Daily Archives: 15/09/2007

Polícia Militar invade Centro Universitário Fundação Santo André

Ação ocorreu após ocupação pacífica dos estudantes que protestavam contra o aumento das mensalidades

Enio Lourenço, 14/09/2007
de São Paulo (SP)

Os estudantes da Fundação Santo André, após uma assembléia de quase duas horas, ocuparam, nesta quinta-feira (13), o prédio da reitoria do Centro Universitário. A ocupação foi motivada por um aumento das mensalidades que varia de 32% a 126%; além do sucateamento da instituição, principalmente nos cursos de ciências humanas e educação.

A pauta de reinvindicações dos ocupantes incluía, também, a contratação de professores para cursos como geografia, que por falta de docentes não abriu turmas de 1º ano em 2007.

Segundo uma aluna de Ciências Sociais, que preferiu não revelar o nome “para não sofrer nenhum tipo de perseguição”, “não são somente os aumentos da mensalidade, mas o descaso com a instituição e os alunos”.

O professor da Faculdade de Filosofia e Letras (FAFIL), Ivan Cotrim, confirma o depoimento da aluna e revela, ainda, “existir a manutenção de cargos privilegiados, como o do curador da Casa Amarela (instituição cultural do Centro Universitário) Paulo Barsotti, que chega a receber cerca de R$ 8 mil mensais, extraídos das mensalidades dos alunos”.

Invasão

A invasão da Polícia Militar no campus da Fundação Santo André ocorreu por volta das 23 horas e deixou uma grande quantidade de feridos, além de fazer algumas prisões. Cotrim, ao lado do ouvidor interino da PM, Dr. Júlio Neves, contabilizaram cerca de 15 metros de sangue derramados na reitoria após a ação militar.

Ambos, ainda, comprovaram a pacificidade dos manifestantes, quando presenciaram a quebra de objetos, portas, janelas “de fora pra dentro”, evidenciando a agressividade gerada somente pela polícia. E, quando questionaram o comandante da PM na operação a respeito da reintegração de posse, esse se absteve e não apresentou documentos que comprovassem seu ato.

Após a ação policial, os alunos e professores se mobilizaram em solidariedade aos companheiros detidos e seguiram em ato até 4º DP, pedindo a soltura.

Os alunos e professores da Fundação Santo André se reúnem, nesta sexta-feira (14), em mais uma assembléia, às 19 horas, com indicativo de greve e paralisação das atividades acadêmicas.

Jornal Brasil de Fato
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As origens de uma fratura que divide a Bélgica

Jean-Pierre Stroobants

A hipótese de uma separação da região de Flandres de língua holandesa e da Valônia francófona, à qual deve ser acrescentada uma incerteza em relação ao destino a ser reservado para Bruxelas, a capital bilíngüe, deixa de ser um tabu no reino belga. Até mesmo os mais ensandecidos partidários de uma Bélgica unida consideram que a crise política que surgiu do pleito legislativo de 10 de junho, caso ela se eternizar, poderia conduzir o país à ruptura.

No decorrer da sua história, o reino viveu em função de diversas linhas de fraturas: filosófica, social, política. Entretanto, é a fratura lingüística que sempre pareceu ser a mais determinante. A reivindicação em defesa do respeito da língua flamenga serviu de combustível para o movimento nacionalista que, até hoje ainda, concentra com freqüência as suas críticas contra a “arrogância francófona” para justificar a sua conclamação à autonomia.

A origem desta oposição remonta a 1815, quinze anos antes do nascimento do Estado belga. No Congresso de Viena, os vencedores de Napoleão decidiram remodelar a Europa. Os antigos Países-Baixos austríacos, o principado de Liège e as Províncias-Unidas foram então reunidos para integrar os Países-Baixos, sob a autoridade de Guilherme 1º de Orange. O novo conjunto, coerente no plano econômico, estava longe de apresentar esta qualidade nos planos político, religioso e lingüístico. Guilherme 1º resolveu restringir as liberdades; ele atuou em detrimento dos católicos – majoritários nas regiões belgas – e impôs o holandês como língua oficial, prejudicando uma população que falava ora o francês, ora um dialeto flamengo distante da língua praticada na Holanda.

Na França, a revolução de Julho incentivou as duas principais correntes políticas da época, a católica e a liberal, a se unirem para expulsar os holandeses. A revolução belga de 1830 é promovida por cidadãos de todas as regiões; o mundo político, que dotou o país de uma Constituição muito liberal, foi integrado por 40.000 notáveis que falavam exclusivamente o francês, a língua quase-oficial em novembro de 1830. A tradução flamenga do “Boletim das Leis” não teve nenhum caráter oficial. É verdade, os cidadãos que responderiam perante a justiça poderiam falar o flamengo – ou o alemão – diante do seu juiz, caso este entendesse esta língua (o que é raro). Charles Rogier, um herói da independência, sublinhou que, em todas as funções civis e militares, seria preciso falar o francês, para “destruir paulatinamente o elemento germânico”.

A continuação desta história por muito tempo foi marcada pelo desdém dos francófonos e pelo lento crescimento das reivindicações dos flamengos. Apesar de serem majoritários, conforme revelou um primeiro censo (em 1846, havia 2,4 milhões deles para 1,8 milhão de francófonos), eles tiveram ainda assim de esperar até o ano de 1873 para que o flamengo se tornasse a língua normal dos processos judiciários nas suas províncias, e até 1898 para que as leis do país fossem publicadas nas duas línguas!

Diversas histórias de condenados à morte que não entendiam o enunciado do seu julgamento, ou de soldados incapazes, em 1914-1918, de compreender as ordens alimentaram um discurso que, já nesta época, contestava a existência de uma nação belga homogênea. Repercutindo essa situação, o valão Jules Destrée escreveu, em 1912, uma vibrante carta ao rei em que proclama: “Sire, deixe-me lhe dizer a verdade, a grande e aterradora verdade: não existem belgas”. No mesmo ano, uma Assembléia valônia, suspeitando os flamengos de quererem constituir “um país distinto”, reclama “uma união baseada numa independência recíproca”.

“Com a Bélgica se for preciso, sem ela se for possível”
Durante a Primeira Guerra Mundial, o ocupante alemão conduziu uma política de reformas internas, atendendo à solicitação de “ativistas”, adeptos de uma colaboração suscetível de concretizar os objetivos do movimento flamengo. Um episódio idêntico ocorreu em 1940-1945 e, com isso, a reivindicação flamenga de autonomia perdeu temporariamente a sua credibilidade. Tanto entre as duas guerras como depois delas, várias reformas, no entanto, visaram a reconhecer a língua holandesa na sua dignidade e a aplainar os conflitos, com a ajuda de um processo de reformas institucionais.

O esquema atual, com as suas três regiões e suas três comunidades, é baseado num sistema de “duplo federalismo” e se revela de uma infinita complexidade. Isso porque ele criou ou transformou progressivamente determinadas instituições sem nunca fazer desaparecerem as precedentes. E também porque ele misturou a reivindicação inicial dos flamengos – a autonomia cultural – com aquela dos valões – o federalismo econômico -, ainda que ele sempre tivesse dado a impressão de contestar, até 1993, o próprio princípio do federalismo…

A questão que de agora em diante está no cerne do debate belga – e europeu – é aquela da pertinência de um “modelo” desse tipo. Ele era provavelmente o único remédio possível, mas enfrenta cada vez mais dificuldades em federar populações que conhecem, já faz algumas décadas, evoluções econômicas, políticas e culturais muito divergentes. A região de Flandres, majoritária, de direita, empreendedora e que vive um período de grande prosperidade, ainda que ela esteja afligida por uma forte interrogação identitária, acomoda-se mal com uma Valônia de centro-esquerda que tarda a se modernizar, e que confia em primeiro lugar nos poderes públicos e num partido, o PS, manchado por escândalos.

O historiador Marc Reynebeau, em seu livro, “Histoire Belge” (editora Racines), cita os outros fatores que favoreceram este distanciamento: “Uma comunicação mútua quase inexistente, o tradicional desconhecimento da língua holandesa por parte dos francófonos, a famosa capacidade dos flamengos de falarem várias línguas, que está em franca regressão, além da ausência de meios de comunicação comuns. Daí essa tendência a prestar mais atenção nas diferenças mútuas do que nas afinidades”.

Marc Platel, um outro autor flamengo, prefere citar um antigo homem político francófono, Lucien Outers, para resumir a situação belga: “Os compromissos deixam de constituir o denominador comum das satisfações, tornando-se a soma dos descontentamentos”. Após ter sido por muito tempo um adepto da fórmula flamenga “Com a Bélgica se for preciso, sem ela se for possível”, ele mudou de rumo, assim como muitos outros, tornando-se um separatista.

Um jurista francófono, Michel Leroy, arriscava uma outra aposta, já em 1996: uma evolução que poderia conduzir a uma desagregação do Estado. Além de “um futuro caracterizado por uma corrida de lentidão entre esta desagregação e a construção européia”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

Supremo chinês pede moderação na imposição de sentenças de morte

Corte ordena a juízes regionais que sejam menos rigorosos em casos de crimes passionais e de colarinho branco

O Tribunal Supremo da China ordenou aos juízes que sejam mais moderados na emissão de sentenças de morte e ajam com mais complacência em relação a assassinos que cooperarem com as autoridades e criminosos de colarinho branco que se entregarem e ajudarem o Estado a recuperar recursos desviados. Num comunicado dirigido aos tribunais provinciais, o Supremo disse que as execuções devem ser reservadas para “um número extremamente pequeno de infrações graves”. Também disse que certos casos de crimes passionais não devem resultar automaticamente na pena de morte se uma compensação for paga à família da vítima.

A ordem foi dada em meio aos esforços do governo para reduzir as execuções, hoje aplicadas a 70 tipos de crimes. A China não divulga o total de execuções feitas a cada ano. Segundo estimativa da Anistia Internacional, o país executou pelo menos 1.770 pessoas em 2005, o que corresponde a cerca de 80% das penas capitais do mundo. A execução é feita, normalmente, por fuzilamento e a família do condenado é obrigada a pagar pelo projétil utilizado.

Uma emenda à lei sobre pena capital, aprovada em novembro, dá ao Supremo a palavra final sobre todas as sentenças de morte, que por 23 anos foram emitidas só pelas cortes provinciais. A mudança foi feita após inúmeras denúncias de que pessoas foram sentenciadas por engano e tribunais de menor instância estavam impondo arbitrariamente a pena de morte. O Supremo sugeriu que seja adotada com maior freqüência a suspensão de dois anos das sentenças de morte, permitindo que elas sejam convertidas para pena perpétua.

Apesar das mudanças, o governo continua respaldando a pena capital como um meio de dissuadir os crimes. A execução mais importante deste ano foi a do ex-chefe do Departamento de Alimentação e Medicamentos, Zheng Xiaoyu, por receber US$ 860 mil em suborno para aprovar remédios produzidos abaixo dos padrões, incluindo antibióticos que mataram pelo menos dez pessoas.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

O relacionamento da Sérvia com a Europa continua colorido por Kosovo

Nicholas Wood
Em Belgrado, Sérvia

Oito anos após ter sido atingido pelos ataques aéreos da Otan, o antigo Ministério da Defesa iugoslavo ainda está em ruínas, na avenida Knez Milosa, uma lembrança do que os sérvios consideram uma agressão gratuita do Ocidente na guerra pela província de Kosovo.

Sua revolta está se reacendendo enquanto governos ocidentais, particularmente dos EUA, falam em reconhecer Kosovo neste ano como Estado independente. Os governos dizem que, na ausência de reconciliação, isso ajudaria a estabilizar a região, pois separaria oficialmente os sérvios dos albaneses, que são a maior parte da população do Kosovo.

Políticos sérvios, até os pró-Ocidente, disseram que se preocupam que o reconhecimento de Kosovo introduziria uma nova era de isolamento sérvio e de hostilidade contra o Ocidente – diminuindo a influência da Europa no país.

Desde o fim da guerra, em 1999, a Europa tentou integrar a Sérvia à Otan e à União Européia. Como potência regional, a Sérvia esperava obter um caminho fácil para a Europa, especialmente depois que muitos de seus vizinhos ingressaram na união.

A Europa, entretanto, também exigiu que os sérvios fizessem um novo esforço e entregassem importantes suspeitos de crimes de guerra, procurados pelo tribunal da ex-Iugoslávia em Haia. A Sérvia obedeceu apenas parcialmente.

Se os países ocidentais reconhecerem Kosovo, então “não precisaremos da União Européia”, disse em entrevista Velimir Ilic, ministro de infra-estrutura sérvio e importante aliado político do primeiro-ministro. “Significaria que eles não são nossos amigos”. E acrescentou: “É uma escolha difícil, mas a Sérvia tem seu orgulho e sua integridade”.

Ilic, que tem fama de populista, é o único do alto escalão a emitir tal declaração. Outros, entretanto, concordam que uma reação nacionalista esfriaria as relações com o Ocidente.

Um amplo reconhecimento de Kosovo “pode levar a uma cadeia de eventos com conseqüências imprevisíveis, inclusive a perda da perspectiva européia para a Sérvia”, escreveu Leon Koen, ex-líder da equipe negociadora da Sérvia em Kosovo, no jornal Dnevnik.

O alto diplomata sérvio para a integração européia acredita que, se há algum apoio entre os sérvios para a prisão de suspeitos de crimes de guerra e seu julgamento em Haia, ele desapareceria se Kosovo fosse reconhecido.

“Não posso ver como alguém estaria disposto a apoiar a cooperação” com o tribunal, disse Milica Delevic, reformista e secretário do Ministério de Relações Exteriores da Sérvia para relações com a União Européia. “Estaremos em dificuldades”.

Governos ocidentais estão determinados a resolver o futuro de Kosovo, estabilizar a província e acalmar os albaneses étnicos, que são mais de 90% da população e pedem a independência. Os EUA falaram abertamente em reconhecer Kosovo e estão pressionando os europeus a estabelecerem uma política.

Os europeus, porém, estão parados em um canto, tendo pressionado por um acordo no Conselho de Segurança que foi bloqueado pela Rússia. Isso deixa a Europa dividida, justo quando está tentado demonstrar uma política externa forte.

Kosovo vem sendo administrado pela Organização das Nações Unidas desde 1999, depois de uma campanha de bombardeios da Otan para expulsar as forças Sérvias que haviam cometido atrocidades amplas contra os albaneses.

O presidente iugoslavo durante a guerra, Slodoban Milosevic, foi derrotado nas eleições de 2000 e entregue ao tribunal de crimes de guerra em Haia, onde morreu enquanto seu julgamento estava em andamento. A Iugoslávia continuou sua devolução, e Montenegro finalmente declarou independência da Sérvia em maio do ano passado.

Enquanto isso, a Sérvia fez um progresso hesitante na direção da associação à União Européia e à Otan. O país espera terminar os acordos formais de aproximação com a UE neste ano. No ano passado, a Sérvia tornou-se parceira da Otan no programa de paz, e assim está a um passo da associação plena à aliança.

Altos membros do Partido Democrático pró-Ocidente – inclusive o presidente sérvio Boris Tadic, e o ministro de relações exteriores, Vuk Jeremic – garantiram aos aliados ocidentais que a Sérvia continuava determinada a associar-se às instituições euro-atlânticas independentemente do que aconteça com Kosovo.

Entretanto, sinais de rompimento com o Ocidente estão emergindo, e autoridades próximas ao primeiro-ministro sérvio, Vojislav Kostunica, estão advogando um relacionamento mais próximo com a Rússia, aliada que até agora bloqueou as tentativas no Conselho de Segurança para dar independência a Kosovo.

Analistas políticos dizem que os jornais conservadores e a mídia estatal vinham promovendo opiniões mais favoráveis da Rússia e do presidente Vladimir Putin em particular.

Ao mesmo tempo, conservadores do círculo de Kostunica estão questionando o valor dos laços com a Otan.

“Queremos cooperação, mas não associação plena”, disse Dusan Prorokovic, secretário Estadual da Sérvia para Kosovo e importante membro do Partido Democrata Sérvio, de Kostunica, acrescentando que a maior parte dos sérvios nunca perdoou a aliança por sua entrada na guerra e a campanha de bombardeio de 78 dias. “Pessoalmente, não consigo esquecer”.

Dois ministros do governo acusaram a Otan de tentar fazer de Kosovo um Estado para seus próprios propósitos.

De fato, o apoio público à Otan nunca foi alto, e o ceticismo em relação à União Européia aumentou enquanto as negociações se arrastaram, de acordo com profissionais de pesquisas de opinião.

O apoio ao ingresso na União Européia caiu para 53% em agosto, de acordo com a agência Strategic Marketing.

“O debate está tomando uma direção que torna a estratégia para a entrada na Otan e na UE muito difícil”, disse Delevic, secretário do Ministério de Relações Exteriores da Sérvia para relações com a UE.

Autoridades da UE insistem que um acordo entre albaneses e sérvios é possível.

Qualquer que seja o resultado, autoridades em Bruxelas argumentam que os interesses de longo prazo da Sérvia estão no Ocidente.

“Não acho que os sérvios queiram fazer parte da federação russa. Eles vêem o futuro deles na União Européia”, disse Cristina Gallach, porta-voz de Javier Solana, diretor de política externa da União Européia, em entrevista telefônica.

Com a decisão sobre Kosovo se aproximando, porém, analistas regionais dizem que os nacionalistas que dominam o parlamento sérvio controlam os eventos na Sérvia.

“As pessoas em Bruxelas presumem que todos os países na Europa estão morrendo para entrar na União Européia”, disse James Lyon, diretor em Belgrado do Grupo de Crise Internacional, um grupo de pesquisa política com escritórios nos Bálcãs. Mas se Kosovo se separar, a força da Europa sobre a Sérvia vai se evaporar, ao longo com sua capacidade de promover a reforma, disse ele em uma entrevista telefônica.

“O que você faz com um país que não quer participar da UE?” disse ele.

Tradução: Deborah Weinberg

The New York Times
http://www.nytimes.com/

As raízes da Europa

Umberto Eco

Além das cristãs, que têm um lobby poderoso, existem as raízes judaicas e as greco-romanas. E o que dizer quanto à herança pagã e às influências do Oriente?

Sobre esse tema eu já tinha escrito em 2003, mas não sou eu quem se repete, e sim a vida. Ocorre-me a história daquele meu amigo que certo dia volta para casa, encontra no escritório o jornal de que é assinante, lê com interesse da primeira à última página e depois percebe que se tratava de um exemplar de cinco anos antes, que por acaso reaparecera em sua escrivaninha. Daquele dia em diante cancelou a assinatura, mas não era culpa do jornal, era e é a monótona repetitividade de certos debates, crises, homicídios, escândalos, polêmicas, promessas e dívidas. Basta ler hoje os artigos sobre o delito de Cogne – um crime famoso ocorrido na Itália, em que a mãe é suspeita de ter matado o filho –, iguais aos de cinco anos atrás.

Mas voltemos ao ponto. Torno a encontrar nos jornais a urgência de inserir um chamado às raízes cristãs da Europa. Com relação a 2003, no entanto, deu-se um passo à frente, e precisamente na linha das observações que nós, então numerosos, havíamos feito: isto é, que as raízes da Europa são não apenas cristãs, mas sim judaico-cristãs. Não podemos esquecer o papel que a Bíblia teve no desenvolvimento da civilização européia (a propósito, recentemente aderi a um abaixo-assinado para que a Bíblia seja estudada nas escolas; não se trata de um fato religioso, é que não vejo por que os jovens tenham de conhecer Catulo e não Jeremias, Príamo e não Salomão).

Todavia, precisamente o fato de que na escola se estudam Príamo e Catulo nos recorda que a Europa surge sobre raízes que não são apenas judaico-cristãs, mas também greco-romanas. À parte a história da arte ou a função do imaginário mitológico em toda a poesia européia, sem Platão e Aristóteles nem sequer a teologia cristã teria existido; não é preciso recordar a presença do direito romano nas instituições européias, e o latim que se gostaria de introduzir novamente na missa foi inventado pelos pagãos e só se tornou cristão por direito hereditário. Mas talvez essas coisas sejam esquecidas porque as raízes cristãs têm um lobby poderosíssimo a apoiá-las, ao passo que as greco-romanas interessam apenas a alguns professores do ensino médio.

Naturalmente alguém poderia observar que seria necessário mencionar também a influência dos povos germânicos e a mitologia nórdica, mas a coisa se tornou patrimônio de neonazistas de cabeça raspada e, portanto, embora com pesar, deixemos para lá.

Enfim, haveria que perguntar por que as raízes judaico-cristãs caracterizariam precisamente a Europa. Não caracterizam também as duas Américas, a Austrália, a Etiópia, a Armênia, as Filipinas? E quanto às raízes greco-romanas, os modelos de Atenas e de Roma estavam bem presentes na mente dos pais da Revolução Americana – e pensemos em quanto a tradição clássica triunfa nas arquiteturas de Washington.

Seriam então precisamente estas raízes a tornarem a Europa única como tal e não, por exemplo, a co-presença de uma pluralidade de línguas e culturas – característica que falta a outras civilizações cristãs como as extra-européias? É com respeito a essa pluralidade que a Europa outrora se dividiu com enorme derramamento de sangue e agora torna a encontrar critérios de convívio e respeito recíproco. Poderíamos acrescentar o sentido do justo equilíbrio entre desenvolvimento rumo ao futuro e culto do passado, que torna a Europa tão ciosa de suas tradições e de seus vestígios. É bem verdade que essa coabitação entre novidade e tradição também é comum, por exemplo, na cultura japonesa, mas o Japão moderno só preserva o Japão antigo, ao passo que a Europa conserva não só as ruínas gregas e romanas e suas catedrais cristãs, mas também a Alhambra muçulmana, sinagogas e restos pré-europeus, de Altamira a Stonehenge.

E, enfim, há mais um aspecto típico da cultura européia: a curiosidade pelas outras culturas e pelos outros países, que esteve na origem tanto das viagens de Marco Polo quanto na de modas discutíveis como o orientalismo – para não mencionar o gosto colonialista de meter o nariz na casa alheia. É verdade que a curiosidade (digo curiosidade científica, e não turística) por países distantes caracterizou também a civilização islâmica medieval, mas não os povos cristãos de outros continentes. Certa noite um consultor do Pentágono, em um jantar durante um congresso, enquanto o informavam sobre o peixe que estava comendo, perguntou se o Mediterrâneo seria um lago salgado. Nenhum europeu culto jamais perguntaria a um americano se o Grande Lago Salgado seria um mar. Enfim, ou colocamos em evidência todas as raízes e todas as características que tornam esta Europa única, ou então não conseguiremos compreender o que é.

EntreLivros

Nova safra da cana, mais exploração

A produção de cana-de-açúcar deve ser 15% maior do que no ano passado no Estado de Pernambuco; Severino acorda às três da manhã e, antes das cinco, já está cortando cana. É trabalhador clandestino na usina São José

A produção de cana-de-açúcar deve ser 15% maior do que no ano passado no Estado de Pernambuco; Severino acorda às três da manhã e, antes das cinco, já está cortando cana. É trabalhador clandestino na usina São José.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

“Morte e Vida Severina”,
João Cabral de Melo Neto

Maria Luísa Mendonça

Setembro de 2007. Uma nova safra da cana começa em Pernambuco. Nesta safra, a produção de cana-de-açúcar deve ser 15% maior do que no ano passado, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB). Essa expansão deve-se principalmente ao aumento da produção de etanol, que deve chegar a 21 bilhões de litros, enquanto em 2006 o Brasil produziu 17 bilhões de litros do produto.

No município de Aliança, Severino acorda às três da manhã. Antes das cinco, já está cortando cana. É trabalhador clandestino na usina São José. Já teve a carteira assinada, mas depois de duas safras só consegue trabalho por dia. Sua tarefa diária é cortar trinta “braças”-o equivalente a setenta metros quadrados. O feitor diz que isso soma três toneladas de cana, mas Severino sabe que corta de sete a oito toneladas por dia.

Em terreno íngreme, ele sobe e desce a colina, entre as fileiras de cana. Seus movimentos são precisos: primeiro se abaixa para cortar rente ao chão e depois corta a folhagem em cima. Em ritmo constante, só pára pra comer quando o sol está alto. Já passa das onze horas. Na marmita ainda tem um pouco de cuscuz. A comida pouca quase não faz “efeito”. E Severino volta pro corte da cana. Sobe e desce ladeira, se abaixa e levanta tantas vezes que nem sente mais o corpo. As mãos nem se fala! O patrão não dá luva nem bota. O salário não dá nem pro sabão de lavar a roupa encardida de vinhoto e cinza da cana queimada.

Cinco da tarde, já quase anoitecendo, Severino volta pra casa. Na janela seus sete meninos esperam. No fogo ainda tem brasa, mas a panela está vazia. Severino recebeu $120 reais na semana passada, o salário de duas semanas. Mas a feira só deu pra seis dias. A outra metade do salário só vem na próxima semana. Na casa de Severino tem duas cadeiras. Não tem mesa nem cama. Quando não está chovendo, dá pra pegar água no rio. Mas hoje não. Escorrega muito e é longe. Severino deita no chão e espera por outros dias.

Severina Maria mora no engenho Meia Légua há quarenta anos, no município de Cortes, Mata Sul de Pernambuco. Chegou com seu pai quando tinha oito anos. A gente chama essa região de Zona da Mata, porque antes era tudo mata Atlântica. Agora as usinas plantam cana até na beira dos rios. O riacho de Meia Légua está coberto de cana.

O trabalho no canavial Severina conhece bem: semear, botar adubo, veneno, limpar mato, cortar cana… Já fez de tudo um pouco. Só parava de trabalhar quando sentia as dores do parto, mas voltava logo depois de poucos dias de resguardo. Nunca recebeu atestado quando estava grávida. Teve quatorze filhos, mas hoje são dez.

Agora o engenho está falido, mas o Incra nunca veio fazer inspeção. Severina não tem pra onde ir, tem medo de ser despejada. O senhor de engenho não deixa plantar roça. Claro! Se Severina tivesse um pedacinho de terra pra plantar macaxeira, inhame, milho… nunca teria ido pro corte da cana. Nem ela nem ninguém.

Depois de tantos anos de espera, Severina quase perdeu a esperança. Sempre diz a seus filhos pra não deixar de estudar, apesar de que mesmo quem sabe ler só encontra trabalho na cana, e é só por cinco meses, na época da safra. Não tem outro emprego na região. A gente passa fome.

Mas Severina está orgulhosa porque quer aprender a ler. Já sabe escrever metade do nome e está aprendendo a outra metade. Quarenta anos de trabalho no canavial e o que ganhou foi doença. O sonho de Severina era ter uma máquina de costura. Ela sabe costurar muito bem. Sempre fez as roupas dos meninos à mão, com saco de estopa, como dava. Mas se tivesse uma máquina de costura a vida poderia ser melhor.

Maria Severina trabalhou nos canaviais quase toda a vida. Como outras severinas, começou a trabalhar cedo, com apenas doze anos. Um dia ela se acidentou, cortou a perna e não tinha como ir pro hospital. O trabalho no canavial causa doença nos pulmões por causa da queimada e do veneno. Aos 41 anos, Severina ainda é forte, mas sabe que quem trabalha na cana morre mais cedo.

É por isso que Severina nunca mais quer voltar pro corte da cana. Depois de ser expulsa dos engenhos, se recusa a ir para a favela. Hoje ela coordena um acampamento dos sem terra no município de Palmares. Esse engenho está falido, como tantos outros aqui em Pernambuco.

Mesmo na beira da estrada, a roça do acampamento tem de tudo: macaxeira, milho, tomate, melancia. O feijão já foi colhido e durou todo o inverno. O maior problema é alimentar os bebês porque o preço do leite está pela hora da morte. Futuro? Severina não vê futuro para ela, só pros filhos. É por isso que luta pela terra.

O Incra não vem e a polícia já ameaçou dar despejo. Mas Severina tem esperança. O que ela acha do acampamento? Ótimo! Os barracos têm que ser bem limpos e organizados. Aqui é bem melhor que morar na rua, porque um ajuda o outro. E a gente não passa fome, porque no corte da cana, você trabalha, trabalha, e não dá o que comer.

Maria Luisa Mendonça é jornalista e coordenadora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

Bélgica corre o risco de desaparecer

Rivalidade histórica entre Flandres e a Valônia chega ao auge e separação deixa de ser tabu no debate político do país. Proposta de aumentar poder de regiões provocou impasse; vencedores da eleição de três meses atrás não conseguem governar.

LETÍCIA FONSECA-SOURANDER
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE BRUXELAS

Como um país poderia, em pleno século 21, desaparecer do mapa da Europa? A pergunta é tão surrealista como René Magritte, um dos artistas mais célebres desta nação em crise. A Bélgica, que vive o pior momento de seus 177 anos de existência, corre o sério risco de se desintegrar.

O democrata-cristão flamengo Yves Leterme, que venceu as últimas eleições legislativas há três meses, foi incapaz de formar um governo de coalizão com os partidos francófonos. O rei Alberto 2º nomeou outro político flamengo, Herman Van Rompuy, para desatar o nó das negociações. Se, ainda assim, não houver solução política, o rei poderá criar um governo provisório -formado por experts e não por políticos- e convocar novas eleições. Mas há quem acredite que a morte anunciada da Bélgica está mais próxima do que o esperado.

Francófonos e flamengos reacenderam as velhas rivalidades ao tentar negociar um acordo sobre uma nova repartição de poderes no Estado federal -dividido entre as regiões de Flandres (norte), Valônia (sul) e a capital, Bruxelas. Cada uma delas tem Parlamento e governo próprios. A Bélgica tem três idiomas oficiais: o francês, o flamengo (uma versão do holandês) e o alemão. Vitoriosos nas últimas eleições, os partidos flamengos estão defendendo um sistema para dar mais poder a essas três regiões do país nas áreas de segurança social, emprego, Justiça e política fiscal, entre outras.

Riqueza e decadência
Os políticos francófonos são contra essa reforma. Eles vêem a descentralização como uma tentativa da abastada Flandres de se separar da Valônia decadente, com alto desemprego.

Diante das disputas, é possível indagar se existe uma identidade belga. Para o cientista político Benoît Rihoux, da Universidade Católica de Louvain, a resposta varia segundo as regiões. Em Flandres, metade da população vai responder que se sente flamenga, depois belga. A outra metade dirá ser belga e flamenga ao mesmo tempo.

Do lado francófono é bem diferente. “Os francófonos são antes de tudo belgas, antes mesmo de se sentirem valões ou europeus.” Pela primeira vez a separação entre o norte e o sul é uma questão discutida abertamente, sem tabus, no país. Segundo pesquisas publicadas na semana passada, 43% dos flamengos querem a autonomia, enquanto 88% dos francófonos preferem a união.

“Imaginar que podemos nos separar, no momento em que estamos reforçando a construção da Europa, é uma regressão patética”, afirma o jornalista Philippe Dutilleul. No documentário fictício que produziu e foi exibido na RTBF, a TV belga francófona, Dutilleul mostrou a proclamação virtual da independência de Flandres.

O processo de separação belga é uma ameaça relativamente constante. Crises do passado encontraram soluções, nem sempre eficazes, para as três comunidades lingüísticas do país. Mas desta vez existe uma diferença, ressalta Benoît Rihoux: “Em Flandres, uma parte das elites políticas flamengas, os mais jovens particularmente, não está interessada em fazer um acordo amigável”.
O partido de extrema direita Vlaams Belang, o segundo maior da região de Flandres, tem se beneficiado da crise. Na semana passada, apresentou um pedido formal no Parlamento sobre a separação de Flandres. O político Bart De Wever, líder do N-VA e aliado ao CD&V de Yves Leterme, não esconde sua indiferença sobre o destino do país. Ele confessa que, “se não houvesse Bruxelas no meio, a separação estaria consumada há muito tempo”.

Bruxelas sem destino
Em algumas fachadas de Bruxelas, sede da União Européia, é possível ver, nestes dias de crise, bandeiras belgas à mostra. O rei Alberto 2º, que representa a unidade do país, é visto com simpatia. Mas os belgas que não são tão nacionalistas dizem que o melhor é encontrar uma solução definitiva.
Pode também parecer surrealista, mas a maioria da população na capital belga não é de flamengos nem de valões, mas de marroquinos, turcos, congoleses, italianos, portugueses, franceses, além de centenas de famílias de funcionários das instituições européias vindas de outros países do bloco. Todos preferem falar o francês. Menos de 15% do 1 milhão de habitantes de Bruxelas é de flamengos. Cerca de 350 mil pessoas, a maioria flamengos, trabalha em Bruxelas. No final do dia, volta para cidades no norte. Resta saber agora de quem Bruxelas será capital no futuro.

Jornal Folha de S. Paulo
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