polícia que estavam ali por acaso, ajudados por gente do povo e debaixo de forte chuva, colocaram algumas tábuas sobre a lama para que pudessem caminhar até o coche e de lá tirar d. João, que foi acomodado na galeota que o conduziria ao navio Príncipe Real, atracado na barra do Tejo. Outros relatos, ainda, insistem na insensatez do embarque, ridicularizando a atitude da família com a única frase lúcida emitida pela rainha, a esta altura, demente: “Não corram tanto ou pensarão que estamos fugindo.” Não é o caso de multiplicar as narrativas desse momento, carregadas de adjetivações e muita imaginação. No entanto, em tempos de rachadura do absolutismo, a representação parecia anunciar o fim de uma era: foi com muita discrição e sem nenhuma pompa que o príncipe regente deixou Portugal e embarcou rumo ao Brasil.

Concluídos os trâmites para a partida e com todos a bordo, só faltava o tempo melhorar para que se desse a ordem de zarpar. O dia 29 amanheceu claro e a esquadra saiu do Tejo, alcançando o mar. Nas portas do oceano, os navios ingleses estavam de prontidão. O encontro das frotas foi anunciado, reciprocamente, por uma salva de vinte e um tiros, como que a selar o pacto pacientemente aguardado pela Grã-Bretanha. Enquanto isso, o almirante inglês Sidney Smith destacou as quatro naus que acompanhariam a esquadra portuguesa até o Rio de Janeiro. Em seguida, foi a bordo do Príncipe Real cumprimentar o regente e recebeu, do vice-almirante português, a lista das 15 embarcações que compunham a real esquadra: oito naus de linha, quatro fragatas, dois brigues e uma escuna. Este número varia nos registros das testemunhas e também em estudos posteriores, mas a diferença não altera a visão de conjunto. Além da frota real, havia número expressivo de navios mercantes particulares que saíram em seu rastro. Seriam cerca de 30, mas podem ter sido muitos mais. O navio inglês Hibernia avistou 56 navios, ao anoitecer do primeiro dia de viagem. O próprio comandante Smith mal fez as contas, o que ele via era “uma multidão de grandes navios mercantes armados”. De toda a forma, a esquadra real compunha uma respeitável unidade de combate. Os oito navios de guerra eram equipados com baterias de canhões que variavam entre 64 e 84 peças, a maioria com calibre 74. As fragatas estavam armadas, cada uma, com 32 ou 44 canhões, os brigues tinham 22 peças cada um e a charrua, que transportava mantimentos, 26 canhões.

A família real – d. Maria, o príncipe regente e sua mulher, seus oito filhos, a irmã da rainha, a viúva do irmão mais velho de d. João e um sobrinho espanhol de Carlota Joaquina – foi distribuída pelos navios de maior calibre. No Príncipe Real estavam a rainha d. Maria, com 73 anos; o príncipe regente d. João, com seus 40 anos; o príncipe da Beira, infante d. Pedro, de 9 anos; seu irmão infante d. Miguel, com 5 anos; e o sobrinho d. Pedro Carlos. No Afonso de Albuquerque iam a princesa, mulher do regente, dona Carlota Joaquina, 32 anos, com suas filhas: a princesa da Beira Maria Teresa, 14 anos, e as infantas Maria Izabel, Maria d’Assumpção e Anna de Jesus Maria, de 10, 2, e 1 ano, respectivamente. No Rainha de Portugal viajavam a viúva do irmão mais velho do regente, dona Maria Benedita, com 61 anos; a irmã da rainha, dona Maria Ana, de 71; e ainda as outras filhas de d. João e Carlota Joaquina, as infantas Maria Francisca de Assis e Isabel Maria, de 7 e 6 anos.

Há muitas dúvidas sobre o número de embarcados. O secretário do bispo Caleppi, que a tudo assistiu de perto, avaliou que 10 mil pessoas faziam parte da esquadra real. Já Pereira da Silva incluiu em seus cálculos os muitos negociantes e proprietários que haviam fretado navios para seguir a esquadra e não demonstrou dúvidas: “cerca de quinze mil pessoas, de todos os sexos e idades, abandonaram neste dia as terras de Portugal”. Uma minuciosa listagem relaciona, nominalmente, cerca de 536 passageiros – nobres, ministros de estado, conselheiros e oficiais maiores e menores, médicos, padres, desembargadores. Isso sem contar os termos imprecisos que surgiam ao lado do nome dos passageiros, tais como: “visconde de Barbacena com sua família”; “o conde de Belmonte, sua mulher e o conde seu filho com criados e criadas”; “José Egídio Alves de Almeida com sua mulher e família”; “e mais sessenta pessoas, entre homens e mulheres, sem contar as famílias que os acompanhavam” ou mesmo o indefinido “e outros”. Para se ter uma idéia, junto com o duque de Cadaval embarcaram a mulher francesa, quatro filhos, um irmão, e mais onze criados, incluindo um “homem pardo criado para varrer” e algumas famílias aditadas à mesma casa. O marquês de Belas levou um séqüito de 24 pessoas. O mesmo documento listou os oficiais da casa real, que não eram poucos. Apenas a ucharia empregava 23 “moços”, sendo que cada um deles vinha acompanhado de sua família, o mesmo se dando com os 14 moços da cozinha real. Um outro documento, redigido no calor da hora, pretendia registrar todos os passageiros, mas depois de relacionar alguns dos mais conhecidos nomes da nobreza, a escrita foi encerrada bruscamente com uma informação taxativa: “E mais 5.000 pessoas.”

Se levarmos em conta a população dos navios mercantes, a figura será ainda outra, pois o número de marinheiros e oficiais era elevado. Uma série de manuscritos existentes na Biblioteca Nacional revela que ao atingir o litoral brasileiro, em janeiro de 1808, alguns dos capitães elaboraram uma listagem informando ao conde dos Arcos, vice-rei do Brasil, a situação de suas guarnições. O comandante do Martins Freitas, além de fazer um mapa minucioso da tripulação, relatou que também estavam a bordo as famílias pertencentes aos oficiais da guarnição e parte da família do duque de Cadaval. O fato é que cada navio carregava uma pequena multidão. A acreditar-se que parte significativa dos oficiais e de suas famílias teriam permanecido na colônia, não estranharia chegar-se a mais de 10 mil emigrados. A cifra, porém, continua e continuará controversa.

De toda maneira, o número de embarcados era bem elevado e, com certeza, superior às primeiras estimativas e provisões. Esse era o drama da nau Minerva, que não havia sido preparada com antecedência e apresentou problemas na hora do embarque. Conta o capitão que, até o dia 26 de novembro, esta fragata esteve “de banda por não ser possível aprontar-se”. Apesar de só ter a bordo “algum biscoito e aguada” e das “tristes circunstâncias em que se achava o Real Arsenal da Marinha, pela confusão e falta de expediente nas diferentes repartições”, o capitão não perdeu tempo para atender ao príncipe e partir no dia 29. Quando atracou na Bahia, em 10 de janeiro de 1808, a Minerva estava a zero.

A viagem não seria fácil, ainda que não se tenha notícia de acidentes graves ou algum óbito. Famílias desmembradas e alojadas em diferentes navios, bagagens desviadas ou largadas no cais, racionamento de comida e água, excesso de passageiros e falta de higiene – que obrigou as mulheres a cortar os cabelos para evitar a ação dos piolhos – foram alguns dos problemas decorrentes da emergência do embarque. E pela frente, cerca de dois meses de viagem. Para complicar, uma tormenta se armou logo no início da jornada, e outra, em meados de dezembro, lá pela altura da Ilha da Madeira, provocando a dispersão de alguns navios e uma mudança de planos: apesar de parte da frota já ter tomado a direção do Rio de Janeiro, o Príncipe Real e as embarcações que o acompanhavam alteraram o rumo, em direção à Bahia.

Excluindo esses momentos mais inseguros, a viagem correu tranqüila, no que diz respeito aos humores da natureza e à estrutura das embarcações, que, apesar das avarias, alcançaram seu objetivo. O cronista Luiz Edmundo descreve os transtornos que se deram pelo excesso de passageiros: “muitos sem cama onde dormir, cadeira, banco para sentar, deitando-se ao relento, sobre as tábuas nuas dos conveses, sem prato certo onde comer, disputando em sórdidas gamelas, nas cozinhas, o alimento frugal”. E a travessia arrastava-se monótona. Além de acompanhar a evolução dos veleiros da frota, cantava-se ao som da viola ao poente e, nas noites de luar, jogava-se cartas: o faraó, o espenifre, o pacau e o chincalhão.

Depois de 54 dias no mar, em 22 de janeiro de 1808, o Príncipe Real atracou em Salvador – onde se quedaria por um mês, seguindo depois para o Rio de Janeiro. Atrás dele e aos poucos, foram chegando os outros navios. A situação era inesperada, assim como imprevisível era a novidade de uma corte migrada e aportada em sua colônia. Mas a história não é mesmo um exercício do certo. Ainda em alto-mar, d. João recebeu um belo presente do governador de Pernambuco: o brigue Três Corações foi ao seu encontro, carregado de mantimentos e muitas frutas tropicais. Entre cajus e pitangas, a colônia americana abria as portas para um evento inusitado: receber o seu príncipe português.

Revista de História

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2007 é o segundo ano mais quente no hemisfério norte

Alicia Rivera

Faltando apenas duas semanas para terminar, mas este ano deverá ser o segundo mais quente no hemisfério norte do planeta desde 1850, isto é, desde que se faz o registro direto de temperaturas. Só foi superado por 1998, segundo os dados apresentados ontem por duas prestigiosas instituições mundiais de pesquisa climática, o centro Hadley e a Universidade de East Anglia, ambas britânicas. Com os dados de temperatura de janeiro a novembro, em média mundial, 2007 será o sétimo ano mais quente, enquanto no hemisfério sul as temperaturas não subiram tanto. Concretamente, faltando o último mês, este ano o hemisfério norte está 0,63°C acima da média da temperatura entre 1961 e 1990 (14°C). Em 1998 foram registrados 0,66°C acima da média e em 2005, 0,64°C. O aquecimento de 2007 (até novembro) de todo o planeta é de 0,41°.

A Organização Mundial de Meteorologia (OMM) também apresentou ontem esses dados na cúpula sobre o clima em Bali, reforçados pelos resultados de outra instituição de referência mundial quanto a registros climáticos: a NOAA americana, segundo a qual 2007 pode muito bem ficar em quinto, e não em sétimo, lugar na classificação mundial de altas temperaturas.

Mais alto ou mais baixo, as duas instituições britânicas assim como a OMM destacaram ontem que “os 11 anos mais quentes desde 1850 foram registrados nos últimos 13 anos”. Os cientistas britânicos ressaltaram também que o forte crescimento deste ano ocorre apesar do efeito de resfriamento que representa o fenômeno oceanográfico La Niña em ação no Oceano Pacífico.

Outro indicador importante do aquecimento acelerado do planeta registrado este ano é a fusão do gelo no Ártico. No final do verão a extensão de mar gelado era de 4,28 milhões de quilômetros quadrados, a menor de que se tem registro. A extensão gelada no Ártico era há três meses 39% inferior à média de 1979 a 2000, e 23% menor em relação ao recorde anterior, estabelecido há dois anos, em setembro de 2005. Nessas condições, e pela primeira vez desde que se tem registro, neste verão não foi bloqueado pelo gelo a Passagem Canadense do Noroeste, que foi navegável durante cinco semanas a partir de 11 de agosto.

A superfície gelada do Ártico diminui aproximadamente 10% por década (cerca de 72 mil quilômetros quadrados por ano) desde 1979. Enquanto isso, o nível do oceano mundial continua aumentando e as medições de 2007 indicam que a média mundial está 20 cm acima do nível estimado em 1870. A cada ano o mar sobe 1,7 mm.

Os responsáveis da OMM destacaram ontem o aquecimento nas últimas décadas, como se lê no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC na sigla em inglês). “Desde o início do século 20 a temperatura média global da superfície da Terra aumentou 0,74°C, mas esse aumento não foi contínuo, já que o aumento da temperatura nos últimos 50 anos (0,13°C por década) é quase o dobro do registrado em cem anos.”

As temperaturas deste ano estão tão próximas do máximo medido na história que em alguns casos 2007 marca um recorde: o mês de janeiro passado foi o mais quente, com temperaturas médias globais de 12,7°C, em comparação com 12,1°C em média entre 1961 e 1990. Em algumas regiões européias o inverno e a primavera passadas estiveram entre os mais quentes já registrados, com até 4°C acima da média de janeiro a abril, indicou a OMM. Além disso, o sudeste da Europa sofreu duas ondas de calor extremo em junho e julho, com os recordes de temperatura máximas diárias superiores a 40°C. Também o sul dos EUA e partes do Japão registraram picos de calor neste verão.

A seca assolou regiões dos EUA, mas foi especialmente forte na China, que sofreu a pior seca dos últimos dez anos. A temperatura do ar também afeta o buraco da camada de ozônio e a OMM salientou ontem que, devido aos registros de inverno relativamente temperados na estratosfera, o buraco este ano foi relativamente pequeno. Desde 1998, o buraco só foi menor de 2002 a 2004. Concretamente, a extensão do afinamento da camada de ozônio sobre o continente branco alcançou em 2007 o máximo de 25 milhões de quilômetros quadrados em meados de setembro, em comparação com 29 milhões de quilômetros quadrados nos anos recordes de 2000 e 2006.

El País
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Roda Viva

Crescimento sufocante: na indústria de frutos do mar da China, água suja e peixes perigosos

David Barboza

Aqui no sul da China, à sombra das montanhas da província de Fujian, se encontram dezenas de enormes lagos cheios de água turva marrom repletos de enguias, camarões e tilápias, grande parte deles destinados aos mercados do Japão e do Ocidente.

Fuqing (pronuncia-se ‘fu-ching’) é um dos centros de uma indústria próspera que ao longo de duas décadas transformou este país no maior produtor e exportador de peixes e frutos do mar do mundo, assim como o fornecedor dos Estados Unidos que mais cresce.

Mas tal crescimento está ameaçado por duas das mais gritantes fraquezas ambientais na China: escassez aguda de água e abastecimento de água contaminada por esgoto, dejetos industriais e escoamento agrícola, que inclui pesticidas. As fazendas de peixes, por sua vez, despejam seus dejetos e poluem ainda mais as reservas de água.

“Nossas águas aqui são imundas”, disse Ye Chao, um criador de camarões que possui 20 lagos gigantes no oeste de Fuqing. “Simplesmente há fazendas de piscicultura demais nesta área. Todas despejam água aqui, poluindo outras fazendas.”

Os piscicultores lidam com as águas tóxicas misturando drogas veterinárias ilegais e pesticidas na ração dos peixes, o que ajuda a mantê-los vivos, mas deixa resíduos venenosos ou cancerígenos nos peixes e frutos do mar, ameaçando a saúde dos consumidores.

A degradação ambiental, em outras palavras, se tornou um problema de segurança alimentar e os cientistas dizem que as conseqüências a longo prazo com o consumo de peixes e frutos do mar contaminados podem incluir maiores índices de câncer e doenças no fígado, entre outros males.

Ninguém está mais vulnerável a estes riscos à saúde do que os chineses, porque a maior parte dos peixes e frutos do mar da China é consumida no mercado interno. Mas os importadores estrangeiros também estão preocupados. Nos últimos anos, a União Européia e o Japão impuseram proibições temporárias aos peixes e frutos do mar chineses devido aos resíduos de drogas ilegais. Os Estados Unidos bloquearam a importação de vários tipos de peixe neste ano, depois que as inspeções detectaram traços de drogas ilegais associadas ao câncer.

Autoridades americanas e chinesas assinaram um acordo em Pequim para melhoria da supervisão das fazendas de piscicultura chinesas, parte de um acordo mais amplo de segurança dos alimentos e medicamentos.

Mas reguladores dos dois países estão tendo dificuldade para manter os peixes e frutos do mar contaminados fora do mercado. A China fechou empresas de peixes e frutos do mar acusadas de violarem as leis e colocaram outras em listas negras, enquanto os órgãos reguladores americanos estão realizando inspeções especiais nos peixes e frutos do mar chineses.

Fuqing está no topo da lista neste ano de carregamentos chineses de peixes e frutos do mar rejeitados, com 43 rejeições em novembro, segundo registros mantidos pela Food and Drug Administration (FDA), a agência americana de controle de alimentos e medicamentos. Todas as rejeições envolveram o uso de drogas veterinárias ilegais.

Em comparação, a Tailândia, outra grande exportadora de peixes e frutos do mar para os Estados Unidos, só teve dois carregamentos rejeitados por uso de drogas veterinárias ilegais. A China teve, ao todo, 210 carregamentos rejeitados por causa de drogas ilegais.

“Por 50 anos nós enfatizamos cegamente o crescimento econômico”, disse Wang Wu, professor da Universidade de Pesca de Xangai. “O único interesse era o produto interno bruto (PIB), mas agora podemos ver que a água se tornou suja e os peixes e frutos do mar se tornaram perigosos. Todo ano, há acidentes de segurança alimentar e de poluição ambiental.”

Os problemas ambientais que atormentam os peixes e frutos do mar poderiam ser um mau presságio para a indústria. Mas com a diminuição constante dos estoques de peixe nos oceanos e o aumento da demanda mundial por peixes e frutos do mar, a criação de peixes e frutos do mar é o futuro. E nenhum país se dedica mais a isto do que a China, que produziu cerca de 52 bilhões de toneladas de peixes e frutos do mar no ano passado.

Demanda gigante, estrutura gigante, problemas gigantes
A China produz cerca de 70% dos peixes criados em fazendas de pescados no mundo, colhidos em milhares de complexos gigantes ao estilo de fábricas que se estendem ao longo de todo o litoral leste do país. Os piscicultores produzem peixes e frutos do mar em massa não apenas na costa, mas também no interior, em lagos, lagoas, rios e reservatórios, ou em imensas piscinas retangulares cavadas na terra.

“Eles serão grandes fornecedores não apenas para os Estados Unidos, mas para o mundo”, disse Richard Stavis, o presidente da Stavis Seafoods, uma empresa americana que importa bagre, tilápia e rã chineses.

A China começou a despontar como potência de peixes e frutos do mar nos anos 90, à medida que o rápido crescimento econômico se tornou uma grande prioridade no país. Mas especialistas em meio ambiente dizem que a busca precipitada por um maior produto interno bruto devastou a qualidade da água chinesa e colocou em risco a oferta de alimento do país. Na província de Guangdong, no sul da China, peixes contaminados com produtos químicos tóxicos como o DDT já estão causando problemas de saúde.

“Há metais pesados, mercúrio e retardantes de chama nas amostras de peixe que testamos”, disse Ming Hung Wong, professor de biologia da Universidade Batista de Hong Kong. “Nós temos que impedir que os poluentes penetrem no sistema alimentar.”

Mais da metade dos rios da China estão poluídos demais para servir como fonte de água potável. Os maiores lagos do país sucumbem regularmente de um grande aumento de algas prejudiciais. Os produtores de peixes e frutos do mar são parte do problema, disseram especialistas em meio ambiente. As enormes fazendas de piscicultura concentram dejetos de peixes, pesticidas e drogas veterinárias em seus lagos e despejam a água contaminada em rios, riachos e áreas costeiras, freqüentemente sem tratamento.

“Água é o maior problema na China”, disse Peter Leedham, o gerente de negócios da Sino Analytica, uma empresa independente de testes de segurança de alimentos que trabalha com empresas que compram da China. “Mas meu sentimento é de que a China resolverá isto, porque ela precisa. Mas não será um processo rápido.”

Lar do futuro chinês
Fuqing é chamada de qiaoxiang, ou lar, para aqueles que vão para o exterior, porque por décadas esta cidade portuária no Mar do Leste era por onde fugiam milhares de pessoas como passageiros clandestinos.

Nos anos 80, alguns dos imigrantes começaram a mandar dinheiro e idéias para casa ao mesmo tempo em que investidores estavam chegando do Japão e de Taiwan, prometendo ajudar o país a construir fazendas de piscicultura.

“A piscicultura era popular no Japão, de forma que vi o futuro”, disse Wang Weifu, um antigo produtor de enguias.

Milhares de camponeses que tinham dificuldade em ganhar a vida colhendo arroz e batata começaram a cavar imensas piscinas retangulares e a enchê-las com água para criar lagos para os peixes. Outras partes do país seguiram o exemplo, criando fazendas ao longo das estradas, perto de rios, riachos e em grandes lagos, lagoas e reservatórios.

Hoje, o poderoso Rio Yangtze está repleto de fazendas de piscicultura. O histórico Lago Tai está cheio de cercados de caranguejos. Perto de Ningde, a 145 quilômetros ao norte daqui, milhares de pessoas vivem em uma imensa baía, onde navegam em imensas jangadas de madeira e alimentam e colhem os peixes engaiolados, como o pescado amarelo.

O governo esperava que o boom de construção tiraria milhões da pobreza. E tirou. Atualmente há mais de 4,5 milhões de piscicultores na China, segundo o Comitê de Pesca.

Lin Bingui, 50 anos, é um deles, um ex-pedreiro com sorriso fácil e que agora administra 20 enormes lagos de camarão e enguia no oeste de Fuqing, em terras recuperadas com acesso a um estreito de água salgada.

“Isto não exige muita tecnologia”, ele disse enquanto entrava em um tanque em recinto fechado, onde cria enguias. “Você aprende enquanto trabalha.”

O boom criou mais empregos. Ele tornou a China o único país a produzir mais peixes e frutos do mar por piscicultura do que pescados no mar. Também ajudou a alimentar uma população cada vez mais próspera, um antigo desafio na China.

Muitos produtores também enriqueceram, pessoas como Lin Sunbao, cujo filho de 25 anos atualmente está estudando na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. “Meus melhores anos foram 1992, 93, 94″, ele disse. “Eu só tinha uma fazenda e ganhava mais de US$ 500 mil por ano.”

Mas em meados dos anos 90, sérios problemas ambientais começaram a surgir depois que fábricas de eletrônicos e têxteis se mudaram para a região central de Fuqing. Começou a ocorrer escassez de água na região sudeste da cidade e alguns produtores disseram que sua água ficou preta.

Documentos do governo registram os males ambientais na região. O vizinho Reservatório de Dongzhang, uma fonte de água para a agricultura e mais de 700 mil pessoas, foi recentemente classificado como nível 5, perto do fundo da escala do governo, inadequado para criar peixes, nadar ou mesmo para contato com o corpo humano.

O Rio Long, o principal canal de Fuqing, foi degradado pelos resíduos despejados pelas fábricas de papel e matadouros. O governo classificou neste ano grandes trechos do rio abaixo do nível 5, ou tão poluídos que são inadequados para qualquer uso. E as águas costeiras próximas que também são altamente utilizadas para piscicultura estão poluídas com óleo, chumbo, mercúrio e cobre, segundo a Administração Estatal de Proteção Ambiental da China.

Enquanto piorava a qualidade da água em Fuqing, os produtores que freqüentemente enchiam seus lagos com peixes e frutos do mar demais, tentavam combater as doenças e acalmar os peixes estressados com uma série de antibióticos e pesticidas freqüentemente ilegais.

Os produtores de enguias, por exemplo, freqüentemente usavam nitrofurano para matar bactérias. Mas tal antibiótico foi proibido para uso em animais de criação nos Estados Unidos, Europa, Japão e até mesmo na China, por causar câncer em camundongos de laboratório.

Os importadores de peixes e frutos do mar chineses rapidamente perceberam. Nos últimos anos, carregamentos de enguia para a Europa, Japão e Estados Unidos foram devolvidos ou destruídos devido a resíduos de drogas veterinárias proibidas. A exportação de enguia para o Japão caiu 50% em agosto deste ano, desferindo um duro golpe a Fuqing.

Os piscicultores chineses dizem que deixaram de usar medicamentos proibidos e que sofrem com uma queda de 30% na sobrevivência de seus peixes e frutos do mar.

“Antes de 2005, nós usávamos as drogas às cegas. Elas eram eficazes no combate às doenças”, disse Wang, presidente da associação local de enguias, notando que os resíduos das drogas podem ainda estar na água. “Mas agora nós não ousamos por causa das regulamentações.”

Alguns produtores atacaram o Japão, argumentando que o país continua elevando os padrões de resíduos simplesmente para proteger seus próprios produtores de enguias da concorrência. Mas os produtores daqui dizem que os compradores do Japão no final serão forçados a comprar enguias da China.

“Nosso mercado se expandirá na Rússia, Sudeste Asiático e na União Européia”, disse Wang. “Além disso, nós vemos grandes perspectivas no mercado chinês. Em cinco ou seis anos, ao mudarmos nossos destinos de exportação, o Japão implorará pelo nosso produto.”

País busca um recomeço; cientistas se preocupam
A 280 quilômetros de carro a oeste de Fuqing se encontram as verdejantes montanhas subtropicais da província de Fujian, onde se encontram algumas das mais ricas reservas de madeira e bambu da China. Lá, perto da cidade de Sanming, os criadores de enguia de Fuqing construíram uma série de imensas piscinas de cimento encravadas na encosta da montanha, cobertas com lona preta e cheias de milhões de enguias.

“Custa muito mais aqui, mas tivemos que fazê-lo”, disse Zheng Qiuzhen, um antigo produtor de enguias de Fuqing e que agora opera perto de Sanming. “Nós tínhamos que fazer algo em relação aos problemas com a água.”

Em grande parte do país, os criadores de peixes e frutos do mar estão trocando as lotadas áreas costeiras por regiões menos desenvolvidas, onde a terra é mais barata e há água mais limpa. Mas eles dizem que o custo geral de fazer negócios tão longe da costa é mais alto, dada a despesa de transporte do peixe em tanques oxigenados para as processadoras em Fuqing e seu abandono das drogas ilegais, uma medida que reduz as taxas de sobrevivência e aumenta o período de crescimento da maioria dos peixes de três para cinco anos.

“Não é possível encontrar muitos lugares tão bonitos quanto este, coberto de árvores e bambus”, disse Lin Sunbao, que se mudou de Fuqing para Sanming. “Nós usamos água dos riachos da montanha. E como nossa água é melhor, é mais difícil pegar doenças.”

Esta é uma solução para a crise de água na China: procurar território virgem e basicamente reiniciar o ciclo. Isto preocupa os cientistas, que dizem que a piscicultura na China não é apenas uma vítima da poluição da água, mas é também culpada de um legado ambiental destrutivo.

A criação de peixes em escala industrial destruiu mangues na Tailândia, Vietnã e China, poluiu canais e alterou radicalmente o equilíbrio ecológico em áreas costeiras, em grande parte pelo despejo da água usada. Os dejetos da aquacultura contêm fezes de peixes, ração de peixe apodrecida e resíduos de pesticidas e drogas veterinárias, assim como outros poluentes que já estavam misturados na água de baixa qualidade fornecida aos aquacultores.

Além do aumento da algas, alguns dos maiores lagos da China, como o Lago Tai, estão sofrendo eutroficação, causada em parte pela piscicultura, que pode matar peixes ao privar a água de oxigênio. O governo está expulsando a piscicultura destes lagos e também do Rio Long, em Fuqing.

Locais como Sanming podem não permanecer puros por muito tempo. A indústria pesada está se mudando para lá, atraída pelas riquezas minerais e por incentivos dos governos locais, que estão pressionando por desenvolvimento.

E Sanming já conta com 72 fazendas gigantes de enguias, que produzem 5 mil toneladas de frutos do mar por ano. Juntas, essas fazendas usam cerca de 1 bilhão de litros de água por dia e então despejam a água suja no dia seguinte, de volta ao ambiente de Sanming.

Há esforços para operar a piscicultura de forma sustentável. Na Noruega, por exemplo, os produtores de salmão usam tecnologia sofisticada, incluindo câmeras submarinas, para monitorar a qualidade da água e a quantidade de ração de peixe que é de fato consumida.

Mas nada assim é feito na China, e especialistas como Li Sifa, da Universidade de Pesca de Xangai, insiste que a regulamentação chinesa é branda demais e que os esforços para assegurar seu cumprimento são fracos ou inexistentes.

O governo aumentou suas inspeções às fazendas produtoras e processadoras de peixes e frutos do mar daqui, alertando os trabalhadores sobre os riscos e conseqüências do uso de drogas ilegais. Mas as drogas permanecem um problema, em parte devido à má qualidade da água.

Uma possível solução para os problemas da água seria deslocar a produção para alto-mar, dizem especialistas, com nova tecnologia que permita que as gaiolas de peixe de águas profundas sejam atendidas por máquinas de alimentação automatizada.

Os Estados Unidos já estão considerando tal plano, em parte como forma de se tornar menos dependentes das importações, que atualmente atendem 80% das necessidades americanas de peixes e frutos do mar. A China também está considerando a adoção do que está sendo chamado de piscicultura em “oceano aberto”.

Atualmente, as fazendas de peixes costeiras da China enfrentam muitos dos mesmos problemas enfrentados pelas fazendas no interior. Suas águas estão altamente poluídas com óleo, chumbo, mercúrio, cobre e outras substâncias pesadas.

As drogas veterinárias despejadas nas águas costeiras podem facilmente se espalhar para as fazendas vizinhas e afetar espécies fora das gaiolas, e apesar das águas costeiras serem menos poluídas do que as do interior, as fazendas de piscicultura, com seus ciclos de produção intensivos, são propensas a serem poluidoras.

Ainda assim, disse An Taicheng, da Academia Chinesa de Ciências: “A China precisa ir para o mar porque está ficando cada vez mais difícil encontrar água limpa. Todo ano há problemas de segurança envolvendo peixes e frutos do mar. Algum dia, ninguém ousará comer peixe de água suja e o que os produtores farão?”

The New York Times
http://www.nytimes.com/

O que os olhos não vêem

Atenção: as páginas desta reportagem estão cheias de mensagens subliminares. Será que elas têm algum poder para manipular as suas ações?

Mariana Weber

Dê uma olhada nestas páginas. Tem uns prédios e um skatista aí ao redor, não? A seguir, há elefantes e girafas durante um entardecer. Só? Na verdade, estas páginas da Super guardam palavras e imagens secretas. Sem você perceber, seu cérebro está captando fotos e desenhos ocultos de um abacaxi, uma mulher de biquíni e um urso polar, e conselhos como “escute música” e “proteja-se do sol”. No texto que você lê agora, afrase “como bananas” está escondida entre as palavras. Cuidado. Há mais de 50 anos, mensagens subliminares como essas assustam consumidores, fomentam teorias conspiratórias e dividem a opinião dos cientistas.

Na década de 1950, não bastasse o medo dos comunistas, das invasões extraterrestres e da bomba nuclear, os americanos descobriram a propaganda subliminar como um novo inimigo a temer. Em 1957, o consultor de marketing James Vicary deu início à onda de desconfiança contra propagandas que seriam uma forma de lavagem cerebral. Ele disse ter aumentado a venda de pipocas e refrigerante nas sessões do filme Férias de Amor, em um cinema de Nova Jersey, após projetar imagens por milésimos de segundo. Assim como no cinema, músicas esconderiam sons secretos e embalagens guardariam figuras disfarçadas.

Desde então, muita gente acredita que mensagens assim têm um efeito maior que qualquer tipo de propaganda. Manipulariam o inconsciente independentemente do nosso livre-arbítrio. Até hoje, porém, ninguém tem certeza se a indústria da propaganda usa mensagens imperceptíveis para atrair consumidores. Mas uma descoberta de abril deste ano provou que, intencional ou não, a mensagem subliminar tem efeito sobre nós.

Um grupo de psicólogos holandeses afirma ter provado que é possível levar as pessoas a optar por uma marca valendo-se de estímulos imperceptíveis conscientemente. Os psicólogos das universidades de Utrecht e Radboud relataram ter aumentado a preferência pela marca de chá gelado Lipton Ice em um estudo com 105 voluntários. Primeiro, os participantes ganharam balas de alcaçuz salgadas, um petisco holandês que provoca sede. Em seguida, todos foram colocados diante de um computador que exibia instruções sobre a pesquisa. Entre elas, apareciam imagens do chá por 23 milésimos de segundo, rápido demais para o cérebro captar racionalmente. Depois de assistirem os flashes de Lipton Ice, 82% dos participantes escolheram a bebida – a outra opção era água mineral. No grupo que foi exposto asubliminares sem sentido, apenas 20% dos sedentos tomaram a mesma decisão. “A descoberta mostrou uma clara diferença entre os que foram expostos às mensagens e os que não foram”, diz o psicólogo Johan Karremans.

O pesquisador afirma que o estímulo subliminar aumenta a acessibilidade de um conceito na mente. É como se uma idéia que estivesse bem enterrada fosse de repente jogada para a superfície e ganhasse mais força para influenciar o comportamento (na experiência, o conceito é a marca Lipton Ice e o comportamento, a escolha de um meio para aplacar a sede). Outros estímulos têm o mesmo poder, mesmo que não estejam camuflados. Em um estudo da Universidade de Leicester, no Reino Unido, música típica francesa e alemã nos alto-falantes de um supermercado levou consumidores a comprar mais vinhos desses países, sem se darem conta da associação que levou às compras. “Acreditamos que algumas conexões do cérebro deixem alguns termos mais acessíveis”, diz Karremans. “Quando eu digo ‘mesa’, ‘colher’ vai automaticamente ser ativado.”

História

Ao afirmar que a propaganda subliminar é factível, o psicólogo Karremans insere seu nome em uma história em que estudos sérios dividem espaço com teorias conspiratórias. A primeira incursão na área foi feita pelo psiquiatra austríaco Otto Pötzl, que em 1917 expôs pacientes a estímulos visuais rápidos e constatou que posteriormente, de forma distorcida, eles apareciam em sonhos. Mais tarde, nos anos 50, o americano Charles Fisher relatou que, após serem estimulados rapidamente com a imagem de um pássaro entre dois gatos, participantes de um estudo diziam não se lembrar da visão, mas, convidados a desenhar, botavam formas parecidas no papel.

O assunto virou moda quando o jornalista Vance Packard escreveu o livro Nova Técnica de Convencer, em que denunciava uma espécie de complô para manipular a mente dos consumidores. Mais tarde, o experimento foi desacreditado por falta de rigor científico. O próprio Vicary, aquele que disse ter aumentado a venda de pipocas no cinema, admitiu, em 1962, que sua técnica nem sempre dava certo e não tinha validade científica.

Mas já não importava – o medo tinha se espalhado. “O segredo tem sido bem guardado”, disse Wilson Bryan Key em Subliminal Seduction, de 1976, primeira de uma série de obras em que ele denunciava intenções escondidas em todo tipo de imagem: de um prato de mariscos surgia uma orgia e, com algum esforço de percepção, as letras “s”, “e” e “x” (“sexo”, em inglês) apareciam em cubos de gelo, em sombras na pele ou em biscoitos. Segundo Key, palavras com forte significado emocional, captadas de forma subliminar, se fixam na memória inconsciente com o conteúdo relacionado a elas.

Com esses estudos em voga, virou conversa de bar achar mensagens subliminares sobretudo em embalagens,como as de cigarros. Logo o assunto foi banalizado. Bandas de rock esconderiam nas músicas sons perversos. Filmes infantis não escaparam da paranóia. Segundo o site da ong Mensagem Subliminar, que se propõe a “divulgar as mensagens subliminares e todas as suas técnicas criminosas”, em duas cenas de O Rei Leão, partículas formam no ar a palavra “sex”.

Estardalhaços como esses assustaram os cientistas. “Por uma geração de pesquisadores, muita gente ficou desconfiada em relação ao trabalho de Vicary e evitou qualquer envolvimento com seus estudos”, diz Diane Zizak, co-autora do artigo Beyond Gizmo Subliminality (‘Além do Mecanismo de Subliminaridade’) nolivro The Psychology of Entertainment Media (‘A Psicologia da Mídia de Entretenimento’, sem edição no Brasil). “No entanto, à medida que a psicologia cognitiva se desenvolveu e explorou os limites da consciência, trabalhos sérios nos campos relativos à percepção subliminar se tornaram mais aceitos”, diz Diane.

O Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) informa que não faz comentários sobre propagandas subliminares porque elas simplesmente não existem. Por via das dúvidas, o assunto está no estatuto da entidade: “Este Código não se ocupa da chamada ‘propaganda subliminar’, por não se tratar de técnica comprovada, jamais detectada de forma juridicamente inconteste”. Apesar disso, já houve condenações por causa de subliminares no Brasil. Em 2002, a MTV foiacusada de exibir cenas de sexo de forma subliminar em uma vinheta – em frames que só podiam ser vistos claramente em câmera lenta. Segundo a promotora de Justiça do Consumidor Deborah Pierri, a emissora alegou que a direção não tinha conhecimento da existência dessas imagens na vinheta, que foi retirada do ar. O caso terminou com um acordo judicial, em que a MTV se comprometeu a promover uma campanha educacional voltada para jovens.

Subliminar é tudo?

Apesar de subliminar muitas vezes ser definido como algo captado abaixo do limiar da consciência, hoje se questiona a idéia de haver um limite dividindo o que pode e o que não pode ser percebido conscientemente. Essa linha divisória seria uma abstração – à medida que o estímulo se torna mais intenso, a probabilidade de que ele seja notado cresce gradualmente. Os estímulos chamados de subliminares seriam pouco intensos – porque têm volume reduzido (no caso dos sons) ou porque estão perdidos no meio de outras mensagens. “Nós podemos extrair informação conceitual de figuras que são projetadas durante aproximadamente 0,1 a 0,2 segundo”, diz o neurobiólogo Valdir Pessoa, da Universidade de Brasília.

Segundo o neurofisiologista Luiz Eugenio Moraes Mello, da Universidade Federal de São Paulo, também é subliminar grande parte das imagens captadas pela visão periférica, ou seja, fora da fóvea, região da retina usada para focalizar objetos. “O processamento desses estímulos ocupa preferencialmente o lado direito do cérebro, mais ligado às emoções, e o armazenamento ocorre de forma paralela ao dos estímulos supraliminares”, diz ele. “A diferença é que não se tem consciência disso.” Como focamos a atenção em um conjunto de estímulos, haverá outros que serão percebidos de forma subliminar.

“Em uma cultura com dados abundantes oferecidos em uma velocidade crescente, as mensagens passam para o inconsciente de forma inadvertida”, afirma Flávio Calazans, autor do livro Propaganda Subliminar Multimídia e maior propagador no meio acadêmico brasileiro do suposto perigo das técnicas subliminares.

Pior: como há pouco limite para aquilo que é ou não percebido conscientemente, a propaganda subliminar pode ser entendida como qualquer peça publicitária que leve você a fazer associações sem se dar conta. Colocar uma modelo sexy ao lado de um carro é um jeito de fazerisso. “De fato, se a mensagem por associação for explícita demais, o sujeito pode rejeitá-la criticamente”, afirma Diane Zizak. Para atingir um homem de 45 anos, cujo pai possivelmente é idoso ou morreu, um filme que mostra uma figura paterna dando ensinamentos tem grande chance de gerar empatia. “O espectador transfere esse sentimento à marca sem ter isso processado claramente”, afirma Paulo Tarsitano, professor de publicidade da Universidade Metodista. Ou seja: é muito difícil que mensagens ocultas estejam sendo veiculadas do modo como fizemos nestas páginas. Mas talvez toda propaganda, sem exceção, seja subliminar.

Foi de propósito?

Camelo ereto
A polêmica mais famosa envolvendo subliminares é a da embalagem dos cigarros Camel.Muita gente enxergou um pênis com testículos ou um pênis e uma vagina no rosto do camelo da marca. A empresa não foi condenada, mas retirou o desenho de circulação.

Democratas ratas
Em 2000, na campanha à Presidência dos EUA, uma propaganda republicana atacava os democratas com o termo bureaucrats (“burocratas”). A última parteda palavra (rats, “ratos”), ocupava a última tomada do anúncio. Coincidência?

Subliminar tupiniquim
A Souza Cruz, a agência Ogilvy & Mather e a produtora Conspiração Filmes foram condenadas em março por veicular, em 2000, uma propaganda dos cigarros Free com subliminares. Para o Ministério Público, havia uma imagem de uma pessoa fumando atrás da figura central, de um artista plástico. As empresas negam e recorrem da sentença, que exige R$ 14 milhões de multa.

História

Ao afirmar que a propaganda subliminar é factível, o psicólogo Karremans insere seu nome em uma história em que estudos sérios dividem espaço com teorias conspiratórias. A primeira incursão na área foi feita pelo psiquiatra austríaco Otto Pötzl, que em 1917 expôs pacientes a estímulos visuais rápidos e constatou que posteriormente, de forma distorcida, eles apareciam em sonhos. Mais tarde, nos anos 50, o americano Charles Fisher relatou que, após serem estimulados rapidamente com a imagem de um pássaro entre dois gatos, participantes de um estudo diziam não se lembrar da visão, mas, convidados a desenhar, botavam formas parecidas no papel.

O assunto virou moda quando o jornalista Vance Packard escreveu o livro Nova Técnica de Convencer, em que denunciava uma espécie de complô para manipular a mente dos consumidores. Mais tarde, o experimento foi desacreditado por falta de rigor científico. O próprio Vicary, aquele que disse ter aumentado a venda de pipocas no cinema, admitiu, em 1962, que sua técnica nem sempre dava certo e não tinha validade científica.

Mas já não importava – o medo tinha se espalhado. “O segredo tem sido bem guardado”, disse Wilson Bryan Key em Subliminal Seduction, de 1976, primeira de uma série de obras em que ele denunciava intenções escondidas em todo tipo de imagem: de um prato de mariscos surgia uma orgia e, com algum esforço de percepção, as letras “s”, “e” e “x” (“sexo”, em inglês) apareciam em cubos de gelo, em sombras na pele ou em biscoitos. Segundo Key, palavras com forte significado emocional, captadas de forma subliminar, se fixam na memória inconsciente com o conteúdo relacionado a elas.

Com esses estudos em voga, virou conversa de bar achar mensagens subliminares sobretudo em embalagens,como as de cigarros. Logo o assunto foi banalizado. Bandas de rock esconderiam nas músicas sons perversos. Filmes infantis não escaparam da paranóia. Segundo o site da ong Mensagem Subliminar, que se propõe a “divulgar as mensagens subliminares e todas as suas técnicas criminosas”, em duas cenas de O Rei Leão, partículas formam no ar a palavra “sex”.

Estardalhaços como esses assustaram os cientistas. “Por uma geração de pesquisadores, muita gente ficou desconfiada em relação ao trabalho de Vicary e evitou qualquer envolvimento com seus estudos”, diz Diane Zizak, co-autora do artigo Beyond Gizmo Subliminality (‘Além do Mecanismo de Subliminaridade’) nolivro The Psychology of Entertainment Media (‘A Psicologia da Mídia de Entretenimento’, sem edição no Brasil). “No entanto, à medida que a psicologia cognitiva se desenvolveu e explorou os limites da consciência, trabalhos sérios nos campos relativos à percepção subliminar se tornaram mais aceitos”, diz Diane.

O Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) informa que não faz comentários sobre propagandas subliminares porque elas simplesmente não existem. Por via das dúvidas, o assunto está no estatuto da entidade: “Este Código não se ocupa da chamada ‘propaganda subliminar’, por não se tratar de técnica comprovada, jamais detectada de forma juridicamente inconteste”. Apesar disso, já houve condenações por causa de subliminares no Brasil (leia quadro ao lado). Em 2002, a MTV foiacusada de exibir cenas de sexo de forma subliminar em uma vinheta – em frames que só podiam ser vistos claramente em câmera lenta. Segundo a promotora de Justiça do Consumidor Deborah Pierri, a emissora alegou que a direção não tinha conhecimento da existência dessas imagens na vinheta, que foi retirada do ar. O caso terminou com um acordo judicial, em que a MTV se comprometeu a promover uma campanha educacional voltada para jovens.

Subliminar é tudo?

Apesar de subliminar muitas vezes ser definido como algo captado abaixo do limiar da consciência, hoje se questiona a idéia de haver um limite dividindo o que pode e o que não pode ser percebido conscientemente. Essa linha divisória seria uma abstração – à medida que o estímulo se torna mais intenso, a probabilidade de que ele seja notado cresce gradualmente. Os estímulos chamados de subliminares seriam pouco intensos – porque têm volume reduzido (no caso dos sons) ou porque estão perdidos no meio de outras mensagens. “Nós podemos extrair informação conceitual de figuras que são projetadas durante aproximadamente 0,1 a 0,2 segundo”, diz o neurobiólogo Valdir Pessoa, da Universidade de Brasília.

Segundo o neurofisiologista Luiz Eugenio Moraes Mello, da Universidade Federal de São Paulo, também é subliminar grande parte das imagens captadas pela visão periférica, ou seja, fora da fóvea, região da retina usada para focalizar objetos. “O processamento desses estímulos ocupa preferencialmente o lado direito do cérebro, mais ligado às emoções, e o armazenamento ocorre de forma paralela ao dos estímulos supraliminares”, diz ele. “A diferença é que não se tem consciência disso.” Como focamos a atenção em um conjunto de estímulos, haverá outros que serão percebidos de forma subliminar.

“Em uma cultura com dados abundantes oferecidos em uma velocidade crescente, as mensagens passam para o inconsciente de forma inadvertida”, afirma Flávio Calazans, autor do livro Propaganda Subliminar Multimídia e maior propagador no meio acadêmico brasileiro do suposto perigo das técnicas subliminares.

Pior: como há pouco limite para aquilo que é ou não percebido conscientemente, a propaganda subliminar pode ser entendida como qualquer peça publicitária que leve você a fazer associações sem se dar conta. Colocar uma modelo sexy ao lado de um carro é um jeito de fazerisso. “De fato, se a mensagem por associação for explícita demais, o sujeito pode rejeitá-la criticamente”, afirma Diane Zizak. Para atingir um homem de 45 anos, cujo pai possivelmente é idoso ou morreu, um filme que mostra uma figura paterna dando ensinamentos tem grande chance de gerar empatia. “O espectador transfere esse sentimento à marca sem ter isso processado claramente”, afirma Paulo Tarsitano, professor de publicidade da Universidade Metodista. Ou seja: é muito difícil que mensagens ocultas estejam sendo veiculadas do modo como fizemos nestas páginas. Mas talvez toda propaganda, sem exceção, seja subliminar.

Foi de propósito?

Camelo ereto
A polêmica mais famosa envolvendo subliminares é a da embalagem dos cigarros Camel.Muita gente enxergou um pênis com testículos ou um pênis e uma vagina no rosto do camelo da marca. A empresa não foi condenada, mas retirou o desenho de circulação.

Democratas ratas
Em 2000, na campanha à Presidência dos EUA, uma propaganda republicana atacava os democratas com o termo bureaucrats (“burocratas”). A última parteda palavra (rats, “ratos”), ocupava a última tomada do anúncio. Coincidência?

Subliminar tupiniquim
A Souza Cruz, a agência Ogilvy & Mather e a produtora Conspiração Filmes foram condenadas em março por veicular, em 2000, uma propaganda dos cigarros Free com subliminares. Para o Ministério Público, havia uma imagem de uma pessoa fumando atrás da figura central, de um artista plástico. As empresas negam e recorrem da sentença, que exige R$ 14 milhões de multa.

Subliminar é tudo?

Apesar de subliminar muitas vezes ser definido como algo captado abaixo do limiar da consciência, hoje se questiona a idéia de haver um limite dividindo o que pode e o que não pode ser percebido conscientemente. Essa linha divisória seria uma abstração – à medida que o estímulo se torna mais intenso, a probabilidade de que ele seja notado cresce gradualmente. Os estímulos chamados de subliminares seriam pouco intensos – porque têm volume reduzido (no caso dos sons) ou porque estão perdidos no meio de outras mensagens. “Nós podemos extrair informação conceitual de figuras que são projetadas durante aproximadamente 0,1 a 0,2 segundo”, diz o neurobiólogo Valdir Pessoa, da Universidade de Brasília.

Segundo o neurofisiologista Luiz Eugenio Moraes Mello, da Universidade Federal de São Paulo, também é subliminar grande parte das imagens captadas pela visão periférica, ou seja, fora da fóvea, região da retina usada para focalizar objetos. “O processamento desses estímulos ocupa preferencialmente o lado direito do cérebro, mais ligado às emoções, e o armazenamento ocorre de forma paralela ao dos estímulos supraliminares”, diz ele. “A diferença é que não se tem consciência disso.” Como focamos a atenção em um conjunto de estímulos, haverá outros que serão percebidos de forma subliminar.

“Em uma cultura com dados abundantes oferecidos em uma velocidade crescente, as mensagens passam para o inconsciente de forma inadvertida”, afirma Flávio Calazans, autor do livro Propaganda Subliminar Multimídia e maior propagador no meio acadêmico brasileiro do suposto perigo das técnicas subliminares.

Pior: como há pouco limite para aquilo que é ou não percebido conscientemente, a propaganda subliminar pode ser entendida como qualquer peça publicitária que leve você a fazer associações sem se dar conta. Colocar uma modelo sexy ao lado de um carro é um jeito de fazerisso. “De fato, se a mensagem por associação for explícita demais, o sujeito pode rejeitá-la criticamente”, afirma Diane Zizak. Para atingir um homem de 45 anos, cujo pai possivelmente é idoso ou morreu, um filme que mostra uma figura paterna dando ensinamentos tem grande chance de gerar empatia. “O espectador transfere esse sentimento à marca sem ter isso processado claramente”, afirma Paulo Tarsitano, professor de publicidade da Universidade Metodista. Ou seja: é muito difícil que mensagens ocultas estejam sendo veiculadas do modo como fizemos nestas páginas. Mas talvez toda propaganda, sem exceção, seja subliminar.

Foi de propósito?

Camelo ereto
A polêmica mais famosa envolvendo subliminares é a da embalagem dos cigarros Camel.Muita gente enxergou um pênis com testículos ou um pênis e uma vagina no rosto do camelo da marca. A empresa não foi condenada, mas retirou o desenho de circulação.

Democratas ratas
Em 2000, na campanha à Presidência dos EUA, uma propaganda republicana atacava os democratas com o termo bureaucrats (“burocratas”). A última parteda palavra (rats, “ratos”), ocupava a última tomada do anúncio. Coincidência?

Subliminar tupiniquim
A Souza Cruz, a agência Ogilvy & Mather e a produtora Conspiração Filmes foram condenadas em março por veicular, em 2000, uma propaganda dos cigarros Free com subliminares. Para o Ministério Público, havia uma imagem de uma pessoa fumando atrás da figura central, de um artista plástico. As empresas negam e recorrem da sentença, que exige R$ 14 milhões de multa.

Revista Superinteressante
http://super.abril.com.br/super2/home/

Nova teoria da neurogênese pode ser chave para a cura definitiva da depressão

Carey Goldberg

Isolados do seu grupo social, os três macacos caíram em uma depressão simiesca. Eles não sentiam mais prazer em nada. Perderam status e não pareciam se importar.

Pesquisadores da Universidade Columbia deram o antidepressivo Prozac a três outros macacos que foram separados do seu grupo, e eles não apresentaram sinais de depressão. Exames feitos mais tarde revelaram que em uma área-chave nos cérebros dos macacos – o hipocampo, uma estrutura com um formato de cavalo-marinho – diversas novas células haviam surgido.

O estudo preliminar, apresentado no início deste mês na conferência anual da Sociedade de Neurociências, adiciona a mais recente evidência científica a uma teoria importante sobre a depressão que vem ganhando ímpeto – e gerando polêmica – há vários anos.

A lógica da teoria é a seguinte: a depressão, que afeta pelo menos 19 milhões de norte-americanos por ano, pode estar relacionada não apenas a problemas envolvendo mensageiros químicos como a serotonina, mas também à própria estrutura do cérebro, incluindo os neurônios e as suas conexões.

A pesquisa sugere que o estresse e a depressão podem de fato provocar o encolhimento de partes do cérebro, e que qualquer coisa que tenha sucesso para amenizar a depressão – como exercício, medicamentos ou terapia de choque – parece estar ligada à criação de novos neurônios em áreas-chave.

O termo definidor desta teoria é “neurogênese” – significando a criação de novos neurônios -, mas até mesmo os seus defensores entusiasmados advertem que se trata apenas de uma teoria. Mas é revelador o fato de algumas companhias farmacêuticas já estarem se concentrando na neurogênese e em várias substâncias que a estimulam, na esperança de criarem melhores antidepressivos.

A teoria poderia explicar, por exemplo, por que drogas como o Prozac geralmente demoram semanas até fazer efeito, mesmo que modifiquem a química do cérebro em uma questão de horas: a explicação seria que é necessário mais tempo para a criação de novos neurônios. A teoria também é coerente com a descoberta de que, quanto mais tempo uma pessoa fica deprimida, menor é o seu hipocampo. E também com a constatação de que a depressão é capaz de prejudicar a memória e o aprendizado, que dependem em parte da formação de novos neurônios.

A depressão e outras desordens do humor poderiam de fato atuar no cérebro como se fossem versões suaves de doenças neurodegenerativas – Alzheimer ou Parkinson – , com a atrofia e a perda de células cerebrais produzidas por essas enfermidades, afirma o médico Ron Duman, professor de psiquiatria e farmacologia da Universidade Yale. Mas, segundo ele, há uma diferença fundamental: as doenças neurodegenerativas normalmente não são reversíveis. Já as desordens de humor são.

“A teoria tende a se encaixar com tudo”, diz Tarique Perera, o psiquiatra que apresentou o estudo feito com os macacos. “Esta é a teoria capaz de explicar a questão dos neurotransmissores, dos hormônios do estresse, os problemas estruturais e até certos aspectos comportamentais no contexto da depressão”.

E, segundo ele, pesquisas recentes geram uma nova e animadora possibilidade: o estímulo à neurogênese poderia não só curar a depressão, como também preveni-la.

A teoria da neurogênese baseia-se em descobertas surpreendentes feitas no final da década de 1990: ao contrário do antigo dogma segundo o qual os cérebros adultos estão totalmente desenvolvidos, os cientistas descobriram que o hipocampo humano, um centro de aprendizado e memória, continua fabricando novos neurônios durante toda a vida.

O pioneiro da neurogênese, o médico Fred Gage, do Instituto Sale, alerta para que não se simplifique exageradamente o vínculo com a depressão. Para ele, neste momento não está claro se o vínculo entre a neurogênese e a depressão é de fato uma relação de causa e efeito.

“Evidências obtidas a partir de várias abordagens de pesquisa sugerem que o aumento da neurogênese ajuda a aliviar a depressão, e que a redução da neurogênese pode exacerbá-la”, diz ele.

Mas, como pode ser isso? Como é que o nascimento de novos neurônios poderia afetar o humor?

Muitos cientistas tendem a se esquivar de tal questão, e possíveis respostas continuam incompletas. Mas o vínculo conhecido entre a neurogênese e o aprendizado fez com que alguns pesquisadores especulassem que, em um estado deprimido, o indivíduo torna-se excessivamente concentrado nas coisas ruins, ficando incapaz de registrar as boas, e, que, de fato, essa incapacidade de mudar de foco se constitui em uma falha de aprendizagem.

Os pesquisadores também observam que embora o hipocampo seja visto como um eixo da memória, ele também parece influenciar a ansiedade e tem conexões com centros de emoções situados nas profundezas do cérebro límbico, podendo afetar a sua atividade.

Algumas pessoas sofrem de depressão tão grave que nenhum tratamento surte efeito. Segundo a teoria da neurogênese, parte do problema pode ser que, devido a alterações químicas ou estruturais nos cérebros desses indivíduos, eles não são mais capazes de produzir quantidades suficientes de novos neurônios. Mas a pesquisa ainda precisa investigar essa possibilidade.

A teoria da neurogênese também traz certas lacunas perturbadoras.
Na enorme conferência da Sociedade de Neurociências, realizada neste mês em San Diego, um desafio para a teoria foi apresentado por Shaw Kohler, pesquisador da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign.
Em ratos, os neurônios levam de três a quatro semanas para amadurecer – mais ou menos o tempo que as pessoas com depressão demoram até sentir o efeito de um antidepressivo. Vários pesquisadores assumiram que tal período precisa ser o mesmo em humanos, mas Kohler descobriu que, em macacos, estas células cerebrais necessitam de longas 24 semanas para amadurecer.

“É de se esperar que nos humanos esse período seja ainda mais longo”, afirma ele.

Alguns estudos, como o de Perera, revelaram que o bloqueio da neurogênese bloqueia também a ação protetora dos antidepressivos. “Mas recentemente surgiram outros trabalhos revelando que este nem sempre é o caso”, diz Duman.

O que está claro é que existe uma evidência muito forte de que o aumento da neurogênese se constitui pelo menos em um indicador, ou um biomarcador, de que um tratamento antidepressivo está começando a surtir efeito, afirma ele.

Segundo os pesquisadores, também está claro que novas ferramentas capazes de provar se a teoria da neurogênese é verdadeira ou falsa surgirão rapidamente.

William Greenough, um proeminente cientista especializado em cérebro da Universidade de Illinois está começando a ser capaz de marcar neurônios em animais no momento em que as células nascem, e de acompanhá-las a partir dessa gênese.

E, neste mês, uma equipe de pesquisadores liderada por Grigori Enikolopov, do Laboratório Cold Spring Harbor, em Nova York, anunciou que, usando tecnologia vinculada ao mapeamento por ressonância magnética e a um marcador para as novas células, desenvolveu um método não invasivo para rastrear a neurogênese em seres humanos vivos. Essa ferramenta, que é a primeira com tal capacidade, poderá ajudar os pesquisadores a estudar mudanças nas células cerebrais em uma variedade de doenças, como depressão, câncer e derrame.

Se o método for bem-sucedido, os futuros psiquiatras poderão usar sinais de neurogênese nos cérebros dos seus pacientes para afirmar rapidamente se um tratamento é ou não promissor, em vez de aguardar semanas, como atualmente precisam fazer com freqüência.

“É possível aplicar tal procedimento no consultório para acelerar o tratamento antidepressivo”, afirma John Denninger, psiquiatra do Hospital Geral de Massachusetts que faz pesquisas relacionadas à neurogênese. “Dessa forma, elevaremos a probabilidade de realmente prescrever algo a uma pessoa que realmente faça com que ela se sinta melhor”.

Jornal The Boston Globe

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/boston/

Um semanário académico ao serviço do capital

Bruno Carvalho

O fosso entre o que diz a Constituição da República Portuguesa e a realidade do nosso país é o mesmo fosso que separa as necessidades do nosso povo e os interesses do capital. Quando, em 1974, o povo tomou as avenidas e ruas de Portugal, as forças políticas, ao lado do capital, fragilizadas, não tiveram outro remédio senão aprovar a carta magna mais progressista da Europa Ocidental desde a Comuna de Paris.

Frente à ignorância que verga os povos aos pés dos poderosos, a revolução de Abril resgatou o nosso povo do analfabetismo crónico. Deu-lhe instrumentos para acabar com a elitização do conhecimento e para democratizar o ensino. Na Constituição da República Portuguesa, há um artigo relativo ao ensino que estabelece que “todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar” e que indica, de seguida, que “na realização da política de ensino incumbe ao Estado: (…) estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino”.

No final dos anos 80, depois da recuperação, por parte do capital, do poder económico e político, surgem as ideias sobre a possibilidade de se cobrarem propinas. Cavaco Silva, então primeiro-ministro, tenta calar os estudantes à bastonada e fracassa. António Guterres, que na campanha eleitoral afirma estar contra as propinas, acaba por vencer. Na primeira oportunidade, apresentou e aprovou a lei que regulamenta a existência de propinas no ensino superior. Depois foi o que se viu, as propinas viram sucessivos aumentos e o investimento estatal no ensino viu sucessivas reduções.

Desde então, a condição de classe voltou a ser uma barreira no acesso ao ensino superior. O ingresso numa universidade ou num instituto politécnico passou a depender do peso dos bolsos dos nossos pais. Como antigamente. Milhares de estudantes abandonam o ensino superior e outros tantos nem se dão ao trabalho de se candidatarem. É que mesmo a acção social, usada pelos defensores das propinas como argumento de que há um instrumento que ajuda os estudantes mais carenciados, tem sido alvo de sucessivos desinvestimentos.

Mas agora há uma novidade. O governo decidiu importar da Alemanha uma medida que vai revolucionar o ensino superior. E não, não se trata do valor do salário mínimo alemão. Tratam-se dos empréstimos bancários a estudantes. De uma cajadada só, matam-se dois coelhos. Por um lado, pode acabar-se com a acção social e, por outro, abre-se caminho aos bancos para um grande negócio. Ou seja, os licenciados com carências económicas entram directamente para o mundo do desemprego pela porta grande. Não só desempregados mas também já endividados.

E, compreenda-se lá, há estudantes que defendem esta medida. Faz lembrar as manifestações na Índia, em que os membros das castas superiores contestavam a democratização do ensino superior porque entendiam que os membros das castas inferiores não deveriam ter direito a frequenta-lo. Na verdade, a elitização encaminha-nos nesse sentido. Não é por acaso que esta mentalidade se alastra pelo movimento associativo estudantil. Mas, como no passado, o ensino superior é um viveiro de contradições. E há quem resista.

Não é o caso do Semanário Académico de Lisboa ( SAL ). Há uns meses, faziam uma espécie de roteiro do Processo de Bolonha, onde havia lugar para todos os elogios. Não foram muito originais porque destacaram a mesma mentira que todos os outros: de que agora é possível estudarmos em qualquer lugar da Europa sem os entraves de um ensino superior europeu diferenciado. Pois. Mas, como todos os outros, esqueceram-se de referir que só os ricos o podem fazer.

Se há coisa de que não se pode acusar o SAL é a de esconder a sua orientação política. Pela sua frontalidade, merece o elogio de todos os estudantes. Ao contrário da maioria da comunicação social portuguesa, o SAL marca a diferença e indica o caminho. Onde os outros mascaram a objectividade e a imparcialidade, o SAL, despe-se, sem sombra de pudor, e dá-se a conhecer como é: um jornal formado pela Associação Académica de Lisboa, que poucas vezes esteve ao lado dos interesses dos estudantes; um jornal conduzido por um dirigente associativo, Ricardo Florêncio, que nunca correspondeu ao papel histórico do movimento associativo estudantil; um jornal que é o porta-voz da quinta coluna do poder no mundo académico de Lisboa.

Na sua edição de 13 de Novembro, o SAL anunciava “Santander Totta com primeiros contratos para empréstimos para estudantes”. Na mesma notícia, debaixo do título, o logotipo do Grupo Santander surgia bem maior do que o tamanho do próprio artigo. Será desnecessário dizer-se que em momento algum se lê a opinião de alguém com uma opinião critica sobre o assunto e que o que sobra para a história são os sucessivos elogios do jornalista e das fontes. Uma forma sóbria e rigorosa de se fazer publicidade a uma empresa e a uma medida política.

Na semana seguinte, o SAL faz sair o seu 8º número e lança-se no desafio de ultrapassar as fronteiras da arte de fazer propaganda. E foram bem sucedidos. Na capa, surge um mealheiro, provavelmente, numa referência ao dinheiro que os bancos irão amealhar, e o título “Empréstimos para o superior/O SALx faz as comparações”. Logo na segunda página, um artigo a abrir que refere que “os empréstimos oferecem ainda mais duas vantagens para os estudantes”. E, de seguida, uma entrevista ao Millenium BCP, na qual o banco explana a sua missão de ajudar os jovens “nas necessidades e nos sonhos que eles têm”.

Mas eis que aparece numa caixa o seguinte inquérito: “Dá-nos a tua opinião. Consideras útil a existência deste crédito?/Os teus comentários também contam!” Para além de explicar que podemos enviar uma mensagem escrita para o número indicado, Ricardo Florêncio e companhia dão-nos o exemplo de como pode ser a opinião. “SALx, não só concordo como acredito que é um enorme passo para o Ensino Superior…etc…etc”.

A página seguinte repete a entrevista a bancos. Neste caso, ao Grupo Santander e à Caixa Geral de Depósitos. Ambos discorrem sobre a natureza humana das suas acções de apoio aos estudantes. O Grupo Santander um pouco mais porque tem mais espaço de propaganda que os dois outros bancos. Sinceramente, talvez por ingenuidade, não se percebia o porquê desta obstinação com o Grupo Santander, até que li a contra-capa. E em toda a largura da folha, lá estava: “Pensa no curso e deixa as notas connosco – SantanderTotta, o valor das ideias”.

Resitir
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Entre o mimetismo e a metamorfose

Uma oposição que combate o que antes propugnava. Um governo que defende o que antes atacara

Renato Lessa*

Não sei se lenda ou peça de folclore político. Conta-se que décadas atrás o atual senador Marco Maciel se viu envolvido, em visita oficial à China, em um diálogo trepidante com Deng Xiaoping. Nosso senador – exemplo raro de gentileza na vida pública – teria perguntado ao líder chinês: “O que pensam vocês da Revolução Francesa?” A reposta, nessa improvável conversa, é reveladora da relatividade das distâncias temporais. O camarada Deng teria dito não haver ainda, na altura, opinião formada entre seus súditos sobre o evento, dado o caráter recente do mesmo. O que, afinal, significa um par de séculos, diante de uma história contada pela métrica dos milênios?
E não é que o tempo seja apenas variável em função de diferentes experiências quanto a sua duração. Mais do que diferentes durações, o que parece ser instigante e cifrado na história do tempo é a idéia, posta pelo historiador Fernand Braudel, de que há muitos tempos no próprio tempo.
Há tempos muito longos – ligados à história da natureza, aos ventos, mares, climas e a paisagens – de extração física e geológica; há tempos mais voláteis, ligados aos acontecimentos e às marcas que os humanos impõem ao mundo. Entre os mais voláteis, por comparação à fixidez das normas da natureza, há grande variedade quanto a diferentes durações: ciclos econômicos, estilos de arte, processos políticos etc. Neste domínio, o tempo vivido em um instante será sempre uma condensação de tempos mais ou menos remotos, mas sempre ativos. O fato de os observadores atuais da política – uma das dimensões mais rápidas do tempo volátil – terem se habituado a uma experiência de tempo precipitado no instante não abole essa cláusula de complexidade.
Não pretendo adotar hábitos chineses e propor a suspensão do juízo a respeito do significado de qualquer evento posterior à dinastia Ming. No entanto, é estarrecedora a obsessão pela sincronia, pelo achatamento do tempo e pela opção por uma espécie de arqueologia do instante presente como forma privilegiada de elucidação dos processos políticos. É como se o acontecimento mais recente fosse a cifra para o entendimento do mundo.
Entre a perspectiva chinesa e a da instantaneidade imediata do tempo, penso ser possível adotar uma perspectiva de, ao menos, média duração, ou de fazer um esforço para detectar no tempo presente o rebatimento de ordens variadas de tempos passados. É possível que algumas das metamorfoses da república brasileira devam sua elucidação à atenção a algumas de suas inércias fundamentais.
No âmbito desse tempo nervoso e volátil que designamos como “política” o ano que está a terminar nos proporcionou alguns episódios vistosos. Um deles teve o sabor do evento que deu sentido ao título nobiliárquico do grande brasileiro Aparício Torelly: a Batalha de Itararé. Refiro-me à batalha campal não havida entre defensores e críticos da tese da possibilidade de reeleição indefinida do presidente da República. Os outros dois ocuparam o núcleo da agenda política do governo e do Congresso durante todo o ano de 2007. Trata-se, aqui, das batalhas pelo lugar do insigne senador Renan Calheiros na galeria dos tipos republicanos e pela capacidade de arrecadação e de utilização do orçamento por parte do Executivo (CPMF e DRU).
A batalha que não houve em torno do “terceiro mandato” do presidente da República é uma excelente oportunidade para considerar os temas da desconfiança na política e o dos padrões de relacionamento entre governo e oposição. Foi tediosa a hermenêutica dos analistas, voltada para detectar nas falas presidenciais o sentido exato da sempre heterodoxa prosódia do personagem quando lidava com a questão. A oposição parece nunca ter duvidado das intenções insidiosas de continuísmo, a exemplo do paradigma democrático instalado ao norte do antigo território de Roraima. É de se reconhecer que algum alento à suspeita foi dado pelo deputado petista avulso – preocupado com o aperfeiçoamento das instituições, por certo – que pugnou por alteração constitucional a respeito da matéria.
Importam menos as escaramuças imediatas do que a percepção de médio prazo a respeito do curioso mimetismo em curso no País. Não são necessárias energias cognitivas extraordinárias para reconhecer quanto da agenda e do comportamento do governo pós-2003 esteve prefigurada no governo anterior. Mais do que adotar medidas pontuais, padrões e referências estruturais para o processo governamental foram mantidos e aperfeiçoados pelos governos Lula. Dois desses instrumentos estiveram, há pouco, sob fogo inimigo de seus inventores, a CPMF e a DRU. Para além dos instrumentos legais recepcionados, o que dizer dos hábitos e das técnicas de arregimentação parlamentar e de configuração da assim chamada “base aliada”?
Pois bem, um dos poucos exemplos não seguidos pelo atual presidente, com relação ao que o antecedeu, foi o da adoção da iniciativa de alterar as regras do jogo com vistas a sua permanência por mais tempo no poder. Até o momento, a alteração constitucional promovida pelo governo Fernando Henrique Cardoso indica o ex-presidente como o representante brasileiro na galeria dos estadistas latino-americanos adeptos da plasticidade institucional infinita, para finalidades próprias. A companhia é edificante, lá estão Fujimori e o “socialista” Hugo Chávez.
O cenário caracterizado pela presença de uma oposição que combate hoje o que antes fazia e propugnava no governo, e de um governo que defende de forma fundamentalista o que antes foi objeto de ojeriza, parece caber por inteiro em uma das metáforas prediletas do presidente, a da metamorfose ambulante. Duvidosa homenagem a Raul Seixas, que pela imagem sugeria um processo de mutação continuada, sem resultado previsível. A aplicação ora proposta esteriliza e submete a metáfora a uma idéia de tempo cíclico: a idéia de mudança submete-se à noção de alteração de lugar.
Na verdade, não se trata de metamorfose alguma, mas de inércia, a saber, a que incide sobre o padrão de relações entre governo e oposição, em vigor no país há décadas.
Devemos ao historiador americano Richard Hofstadter uma das mais agudas e legíveis análises a respeito do caráter estratégico das relações governo-oposição, nas chamadas democracias representativas. Hofstadter analisa o problema em seu contexto originário, o do desenvolvimento da idéia de oposição legítima nos Estados Unidos, entre 1780 e 1840. O texto – The Idea of a Party System (University of California Press, 1969) – revela-nos como de uma cultura política republicana – desenvolvida na Revolução Americana -, fundada no consenso e na unidade do interesse público e que, por essas razões, percebia na dissensão uma porta aberta à sedição e à traição, desenvolveu-se uma teoria política e um desenho institucional para os quais a oposição regular e distinta ao governo aparece como condição necessária para o governo representativo. A passagem esteve longe de simples e pacífica, mas acabou por resultar em uma doutrina a respeito da oposição como constitucional, responsável e efetiva.
A combinatória daqueles fatores acabou por configurar o que hoje se imagina ser uma adequada operação de um sistema político minimamente democrático: existência de um nexo constitucional comum a governo e oposição; a idéia de oposição como ator que se opõe a políticas de governo, mas não à legitimidade do governo constitucional. A isso se deve somar a idéia de uma oposição responsável, e não selvagem, posto que se apresenta como alternativa de governo com base no que sustenta qua oposição.
A aparente metamorfose nas agendas do governo e da oposição no Brasil nada deve a Raul Seixas. Deve, na verdade, ao lamentável padrão de interações entre governo e oposição, desde o início do atual regime constitucional de 1988. Em tal padrão as idéias de oposição legítima e governo legítimo têm inscrição pálida. Há toda uma série de eventos, mais espessa do que a obsessão de tratar do instante, que se deposita ao longo do tempo. Em tal série deveria constar, como eventos mais remotos, a recusa do atual partido no governo de assinar a Constituição de 1988, com a expulsão de dissidentes, e o desprezo olímpico e iluminista que Fernando Henrique Cardoso reservava à oposição – “os que não sabem o que o Brasil quer”.
O padrão destrutivo indicado é compatível com o que ocorre em situações nas quais as agendas substantivas de governo e oposição são antagônicas. Situações nas quais a luta de classes se impõe como referência maior para a política, e nas quais os desenhos de política econômica e social, de ambos os campos, tendem a ser inegociáveis. Pois bem, nunca antes na história deste país o capitalismo esteve tão solidamente instalado, na vida material e nas expectativas dos brasileiros. A demanda histórica da esquerda pelo combate à desigualdade, por exemplo, cedeu lugar à busca de inclusão, cujos marcadores principais não dispensam o maior acesso ao mercado. O contributo do atual governo a essa consolidação não é diminuto.
A despeito da convergência no plano substantivo, a possibilidade de fragmentação e desentendimento no campo político segue dilatada. Nesse particular, não é trivial o fato de que um dos principais chefes da oposição seja o ex-presidente da República (1994-2002). O que parece mover o comportamento oposicionista é a adoção de uma teoria que faz da oposição legítima um ator sem história, voltado exclusivamente para inviabilizar a paralisar o inimigo. A seu favor deve ser dito que a teoria não lhe é original, assim como não foi a motivação de muitos de seus senadores na derrota da CPMF, um importante instrumento de detecção de movimentos financeiros heterodoxos.
E que dizer, em defesa do governo? Outros poderão fazê-lo, com maior conforto. O comportamento da base aliada, no episódio Renan Calheiros, e o da base inimiga, no episódio CPMF, são o simétrico oposto de uma mesma cultura política. Em outros termos, ao pior padrão de relações entre governo e base aliada segue-se a mais deletéria forma de relacionamento entre governo e oposição.
Aqui reside, pois, uma das bases inerciais das metamorfoses da República.

*Renato Lessa é professor titular de Teoria Política do Iuperj e da Universidade Federal Fluminense

Estado de S. Paulo

Nos Estados Unidos, a religião domina o debate presidencial

Corine Lesnes
Correspondente em Washington

Raramente a religião esteve tão presente numa campanha eleitoral nos Estados Unidos, como agora, quando as discussões sobre teologia acabaram sobrepujando os debates sobre orientações econômicas.
Entre os temas que vêm sendo objetos de debate entre os candidatos republicanos, não é a questão da retirada das tropas do Iraque que ganha atenções, mas sim a querela entre os mórmons e os evangélicos a respeito da reencarnação de Jesus Cristo. Todos eles estão convencidos de que a reencarnação irá acontecer, mas onde? No Estado do Missouri, conforme acreditam os mórmons? Ou no monte das Oliveiras, em Jerusalém, conforme garantem os evangélicos?
Os democratas, por sua vez, não se mostram tão interessados nestas questões de dogma, mas comparecem com assiduidade aos locais de culto para neles serem vistos. A democrata Hillary Clinton assistiu ao ofício batista, no domingo, 23 de dezembro, em Waterloo, no Iowa. Na semana anterior, o seu rival Barack Obama havia conduzido um grupo de jornalistas até a First Congregational United Church of Christ (Primeira Igreja Congregacional Unida de Cristo) para sublinhar que ele é um cristão, mesmo que este não seja o caso de uma parte da sua família paterna, que vive no Quênia.
Embora seja um partidário declarado do presidente George W. Bush, o jornalista Charles Krauthammer, autor de crônicas publicadas no "Washington Post", declarou estar sofrendo de uma "overdose de piedade pública". No decorrer dos debates republicanos, os candidatos tiveram de responder a perguntas que, dentro de qualquer outro contexto teriam sido consideradas como questões que dizem respeito apenas à esfera privada.
"Será mesmo que Deus criou o mundo em seis dias, há 6.000 anos? – Eu não tenho a menor idéia, eu não estava lá", respondeu Mike Huckabee, o pastor batista, que está na frente nos Estados do sul, segundo as pesquisas. "Mas foi o que ele fez, e isso é o que importa".
"A liberdade precisa da religião"
Em 29 de novembro, um habitante do Texas perguntou aos candidatos se todos eles acreditam em tudo o que está escrito na Bíblia. "A resposta que os senhores fornecerão nos ensinará tudo aquilo que nós precisamos saber a seu respeito", acrescentou.
"Com toda certeza", respondeu Mitt Romney, o candidato mórmon. "É o livro de Deus". Já, Rudolph Giuliani, o antigo prefeito de Nova York, um católico pouco praticante, fez o melhor que podia.
"Este é o maior livro que já tenha sido escrito", disse Giuliani. "Mas eu não interpreto todo o seu conteúdo ao pé da letra; por exemplo, Jonas dentro do ventre da baleia, etc. Parece-me que em textos como este, existem alegorias".
Conforme sublinhou Charles Krauthammer, "nenhum dos candidatos atreveu-se a responder: ‘Isso não é dá conta de vocês’".
Os Estados Unidos estariam ainda mais religiosos ao saírem dos anos Bush? É preciso evitar formular conclusões apressadas. O fenômeno que incentiva esta escalada de argumentos no plano religioso é característico das eleições "primárias". Nos dois campos políticos, é sempre a base radical que mais se mobiliza e que comparece em peso para votar. Os candidatos se vêem então obrigados a seduzirem os extremos se eles quiserem conquistar a investidura do partido. No caso dos republicanos, é a base religiosa que dá o tom.
Neste ano, as participações de um pastor – o antigo governador do Arkansas, Mike Huckabee – e de um mórmon conferiram uma importância ainda mais marcante às questões religiosas. Mitt Romney foi obrigado a fornecer explicações a respeito da sua Igreja. Por mais que ele se vanglorie do seu percurso sem falhas como homem de negócios, como governador e como responsável pela realização dos Jogos Olímpicos de Salt Lake City, a campanha forçou-o a discutir constantemente a sua condição de mórmon. Em 30 de novembro, ele foi obrigado a proferir um discurso inteiramente dedicado à questão religiosa.
Ele lembrou que os "Pais fundadores" haviam inscrito a liberdade de religião na Constituição. Mas ele achou por bem proceder a um acréscimo sobre esta questão, o qual não passou despercebido, principalmente entre os ateus, um grupo que está começando a ganhar uma importância cada vez maior na sociedade. Da mesma forma que a religião precisa de liberdade, disse o pastor, "a liberdade precisa de religião".
Por sua vez, Mike Huckabee foi capaz de explorar as desconfianças que os mórmons inspiram nos evangélicos. O homem aparenta ser bonachão, mas ele sabe arremessar as suas flechas. Com a maior "inocência", ele fez a seguinte pergunta a um jornalista: "Não é verdade que os mórmons acreditam que Jesus e o Diabo são irmãos?".
Huckabee foi obrigado a pedir desculpas, mas a questão passou a ser discutida. No momento em que falta uma semana para o início do pleito no Iowa, ele está no processo de conquistar os votos evangélicos. Na sua mensagem de votos de Natal, gravou num vídeo em que apodera-se do tema que é sempre o predileto dos conservadores nesta época do
ano: a defesa do Natal frente aos não-cristãos que tentam retirar desta celebração o sentido religioso, preferindo dizer antes "Boas festas!".
Embora se trate de um videoclipe para a campanha eleitoral, ele aparece trajando um pulôver vermelho na frente de uma estante em forma de cruz, para lembrar que o Natal comemora o nascimento do Cristo.
Os republicanos estão disputando entre si a herança deixada por George W. Bush e seu conselheiro político Karl Rove: o voto evangélico, esta senha mágica que supostamente teria aberto para Bush as portas da reeleição graças à força de mobilização das organizações cristãs conservadores. Numa proporção de 78%, os brancos evangélicos votaram na chapa formada por Bush e Cheney em 2004.
O bloco da direita cristã começou a desmoronar
Mas os evangélicos já não formam mais um bloco monolítico. As pesquisas de opinião mostram que está havendo por parte deles certo desinteresse pelo partido republicano. Este processo de distanciamento foi iniciado há vários anos e foi desencadeado pelas divergências em torno das questões sobre o meio-ambiente que surgiram no decorrer de um debate entre os evangélicos.
Estes consideram que a salvaguarda do planeta constitui uma prioridade, e se posicionam contra aqueles que preferem concentrar a sua mensagem nas questões da defesa da "civilização" e da "vida", ou seja, valorizar os temas do casamento, do aborto, das células-tronco, entre outros.
Este processo de distanciamento é particularmente evidente entre os jovens. Entre os evangélicos que têm menos de 30 anos, 55% se consideravam como republicanos em 2004. Atualmente, a sua proporção diminuiu para 37%. Estes conservadores ampliaram o leque dos seus assuntos de preocupação, passando a se interessar pelas questões sociais, entre as quais a pobreza e a exclusão.
Eles não excluem promover coalizões, a exemplo do pastor Rick Warren, que celebrou uma aliança com eleitos democratas, entre os quais Barack Obama, para uma campanha contra a Aids, reunindo-se com eles em sua "mega-igreja" na Califórnia.
Os evangélicos estiveram no auge da sua influência política no começo dos anos 1980, empurrados pelo crescimento da "maioria moral" liderada pelo pastor "televangelista" Jerry Falwell, e mais tarde com George W. Bush, mas a paisagem já evoluiu consideravelmente. Conforme explicou a revista "Time", o "campo de oração nivelou-se". O bloco da direita cristã começou a desmoronar, e hoje corre o risco de perder o seu status de "fazedor de rei".
Neste ano, os principais favoritos se atacaram mutuamente, diante da impossibilidade de encontrarem um candidato do seu gosto.
O fundador da Coalizão Cristã, Pat Robertson, fez apelos para que todos votassem em Rudolph Giuliani, o qual não passa de um herético aos olhos dos fundamentalistas, enquanto Mitt Romney recebeu o apoio de Bob Jones, o fundador da Universidade Evangélica da Carolina do Sul. Jerry Falwell morreu na primavera passada. Em Colorado Springs, a "Meca dos evangélicos", a comunidade foi abalada pela demissão forçada do pastor Ted Haggard depois de um escândalo sexual e, além disso, no início de dezembro, por uma chacina que deixou três mortos na New Life Church (Igreja da Nova Vida).
No âmbito da sociedade, o fenômeno religioso também parece estar arrefecendo. Segundo uma pesquisa realizada pela organização independente Pew Research Center e que foi publicada em março, 45% dos americanos afirmam que a oração é um momento importante na sua vida cotidiana: isso representa uma diminuição de 10% em relação a sete anos atrás.
Entre 2003 e 2007, o número daqueles que afirmam que eles nunca duvidaram da existência de Deus diminuiu de 8 pontos (ainda restam 61%). Os analistas do Pew Center apontam que a tendência ao crescimento da prática religiosa, que havia sido constatada durante os anos 1990, inverteu-se. A proporção de americanos agnósticos continua sendo infinitesimal (12%), mas ela está aumentando entre os jovens: cerca de 20% dentre eles se declaram sem afiliação religiosa, ou ainda, ateus.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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IDH alto esconde desigualdade, dizem especialistas

Dados indicam evolução gradativa, mas desempenho é visto como oportunidade para acelerar melhorias dos indicadores sociais

Para especialistas consultados pela Folha, a linha que separa países de alto desenvolvimento humano (IDH igual ou superior 0,800) é uma marca arbitrária que oculta, no caso brasileiro, a desigualdade.

O feito, no entanto, é uma oportunidade para acelerar a melhoria dos indicadores sociais caso o Brasil se compare apenas com os países que pertencem ao grupo do qual agora fazemos parte, com índices muito melhores que os nossos.

Para o ex-presidente do IBGE no governo FHC Simon Schwartzman, os dados indicam um processo de melhoria gradativa e de longo prazo. “Vão dizer que “nunca antes na história deste país” o IDH esteve tão alto e que, finalmente, entramos para os países de “alto desenvolvimento”, como se fosse mais um trunfo do governo Lula. Na verdade, a linha divisória entre o alto e o médio desenvolvimento é arbitrária e o Brasil, último da lista, tem à frente vários países latino-americanos. É um resultado medíocre, mas que será comemorado com grande fanfarra.”

Kevin Watkins, diretor de desenvolvimento do Pnud, diz que a tendência de melhoria do Brasil é contínua ao longo do tempo, mas lembra que há países com PIB per capita menor que o brasileiro e que possuem resultados melhores em educação e saúde.

Como exemplo, ele cita o Vietnã, país cujo PIB per capita é bem menor do que o brasileiro (3.071 dólares, ante 8.402). O país asiático, no entanto, tem expectativa de vida de 73,7 anos (a do Brasil é de 71,7) e 90,3% de sua população adulta está alfabetizada (enquanto no Brasil, são 88,6%).

Flávio Comin, assessor do Pnud, lembra também que o IDH permite a comparação de rankings de desenvolvimento humano e do PIB per capita. No caso brasileiro, o país está três posições abaixo do que seu PIB permitiria, relação inversa a de outros países latino-americanos, como Cuba (43 posições acima), Uruguai (16 lugares), Chile (15), Argentina (nove) e México (sete).

“São países que deram mais prioridade à dimensão social. O Brasil já está fazendo o mesmo, mas é preciso acelerar”, diz o assessor do Pnud.

Comin identificou no relatório cinco áreas em que o Brasil está muito defasado em relação aos demais países de alto desenvolvimento e que, por isso, podem apressar, no futuro, a melhoria do IDH: saneamento básico, pobreza, mortalidade infantil, mortalidade materna e desigualdade.

Ele cita como exemplo o fato de, entre os 20% mais pobres, a mortalidade na infância ser de, até cinco anos, 83 mortes por 1.000 nascidos vivos. Entre os 20% mais ricos, a relação é de 29 a cada 1.000.

“A mortalidade entre os mais pobres ainda segue um padrão africano. Nesse e em outros indicadores, ainda estamos muito distantes dos países de maior desenvolvimento humano, mas o fato de estarmos agora simbolicamente nesse grupo faz com que tenhamos obrigação de acelerar nosso progresso social”, diz ele.

Na avaliação de Wanda Engel, ex-chefe da divisão de Desenvolvimento Social do Banco Interamericano de Desenvolvimento e ex-secretária de Assistência Social do governo FHC, é preciso continuar investindo em políticas destinadas prioritariamente aos municípios com menor IDH e à população mais pobre.

Concentração de renda ainda é muito grande

O Brasil permanece como um dos países mais desiguais do mundo, mas a queda de 2000 a 2005 no índice de Gini -que mede a concentração de renda- faz com que, aos poucos, o Brasil vá se afastando dos países que lideram esse ranking negativo.

Há cinco anos, quando o Pnud divulgou seu Relatório de Desenvolvimento Humano de 2002 -com dados até o ano de 2000-, o Brasil tinha um indicador de desigualdade de renda inferior apenas ao de cinco países africanos.

O índice de Gini em 2000 estava em 0,607. Cinco anos depois, caiu para 0,570 -quanto mais próximo de 1, mais desigual. Foi uma redução tímida, mas suficiente para o país perder cinco posições no ranking. Hoje, países como Namíbia, África do Sul, Bolívia e Haiti apresentam padrão de concentração de renda pior do que o brasileiro.

Mas, se forem comparados apenas as nações de alto desenvolvimento humano, o país apresenta a maior desigualdade medida pelo índice de Gini. O país menos desigual é o Japão (índice 0,249).

Na avaliação de Kevin Watkins, diretor do escritório do Relatório de Desenvolvimento Humano do Pnud, a tendência de queda da desigualdade brasileira é robusta e isso tem tido impacto também na redução da pobreza.

“O país está se movendo na direção certa, mas ainda há um longo caminho a percorrer”, diz Watkins.

Jornal da Ciência

http://www.jornaldaciencia.org.br/

Centralismo não foi a única regra econômica

DA REPORTAGEM LOCAL

Um dos aforismos entre os especialistas é o de que o comunismo na Rússia sucumbiu vagaroso, em razão da corrupção de seus dirigentes e de um sistema econômico ineficaz.
Mas não existiu um único sistema. Foram muitos, sucessivamente, argumenta Lenina Pomeranz, da Faculdade de Economia e Administração da USP, durante seminário promovido naquela universidade, esta semana, para evocar os 90 anos da Revolução de Outubro.
Veio primeiro o “comunismo de guerra”, grosso modo entre 1917 e 1921, em que a Guerra Civil -os russos “brancos” reagiram com apoio externo ao Estado bolchevista- aboliu o comércio privado e instituiu o racionamento, com confisco da produção agrícola para garantir a alimentação dos soldados e operários urbanos. A indústria foi nacionalizada, e o trabalho, militarizado.
Veio em seguida o NEP (nova política econômica), que conviveu com a propriedade privada rural, tributada pelo Estado. A pequena indústria tampouco era estatal, estatuto reservado à grande indústria e a setores estratégicos, como a metalurgia, o petróleo e a indústria bélica.
Reviravolta nos anos 30, com o fortalecimento do poder pessoal de Stálin e o primeiro plano qüinqüenal. O modelo estatizado se expandiu na cidade e no campo, surgindo órgãos centralizadores de planejamento, com uma sobreposição mútua entre gestores das empresas e instâncias dirigentes do Partido Comunista.
Só nos anos 60, diz Lenina Pomeranz, sob Nikita Kruchev, o pós-stalinismo -Stálin morreu em 1953- permitiu a descentralização do sistema de planejamento setorial, com o planejamento regional e a eliminação de 141 ministérios econômicos. No lugar deles foram criados os conselhos econômicos em 105 regiões. O arquiteto dessa reviravolta foi o primeiro-ministro Alexei Kossyguin. Parte da burocracia perdeu poder. E, inconformada, em 1964 derrubou Kruchev.
Leonid Brejnev assume. Até morrer, em 1982, foi o gestor da estagnação e do atraso cada vez maior da economia em relação ao Ocidente. Com o retorno da centralização e o refortalecimento do partido -seus quadros eram medíocres sobreviventes dos expurgos stalinistas- , surge a “segunda economia”, em que os empregados estatais se tornam oficiosamente “microempresários” para consertar eletrodomésticos, fabricar botas ou agasalhos.
Surge, também, a “economia subterrânea”, em que, de início, os executivos das estatais compravam de outras estatais excedentes para conseguirem cumprir suas metas. Mas que, em seguida, subornam os ministérios para obter metas artificiais que permitam obter já de início esses excedentes comercializáveis. O sistema já estava de cima a baixo corrompido.

Abertura política
A situação não era irremediável. Yuri Andropov (1982-1984) deu autonomia às empresas e se aliou à intelligentsia para estudar novos modelos de gestão. Mas ele morreu, e seu efêmero sucessor, o inoperante Konstantin Tchernenko, nada fez antes de também morrer e ser substituído por Mikhail Gorbachev. Que chegou tarde para consertar os estragos.
O também economista Luiz Carlos Bresser Pereira, presente no seminário da USP, argumentou que o comunismo acabou porque Gorbachev insistiu na abertura política que escapou ao seu controle, em lugar de seguir o exemplo chinês que priorizou abertura econômica.
O historiador da USP Ângelo Segrillo tem uma outra hipótese. A seu ver, a burocracia partidária e empresarial herdada do stalinismo não contrariava o modelo verticalizado de comando que o fordismo consagrou no Ocidente. Mas o comunismo era incompatível com o modelo horizontalizado do toyotismo, com a flexibilização e a multifuncionalização da mão-de-obra.

Jornal Folha de S. Paulo
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Os sem-teto às portas de São Paulo

Após visitar o acampamento do MTST, no Morro do Osso, em Itapecerica da Serra, o repórter francês transmite sua visão sobre a crise habitacional da maior megalópole da América do Sul e a força dos movimentos sociais brasileiros

Phillippe Revelli

Do “Morro do Osso”, em Itapecerica da Serra, a vista abarca um mar de barracos de lona plástica preta, esticados com estacas de madeira ou bambu. Aqui e ali, colunas brancas de fumaça indicam que o fogo do café-da-manhã está aceso. Nesse lugar, cerca de 3 mil famílias provenientes das favelas de São Paulo ocupam um terreno particular onde foi fincada a bandeira do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Ruídos de martelo, serrote, picareta. Nessa nova cidade de tipo peculiar, sempre há um poço ou latrinas a serem escavados, buracos de telhado a serem tapados, divisórias a serem erguidas.

O MTST nasceu em 1997, por iniciativa do Movimento dos Sem Terra (MST). Gilmar Mauro, membro da coordenação do MST, lembra que “a criação do movimento partiu de um dado oficial — 85% da população brasileira reside em zona urbana — e foi uma tentativa de articular a luta pela terra e a luta por moradia”. A primeira operação de envergadura do MTST ocorreu em Campinas, quando 5 mil famílias invadiram uma área inaproveitada que batizaram de Parque Oziel, em homenagem a uma das vítimas do massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996. Dez anos depois, o Parque Oziel transformou-se em um bairro propriamente dito, com infra-estrutura adequada, e cujos habitantes compartilham de forte sentimento comunitário.

Nos anos seguintes à sua criação, o MTST estendeu suas atividades à periferia paulistana, aos estados do Nordeste e ao Rio de Janeiro, onde uma série de ocupações resultou na construção de 10 mil casas em Nova Sepetiba. Porém, conforme reconhece Rosildo Santos, antigo militante do MTST, “a gente não tinha nenhuma experiência de viver em um meio urbano e se contentou em reproduzir a estratégia empregada durante as lutas pela terra”. Mas o ambiente das favelas é complexo, a identidade é mais difícil de ser constituída aí do que em uma comunidade rural. O MTST sofre com a hostilidade das organizações criminosas, das seitas evangélicas e dos políticos locais, que temem perder o controle de seu público de costume.

No âmbito nacional, as diferentes seções do movimento evoluíram de forma independente umas das outras, algumas mudaram de nome, o MST e o MTST se tornaram organizações autônomas. Neste início de década, duas ocupações bem-sucedidas, realizadas na periferia de Guarulhos e Osasco, propiciaram um novo ímpeto na Grande São Paulo. Em julho de 2003, o MTST organizou outra ocupação, esta em São Bernardo do Campo. O terreno pertencia à empresa alemã Volkswagen e a reação das autoridades foi imediata: com o apoio de helicópteros e de atiradores de elite postados nos prédios das redondezas, as tropas de choque da polícia investiram contra o acampamento, fazendo inúmeros feridos e prendendo várias dezenas de militantes. A brutalidade da repressão gerou indignação na Alemanha e provocou uma manifestação diante da sede da empresa, contribuindo assim para divulgar internacionalmente a existência do movimento dos sem-teto no Brasil.

O governador de São Paulo na época, Geraldo Alckmin, advertiu que qualquer tentativa de ocupação organizada pelo MTST seria reprimida. Em 2005, contudo, o movimento invadiu terreno situado em Taboão da Serra. Após oito meses de luta, os sem-teto do acampamento Chico Mendes obtiveram junto às autoridades a promessa da construção de oitocentas casas. E finalmente, na noite de 16 para 17 de março, em Itapecerica, foi a vez de estabelecer o acampamento João Cândido — assim batizado em homenagem ao “Almirante Negro” [1].

Silvana de Jesus Oliveira, que tomou parte da primeira leva de ocupação, relata: “A gente chegou em Itapecerica da Serra à uma da manhã. No ônibus, tirando alguns dirigentes do MTST, ninguém sabia para onde estávamos indo, porque o lugar da invasão tinha sido mantido em segredo, para impedir a notícia de se espalhar”. Mas a operação fora preparada com meses de antecedência. “Foi na ocasião de um encontro com moradores de uma favela que protestavam contra o fechamento da escola local que constatamos a existência do terreno desocupado”, explica Guilherme Boutos, membro da coordenação do MTST. “Chamado de Fazendinha, o lugar era usado como desmanche por ladrões de carro e também como depósito de cadáveres pelos criminosos.”

Situado entre o extremo sul de São Paulo e Itapecerica da Serra, numa região que padece de grande déficit habitacional, o terreno fora repassado em 1991, sob condições um tanto quanto obscuras, ao Banco Noroeste (mais tarde adquirido pelo Santander), e depois cedido à Sociedade Itapecerica Golf e Urbanização Ltda. O local é objeto de um vago projeto, jamais concretizado, para a construção de um clube de golfe. Boutos explica: “Na realidade, trata-se de terra improdutiva destinada à especulação imobiliária. Vendido por 1,9 milhão de reais no início da década de 90, o terreno está avaliado hoje em 40 milhões de reais”.

Uma vez definido o local, o MTST pôs em ação sua rede ramificada nas favelas, fez contato com as famílias já mobilizadas, estabeleceu uma lista inicial de candidatos à ocupação. No dia D, cerca de trezentas pessoas, munidas de lanternas, facões, picaretas, martelos, arame, estacas de bambu e rolos de lona plástica, invadiram a Fazendinha. Na manhã de 17 de março, as primeiras barracas do acampamento João Cândido já estavam erguidas. Muito rápido, a notícia da ocupação se espalhou e centenas de moradores de bairros populares de São Paulo acorreram ao local. Ao cabo de uma semana, o acampamento adquiriu dimensões de uma pequena cidade, e o Jornal da Tarde estampou a manchete: “Itapecerica da Serra, capital dos sem-teto”.

Patrícia Cardoso, advogada e integrante da equipe do Instituto Pólis, estima: “A repercussão obtida por esse tipo de ocupação é reveladora da amplitude da crise habitacional na região metropolitana”. Em 1980, os moradores de favelas representavam 7,4% da população paulistana. No início da década atual, a porcentagem subiu para 11,1% [2]. Patrícia Cardoso explica: “A maior parte das favelas é resultante do crescimento desordenado e excludente das cidades brasileiras, que empurra os pobres rumo a espaços situados fora do mercado formal de terras (áreas de proteção ambiental e áreas de risco). A infra-estrutura e serviços públicos como abastecimento de água, iluminação, coleta de lixo, coleta de esgoto, saúde e educação são notoriamente insuficientes nessas regiões”.

Ao lado das favelas propriamente ditas, o Instituto Pólis aponta ainda os loteamentos irregulares e os cortiços, onde várias famílias dividem um mesmo cômodo pelo qual os proprietários cobram aluguéis exorbitantes. Patrícia Cardoso continua: “Na Região Metropolitana de São Paulo, cerca de 2 milhões de pessoas vivem precariamente em áreas de manancial e o déficit habitacional é de 600 mil moradias. Ao mesmo tempo, o censo do IBGE [3] apontou 400 mil domicílios vagos só na cidade de São Paulo e 540 mil no conjunto da megalópole. Haveria portanto imóveis vagos suficientes para corrigir em grande parte o problema da população sem moradia adequada”.

Longe de caminhar nessa direção, as políticas públicas de revalorização do centro fomentaram sobretudo a especulação e provocaram uma disparada de preços no mercado imobiliário, ao mesmo tempo em que sucessivos governos afetaram duramente as camadas mais pobres com ataques repetidos aos direitos trabalhistas, provocando uma deterioração geral das condições de trabalho.

No início desta década, segundo o IBGE, cerca de 54 milhões de pessoas — 53,4% da população economicamente ativa do Brasil — trabalhavam no mercado informal e 70% dos trabalhadores urbanos tinha empregos incertos. Ao lado de catadores de sucata, camelôs e empregadas domésticas, atividades tradicionais do setor informal, operadores de telemarketing, caixas de hipermercados, funcionários de manutenção e vigias constituem hoje um novo exército de trabalhadores em condições precárias. Excluídos do mercado imobiliário, os casais de baixa renda migram para a periferia das grandes cidades. Ao longo da década, a população das favelas paulistanas cresceu a um ritmo cinco vezes mais rápido que o do conjunto da megalópole, agravando uma situação que já era difícil e carregada de potenciais conflitos.

“Foi com os vizinhos que ouvi falar sobre a invasão de João Cândido”, conta Rose Mary dos Anjos. Vinte e quatro anos, mãe desempregada depois de ter tido diversos trabalhos — telefonista, vendedora, empregada doméstica —, mora temporariamente no morro do Jardim Guarujá, favela de São Paulo. “Não tenho muita coisa a perder!” Ela guardou seus móveis na casa de uma amiga e uniu-se ao MTST. “Nunca me preocupei com política, é a primeira vez que participo de uma ocupação”, explica.

Em Itapecerica da Serra, assim que o acampamento foi erguido, os dirigentes do MTST iniciaram negociações nas mais diversas frentes — com os governos municipal, estadual e federal, assim como com os representantes da Itapecerica Golf e Urbanização Ltda. Sustentando que a área em litígio não preenche função social alguma, o MTST reivindica sua expropriação e a construção de moradias para as famílias ocupantes. No fim de março, 5 mil sem-teto marcharam até o Palácio dos Bandeirantes. Mensagens e visitas de apoio foram dirigidas ao João Cândido: deputados de esquerda, sindicalistas, representantes da pastoral social, do MST, de organizações que lutam pelo direito à moradia etc. A imprensa reservou ao acontecimento mais espaço que o de costume.

Após três semanas de ocupação, as propostas formuladas pelas autoridades foram consideradas insuficientes pelo MTST, mas um acordo firmado com o proprietário do terreno descartou provisoriamente qualquer ameaça de expulsão. Em troca do acerto, os sem-teto se dispuseram a recusar a instalação de novas famílias na área contenciosa. Para os moradores de João Cândido, teve início uma nova fase, de consolidação do acampamento.

Divididos em 36 grupos, de 100 a 180 famílias, os ocupantes escolheram não só coordenadores como também os responsáveis pela disciplina, infra-estrutura e condições sanitárias. Cozinhas coletivas foram supridas com o auxílio de organizações amigas que enviam alimentos e, principalmente, com a participação voluntária dos sem-teto. Artistas contribuíram com apresentações e shows musicais. Estudantes animaram oficinas de teatro e atividades culturais.

Todas as tardes são dados cursos de formação política. Durante as reuniões diárias, realizadas dentro de cada grupo e entre os responsáveis pelos setores, os ocupantes são informados dos últimos acontecimentos, debatem a organização do acampamento, decidem as ações a serem empreendidas para popularizar a luta e fazer pressão sobre as autoridades. Assim como Rose Mary dos Anjos, eleita coordenadora do grupo quinze, as mulheres estão muito presentes no movimento e assumem responsabilidades em todos os níveis. “Ajudar esse mundo de gente a coexistir não é tarefa das mais fáceis, principalmente nestas condições: sem água corrente, sem eletricidade, numa total falta de privacidade a todo instante”, afirma. “Ao mesmo tempo, existe entusiasmo. Na favela, cada um tenta sobreviver como pode, cada um por si. Aqui é outra coisa, a solidariedade é a regra número um.”

Essa revolução nos valores, a consciência de ter sacudido o manto de resignação que pesava sobre seus ombros, a dignidade recuperada e o orgulho de ter-se tornado parte ativa de um empreendimento coletivo são sentimentos de que os moradores de João Cândido dão testemunho recorrente.

Conforme afirma Helena Silvestre, uma das coordenadoras do MTST, “um acampamento de sem-teto é uma escola de democracia participativa onde se formam os futuros dirigentes comunitários. A partir de uma preocupação concreta — a moradia —, queremos contribuir para lançar as bases de um genuíno poder popular”. Zeloso de sua independência em relação aos partidos políticos, o MTST não se permite dar orientação de voto e recusa integrar qualquer uma das coordenações dos movimentos populares existentes. “O que não nos impede de manter relações cordiais com estes últimos e com o conjunto das forças de esquerda”, completa Helena.

Desse modo, ao longo do mês de abril, os sem-teto participaram de manifestações organizadas pelos sindicatos de professores, pelos sem-terra e, no Primeiro de Maio, desfilaram na ala da esquerda radical. “Pensamos que é possível unificar, em torno de objetivos comuns, as lutas que são atualmente travadas isoladamente nas diversas comunidades [4]. E é por meio dessas lutas que nosso movimento ganha força e incorpora novos militantes”, diz Helena. “Enquanto isso”, sorri, “não dispomos sequer de sede própria, tampouco de meios para pagar salários dos coordenadores.”

A despeito do inegável dinamismo e da notável organização de seus acampamentos, o MTST segue sendo um movimento um tanto informal. Em torno de uma direção colegiada cuja legitimidade está acima de qualquer contestação, embora não eleita, gravita um nódulo militante composto de elementos heterogêneos — trânsfugas do MST, líderes comunitários, famílias que se juntaram ao MTST durante ocupações anteriores, sindicalistas, estudantes oriundos de círculos de esquerda radical ou de esferas de influência antiglobalizantes etc. “Mas nossa força”, insiste Helena, “reside na capacidade de mobilização da população favelada.” Apontando um grupo de barracos construídos no flanco da colina sobre a qual tremula estalando a bandeira de um osso, ela acrescenta: “Morro do Osso. Os companheiros do grupo oito escolheram esse nome porque acreditam que, para as autoridades, os sem-teto serão um osso duro de roer”.

No dia 18 de maio, os sem-teto de João Cândido acabaram sendo obrigados a abandonar a área ocupada. No entanto, obtiveram por escrito dos governos federal e estadual o compromisso de construção de moradias para todos os ocupantes. Com esse fim, a prefeitura de Itapecerica da Serra sugeriu um terreno no qual 350 famílias sem qualquer outra solução de abrigo imediato ergueram um novo acampamento.

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Com um déficit de moradia na ordem de 7,9 milhões de habitações , a reforma urbana brasileira prescinde que “os avanços institucionais se traduzam no enfrentamento mais eficaz da situação de desigualdade nas metrópoles, em especial o problema da moradia”.

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[1] Filho de ex-escravos, João Cândido Felisberto (1880-1969) liderou os marinheiros brasileiros na célebre Revolta da Chibata (1910). Nesta, insurgindo-se contra os baixos soldos, a má alimentação e os castigos corporais praticados na Marinha, os tripulantes dos navios de guerra ancorados no porto do Rio de Janeiro voltaram seus canhões contra a então capital federal. A rebelião terminou com a promessa governamental de abolir o uso da chibata. Mas João Cândido foi, pouco depois, expulso da Marinha e sofreu discriminações até o fim da vida. João Bosco e Aldir Blanc homenagearam sua memória na música “O Mestre-Sala dos Mares”.

[2] De acordo com estudo do CEM — Centro de Estudos da Metrópole.

[3] Fonte: Déficit Habitacional no Brasil 2000, estudo da Fundação João Pinheiro.

[4] Considerando que o conceito de sem-teto não dá conta da totalidade de sua ação, o MTST fundou, em 2005, a associação Periferia Ativa. Esta prepara uma campanha visando reivindicar a outorga de uma “tarifa social da eletricidade” para famílias de baixa renda. Ver também o site do MTST.

Jornal Le Monde
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SOLUÇÕES ESTÃO FORA DA ESFERA REGIONAL

O texto abaixo foi publicado na coletânea "Nosso século XXI" pela Editora Livre Mercado em 2001.

RICARDO ALVAREZ

O potencial industrial implantado no Grande ABC é certamente uma das características mais marcantes do papel que a região vem desempenhando na divisão territorial do trabalho do Estado de São Paulo e do Brasil. Calcado basicamente na indústria automobilística e na indústria química, com suas respectivas atividades complementares, alcançamos patamar de destaque no cenário econômico brasileiro. Embora desde o início do século XX a expansão industrial de São Paulo tenha estendido tentáculos para além dos limites da Capital, acompanhando as ferrovias e atingindo, portanto, parcela da região que hoje chamamos de Grande ABC, o grande impulso de crescimento industrial na região deu-se a partir dos anos 50.

A modernidade se impôs com velocidade crescente. Ciência e tecnologia agregavam-se rapidamente ao território: vias de ligação intermunicipais e regionais, sistemas de transportes, expansão do fornecimento de energia elétrica, grandes unidades de produção industrial, ampliação dos meios de comunicação, construção de edificações para abrigar os serviços públicos e os empreendimentos privados de natureza industrial, comercial ou de serviços. Paralelamente, milhares de trabalhadores fincavam raízes na região, criando demandas por habitação, escolas, transportes coletivos, saneamento básico. O descompasso entre a modernização econômica e a distribuição social e territorial da riqueza foi se desenhando por décadas. O espaço produzido revelava suas raízes não apenas com os liames das necessidades regionais, mas basicamente pelas relações que se estabeleciam fora.

O geógrafo Milton Santos nos auxilia a compreender esse processo a partir dos conceitos de verticalidade e horizontalidade. O primeiro se define pelas relações que se estabelecem do local com o global, que transcendem a esfera do lugar. O segundo explica o lugar a partir das relações socioeconômicas entre seus habitantes e desses com a natureza local.

No caso do Grande ABC, as verticalidades se projetavam num processo complementar e combinado com as horizontalidades (intercâmbio do local e seu entorno). Uma observação atenta da constituição da região, especialmente dos municípios de Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema e Mauá, aponta para a predominância das verticalidades sobre as horizontalidades.

Grande parte dos capitais investidos nas terras da Borda do Campo tinha finalidade produtiva e se originava dos países centrais do capitalismo. Estávamos então nos idos dos anos 50/60, quando a expansão do modelo fordista de produção consolidava um regime de acumulação de capital apoiado na articulação entre o Estado e o grande capital, fomentando uma sociedade baseada na produção e consumo de massa.

Se a primeira metade do século XX foi marcada por sucessivas crises de acumulação — duas Guerras Mundiais e, entremeando-as, o Big Crash da Bolsa de Valores de Nova York em 1929 — as décadas de 50 e 60 experimentaram cenário macroeconômico muito diferente. A época de ouro registrava intenso crescimento econômico no mundo rico: a taxa média anual de crescimento entre os anos de 1950 e 1970 foi de 5,3%.

Esse crescimento foi sustentado pela imposição do dólar como moeda do comércio internacional e seu câmbio, apoiado na troca entre a moeda dos Estados Unidos e o ouro. O acúmulo do metal em território americano serviu de alavanca ao arranque da locomotiva que puxou, em ato contínuo, o restante da economia mundial. Ampliou-se o fluxo de capitais das economias ricas em direção ao mundo dependente. Segundo David Harvey, no livro A Condição Pós-Moderna (1989), a expansão do capitalismo no modelo Fordista-Keynesiano foi acompanhada de deslocamento espacial da produção como forma de administrar as crises de acumulação, uma vez que a superexploração do trabalho e dos recursos nos países dependentes permitiria a consolidação do consumo de massa nos países centrais.

É nesse contexto mais amplo que devemos entender a consolidação da Grande São Paulo e especialmente do Grande ABC como áreas de intensa concentração e aglomeração industrial. O fordismo exigia, à luz das tecnologias e do capital empregados, grandes estruturas de produção, amplo investimento em capital fixo e articulação espacial capaz de garantir a viabilização de todo o ciclo de produção e consumo em grande escala. Já havia uma base instalada para recepção desses capitais em terras de Piratininga: proximidade com o Porto de Santos, sistema ferroviário de transportes instalado, mão-de-obra (consumidores e trabalhadores), capitais acumulados (provenientes da cultura do café), entre outros. Possuíamos vantagens comparativas determinantes para a opção dos investidores.

O papel desempenhado por São Paulo no contexto nacional foi redesenhando as outras regiões do País de tal forma que, se no início do século passado as regiões Norte e Nordeste apresentavam 21% do Valor da Produção Industrial Nacional, em 1940 São Paulo representava 45,4% e as regiões citadas apenas 11,5%. Como consequência, os fluxos migratórios internos se intensificaram, direcionados predominantemente para São Paulo e o Grande ABC.
Os núcleos urbanos no Grande ABC receberam incremento populacional muito intenso e se expandiram. Segundo dados do IBGE, de 1960 a 1991 a população absoluta do Grande ABC passou de 504.416 para 2.048.674 de habitantes. Taxas em níveis estratosféricos de crescimento populacional foram registradas. Na década de 60/70 o Brasil apresentou 2,9% de Taxa Geométrica de Crescimento Anual, ao passo que o Grande ABC, no mesmo período, alcançou a incrível marca dos 7%.

As chaminés fumegavam o ar, novos loteamentos rasgavam a periferia, o fluxo de pessoas e mercadorias era intenso, o mercado consumidor se ampliava e a metrópole paulista se expandia, consolidando-se como metrópole industrial. Richard Langenbuch publicou, em 1971, um livro clássico denominado A Estruturação da Grande São Paulo, Estudo de Geografia Urbana, no qual descreve com lucidez as mudanças que se operavam no espaço urbano da Grande São Paulo naquele momento.

Industrialização e urbanização sempre caminham de mãos dadas e aqui não poderia ser diferente. Os núcleos urbanos originais serviram de pólo irradiador da expansão urbana e a atividade econômica, de indutora. Nos municípios cortados pela linha férrea, as estações (paradas) representaram esses pontos. É a partir disso que as formas urbanas vão sendo construídas e se acomodando, num movimento radial e circuncêntrico. Uma malha urbana de dimensões territoriais modestas se comparada aos dias de hoje articulava os prédios fabris, as casas comerciais e as residências, sempre referenciada pelos núcleos urbanos originais.

Em Santo André, na década de 40, quando nosso parque industrial era ainda incipiente, foram construídas casas populares para abrigar mão-de-obra fabril em Santa Terezinha, na Rua Elisa Fláquer, a Vila Monsueto Cecchi, na Rua do Sol, e os prédios do Iapi. O próprio Bairro Campestre tem perfil operário na concepção e ocupação iniciais. Ou seja, naquele momento a segregação espacial ainda não se constituía problema de grandes proporções, pois as distâncias que separavam os trabalhadores do Centro da cidade (estação ferroviária) não ultrapassavam mais do que dois quilômetros. Percebe-se assim que o significado do termo periferia expressa realidades diferentes ao longo do tempo.

Os municípios de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema se conurbaram na década de 70, indicando a necessidade de mais terras para a continuidade de expansão da malha urbana. Com isso, muda o gradiente de valoração da terra, que impõe novo padrão de ocupação do espaço geográfico. Os menos favorecidos vão sofrendo duplamente: vitimados pelo aumento dos custos de moradia (terra mais construção), são forçados a ocupar o solo mais barato, o que se dá nas encostas de morros, em áreas de mananciais ou em terrenos públicos desocupados. E, de outro lado, pela queda do poder aquisitivo em função do dispêndio de maiores recursos no quesito moradia. O ato de habitar vai se tornando problema de dimensões cada vez maiores. O crescimento dos núcleos de favelas também expõe a crise de oferta de residências populares.

Ao lado da crise habitacional, soma-se a exclusão de serviços públicos básicos e sua concentração nas áreas centrais da cidade, dificultando ainda mais o acesso pela população de menor renda, moradora da periferia. Completa-se o quadro da modernidade incompleta tão bem definida por Milton Santos.

Ocorre, no entanto, que o início da década de 70 marca o período de nova crise do capitalismo, acentuada com o primeiro choque do petróleo e com a desvalorização do dólar americano. Crise de demanda, queda de produtividade e lucratividade, crise fiscal. O fim do padrão ouro-dólar, a incorporação de novas tecnologias ao sistema produtivo e a redefinição do papel dos Estados nacionais colocam novas perspectivas na realidade da acumulação capitalista.

A chamada terceira revolução industrial tem alterado significativamente a estrutura produtiva, embora não de forma homogênea em todos os lugares, e vem sendo acompanhada de outras transformações, especialmente na organização do trabalho e nas estratégias espaciais das unidades de produção industrial. A rigidez das estruturas fordistas de produção vai sendo substituída por outras mais flexíveis, fluídas e voláteis, capazes de adequarem-se mais rapidamente às exigências e sintomas do mercado. As décadas de 70 e 80 foram conturbado período de reestruturação econômica e de reajustamento social e político.

No Brasil a década de 80 foi marcada pela necessidade de ajustes, de forma a cumprir os compromissos da dívida externa. A busca incessante de uma balança comercial favorável direcionou as políticas públicas para o incentivo à exportação, contenção da importação e drástica diminuição dos investimentos públicos. A desigualdade social ampliou-se, o que impôs aos trabalhadores a busca de alternativas à crise. No Grande ABC, nascem o PT e a CUT. Do ponto de vista político mais geral, o reajuste do capitalismo implicou redefinição do papel do Estado. As políticas de Estado-mínimo de Margareth Tatcher e Ronald Reagan nos anos 80 ilustram bem essas mudanças, que anos depois seriam incorporadas por vários países dependentes, entre os quais o Brasil.

Nesse sentido, a década de 90 foi marcante: primeiro o arrastão chamado Fernando Collor. Sequestro de poupança, privatizações, corte de investimentos públicos e inibição da atividade econômica foram remédios utilizados para conter a inflação. Não poderia acabar diferente, pois milhões perderam suas ocupações, a massa salarial na composição do PIB foi drasticamente reduzida, nossa economia parou e o presidente foi deposto. O vice Itamar Franco quis recriar o Fusca, se embaralhou nas próprias pernas e com ele embaralhou também o Brasil.

Mas a redefinição do papel do Estado foi consolidada mesmo no governo Fernando Henrique Cardoso com a desregulamentação da economia, abertura sem critérios à importação e facilidades à entrada do capital estrangeiro, altas taxas de juros, contínua transferência de competências antes federais e estaduais para os municípios sem a devida contrapartida de recursos. Em nome do novo e do moderno fomos jogados na arena, indefesos, contra inimigos bem armados numa disputa entre forças desproporcionais.

O Grande ABC sentiu o golpe e tentou se recompor; porém a abertura econômica impôs padrão de igualdade de competição entre os desiguais. O resultado da abertura comercial e financeira e da incorporação de novas tecnologias à produção tem provocado profundas alterações na base industrial: maior concentração do capital e reestruturação das unidades de produção são pilares desse processo. Como resultado, numa fase imediata verifica-se, à semelhança das revoluções industriais anteriores, uma redução dos preços em função da ampliação da oferta, somente possível graças aos novos métodos produtivos e ao forte impacto das novas tecnologias.

Porém, de outro lado, para o pensador alemão Robert Kurz, em O Torpor do Capitalismo, a terceira revolução industrial trouxe outra inspiração no que se refere ao emprego de mão-de-obra: "Desta vez, porém, o surto econômico não causou o correspondente aumento de empregos. Pela primeira vez na história da modernidade, uma nova tecnologia é capaz de economizar mais trabalho, em termos absolutos, do que o necessário para a expansão dos mercados de novos produtos. Na terceira revolução industrial, a capacidade de racionalização é maior do que a capacidade de expansão. A eficácia de uma fase expansiva, criadora de empregos, deixou de existir. O desemprego tecnológico da antiga história da industrialização faz seu retorno triunfal, só que agora não se limita a um ramo da produção, mas se espalha por todas as indústrias, por todo o planeta".

Foi como um meteoro caindo sobre nossas cabeças. O impacto do desastre anunciado se instalou no Grande ABC com todas as suas forças. Investimentos de milhões não geram mais centenas de empregos e o Estado, que poderia desenvolver e aplicar políticas de combate ao desemprego, está fragilizado e reduzido em suas funções. É uma nova realidade que exige um novo enfrentamento.

Muitas prefeituras, de maneira remediada, se valem de leilão de impostos com a finalidade de manter unidades produtivas em seu território ou receber novos investimentos. As indústrias se aproveitam da famigerada guerra fiscal e atraídas por incentivos predatórios, deslocam parte ou o todo da unidade produtiva. É o modo equivocado de enfrentar o problema. Como resultado, sobraram muitos galpões abandonados, trabalhadores sem trabalho e um poder público, mesmo que preocupado com o problema, de mãos atadas para resolvê-lo, já que a procedência do fenômeno circula em outras esferas.

Não que as prefeituras locais não devam mobilizar forças contra esse estado de coisas, mas as possibilidades de alteração do quadro são sempre muito limitadas, o que significa, no máximo, mitigar os efeitos danosos. É uma situação bizarra: o muito que se faz pode, no máximo, deixar a coisa do jeito que está. Se nada for feito, o prejuízo será maior.

Precisamos aprofundar a análise das origens dessa nova realidade, avaliar seus efeitos e projetar as ações. Daí a necessidade de investigar nossos antecedentes. É preciso entender que as condições de nossa pujança econômica industrial tiveram a sua matriz fora do Grande ABC. E para ser mais fiel à realidade, fora mesmo do Brasil. Pegamos carona num momento específico das condições de reprodução do capital e de seus fluxos decorrentes e fomos depositários de pequena parcela dos investimentos internacionais, numa conjuntura momentaneamente favorável.

Assim também se constitui o processo que hoje experimentamos. Novos fluxos de capitais para cá se dirigem, mas não são nem de perto parecidos com os dos anos 60. Hoje vivemos sob a égide do capital financeiro. O próprio capital produtivo sempre se movimenta com um olho no mercado de produtos e outro no mercado de capitais. Ao menor sinal de instabilidade ou de bonança, os fluxos se invertem. Há uma associação resultante de suas especificidades, de suas propriedades complementares.

A desmedida fluidez dessa forma específica que o capital se reveste na atualidade abala ou impulsiona economias nacionais, derruba moedas e enfrenta políticas econômicas. Do ponto de vista espacial, há uma reestruturação das estratégias de localização industrial. Na Grande São Paulo, por exemplo, o deslocamento de unidades de produção industrial tem suscitado o debate sobre a perda da hegemonia da Capital no Estado e no País.

Não seria ilusório achar que o enfrentamento dessa forma predatória especulativa pode ser feito a partir de ações locais, ou mesmo regionais, apoiado em organismos e instituições de ação limitada? Não seria mais eficaz a união de prefeitos, vereadores, sociedade civil, representantes de classe, em escala mais ampla, pressionando o Poder Executivo federal pela adoção de medidas que defendam os interesses nacionais, promova o mercado interno apoiado numa política de geração de empregos, do que apostar em agências multilaterais ou fóruns regionais?

Não se trata de descartá-los, mas simplesmente de apontar suas fragilidades e limitações como solução aos problemas que assolam nossos municípios e nossa região. Para resolver grande parte desses problemas hoje colocados na pauta de discussão da sociedade do Grande ABC, é preciso recarregar nossas baterias e redirecionar o alvo. A unidade dos prefeitos e das Câmaras de Vereadores deve ser buscada, mas com objetivos de atuação mais amplos e globais, combinados aos locais. É preciso articulação que potencialize a força particular de cada Município, apoiada na movimentação popular e direcionada aos governos estadual e federal.

Mudanças estruturais na composição dos orçamentos, na ampliação significativa dos investimentos sociais, no combate à financeirização dos recursos públicos, na retomada do crescimento econômico, na valorização da produção camponesa direcionada ao mercado interno, entre outros, são medidas básicas sem as quais fica verdadeiramente difícil melhorar a qualidade de vida no Grande ABC.

Ricardo Alvarez
Geógrafo e mestre em Geografia Urbana formado pela USP. É professor do Ensino Médio e Superior e editor do Blog Controvérsia.

A revolução do Cine Falcatrua

Um cineclube ligado à universidade desperta a fúria das distribuidoras de audiovisual ao exibir, sem fins de lucro, filmes baixados por internet. Disputa revela como é necessário superar, em defesa do público e dos artistas, os limites estreitos da "propriedade intelectual"

Bruno Cava

Em novembro, uma juíza de primeira instância da Justiça Federal condenou a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) a pagar indenização por suposta violação de propriedade intelectual. A infração aos direitos autorais teria sido provocada, segundo a magistrada, nas atividades do cineclube Falcatrua – programa de extensão e pesquisa do departamento de Comunicação Social, realizado por estudantes da UFES desde 2004.

Ao dar ganho de causa ao Consórcio Europa — um gigante da distribuição cinematográfica — o Judiciário ainda aplicou multa diária de R$ 10 mil à universidade, caso as exibições fossem retomadas, e determinou a destruição imediata de seu equipamento de produção, edição e projeção de cinema. A seguir, outro juiz, agora da vara local em Vitória e a pedido da mesma distribuidora e da Lumière, expediu medida liminar proibindo novas apresentações do cineclube, pois ele incorreria em "concorrência desleal".

O Cine Falcatrua é um dos carros-chefes do movimento da cultura livre. Protagonista do circuito nacional de Conteúdos Livres — com suas mostras de filmes, sob as (des)licenças Creative Commons e copyleft, e seus festivais de mídia-ativismo, esse cineclube universitário trabalha com tecnologias acessíveis do digital para democratizar a produção cultural. O grupo promove exibições abertas e gratuitas de filmes baixados da internet, sempre acompanhadas de discussões e intervenções. Também ministra a oficina Cineclubismo Digital Gambiarra, que ensina como produzir, projetar e distribuir filmes digitais. Além de tudo, ainda prepara material de divulgação acerca de direitos autorais, difusão cultural e cinema livre.

Inserido no movimento cineclubista, que remonta aos anos 1920 e formou diretores do porte de Gláuber Rocha e Rogério Sganzerla, o Cine Falcatrua abre espaço para o cinema independente, incentiva a politização da sétima arte e enriquece a produção crítica. Aplaudido por diretores como Cláudio Assis (Amarelo Manga, Baixio das Bestas), só em 2004 foram mais de 40 sessões públicas, reunindo um público de aproximadamente cinco mil pessoas. Indo além dos muros universitários, o cineclube já expôs em bairros da periferia de Vitória, em galerias de arte, nas ruas de São Paulo e até em bailes funk (com o filme "Sou feia, mas tô na moda"). Assim, ele retoma a tradição cineclubista brasileira dos anos 1970 e 80, quando, graças ao início da redemocratização, o movimento pôde estender-se para sindicatos, universidades e centros culturais, para um público além dos cinéfilos.

O passo adiante: baixar produções da internet, editá-las e projetá-las grátis, em espaços públicos

O Falcatrua vai mais longe. Não se restringe a promover filmes históricos, cult, alternativos, independentes ou "underground" – material clássico do cineclubismo. Também oferece filmes do grande circuito comercial: faz o download de cópias disponíveis na rede e projeta-as grátis — e antes da estréia oficial. Quer dizer: ele antecipa-se à indústria de entretenimento — como fazem os camelôs, mas sem auferir qualquer lucro. Eis aí o salto qualitativo desse projeto inovador.

Afinal, quantos podem dispor de R$ 50,00 para levar a família ao cinema? E a imensidão de localidades que simplesmente não tem cinema? Que dizer da decepcionante diversidade oferecida pela indústria de entretenimento, especialmente fora dos grandes centros? E mais: por que aceitaríamos o miserê de assistirmos a filmes de vez em quando, ou quando o dinheiro der?! Quando podemos — cada um de nós, cidadãos — assistir a muitos, novos e bons filmes, todos os dias em que desejarmos!?

O que fez as distribuidoras, enfurecidas, ajuizarem ações judiciais, foi o fato de o Falcatrua ter exibido Fahrenheit 911 (Michael Moore) e Kill Bill (Quentin Tarantino) antes das estréias oficiais. As demandas foram rapidamente acolhidas pela contra-insurgência estatal. Resultado: a iniciativa alcançou tamanha projeção que já é reconhecida como uma modalidade específica de fazer cinema: baixar produções da internet, editá-las e projetá-las, de graça, em espaços públicos.

Portanto, não se trata de mais um caso prosaico de aplicação fria da lei dos direitos autorais, de uma decisão simplesmente técnico-jurídica, pretensamente apolítica. No nosso tempo, este é um caso paradigmático. A criminalização do Cine Falcatrua coloca-se no coração dos conflitos da sociedade pós-industrial, na qual, à socialização da produção de conhecimento e cultura, opõem-se os dispositivos expropriatórios, oligopolistas e antidemocráticos do capitalismo.

Cresce a resistência. Interessante surpresa: a Constituição garante o que o Falcatrua pratica

Não por acaso, a criminalização incitou a imediata resistência. Articulando-se pelas mídias democráticas, o movimento cineclubista mobilizou-se e o Conselho Nacional de Cineclubes (CNC) reagiu publicamente, classificando o fato como "caça às bruxas". A medida judicial, no tocante à destruição de meios de produção da UFES, foi comparada a um "obscurantismo policialesco", próprio dos anos de chumbo. De fato, o caso remete à violência sistemática que o cineclubismo sofreu quando do endurecimento da ditadura, período em que vários cineclubes foram depredados, seus membros perseguidos, os acervos confiscados e "desaparecidos" (de 1968 a 1969, a quantidade de cineclubes caiu de significativos 300 para somente 12). A Federação Mundial, com sede na Itália, emitiu um comunicado em defesa do Falcatrua e um dos diretores supostamente "violados", Michael Moore, declarou que não vê qualquer problema na divulgação livre e didática de seus documentários, desde que sem fins comerciais.

O orientador do projeto, Alexandre Curtiss, assegurou a continuidade da iniciativa: "Estamos entrando em outra etapa do projeto. Não vamos nos preocupar com essa liminar. Nosso objetivo não é fazer pirataria e sim gerar acesso à cultura cinematográfica. Nós vamos continuar as exibições" . Um recurso foi interposto na segunda instância. Argumentos jurídicos não faltam. A Constituição garante: a função social da propriedade (art. 5º XXIII), o direito exclusivo do autor e não da distribuidora (art. 5º XXVII), o direito de acesso à cultura e à produção cultural (art. 23 V) e, principalmente, a democratização do acesso aos bens da cultura e sua difusão (art. 215, § 3º cf EC n.º 48/2005). Além disso, a lei de direitos autorais, nº 9.610/98, não exige a autorização para a exibição do audiovisual, quando sem interesse econômico (art. 81). O Código Civil de 2002 exige o dano como caracterizador da responsabilidade civil (arts. 927 c/c 186).

Evidentemente, a contenda é política. O filósofo italiano Antonio Negri identifica na atualidade uma tendência do capitalismo em direção ao trabalho imaterial e cognitivo. Isto é, o valor agregado pelos ativos imateriais (circulação de bens, marketing, serviços, criatividade) sobreleva aquele advindo da cadeia produtiva industrial, de modelo fordista e seriado. As leis nacionais e os tratados internacionais de propriedade intelectual (o Trips da OMC), o copyright, a "polícia autoral" (como o Ecade), tudo isso torna-se, em conjunto, o instrumento por meio do qual o sistema capitalista explora, monopoliza e concentra a produtividade social. A luta contra a propriedade dos bens comuns coincide progressivamente com a luta contra o copyright. A diversidade cultural, a transversalidade entre produtores/transmissores e consumidores/receptores, a valorização dos insumos culturais (idéias, informações, símbolos, linguagens), tudo isso põe a cultura no centro da nova economia. A cultura cada vez mais é a própria economia. O produtor cultural torna-se o agente político por excelência, já que a arte da política está em organizar a produção.

Contradição: o artista quer difundir a obra e construir o público; o interesse do atravessador é proibir

Daí a importância, para as distribuidoras, de barrar uma insurgência tão libertária quanto o Cine Falcatrua, que democratiza a cultura contra o monopólio sobre a cópia. Desde a origem, no século 14, os direitos autorais interessaram primordialmente aos atravessadores dos produtos culturais. Primeiro as editoras; depois, as gravadoras de música e as distribuidoras de audiovisual.

E como fica o artista? Para o artista, o que vale é estabelecer uma comunicação com seus públicos, multiplicando oportunidades e articulando contatos e redes colaborativas. "O valor econômico na produção cultural reside na relação que o artista constrói com seu público" (Ronaldo Lemos). Preocupante ao artista não é a "pirataria", mas a obscuridade. Mesmo porque a atual indústria de entretenimento tende a concentrar-se em poucos filmes, álbuns ou livros, porém ultra-badalados, e geralmente limita-se a produzir… entretenimento.

Ora, os filmes são feitos para serem vistos! Pássaro livre, a produção cultural e de conhecimento do público, para o público e pelo público deve arrebentar as amarras da indústria e dos direitos autorais para difundir-se livremente, instituindo um ciclo virtuoso de produção de valores, bens e sentidos – constituindo um comum colaborativo. Como escreveram Ana Bonjour e Leonora Corsini: é "a arte abandonando o conceito enrugado de artigo de luxo [ou acadêmico, acrescento] para, finalmente, enfiar-se no parangolé de Hélio Oiticica". A revolução não tem data marcada: é agora, neste instante. O Cine Falcatrua é mais um potente efeito dos ventos da mudança.

REFERÊNCIAS:

ALMEIDA, Paulo Henrique de, A cultura é a economia, in Revista Global n.ºCORSINI, Leonora, artRogse no parangolou acadvalor e sentido. ibuidoras de audiovisual.odutividade social. _Revista Global n. 9, p. 34, setembro de 2007.

BONJOUR, Ana Maria; CORSINI, Leonora, Viva a Cópia!, in Revista Global n. 8, p. 10, , maio 2007.

LEMOS, Ronaldo, Direito, tecnologia e cultura, 1a ed., ed. FGV, RJ: 2005.

RAVANELLO, Ricardo Brisolla, Cineclubismo: prática subversiva

Site do Conselho Nacional de Cineclubes

Mais

Bruno Cava é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edições anteriores da coluna:

Deu a louca no globo

Mianmar ou Burma? Pequim ou Beijing? Mumbai ou Bombaim? A geopolítica nunca foi tão semanticamente complicada

Sérgio Augusto

Criticaram o presidente Bush por chamar Myanmar de Burma, a nossa velha conhecida Birmânia, onde há semanas o pau voltou a comer grosso. Em seu blog na revista The Atlantic Monthly, o jornalista James Fallows saiu em defesa do presidente, que, a seu ver, teria demonstrado respeito ao oprimido povo birmanês ao desprezar o nome imposto àquele país por uma junta militar, já lá se vão 18 anos.

Para Fallows, aceitar Mianmar significa curvar-se aos caprichos dos generais que se recusaram a dar posse e mantêm sob vigília a primeira-ministra (e Nobel da Paz de 1991) Aung San Suu Kyi. As corporações que lá mantêm negócios, como a General Motors, a Caterpillar e a UnoCal, continuam se lixando para as atrocidades dos milicos birmaneses e, mais ainda, para a controvérsia semântica em curso desde a semana passada.

Antes de erguer um brinde à sensibilidade e à coragem política de Bush, considere duas coisas: 1) a desimportância econômica de Mianmar (muito arroz, muito ópio, muitíssimo menos petróleo que o Iraque); 2) a dificuldade de Bush para pronunciar corretamente Myanmar (Burma é fácil).

Embora saiba pronunciar o novo nome da Birmânia, e até uma de suas variações: Mranma, também prefiro Burma. Mais por razões afetivas do que políticas. Cresci ouvindo falar em Burma e Birmânia, locação e referência em filmes como Objective Burma (Um Punhado de Bravos, 1945), A Harpa Birmanesa (1956) e A Ponte do Rio Kwai (1957). A ponte sobre o rio Kwai uniria a Birmânia ao Sião. Quando o filme foi rodado, Sião já era Tailândia havia oito anos, mas o país onde foram feitas as filmagens só deixaria de ser Ceilão (para virar Sri Lanka) 15 depois.

No globo terrestre, é grande e permanente a confusão nomenclatória. Só quem tem mais de 77 anos, por exemplo, pegou Constantinopla como a capital da Turquia. Só descobri, garoto ainda, que Istambul outrora se chamara Constantinopla num disco de Caterina Valente, em que também aprendi que Nova York fora, um dia, Nova Amsterdã. Com o surto de independência das colônias africanas e asiáticas, na virada dos anos 50 para os 60, e mesmo antes disso, nossos conhecimentos geográficos tornaram-se ainda mais precários. E os atlas passaram a sair da gráfica já ultrapassados.

Saiu Pérsia, entrou Irã. Onde antes ficava a Abissínia surgiu a Etiópia. Mali era o Sudão Francês. Em 1945, a capital da Indonésia dormiu Batavia e acordou Jacarta. A Indochina virou Vietnã. Ao Congo sucedeu o Zaire, embora Congo seja o nome “autêntico”. São Petersburgo voltou a ser São Petersburgo após ter sido Petrogrado e Leningrado. Rodésia e Basutolândia agora são, respectivamente, Zimbábue e Lesoto. Benin foi Daomé até 1975. Quando em suas savanas filmaram Hatari!, Tanzânia (ou Tanzanía, na pronúncia local) chamava-se Tanganica. Fui e voltei de um safári africano, em 1984, sem me dar conta de que, enquanto fotografava a bicharada no Quênia e Tanzânia, o presidente Thomas Sankara rebatizara o Alto Volta de Burkina Fasso.

O jornalista escocês Alex Massie entrou na discussão provocada por James Fallows e sugeriu que nos recusássemos a dizer Mumbai, em vez de Bombay (Bombaim), e Chennai, em vez de Madras. Crente que estava robustecendo seu argumento, perguntou se os povos de língua inglesa, por acaso, dizem Venezia, München e Köln, em vez de Venice, Munich e Cologne. Mais do que uma discussão bizantina, um festival de equívocos.

Primeiro equívoco: Mianmar não foi uma invenção do general Saw Maung e seus golpistas amestrados. Marco Polo já teria usado essa palavra, oito séculos atrás. Como a primeira tribo com que os indianos lá toparam não se chamava Mianmar, e sim Brahma, Brahma vingou e virou Burma (pronuncia-se Bã-ma), com o império britânico lá dando as cartas a partir de 1885. Burma, portanto, não é um nome “puro”, mas batismo colonialista – como Bombaim e Madras. Não bastasse, Mianmar é um termo mais inclusivo, pois os birmaneses constituem apenas uma parcela da população, dividida em diversas etnias.

O que fazer? Consultar a população sobre sua preferência, sondagem que a junta militar birmanesa na certa impediria. Ou adotar o que a ONU sancionou.

Dizem que Aung Suu Kyi prefere Burma. O jornal tailandês Bangkok Post continua chamando Mianmar de Burma e Yangon de Rangoon (Rangum). Pois é, até o nome da capital a junta mudou, assim como os de outras localidades: Arakan, Karemi, que há tempos se chamam Rahkine e Khayahn. Ainda bem que mantiveram Mandalay. Num e-mail ao New York Times, o birmanês Maung Lwin defendeu Burma, afirmando que seus conterrâneos ainda dizem “Bã-ma” e receiam ser identificados pelo gentílico “myanmese” – e apelidados de maionese. A ONU aceitou Mianmar.

Segundo equívoco: Mumbai e Chennai não foram impostos por um governo ilegítimo ou uma ditadura sanguinária. São opções nacionalistas, livremente implementadas e com base em identidades milenares e fidelidades lingüísticas, o oposto de Bombaim (corruptela do português “Boa Bahia”), Madras, Calcutá (agora Kolkatta) e Bangalore (oficialmente Bengaluru), denominações tão forasteiras quanto Flórida (era assim que os conquistadores espanhóis se referiam à América do Norte no século 16) e Virgínia (a versão britânica da Flórida espanhola). A propósito, Mumbai é uma homenagem a Mambadevi, uma deusa de pedra do século 3º.

Terceiro equívoco: por que não rejeitar todos os nomes de países e cidades estabelecidos por governantes que chegaram ao poder de forma ilegal e violenta? Sim, daria a maior confusão. E se ameaçasse os interesses das grandes corporações globalizadas, babau. Isso não significa que devamos nos bater para que a ONU, a Casa Branca e as nações livres do Ocidente se recusem a chamar Pequim de Beijing, Cantão de Guangzhou, Nanquim de Nanjing, e, em represália ao repressivo governo da China (Zhongguo para os nativos), adotem o nome pelo qual os tibetanos se referem ao monte Everest: Qomolangma (Mãe do Universo). Falando nisso, os nepaleses o chamam de Sagarmatha (Rosto do céu). Também serviria, caso a represália tivesse algum sentido prático.

Quarto equívoco: estão confundindo o que se supõe politicamente correto com meros casos de heteronomias e transliteração. Pequim (ou, à inglesa, Peking) não virou Beijing, nem Mao Tsé-Tung agora é Mao Zedong, por teimosia ou rompante autoritário dos chineses. Beijing, como Zedong, Guangzhou (ex-Cantão) e tantos outros vocábulos com os quais convivemos há mais de um século, não é um rebatismo, mas uma reanglicização mais próxima do foneticismo (ou da pronúncia) mandarim. Como não usa o alfabeto romano, a língua chinesa tornou-se escrava da transliteração. Há mais de um século, o sistema de romanização Wade-Giles dicionarizou Peking, Canton, Nanking, etc. Beijing é fruto do sistema mais moderno de Hanyu Pinyin.

Que ninguém perca o sono por causa dessas bagatelas semânticas. Até porque, no Brasil, a gente não pede “Peking duck”, mas pato laqueado.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

O duelo da ética

Olgária Matos

Em estudo que chega às livrarias na sexta-feira, Sartre e Camus têm sua amizade e seu rompimento analisados.

Como a Paris de Proust surgia por inteiro de uma xícara de chá, a cidade -agora existencialista- é a do Quartier Latin, onde se configuraram a amizade e a polêmica entre Jean-Paul Sartre e Albert Camus. Em “Camus e Sartre”, Ronald Aronson reconstitui a conjuntura política, intelectual e dos afetos que aproxima Camus e Sartre na França dos anos 1930, mostrando dois amigos na contramão.
Enquanto Camus, já nos anos 30, se engaja na luta antifascista e se posiciona contra a política colonial na Argélia e, mais tarde, vem a ser o editor do “Combat” -jornal clandestino dos anos da resistência à ocupação alemã na Segunda Guerra-, Sartre se interessa apenas por questões epistemológicas e somente depois de 1941 começa a se aproximar da política.
Depois, é Camus quem progressivamente se afasta da militância política ou partidária. Com a Guerra Fria, separam-se definitivamente. A narrativa de Aronson transcorre no âmbito da Revolução de Outubro e do stalinismo na União Soviética, do nacional-socialismo e dos campos de concentração, dos arsenais nucleares e do terrorismo e, de modo geral, na modernidade capitalista e em suas formas de trabalho e acumulação, produtora de monotonia e tédio, desmotivação e não-senso -horizonte de “Os Caminhos da Liberdade” [Nova Fronteira], de Sartre, e “O Mito de Sísifo” [Record], de Camus.
Reavendo a bibliografia que identifica o “parti pris” sartriano pela violência como mediação dialética (a importância do ressentimento na luta de classes) e o de Camus como humanismo inscrito na tradição clássica da ética e da política da amizade, o autor indica os antecedentes da ruptura nas origens do pensamento dos filósofos. Não por acaso, Sartre se filia ao “cogito” cartesiano e à fenomenologia de Edmund Husserl, o idealismo propiciando a adequação das coisas ao intelecto, da história universal à ação transformadora do proletariado.
Elegendo o Merleau-Ponty de “Humanismo e Terror” [ed. Tempo Brasileiro] por patrono, Sartre acata, em defesa do status quo revolucionário, a liquidação das oposições como garantia da continuidade da Revolução Russa.

Mãos sujas
De alguma forma, “O Ser e o Nada” [Nova Fronteira], de Sartre, anunciaria “as mãos sujas”; nele, o eu e o si mesmo constituem uma ameaça ao outro e o outro para o eu, seu olhar privando-me de meu mundo, aniquilando radicalmente a minha liberdade.
Quanto à intersubjetividade, é o lugar em que “ser olhado e visto” coincide com “ser conhecido e seqüestrado”, a presença do outro me atinge em cheio e, objetivando-me, “nadifica” minha experiência de sujeito: a presença do outro em meu campo existencial não me promove à condição de sujeito, mas é morte e ruína no meu ser. “Entre Quatro Paredes” [Civilização Brasileira] dá o conflito do encontro: “não preciso de grades, o inferno são os outros”.
O outro como obstáculo requer as “mãos sujas”. Quanto a Camus, suas referências teóricas, além de Nietzsche, são o materialismo antigo e a idéia de “absurdo” -na compreensão de um mundo em que predomina “a força das coisas”, como em “A Queda” e “O Homem Revoltado”- e os moralistas dos séculos 16 e 17 franceses, de Montaigne a La Rochefoucauld e Pascal, que não cederam à vertigem da coerência, acentuando contradições e máscaras, dentre elas, para Camus, a luta pelo poder e a “vontade de potência”.
Dedicando-se ao romance anti-stalinista de Arthur Koestler “O Zero e o Infinito” [Globo], Camus recusa a razão histórica que se revelaria pela crítica do intelectual radical e pela ação consciente do proletariado. Para Camus, ao contrário, todo processo revolucionário revela a força menos do homem e mais da contingência na história; quando se procura o “incondicionado”, nos deparamos com “coisas”.
O debate filosófico-político entre eles reconduz à Revolução Francesa, à “filosofia revolucionária” e ao “revolucionário filósofo”, a verdade de uma teoria medindo-se por sua eficácia, a revolução impondo sua seriedade com a morte e, sua realidade, com o terror.

Democracia de classe
Além disso, o século 20 encontrou nas análises da mais-valia de “O Capital” [Civilização Brasileira] o caráter científico do ressentimento de classe pelo conhecimento dos mecanismos da acumulação do capital, e a justificativa da luta se fundamentava na própria história, espaço do advento da sociedade sem classes, sem exploração econômica, sem a necessidade da religião e sem trabalho alienado. Para Sartre, na senda de Marx, a democracia é democracia de uma classe, o direito, direito de uma classe, a moral, moral de uma classe, a ciência, ciência de uma classe. Por isso, o “estado de exceção” revolucionário suspende a proibição de matar, o assassinato é sem culpa ou castigo porque se concebe como violência justa.
Já Camus acusa o que, em toda violência, há de ódio e desprezo entre os homens, voltando-se, assim, contra a pena de morte. À revolução defendida por Sartre, Camus opõe a revolta que não é luta pelo poder, mas o partido da não-violência, atento a que “em todas as lutas armadas a licenciosidade é uma grande atração”, a impunidade é garantida e aprovada na luta pela vitória histórica.
O livro de Aronson, publicado no ano em que se comemoram os 90 anos da Revolução Russa, reabre a questão da ética da responsabilidade e da ética dos princípios, pois tanto Sartre quanto Camus, filosoficamente instruídos, sabem que “cada civilização, assim como cada homem, tem a totalidade das noções morais à sua disposição e, então, escolhe”.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

Caminhões movimentam a economia da China a um custo sufocante – parte 4

Keith Bradsher

Atrás do volante, uma vida difícil
Após quatro anos lidando com escassez de combustível em intervalos de poucos meses, Zhang Yanchao, um caminhoneiro de 33 anos, achou que tinha se acostumado às filas por combustível. Mas isso foi antes de ter esperado por 10 horas em uma noite recente, fora de Guangzhou, e depois só ter sido autorizado a comprar um quarto de tanque de diesel.

“É o pior que já vi”, ele disse. “Eu mal consegui dormir já que tive que avançar na fila de caminhões a noite toda.”

Duas dúzias de caminhoneiros disseram em entrevistas aqui em Guangzhou e em Shenzhen que a escassez de combustível se tornou crônica. A escassez também contribui para a poluição do ar, com os caminhões andando em marcha lenta enquanto esperam na fila.

A construção de vias rápidas reduziu o tempo de viagem em grande parte da China. Uma meia dúzia de caminhoneiros que viaja regularmente da província de Shandong, a 1.600 quilômetros ao nordeste, até Guangzhou, disse que o que há cinco anos era uma viagem de três dias em meados deste ano, no verão, só levava dois dias, graças às novas vias expressas. Mas eles disseram que as longas esperas por combustível aumentaram a viagem para quatro dias.

As viagens pesam na saúde dos motoristas, já que respiram a fumaça dos caminhões à frente deles.

“Quando um caminhoneiro não está comendo arroz, ele está comendo diesel”, disse Zhang em meio a um jantar de arroz e legumes em um café sujo daqui enquanto seus freios eram consertados.

Vestindo jeans azul e pulôver escuro e fumando cigarro sem parar, como muitos caminhoneiros daqui, Zhang foi franco tanto sobre os problemas enfrentados pelos caminhoneiros quanto os problemas que seus veículos criam.

O excesso de carga danifica as estradas e emite poluição extra. Mas Zhang disse que freqüentemente excede os limites de peso em seu caminhão Chunlan azul de cinco meses.

“É claro que ponho mais”, ele disse. “Caso contrário, como conseguiria sobreviver?”

Com seu pagamento baseado em quanta carga transporta, ele estimou que geralmente carrega duas ou três vezes mais que o limite legal de seu caminhão.

O tempo na estrada também afeta duramente os relacionamentos. Zhang tem uma esposa e uma filha de um ano. Mas ele leva outra mulher consigo em muitas de suas viagens como segunda “esposa”, ele disse, insistindo que sua esposa legal aceitou o arranjo.

Ele reconheceu que a fumaça do diesel provavelmente não faz bem para ele, e disse que muitos caminhoneiros desenvolveram tosse.

“A tosse vem com a idade, mas dirigir um caminhão piora as coisas”, ele disse. “Mas a tosse também pode vir destes cigarros.”

Especialistas da indústria do petróleo sugerem que a China deveria aumentar o preço do diesel em pelo menos 20% para eliminar os subsídios e as filas nos postos e estimular o investimento no refino. Zhang, que paga o equivalente a US$ 680 por mês no financiamento do seu caminhão, é veementemente contrário a um aumento nos preços do diesel; ele está convencido de que não conseguiria repassar o custo adicional para as empresas que o contratam.

“Isso seria demais para mim”, ele disse. “Me tiraria do negócio. Seria melhor ficar em casa.”

Uma resposta ao problema da poluição dos caminhões na China seria proibir os caminhões mais velhos. Mas o governo tem resistido a tal medida radical, temendo os custos não apenas à economia, mas também aos caminhoneiros e suas famílias, que geralmente reúnem suas economias para financiar um caminhão.

Outro obstáculo à mudança pode ser a falta de crítica da população à poluição dos caminhões. Apesar dos grupos ambientais estarem se multiplicando rapidamente na China, a poluição dos veículos tem atraído pouca atenção, assim como muita resignação entre caminhoneiros e moradores.

Zhang exemplificou tal reação quando disse, analisando a encardida parada de caminhões: “Se você não gosta de poluição, vá morar nas montanhas”.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

Caminhões movimentam a economia da China a um custo sufocante – parte 3

Keith Bradsher

Combustível ruim em caminhões sujos
Na vizinha Shenzhen, Chan Kin-fun também enfrenta realidades econômicas.

Um vendedor mostra a Chan, o gerente de operações de uma empresa transportadora de Hong Kong, os enormes caminhões em uma concessionária da Sinotruk. Mesmo os caminhões mais modernos possuem motores que emitem pelo menos três vezes mais óxidos de nitrogênio do que os novos caminhões americanos e pelo menos sete vezes mais partículas -mesmo com diesel limpo, com baixo enxofre.

Fabricar um caminhão que atenda aos padrões elevados de emissões não é apenas uma questão de gastar um pouco mais em um equipamento melhor para controle de poluição. Isto geralmente exige mudanças radicais nos projetos dos motores, o que pode adicionar milhares de dólares ao preço do caminhão.

Um caminhão que atenda ao atual padrão de poluição Euro 4 da União Européia, que a prefeitura de Pequim adotará em janeiro, teria que ser encomendado especialmente à fábrica, disse o vendedor. E custaria US$ 35 mil, em comparação aos US$ 27 mil para um caminhão capaz de atender ao padrão mais leniente Euro 3 atualmente em vigor para Guangzhou e Shenzhen.

Os caminhões de acordo com o padrão Euro 2, cuja venda ainda é legal em grande parte da China, custariam apenas US$ 23 mil, além de uma “taxa especial” de US$ 950, disse o vendedor da Sinotruk, para ocultar a origem do caminhão em uma área onde apenas caminhões Euro 3 deveriam ser vendidos.

Mas nada disto ajuda a Chan. Hong Kong já exige que ele compre caminhões Euro 4, o que o coloca em desvantagem quando concorre com empresas de transporte chinesas que usam veículos mais baratos.

“Eu não sei por quanto tempo vou conseguir permanecer no negócio”, ele disse.

Um motivo para a China possuir severa poluição do ar é que as autoridades foram lentas em impor tal custo adicional. Os caminhões nos Estados Unidos, que possuem os padrões mais rígidos de emissão de diesel do mundo, geralmente custam pelo menos duas vezes mais que um caminhão Euro 3 de potência semelhante na China, em parte devido aos custos trabalhistas mais altos, mas também devido aos seus motores poluírem menos.

“Toda vez que o padrão Euro é aumentado, muito custo é adicionado”, disse George Huo, vice-gerente geral da Beiqi Foton Motor Company, uma das maiores fabricantes de caminhões da China.

O governo chinês está cerca de oito anos atrasado em relação à União Européia na imposição de novos padrões de emissões. Apenas quando a poluição do ar começou a se tornar um problema nacional é que a China começou a acelerar o ritmo; os padrões Euro 4 entrarão em vigor nacionalmente em 2010, cinco anos depois de entrarem em vigor na União Européia.

Mas as oportunidades para maiores melhorias nas emissões por veículo são limitadas pela má qualidade do combustível.

Os Estados Unidos permitem concentrações máximas de enxofre de apenas 15 partes por milhão para a maioria dos combustíveis diesel, enquanto a China permite até 2 mil partes por milhão. A média de enxofre na gasolina americana é limitada a 30 partes por milhão; a China permite até 800 partes por milhão.

O enxofre entope o equipamento de controle de emissões, e quanto mais avançado o equipamento, mais vulnerável ele é ao dano por enxofre. E a China carece de um sistema de inspeção eficaz para assegurar o cumprimento até mesmo de seus padrões mais lenientes.

O combustível mais limpo disponível em cidades como Guangzhou e Pequim ajuda a limitar a poluição dos carros. Mas os caminhoneiros tendem a abastecer nas áreas rurais com combustível mais barato rico em enxofre.

As companhias de petróleo ocidentais pagam um adicional para comprar óleo cru com baixo enxofre porque a remoção deste por meio do refino é difícil. Mas em uma tentativa de controlar a inflação, o governo chinês ordena que os postos vendam gasolina e diesel a preços tão baixos que freqüentemente ficam abaixo dos custos da refinaria.

Isto dá a refinadoras como a Sinopec um forte incentivo para comprarem o óleo cru mais barato possível. Jia, o porta-voz, disse que a empresa então refina o óleo cru para atender aos padrões da China. Os baixos preços do diesel também deixam as divisões de refino das companhias de petróleo com pouco dinheiro para investir em modernização.

O governo chinês aumentou os preços controlados da gasolina e diesel em quase 10% em 1º de novembro, para o equivalente em yuan a R$ 1,23 o litro. Mas isto ainda equivale aproximadamente ao preço de atacado do diesel nos mercados internacionais e é ligeiramente maior do que o preço de atacado da gasolina, não deixando nada para cobrir o custo de distribuição do combustível aos postos, sem contar o lucro.

Assim, refinarias e postos têm reduzido as vendas, para desalento dos caminhoneiros.

The New York Times
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