Daily Archives: 25/11/2007

O resgate de Napoleão

Animados pela Revolução Pernambucana de 1817, um grupo de emigrados franceses nos Estados Unidos elaborou um plano para resgatar o imperador em Santa Helena e trazê-lo para a América usando o Brasil como base de operações

Vasco Mariz

A fama e o fascínio por Napoleão estiveram bem presentes no Brasil nos primeiros 20 anos do século XIX. Em 1801 o futuro imperador francês poderia ter sido o patrono do primeiro movimento pernambucano para fundar uma república no país, a frustrada conspiração dos Suassunas. A influência de sua figura e das idéias liberais da Revolução Francesa e da independência dos Estados Unidos da América esteve muito presente entre os revolucionários pernambucanos do século XIX, desde a conspiração de 1801 até o triunfo da Revolução de 6 de março de 1817 no Recife, que proclamou a República no Nordeste. Tais ligações se tornariam ainda mais estreitas quando militares bonapartistas exilados nos Estados Unidos, animados com o sucesso da Revolução Pernambucana, elaboraram um plano para resgatar Napoleão de seu cativeiro em Santa Helena, levá-lo a Pernambuco e depois a Nova Orleans.

O elo entre os franceses e o Brasil era Antonio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, homem enviado pelos revolucionários nordestinos como seu representante junto ao governo dos Estados Unidos no intuito de obter o reconhecimento formal da independência de Pernambuco. Os bonapartistas estiveram em contato permanente com Cabugá, que era um entusiasta do plano dos exilados franceses.

A queda do império napoleônico, em 1815, significou para a quase totalidade dos oficiais dos exércitos franceses uma verdadeira catástrofe. Com o imperador nas mãos dos ingleses, os generais e coronéis que haviam combatido em Iena, Marengo, Leipzig, na Rússia e em Waterloo encontravam-se em situação muito difícil, pois ou prestavam juramento de fidelidade a Luís XVIII, ou se contentavam em receber meio soldo apenas. Por isso, numerosos oficiais preferiram o exílio nos Estados Unidos, onde havia oportunidades para “soldados de fortuna”. Assim, poucos meses depois da queda do império, já estavam nos EUA cerca de mil oficiais franceses de várias patentes, cujo único pensamento era libertar o imperador que definhava no clima severo da ilha de Santa Helena, em pleno oceano Atlântico, na altura de Pernambuco.

O chefe da conspiração francesa nos EUA era o irmão do imperador, José Bonaparte, que fora rei da Espanha. Por meio do contato com Cabugá viram no Brasil uma possibilidade de colocar em prática seus planos, e numerosos militares franceses começaram a se deslocar para Pernambuco a fim de preparar a cabeça-de-ponte da operação. Durante os três meses de vida da República de Pernambuco, Cabugá adquiriu armamentos e munições e os enviou ao Brasil. Mesmo após a derrota da revolução, ele continuou ajudando os franceses exilados que planejavam o rapto de Napoleão e conseguiu articular a vinda para o Brasil de dois navios corsários, o Parangon e o Penguin.

Outro fator que contribuiu para os planos dos franceses foi a decisão do Departamento de Estado americano de designar um representante permanente em Recife, o cônsul Joseph Ray, que desempenharia papel significativo no decorrer da Revolução de 1817, abrigando em sua casa cidadãos franceses que chegavam para incorporar-se à expedição que iria seqüestrar Napoleão.

A oportunidade era esplêndida para os emigrados franceses nos EUA, que se aproveitaram dos bons ofícios de Cabugá em Washington e da estratégica posição de Ray em Recife. Correspondência citada por Donatello Grieco em seu excelente livro Napoleão e o Brasil informa que os oficiais franceses convergiram para o porto de Baltimore e um grupo avançado de 32 homens chefiado pelo coronel Latapie viajou para Pernambuco. Foram adquiridas duas escunas que estavam em Baltimore e Anápolis. O ponto de reunião de toda a expedição era a ilha de Fernando de Noronha, onde Portugal mantinha uma prisão especial. Lá deveriam reunir-se 80 oficiais franceses, cerca de 700 americanos e outro navio com 800 marinheiros. Essas forças deveriam atacar Santa Helena visando a capital Jamestown, mas isso seria apenas uma manobra para atrair os defensores ingleses, deixando livres a Sandy Bay e a Prosperous Bay, onde desembarcaria a maioria das tropas da expedição. Um grupo se dirigiria à residência de Napoleão e o levaria para a Prosperous Bay. Seguiriam para Recife e viajariam depois para Nova Orleans.

A bordo do navio Parangon chegaram ao Rio Grande do Norte em agosto de 1817 alguns dos principais personagens da expedição francesa. O mais importante deles era o conde de Pontécoulant, pitoresco personagem de vida aventureira, apesar de sua alta linhagem gaulesa. Ao desembarcar teve a má notícia de que a Revolução de 1817 fora afogada, mas o fato não era tão grave assim porque Joseph Ray, o cônsul americano em Recife, continuaria a dar-lhes plena cobertura. Em Natal não encontrou maiores dificuldades, pois conseguiu fazer boas relações de amizade com o secretário do governador. Decidiu passar-se por médico e botânico e partiu para a Paraíba, onde o Parangon havia desembarcado o general Raulet, o coronel Latapie e outros personagens franceses de patente mais baixa.

Na Paraíba, o conde não teria a mesma boa recepção, pois o governador local mandou prender todos os franceses encontrados, enviando-os depois para Pernambuco. Em Recife tiveram melhor sorte, pois o governador Luiz do Rego não encontrou em seus papéis nada de suspeito e os liberou. Foram hospedar-se na casa do cônsul Ray, que se tornaria o centro de todas as medidas para o êxito da expedição francesa a Santa Helena. Nesse momento aportou em Recife outra escuna americana carregada de armamentos, o que alarmou o governador pernambucano, que não sabia como controlar o cônsul Joseph Ray.

Sucedeu então o imprevisto: o coronel Latapie solicitou audiência ao governador Luiz do Rego e resolveu relatar-lhe tudo sobre a expedição que estava sendo preparada. Contou-lhe o papel do ex-rei da Espanha, José Bonaparte, irmão de Napoleão, que deveria chegar a Pernambuco nos próximos dias e todas as implicações de uma delicada questão internacional. O governador afinal deu-se conta da importância dos fatos e decidiu encaminhar os franceses às autoridades portuguesas da capital.

No Rio de Janeiro ocorreu outra surpresa: um cidadão americano declarou ao presidente da Alçada que o cônsul Ray estava em contato direto com Cabugá e os líderes da expedição francesa. O cônsul acusava o governador de Pernambuco de prejudicar os interesses comerciais dos EUA. Afirmava Ray abertamente que seria muito fácil obter a independência do Brasil, porque o governo português do Rio de Janeiro ficaria reduzido à impotência pela intervenção armada dos Estados Unidos e a neutralidade da Inglaterra. O interrogatório de tripulantes do navio americano confirmou essas declarações alarmantes do diplomata.

Segundo o relato de Ferreira da Costa em seu A intervenção napoleônica no Brasil, o conde de Pontécoulant, assustado, preferiu regressar ao Rio Grande do Norte para obter proteção de seu amigo, o secretário do governador, mas nova complicação ocorreu com o aparecimento de outro navio americano, o Penguin. Procedente de Nova York, a embarcação trazia mais armamentos enviados por Cabugá, e seus tripulantes transmitiram notícias alarmantes, assegurando até que Napoleão já se evadira de Santa Helena. Em Recife, no início de 1818, o governador Luiz do Rego, convencido da cumplicidade do cônsul americano, pediu ao Rio de Janeiro autorização para efetuar uma busca na casa dele e lá encontrou três pernambucanos implicados na Revolução de 1817, além de alguns franceses, prova cabal de sua conivência.

A imunidade consular salvou Ray, mas seu secretário dinamarquês foi preso e relatou todos os pormenores da associação dos franceses com os revolucionários de 1817, do que resultou a prisão do general Raulet. Nesse ínterim, chegavam ao Ceará mais franceses ilustres a bordo da fragata Les Trois Frères. Os bonapartistas contavam que na França se falava com entusiasmo do sucesso da Revolução Pernambucana e vários franceses decidiram embarcar para o Brasil a fim de juntar-se à expedição destinada a Santa Helena.

As autoridades portuguesas começaram a preocupar-se seriamente com a chegada de dezenas de franceses de alta estirpe que não podiam trancafiar impunemente sem protesto do governo francês, com o qual Portugal mantinha agora excelentes relações. Por outro lado, o governo português não podia deixar de reagir ao imbróglio que aumentava com os protestos do governo inglês, seu aliado, interessado em manter Napoleão em segurança na sua ilha. Os juristas estavam confusos e afinal a corte portuguesa ordenou à polícia carioca “transportar para a Europa todos os emigrados franceses que se encontravam no Brasil”.

Em Santa Helena o comandante inglês sir Hudson Lowe estava ao corrente de tudo o que acontecia no Brasil pelo ministro inglês no Rio de Janeiro e tomou diversas medidas para reforçar a defesa da ilha. Instalou telégrafos e novas baterias em Sandy Bay, em Prosperous Bay e na capital Jamestown, os três pontos mais vulneráveis.

Os planos dos bonapartistas nunca se concretizaram, mas os franceses dificilmente teriam tido sorte em sua iniciativa de raptar o imperador da ilha solitária. Não seria nada fácil, pois os ingleses sabiam dos planos dos franceses e tomaram precauções eficazes para resistir. Se ele tivesse aportado em Recife a caminho de Nova Orleans, durante a Revolução de 1817, certamente seus próceres tentariam retê-lo por algum tempo para homenageá-lo, mas isso dificilmente se realizaria.

É claro que se d. João VI tivesse conhecimento de que Napoleão estava em Recife, mandaria apresá-lo imediatamente para vingar-se de sua ignominiosa fuga de Lisboa em 1808, escapando às tropas do general Junot. Que magnifico refém seria Napoleão para d. João VI! Na época o monarca estava negociando com Luis XVIII a devolução da Guiana francesa, ocupada em 1809 por tropas da Amazônia. Por isso é natural que, se os exilados Franceses tivessem obtido sucesso no seqüestro de Napoleão, eles o teriam levado diretamente para os EUA, sem escala em Recife, que serviria apenas de cabeça-de-ponte inicial para a planejada operação de resgate.

SAIBA MAIS
Napoleão e o Brasil. Donatello Grieco. Bibliex, 1995.

História da Revolução de Pernambuco em 1817. Francisco Muniz Tavares. Imprensa Industrial, 1917.

Revista História Viva

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No cinturão agrícola dos EUA, usinas de etanol enfrentam resistência

Monica Davey

Quando foram anunciados planos para uma nova destilaria de etanol nos arredores desta cidade de 9 mil habitantes, os moradores se queixaram de que ela estragaria a vista do campo de golfe municipal. Eles reclamaram que suas emissões contaminariam os derivados de leite produzidos na vizinha Century Foods International, um dos maiores empregadores da comunidade. Eles até mesmo questionaram se a usina cheiraria a melaço queimado, pipoca queimada ou fermentação de cerveja.

As camisetas feitas pelos oponentes resumiam a história: “Boa idéia. Local ruim”.

Por anos, a chegada de uma destilaria de etanol nas áreas rurais americanas era saudada principalmente com alegria, uma passagem para o futuro em locais atormentados por incerteza econômica. Mas no meio do país, o motor do território do etanol, o brilho está diminuindo.

Em Kansas, Illinois, Indiana, Minnesota e até mesmo em Iowa, o maior produtor de milho e etanol do país, este combustível de nova geração se vê enfrentando o mais antigo dos obstáculos -a oposição de moradores que adoram a idéia de uma destilaria de etanol desde que seja em outro lugar.

“O que estão tentando vender nós não estamos interessados em comprar”, disse Deb Moore, que é dona de uma lanchonete aqui.

As disputas deixaram algumas usinas propostas na espera, atoladas em processos; algumas poucas desistiram.

“Há uma espécie de campanha que está buscando desacelerar e preferivelmente acabar com o crescimento da indústria do etanol”, disse Matt Hartwig, um porta-voz da Associação de Combustíveis Renováveis, um grupo setorial com sede em Washington. “Nós precisamos superar uma barragem de lama para transmitir nossa mensagem.”

Estes não são os informados oponentes filosóficos do etanol, aqueles que questionam a eficiência do etanol de milho como fonte de energia, culpam o etanol pelo aumento dos preços dos alimentos ou discordam dos subsídios federais que há muito sustentam o setor.

Estas pessoas são agricultores. Ou conhecem uma fazenda. Ou seu avô foi um agricultor e, como acontece em muitas famílias rurais, o etanol visava ser uma nova esperança para cidades que dependiam das plantações de milho e que estavam desaparecendo. As principais queixas são como as que cercam propostas de usinas de papel e celulose, aterros sanitários, presídios e semelhantes: um aumento do barulho, trânsito, odor, emissões e a sobrecarga do sistema de água.

“Não, não, nós não somos contrários à produção de etanol”, disse Lonnie Nation, que vive perto de New Castle, Indiana, onde ele e outros pregaram cartazes, entraram com processo na Justiça e foram de porta em porta neste mês para impedir a nova usina. “Mas se a construírem onde querem, nossos lares ficarão espremidos entre uma usina de etanol e um presídio. O que isto causará ao valor de nossos imóveis?”

Alguns especialistas dizem que os protestos locais refletem um novo sentimento antietanol provocado pela lenta mas constante atenção negativa dada ao setor. Por todo o Meio-Oeste, perguntas sobre o etanol foram levantadas por defensores do meio ambiente, pecuaristas se queixam do aumento do preço do milho para ração, e agricultores reclamam de quão caras algumas terras se tornaram.

“Aquela aura maravilhosa que as usinas de etanol tinham pode ter desgastado um pouco”, disse Wallace E. Tyner, um economista agrícola da Universidade Purdue.

Defensores do setor minimizam o tamanho da oposição e sugerem que o aumento das objeções às novas usinas é simplesmente uma questão matemática; 131 usinas já estão em operação e mais de 70 outras estão em construção, com a grande maioria delas no Meio-Oeste.

Isto representa um aumento acentuado em comparação há três anos, quando o Congresso aprovou uma lei de energia que incluía a obrigatoriedade de adoção nacional de uma maior presença de combustível renovável na gasolina, o que provocou a corrida ao etanol. Em janeiro de 2005, mais de um quarto de século depois do início da indústria do etanol comercial, apenas 81 usinas estavam em operação.

“As brigas eram raras e às vezes se limitavam a apenas 11 pessoas em uma cidade de 5 mil ou 6 mil”, disse Monte Shaw, diretor executivo da Associação de Combustíveis Renováveis de Iowa, uma entidade setorial. Em Iowa, que possui mais destilarias de etanol do que qualquer outro Estado, as pessoas que moram perto de Grinnell estão tentando bloquear na Justiça a construção de uma usina de etanol. “Há algumas pessoas que prefeririam ver a cidade murchar e ou ser destruída do que uma mudança no status quo”, disse Shaw. O conflito local coincide com o que já é um momento de tumulto para o setor do etanol. Nos últimos meses, uma enorme oferta de etanol saturou o mercado, derrubando seu preço e causando calafrios em meio ao “boom” do etanol.

Pelo menos três usinas propostas tiveram recentemente sua construção suspensa, disseram representantes do setor, incluindo uma em Reynolds, Indiana. Há apenas dois anos, Mitch Daniels, o governador de Indiana, exibia a cidade como símbolo da mudança para fontes renováveis de energia e a apelidou de a BioCidade americana.

Em outubro, os donos de pelo menos uma antiga usina -inaugurada em 1983 em Grafton, Dakota do Norte, e que produzia quase 40 milhões de litros por ano- anunciaram que a fechariam temporariamente, graças às forças do mercado.

Os especialistas debatem se a atual abundância de etanol significa o começo do fim da corrida ao etanol de milho ou apenas uma correção temporária, à medida que linhas de transporte são desenvolvidas do Meio-Oeste aos maiores mercados localizados na costa. De qualquer forma, as queixas dos moradores com as usinas propostas apenas se somam à enxurrada de más notícias para o etanol.

“É como o setor pontocom”, disse Anne Yoder, que está buscando deter os planos de uma usina de etanol nos arredores de Topeka, Kansas. Ela se descreve como sendo “nem um pouco” como uma ativista, “mas como uma mãe comum”.

“Quando o etanol chegou havia muita promessa”, ela disse. “Talvez isto esteja começando a secar.” Neste ano, quando Yoder começou a bater de porta em porta para descrever suas preocupações com a usina proposta, ela esperava ser desprezada pelos muitos agricultores de seu condado rural, que supostamente se beneficiariam com a proximidade da usina para vender seu milho.

“Mas fiquei chocada com o que ouvi”, ela disse. “Eles também não a queriam aqui. Os agricultores estão no ramo há centenas de anos e me disseram que não contam com um suprimento ilimitado de água para produzir mais milho. Este não é o quadro bonito que todos querem pintar.”

Yoder, que disse que atualmente passa várias horas por dia nesta batalha e que ajudou a reunir mais de 500 nomes em uma petição, troca e-mails com os organizadores de comunidades em outros Estados que lutam contra as usinas de etanol.

A rede livre de oponentes está crescendo. Em junho, autoridades de Portsmouth, Virgínia, visitaram três usinas de etanol em Wisconsin, se encontrando com vizinhos e anotando as observações sobre os odores (“como cerveja, mas com algo metálico misturado”, alertaram os moradores em Wisconsin às autoridades da Virgínia, por exemplo).

“Nós apenas trocamos informações e conversamos sobre que táticas adotadas funcionaram”, disse Yoder.

Ainda não se sabe como estes protestos afetarão o setor.

Em Sparta, foram as autoridades municipais que procuraram a Coulee Area Renewable Energy para que considerasse se mudar para lá, disse Michael B. Van Sicklen, um advogado da produtora de etanol. Os projetos das usinas estavam tramitando por meses pelos processos de zoneamento e anexação, ele disse.

Então surgiram as queixas dos líderes da Century Foods International, que fica próxima do local da usina proposta. Os moradores assinaram petições. Eles passaram a exigir reuniões. Eles impetraram processos.

Em outubro, a produtora de etanol e a Century Foods International anunciaram que tinham chegado a um acordo -tão provisório e confidencial que representantes de ambos os lados se recusaram a falar a respeito. Ninguém em nenhum lado diz se agora a instalação da usina é certa, apenas que não será à vista do campo de golfe.

Jornal New York Times

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Simples e complexos

Destrinchando a história dos números primos, Marcus de Sautoy mostra como um problema simples de formular atormenta matemáticos há milênios

TIAGO TRANJAN

O alemão Carl Friedrich Gauss (1777-1855), uma das mentes matemáticas mais agudas já nascidas, costumava observar que “a matemática é a rainha das ciências, e a teoria dos números, a rainha da matemática”. Afirmação momentosa, que suscita imediatamente a pergunta: o que conferiria posição tão especial à teoria dos números? Trata-se da disciplina que busca desvendar a estrutura mais fundamental da matemática: os números naturais. Isso só já bastaria para colocá-la em lugar de destaque entre as grandes realizações intelectuais humanas.
Acontece, além disso, que os números naturais revelam-se surpreendentemente evasivos. Por um lado, sua progressão tão simples e ordenada (1, 2, 3…) parece fornecer, talvez, o único modelo do infinito ao alcance dos seres finitos que nós somos. Por outro lado, no entanto, essa mesma simplicidade, que quase os coloca sob nosso completo domínio, esconde dificuldades abissais.
Em “A Música dos números Primos”, Marcus du Sautoy, professor da Universidade de Oxford, tenta conduzir o leitor por esse ramo profundo e elegante da matemática a partir de um de seus problemas mais intrigantes: os números primos, aqueles que só podem ser divididos por si mesmos e por 1. Por exemplo, 7 é primo (só é divisível por 7 e por 1). Já 15, divisível por 3 e 5, não é primo.
Dois resultados conhecidos desde a Grécia Antiga conferem aos primos uma posição singular na matemática. Em primeiro lugar, todos os números naturais podem ser escritos como um produto de números primos. Por exemplo, 15 = 3 x 5 (3 e 5 são primos). Em segundo lugar, os números primos são inesgotáveis. Pode-se mostrar que, por mais que avancemos no universo dos números, nunca encontraremos o último número primo, maior do que todos os outros, depois do qual só existam números compostos.

Blocos de construção
Os primos, portanto, são os blocos básicos de construção do mundo numérico. São também infinitos -e muito estranhos. Considere os primeiros primos: 1, 2, 3, 5, 7, 11, 13… Você consegue encontrar alguma ordem no aparente caos dessa seqüência?
Se não consegue, não se preocupe. Você está bem acompanhado. Os matemáticos vêm tentando, por milênios, decifrar o segredo por trás da distribuição dos primos, sem jamais obter uma explicação satisfatória para seu comportamento. Trata-se de uma situação curiosa. A matemática é a ciência da ordem e dos padrões. Não conseguir encontrar a ordem que rege os blocos de construção de sua estrutura mais básica -os números naturais- chega a ser embaraçoso.
Muita gente pensa na matemática como a ciência dos números. Isso é apenas parcialmente correto. A partir da consideração de conjuntos numéricos cada vez mais distantes da experiência cotidiana, o estudo da matemática atingiu um surpreendente grau de abstração. Hoje, os “números” (naturais, racionais, reais, imaginários…) são apenas a ponta do iceberg.
A busca do segredo dos primos revela bem esse aspecto. Para tentar entendê-los, os matemáticos acabaram por submergi-los em estruturas extremamente sofisticadas, distantes da intuição comum. Assim é que surgiu a chamada hipótese de Riemann: uma ousada suposição acerca de uma função, cuja prova é aguardada com ansiedade há mais de um século.
Formulada pelo matemático alemão Bernhard Riemann (1826-1866), ela fornece até hoje nossa melhor esperança de compreender o comportamento dos primos. É justamente a história dessa luta com os primos, e em particular com a hipótese de Riemann, que Sautoy conta em seu livro.
A obra possui três aspectos distintos. Sendo um livro sobre matemática, o autor não pode se furtar a explicar certas complicações matemáticas ao leitor. Tarefa das mais difíceis. Sautoy recorre aqui a uma série de imagens e analogias (quase sempre extraídas da música), algumas bastante felizes, outras de eficácia incerta, para explicar tecnicalidades da hipótese de Riemann.
A maior parte do livro, porém, centra-se no enredo humano da busca pelo “cálice sagrado da matemática”. Uma impressionante galeria de personagens desfila à nossa frente. Matemáticos de diferentes épocas são revelados em suas motivações pessoais, sem descuidar do contexto social e intelectual em que viveram. Casos saborosos são narrados em detalhe.
Ao fazer isso, finalmente, Sautoy tem também oportunidade de discutir como os matemáticos vêem a própria disciplina a que dedicam suas vidas. Interessantes questões filosóficas estão sempre à espreita: Quais os objetos de que se ocupa a matemática? Que tipo de existência devemos atribuir a eles? Como alcançá-los?

Matemática e filosofia
Entre erros e acertos, o livro de Sautoy tem dois importantes méritos. Para a maioria dos leitores, poderá oferecer uma leitura agradável devido à sua narrativa quase sempre ágil e ao material histórico selecionado. Para outros, pode conseguir também despertar uma curiosidade sincera a respeito de algumas das questões mais interessantes e profundas ao alcance da mente humana, relativas à matemática e a sua filosofia.

Jornal Folha de São Paulo

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/

Mais Estado e menos mercado

Dejalma Cremonese

Nos anos 90, a América Latina passou por profundas reformas estruturais (neoliberais), a partir das políticas de livre mercado impostas pelo Consenso de Washington. Fizeram parte desse Programa de Reestruturação (ajustes) a reforma administrativa e previdenciária, que exigiram um rigoroso esforço de equilíbrio fiscal; a redefinição do papel do Estado na economia, que causou, ao contrário do que seus defensores alardeavam, recessão econômica, ingresso do capital externo, desemprego, aumento do trabalho informal, conflitos sociais, flexibilização dos direitos trabalhistas, precariedade e, ao mesmo tempo, o desmonte dos sistemas de seguridade social, de saúde e de educação.
No Brasil, as políticas de reestruturação do Estado deram-se em meados dos anos 90. A principal dela foi a chamada reforma administrativa, também conhecida como reforma “Bresser-Pereira” (coordenada por Luiz Carlos Bresser-Pereira, então Ministro da Administração Federal e da Reforma do Estado no governo de Fernando Henrique Cardoso).

Porém, mais tarde, o próprio Bresser-Pereira, em artigo publicado na Folha de São Paulo (2002), reclamava da baixa confiança dos mercados internacionais frente à economia brasileira e da vulnerabilidade da mesma frente às constantes crises econômicas mundiais. Talvez por isso, Bresser-Pereira lamentou que sua Reforma Administrativa não tivesse alcançado os resultados esperados. Em suas palavras: “cumprimos uma parte desse programa, mas, em vez de reconstruir financeiramente o Estado, endividamo-lo ainda mais”. Em relação ao processo de privatização, Bresser também reclamou: “em vez de privatizarmos apenas setores competitivos, privatizamos também monopólios naturais”. No Brasil, houve a “flexibilização” do mercado e a multiplicação da dívida: “em vez de controlar a entrada de capitais e reduzir a dívida externa, ampliamo-la; ao invés de mantermos um câmbio relativamente desvalorizado, como fizeram todos os países que iniciavam seu desenvolvimento, deixamos que a entrada de capitais valorizasse nossa moeda e aumentasse artificialmente salários e consumo”. Seguimos, de joelhos, às normas das instituições internacionais: “E tudo, nos anos 90, com o apoio do FMI, do Banco Mundial e dos mercados financeiros internacionais”, conclui Bresser-Pereira.

A política das privatizações foi a principal medida das reformas estruturais, sendo que as mesmas reduziram, consideravelmente, o tamanho e a função do Estado. O Brasil, desde os anos 90, tem privatizado mais de 70% de suas empresas estatais. Porém, essa política tem encontrado resistência da opinião pública: até pouco tempo os serviços prestados por empresas públicas eram considerados ineficientes, de baixa qualidade e mal administradas. Por outro lado, os serviços prestados pela iniciativa privada eram sinônimos de qualidade e conforto. Essa percepção parece estar mudando em nossos dias. Segundo dados do Instituto Ipsos, a maioria do eleitorado brasileiro prefere que o Estado controle os serviços, sendo que 62% se mostraram contrários à política de privatizações. Apenas 25% aprovam. Podem-se atribuir esses percentuais, entre outras razões, ao alto custo e à questionável qualidade dos serviços privados, principalmente, nos setores da energia elétrica, telefonia, estradas, água e esgoto.

Se, nos anos 90, presenciamos a uma onda que pregava o afastamento do Estado das funções e do gerenciamento dos serviços públicos; agora pede-se que o Estado volte e cumpra sua função social. Segundo a mesma pesquisa, 74% acreditam que o Estado deve ser responsável pelos serviços essenciais da população. Em síntese, a maioria da população quer um Estado forte com maior proteção social.

Revista Adital

http://www.adital.com.br/site/index.asp?lang=PT

O crescimento da extrema-direita freia o desenvolvimento do leste da Alemanha

Do correspondente em Berlim

Pela primeira vez, o relatório anual do governo alemão sobre a evolução econômica da parte leste da Alemanha expressa preocupação em relação à influência nefasta do crescimento da extrema-direita neonazista naquelas regiões que faziam parte da ex-RDA comunista até a reunificação de 1990. Os partidos que reivindicam esta orientação política são representados em três dos seis parlamentos regionais, enquanto uma série recente de casos de polícia de características xenófobas veio confirmar a sua influência crescente.

“Desdobramentos como estes apresentam todas as condições necessárias para exercer uma influência negativa sobre a continuidade do desenvolvimento dos novos Länder [governos locais]“, apontam os autores deste documento de 159 páginas que foi apresentado em 19 de setembro pelo ministro encarregado de supervisionar a ação em favor do leste, o social-democrata Wolfgang Tiefensee, um antigo prefeito de Leipzig. Ora, o relatório acrescenta que, “para a maioria dos alemães do Leste, ficou claro que a ex-RDA não pode prosseguir com sucesso no caminho das reformas econômicas e sociais, a não ser que ela dê mostras de abertura para o mundo e de tolerância”.

Tiefensee teme que o recrudescimento de atos xenófobos acabe espantando os investidores. Neste sentido, na Saxônia, uma região onde os neonazistas do NPD haviam obtido mais de 10% dos votos nas eleições locais de 2004, com alguns picos de mais de 20% em certas circunscrições, a câmara de comércio e da indústria de Chemnitz relata episódios que revelam esta tendência. Entre outros, diversos pequenos empreendedores estrangeiros, no setor da gastronomia, optaram finalmente por não se estabelecer em lugares onde a extrema-direita havia se destacado negativamente. Os seus militantes, principalmente nas regiões rurais, desenvolvem redes e grupos de simpatizantes que vêm cultivando o medo. Na primavera, vários grupos de turistas cancelaram uma viagem a Halberstadt (Saxônia-Anhalt) depois da agressão sofrida por uma companhia de atores.

Para Lars Viehler, o porta-voz da câmara de comércio e da indústria de Dresden, os investidores estrangeiros continuam a aparecer para se instalar, com ou sem o NPD. Mas o perigo da extrema-direita pode manifestar-se de maneira mais perniciosa. Nesse sentido, vale mencionar eventos como os que ocorreram em Mügeln. Nesta aldeia da Saxônia, oito indianos foram perseguidos por uma multidão enfurecida depois de uma briga durante um baile. Tais ocorrências podem “fazer com que um imigrante hesite a vir se instalar junto com a sua mulher e seus filhos, no momento exato em que a economia alemã está precisando de mão-de-obra estrangeira qualificada”.

Desde a queda do muro de Berlim, em 1989, a Alemanha Oriental, que se beneficiou de ajudas muito importantes por parte do governo federal e da União Européia, viu sua infra-estrutura ser reconstruída em grande parte. Mas, com um desemprego de longa duração e endêmico, e com uma economia na qual os salários e o poder aquisitivo não acompanham a tendência geral, ela permanece longe atrás do oeste do país. Mesmo se esta diferença diminuiu, o relatório estima que será necessário aguardar ainda durante cerca de vinte anos para ver o leste recuperar o seu atraso.

“A diferença está diminuindo”
Contudo, o Estado injetou, desde a reunificação, em 1990, mais de 250 bilhões de euros (o equivalente hoje a R$ 655 bilhões). Ele terá de desembolsar ao menos outros 150 bilhões de euros (cerca de R$ 400 bilhões) para rematar a unidade do país. “A diferença está diminuindo, esta é a boa notícia. Ela não está diminuindo com a rapidez necessária, esta é a má notícia”, resumiu Wolfgang Tiefensee, o único dentre os ministros, com a exceção da chanceler Angela Merkel, que cresceu na ex-RDA, o que constitui um sinal de que os “Ossis”, os ex-alemães do leste, enfrentam muitas dificuldades para alcançar o topo da escada social, quer seja na política ou no mundo dos negócios.

Mesmo se o crescimento do PIB foi, em 2006, em termos relativos, ligeiramente superior no leste em relação ao oeste, estima-se que o desempenho econômico por habitante do leste seja inferior em um terço em relação ao nível do desempenho do oeste. As receitas fiscais são de longe inferiores, enquanto os “Ossis” ganham em média um quarto a menos do que os “Wessis”.

Com a exceção de vários oásis como Dresden, Potsdam ou Iena, a população está diminuindo de maneira preocupante. O desemprego de longa duração, que atinge 14,7% da população ativa (contra 18,3% em 2005) permanece quase duas vezes mais elevado do que no oeste.

Jornal Le monde

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“O narcoestado sonhado por Pablo Escobar está mais vivo que nunca”

Em Miami, a ex-amante do chefão do tráfico ataca o presidente colombiano

Francesc Relea

A figura do narcotraficante Pablo Escobar, morto há 14 anos, ainda abala a classe política colombiana. Virginia Vallejo, 57 anos, que durante mais de cinco foi amante do chefe do Cartel de Medellín, a organização criminosa mais poderosa que atuou na Colômbia, rompeu um longo silêncio para falar do passado e do presente de seu país. “O silêncio me salvou. Sou a única sobrevivente, todos os outros estão mortos”, ela diz. No livro “Amando a Pablo, Odiando a Escobar” (editora Random House Mondadori), Vallejo ataca importantes líderes políticos, aos quais atribui ligações estreitas com o ex-chefão da droga.

Refugiada nos EUA à espera de asilo político, Virginia Vallejo concedeu uma longa entrevista a EL PAÍS, a primeira desde que deixou a Colômbia, há mais de um ano. Desaparecida de cena há mais de uma década, durante a qual proliferaram piadas e rumores da pior espécie, a apresentadora de televisão, repórter, modelo e atriz volta a falar como uma testemunha incômoda para os políticos colombianos, e o presidente Álvaro Uribe se apressou a refutar as acusações do livro.

“O narcoestado sonhado por Pablo Escobar hoje está mais vivo que nunca na Colômbia”, diz a diva dos anos 1980. “Os narcotraficantes prosperaram na Colômbia não porque foram gênios, mas porque era muito barato comprar os presidentes”, diz Vallejo, que menciona três nomes como “narcopresidentes”: Alfonso López Michelsen, Ernesto Samper e Álvaro Uribe.

Do atual presidente, Uribe, ela diz que era idolatrado pelo chefe do cartel de Medellín. Afirma que o governante, em sua etapa como diretor da Aeronáutica Civil (1980-1982), “concedeu dezenas de licenças para pistas de pouso e centenas para os aviões e helicópteros com os quais se construiu toda a infra-estrutura do narcotráfico”.

“Pablo costumava dizer: ‘Se não fosse por esse bendito rapaz, teríamos de nadar até Miami para levar a droga aos gringos. Agora, com nossas próprias pistas, estamos feitos. É pista própria, aviões próprios, helicópteros próprios…’ Levavam a mercadoria até Cayo Norman, nas Bahamas, quartel das operações de Carlos Lehder, e dali para Miami sem problemas.” Virginia Vallejo está disposta a defender publicamente tudo o que escreveu e declarou, e a passar por um detector de mentiras.

“Foram os anos dourados de Pablo, dos Ochoa, de Gonzalo Rodríguez Gacha, o Mexicano, Lehder… Transportavam até 300 quilos de cocaína por hora e por dia. Estavam no lugar perfeito na hora perfeita, mas no final todos tiveram um destino trágico. Em três anos esses homens passaram de ladrões de automóveis a donos de fortunas de US$ 3 bilhões. Quando conheci Pablo, não sabia que tinha tanto dinheiro. Soube pelas revistas ‘Forbes’ e ‘Fortune’, que o classificaram como o sétimo homem mais rico do mundo”, comenta Vallejo.

Outro episódio que ilustra os supostos vínculos entre Uribe e Escobar é a morte de Alberto Uribe Sierra, pai do presidente, em 1983, pelas mãos da quinta frente das guerrilhas Farc. “Pablo gostava muito de Alvarito”, explica a ex-namorada de Escobar. “Quando as Farc mataram o pai de Uribe, em uma tentativa de seqüestro, Pablo enviou um helicóptero para recolher os restos. O irmão dele, Santiago, estava sangrando muito. Estavam em uma fazenda distante de Medellín, onde não havia helicópteros nem infra-estrutura aeronáutica de qualquer tipo. Pablo deu a ordem de enviar o helicóptero e me contou isso alguns dias depois. Sentiu muito pela morte. Estava muito triste. Me disse: ‘Quem pensa que este é um negócio fácil está muito enganado. É uma enxurrada de mortos. Todos os dias temos de enterrar amigos, sócios e parentes’. Me disse que ele também poderia ser morto e me perguntou se eu estaria disposta a escrever sua história.”

Segundo o National Security Archive, um grupo não-governamental de pesquisas baseado na Universidade George Washington, Álvaro Uribe foi um amigo próximo de Pablo Escobar, que colaborou com o cartel de Medellín. O mesmo grupo divulgou em 1991 uma lista dos narcotraficantes colombianos mais importantes, elaborada pelos serviços de inteligência americanos, na qual Escobar ocupava o 79º lugar e Uribe o 82º.

Antes de escapar da Colômbia, Virginia Vallejo tentou dar seu depoimento no julgamento contra o ex-ministro da Justiça Alberto Santofimio, acusado de ser o mandante do assassinato do candidato presidencial liberal Luis Carlos Galán, em 1989. “Meu depoimento teria envolvido toda a classe política da Colômbia”, afirma Vallejo. De modo suspeito, a fase da exposição de provas foi encerrada com rapidez incomum, e a declaração de Virginia Vallejo foi difundida pela televisão mas não incluída no sumário. Santofimio foi condenado na última quinta-feira a 24 anos de prisão por homicídio com fins terroristas.

O planejamento e o financiamento do crime foram atribuídos a Pablo Escobar. Segundo a ex-namorada do traficante, Santofimio era o candidato de Escobar nas eleições presidenciais, e a ligação entre o chefão e os líderes do Partido Liberal, “sobretudo o ex-presidente López Michelsen, o homem mais poderoso da Colômbia até o ano passado, quando morreu aos 94 anos”.

Vallejo afirma que na sua presença “Santofimio instigou Pablo pelo menos em três ocasiões a eliminar Luis Carlos Galán”. “Contei isso em julho passado ao jornal ‘Miami Herald’. Poucos dias depois, o jornal ‘El Tiempo’ e o Partido Liberal se uniram em torno de Santofimio para proteger o homem que conhece o preço de toda a classe política da Colômbia.”

Virginia Vallejo fugiu de seu país com ajuda americana. Às 6 da manhã de 18 de julho de 2006, três veículos blindados da embaixada dos EUA em Bogotá, armados com metralhadoras, a levaram de sua casa até o aeroporto. Pouco depois, um avião do Departamento Antidrogas dos EUA (DEA) decolou para Miami. “Fui à embaixada dos EUA, me reuni com o adido do Departamento de Justiça, Jerry MacMillan, a quem ofereci cooperação no julgamento dos irmãos Rodríguez Orejuela, que ia começar seis semanas depois nos EUA. O funcionário arregalou os olhos quando soube que eu era a amante de Escobar.”

Ela foi interrogada durante cinco dias em Miami. No julgamento dos Rodríguez Orejuela bloquearam uma fortuna de US$ 2,1 bilhões. Ao contrário do que publicaram vários órgãos da mídia, Virginia Vallejo não goza da condição de testemunha protegida nos EUA. “Finalmente me disseram: ‘Você não serve para o caso dos Rodríguez Orejuela, vamos devolvê-la para a Colômbia. Eu expliquei como eles corromperam a classe política e dois presidentes da República. E isso não serve? Me espremeram como uma laranja, entreguei todos os nomes dos políticos envolvidos com o tráfico, falei sobre a relação de Uribe com Escobar… Disseram que nada disso servia para o processo dos Rodríguez Orejuela, que me mandariam de volta ao meu país e a justiça colombiana me protegeria. Eu lhes disse que não, que a mulher do contador dos Rodríguez Orejuela estava morta porque ele havia subido em um avião da DEA. Disse a eles que ficaria em Miami e pedi asilo político.” A burocracia pode demorar anos. Enquanto isso, a ex-apresentadora de televisão não pode sair do território americano. “Meu destino na Colômbia seria a tortura e a morte. Uribe declarou guerra a mim através de todos os microfones.”

Na cobertura de um arranha-céu de 37 andares, com uma vista espetacular da baía de Miami, a ex-diva colombiana mostra algumas revistas em cuja capa saiu -Bazaar, Cosmopolitan, Al Día- e fotos dos anos felizes nas quais aparece com a mais alta sociedade colombiana e com Pablo Escobar. São lembranças de uma época dourada, quando era a apresentadora mais conhecida e mais bonita da televisão; como uma breve carta de seu amante: “Virginia, não pense que não sinto sua falta porque não telefono. Não pense que se não a vejo não sinto sua falta”.

Vallejo trabalhou de 1972 a 1994 como jornalista, repórter e entrevistadora. Durante três anos teve sua própria produtora, TV Impacto (1981-83). “Foi uma época negra para captar publicidade, na qual perdemos muito dinheiro, o equivalente a US$ 250 mil. Pablo pagou de uma vez essa dívida quando se apaixonou por mim.”

“Naquela época”, lembra, “era um deputado do interior, de origem humilde, e eu era uma estrela e uma diva da alta sociedade, a mulher mais famosa da Colômbia. Para ele foi uma grande honra eu lhe dedicar uma hora do meu programa. Eu não sabia nada sobre o narcotráfico nem sobre as grandes fortunas.”

A relação com o chefe do cartel de Medellín interrompeu sua carreira de sucesso. Começaram os telefonemas anônimos e as calúnias, ao mesmo tempo em que ela perdia programas de televisão e contratos publicitários. “Chegaram a publicar que a esposa de Escobar havia desfigurado meu rosto.”

Por que decidiu falar, depois de 20 anos de silêncio, se este foi sua melhor proteção? “Minha missão é contar a história para que a nova geração de colombianos saiba o que aconteceu.” Mas por que agora? “Porque se conjugaram quatro processos judiciais simultaneamente, é como uma coisa do destino. Havia o processo em andamento contra Alberto Santofimio Botero pelo assassinato de Luis Carlos Galán; a Comissão da Verdade investigava o ataque ao Palácio da Justiça de 1985; havia um processo nos EUA contra os chefes do cartel de Cali, dos irmãos Rodríguez Orejuela, e havia outro processo nos EUA contra os donos da multinacional que me havia despojado de todo o meu patrimônio. Eu era testemunha chave em quatro processos gigantescos, dois deles assassinatos históricos na Colômbia e dois processos enormes nos EUA.”

Durante 20 anos lhe ofereceram todo o dinheiro do mundo para que falasse de Pablo Escobar. Muitos jornalistas quiseram escrever a história de Virginia Vallejo com o chefe do cartel de Medellín. “Eu lhes dizia que escreveria a história quando quisesse. Escrevi o que vivi, esta não é a história de Pablo Escobar, é minha história com Pablo e com outros homens. É minha autobiografia”, afirma.

“Pablo fez de mim a mulher mais feliz do mundo. Apesar de nunca termos viajado juntos, nunca fomos a Paris, nunca fomos às Seychelles, nunca me levou à Cartier para comprar diamantes… Nos encontrávamos no hotel Intercontinental de Bogotá, no meu apartamento ou no dele em Medellín. E depois na selva, era como ir encontrar o Che Guevara na selva boliviana.”

O assassinato do ministro Rodrigo Lara Bonilla, em 1984, mudou a relação dos amantes. “Ele nunca admitiu esse crime. Eu também não perguntei. Ele sabia que eu sabia. A perseguição que Lara desencadeou contra Pablo foi infernal e acabou com nossa lua-de-mel e nossa tranqüilidade, até que houve a apreensão nos laboratórios de Yarí, de US$ 1 bilhão. Isso Pablo não perdoou e mandou matar Lara Bonilla. Nos separamos e deixamos de nos encontrar durante um ano. Depois ele me disse que ia massacrar meu país e que substituiria as balas por dinamite. Transformou-se em um monstro depois de nossa separação, quando começou a guerra do narcoterrorismo. Transformou-se em meu inimigo porque eu não quis escrever sua versão do ataque ao Palácio da Justiça nem sua biografia apologética, e porque queria sair da Colômbia. Não era mais o homem que eu tinha amado loucamente.”

Foi uma relação que combinou paixão com uma vida espartana e dura. Escobar treinou sua amante para situações de perigo extremo. “Você tem muitos inimigos e tem de aprender a se defender e aprender a se matar se forem mais de quatro. Ele me entregou uma pistola.”

Mas, olhando para trás, Virginia não se arrepende dessa relação. “O amei mais que todas as mulheres que ele pôde ter e o odiei mais que todas as vítimas juntas”, conclui Vallejo. “Hoje tenho todas as perspectivas possíveis sobre Pablo. Agora vejo claro, meu único lugar é junto com as vítimas. Passou a época do amor, do ódio e do terrorismo. O livro é como uma catarse que lembra o amor que compartilhamos, depois o terror e depois o perdão, até que eu possa me transformar na porta-voz das vítimas. Escobar armou uma rede de corrupção que dura até hoje e se estende ao México e a toda a área caribenha.”

El País

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Bilderberg um clube secreto governa o mundo

Criado há 53 anos, o Clube Bilderberg reúne anualmente, em caráter sigiloso, nomes influentes da política, da economia e da mídia do Ocidente para debater assuntos de interesse mundial. Seus defensores dizem que essas conferências são uma ocasião única para a busca de consenso, mas seus críticos afirmam que em tais encontros se trama o destino do mundo

Eduardo Araia

É tudo muito discreto: quem atende o telefone do Clube Bilderberg, em Leiden, na Holanda, é uma impessoal voz feminina que, após repetir o número, sugere que a pessoa deixe uma mensagem após o sinal. Alguém mais desavisado poderia até pensar que ligou por engano para uma residência. Mas o que está por trás do tal número de telefone vai muito além disso: para muitos, o Clube Bilderberg é omaestro oculto da política e da economia ocidental há mais de cinco décadas. Todo o segredo que cerca suas atividades (nem portal na Internet ele tem) só contribui para essa imagem.

Fundado em 1954 pelo príncipe Bernhard, da Holanda, pelo primeiro-ministro belga Paul Van Zeeland, pelo conselheiro político Joseph Retinger e pelo presidente da multinacional Unilever na época, o holandês Paul Rijkens, o Clube Bilderberg é uma organização não-oficial que nasceu supostamente para promover a “cooperação transatlântica” e debater “assuntos relevantes em nível mundial” – o que, em plena Guerra Fria, equivalia a discutir a ameaça comunista. O nome Bilderberg vem do hotel holandês que abrigou a primeira reunião, em 1954. O sucesso desse evento convenceu os seus organizadores a realizá-lo anualmente, em algum país europeu, nos Estados Unidos ou no Canadá.

Atualmente, os encontros do Clube reúnem cerca de 120 personalidades européias e norte-americanas influentes na política, na economia e na mídia. Eles ocorrem em hotéis sofisticados e preferencialmente isolados, que são fechados por ocasião do evento.

Nesse período, um fortíssimo esquema de segurança, a cargo de agentes norte-americanos e de vários outros países europeus, além da polícia local, garante a privacidade dos participantes. A conferência mais recente foi realizada no Ritz-Carlton de Istambul, na Turquia, entre os dias 31 de maio e 3 de junho.

O COMITÊ organizador das conferências tem sido bastante criterioso nas suas seleções de convidados, como se pode constatar pelas listas disponíveis. O polêmico ex-secretário de Defesa norte-americano Donald Rumsfeld era nome habitual nos encontros, assim como Peter Sutherland (ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, atual diretor-executivo da British Petroleum e da Goldman Sachs International e membro do comitê organizador do Bilderberg), Paul Wolfowitz (ex-subsecretário de Defesa do governo de George W. Bush e ex-presidente do Banco Mundial) e Henry Kissinger (ex-secretário de Estado norte-americano).

Bill Clinton, Tony Blair, o ex-secretário- geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) Javier Solana e os bilionários David Rockefeller e Bill Gates também já integraram essa exclusiva relação .

Ao reunir tanta riqueza e poder e zelar pela privacidade absoluta em seus eventos (nenhum participante pode falar sobre o que viu e ouviu nos encontros), o Clube Bilderberg se tornou prato cheio para as teorias conspiratórias. Segundo elas, a organização manipula políticas nacionais e eleições, provoca guerras e recessões e chega a ordenar assassinatos e renúncias de líderes mundiais – como teria acontecido, respectivamente, com o presidente norte-americano John Kennedy e a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher.

PARA MUITOS sérvios, o Bilderberg foi o responsável pela queda de Slobodan Milosevic. Fala-se ainda que três famosos terroristas – Timothy McVeigh (responsável pelo atentado de Oklahoma City), David Copeland (um dos responsáveis pelo atentado ao metrô de Londres) e Osama Bin Laden – também pensam que os governos nacionais dançam conforme a música tocada pelo Clube.

O curioso é que o Bilderberg incomoda tanto conservadores quanto liberais. Para os primeiros, a organização é um plano sionista liberal. Para os outros, com tanto cacife e sigilo envolvidos, coisa boa não deve sair dali. “Quando tanta gente com tanto poder se reúne em um só lugar, acho que nos devem uma explicação sobre o que está acontecendo”, disse o exjornalista britânico Tony Gosling ao jornalista Jonathan Duffy, do BBC News Online Magazine (“Bilderberg: The Ultimate Conspiracy Theory”, de 3 de junho de 2004).

Segundo Gosling, o economista britânico Will Hutton, ex-participante das conferências do Bilderberg, comparou o evento ao encontro anual do Fórum Econômico Mundial, no qual “o consenso estabelecido é o pano de fundo contra o qual a política é feita em nível mundial”. Gosling exemplificou os perigos desse “consenso”: “Um dos primeiros lugares onde ouvi sobre a determinação de as forças norte-americanas atacarem o Iraque foi no encontro de 2002 do Bilderberg, graças a um vazamento de informação.”

Os organizadores se defendem. Para o belga Étienne Davignon, exvice- presidente da Comissão Européia, vice-presidente da multinacional francesa Suez-Tractebel e atual presidente da conferência do Clube Bilderberg, é impossível pensar em comando mundial único.

“Não creio numa classe governante global porque não creio que tal classe exista”, disse ele ao jornalista da BBC Bill Hayton (“Inside the secretive Bilderberg Group”, de 29 de setembro de 2005). “Apenas penso que são pessoas influentes interessadas em conversar com outras pessoas influentes.”

O jornalista Martin Wolf, do diário inglês Financial Times, que foi convidado para alguns encontros, também pensa que não há fogo atrás dessa fumaça: “A idéia de que tais eventos não podem ser realizados na privacidade é fundamentalmente totalitária”, disse a Duffy. “Não é um organismo executivo. Nenhuma decisão é tomada lá.”

O EX-CHANCELER britânico Denis Healey, uma das presenças de primeira hora das conferências do Clube Bilderberg, também minimizou as críticas: “Nunca procuramos atingir um consenso sobre os grandes temas nas conferências”, disse a Duffy.

“É simplesmente um lugar para discussões.” Healey é só elogios ao Clube: “O Bilderberg é o grupo internacional mais útil do qual participei. A confidencialidade permite às pessoas falarem honestamente, sem medo das repercussões”, acrescentou ele.

Por mais verossímeis ou descabeladas que sejam, as especulações sobre a verdadeira atuação do Clube Bilderberg dificilmente poderão ser confirmadas – ou refutadas – por completo. Elas, aliás, não surpreendem o pesquisador britânico Alasdair Spark, especialista em teorias conspiratórias ouvido por Duffy.

“A idéia de que uma panelinha sombria está mandando em todo o mundo não é nada nova”, comentou Duffy. “Por centenas de anos as pessoas acreditaram que o mundo é governado por um grupo de judeus. Não deveríamos esperar que os ricos e poderosos organizassem as coisas em seu próprio interesse? Isso é chamado de capitalismo.”

Lista seleta
Os 20 nomes relacionados a seguir, convidados pelo Clube Bilderberg para a conferência deste ano em Istambul, são uma amostra da elite ocidental reunida pela organização.

✧ Rainha Beatrix, da Holanda.
✧ Lloyd Blankfein, presidente e chefe-executivo do banco Goldman Sachs.
✧ Paul Gigot, editor da página de editoriais do Wall Street Journal.
✧ Jaap de Hoop Scheffer, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte.
✧ Rei Juan Carlos I, da Espanha.
✧ Muhtar Kent, presidente e diretor de operações da Coca-Cola.
✧ Henry Kissinger, ex-secretário do ex-presidente Richard Nixon e atual presidente da Kissinger Associates.
✧ Klaus Kleinfeld, presidente da Siemens.
✧ John Mickletwait, editor do The Economist.
✧ Jorma Ollila, chairman da Nokia e da Shell.
✧ Príncipe Philippe, da Bélgica
✧ Eric Schmidt, presidente e chefe-executivo do Google.
✧ Klaus Schwab, presidenteexecutivo do Fórum Econômico Mundial
✧ Javier Solana, secretário-geral do Conselho da União Européia.
✧ Michael Tilmant, presidente do ING Group.
✧ Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu.
✧ Daniel Vasella, presidente e chefe-executivo da Novartis.
✧ Jeroen van der Veer, chefeexecutivo da Shell.
✧ Paul Wolfowitz, presidente do Banco Mundial.
✧ Robert Zoellick (na época, executivo do Goldman Sachs. Assumiu a presidência do Banco Mundial em julho).

Revista Planeta

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Remessa de lucros

Ao transformarmos nosso mercado interno no campo de multinacionais, as remessas de lucros são cada vez maiores

A NOTÍCIA de que as remessas de lucros pelas empresas multinacionais estão batendo todos os recordes faz-me lembrar de tempos idos, quando o Brasil se desenvolvia aceleradamente e essas remessas eram um dos temas centrais da agenda nacional. Aos poucos, porém, esse tema foi se transformando em sinônimo de “nacionalismo atrasado”, ao mesmo tempo em que o mercado interno brasileiro se transformava em um “campo livre” à disposição dos grandes países.

Para justificar o fato, a ortodoxia hegemônica passou a afirmar que “o crescimento econômico não é outra coisa senão uma grande competição dos países em desenvolvimento pela obtenção de investimentos diretos”. E oferecia as duas razões para isso: “O Brasil não tem mais recursos para financiar seu desenvolvimento nem a tecnologia necessária, logo precisa recorrer à poupança externa”.

Logo, já que nos ofereciam capital e conhecimento, continuava o argumento, não havia objeção para que o Brasil oferecesse aos países ricos seu mais precioso ativo -o mercado interno-, que, nas negociações comerciais, é o grande objeto dos debates. Para demonstrar seu ponto, mostravam-me tabelas que apontavam os países ricos como os principais receptores de capitais estrangeiros. “Se eles recebem investimentos diretos, por que você tem restrições a ele?”, perguntavam. Esqueciam-se, porém, de que os países ricos eram também os que faziam mais investimentos, de forma que, ao contrário do Brasil, não estavam oferecendo de graça seu mercado.

Não vejo nenhuma objeção a investimentos diretos quando a balança entre os recebidos e os realizados é equilibrada. Não é esse, porém, o caso de países em desenvolvimento como o Brasil. Por outro lado, hoje sabemos que os países em desenvolvimento não crescem com poupança externa, mas com sua própria poupança.

Que déficits em conta corrente financiados por investimentos diretos apenas promovem a substituição da poupança interna pela externa, em vez de aumentar a taxa de investimentos do país. E que a tecnologia que as empresas multinacionais trazem é pouca, racionada e altamente protegida. Podemos comprá-la ou copiá-la a preço muito mais baixo.

A história econômica mostra que os países que mais crescem usam sempre sua própria poupança. Só em momentos muito especiais a poupança externa é interessante. O crescimento econômico do Brasil até 1980 e o extraordinário crescimento dos países asiáticos desde os anos 1960 não deixam dúvida a respeito. Suas enormes reservas são resultado de superávits em conta corrente, ou seja, de despoupança externa.

Ao transformarmos nosso mercado interno no campo livre das empresas multinacionais, as remessas de lucros são cada vez maiores: foram de 1,1% do PIB no ano passado e neste ano deverão chegar a 1,4%.

Quando, nos anos 1990, a poupança externa (ou seja, o déficit em conta corrente) chegou a 4,5% do PIB, o Brasil não aumentou sua taxa de crescimento. Logo, o crescimento atual, um pouco melhor, não é conseqüência dos investimentos diretos que, então, financiavam aquele déficit.

Hoje eles nem sequer financiam déficits em conta corrente, já que temos superávit, mas, dada a pressão que exercem sobre a taxa de câmbio, obrigam o governo a realizar mais compras de dólares -ou seja, a trocar crédito externo mal remunerado por dívida interna muito cara.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 73, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda, da Reforma do Estado, e da Ciência e Tecnologia, é autor de “As Revoluções Utópicas dos Anos 60″.

Jornal Folha de S. Paulo
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