Monthly Archives: setembro 2007

Enviem as forças de paz

Diplomacia e um acordo de paz, e não a intervenção militar, proporcionam a melhor esperança para a resolução da crise de Darfur

Alex de Waal*

A “responsabilidade de proteger” é a doutrina segundo a qual as vítimas de uma guerra civil ou de um desastre humanitário têm direito a auxílio internacional e, em caso extremo, à proteção de tropas estrangeiras, caso o seu próprio governo, por incapacidade ou malícia, não os ampare. O princípio da responsabilidade de proteger – ou “R2P” no jargão diplomático – foi adotado unanimemente pela Assembléia Geral da ONU em setembro de 2005.

A R2P é um conceito nobre, um exemplo de progresso nos padrões morais globais. Mas ele não é pragmático, exceto naqueles casos que envolvem as mais minúsculas das nações não funcionais, como Serra Leoa, Kosovo e Timor Leste, e mesmo assim com grande dificuldade. Em um país de tamanho médio, os percalços e os riscos superariam a capacidade de uma superpotência.

Desde o início de 2004, colunistas e defensores dos direitos humanos têm solicitado uma intervenção armada para “salvar” Darfur do “genocídio”. Gareth Evans, ex-ministro australiano das Relações Exteriores e presidente do Grupo de Crise Internacional, nomeou Darfur o caso-experimental para a R2P. Embora seja simpático à intervenção militar direta, Evans tem se concentrado naquilo que é conhecido nas negociações comerciais como “proteção coerciva” – uma força de paz da ONU que seja capaz de impor a sua vontade com a autorização da ONU e que conte com suficiente poder de fogo.

Esse conceito procura demarcar a diferença entre a força de paz tradicional e a intervenção militar absoluta. Mas enquanto Evans e os seus colegas de retórica davam declarações belicosas sobre Darfur, ficava claro que o conselho sensato dos mantenedores profissionais da paz estava certo o tempo todo: não existe um ponto intermediário.

As políticas internacionais em relação a Darfur fracassaram. O mundo não conteve as imensas ofensivas do exército Janjaweed em 2003 e 2004, que mataram dezenas de milhares de pessoas, e talvez mais 150 mil devido à fome e às doenças, além de ter deslocado dois milhões de indivíduos de suas casas e regiões. Não existe nenhum acordo de paz que esteja produzindo resultados, e centenas de pessoas são mortas todos os meses em conflitos locais. Uma força da ONU de 26 mil soldados com um mandato limitado para proteção (os militares podem usar a força para proteger civis) só agora está a caminho, e estará operando no início do ano que vem. O roteiro aceito é: culpem a falta de vontade política dos líderes mundiais pela incapacidade de fazer frente aos projetos malignos de Cartum.

Mas existe uma visão alternativa que é a seguinte: a situação de Darfur é uma guerra civil africana complexa e típica, e pode ser resolvida com os alinhamentos políticos corretos e uma boa diplomacia, e com um acordo de paz que possa permitir a inclusão de uma força de paz. As negociações com o objetivo de pôr um fim à guerra são desorganizadas e envolvem compromissos desagradáveis com líderes que têm sangue nas mãos. Mas a R2P descartou essas opções menos ruins e abraçou um ideal fantástico.

Desde que a crise de Darfur irrompeu, a atenção internacional focou-se sobremaneira no envio de forças militares, e não nas negociações de paz. Todo funcionário experiente do Departamento de Operações de Paz da ONU e todo diplomata britânico ou norte-americano que esteve envolvido nas bem-sucedidas negociações para o término da guerra norte-sul no Sudão posicionaram-se contra essa mudança de prioridade. No ponto crítico das negociações de paz para Darfur em março de 2006, o Grupo de Crise Internacional publicou um relatório, “Para Salvar Darfur”, que dedicava um espaço sete vezes maior às tropas da ONU do que ao processo de paz. Os principais elaboradores de políticas para o Sudão em Washington, D.C. e em Nova York dizem que dividiram o seu tempo igualmente entre as duas abordagens. A promoção da paz era dirigida pelas necessidades da manutenção da paz, e não o contrário. Não é de se surpreender que ambas as iniciativas tenham fracassado.

Os líderes rebeldes de Darfur são um grupo desorganizado cujos erros de cálculo, imprudência política e alianças oportunistas impediram a busca de soluções. Abdel Wahid al-Nur, presidente fundador do maior grupo, o Movimento de Liberação do Sudão, é um ingênuo político, alçado ao palco internacional e lisonjeado pelo seu status instantâneo de celebridade.

De forma única entre os líderes das frentes de liberação, ele colocou a intervenção internacional no topo da sua agenda. Na última sessão das conversações de paz, em maio de 2006, Abdel Wahid exigiu que os Estados Unidos fornecessem garantias “como na Bósnia”. Ele desejava uma intervenção, e não assinaria o acordo sem que esta ocorresse.

Foi um acordo imperfeito, mas com a assinatura de Abdel Wahid ele representaria o início de uma solução. Quando Abdel Wahid recusou-se a assinar, o acordo ficou condenado, e o conflito recomeçou.

Enquanto isso, os moderados e pragmáticos de Cartum perdiam a sua pequena dose de confiança em Washington. O acordo de paz norte-sul de 2005 foi possível porque os Estados Unidos prometeram normalizar as relações diplomáticas e cancelar as sanções assim que a paz fosse alcançada. Os líderes sudaneses compreenderam que esses petiscos continuarão no freezer até que haja paz em Darfur. Mas a recente tendência à concentração em tropas militares fez ressurgir a antiga suspeita de que Washington realmente deseja promover uma mudança de regime. Quando lideranças democratas dos Estados Unidos – incluindo o ex-assessor de Segurança Nacional, Anthony Lake, e a ex-secretária assistente de Estado para a África, Susan Rice – pediram uma ação militar no estilo de Kosovo em Darfur, em uma coluna de opinião no “Washington Post”, em outubro de 2006, esses temores aumentaram.

O governo do Sudão possui um histórico terrível na área dos crimes de guerra, mas também no da perfídia. É por isso que é tão importante para as metas internacionais que se cultive a transparência e a constância, e não o aumento de demandas e ameaças que se tornaram a marca registrada da política dos Estados Unidos para o Sudão.

Gareth Evans é um político suficientemente inteligente para saber que a transformação de Darfur no laboratório de testes da R2P foi um exagero nocivo. Nos últimos meses, o seu Grupo de Crise Internacional vêm discretamente diluindo as suas recomendações e revertendo as suas políticas, de forma que agora se opõe a uma zona de proibição de vôos, e (talvez muito tarde) enfatiza a necessidade das negociações no velho estilo.

Quando a paz e a segurança retornarem a Darfur, isso ocorrerá devido à antiga diplomacia e a uma operação de paz de apoio a um acordo bem costurado. Será necessário reconhecer o talento de alguns diplomatas experientes que conseguem fazer com que os rebeldes de Darfur negociem com um adversário odiado, e que exercem pressões sobre Cartum para a implementação das prometidas eleições livres. Se Gordon Brown for capaz de garantir que essas negociações sejam protegidas do ardor das celebridades ativistas que exigem soluções instantâneas, ele terá prestado um verdadeiro serviço ao povo de Darfur, que sofre há tanto tempo.

* Alex de Waal foi assessor na mediação da União Africana em Darfur

Tradução: UOL

Prospect

Lula fala da FSA

Segue o link com o discurso do Lula sobre a Fundação Santo André. As imagens estão no youtube.

Ricardo Alvarez

A necessidade de uma nova imprensa

Cabe ao campo democrático-popular não alimentar ilusões. Se os meios de comunicação são fatores centrais de uma nova esfera pública em formação, não se deve esperar conversões éticas de uma imprensa cuja estruturação está umbilicalmente ligada ao destino de conhecidas oligarquias. A análise é de Gilson Caroni Filho.

Gilson Caroni Filho

O deputado federal Ciro Gomes (PSB) foi certeiro ao definir a importância do holofote no comportamento político da oposição, em entrevista concedida à revista Imprensa, em dezembro de 2005. Em meio a crises que pareciam anunciar novos retrocessos político-institucionais, o então ministro da Integração Nacional diagnosticou com precisão: “eu participo da vida pública brasileira há 30 anos e é a primeira crise pautada por garotos alucinados por aparecer na televisão. E eles estão tocando a República! Eu acompanho a CPI, vejo parlamentares que olham para a câmera e dizem: “senhor presidente, senhores deputados, senhores depoentes e senhores telespectadores”! O que é isso? Os excessos são mais prováveis, pois há uma sensação de que as informações são descartáveis. Só que não é bem assim, há valores imateriais fundamentais em jogo e eu gostaria de ressaltar aqui a importância da linguagem”.

Dois anos se passaram, os atores fizeram novas oficinas, ensaiaram textos no plenário, armazenaram informações, mas, a julgar pelos resultados, a teatralização da política não logrou os resultados esperados. A construção de representações sociais dominantes não obteve o êxito habitual. A velha mídia não descobriu o novo público. E foi aí que começou a história de sua coleção de derrotas.

Alguma fratura travou o espetáculo. Ao contrário das últimas décadas, produções como o ” Mensalão”, ” Aloprados” e ” Apagão Aéreo” se tornaram, passado o impacto inicial, fracassos de crítica e de público. Organizaçôes Globo, Civitas, Mesquitas e outros barões da imprensa brasileira parecem não ter acertado a mão, e o resultado são melancólicos folhetins sem qualquer vestígio de arte. Farsas baratas para produções que exigiram vultuosas somas e transformismos colossais.

Péssima direção e elenco de baixíssimo nível? Certamente, mas isso não é tudo. Nem sempre basta a imagem como critério da história. Às vezes, a trama, por mais recurso visuais que disponha, requer retórica convincente. Sem ela, inexiste a legitimação que precede o êxtase, e o plano que oculta o golpismo latente das elites se torna se torna visível demais.

A crença em um desmesurado poder manipulatório da mídia revela indigência de análise. O espetáculo só é possível porque a produção simbólica não se esgota em seu campo. Como destaca Silverstone, a circulação de significados, sua rica intertextualidade, não faz do senso comum um alvo passivo de versões deliberadamente distorcidas. Ele também produz, significa a partir de mediações da sua própria vida concreta. Não auscultar seu cambiante sistema simbólico custa caro aos pretensos “formadores de opinião”.

Em suma, o êxito de qualquer projeto ideológico depende de profunda afinidade eletiva entre produtores-consumidores e consumidores-produtores de bens simbólicos. Sem troca não há fluxo eficaz. O que a grande imprensa ignorou – e parece continuar ignorando – é a crescente organização da sociedade civil. Sua capacidade de não só recusar a narrativa oferecida, como construir uma eficiente articulação contra-hegemônica. A mídia se perdeu de si mesma quando acreditou que seus estatutos de verdade eram imunes a qualquer alteração substantiva da formação social onde pretende interferir.

Cabe ao campo democrático-popular não alimentar ilusões. Se os meios de comunicação são fatores centrais e constitutivos de uma nova esfera pública em formação, não se deve esperar conversões éticas de uma imprensa cuja estruturação está umbilicalmente ligada ao destino de conhecidas oligarquias. Trabalhar com contradições internas do campo comunicativo existente é uma aposta fadada ao fracasso. Com a experiência acumulada em veículos como Carta Maior, Caros Amigos e Brasil de Fato, entre tantos outros, talvez tenha chegado a hora de investir em um grande jornal de esquerda. Como viabilizá-lo operacionalmente não cabe no espaço desse artigo, mas com a massa crítica acumulada já passou da hora. Essa é a questão central da democracia brasileira. Precisamos inventar a imprensa democrática.

Gilson Caroni Filho
é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.

Carta Maior
http://www.agenciacartamaior.com.br/

‘Transposição do Velho Chico será um fracasso’, diz especialista

Júlia Moura, Agência JB

RIO – Fundador do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco e
coordenador do projeto Manuelzão da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), Apolo Heringer Lisboa vem desde 1997 lutando para
conscientizar a população sobre assuntos ligados ao “Velho Chico”.
Apolo, que trabalha para promover a revitalização da bacia, diz que “o
maior fracasso da história do Brasil foi a Transamazônica e com a
transposição do rio São Francisco será a mesma coisa”. Em entrevista
concedida ao JB Online, o médico fala porque não defende a
transposição do rio São Francisco.

O projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias
Hidrográficas do Nordeste Setentrional é um empreendimento do Governo
Federal, sob a responsabilidade do Ministério da Integração Nacional,
e está causando muita polêmica entre as comunidades ribeirinhas,
professores e especialistas. O governo assegura que, em 2025, após 20
anos de obras, cerca de 12 milhões de habitantes do semi-árido
nordestino contarão com a água. Hoje são 120 mil habitantes
abastecidos por açudes de particulares de grande e pequeno porte,
segundo dados do projeto Manuelzão.

Pensando nisso, Apolo Heringer apoiou a Caravana contra a transposição
que já passou pelos Estados de Minas Gerais, Rio, São Paulo, Rio
Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Sergipe, Bahia, Pernambuco, além do
Distrito Federal. O grupo defende que se leve água ao semi-árido por
meio de adutoras e não pela obra da transposição do Rio.

Heringer afirma ainda que no Nordeste não há falta d’água e sim um
grave problema de gestão. Que a possível transposição do rio São
Francisco só serve para beneficiar a indústria do agronegócio.

JB Online: Por que a Caravana é contra a transposição?

Apolo Heringer Lisboa: É uma questão história. A Caravana é contra
porque a região da transposição é uma região que não precisa de água
do São Francisco. O problema da seca no Nordeste e no Semi- árido
brasileiro, que envolve toda a Bacia do São Francisco com
aproximadamente 1 milhão de metros quadrados, é a concentração de água
das chuvas e a falta de distribuição das mesmas. A transposição irá
tirar água um semi-árido para outro semi-árido, ou seja, do baixo São
Francisco para Ceará e Paraíba.

O Ceará tem a metade da capacidade de água do que eu chamo de
semi-árido setentrional (corresponde a Ceará, Paraíba, parte de
Pernambuco, parte do Piauí, Rio grande do Norte e Ceará) com muitos
açudes – são 70 mil açudes pequenos e 400 grandes – o que é
equivalente, a capacidade de água, de 12 Baias da Guanabara. Essas
águas estão paradas, sem distribuição.

O problema da seca no Nordeste, em todo semi-árido brasileiro – e
estou falando inclusive do Jequitinhonha e do Vale do São Francisco -
não é por falta d’água, é por concentração de água.

JB Online: Qual seria a melhor maneira de se distribuir água para o
povo nordestino?

A. H. Lisboa: A melhor maneira e a mais barata de levar água para quem
realmente precisa no Nordeste é distribuindo as águas dos açudes, das
chuvas e construindo poços artesianos. Só é possível atender a
população espalhada pelo Sertão construindo poços.

JB Online: Porque o Governo Federal adotou a projeto de transposição
do rio São Francisco?

A. H. Lisboa: Existem duas lógicas perversas. A primeira é da
indústria da seca que aproveita a miséria do povo. Nunca construíram
um poço cartesiano, se o fizesse o povo ficaria independente. A
indústria da seca ganha com a venda de água pelo caminhão pipa. Quando
construíram os açudes achava-se que os açudes iam resolver o problema
da seca no Nordeste. Pelo contrario, apenas resolveu os problemas dos
proprietários de terras e dos políticos que fizeram açudes com
dinheiro federal, em suas próprias terras.

A segunda lógica perversa é a das Multinacionais exportadoras de
frutas e criador de camarão que consomem um grande volume de água. Por
sua vez, o semi-árido esta adotando uma política econômica de uso
intensivo de água doce. Mentiram para o povo brasileiro. Falaram que a
água é para matar a sede do coitado do povo do sertão e na verdade nós
descobrimos que quase toda ela é para o agronegócio que está
desmatando quase todo o Cerrado.

O agronegócio vai piorar a situação da região, a indústria joga
agrotóxico nos rios e o povo não pode chegar perto desse açude.
Durante a viagem nos recebemos denúncias de moradores da Chapada do
Apodi que relatavam que não tem acesso a água.

JB Online: A revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco
irá resultar realmente no desenvolvimento sustentável da população
local?

A. H. Lisboa: Não. Será subsídio cruzado, a população vai pagar mais
caro pela água. O projeto trará para estados que não serão
beneficiados com a transposição o subsídio cruzado. Ou seja, vai
aumentar o preço da água mesmo em cidades que não fazem parte do
projeto, porque alguém vai ter que custear o valor final que a água
atingirá, cerca de R$ 0,11 pelo metro cúbico em alguns municípios.

JB Online: O senhor acredita que a transposição do Rio São Francisco
não vai ser finalizada?

A. H. Lisboa: Esse projeto é perverso em todos sentidos, é como dizer
que vai acabar com a fome do povo construindo um grande supermercado.
Esses grandes canais da transposição não vão chegar a população pobre.
A melhor solução vem do próprio Governo Federal, com uma proposta de
fazer 530 obras com um custo de 3,6 bilhões de reais para atender do
semi-árido brasileiro beneficiando 34 milhões de pessoas, em 9
estados. Não vai precisar da transposição, o projeto visa otimizar as
águas das chuvas. Por isso, nós acreditamos que a Transposição do rio
São Francisco não vai acontecer.

Tirando a água do rio eles vão impedir a produção de energia elétrica
e agora, 6 anos depois da ameaça do apagão elétrico, o governo quer
drenar 127 metros cúbicos, dizendo que tem água demais. Eles são
loucos! Nunca vi a elite nordestina lutar tanto pelo oprimido. Eles
são malandros!

A transposição não vai até o fim. O maior fracasso da historia do
Brasil foi a Transamazônica, a transposição do rio São Francisco será
também.

Jornal do Brasil

A alquimia financeira de hoje

Workers World [*]

Alquimistas. Séculos atrás, os reis e as suas cortes viviam para além dos seus meios. Para compensar, efectuavam infindáveis campanhas militares, saqueando recursos e terra. A guerra era cara e os fracassos esvaziavam logo os tesouros reais.

Entre as elites reais avançava a ideia de que a riqueza podia ser criada pela transformação de metais ordinários em ouro. Ao longo de toda a Idade Média, exércitos de alquimistas trabalharam incansavelmente a fim de alcançar este objectivo, mas em vão.

Aos alquimistas de hoje foi assinalada uma tarefa impossível: converter milhões de milhões de IOUs [1] e dívidas em complexos instrumentos financeiros a fim de criar riqueza e lucros para os mestres da Wall Street. Economistas, matemáticos e físicos de universidades prestigiosas criam incompreensíveis modelos computacionais e cozinham cocktails de instrumentos financeiros. Os mercados financeiros e as agências de classificação não podem medir o seu valor ou estimar um preço confiável.

A falta de transparência confundiu e levou ao pânico o mercado de acções. Milhares de milhões foram perdidos nos últimos meses. Hordas de investidores, banqueiros e corretores correram para as laterais agarrando a sua riqueza de papel a fim de protegê-la dos turvos mercados financeiros.

A crise começou com empréstimos sub-prime empacotados por prestamistas hipotecários, comprados pelos bancos e outras instituições financeiras e vendidos a investidores. Estas obrigações de dívida colaterizadas, divididas em grupos mais pequenos chamados tranches, foram distribuídas amplamente nos EUA e no exterior. Aos prestamistas elas proporcionaram taxas de juros de dois dígitos e comissões exorbitantes. Dez mil hedge funds compraram os modelos computacionais – fundos quantitativos (“quant funds”) – através de dinheiro emprestado.

Agora o colapso das hipotecas sub-prime pôs em retirada, com perdas pesadas, estes investidores financeiros.

Em 18 de Setembro o Federal Reserve Board deu ao mercado de acções aquilo que ele queria — um colossal corte de meio ponto na taxa de juros prime, de 5,25 para 4,75 por cento. Isto desencadeou uma inundação de dólares baratos a fim de proporcionar liquidez e elevação do crédito livre — e o mercado de acções respondeu imediatamente disparando à taxa mais rápida dos últimos quatro anos. O frenesim e o medo que haviam dominado as instituições financeiras foi apaziguado, apesar de muitos analistas continuarem a não estarem seguros sobre se a resposta do Fed não fora demasiado pouca e demasiado tardia. São aqueles que acreditam que um colapso das instituições financeiras ainda está na forja.

O Federal Reserve Board, o banco dos banqueiros, actuou como a torneira do dinheiro de último recurso. Este banco é uma parte integral do mercado de acções e trabalha com os chefes dos maiores bancos, o líderes de outras bolsas e agências governamentais tais como a Securities and Exchange Commission. Ele é o principal catalizador na protecção do mercado de acções — o generalizador e barómetro intimamente conectado aos fundos de pensão, bancos, uniões de crédito, companhias de seguros e correctores de hipotecas. A Wall Street descansa mais tranquilamente — por enquanto.

O salvamento do mercado de acções pelo Fed conduzirá a uma maré inflacionária, a qual diluirá os padrões de vidas dos trabalhadores e dos oprimidos. O valor do seu trabalho, expresso em dólares baratos, tornará mais difícil para eles comprar o que produzem, num momento em que são afligidos pelo custo crescente de alimentos, energia, abrigo, educação e cuidados de saúde, além de estarem afogados em dívidas dos cartões de crédito e em arrestos.

O desemprego está em ascensão

Os trabalhadores e os oprimidos enfrentam inflação e estagnação. Temos actualmente o que parece ser uma retomada das condições que levaram ao crash do mercado de acções em Outubro de 1987, mas agora mais profundo e global. O mergulho do dólar desestabilizará os mercados globais de commodities, intensificará as tensões entre parceiros comerciais e desfará até mesmo acordos comerciais.

As ocupações do Iraque e do Afeganistão estão a deixar um rastro de morte, destruição e défices enormes. Sem considerar as suas dimensões, a crise do capitalismo fortalecerá a luta da classe trabalhadora e dos oprimidos e mudará o carácter da situação internacional.
23/Setembro/2007
[1] IOUs: Acordos escritos para a devolução de dívidas.

Articles copyright 1995-2007 Workers World. Verbatim copying and distribution of this entire article is permitted in any medium without royalty provided this notice is preserved.

O original encontra-se em http://www.workers.org/2007/editorials/economy-0927/

Resitir
http://resistir.info/

Relatórios divulgados nos EUA e na Europa abalam confiança na economia

Katrin Benhold
Em Paris

Temores de que haja uma desaceleração global do crescimento econômico aumentaram na quarta-feira (26/07), depois que relatórios recentes somaram-se aos sinais de que a crise nos mercados de crédito está prejudicando a economia real dos dois lados do Oceano Atlântico.

Nos Estados Unidos, onde a crise no mercado imobiliário já teve um reflexo negativo sobre os gastos dos consumidores, o Departamento do Comércio anunciou que as encomendas de bens duráveis – englobando tudo, de aeronaves comerciais a eletrodomésticos – caíram 4.9% em agosto, indicando que o setor de investimentos pode ser incapaz de compensar essa deficiência.

E os ânimos estão igualmente abatidos na Europa. Uma pesquisa indica que a confiança dos consumidores da Alemanha, a maior economia européia, caiu para o patamar mais baixo dos últimos cinco meses. E duas outras pesquisas revelaram que os industriais franceses e italianos têm se mostrado cada vez mais pessimistas quanto à situação, após um drástico declínio da confiança empresarial alemã, registrado na última terça-feira.

Os últimos dados representam mais um golpe sobre as esperanças européias de que o continente possa suportar a desaceleração econômica nos Estados Unidos. Os políticos europeus têm procurado minimizar o risco de um contágio, simulando coragem enquanto os economistas reduzem gradualmente as suas previsões de crescimento para a região. Alguns ainda insistem que o colapso no mercado imobiliário de risco dos Estados Unidos não causará impacto nenhum sobre eles.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, por exemplo, sustenta a sua previsão de crescimento de 2% a 2,5% para este ano e o ano que vem, ainda que os bancos e instituições internacionais sejam quase unânimes em prever um crescimento inferior a 2%.

E a Europa tornou-se menos dependente do crescimento norte-americano. As exportações para os Estados Unidos representam menos de 3% da economia da zona do euro, fazendo com que surgisse a teoria de um desvinculamento entre a dinâmica econômica européia e a norte-americana. Mas os analistas afirmam que essa dissociação não protege as companhias e os consumidores europeus do recente aumento dos custos dos empréstimos.

O coro de vozes alarmistas fica cada vez mais alto. No último domingo o governo alemão admitiu pela primeira vez que os problemas nos Estados Unidos poderão ter repercussões negativas sobre a economia alemã.

“O vínculo estreito entre os mercados financeiros significa que as mudanças econômicas globais estão se fazendo sentir na nossa economia doméstica de forma mais intensa e precoce do que costumava ocorrer”, declarou o ministro alemão da Economia, Michael Glos, ao jornal “Frankfurter Allgemeine Zeitung”.

Em países como Espanha e Irlanda, nos quais o mercado imobiliário tem sido um grande fator de contribuição para o crescimento, os efeitos da crise do mercado de crédito poderão ser os mais imediatos. Mas por toda a região, os bancos mostram-se nervosos na hora de emprestarem uns aos outros, e os índices de empréstimos desabaram.

Para aumentar as preocupações o barril de petróleo subiu recentemente para mais de US$ 80, e o euro continua batendo recordes de valorização em relação ao dólar. Os altos preços da energia provocaram o aumento dos custos das companhias, enquanto o euro forte tornou as exportações européias mais caras.

O fator-chave para determinar a dimensão dos danos que poderão ser causados à economia européia consiste em determinar se a economia norte-americana mergulhará ou não em uma recessão, afirmam os analistas. Os temores quanto a uma recessão diminuíram depois que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) reduziu as taxas de juros em meio ponto percentual neste mês, mas os mercados continuam nervosos. Depois que o Departamento do Comércio divulgou o seu relatório sobre bens duráveis, os economistas do Morgan Stanley reduziram a sua previsão de crescimento no terceiro trimestre nos Estados Unidos de uma taxa anual de 2,4% para 2,2%.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson Jr., disse esperar que o crescimento norte-americano acelere-se na segunda metade de 2007, disse o ministro das Finanças da Índia, Palaniappan Chidambaram, à Bloomberg News, após uma reunião com Paulson na quarta-feira.

Uma súbita desaceleração econômica na Europa poderia minar a capacidade das maiores economias do continente de conter os déficits orçamentários e implementar as urgentes reformas econômicas, alertam os analistas. Depois que a Alemanha reformulou o seu mercado de trabalho, as esperanças voltaram-se para a França, a segunda maior economia na zona do euro.

Desde o verão, Sarkozy acelerou a sua agenda a fim de implementar uma ambiciosa plataforma de reavivamento da economia, mas um crescimento mais lento poderia complicar essa tarefa, deixando-o com pouca margem de manobra para agradar aos eleitores com medidas que poderiam suavizar o impacto das mudanças de políticas.

Na quarta-feira, ele revelou o seu primeiro orçamento, prometendo aumentar o crescimento econômico com um pacote de investimentos de 272 bilhões de euros (cerca de R$ 770 bilhões) – uma semana após o seu primeiro-ministro advertir que o país está “falido”. Sarkozy está promovendo uma redução nos impostos equivalente a US$ 9 bilhões, a fim de estimular os gastos dos consumidores.

Sarkozy irritou Bruxelas ao adiar a promessa do seu antecessor de equilibrar o orçamento da França entre 2010 e 2012. As propostas feitas na quarta-feira antecipam apenas um modesto declínio do déficit, de cerca de 2,4% do produto interno bruto neste ano para 2,3% em 2008.

Mas, conforme observam os economistas, até mesmo essa queda modesta dá a impressão de ser ambiciosa tendo em vista que o financiamento do orçamento se baseia em uma previsão otimista de crescimento que foi feita antes das recentes turbulências nos mercados financeiros.

Tradução: UOL

International Herald Tribune

Ucranianos vão às urnas para eleger novo parlamento

Os ucranianos vão às urnas neste domingo para as terceiras eleições nacionais em três anos.

Mais de 37 milhões de eleitores estão registrados para participar do pleito, convocado pelo presidente pró-Ocidente Viktor Yushchenko numa tentativa de resolver meses de impasse com o primeiro-ministro pró-Rússia Viktor Yanukovich.

Mas a correspondente da BBC na capital Kiev Helen Fawkes diz que nenhum partido deve conseguir uma maioria clara, o que pode significar meses de negociações pela frente para a formação de uma coalizão no país.

Todos os principais partidos alegam que haverá tentativas de fraudar as eleições e há grandes chances de que os resultados, que devem ser divulgados nesta segunda-feira, sejam contestados.

Tanto partidários pró-Ocidente quanto pró-Rússia já se preparam para eventuais protestos nas ruas, ações na Justiça e mais disputas políticas.

Rivalidade

O presidente pró-Ocidente Viktor Yushchenko dissolveu o parlamento ucraniano em abril este ano, alegando que o primeiro-ministro Viktor Yanukovych, que defende a aproximação com a Rússia, estava tentando usurpar o poder.

Depois de dois meses de protestos nas ruas e de enfrentamento entre os dois Viktors, foi acertado que as eleições seriam realizadas em 30 de setembro.

Yushchenko se tornou presidente da Ucrânia em janeiro de 2005 depois do movimento pró-democracia batizado de “Revolução Laranja”, que conseguiu anular um pleito fraudado que havia levado à vitória de Yanukovych.

Mas Yushchenko teve de aceitar que o rival se tornasse primeiro-ministro depois que os aliados do presidente não conseguiram a maioria nas eleições parlamentares de março do ano passado.

BBC Brasil
http://www.bbc.co.uk/portuguese/

Os problemas e os desastres históricos do Haiti

Direto de Porto Príncipe, Emir Sader relata as dificuldades vividas pelo povo haitiano. “Qualquer que seja o diagnóstico que se faça da história recente do Haiti, o certo é que, depois da catástrofe da ditadura do clã Duvalier, o desastre mais recente foi o fracasso do governo de Aristide”.

Emir Sader

Não é fácil chegar ao Haiti. Em primeiro lugar pelos vôos. Não apenas para nós, que temos que ir ao Panamá e trocar de avião, depois de uma espera de quatro horas. Mas mesmo paises do Caribe – como Cuba ou Porto Rico – ou próximos, como o México, devem ir até o Panamá ou tirar o visto e os sapatos no aeroporto de Miami. Um vôo que seria de uma hora e quarenta, desde o Porto Rico ou Cuba, termina levando sete horas. O trecho entre o Panamá e o Haiti é curto, de cerca de duas horas, para que se veja que não fica tão longe, mas também a este nivel o Haiti é vitima de discriminação.

A outra dificuldade também é resultado da discriminação. Quando se diz a alguém que se vai ao Haiti, produz preocupação, muitas vezes seguido da recomendação. “O Haiti! Cuidado!”, como se fôssemos ao Iraque ou ao Afeganistão.

A primeira vista, ainda do avião, é de uma ilha tipicamente caribenha, poderia se estar chegando a Cuba, não fosse uma vegetação mais rala e terrenos bastante menos explorados pela agricultura. No aeroporto – chamado Toussaint L`Ouverture – encontra-se de imediato essa característica de alguns países do continente: população nativa negra, entre pobres, classe média e elite.

Porto Príncipe não apresenta uma paisagem social pior que, por exemplo, Tegucigalpa ou El Alto – cidade da periferia de La Paz. A capital tem um milhão de habitantes, outros oito milhões vivem no campo e um milhão mais no exílio – nos EUA ,na Republica Dominicana. Tanto estes dados, como os índices sociais – 40% de analfabetos ou de mortalidade infantil, por exemplo – são aproximados, ninguém sabe quantos haitianos foram, legal ou ilegamente aos EUA ou à vizinha Republica Dominicana, onde mesmo filhos de terceira geração de haitianos não são reconhecidos legalmente e não existem diante da lei e das estatísticas.

No centro da cidade, uma grande quantidade de gente ociosa, certamente desempregada, enquanto os que têm atividade estão, na sua grande maioria, no serviço de rua, vendendo coisas ou prestando serviços, com grande quantidade de engraxates. Isolado por cercas, o monumental Palácio Presidencial, aparentemente alheio ao entorno. Como em quase todos os países do continente, mesmo os países pobres, como o Haiti ou o Paraguai, o poder se exige na sua monumentalidade mediante palácios que poderiam ser transferidos para qualquer outro país, nada diz deles que são sede do governo daquele país, eleito por aquela massa de gente que circula, alheia ao Palácio, a pé ou em ônibus pequenos de transporte, repletos de gente a qualquer hora do dia, todos muito coloridos e com frases pintadas, a maioria delas religiosas.

O Haiti goza, pelo menos, do privilégio do atraso. A capital é pouco globalizada, porque não representa mercado de interesse da grande maioria das transnacionais. (Até aqui, não vi nenhum McDonalds.) Poucos outdoors, em geral pequenos, a publicidade está mais presente em faixas de pano, escritas em francês, quando se trata da oferta de algum produto voltado para o consumo das altas esferas do consumo, em creole – o idioma local, uma versão popular do frances, que escreve as palavras francesas conforme soam, se se trata de produtos de consumo popular.

Não soubéssemos a situação política do país, pareceria um país pobre a mais no continente. O sintoma dessa situação política estava presente no aeroporto, quando os soldados traziam o emblema da ONU em um braço e a bandeira chilena no outro – membros da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, conhecida como Minustah, cujo término do mandato atual termina dia 15 de outubro próximo.

Consenso geral é que a presença dessas tropas foi a responsável pelos avanços na situação de segurança pública, pelo menos nos espaços centrais de Porto Príncipe, até há pouco intransitáveis, pelos riscos de segurança. A eleição de um presidente com grande votação – René Preval, que havia sido presidente do Haiti anteriormente e que recebeu inclusive o apoio tácito do ex-presidente Aristide -, somado à ação das tropas estrangeiras, gerou uma certa estabilidade institucional.

Os problemas do Haiti se dão em um plano muito mais profundo. As décadas de governo do clã Duvalier, somados ao fracasso do governo de Aristide, tiveram como efeito, entre outros, uma inexistência real do Estado. Há ministérios, mas muito poucos serviços publicos, estruturas muito debilitadas. Além de que Aristide decidiu a extinção do Exército, sem colocar nenhuma outra estrutura no seu lugar, mantendo-se apenas a Polícia Federal como força armada.

Qualquer que seja o diagnóstico que se faça da história recente do Haiti, o certo é que, depois da catástrofe que significou para o Haiti a ditadura do clã Duvalier, o desastre mais recente, que ajuda a entender a grave situação em que se encontra o país, foi o fracasso do governo de Aristide. Ele tinha as melhores condições para dar inicio à reconstrução democrática do país, pela liderança popular que tinha como padre da teologia da libertação, da oposição democrática, contando também com apoio internacional.

O regime duvalierista foi derrubado em 1986, Aristide foi eleito em 1990. Nem bem tinha começado seu governo, aos 7 meses, foi derrubado por militares remanescentes do duvalierismo. Se exilou nos EUA e retornou, reconduzido pelo governo de Bill Clinton, em 1994, para o que se chama de “segundo Aristide”. Depois de um mandato de Preval, ele passou a implementar uma política econömica neoliberal, se chocou e se distanciou do partido – Lavalas – que o havia eleito e passou a ser acusado de vínculos com o narcotráfico, de corrupção e de organização de bandas armadas que passaram a atacar grupos de oposição, movimentos sociais, intelectuais e lideres da oposiçáo.

Aristide foi perdendo o controle do país, mobilizações populares contra ele foram crescendo. Ao longo do segundo semestre de 2003, ele continuava a dispor de grupos populares armados por ele. A falta de recursos externos foi levando o país a um processo de desintegração acelerada, sem serviços públicos, sem forças de segurança, com grupos de-ex-militares armados cruzando a fronteira para atacar o governo.

Foi nesse contexto de véspera de guerra civil, que os governos dos EUA e da França se reivindicaram o direito de intevir, derrubando o governo de Aristide. Alegando que os governos da região preferiam a presença de tropas latino-americanas, o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Chile, substituíram esse contingente com suas tropas.

Aí começa o período contemporâneo do Haiti, com um presidente eleito, René Preval, grandes dificuldades econômicas e sociais, instabilidade institucional, presença de tropas estrangeiras. O seminário que organizamos, Clacso, junto com a Fundação Gerard-Pierre Chareles – o intelectual mais importante do Haiti, grande amigo de Florestan Fernandes, morto há três anos – permite ter visões diversas do quadro atual do Haiti. No próximo texto tratarei de resumir-lhes essas visões.

Porto Principe, 28 de setembro de 2007

Carta Maior
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Rádio elege Marx filósofo mais importante da história

EFE, em Londres

Karl Marx (1818-1883) foi eleito pelos ouvintes da Radio 4, da emissora britânica BBC, “o filósofo mais importante da história” .

O autor de “O Capital” pode ter perdido espaço no leste europeu e seu nome pode ter desaparecido de praças e ruas, mas seu prestígio parece ter sobrevivido à queda do muro de Berlim, pelo menos no Reino Unido, anunicou a rádio.

Marx recebeu 28% dos 30.000 votos dos ouvintes, ficando muito à frente do segundo lugar, o escocês David Hume.

Os jornalistas da revista “The Economist” tentaram, em vão, fazer uma campanha entre seus leitores para angariar votos a favor de Hume, grande representante do empirismo e defensor de um ceticismo moderado.

Hume, pensador anti-dogmático que influenciou na filosofia moral e nos trabalhos econômicos do amigo Adam Smith, o maior dos economistas clássicos, obteve apenas 12,7% dos votos.

Outros meios britânicos apoiaram diferentes filósofos. O jornal “The Guardian”, de centro-esquerda, apadrinhou outro alemão, Immanuel Kant, que ficou em sexto.

Com certo esnobismo, um jornal mais a esquerda, “The Independent”, inclinou-se pelo austríaco Ludwig Wittgenstein, iniciador da chamada Filosofia Analítica do século 20, e que ficou em terceiro da lista.

Vários famosos pediram voto para filósofos como o imperador romano Marco Aurelio, Friedrich Nietzsche e o dinamarquês Soren Kierkegaard. Platão, considerado por muitos o maior pensador de todos os tempos, ficou em quinto lugar com 5,65%, imediatamente atrás de Nietzsche (6,49%).

Nietzsche recebeu mais votos do que Kant, que obteve 5,61% e ficou em sexto; que São Tomás de Aquino (4,82%); e que os gregos Sócrates (4,82%) e Aristóteles (4,52%). Karl Popper foi o menos votado dos dez filósofos (4,20%), muito abaixo de seu compatriota e antigo rival de Oxford, Wittgenstein.

Marx

O filósofo votado pelos ouvintes como o maior de todos os tempos esteve por certo muito vinculado ao Reino Unido, onde foi jornalista, pesquisou o fenômeno da era industrial e foi durante anos assíduo visitante do Museu Britânico.

Seu túmulo, enfeitado com seu busto e que recebe homenagem dos partidos comunistas de todos os países, está no cemitério de Highgate, no norte da capital.

A popularidade de Marx é explicada pelo historiador marxista Eric Hobsbawm pelo fato de que, com o fim do comunismo, o autor de “O Manifesto Comunista” tenha sido libertado da deformação de seu pensamento nos antigos países do chamado socialismo real.

A feminista americana Camille Paglia se queixa de que na lista da BBC apareçam só filósofos homens, e propõe uma formada exclusivamente por pensadoras, que inclui Simone de Beauvoir, Hannah Arendt, Mary Wollstonecraft e a neo-platônica Hipátia, de Alexandria, que viveu entre os anos 370 e 415 de nossa era e foi matemática e astrônoma.

CONTRA A REPRESSÃO NA FSA

Nós, professores universitários, vimos a público manifestar nosso repúdio
à atitude arbitrária da Reitoria do Centro Universitário Fundação Santo
André, que apelou para a Força Tática da PM para expulsar de forma violenta os
estudantes que a ocuparam em protesto contra o aumento abusivo das
mensalidades.
Repudiamos também a presença da PM no campus universitário.
Relembramos ainda à Reitoria da Fundação Santo André de que o tempo do
arbítrio, quando questões sociais eram tratadas como caso de polícia, já
passou.
Todo apoio à luta dos professores e estudantes e contra qualquer punição
aos universitários e docentes.

Caio Navarro de Toledo
Prof. da UNICAMP

Cidade holandesa de 18 mil tem 19 igrejas

Stephen Castle
Em Urk, Holanda

Apesar de sua população não chegar a 18 mil, a cidade holandesa de Urk já conta com mais igrejas protestantes do que muitas cidades pequenas.

Mas, para esta comunidade pesqueira remota e tradicional, os 19 templos existentes não são suficientes, de forma que planos estão em andamento para construção de mais dois.

A uma hora de carro de Amsterdã, onde maconha é vendida abertamente em cafés e a prostituição é legal, Urk é um dos locais mais tementes a Deus na Europa.

Milhares aqui desprezam a televisão, teatro, cinema e dança. Muitos se vestem de preto e assistem três horas de culto aos domingos. E alguns se recusam a imunizar seus filhos ou a comprar seguro, pois acreditam que isto interfere com a vontade de Deus.

O assassinato de dois críticos do Islã, Pim Fortuyn, um político gay e oponente da imigração, e Theo Van Gogh, um cineasta, causou convulsões na Holanda, provocando um forte debate sobre a identidade nacional e a assimilação das minorias nas cidades holandesas.

Mas Urk faz parte de uma Holanda diferente, o coração da direita cristã do país que conta com dois partidos políticos -um deles ocupa o posto de vice-primeiro-ministro na coalizão de governo.

Se esta cidade ilustra algo da famosa tolerância dos holandeses -uma nação multicultural de 16 milhões de habitantes, mais de 3 milhões de origem estrangeira- é o fato dela se basear mais na coexistência do que em um desejo de integração social.

Enquanto a freqüência à igreja está em declínio por toda a Europa, em Urk a religião permanece um pilar da sociedade e os pastores estimam que 97% da cidade freqüente o culto dominical. Por haver tantos fiéis, as diferenças teológicas importam o suficiente para provocar divisões notáveis da fé protestante.

Na Holanda em geral, sete entre dez pessoas raramente assistem a um serviço religioso, segundo estatísticas de 2003. Um motivo para Urk desafiar as tendências modernas, seculares, está no fato de ter sido uma ilha além da costa até 1939, quando a terra foi resgatada do mar.

A cidade conta com um dialeto distinto e expressões únicas freqüentemente derivadas da marinhagem. Um antigo ditado de Urk diz: “Não se pode confiar em vento contrário e em mulheres que procuram prazeres”. De um lado os cidadãos de Urk estão ligados ao continente por terra recuperada, enquanto o porto da cidade, antes marítimo, margeia um grande lago de água doce chamado IJsselmeer. Os pescadores de Urk agora viajar por terra para chegar aos barcos ancorados em outros portos.

Socialmente conservadora, Urk é predominantemente branca (as estimativas do número de imigrantes varia de 20 a 60, incluindo um punhado de muçulmanos). Coabitação antes do casamento é quase desconhecida, as mulheres se casam jovens e as famílias freqüentemente são grandes. Um casal em Urk tem 18 filhos.

A cidade não têm igreja católica romana, sinagoga ou mesquita. Mas seguindo pela rua De Noord é possível contar sete igrejas protestantes em três quadras.

Na sala de estar de sua casa, William Middelkoop desenhou um diagrama com 12 linhas entrelaçadas para descrever a evolução das igrejas de Urk, que se dividiram desde os anos 60 devido a uma série de disputas teológicas.

No momento as 19 igrejas possuem prédios e, das três sem endereço permanente, duas estão planejando construir -incluindo a igreja Ichtus da qual Middelkoop é pastor.

Sua congregação de 800 se reúne em um ginásio esportivo, mas acabou de receber a permissão para reformar um prédio em igreja. O projeto custará 4 milhões de euros e deverá ser concluída em meados de 2009.

Middelkoop, 42 anos e nascido em Roterdã, lamenta a divisão das igrejas devido a disputas em torno da interpretação das escrituras.

“Satã ri quando vê isto”, disse Middelkoop. A questão, ele acrescentou, é: “É possível fazer parte de uma igreja que dá espaço para pastores não bíblicos?”

Uma das rixas teológicas mais significativas de meados do século 20 na Holanda foi sobre se a história de Adão e Eva devia ser aceita literalmente -em particular sobre se a serpente de fato falou.

Mas apesar das Igrejas Reformada e Cristã Reformada de Urk terem sobrevivido a este debate relativamente unidas, elas se dividiram desde os anos 60 em torno de quanto pensamento livre e teologia liberal é possível tolerar.

A Ichtus surgiu de uma aliança de igrejas que permitem que os fiéis duvidem das palavras literais das escrituras. Uma igreja não rígida segundo os padrões de Urk, sua congregação pode assistir televisão e dirigir no domingo.

Mas Middelkoop alerta seus fiéis a resistirem à tentação. “Você tem a lei do Senhor”, ele argumenta. “É preciso assistir a TV com os 10 Mandamentos do Senhor em sua mente, olhos e ouvidos. Quando você está com o controle remoto em sua mão, você não deve pensar ‘uau’, mas que tipo de decisão Jesus Cristo tomaria?”

O pastor da igreja mais rígida de Urk, a Jachin Boaz, se recusou a comentar, mas um ex-membro da congregação, falando sob a condição de anonimato por temer ofender a hierarquia da igreja, lembrou que “na infância não tínhamos TV, nem música popular e nem filmes. Nós vestíamos roupas pretas no domingo”.

Mas esta é uma comunidade unida e na qual as pessoas apóiam umas às outras, onde as pessoas conhecem seus vizinhos. “Eu tive uma boa infância”, ele disse. “Se você não tem TV, você lê um livro ou conversa com seu irmão ou irmã, seu marido ou sua esposa. Se você tem TV, você apenas olha para a TV.”

Como Urk conseguiu permanecer em outra era estando tão próxima das grandes cidades e centros de tentação da Holanda?

A resposta é que não conseguiu. Mesmo nos anos 60 a igreja mais rígida, a Jachin Boaz, foi sacudida por um escândalo quando foi descoberto que seu pastor tinha um filho fora do casamento, segundo um ex-morador que pediu que seu nome não fosse mencionado.

Ao receber um Mercedes de sua congregação, o mesmo pastor bateu seu carro, mas seus fiéis o substituíram após arrecadarem mais dinheiro. Posteriormente foi descoberto que o pastor tinha segurado o carro -contra o código da igreja- e resgatado o prêmio.

Com uma alta taxa de natalidade e uma grande população jovem, Urk tem um problema documentado com álcool e drogas, um que se torna mais evidente nas sextas e sábados, quando os pescadores voltam para casa.

Jaap Bakker, um ex-ancião da igreja Bethelkerk e um assistente social aposentado, aponta para o senso de comunidade, para a boa qualidade de vida familiar e para o retrospecto de filantropia da cidade.

Mas ele reconhece que, sob o exterior temente a Deus de Urk, se encontra uma realidade perturbadora. “Muitos jovens estão bebendo demais, as pessoas estão usando drogas. O que acontece em Amsterdã também acontece em Urk”, ele disse sentado no terraço da casa de seu filho.

No museu da cidade, o curador Hans Besselink disse que uma das coisas que torna Urk diferente é que aqueles que se comportam mal em uma noite de sábado invariavelmente estarão na igreja na manhã seguinte. Fortemente independentes, os fiéis de Urk não querem que lhes digam como orar, mas “se você estiver descontente com uma disputa teológica, ninguém se importa se iniciar uma nova denominação”.

Os fiéis de Urk, disse Besselink, não tentam converter pessoas e “são muito tolerantes em relação a culturas de fora” desde que possam proteger seu próprio modo de vida. A tolerância é uma virtude, ele acrescentou, mas “também pode significar falta de interesse”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

International Herald Tribune

Sob tensão crescente, Taiwan testa mísseis que visam China

NEW YORK TIMES

Ante a expansão militar de Pequim -que a considera uma Província rebelde- e em meio a declarações independentistas cada vez mais incisivas, Taiwan está levando adiante um plano para desenvolver mísseis que possam atingir a China continental, segundo especialistas em defesa e segurança.
De acordo com esses analistas, Taipé já testou, com sucesso, seu primeiro míssil de cruzeiro com alcance de 1000 km – o suficiente para atingir Xangai. Membros do partido governista confirmam a existência dos planos, que vêem como “essenciais” diante do aumento dos gastos militares chineses.
Pequim tem hoje 800 mísseis apontados para Taiwan, os quais ameaça disparar caso a ilha leve adiante uma tentativa de independência.
A tensão no estreito de Taiwan tem se elevado nos últimos meses com a defesa, pelo governo taiwanês, de um referendo para que a Província entre na ONU sob o nome de Taiwan. A entidade internacional, desde 1971, reconhece a política de “China única” e dá assento somente a Pequim.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem…
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio…

Mário Quintana

Dez mil alemães orientais espionaram para o Ocidente

Siobhán Dowling

E você que pensava que os alemães orientais espionavam muito. Um novo estudo mostra que os alemães ocidentais tinham 10.000 agentes espionando seus vizinhos comunistas. E sabiam sobre o Muro de Berlim antes dele subir.

É um fato sabido que a Alemanha Oriental tinha agentes por toda parte na Alemanha Ocidental durante a Guerra Fria. Até 6.000 deles, alguns em cargos altos, transmitiam informações regularmente para o leste pelo muro.

De acordo com um novo estudo publicado na sexta-feira (29/9), porém, os alemães ocidentais eram ainda melhores no recrutamento de espiões. Um total de 10.000 cidadãos da metade comunista da Alemanha estavam espionando para Bonn. Não só isso, mas a agência de inteligência da Alemanha Ocidental, Bundesnachrichtendienst (BND), tinha uma boa idéia dos planos de construir o Muro de Berlim, mas seus patrões em Bonn simplesmente não quiseram acreditar.

Os historiadores alemães Armin Wagner e Matthias Uhl estudaram os arquivos divulgados pela agência de inteligência exterior alemã (BND) cobrindo o período entre a formação da República comunista Democrática Alemã (RDA), em 1949, e a queda do muro de Berlim, em 1989. Em seu livro “BND Against the Soviet Army” (BND contra o exército soviético), eles revelam que a agência conseguiu recrutar milhares de pessoas de todas as camadas da sociedade alemã oriental para fazerem espionagem militar.

Justo antes do Muro de Berlim ser construído, no dia 13 de agosto de 1961, essa rede de espiões informou aos alemães ocidentais que algo grande estava sendo planejado. “A BND sabia que algo ia acontecer em julho e agosto”, disse Wagner ao Spiegel Online. A agência também sabia que um muro era um cenário realista e disse aos políticos em Bonn. “Mas eles não queriam aceitar a idéia”. A BND não soube precisar quando Berlim Ocidental seria selada. “Até uma semana antes da construção do muro, somente cerca de 60 pessoas sabiam que ia acontecer”, disse Wagner.

A espionagem militar na Alemanha Oriental era vital ao Ocidente no alto da Guerra Fria. De acordo com Wagner, a força de 400.000 soldados soviéticos na Alemanha Oriental era a divisão mais forte do Exército Vermelho em todo o bloco oriental. O Ocidente temia que um ataque pudesse ser lançado da RDA contra a Alemanha Ocidental e a Otan. “Eles precisavam de (missões de) reconhecimento”, diz ele.

Foi aí que os espiões entraram. A agência alemã ocidental recrutou milhares de alemães do outro lado para mantê-la informada de qualquer movimentação militar.

A motivação dos espiões alemães orientais variava enormemente. Para muitos, a decisão de espionar era provocada por um profundo anticomunismo. Mas outros o faziam por aventura, ou devido a laços de família ou, simplesmente, como favor para antigos amigos do exército antes da guerra. Também houve compensação financeira, apesar dos autores do estudo acreditarem que isso era menos importante como motivação, particularmente porque era impossível gastar o dinheiro da Alemanha Ocidental do outro lado. “Contas bancárias algumas vezes eram abertas em seus nomes. Assim, se jamais deixassem a RDA, teriam um capital inicial”, diz Wagner.

A Alemanha Oriental era melhor no jogo de espionagem
Antes de 1961, era relativamente fácil recrutar espiões e acessar as informações que reuniam. De acordo com Uhl, a BND já tinha recrutado 5.000 alemães orientais em 1955, a maior parte deles das fileiras do exército alemão derrotado. Apesar de as coisas ficarem mais difíceis após o muro subir, uma rede já tinha sido estabelecida; novos espiões já haviam sido recrutados, por exemplo, por professores universitários conservadores ou jornalistas. A BND também aumentou sua dependência das informações passadas por turistas alemães ocidentais na GDR.

O mesmo jogo, é claro, também estava sendo jogado do outro lado. Wagner salienta que “havia muitos na Alemanha Ocidental, particularmente na geração de 68, que eram atraídos pela ideologia comunista e estavam prontos a ajudar a RDA”.

E apesar da Alemanha Ocidental ter 4.000 espiões a mais do que a Alemanha Oriental, os agentes da RDA eram significativamente mais bem sucedidos no jogo de espionagem. A inteligência alemã ocidental, por exemplo, nunca conseguiu colocar agentes no alto do governo da Alemanha Oriental, enquanto Bonn estava cheia de agentes. O mais famoso foi Günter Guillaume, que se tornou assessor do chanceler Willy Brandt. Ele foi descoberto em 1974, o que levou à renúncia de Brandt.

O que mais surpreendeu os autores do estudo, entretanto, foi como a espionagem se tornou parte do cotidiano. Não eram agentes profissionais, mas pessoas comuns, “donas de casa e estudantes”.

“As Alemanhas Ocidental e Oriental têm que ser consideradas juntas”, conclui Wagner. “Apesar da divisão em dois Estados, a espionagem dos dois lados mostra como as pessoas estavam conectadas.”

Tradução: Deborah Weinberg

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

LA GEOPOLÍTICA DE LOS AGROCOMBUSTIBLES

Documento de posición del Sur Global sobre Soberanía Alimentaria, Soberanía Energética y la transición hacia una sociedad post-petróleo

Convocadas a la primera reunión de trabajo para discutir sobre los agrocombustibles y el reto del “desarrollo” en una sociedad post-petrolera, las organizaciones reunidas en Ecuador, latitud 0, del 27 de junio al 01 de julio de 2007, invitamos al debate desde el Sur Global en los siguientes términos:

Denominados apropiadamente por los movimientos sociales como AGROCOMBUSTIBLES, los llamados “biocombustibles” y toda la generación de energía a través de la biomasa tal como viene sido promovida por gobiernos, corporaciones, agencias de ayuda, las Naciones Unidas, las instituciones financieras internacionales y demás agentes interesados en su producción a gran escala y en su comercio internacional – NO cambian, sino que PERPETUÁN el modelo de producción y consumo de la civilización moderna, urbana y industrial.

La crisis ecológica y energética que se impone sobre todo el Planeta, junto a la urgencia ineludible de frenar el calentamiento global y dar paso a una transición hacia una sociedad y una economía post-petrolera, nos obligan a un análisis más profundo y a generar cambios políticos realmente transformadores.

Reconociendo que tenemos una tarea necesaria de buscar energías alternativas, es imprescindible plantear la estrategia global en curso de promoción febril de la agro- energía en sus términos estructurales.

Los hidrocarburos son la principal fuerza motriz de la economía globalizada, donde la extracción y control de los combustibles fósiles tiene intrínseca relación con las redes de poder que controlan el mundo a través del control de la energía. Además, podemos ratificar que en esta civilización petrolera las principales desgracias, catástrofes climáticas, guerras, hambrunas, desplazamientos forzados y la esclavitud están vinculadas precisamente al control militar del territorio y de la energía fósil.

La matriz energética/industrial basada en combustibles fósiles, que sustenta la actual civilización urbana industrial y el estado de desarrollo se encuentra en crisis. Vivimos en el momento en el que estas fuentes de energía estén agotándose, por lo que el capitalismo imperativamente busca nuevas formas de generación de energía, incluyendo los agrocombustibles. Desde nuestra perspectiva como países agroexportadores del Sur, sometidos a esta condición bajo la lógica de la deuda externa y de nuestra historia colonial, los agrocombustibles profundizan el modelo del agronegocio y de la agricultura industrial, entendida como la sumatoria de monocultivos, biotecnología, agrotóxicos y capital financiero y exportación.

Los agrocombustibles significan la instalación de una nueva geopolítica global

1. Antecedentes y ejes de resistencia: La Soberanía Alimentaria

El modelo de agricultura industrial iniciado con la Revolución Verde es petro-dependiente en energía e insumos, y el fin de uno significa el ocaso de la otra. Además, la raíz histórica de los monocultivos industriales actuales fueron las plantaciones, un invento colonial, que hoy reproduce y multiplica su racionalidad y lógica productiva correspondiente.

El control del sistema agroalimentario mundial constituye uno de los principales componentes de la globalización. Los efectos de las políticas neoliberales en el campo, la expansión de la agro biotecnología, la proliferación de los acuerdos de libre comercio, incluyendo la lucha en contra de un Acuerdo sobre Agricultura en la OMC, fueron la fuerza catalizadora de un movimiento campesino internacional (La Vía Campesina). Del mismo modo, la resistencia de los Pueblos Originarios se viene fortaleciendo frente a la privatización de recursos y ecosistemas naturales en territorios indígenas.

La propuesta política de esos movimientos es la “Defensa de la Soberanía Alimentaria”, que se expresa en el derecho de los pueblos a decidir y controlar sus políticas de producción, distribución y consumo de alimentos, y la comercialización o no de excedentes, sólo después de haber garantizado las necesidades de la población con los recursos propios de su territorio y en un patrón cultural y ambientalmente adecuado. Esta es una propuesta radical que exige la transformación de las economías agroexporadoras del Sur y en el patrón de consumo en el Norte.

En tanto la protección de recursos naturales como la tierra y el agua es inseparable de la práctica de la agricultura, las decisiones sobre su uso y manejo no pueden ser tomadas por productores individuales en función de la propiedad privada de la tierra. Por eso, la Soberanía Alimentaria como principio político propone que la autodeterminación de los pueblos sea garantizada por la decisión colectiva sobre la producción de alimentos, y actividades agrícolas, pastoriles, pesqueras o recolectoras, enfatizándola como principio fundamental.

Tomando en cuenta la riqueza del debate político colectivo desarrollado por los movimientos sociales, planteamos el tema de los agrocombustibles – que ya los definimos como una profundización del agronegocio – en los términos de la Soberanía Alimentaria.

La industrialización del agro es consustancial a la expulsión del campesinado y configura una agricultura sin agricultores, afectando desde el campo a toda la sociedad. Implica el despojo de comunidades y sus territorios, la concentración y privatización de la tierra y fuentes de agua, la erosión de la biodiversidad, la destrucción de ecosistemas naturales, y la violencia y militarización en función del control de recursos naturales.

Este proceso de marginación que se inicia en el campo agudiza el circuito insostenible de la urbanización acelerada, que da lugar a la crisis de energía, infraestructura, viviendas, alimentación, salud y otros servicios básicos, puestos de trabajo y acceso a los alimentos en las ciudades. La pobreza urbana genera violencia, conflictos y el malestar social que caracteriza a las grandes ciudades del Sur.

Éste es un proceso global, hegemónico y dialéctico, que ha conducido a una crisis ecológica y energética incuestionable. Por ello no son aceptables las respuestas tecnológicas como las semillas transgénicas, ofrecidas como una solución al “hambre”, cuando su propósito final es el control de la producción agrícola, la imposición de los derechos de propiedad intelectual, y la mercantilización de la vida y la Naturaleza. Ni los agrocombustibles, promovidos para solucionar una posible crisis energética, o como falsa solución al cambio climático, sin tener en cuenta cuestiones estructurales que han generado grandes conglomerados urbanos que son abastecidos por mercancías transportadas desde distintos lugares del planeta, y que obligan a la gente a desplazarse cada vez a distancias más grandes, lo que genera una demanda interminable de energía.

La solución tampoco puede ser a través de instrumentos mercantiles como el comercio de carbono, la venta de servicios ambientales, las certificaciones verdes, las mesas redondas “sustentables”, la inserción de las plantaciones de carbono en los proyectos del Mecanismo de Desarrollo Limpio del Protocolo de Kyoto y otras creaciones promocionadas por el ambientalismo de mercado, instrumentos que generan más problemas que los que solucionan, y a cuyas propuestas y posiciones nos oponemos radicalmente.

La ideología del “desarrollo”, elaborada después de la segunda guerra mundial como una manera de extender el colonialismo, oculta la continuidad y profundización de la lógica de saqueo. Alrededor de esta ideología se crearon prácticas, instituciones y estructuras que a nombre del desarrollo, prolongaron y diversificaron las formas de saqueo en el Sur. A finales del siglo XX, el desarrollo se vistió de verde y se acuñó el término “desarrollo sustentable”, que lo que hace en realidad es “sustentar” la dominación y el abastecimiento colonial.

Los puntos expuestos arriba son el resultado del debate mantenido durante nuestra reunión y expresan el conjunto y complejidad de las reflexiones que hicimos sobre el tema. Consideramos que estos puntos son no-negociables. Si usted comparte nuestra visión, le invitamos a continuar con la lectura.

2. La geopolítica de los agrocombustibles

El sometimiento de los sistemas agrícolas locales al modelo industrial y a una demanda energética exógena, es una cuestión política que implica relaciones de poder sobre los ecosistemas y los pueblos. Este poder se manifiesta en dos niveles bien definidos:

Primero.- La actual dependencia mundial de combustibles fósiles se satisface mediante una geopolítica de guerra.

Para garantizar el control de los recursos hidrocarburíferos, y ahora a los agrocombustibles, los países industrializados y sus corporaciones transnacionales, han desarrollado mecanismos tanto económicos y financieros como político y militar. En este sentido, se han diseñado acuerdos comerciales internacionales que permiten el libre acceso a los recursos a través de leyes del mercado. Estos tratados mercantiles, bilaterales o multilaterales, van de la mano con la expansión de proyectos de infraestructura (ductos para transportar gas, petróleo, minerales y hoy agrocombustibles como etanol o biodiesel; carreteras, hidrovías, puertos, infraestructura de procesamiento, almacenamiento y expendio de combustibles, tendidos eléctricos, etc.). Las instituciones financieras internacionales, a través de diversas estrategias y mecanismos, entrampan a los países en una espiral de dependencia y muerte, por ejemplo a través de la deuda. Cuando un gobierno o su pueblo se platea romper con esta dependencia, corre el riesgo de sufrir represalias económicas, políticas o militares. La geopolítica del petróleo está diseñada no sólo para tener acceso a los hidrocarburos, sino para controlar su distribución. Esto explica muchos de los conflictos armados en el Medio Oriente, Afganistán y el Caucazo, donde se juega control de las rutas del transporte del crudo del Caspio, por parte de empresas estadounidenses, europeas y rusas, y sus gobiernos.

Así como se configuró una nueva geopolítica para asegurar el acceso a los combustibles fósiles, de la misma manera se está configurando en torno a los agrocombustibles una nueva correlación de fuerzas a nivel mundial. El ejemplo más nítido es la alianza Lula-Bush (Brasil y Estados Unidos) para la creación de un mercado mundial de commodities agroenergéticos, que ya se traduce en un reacomodo del poder global. Es así como el anuncio efectuado por Brasil sobre el reinicio de su programa nuclear y el ciclo de enriquecimiento de uranio, no generó la oposición que han enfrentado países como Irán o Corea del Norte, pues hoy Brasil forma parte de los países que conforman el círculo de amigos de Bush y del poder de intereses estadounidense.

Aclaramos categóricamente y sin ninguna ambigüedad, que la energía nuclear es inaceptable, esta posición es no-negociable, sin importar la razón por la cual la energía nuclear sea promovida. La humanidad y el ambiente ya ha experimentado suficientes impactos y sufrimientos por sus consecuencias.

Segundo.- La geopolítica de los agrocombustibles impone un reordenamiento territorial a nivel global.

Este reordenamiento significa, en este primer momento, la desterritorialización de cultivos alimentarios para la producción de insumos energéticos, con los impactos en cadena sobre toda la economía y los costos, por la obvia competencia de precios con los alimentos (como ya se observa en la subida de precios del maíz y aceites en distintas partes del mundo, y cuyo ejemplo más paradigmático fue la guerra de las tortillas en México, a inicios de 2007).

En un nivel más amplio, y ya relacionado a la segunda generación de agrocombustibles a partir de especies no alimenticias (eucalipto, switch grass, miscanthus, entre otros) la ocupación de la tierra a escala creciente y progresiva para ‘remplazar’ al petróleo, impactará más gravemente a la población rural, generando fuertes flujos migratorios, además de una reducción drástica en la producción y oferta de especies alimenticias con la consiguiente alza en los precios y menores posibilidades de acceso a la alimentación.

Esta presión sobre los territorios se va a acentuar, como resultado del lema repetido por sus promotores quienes sostienen que los agrocombustibles se van a asentar en las llamadas “tierras marginales” o “áridas”, que en realidad son las tierras más allá de la actual frontera agroindustrial y que son las que justamente alimentan a la gran mayoría de la población pobre y campesina, y los pueblos indígenas de África, Asia y América Latina con cultivos no comerciales como varias especies de tubérculos y hortalizas. Son en estas tierras marginales donde se intenta introducir millones de hectáreas con cultivos de Jatropha, que está siendo promovido como un cultivo milagroso en regiones áridas de la India, el Sahel y África Occidental.

En síntesis, la reproducción del capitalismo en una sociedad en transición hacia la era post petrolera depende en este momento de la incorporación y control, incluso militar, de gigantescas extensiones de territorio. Así, el eje de la resistencia es asegurar la integridad de la soberanía sobre los territorios, garantizando alimentos y energía local: construyendo la soberanía energética y alimentaria; y redefiniendo la soberanía política.

3. Las grandes rutas de los agrocombustibles

Al momento identificamos las siguientes grandes rutas centrales de flujo de agrocombustibles desde el Sur:

a. El abrazo del etanol. Brasil y Estados Unidos y el corredor de América Central.

La alianza estratégica y mediática entre Lula y Bush, los dos países lideres mundiales en la producción de etanol (caña de azúcar y maíz respectivamente) tiene un objetivo claro: definir una nueva geopolítica para América Latina (petróleo versus agrocombustibles) a través de impulsar la creación de un mercado internacional de commodities agroenergéticas con la realización de una “Conferencia Internacional sobre Biocombustibles”, auspiciada por la ONU en Brasil en julio del 2008.

En este contexto Brasil tiene como proyecto político – convertirse en el principal proveedor de agrocombustibles y de tecnología para etanol. Para eso, el presidente Lula se perfila como nuevo líder mundial y Brasil como la potencia del Sur, para lo cual se han establecido alianzas estratégicas con China, India, Sudáfrica etc., aspirando a acceder al Consejo de Seguridad de la ONU. En el plano económico, el interés de Brasil es acceder al mercado de los Estados Unidos y Europa, vía las ventajas arancelarias que tienen países de Centro América y Caribe. Por eso quiere expandir la producción de caña de azúcar y palma aceitera, y plantas de procesamiento a esos países.

El Plan Nacional de Agroenergía de Brasil estima como área potencial para expansión de cultivos energéticos la cifra de 200 millones de hectáreas, incluyendo la “recuperación de áreas degradadas, reconversión de pastos y ‘reforestación’ de la Amazonia con palma”. Para poner en marcha el Plan, se tiene que construir una red de Alcohol-ductos, plantas de acopio, procesamiento, puertos, carreteras e hidrovías, lo que incrementará el uso de hierro proveniente de las minas del Gran Carajás, la destrucción de ecosistemas naturales y del tejido social en esta región de Amazonia, además de incrementar dramáticamente la producción de cemento y concreto, una de las industrias más energívoras.

b. De granero del mundo a refinería global. La soja transgénica en Argentina y el Cono Sur.

Transformar el paisaje del campo argentino en un monocultivo de 17 millones de hectáreas de soja transgénica sólo tomó 10 años – reemplazando la producción de cereales, carne y otros alimentos por la de sólo un commodity para la exportación, concentrada en manos de las principales trasnacionales del comercio internacional. Ahora siendo el primer exportador mundial de aceites, Argentina busca convertirse el principal proveedor para la demanda europea de biodiesel, para lo cual el gobierno argentino ya solicitó aranceles preferenciales a la Unión Europea.

La apuesta del agronegocio en la exportación de agrocombustibles ha puesto funcionar un engranaje de producción de biodiesel en asociación con capitales nacionales como Vicentín, AGD-Bunge S.A y SACEIF – Louis Dreyfus, y del sector petrolero Repsol-YPF y la nacional ENARSA que participan en proyectos de entre 25 y 30 millones de dólares.

Para suplir la demanda de exportación de aceites y granos, sumada ahora a la del biodiesel de soja, y además cumplir los requerimientos internos legislados de de incorporar obligatoriamente un porcentaje de agrocombustible en los combustibles fósiles –se programa la deforestación de entre 4 y 7 millones más de hectáreas de bosques nativos para avanzar con la frontera sojera, el desplazamiento de montes frutales y de cultivo de hortalizas y los cultivos bajo riego en la Patagonia, así como la importación de 3 a 4 millones de toneladas de soja provenientes de Bolivia, Brasil, y especialmente Paraguay.

Por ello se ha acelerado la concreción de la hidrovía Paraguay-Paraná, vía de escurrimiento de los commodities producidos en territorio interior hasta el puerto de Rosario (y zona de refinamiento), proyectada en el marco de la Iniciativa para la Integración de la Infraestructura Sudamericana (IIRSA) que incluye la construcción de carreteras, hidrovías y represas, con inversiones significantes del sector privado en la extracción de recursos y la agroindustria.

Esta es la columna vertebral que consolida el proyecto político y territorial del agronegocio en el Cono Sur, que trasciende las fronteras de los Estados para establecer un área de expansión de la producción y movimiento de commodities para exportar al norte, que se consolida con la producción de agrocombustibles.

c. La amarga historia del aceite de palma. Las plantaciones de palma en ecosistemas naturales y territorios indígenas

Al momento, el 88% del comercio mundial de aceite de palma proviene de Malasia e Indonesia, lo que obedece a una expansión del área cubierta por este cultivo. En los últimos 20 años la producción se duplicó en Malasia y se triplicó en Indonesia, a costa de la desaparición de sus bosques tropicales. El crecimiento de las plantaciones de palma en Malasia e Indonesia responden a la creciente demanda de aceite de palma especialmente para el mercado europeo.

A pesar de la defensa oficial de que la industria de la palma aceitera no ha producido deforestación, el gobierno de Sarawak, en el Borneo malayo, aceptó que se ha concesionado 2,4 millones de hectáreas de bosques para la industria palmícola y de la pulpa y papel, extensión que puede llegar a 3 millones de hectáreas ha finales del 2007, que constituyen una cuarta parte del área total de Sarawak. Las plantaciones industriales de palma con frecuencia son propiedad de empresas madereras transnacionales, las que una vez que deforestan una zona para la extracción de la madera, la siembran con monocultivos de palma, transformando el bosque en aceite.

Aun cuando estos bosques son reclamados por comunidades indígenas como parte de sus territorios tradicionales, y aunque muchas de estas comunidades dependen de los recursos del bosque para su subsistencia, ni la legislación ni el gobierno han reconocido totalmente sus derecho consuetudinario; y a pesar de sus continuas protestas, las plantaciones de palma continúan extendiéndose.

El aceite de palma se perfila como la principal fuente para la producción de biodiesel a costa de ecosistemas naturales y territorios indígenas también en otros países tropicales, constituyendo el caso más preocupante el de Colombia, donde las plantaciones de palma se extienden de la mano del paramilitarismo, desplazando a poblaciones enteras.

La expansión de los cultivos de palma en Malasia, Indonesia y otros países tropicales, responden al aumento en la demanda de aceite de palma en el mercado mundial, sobre todo luego del incremento en las metas que se han impuesto en la Unión Europea para reemplazar combustibles fósiles por agrocombustibles.

d. África: en la vía hacia un mayor saqueo

Del colosal número de actores relacionados con la promoción de agrocombustibles en África, Brasil se perfila como el más estratégico y rapaz.

El Brasil se ha volcado hacia el continente africano, al que lo ve como una pieza importante en sus ambiciones de crear un mercado global para el etanol. Este país ha logrado de manera exitosa obtener el apoyo de varios países africanos, como Senegal y Benin a través de acuerdos bilaterales y trilaterales de cooperación, y se ha apuntalado en la Unión Africana, pasando por alto varias agencias de las Naciones Unidas, para asegurarse la implementación de instrumentos legales y económicos armonizados para sostener un mercado viable de agrocombustibles. A través del Foro Internacional de Biocombustibles, Brasil con sus socios China, India, Sudáfrica, los Estados Unidos y la Unión Europea, promoverán agresivamente un mercado internacional para agrocombustibles, sin importarles el resto del mundo, y así asegurar que el etanol se convierta en una commodity en el mercado internacional. Para conseguir estos objetivos, las plantaciones de caña, silenciosas y estériles proliferarán en los suelos africanos, otrora dedicados al cultivo de alimentos.

En este contexto, varias transnacionales de la energía como BP, D1 Engrasa y Petrobras han iniciado proyectos de agrocombustibles en África, para producir de manera indiscriminada ya sea combustibles fósiles o agrocombustibles, en países tan pequeños como Suazilandia o potencias petroleras como Nigeria. Estas empresas depredadoras sostendrán cualquier aventura, a cualquier costo social y ambiental, si es que esto va a contribuir a su estrategia global de prolongar el pico del petróleo. Países como Ghana, las grtandes plantaciones de Jatropha están fuertemente relacionadas con el mercado de carbono en el marco del Protocolo de Kyoto.

El escenario político en África está listo para la producción a gran escala de agrocombustibles. Mozambique ha sido elegido como el líder en el Sur de África. A través de la empresa petrolera estatal se espera tener una inversión de 55 millones de dólares para proyectos con caña de azúcar y Jatropha, y así suplir al mercado regional e internacional de etanol y biodiesel.

MANIFIESTO POR EL DES-DESARROLLO : EL CAMINO QUE PROPONEMOS DESDE EL SUR

Los agrocombustibles y toda la generación de energía a través de la biomasa tal como viene sido promovida por gobiernos, corporaciones, agencias de ayuda, las Naciones Unidas, las instituciones financieras internacionales y demás agentes interesados en su producción a gran escala y en su comercio internacional – no cambian, sino que perpetúan el modelo de producción y consumo de la civilización moderna, urbana y industrial que ha generado inequidad, guerra, destrucción ambiental.

El ocaso de la civilización petrolera y la reproducción del capitalismo

La reproducción del estado actual de la civilización occidental depredadora, cuya forma es el neoliberalismo globalizado, tiene como base material al petróleo.

Todas las fuerzas motrices detrás de la producción, circulación y comercialización global de mercancías dependen de los hidrocarburos: la industria hidrocarburífera en si misma, la industria agroalimentaria, las compañías farmacéuticas, de fibras textiles, las industrias involucradas en la producción de detergentes, cosméticos, explosivos, celuloide, plásticos en general, materiales de construcción, embalajes, electrodomésticos, etc. De la misma forma, el transporte global de personas y materiales, la movilidad y velocidad con la cual los trabajadores y los productos se mueven y son intercambiados alrededor del globo, dependen también de los combustibles fósiles, ya sea por la dependencia que se ha creado en torno al automóvil; por la manera como se han diseñado, construido y expandido las megalópolis, o por la forma de ocupación del espacio urbano y otros territorios.

La demanda de energía y materias primas para suprimir y mantener el patrón de vida de las sociedades del Norte, traducida cotidianamente en alimentación, vestuario, vivienda y movilidad es la que da carne y cuerpo al ideal universal de estilo de vida, bienestar y “progreso” promovidos agresivamente a través de la globalización como un patrón universal para la humanidad.

En el actual paradigma de “crecimiento” orientado hacia la integración del mercado y el comercio global, los agrocombustibles son impulsados como substitutos paulatinos del petróleo para mantener patrones ambientalmente insustentables de producción y consumo del Norte. Frente a eso, entendimos que el estilo de vida promovido por el Norte y las elites del Sur y que alcanza su máxima expresión en el llamado “American way of life” es lo que debe ser transformado. Son los principales consumidores de energía, Estados Unidos junto con Europa Occidental y a quienes se suman hoy, China y las elites minoritarias del Sur.

China, la gran fábrica del mundo, reproduce el modelo de producción y consumo creado por el Norte, al tiempo que abastece al mercado mundial, sobretodo del Norte, con todo lo que éste consume. Entendemos que el modelo de crecimiento de China no es un modelo para el Sur.

La materialidad de todo lo que hace parte de la vida cotidiana de los países “desarrollados”, promocionados al mundo como modelo universal de bienestar material, calidad de vida y progreso humano, depende enteramente de una demanda energética y ecológica irracional, construida históricamente a través del saqueo continuo de la naturaleza y los pueblos del Sur. Para el Sur del mundo este modelo “petrolero” permitió perpetuar el intercambio desigual, la dependencia tecnológica, el endeudamiento, el empobrecimiento de los pueblos, el despojo de sus territorio y la desacralización de sus lugares sagrados. Hemos experimentado, desde el SUR, que el patrón de vida que la minoría del Planeta disfruta, se mantiene con la explotación de la Naturaleza y el trabajo humano, para alimentar los flujos de mercancías y servicios que han causado históricamente los cambios climáticos, el calentamiento global y la dominación colonial del Norte sobre el Sur.

En síntesis: el impulso prioritario de los agrocombustibles como substitutos paulatinos del petróleo, es mantener la circulación global de mercancías y la demanda ambientalmente insustentable de energía y materias primas para promover como ideal universal el patrón de vida de las sociedades del Norte, en su lógica histórica de dependencia y explotación colonial sobre los ecosistemas y pueblos del Sur.

Nuestra respuesta a la falacia del balance energético positivo de los agrocombustibles es la verificación histórica de la devastación ecológica y social generada por la Revolución Verde – petrodependiente – y con los efectos imputados a la agricultura industrial, que ha resultado en la pérdida de 75% de la biodiversidad a lo largo del último siglo, según la FAO; además de haber promocionado la desarticulación de las agriculturas y mercados locales para imponer el sistema agroalimentario mundial a través de las corporaciones que controlan la cadena productiva con la mayor concentración de poder en el mundo – los agronegocios.

Entendemos que la única forma de superar la crisis climática y energética que amenaza definitivamente la continuidad de toda la Vida en el planeta es la superación del capitalismo.

La transición hacia una sociedad post-petrolera y un nuevo sentido del “desarrollo”, en la construcción de una Vía de superación del capitalismo, será sobre bases ecológicas; o no podrá ser.

La cuestión energética, así como la producción de alimentos, son los ejes concretos e indivisibles de resistencia y de construcción de otro proyecto de sociedad, y de nuevas relaciones de intercambio entre los pueblos de la humanidad, y de estos con la naturaleza; y así subvertir – de facto – la lógica colonial y de subordinación.

Acordamos que la lógica política de la nueva sociedad global en esta ruta de transición – y la estrategia de autonomía de los pueblos sobre sus territorios – deberá orientarse a partir de la premisa central de garantizar la Soberanía Energética en acuerdo y complementariedad con la defensa radical de la Soberanía Alimentaria.

Por lo tanto, el único debate consecuente sobre agrocombustibles debe enmarcarse en un nuevo paradigma de des-desarrollo que incluya una transformación estructural radical de toda la economía y de nuestro estilo de vida y el desmantelamiento del macro sistema energético que sustenta y garantiza el poder global.

Son ejes del des-desarrollo:

* des-urbanizar, para restituir la existencia de la población a escala humana, supliendo las necesidades en el mercado local y con fuentes de energía locales.
* des-globalizar el comercio y el transporte de mercancías, sobre todo agrícolas y alimentarias, para atacar la principal fuente de consumo de combustibles líquidos: los camiones refrigerados que transportan toda la cadena de carnes y lácteos, los aviones que transportan flores y frutas tropicales; los gigantescos navíos cerealeros movidos a diesel para llevar soja a Europa y a China, etc.; que generan un flagrante balance energético negativo, y que sostiene el discurso ilusorio del “crecimiento”.
* Des- tecnologizar la producción de alimentos, a partir de tomar a los sistemas productivos como agroecosistemas donde la biodiversidad y la nutrición adecuada de los suelos reemplacen a las tecnologías puntuales y contaminantes de derivadas del petróleo.
* des-petrolizar la economía, la mejor política contra el cambio climático es la eliminación de los combustibles fósiles, dejando el petróleo y el gas en el subsuelo. Eso no debe confundirse con soluciones ficticias como el “descarbonizar la economía” o sea, promocionar el mercado de carbono, los mecanismos de desarrollo limpio y la implementación conjunta que perpetúan el modelo petrolero destructivo, bajo la lógica del mercado.
* des-centralizar la generación y distribución de energía, a través de tecnologías que no recreen la dependencia, y que garanticen el abastecimiento de acuerdo a las necesidades de la población local, lo que se diferencia de promover la privatización de la energía, aun de fuentes “alternativas” bajo el argumento de “proveer acceso de energía para los pobres”. En otras palabras: recuperar y defender el principio de la energía como un servicio y no un negocio y una mercancía ofrecida en el mercado. En esta línea de argumentación debe construirse la Soberanía Energética.

Se trata de abrir esta agenda de debate en el seno de los sectores de “izquierda” en nuestras distintas regiones del globo, replanteando en estos términos radicales el entendido de una propuesta de enfrentamiento y superación del capitalismo en acuerdo con las contradicciones de la acumulación, en este momento histórico.

Por el rol estratégico de la región Latinoamericana en la promoción y instalación del modelo global de Agroenergía, y en vista a la Conferencia Internacional de Biocombustibles, auspiciada por la ONU, a ser realizada en Brasil en julio de 2008, reafirmamos nuestra tarea de cuestionar entre los gobiernos promotores del “Socialismo del Siglo XXI” cual será el modelo energético que sustentará esta propuesta, sin aceptar cooptaciones nacionales al modelo propuesto por el capital.

Para que esta visión sea el fundamento de un programa político de la era post-petrolera, los abajo firmantes nos comprometemos a replantear nuestros posicionamientos – sin concesiones – como lo impone la radicalidad de la crisis ecológica y en

Carta del Presidente Evo Morales a los representantes miembros de la Naciones Unidas sobre el medio ambiente

Respetemos a nuestra Madre Tierra

Evo Morales Ayma

Hermanas y hermanos Presidentes y Jefes de Estado de las Naciones Unidas: El mundo tiene fiebre por el cambio climático y la enfermedad se llama modelo de desarrollo capitalista. Mientras en 10.000 años la variación de dióxido de carbono (CO2) en el planeta fue de aproximadamente un 10 por ciento, en los últimos 200 años de desarrollo industrial, el incremento en las emisiones de carbono ha sido de un 30 por ciento. Desde 1860, Europa y Norteamérica han contribuido con el 70 por ciento de las emisiones de CO2. El 2005 ha sido el año más caluroso de los últimos mil años en el planeta.

Diferentes investigaciones demuestran que de 40.170 especies vivas estudiadas, 16.119 están en peligro de extinción. Un pájaro de cada ocho puede desaparecer para siempre. Un mamífero de cada cuatro está amenazado. Un anfibio de cada tres puede dejar de existir. Ocho crustáceos de cada diez y tres insectos de cada cuatro están en riesgo de extinguirse. Vivimos la sexta crisis de extinción de especies vivas en la historia del planeta Tierra y, en esta ocasión, la tasa de extinción es 100 veces más acelerada que en los tiempos geológicos.

Ante este futuro sombrío, los intereses transnacionales proponen seguir como antes y pintar la máquina de verde, es decir, seguir con el crecimiento y el consumismo irracional y desigual generando más y más ganancias sin darse cuenta de que actualmente estamos consumiendo en un año lo que el planeta produce en un año y tres meses. Ante esta realidad, la solución no puede ser el maquillaje ambiental.

Para mitigar los impactos del cambio climático leo en informes del Banco Mundial que hay que acabar con los subsidios a los hidrocarburos, ponerle precio al agua y promover la inversión privada en los sectores de energía limpia. Nuevamente quieren aplicar las recetas de mercado y privatización para hacer negocios con la propia enfermedad que estas políticas producen. Lo mismo sucede en el caso de los biocombustibles puesto que para producir un litro de etanol se requieren 12 litros de agua. De igual forma, para procesar una tonelada de agrocombustibles se necesita, en promedio, una hectárea de tierra.

Ante esta situación, nosotros -los pueblos indígenas y los habitantes humildes y honestos de este planeta- creemos que ha llegado la hora de hacer un alto para reencontranos con nuestras raíces, con el respeto a la madre tierra; con la Pachamama como la llamamos en los Andes. Hoy, los pueblos indígenas de América Latina y del mundo estamos convocados por la historia para convertirnos en la vanguardia de la defensa de la naturaleza y de la vida.

Estoy convencido de que la Declaración de las Naciones Unidas sobre los Derechos de los Pueblos Indígenas, aprobada recientemente después de tantos años de lucha, tiene que pasar del papel a la realidad para que nuestros conocimientos y nuestra participación nos ayuden a construir un nuevo futuro de esperanza para todos. Quién sino los pueblos indígenas podemos señalar el rumbo de la humanidad para la preservación de la naturaleza, de los recursos naturales y de los territorios que habitamos ancestralmente.

Necesitamos un golpe de timón de fondo y a nivel mundial para dejar de ser los condenados de la tierra. Los países del norte tienen que reducir sus emisiones de carbono entre un 60 y un 80 por ciento si queremos evitar que la temperatura de la tierra suba más de 2 grados en lo que queda de siglo provocando que el calentamiento global alcance proporciones catastróficas para la vida y la naturaleza.

Tenemos que crear una Organización Mundial del Medioambiente con fuerza vinculante, y disciplinar a la Organización Mundial del Comercio empeñada en llevarnos a la barbarie. Ya no podemos seguir hablando de crecimiento del Producto Bruto Nacional sin tomar en cuenta la destrucción y el derroche de los recursos naturales. Tenemos que adoptar un indicador que permita considerar, de manera combinada, el Índice de Desarrollo Humano y la Huella Ecológica para medir nuestra situación medioambiental.

Hay que aplicar fuertes impuestos a la superconcentración de la riqueza y adoptar mecanismos efectivos para su redistribución equitativa. No es posible que tres familias tengan ingresos superiores al PIB conjunto de los 48 países más pobres. No podemos hablar de equidad y justicia social mientras continúe esta situación.

Los Estados Unidos y Europa consumen, en promedio, 8.4 veces más que el promedio mundial. Por ello, es necesario que bajen sus niveles de consumo y reconozcan que todos somos huéspedes de una misma tierra; de la misma Pachamama.

Sé que no es fácil el cambio cuando un sector extremadamente poderoso tiene que renunciar a sus extraordinarias ganancias para que sobreviva el planeta Tierra. En mi propio país sufro, con la frente en alto, ese sabotaje permanente porque estamos acabando con los privilegios para que todos podamos “Vivir Bien” y no mejor que nuestros semejantes. Sé que el cambio en el mundo es mucho más difícil que en mi país, pero tengo absoluta confianza en el ser humano, en su capacidad de razonar, de aprender de sus errores, de recuperar sus raíces y de cambiar para forjar un mundo justo, diverso, inclusivo, equilibrado y armónico con la naturaleza.

Evo Morales Ayma
Presidente de la República de Bolivia

Sem controle, estrangeiros compram cada vez mais terras no Brasil

28/09/2007

O esforço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em vender o Brasil como futuro pólo mundial do biocombustível está provocando uma explosão no mercado de terras, mas desnudou uma realidade grave para a soberania do país: o governo não tem qualquer controle sobre quem são e quantos milhões de hectares de terras estão nas mãos de estrangeiros hoje.

Nem tem mecanismos legais para controlar a voracidade de grupos estrangeiros que, segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), estão investindo pesado na compra de terras no Oeste da Bahia, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Pará e em São Paulo.

Preocupada com a falta de legislação explícita, a Advocacia-Geral da União (AGU) está elaborando um parecer para definir normas jurídicas que deverão dar aos órgãos públicos poder de controle sobre o setor.

As novas regras legais devem mexer no cadastro do Incra sobre proprietários estrangeiros -­ que atualmente não são obrigados a identificar a nacionalidade ou só o fazem quando têm necessidade de transacionar o imóvel ­- no volume e estoque de terras que podem ser compradas por empresas estrangeiras. A nova legislação deverá ser en caminhada ao Congresso para dar ao Estado algum controle sobre quem é quem no meio rural.

O governo não tem dados, mas sabe que, entre as estrelas do capital internacional que estão investindo no Brasil, estão empresas ligadas à Fundação Soros, do milionário grego George Soros, as americanas Microsoft, de Bill Gates, a Google, as suecas Precius Woods e Stora Enso (esta com capital finlandês também) e até seitas religiosas, como a Igreja Unificada, do reverendo Monn Sun Myung, que já era dona das extensas áreas em Mato Grosso do Sul. Ele está comprando mais terras no Centro-Oeste e Amazônia.

Entre os brasileiros, está chamando a atenção os grandes investimentos em terras e gado do banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, cujo estoque já teria alcançado mais de 100 mil hectares na região de Marabá, no Sul do Pará. O governo sabe da presença estrangeira pela boca de ruralistas. ­

“A proposta é estabelecer limites por uma questão de soberania nacional. Não se trata de xenofobia”,­ diz o presidente do Incra, Rolf Hackbart. Ele admite que o governo não tem dados sobre investidores e pessoas físicas que já detêm terras, sobretudo na região amazônica, onde cobiça vem sendo acentuada pela perspectiva de o país desenvolver uma nova matriz energética com o plantio em grande escala da cana de açúcar, mas também em função do apelo ecológico propagado por ONGs internacionais, sob o pretexto de proteger a região. Uma delas, hospedada no site Cool Earth, vem a tempos disponibilizando áreas pela internet. Outras divulgam ofertas pela internet ou publicam anúncios em jornais brasileiros. ­

“Os compradores vão de ambientalistas radicais que compram para ninguém mais tocar na terra a picaretas que querem explorar madeira”, ­ diz o presidente do Incra.

O único registro do Incra é modesto diante da realidade e da explosão do mercado. Mostra que até julho deste ano 31.194 imóveis estavam em nome de pessoas físicas estrangeiras e outros 2.039 em nome de empresas ­ cada imóvel pode ter mais de um proprietário.

Segundo Hackbart, o número de proprietários deve ser bem maior em decorrência da falta de definição sobre a característica da empresa estrangeira e o limite que ela deve ter na aquisição de terras nacionais. ­ “Esse é um problema deixado pela Constituição de 1988, que não definiu com clareza o conceito da empresa estrangeira”,­ observa o presidente do Incra. ­”Basta abrir um escritório ou estar associado a um brasileiro, que pode comprar o que quiser de terras. É isso que precisamos consertar para nos precaver. ­ A sociedade precisa carimbar o seu território”.

Brasileiros perdem o interesse

O presidente do Incra, Rolf Hackbart, disse que o aumento da procura e compra de terras por estrangeiros pelo interior do Brasil está afastando do mercado os investidores nacionais e criando dificuldades ao governo na aquisição de propriedades para formação de estoques destinados à reforma agrária, um dos eixos do programa de inclusão social do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. ­

“Há uma competição forte com a reforma agrária porque os compradores estrangeiros pagam em cash, enquanto o governo usa Títulos da Dívida Agrária (TDAs) quando desapropria uma área”, conta o presidente do Incra. Além de dinheiro em espécie, os estrangeiros aparecem com moedas mais fortes, como o euro e o dólar e, em muitas regiões, quando não encontram terra barata, aumentam a oferta.

Hackbart revela que há poucos dias dois proprietários rurais de Naviraí, no extremo Sul de Mato Grosso do Sul, desistiram de vender suas terras para o Incra porque receberam ofertas melhores de estrangeiros e pagamento à vista. Os investidores nacionais, segundo Hackbart, também não têm estrutura financeira para competir com estrangeiros e acabam desistindo de negócios.

O boom imobiliário na área rural também está elevando o preço das terras e invertendo realidades regionais históricas sobre o valor da terra agricultável. É o caso de Mato Grosso do Sul, que há pouco mais de duas décadas era apenas uma fronteira agrícola e atualmente tem a hectare de terra mais valorizada do país.

Um dos maiores pólos nacionais do agronegócio, o Estado comercializa o hectare a cerca de R$ 12 mil, um contraste com o Rio Grande do Sul, que recebeu um impacto inverso no mesmo período e atualmente comercializa a mesma fração a valores que variam entre R$ 4 mil a R$ 5 mil. Os gaúchos que nas últimas décadas migraram, vendiam um minifúndio (10 a 20 hectares) e conseguiam comprar extensas terras no Centro-Oeste e Norte do país.

Na avaliação do Incra, o Brasil virou fonte de cobiça em função de sua imensidão territorial e pela fertilidade de seu solo­ são 800 milhões de hectares ­e porque a terra se transformou num investimento seguro para o capital internacional. Os estrangeiros têm demonstrado interesse em investir em várias regiões. O Incra já recebeu sondagens de empresários da Líbia interessados em terras no Nordeste e até de chineses à procura de outras regiões. (V.Q.)

PF investiga investimentos no Sul do país

A ameaça do capital estrangeiro à estrutura fundiária do país levou a Polícia Federal a abrir inquérito, em junho deste ano, para investigar em que circunstâncias a Stora Enso, empresa sueco-finlandesa, estaria adquirindo extensas áreas de terra numa faixa de fronteira entre o Rio Grande do Sul e Uruguai para a implantação de um mega-projeto de plantio de eucalipto para exploração de celulose.

A denúncia, feita por ambientalistas gaúchos, foi encaminhada ao Ministério da Justiça pelo deputado Adão Pretto (PT-RS). Há suspeitas de que a empresa teria feito negócios sem passar pelo crivo do Conselho de Segurança Nacional, o órgão ligado à Presidência da República e que dá a última palavra quando se trata de investimentos externos em faixas de fronteira por se tratar de uma questão relacionada à soberania do país.

Segundo a denúncia dos ambientalistas, a Stora Enso teria se associado a outra empresa, a Azenglever Agropecuária Ltda, que tem a totalidade do capital social em nome de pessoa física brasileira e estaria associada com a Derflin Agropecuária Ltda, de capital estrangeiro, que pertence à empresa sueco-finlandesa. Uma investigação preliminar havia sido aberta pelo Ministério Público do Estado, para apurar se os procedimentos foram legais.

Em 2005, a Stora Enso anunciou que faria um investimento de aproximadamente US$ 250 milhões para a aquisição destas áreas. A empresa pretendia começar, já no ano passado, o plantio de 5 mil hectares de eucalipto no município de Rosário do Sul, fronteira Oeste gaúcha. Essa área seria a primeira parte dos 100 mil hectares ­ de um total de 140 mil que devem ser comprados pela empresa ­ para o cultivo de eucalipto no Rio Grande do Sul. A multinacional tem projetos também no Uruguai.

Fonte: Vasconcelo Quadros, do Jornal do Brasil

MST
http://www.mst.org.br/mst/index.html

Sugestão de visita

O Blog ETC & Tau possui matérias sobre o Mundo do Trabalho. Viste-o:

ETC&TAU

Impulso para o trabalho escravo

Em defesa de empresa acusada de manter 1.064 trabalhadores em condições degradantes, senadores levam fiscais a suspender fiscalização em todo o país

Lúcio Lambranho e Edson Sardinha

Depois de segurar por três anos a votação da chamada PEC do Trabalho Escravo, aprovada em primeiro turno na Câmara em agosto de 2004, o Congresso conseguiu agora nada menos do que suspender as ações do Grupo Especial de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), responsável desde 1995 pelo resgate de 25 mil trabalhadores que se encontravam em situação análoga à de escravos.

Após os ataques da bancada ruralista no Senado aos fiscais que libertaram, em junho, 1.064 trabalhadores mantidos em condições análogas à escravidão na fazenda da Pagrisa (Pará Pastorial e Agrícola S/A), principal produtora de álcool e açúcar do Pará, a secretária de Inspeção do Trabalho, Ruth Vilela, determinou anteontem (25), sob forma de protesto, a suspensão das atividades do grupo móvel. Ruth alegou que, diante da pressão, os servidores corriam risco de morte.

A crise, deflagrada pela visita de uma comissão de senadores à fazenda em Ulianópolis (PA), levou ontem (26) o ministro do Trabalho, Carlos Luppi, ao Senado. A comissão externa foi criada para apurar a denúncia feita pela empresa, que alega inocência, de que houve abuso por parte dos fiscais na autuação (leia a versão da empresa).

Em defesa do grupo móvel, Luppi entregou ao senador José Nery (Psol-AL), presidente da Subcomissão Temporária do Trabalho Escravo, subordinada à Comissão de Direitos Humanos, os 18 volumes do relatório da ação na Pagrisa. E rebateu as críticas dos senadores que desqualificaram a maior libertação de trabalhadores já feita pelo ministério.

“Eles só foram à usina e não ao canavial, distante uma hora de caminhada”, disse o ministro em referência à visita dos senadores no último dia 20. “Essa ação resultou na desqualificação de um trabalho brilhante”, completou.

A empresa alega que houve exagero por parte dos fiscais e que, em função disso, já acumula prejuízos, com a decisão da Petrobrás e da Ipiranga de suspenderem a compra de álcool da Pagrisa.

Confronto no Senado
A repercussão negativa da suspensão das fiscalizações fez ontem a comissão externa recuar. Os senadores aprovaram requerimento pedindo ao Ministério do Trabalho a retomada imediata dos trabalhos de fiscalização do grupo móvel. O colegiado ainda aprovou a convocação de 22 autoridades envolvidas com a questão, inclusive o próprio Luppi, e prometeram continuar a apuração do caso na próxima semana.

Além de abrir uma crise entre o Senado e o Ministério do Trabalho, o episódio acentuou as divergências entre os parlamentares da bancada ruralista e aqueles que defendem os pequenos produtores rurais.

Os primeiros são liderados pela senadora Kátia Abreu (DEM-TO), relatora da comissão externa criada para apurar o caso, e pelo senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), autor do requerimento que criou o colegiado. Além de Nery, saíram em defesa do grupo móvel os senadores Sibá Machado (PT-AC), Eduardo Suplicy (PT-SP), Paulo Paim (PT-RS). Cristovam Buarque (PDT-DF) e Patrícia Saboya Gomes (PSB-CE), integrantes da Subcomissão Temporária do Trabalho Escravo.

Abuso de poder
Kátia, que liderou o grupo de senadores que visitou a fazenda da Pagrisa dois meses após a libertação dos trabalhadores pelo Ministério do Trabalho, disse não ter encontrado no local nada que pudesse ser considerado degradante. Pelo contrário. Na avaliação dela, se houve irregularidade, foi por parte dos fiscais.

“Há indícios de abuso de poder”, afirmou a relatora da comissão. O senador Romeu Tuma (DEM-SP), outro a participar da visita, também disse não ter visto nada que comprometesse a Pagrisa, mas adotou um discurso mais cauteloso. “É necessária uma perícia da Polícia Federal para saber se algo foi maquiado entre a fiscalização e nossa visita na semana passada”, ponderou.

Criticado pelos senadores que inspecionaram a fazenda, Luppi não se encontrou com os integrantes da comissão externa. Mas se comprometeu com os senadores da Subcomissão do Trabalho Escravo a tentar convencer os fiscais a retomarem os trabalhos. “Já agendei uma nova conversa com os auditores e vou tentar convencê-los a retomar os trabalhos na próxima semana”, declarou.

PEC abandonada
A crise detonada pelo caso Pagrisa também revela a insatisfação de parlamentares da base governista com a postura do Palácio do Planalto em relação à erradicação do trabalho escravo no país. A principal crítica diz respeito ao desinteresse do governo pela aprovação da PEC do Trabalho Escravo, em tramitação no Congresso desde 2001.

Para o relator da proposta, o deputado petista Tarcísio Zimmermann (RS), o governo abandonou a defesa da PEC por causa da pressão dos ruralistas que integram a base governista (leia mais). “É evidente que não há mais a prioridade dada pelo governo no primeiro mandato do presidente Lula para erradicar o trabalho escravo”, afirmou ao Congresso em Foco.

O texto da PEC, aprovado em primeiro turno na Câmara em 2004, prevê que as propriedades rurais e urbanas em que forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração de trabalho escravo serão desapropriadas e destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular, sem indenização ao proprietário, após sentença judicial transitada em julgado.

Os bens de valor apreendidos, decorrentes da prática de trabalho escravo, rural ou urbano, serão destinados a um fundo especial, cuja aplicação dos recursos será disciplinada por lei infraconstitucional.

Na mira da Justiça
Independentemente do que render a polêmica no Senado, os donos da Pagrisa, os irmãos Murilo, Fernão e Marcos Villela Zancaner, vão responder a processo penal por utilizar mão-de-obra em situação análoga à de escravo, por não seguir a legislação trabalhista e impor perigo à saúde dos trabalhadores. Os empresários, por sua vez, negam que mantenham os seus funcionários em condições degradantes.

A denúncia do Ministério Público Federal (MPF) foi aceita na segunda-feira (24) pela juíza Carina Cátia Bastos de Senna, da Subseção Judiciária Federal de Castanhal, no Pará. A juíza acatou os indícios apresentados pelo grupo móvel do MTE. “Indícios de uma possível prática de trabalho escravo”, diz a juíza em sua sentença. “Os acusados terão a oportunidade de descaracterizá-las”, completou a magistrada ao decidir sobre o pedido do MPF, que sugere pena máxima de 15 anos para os donos da fazenda. Até agora, a Pagrisa não foi ouvida, destacou a magistrada.

Segundo o relatório do grupo móvel, o pagamento de salários, “da forma como era feito pela empresa, feria de morte a dignidade dos obreiros.” Os fiscais também afirmam que chegaram ao grupo de fiscalização contracheques zerados ou com valores irrisórios, “que em alguns casos não chegavam a R$ 10,00 (dez reais)”.

Abusos e contradições
“A situação que os fiscais encontraram eram semelhantes àquelas retratadas pela minissérie Amazônia”, comparou o ministro do Trabalho, Carlos Luppi, durante audiência na Subcomissão do Trabalho Escravo em referência à situação dos seringueiros retratados pela TV Globo.

“A empresa não garantia o salário mínimo aos empregados que recebiam por produtividade. Tal fato, somado aos descontos de alimentação e de medicamentos que os empregados consumiam, fazia com que, em muitos casos, empregados recebessem apenas o suficiente para pagar os seus gastos com comida e medicamentos”, diz o relatório dos fiscais.

Mas a relatora da comissão externa, senadora Kátia Abreu, disse que os trabalhadores da fazenda paraense estavam devidamente registrados. “Vimos comprovantes de pagamentos que variavam entre R$ 750 e R$ 900. Os comprovantes zerados apreendidos pelos fiscais aconteceram por problemas de informática”, argumentou a senadora do DEM.

Histórico de irregularidade
O Congresso em Foco teve acesso a um documento com o histórico de fiscalizações na fazenda Pagrisa. O documento mostra, em seu resumo, que houve 13 fiscalizações entre 1998 e 2007 e destaca:

“Em relação às ações fiscais desenvolvidas no cultivo de cana durante a safra, foram encontradas irregularidades no cumprimento da legislação em 100%”.

O relatório informa que não havia fornecimento de água potável em condições higiênicas. Aponta ainda “a não-manutenção de instalações sanitárias adequadas, em 100% das ações fiscais que envolveram itens de segurança e saúde.” Segundo os fiscais, a partir da ação fiscal de junho de 2004, a situação na fazenda, em vez de melhorar, agravou-se:

“Passa a ser observado o descumprimento de outros atributos trabalhistas: jornada, descanso, salário, FGTS, contribuição social e CAGED. Por outro lado, violação a uma ou mais normas de segurança e saúde foi encontrado em 100% das vezes em que foi verificado seu cumprimento, a partir de 11.2001.”

Uma fiscalização realizada em dezembro do ano passado, diz o documento, “apontou irregularidades no cumprimento não somente da legislação referente a esses aspectos, mas também quanto ao recolhimento de FGTS e pagamento de salários”.

Lista suja
O cenário traçado pelo Ministério do Trabalho na Pagrisa está longe de ser raridade no Brasil, principalmente no Pará, estado que concentra o maior número de autuações por exploração de mão-de-obra em condições análogas à de escravo. Das 188 empresas incluídas na última edição da chamada “lista suja”, do Ministério do Trabalho, 47 são paraenses (veja a relação completa).

Além disso, garante o advogado Marco Apolo, da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), apenas metade das denúncias é investigada no Pará.

Segundo o advogado, seria preciso dobrar as ações do grupo móvel para dar conta do número de irregularidades cometidas por empresas rurais no interior do estado. “O Pará é o maior importador de mão-de-obra escrava. São pessoas que não têm como reagir, pois estão isoladas, fora de seu convívio social e em áreas de difícil acesso. Não há recursos suficientes, atualmente, para dar conta de todo o problema”, explica Apolo.

Congresso em Foco

Professores pedem a Lula saída de reitor no ABC

Moema Dias

Os professores e estudantes da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras) da Fundação Santo André entregam nesta sexta ao presidente Lula uma carta solicitando que ele interceda junto ao prefeito João Avamileno em favor do afastamento de Odair Bermelho, reitor da instituição.

Além da carta serão entregues um dossiê sobre as supostas irregularidades ocorridas na gestão de Bermelho e um abaixo-assinado de professores da USP, Unicamp e Unesp.

Os professores e estudantes estão em greve desde o último dia 15 exigindo a saída do reitor.

A decisão foi tomada depois de a reitoria ter solicitado ação da Polícia Militar para retirar os estudantes que ocupavam o campus em protesto
contra o aumento de mensalidades. Segundo professores e estudantes, houve abuso por parte da PM.

Em outro ato, às 15h, uma cópia do dossiê será entregue ao promotor Airton Grazzioli, no Fórum João Mendes, em São Paulo.

IG On Line

Haddad se reúne para saber sobre Fundação Sto.André

Marcos Palhares (marcos@abcdmaior.com.br)

Presidente Lula pediu que o ministro convesasse com professores da Fafil

Logo após o evento no campus definitivo da UFABC (Universidade Federal do ABC) nesta sexta-feira (28), em Santo André, o ministro da Educação, Fernando Haddad, participou de uma reunião para tentar resolver um assunto distinto, a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro conversou com professores da universidade municipal Fundação Santo André, que pedem o impeachment do reitor Odair Bermelho.

“Eu gostaria, Fernando Haddad, que depois você tivesse uma reunião com o prefeito João Avamileno e com o reitor, pra ver se a gente consegue achar uma solução. Não me peçam porque eu não posso destituir o reitor. Não posso eleger e nem destituir. É uma decisão do corpo docente, dos alunos da escola, dos funcionários. A gente vai ajudar naquilo que puder. Se não puder ajudar, a gente não se mete, porque é muito melhor ficar onde a gente está”, disse Lula, no final de seu discurso.

“É uma universidade municipal e, portanto, não está subordinada às possibilidades federais. Agora, independentemente disso, como nós pensamos em todos os estudantes brasileiros, os alunos da Fundação merecem ser tratados com mesma dignidade que os alunos das federais”, concluiu Lula.

Haddad observou que, na conversa com os professores, pretendia primeiro se inteirar do assunto. “Eu não conheço o problema, a Fundação não pertence ao sistema federal e pedi uma reunião com os manifestantes para me interar do assunto”.

Documento – Professores e alunos da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras) estão em greve desde a repressão policial do dia 13, quando estudantes que protestavam contra o aumento nas mensalidades foram agredidos. Ontem, os professores entregaram um documento assinado ao presidente Lula, detalhando a situação.

“Não é de hoje que o reitor, Odair Bermelho, adota práticas autoritárias nesta instituição. Para Vossa Excelência ter uma idéia de como o reitor é arbitrário na gestão da Fundação Santo André, durante audiência pública na Câmara de Vereadores da cidade, ele afirmou que não nomeou a diretora eleita em consulta realizada pela comunidade acadêmica (professores, estudantes e funcionários) da Fafil, por não ter afinidade com ela”, diz um trecho do documento.

Intermediação – O texto critica o prefeito João Avamileno (PT) por pretender “liberar a bancada da prefeitura no Conselho Diretor para a votação do afastamento do reitor”. “Por isso, gostaríamos de solicitar a intermediação de Vossa Excelência junto ao prefeito Avamileno, para que este recomende aos representantes da Prefeitura no Conselho Diretor, que votem pelo pedido de afastamento do reitor”, reivindica o documento.

Sobre a questão, Avamileno, que compareceu ao evento na UFABC e chegou a afirmar ,recentemente, que estava “de saco cheio” do problema na Fundação Santo André, foi sucinto: “O que eu tinha para fazer, já fiz”. Além do documento dos professores da Fafil, circularam na UFABC cópias do ofício encaminhado pelo Sinpro (Sindicato dos Professores de Santo André, São Bernardo e São Caetano) ao presidente do Conselho Diretor da Fundação e ao Promotor de Justiça e também o que foi enviado a todos os membros do Conselho.

ABCD Maior

Elas não engordam. Nem envelhecem

O segredo da saúde das japonesa está no prato

Lola Felix - Jornal da Tarde

SÃO PAULO – Aos 53 anos de idade, Hideko Honma não vai muito longe quando busca modelos para um envelhecimento saudável. Enquanto outras mulheres da mesma idade se espelham em sexagenárias famosas, ela busca conselhos com seus pais, Masatoshi Setani, de 85 anos, e Kazuko Setani, de 79 anos.

‘Eles caminham, praticam esportes, viajam’, diz Hideko, 1m50 de altura e 49 quilos. Kasuko e Setani também ensinaram à filha a importância de uma dieta à base de peixe, soja, arroz, vegetais e frutas.

Esta é o segredo número 1 revelado por Naomi Moriyama e William Doyle em seu livro ‘Mulheres japonesas não envelhecem nem engordam’ (Editora Rocco, tradução de Sabine Dorle Krzikalla, R$ 34). Consultora de marketing, Naomi e o marido, co-autor do livro, adoram comida japonesa. Ela não dispensa uma pizza ou um doce de vez em quando, mas sabe o valor da culinária ensinada por sua mãe.

‘Há um país onde as mulheres vivem mais tempo do que em qualquer outro lugar na Terra. É um lugar onde existe a menor obesidade do mundo desenvolvido. Onde mulheres de quarenta anos parecem ter vinte’, escreve a autora do livro sobre o Japão.

É claro que há um tanto de genética envolvida nesta história, mas o estilo de vida fala alto. Prova disso é que os japoneses que se ocidentalizam podem sofrer com hábitos de vida nocivos. Um exemplo é a porcentagem de diabetes em nipo-brasileiros: ela aumentou de 22,6% para 36,1%, entre 1993 e 2000, segundo dados do grupo Japanese-Brazilian Diabetes Study Group (JBDSG), que reúne pesquisadores da USP e Unifesp. No Japão, este número é de apenas 6,9%, segundo o Atlas da Federação Internacional de Diabetes.

‘No Brasil, 20% dos japoneses são obesos. No Japão, este percentual diminui para 10%’, diz o endocrinologista Mauricio Hirata, da clinica Bio Hirata. Entre as mulheres que vivem lá , este número é ainda menor, como consta no livro de Naomi Moriyama: apenas 3% são obesas. Se os bons hábitos japoneses são assim tão benéficos, como tirar proveito deles? No livro, Naomi dá detalhes sobre o que ela considera os sete segredos da cozinha de sua mãe.

Alguns deles são velhos conhecidos de endocrinologistas e nutricionistas. ‘A comida japonesa tem um teor de gordura menor. Além disso, eles consomem muitos legumes cozidos, frutas e soja’, diz a nutricionista Cilebe Crispim, da Unifesp.

Hirata, que tem 1m82 e pesa 79kg, diz que um dos grandes segredos japoneses é sair da mesa sempre com um pouquinho de fome. ‘Eles comem várias vezes ao dia, pequenas porções. Nunca se enchem de comida’, diz ele, que tem 45 anos, com carinha de 35.

Segundo o endocrinologista, o ocidental que seguir a dieta japonesa pode, sim, se dar bem. No entanto, há algumas contra-indicações. ‘Hipertensos, por exemplo, podem sofrer com o excesso de sódio no glutamato e no molho de soja’, diz Cibele. A dieta perfeita ainda está para nascer.

Sete dicas para uma vida magra e longa

>A dieta japonesa se baseia em peixe, soja, arroz, vegetais e frutas.

>Os japoneses comem porções bem menores, servidas sobre louça pequena e bonita. O segredo é comer várias vezes ao dia, em pequenas quantidades.

>A culinária japonesa é super rápida e ultra suave. A autora explica no livro que, em vez de torrar e assar, as japonesas cozinham a vapor, grelham refogam, cozinham em fogo baixo ou fritam rapidamente em fogo alto.

>Os japoneses comem arroz em vez de pão às refeições.

>As mulheres japonesas são as rainhas do café da manhã energético.

>As mulheres japonesas são loucas por sobremesa…de modo especial. ‘A diferença’, escreve Naomi, ‘é que elas comem sobremesas com menor freqüência e em porções menores.’

>As mulheres japonesas têm um relacionamento diferente com a comida. A dieta japonesa dá pouco motivo para uma dieta.

Num mercado do disco acidentado, a edição musical está com boa saúde

Véronique Mortaigne

Ao atirarem para todos os lados para impedir a ampliação da hemorragia das vendas de discos, e ao tentarem inventar novos modelos na Internet, os industriais da música, ao menos, estão fazendo a felicidade de um setor deste ramo, o da edição musical, uma profissão pouco conhecida, porém chamada a exercer o papel de pedra angular nos dez próximos anos. O editor é aquele que detém o direito de explorar comercialmente uma obra musical (e não a própria carreira dos artistas), qualquer que seja o suporte deste fonograma, inclusive o disco.

A edição musical apresenta um nível de faturamento estável há vários anos (161,6 milhões de euros – R$ 420,62 milhões – em 2005 na França), ao passo que aquele do disco desmoronou de 50% em quatro anos. Os editores apresentam um bom desempenho, uma vez que eles compensam os lucros que eles deixam de faturar com as vendas de álbuns, recebendo direitos pagos pelos outros canais de difusão que, por sua vez, proliferam: canais de televisão, Internet, eletrônica, chaves USB, concertos, rádios, streaming e downloads, ringtones para celulares, músicas de filmes, spots publicitários, cartões com chip de memória, secretárias eletrônicas, etc.

Com isso, a onipresença da música alimenta os interesses proteiformes da edição. Uma prova disso são as intenções atribuídas ao fundo de investimento Terra Firma, que acaba de comprar a “major” do disco britânica EMI. Em outubro, o Terra Firma deverá confirmar ou não a sua intenção de se livrar da atividade relativa aos discos da EMI, para ficar apenas com a edição ou o publishing. O cálculo é simples, resume Fabrice Nataf, o CEO da filial francesa da EMI Publishing (1,5 milhão de títulos no seu catálogo, faturamento de 40 milhões de euros – R$ 104 milhões – na França). “A EMI Publishing representa 25% do faturamento do grupo EMI, mas 75% dos seus lucros”.

A profissão de editor de música foi criada no século 19, com o advento das leis sobre a propriedade intelectual e das sociedades de gestão coletiva, tais como a Sacem, que arrecadam as posses dos autores e dos compositores. Uma vez escrita, uma obra pode ser entregue para um editor, que fará com que ela tenha vida útil, mediante o pagamento da metade ou de um terço dos direitos arrecadados pela Sacem. Na França, o primeiro exemplo desta prática se deu quando o compositor Hector Berlioz (1803-1869) cedeu os direitos do seu “Hino à França” para o editor Maurice Schlesinger, em agosto de 1844.

Inicialmente, o editor foi encarregado de editar partituras impressas, um setor que até hoje continua sendo importante para a música clássica, e que permanece ativo para as coletâneas de músicas, os Song Books, muito procurados. Mais tarde, o editor tornou-se um intermediário. Este foi o caso de Raoul Breton e sua mulher (a quem o cantor Charles Trenet deu o apelido de “A Marquesa”), que participaram da construção do patrimônio da “chanson” francesa, combinando as criações dos autores e compositores com as dos intérpretes.

Comprada em 1992 por Charles Aznavour, a editora Breton é detentora dos direitos sobre músicas de Edith Piaf, Trenet, Aznavour, Félix Leclerc, assim como daquelas da quebequense Linda Lemay ou do “slameur” (combinação de poeta, contador, rapper e repentista) Grand Corps Malade, cujos álbuns são produzidos respectivamente pela Warner e a Universal. Com isso, os interesses das companhias do disco e da edição nem sempre coincidem. Por exemplo, os Beatles, produzidos pela EMI, têm as suas obras editadas pela Sony ATV Publishing – sendo a ATV uma estrutura que pertence a Michael Jackson, o qual detém os direitos sobre as músicas dos Beatles.

O editor exerce uma profissão muito discreta, diz Nicolas Galibert, que dirige a filial francesa da Sony ATV Publishing (300.000 referências, faturamento de 16 milhões de euros – R$ 41,65 milhões – por ano). A sua tarefa é de “colocar” ou “inserir” músicas onde quer que elas sejam remuneradas. “O destino de uma obra não é de permanecer dentro de uma gaveta”, dizia o letrista Etienne Roda-Gil, que faleceu em 2004 e cujas letras são administradas pela Sony ATV Publishing.

Fabrice Nataf apresenta como exemplo o sucesso do rapper francês Faf Larage, que foi dispensado pela sua gravadora, mas cujo título, “J’ai pas le temps” (“Estou Sem Tempo”), que é editado pela EMI Publishing, serviu de música-tema na França para a série americana “Prison Break”. “Aquela foi uma idéia de editor”, diz Nataf.

Marie-Anne Dudouit, a diretora da editora Blonde Music, dedica-se a combinar os interesses da cantora Camille com aqueles das artes plásticas (a artista Sophie Calle). Desde a sua criação, há treze anos, esta sociedade independente participa da renovação de uma profissão que, no tempo em que o disco era rei, chegou a ser considerada como uma mera caixa-registradora. Para reverter esta tendência, muitos autores compositores e intérpretes franceses (Jean-Jacques Goldman, Yves Simon, Francis Cabrel ou ainda Jean-Louis Murat) haviam fundado as suas próprias sociedades de edição.

Marie-Anne Dudouit se diz satisfeitíssima com a profusão dos suportes, “embora seja mais fácil ‘colocar’ um título de Amel Bent (de “La Nouvelle Star”) para um ringtone de celular do que uma música do jazzman Eric Truffaz”. Além disso, o mundo da edição não escapa da lógica das concentrações. Em 2006, o Universal Music Group comprou por 1,63 bilhão de euros (R$ 4,24 bilhões) a BMG Publishing, tornando-se com isso o número um mundial da edição (com 26% do mercado, na frente da EMI Publishing (20%) e da Warner Chappell (16%).

Na primavera passada, a Comissão Européia exigiu que a Universal abrisse mão de vários catálogos americanos. Isso porque, “num certo número de países”, escreveu a entidade, “a Universal chegaria até mesmo a ponto de controlar mais da metade dos sucessos das paradas, e se tornaria desta forma detentora de uma espécie de monopólio para todos os serviços de música on-line e de celulares”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde
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Novos horizontes para a corrida espacial são inspiradores mas incertos

John Schwartz

Cinqüenta anos de vôos espaciais levaram pessoas até a Lua e enviaram veículos não tripulados para os limites do sistema solar. O que os próximos 50 anos poderiam trazer?

Muito mais, ou potencialmente não muito mais. A viagem espacial financiada pelo governo poderá estagnar diante da crescente aversão dos Estados Unidos ao risco e uma espécie de enfado orbital. Afinal, a Nasa tentou por mais de uma década desenvolver veículos substitutos aos falhos ônibus espaciais e está no processo de tentar novamente.

O setor privado está aumentando sua participação, mas o setor ainda é frágil.

Michael D. Griffin, o administrador da Nasa, disse em uma entrevista estar confiante de uma coisa no futuro previsível: “Nós teremos um programa espacial”.

Fora isto, nada se sabe.

“A única coisa da qual estamos certos”, escreveu Griffin em um recente ensaio para o site da revista “Aviation Week and Space Technology”, “é que se tentarmos prever o mundo de 2057, duas gerações à frente, nós erraremos”.

Mas especialistas em governo, indústria e ciência concordam que estas três tendências mais amplas moldarão as próximas décadas no espaço:

-A Nasa embarcou em um programa para retorno à Lua em 2020, não apenas para o que alguns críticos chamam de “bandeiras e pegadas”, mas sim para uma presença duradoura, com pesquisa científica e preparação para expedições a asteróides e, eventualmente, a Marte. O programa do ônibus espacial será encerrado em 2010 para a criação da próxima geração de veículos.

-Outros países, notadamente a Rússia e a China, têm planos ambiciosos e poderão estimular uma corrida espacial como a que enviou os americanos à Lua. “Foi necessário o Sputnik para reconhecermos do que a União Soviética era capaz”, disse Harrison H. Schmitt, que voou na última missão para a Lua, em 1972. “Eu não sei o que será necessário desta vez.”

-O empreendimento privado está dando passos à frente, começando pelo turismo espacial e, posteriormente, serviços de transporte para a Nasa e outros governos até postos avançados como a Estação Espacial Internacional. Além disto, empreendimentos poderiam incluir mineração em asteróides e produção de medicamentos no espaço.

John M. Logsdon, diretor do instituto de política espacial da Universidade George Washington, disse que a grande pergunta ainda precisa ser respondida.

“Na esfera governamental, eu acho que ainda não sabemos por que estamos enviando pessoas para o espaço”, disse Logsdon. “É uma pergunta decente e acho que ainda não foi respondida.”

Isto deixa o programa espacial tripulado em uma posição precária, ele disse, acrescentando: “Se as atuais propostas para reiniciar a exploração humana fracassarem politicamente, de fato, o esforço de um vôo espacial tripulado sob os auspícios do governo poderá perder seu impulso. Eu obviamente espero que isto não aconteça. Mas está longe de certo que voltaremos à Lua e iremos a Marte.”

Empreendedores dizem ter a resposta -dinheiro. Peter Diamandis, um fundador do Ansari X Prize, a competição de US$ 10 milhões para colocar um piloto no espaço sem financiamento do governo, disse que com toda a energia e minérios que podem ser encontrados lá, “os primeiros trilionários surgirão no espaço”.

Nos próximos 50 anos, disse Diamandis, “motores econômicos”, e não políticos, expandirão a fronteira espacial.

Logsdon está cético. “Há uma série de perspectivas atraentes que estão presentes desde o início dos últimos 50 anos, mas que ainda estão lá como perspectivas atraentes”, ele disse. “E ainda não conseguimos saber se podem ser transformadas em realidade ou não.” A dependência persistente de foguetes químicos, por exemplo, limita o peso que pode ser levado ao espaço.

Mesmo assim muita coisa mudou nos últimos 50 anos e que poderiam estabelecer as fundações para os próximos 50. Uma nova geração de empreendedores ultra-ricos, que cresceram fascinados pelo espaço, estão investindo suas fortunas pessoais para tornar reais os negócios no espaço.

Paul G. Allen, um fundador da Microsoft, pagou pelo SpaceShipOne, a minúscula nave que conquistou o X Prize em 2004. Elon Musk, um fundador do PayPal, está desenvolvendo foguetes por meio de sua empresa, a Space Exploration Technologies, e conta com financiamento da Nasa, o que poderá fazer com que sua espaçonave venha a transportar pessoas e suprimentos para a Estação Espacial Internacional.

Jeffrey P. Bezos, o fundador da Amazon.com, está desenvolvendo foguetes em uma área de sua propriedade no oeste do Texas.

Robert Bigelow, que fez fortuna em hotéis, está desenvolvendo um sistema de transporte espacial e uma estação espacial que poderia ser usada como um hotel ou base de pesquisa orbital.

A autoridade encarregada da regulamentação de vôos espaciais comerciais, Patricia Grace Smith, da Administração Federal de Aviação, disse em uma entrevista: “Quando olho 50 anos à frente, eu acredito plenamente que haverá espaçoportos de verdade, operacionais”, de propriedade privada e com operações comerciais.

No amplo e empoeirado Mojave Air and Space Port na Califórnia, sonhadores e pragmáticos se unem no planejamento do futuro.

Jeff Greason, o fundador da Xcor Aerospace, uma das várias empresas de foguetes de lá, disse que sua indústria está pronta para pensar grande após anos tentando se livrar do ranço da ficção científica. “Nós temos que deixar de nos concentrar no grande e glorioso futuro”, ele disse, “porque caso contrário, as pessoas não nos levarão a sério como negócios. Nós conscientemente desligamos o lado visionário”.

“Nós estamos obtendo progresso nos negócios reais que dão lucro”, ele acrescentou.

Outras empresas já estão no jogo. A vizinha de Greason, a Scaled Composites, está trabalhando no veículo sucessor de seu SpaceShipOne.

A empresa de Richard Branson, a Virgin Galactic, que comprará os veículos, conta com uma longa lista de turistas espaciais potenciais.

Esther Dyson, a guru de tecnologia que está encorajando o investimento no espaço, disse que o desenvolvimento das empresas de foguetes é semelhante aos primórdios da computação pessoal e da Internet. O financiamento inicial do governo criou tecnologias cujo uso era em grande parte restrito ao governo e à academia.

“No final todo este pessoal comercial ingressou e repentinamente toda uma renda surgiu”, ela disse. “Ela se beneficiou do pessoal de pesquisa assim como do pessoal comercial. E criou uma infra-estrutura para o público.”

Isto levou, por sua vez, aos atuais Google, Netscape, Google Earth, “todas estas coisas maravilhosas que damos por certas”.

Greason prevê que o governo assumirá a dianteira na exploração de longa distância, mas que a indústria assumirá as coisas mais próximas de casa. Assim como as forças armadas empregam transporte aéreo privado, ele disse, “os esforços do governo se tornarão clientes dos esforços privados”.

Enquanto isso, a Nasa tentará ampliar o alcance da humanidade. Griffin, seu administrador, esboçou um cronograma para as metas estabelecidas pelo presidente Bush em 2004.

Ele vê claramente os marcos ao longo do caminho, o retorno à Lua em 2020, com um “um pequeno posto avançado lunar” poucos anos depois, a caminho de “cidades na Lua”. Os primeiros vôos para Marte poderiam ocorrer na década seguinte, ele disse, de forma que no 100º aniversário dos vôos espaciais, em 2057, “nós poderemos estar comemorando o 20º aniversário do primeiro pouso de um ser humano em Marte”.

Mas se os Estados Unidos quiseram liderar tal caminho, ele disse, o relógio já está correndo.

“Esta é a última geração de americanos que terá a oportunidade inquestionável de liderar tal empreendimento”, disse Griffin. “Porque na próxima geração teremos, pelo menos, a Rússia, China, Índia e Europa com a mesma capacidade que nós. Será uma questão de interesse, política, vontade ou desejo da sociedade. Mas não será uma questão de capacidade.”

Independente de quem venha a assumir, os desafios serão maiores do que qualquer um que as nações espaciais já enfrentaram. Eles envolvem níveis de radiação com os quais a ciência ainda não sabe lidar e problemas como a gravidade reduzida e a poeira da Lua, que é ultrafina, quimicamente reagente e altamente abrasiva, tudo isto podendo representar sérios problemas de saúde para os astronautas.

Em uma conferência em junho sobre assentamentos lunares, James S. Logan, um ex-chefe de operações médicas do Centro Espacial Johnson e um fundador da Space Medicine Associates, um grupo de consultoria médica, apontou que as missões anteriores à Lua envolveram apenas um total de 600 horas-homem na superfície, um número que provavelmente será ultrapassado no primeiro retorno à Lua.

Em sua apresentação, Logan apontou que os tempos de exposição anteriores, “apesar de significativos”, não forneceram forte evidência de que uma exposição por tempo prolongado é segura.

Em uma conferência de medicina espacial neste ano no Instituto Baker de Política Pública da Universidade Rice, Peggy A. Whitson, uma astronauta que está prestes a iniciar sua segunda estadia a bordo da Estação Espacial Internacional, disse que a radiação continuará sendo um problema.

“Nós temos que aceitar o fato de que se pretendemos explorar”, disse Whitson, “nós teremos que aceitar um nível mais elevado de radiação” do que, digamos, a Administração de Saúde e Segurança Ocupacional permite para os trabalhadores do setor nuclear.

Jonathan Clark, um ex-cirurgião de vôo da Nasa que estava presente no painel com Whitson, disse: “Para mim, um nível inaceitável de risco seria uma exposição a radiação que resultaria em efeitos agudos e substanciais sobre o desempenho, seja fatalidade ou declínio cognitivo”.

Se os efeitos forem tão debilitantes a ponto da missão fracassar, disse Clark, “não haveria sentido em ir”.

Pode haver outros problemas na missão para Marte que os cientistas apenas estão começando a explorar. Na conferência na Rice, Nick Kanas, da Universidade da Califórnia, em San Francisco, um psiquiatra que estudou astronautas, descreveu o que chamou de fenômeno “Terra fora de vista”.

A pesquisa de Kanas revelou que uma das partes mais positivas de ir ao espaço é ver a Terra. Mas em uma viagem a Marte, a Terra encolheria a um pontinho azulado.

“Ninguém na história da humanidade estudou como é ver a Terra tão pequena quanto um ponto”, ele disse.

Em uma entrevista, Kanas disse que perder o contato visual com o planeta natal poderia ser um “fator estressante singular”.

As comunicações desacelerariam acentuadamente, com atrasos de mais de 40 minutos, ele disse. O pronto acesso a telescópios poderosos e acervos de imagens da Terra poderia ajudar, mas seria importante combater tais sentimentos de “isolamento e solidão extremos”.

Griffin reconheceu que problemas como a radiação representam graves desafios em cada novo ambiente, mas acrescentou que está confiante de que as proteções serão descobertas, assim como os primeiros marinheiros descobriram que chucrute e limões podiam protegê-los do escorbuto em longas viagens.

E previu que as lições aprendidas sobre o crescimento dos ossos, biologia celular, prevenção de danos e reparos ajudariam a tratar doenças na Terra.

Schmitt, o astronauta da Apollo, concordou. Apesar dos riscos reais de viver no espaço e em outros planetas, ele disse: “Eu não vejo nenhum dissuasor”.

Stuart Witt, administrador-geral do Mojave Air and Space Port, vê ainda mais a longo prazo. Em seu escritório, com naves sendo projetadas em prédios vizinhos, Witt lembrou que há cinco séculos, Magalhães partiu da Espanha com cinco navios e 270 homens. Dois anos depois, apenas um navio retornou, com 18 homens.

Ele citou de cabeça uma passagem do livro “A History of Knowledge: Past, Present, and Future” (uma história do conhecimento: passado, presente e futuro, 1991) de Charles Van Doren, apontando que após o navio sobrevivente ter retornado carregado de especiarias valiosas, as expedições subseqüentes “nunca careceram de marinheiros para tripulá-las e de capitães para comandá-las”.

“Eles sabiam que o espírito da exploração era muito maior do que qualquer indivíduo”, disse Witt.

O argumento repercute em Griffin: “Toda vez que no passado os seres humanos investiram em romper novas fronteiras, o lucro foi nosso”.

“Pode ser duro para os exploradores individuais, mas foi muito benéfico para a raça humana -enquanto estamos sentados aqui”, ele continuou, gesticulando para seu escritório, Washington e os Estados Unidos, “no que antes era o Novo Mundo”.

“Nós perderemos pessoas”, ele disse de forma franca, e os riscos devem ser minimizados. Mas explorar está “gravado em nosso DNA”.

O anseio de ir além pode de fato estar entranhado nas curvas helicoidais de nossos genes como uma das muitas características comportamentais que agora são associadas a predisposições genéticas, disse Jeffrey M. Friedman, diretor do Centro Starr para Genética Humana da Universidade Rockefeller.

Se permitindo um pouco de especulação por insistência do repórter, Friedman disse que “é muito plausível sugerir” que pode haver um anseio primário de explorar e correr riscos.

“E há alguma evidência direta disto na história das migrações humanas”, ele acrescentou. Em qualquer população, haveria um espectro de características, desde permanecer em casa até explorar, com ambos os extremos do espectro prosperando em algumas circunstâncias e sofrendo em outras.

O futuro detém promessa e risco, como qualquer visitante no Mojave pode ver. Na Scaled Composites, uma explosão no mês passado matou três funcionários. O acidente envolveu o óxido nitroso que a Scaled Composites usa como propelente, mesmo que nenhum teste de foguete estivesse sendo realizado no momento. O acidente está sendo investigado.

Enquanto isso, a empresa continua a desenvolver sua próxima nave e a Virgin Galactic disse que nenhum cliente cancelou. Quando perguntado sobre se o acidente o fez hesitar, James Lovelock, o cientista e autor britânico de 88 anos, disse: “Eu não tenho nenhum receio”.

Tradução: George El Khouri Andolfato.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

Carta ao Presidente Lula

Santo André, 28 de setembro de 2007.

Excelentíssimo Senhor
Presidente da República Federativa do Brasil
Luiz Inácio Lula da Silva

Nós, professores da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras) do Centro Universitário Fundação Santo André, paralisamos as atividades acadêmicas, desde o dia 15 de setembro, para exigir a saída do reitor, Odair Bermelho.

Nossa atuação na Fundação Santo André, desde o último dia 15, tem se pautado pela realização de aulas públicas para nossos alunos.
Vossa excelência deve ter acompanhado pela mídia, as cenas de extrema violência a que os universitários da Fundação Santo André foram submetidos, na madrugada de 14 de setembro, pela Força Tática da Polícia Militar.

A Polícia Militar, a pedido do reitor, invadiu o campus universitário, para reprimir os estudantes que protestavam contra o aumento de mensalidades.

Até mesmo um aluno que tem parte do braço direito amputado foi atingido pela repressão.

Vossa excelência conhece, inclusive, o aluno em questão. Trata-se do estudante de Geografia Manuel Boni, que aparece na foto de capa da Folha de São Paulo sendo espancado por policiais.

Mas, não é de hoje que o reitor, Odair Bermelho, adota práticas autoritárias nesta instituição. Para Vossa Excelência ter uma idéia de como o reitor é arbitrário na gestão da Fundação Santo André, durante audiência pública na Câmara de Vereadores da cidade, ele afirmou que não nomeou a diretora eleita em consulta realizada pela comunidade acadêmica (professores, estudantes e funcionários) da Fafil, por não ter afinidade com ela. O reitor Odair Bermelho preferiu indicar outra professora para o cargo.

Este, no entanto, é apenas um singelo exemplo para dar mostra de como o reitor se comporta como um déspota absolutista. Em anexo encaminhamos um dossiê para que Vossa Excelência tome conhecimento das arbitrariedades praticadas pela gestão de Odair Bermelho à frente da reitoria da Fundação Santo André.

Fundação pública

A Fundação Santo André, como é conhecido o centro universitário, é uma fundação pública de direito privado. Os prédios da universidade estão construídos sobre um terreno que pertence à Prefeitura de Santo André.

A Prefeitura possui, inclusive, quatro assentos no Conselho Diretor da instituição, que tem a atribuição de afastar o reitor do cargo.

Por isso, a Câmara de Vereadores de Santo André instalou uma Comissão de Assuntos Relevantes para investigar a gestão do reitor, Odair Bermelho. Os vereadores recomendaram ao Conselho Diretor, o afastamento do reitor durante o processo de investigação.

O prefeito João Avamileno, no entanto, contrariando a decisão do Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores, afirma que pretende liberar a bancada da Prefeitura no Conselho Diretor, para a votação do afastamento do reitor Bermelho.

Por isso, gostaríamos de solicitar a intermediação de Vossa Excelência junto ao prefeito Avamileno, para que este recomende aos representantes da Prefeitura no Conselho Diretor, que votem pelo pedido de afastamento do reitor, Odair Bermelho.

Reiteramos que a única solução para o impasse é a saída de Odair Bermelho da reitoria.

Assembléia dos professores da Fafil

Conselho Diretor da Fundação não tem quórum

Júlio Gardesani (julio@abcdmaior.com.br)

Representantes da Prefeitura, Câmara, alunos e professores boicotaram encontro
A maior parte do Conselho Diretor da Fundação Santo André não compareceu nesta sexta-feira (28/09) à reunião marcada no prédio das Fundações, localizado na Praça João Mendes, no centro de São Paulo. Dos 15 conselheiros, 11 decidiram boicotar a reunião em protesto pelo fato de o encontro não ter sido realizado em Santo André. O reitor Odair Bermelho, cujo afastamento do cargo é reivindicado por professores e estudantes, alegou que transferiu a reunião por existir atos hostis e pressões contra a direção da universidade. Com isso, a crise continua, com duas das três faculdades da Fundação em greve.
Apenas a reunião do Conselho Universitário foi realizada, da qual saiu nova proposta de reajuste de mensalidades, em que há reduções de valores para a Faeco (Faculdade de Economia) e Faeng (Faculdade de Engenharia) e um aumento bem menor para a Fafil (Faculdade de Filosofia), onde inclusive alguns cursos tiveram redução. Sem detalhar os valores e índices, o vice-reitor da Fundação, Oduvaldo Cacalano, considerou positiva a nova tabela. “Isso se deve ao nosso movimento. Se não fosse por isso, os cursos da Fafil seriam fechados, pois os custos das mensalidades seriam muito altos”, afirmou Cacalano.
Protesto – Os estudantes e professores fizeram um ato em repúdio à atual gestão da reitoria e pediam a saída do reitor Odair Bermelho em frente ao prédio do Fórum João Mendes, enquanto ocorria a reunião.”Fora Odair! Educação não é mercadoria”, gritavam os manifestantes.
Ao término das reuniões, os estudantes esperavam que o reitor saísse pela entrada principal do Fórum, o que não aconteceu, então se deslocaram para o estacionamento. A polícia Militar interferiu, com alguns empurrões, e desobstruiu a passagem dos veículos.
“Os polícias não foram violentos, acho que eles aprenderam que polícia é para ladrão e não para os estudantes, que reafirmam a força do movimento universitário”, disse Reinaldo Chagas, secretario geral do Diretório Acadêmico Honestino Guimarães.
Representantes – Não compareceram às reuniões o representante da prefeitura municipal Wander Bueno do Prado, os secretários municipais de Educação, Cleuza Repulho, de Desenvolvimento e Ação Regional, Luiz Paulo Bresciani, e de Cultura, Acylino Bellisomi, o representantes da Câmara, Oriovaldo Oliveira Lopes, um dos professores Joel Pelissaro, o representante dos alunos, José Dalmo Viana Duarte, representante do Fórum da Cidadania, José Alberto Lima da Paixão, representante dos trabalhadores, Celso Soares Nogueira e representante de outros segmentos sociais, Manoel Alcides Nogueira de Souza.
“Não houve quorum e os conselheiros ligados ao reitor Odair Bermelho não terão legitimidade para aprovar nenhuma das propostas na reunião do Conselho Diretor”, disse Cacalano.
Dos membros do Conselho Diretor, apenas o próprio reitor, Odair Bermelho, o coordenador do Insefusa, Nelso Stepanha, o professor Roque Roberto Amighi e o representante dos funcionários José Lourencetti, estavam dispostos a realizar a reunião.
Desdobramentos – A crise na Fundação Santo André teve como estopim a ocupação da reitoria pelos alunos da Fafil, que protestavam contra a possibilidade de um aumento nas mensalidades. A reitoria foi desocupada após ação violenta da Força Tática, composta por soldados da tropa de choque.
Desde então, os manifestantes conseguiram vitórias importantes no Executivo e no Legislativo andreenses. A Câmara aprovou requerimento que solicita o afastamento do reitor Odair Bermelho, enquanto a Casa apura possíveis irregularidades da atual gestão. O prefeito João Avamileno (PT) chegou a dizer, em uma reunião com representantes dos alunos e professores, que estava “de saco cheio” do reitor.

ABCD Maior

Violência de Louisiana promove debate sobre o racismo no sul dos EUA

Os recentes protestos diante das acusações contra seis adolescentes negros em Louisiana, os “Seis de Jena”, ressaltaram como a questão de raça ainda é explosiva no sul dos EUA. É improvável, entretanto, que o caso complexo inspire um novo movimento de direitos civis

Gregor Peter Schmitz
Em Jena, Louisiana

A árvore se foi -por completo. O enorme carvalho antes era imponente no meio do pátio da escola de ensino médio de Jena. Agora, só restaram marcas no gramado. Até o toco foi arrancado do chão em um final de semana em julho, diz Billy Fowler do conselho supervisor da escola -e ele parece muito contente com isso. “Queríamos traçar uma linha clara.”

Se fosse tão fácil assim arrancar tudo pela raiz, inclusive as memórias. Por décadas, alunos brancos sentaram-se à sombra dessa árvore, chamada “árvore branca”. Os alunos negros sentavam-se nas arquibancadas em volta, debaixo do sol forte de Louisiana.

E então, um aluno negro, Kenneth Purvis, cansou-se.

Purvis é um homem grande, com um grande peitoral -não é uma pessoa facilmente intimidada. “Pedi ao diretor se poderia também sentar-me sob a árvore”, lembra-se. O diretor disse que era livre para fazer o que quisesse. Então Purvis sentou-se sob a árvore com seus amigos, em um dia quente de agosto do ano passado.

A princípio, ninguém disse nada. No dia seguinte, porém, havia laços de forcas pendurados nos galhos -um símbolo da lei aterrorizante de enforcamento sem julgamento que reinou no Sul na era da escravidão.

A partir daí, um redemoinho de frustração e raiva, vingança e retaliação desenvolveu-se -até que um adolescente branco foi deixado inconsciente no chão, e seis adolescentes negros foram presos, acusados de tentativa de assassinato.

A árvore e a pequena cidade de Jena conquistaram fama questionável no mundo todo -no mínimo desde quinta-feira (20/9), quando milhares de pessoas marcharam pelos direitos dos alunos presos.

O caso de Jena, no entanto, representa exatamente o que? O racismo do Sul? O início de um movimento de direitos civis? Ou será somente um cenário para violência adolescente grosseira?

Um bom lugar
Jena localiza-se a uma curta distância da estrada Interestadual 20, que, a cada quilômetro conecta uma pequena cidade à próxima. Cada cidade é organizada de acordo com o mesmo princípio: uma Wal-Mart, um posto de gasolina, lojas de redes de lanchonetes, igrejas, uma escola de ensino médio, um estádio de futebol e casas.

Jena recebe seus visitantes com uma bandeira com um coração e um aviso que diz: “Jena. Um bom lugar para se chamar de lar.” Das 2.971 pessoas que fazem isso, muitas trabalham nos campos de petróleo e gás -trabalho duro, que paga mal, cerca de US$ 14.000 (R$ 28.000) por ano, em média. Ainda assim, é o suficiente para dividir a cidade. De um lado da linha divisória, estão as ruas relativamente afluentes com suas casas grandes em torno da Bellevue Drive, por exemplo. A igreja é uma construção de tijolos marcante, com grandes colunas na entrada.

Do outro lado da linha divisória, está Ward 10, onde moram quase todos os quase 400 negros de Jena. Esta parte da cidade fica virtualmente escondida nas florestas e consiste de casas simples e cabanas de ferro corrugado, entre as quais uma eventual carcaça de carro pode ser vista. Aqui, a igreja é uma construção de madeira frágil, onde nuvens de mosquito pairam sobre o carpete rasgado dos degraus da entrada.

“Esta cidade está coberta de racismo”
Bellevue Drive fica apenas três minutos de distância de Ward 10, mas é uma longa viagem de um lado ao outro. Não há um único advogado ou médico negro em Jena. O único funcionário negro em qualquer um dos seis bancos trabalha no departamento de contabilidade, bem longe dos clientes.

Eddie Thompson, ministro branco barrigudo, é uma das poucas pessoas que cruzam os dois bairros. “Esta cidade está coberta de racismo”, diz ele. “Suas opções em Jena dependem de qual parte você cresce.” Em outras palavras: dependem da cor de sua pele.

Jena High School é um lugar onde brancos e negros são obrigados a ficar juntos. Eles jogam no mesmo time de futebol, principal atração da cidade. “No refeitório, porém, os brancos sentam-se em um canto, e os negros no outro”, disse Dustin, que é branco, enquanto visitava sua antiga escola. Dustin formou-se da escola no ano passado. Agora trabalha na Wal-Mart.

Um cartaz com as palavras “Misturem-se” está pendurado na parede do refeitório. No dia 16 de novembro, todo mundo terá que se sentar ao lado de todo mundo por um dia. “Estou curioso para ver o que acontece”, disse Dustin laconicamente. E ele tem razão para ficar curioso: foi um ano difícil para esta escola.

Quando as forcas apareceram na árvore, o diretor quis expulsar da escola os três estudantes responsáveis. Mas seus pais protestaram, e os alunos foram apenas suspensos por algumas semanas. As primeiras brigas entre brancos e negros ocorreram. Então, o advogado branco Reed Walters disse aos estudantes negros no auditório da escola que poderia acabar com a vida deles com uma única assinatura, de acordo com algumas testemunhas.

Depois, parte da escola foi incendiada; até hoje não foi reconstruída totalmente. Brancos e negros suspeitaram uns dos outros. Em seguida, um aluno negro foi surrado em uma festa. O atacante branco recebeu apenas uma advertência.

No dia seguinte, houve uma briga no posto de gasolina, durante a qual um estudante branco sacou uma pistola. Os negros ameaçados por ele arrancaram-na de suas mãos. Foram acusados de roubo, enquanto o aluno branco saiu ileso.

Finalmente, em dezembro, houve o ataque no pátio da escola, onde seis estudantes negros teriam atacado um branco, Justin Barker. Barker teve que ser levado ao hospital, mas à noite já pôde ir à festa da escola -diferentemente dos seis atacantes, que foram presos -acusados de tentativa de assassinato.

Padrões duplos
Os réus podem pegar até 22 anos de prisão, apesar das acusações terem sido reduzidas para dano corporal grave. O caso rapidamente recebeu a atenção de organizações negras em torno dos EUA que estão lutando contra o que chamam de “padrões duplos” da justiça. As estatísticas apóiam o argumento: jovens negros são apenas 16% da população dos EUA, mas quase 40% dos presos em sua faixa etária.

Quatro jovens sentadas nos degraus na frente da escola acham que as acusações contra seus colegas são simplesmente absurdas. Seus professores instaram-nas a não falar com os jornalistas, mas queriam falar. “Esse Justin Barker foi a uma festa na mesma noite. Ele está exagerando”, disse uma das alunas do primeiro ano do ensino médio. Os estudantes negros simplesmente se cansaram de sempre serem punidos, toda vez que havia confusão, acreditam as jovens. “Foi só uma briga de escola”, disseram. Aí está novamente, a revolta com os padrões duplos.

Um dos Seis de Jena, Mychal Bell, já foi até condenado. Um estudante que pendurou as forcas na árvore teve permissão de testemunhar contra Bell no tribunal. A sentença deveria ser executada no dia 20 de setembro. Entretanto, o veredicto foi derrubado porque Bell tinha 16 anos quando o crime foi cometido e portanto deveria ter sido julgado em uma corte juvenil.

Seis contra um
Bell era o astro de futebol da escola. Ele era bom aluno -mas também “uma pessoa que sempre se metia em encrenca”, disse Anthony McCoy, ex-aluno negro da escola, que se tornou amigo de Bell durante seus tempos de futebol. Bell já tinha três condenações anteriores em apenas dois anos. Por isso foi o único a não ter sido liberado para acompanhar o julgamento em liberdade.

Houve mais negociações sobre a possível libertação de Bell na sexta-feira última. Centenas de jornalistas e manifestantes reuniram-se na frente da minúscula corte novamente. Quando a audiência terminou, os pais de Bell saíram; lágrimas corriam pelo rosto da mãe. Seu filho não recebera permissão para ir para casa com ela por causa de suas condenações anteriores. Seus defensores cantaram: “Sem justiça, sem paz.”

E o que justiça quer dizer neste caso? Apesar de todas as manchetes, continua sendo uma história de réus e vítimas. McCoy viu Justin Barker, o aluno branco, imediatamente após o ataque. “Tinha sangue saindo pelas orelhas”, disse McCoy.

Algumas testemunhas disseram que os atacantes continuaram a chutar Barker quando já estava deitado inconsciente no chão. “Seis contra um: poderiam ter matado ele”, diz McCoy.

Fazendo de Jena um símbolo
Agora, o ambiente em Jena é tal que os que pedem atenção para a vítima são rapidamente chamados de racistas -parcialmente porque a feiúra antiga está voltando. Um neonazista americano divulgou os endereços e números de telefone dos Seis de Jena em seu site da Web -e está abertamente chamando uma multidão para linchá-los. Os réus agora estão sob proteção policial, e o FBI está investigando o caso, assim como o dos proprietários de dois carros que penduraram forcas vermelhas em suas caminhonetes durante a manifestação na quinta-feira. Depois de sua prisão, proclamaram orgulhosamente ser membros da Ku Klux Klan.

Era exatamente isso que Jéssica -que não quer que seu sobrenome seja revelado- temia. Ela estacionou sua caminhonete Ford no meio da rua principal de Jena, com seu marido Rick; queriam comprar galinha frita para o jogo de futebol que assistirão.

“Tenho medo que isso cresça”, diz Jéssica. “E que todos nós sejamos rotulados de racistas malucos. Quando vimos a CNN ontem, minha filha me perguntou: ‘Mãe, nós agora odiamos os negros?’”

Jéssica conhecia dois dos estudantes brancos que penduraram as forcas na árvore -e ela acha que suas sentenças foram leves demais, assim como acha duras demais as sentenças que os Seis de Jena podem receber. “Mas saiu de controle”, diz Rick. “Não somos todos racistas.”

Ativistas de direitos civis negros, como Jesse Jackson e Al Sharpton, estão firmemente decididos a transformar Jena em um símbolo -de um novo movimento de diretos civis americano, 50 anos depois do original. Neste momento, muitas das conquistas daquela era parecem estar em risco, devido a novas decisões de uma Suprema Corte mais conservadora e ao desencanto de muitos cidadãos americanos brancos com noções de integração racial.

Sharpton e Jackson esperam levantar o entusiasmo de uma nova geração que só sabe das marchas dos anos 60 a partir dos livros de história. Parece estar funcionando: dos milhares de manifestantes em Jena, a maior parte era jovens afro-americanos. Sharpton fez um discurso apaixonado, pedindo a Washington que agisse contra decisões arbitrárias da justiça no sul. Queria fazer soar como um discurso que poderia ter sido feito há 50 anos -mas ainda assim ficou estranho.

Até os democratas estão discretos
Na época, as questões ainda eram sobre nove estudantes negros em Little Rock que queriam estudar com os brancos. Ou sobre Rosa Parks, que se recusava a dar seu assento no ônibus para um homem branco. Agora, um novo movimento de direitos civis deve ser iniciado por jovens acusados de quase matar uma pessoa inconsciente com chutes.

Até a reação dos candidatos presidenciais do Partido Democrata foi restrita. Barack Obama teve que se defender dos ataques de Jesse Jackson, que o acusou de não ser “negro” o suficiente.

A acusação é absurda, até porque ignora que Obama é um novo tipo de político negro. Ele não evita criticar o que vê como falhas na comunidade negra, como a hostilidade contra a educação, a irresponsabilidade de jovens pais negros e a cultura machista de hip hop, com sua glorificação de materialismo e violência.

Tudo isso está operando neste caso: uma fotografia circulou no site MySpace que mostrava um dos Seis de Jena colocando notas de US$ 100 na boca, com uma legenda que dizia que não tinha de US$ 50. Artistas de hip hop como 50 Cent falam da mesma forma -e são justamente essas pessoas que alguém como Obama não quer parecer representar, como as pessoas que lutam seis contra um.

Certo, tudo começou com uma briga sobre a “árvore branca”. Anthony McCoy lembra-se de se sentar debaixo dela, em seus tempos. Todd Lewan também colecionou declarações para Associate Press nas quais professores e alunos dizem que a árvore não era reservada para brancos, mas servia de ponto de encontro para pessoas das duas cores.

No entanto, isso provavelmente não importa mais.

Tradução: Deborah Weinberg

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

Os desafios de Yasuo Fukuda, o novo primeiro-ministro japonês

Philippe Pons
Correspondente em Tóquio

Após ter sido eleito primeiro-ministro do Japão, obtendo uma ampla maioria na Câmara Baixa, Yasuo Fukuda formou, na terça-feira, 25 de setembro, um gabinete a respeito do qual ele não esconde que ele está “com as costas contra a parede”. “Se nós cometermos um erro, por menor que ele seja, estaremos arriscados a perder o poder”, reconheceu, no decorrer da sua primeira coletiva de imprensa. A fase crítica da crise que havia sido iniciada pela demissão repentina, em 12 de setembro, do seu predecessor, Shinzo Abe, chegou ao fim. Mas ainda falta muito para o ambiente estar apaziguado, enquanto um enfrentamento está sendo aguardado no Parlamento. A Câmara Baixa é dominada pelo Partido Liberal Democrata (PLD), ao passo que o Partido Democrata do Japão (PDJ, oposição) controla daqui para frente a Câmara Alta.

Obrigado a atuar na defensiva, frente a uma oposição revigorada pela sua vitória nas eleições senatoriais de julho, e com a perspectiva de se ver forçado, num prazo mais ou menos curto, a provocar a realização de eleições gerais antecipadas de modo a assentar a sua legitimidade, o novo primeiro-ministro procurou reforçar a unidade nas fileiras do seu partido. Ele manteve no seu cargo a maior parte dos ministros do gabinete anterior, e nomeou como secretário do governo e porta-voz, Nobutaka Machimura, o chefe do clã mais poderoso do PLD, que se torna com isso o número dois do executivo.

Entre os ministérios mais importantes, apenas os das relações exteriores e da defesa mudam de titular. O primeiro foi atribuído a Masahiko Komura, que era o detentor da pasta da defesa no gabinete precedente; enquanto o segundo foi assumido por Shigeru Ishiba, que já havia ocupado essas funções em 2002-2003. O diário “Asahi” (de centro-esquerda) compara este gabinete a uma “fotografia de cores sépia”. Apesar desta carência de renovação, a chegada ao poder de Yasuo Fukuda, um conservador moderado, abre o caminho para uma salutar mutação no exercício do poder e para uma configuração mais equilibrada das prioridades políticas.

O principal adversário de Fukuda é um outro veterano da política, o combativo Ichiro Ozawa, chefe do PDJ. O seu enfrentamento, que, por mais brilhante que ele possa parecer, “carece de um verdadeiro valor”, permitirá que os problemas de fundo voltem a ser abordados, prossegue o “Asahi”. Com isso, esta crise poderá ter tido um efeito benéfico, se for retomado o debate democrático que havia sido sufocado pelos procedimentos espalhafatosos dos anos Koizumi (2001-2006), o lépido primeiro-ministro que havia prometido transformar o Japão.

Em artigo no diário dos meios de negócios “Nihon Keizai”, o politólogo Takashi Mikuriya enxerga na falência desastrosa do governo Abe o resultado da crise estrutural que havia sido iniciada com a prática de poder de Junichiro Koizumi. Fortalecido pela sua popularidade, este último “crucificava” os seus opositores e abafava as opiniões divergentes no âmbito da maioria, tudo isso para tomar as decisões sem consultar ninguém. Por sua vez, Shinzo Abe (cujo apelido é “Poster Boy”), apesar de causar boa impressão em suas intervenções televisivas, revelou-se menos apto para o marketing político do que o seu predecessor, embora ele encarnasse uma nova geração. Ele acabou sendo uma conseqüência infeliz desta política baseada nas pesquisas.

Yasuo Fukuda não é um “animal dos palanques” e a sua designação pelos “caciques” do PLD pode parecer uma regressão. Contudo, conscientes de que apesar da aliança com o partido centrista Novo Komei, eles não podem mais recorrer à tática do rolo compressor com um Senado que passou para a oposição, os liberais democratas se vêem obrigados a lidar com uma forma de coabitação que pressupõe a negociação.

A primeira queda-de-braço entre Yasuo Fukuda e Ichiro Ozawa deverá se dar em torno da renovação do mandato (cujo prazo irá vencer em 1º de novembro) da marinha nipônica, que está encarregada de abastecer no Oceano Índico as tropas aliadas que atuam no Afeganistão. O PDJ opõe-se a esta renovação. Mas os problemas mais graves são de ordem econômica e social.

Fukuda está assumindo o comando de um país fragilizado. A economia voltou a crescer, embora num ritmo moderado (2%), mas o Estado não está mais em condições de financiar uma política de realizações ambiciosas em razão do enorme déficit público (170% do PIB). As desigualdades seguem aumentando, enquanto a sociedade, que está envelhecendo, se mostra preocupada com o futuro dos sistemas de pensão.

Sob o comando de Junichiro Koizumi, o Japão orientou-se rumo a um conservadorismo de tipo neoliberal, privilegiando os mecanismos de mercado e dando prioridade para os interesses financeiros, o que significou uma ruptura em relação ao contrato social dos anos 1960-1980, que era baseado num equilíbrio entre expansão e políticas de redistribuição (não isentas de abusos clientelistas). O capitalismo nipônico tornou-se mais reativo às custas da coesão da sociedade.

Fukuda comprometeu-se a dar prosseguimento às reformas, mas ele precisa também tranqüilizar uma opinião preocupada, e simultaneamente remediar ao déficit das finanças públicas, – o que pressupõe um impopular aumento da TVA (imposto sobre mercadorias e serviços).

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

O fracasso da classe média indiana

Chakravarthi Ram-Prasad*

A classe média indiana de 200 milhões de pessoas é o grupo econômico mais dinâmico do planeta. No entanto, está pouco interessada em política ou em reformas sociais. Até que comece a se engajar politicamente, a Índia sofrerá de uma modernização desequilibrada.

Enquanto a Índia celebra o 60º aniversário de sua independência do Reino Unido, há um otimismo crescente e, ao mesmo tempo, um desespero devastador em relação ao seu futuro. Como diz o ditado, tudo e seu oposto são verdade na Índia.

Os sete institutos de tecnologia da Índia estão no alto das pesquisas mundiais, e as ofertas de emprego aos graduados do Instituto Indiano de Administração são comparáveis aos que saem das famosas escolas de administração dos EUA; ainda assim, uma terço do país ainda é analfabeto. Trezentos milhões de indianos vivem com menos de US$ 1 por dia – um quarto dos extremamente pobres do mundo. Ainda assim, a Índia tem o maior número de bilionários fora dos EUA e da Rússia.

O sucesso histórico levou a Índia e a China aos seus atuais desafios demográficos. Suas populações cresceram às dezenas de milhões porque foram tão economicamente avançadas no início do primeiro milênio -quando até o império romano ficou para trás. No nascimento da modernidade européia, quando a tecnologia forneceu uma alavanca para populações menores melhorarem suas vidas, a Índia e a China tinham pessoas demais para isso.

O legado desse sucesso inicial sublinha tanto a escala da Índia quanto a polaridade de opiniões sobre o que é o país. A Índia está perto da primeira ou da última posição na maior parte das tabelas econômicas internacionais.

A Índia poderia ter sido muitas outras coisas – um país ainda maior, não dividido, mas também poderia ter sido menor, ou apenas um conjunto de formações ancestrais. Apenas o Império Britânico e a resolução dos líderes da luta pela independência garantiram que a idéia antiga, mas ainda assim amorfa, se tornasse uma única nação.

Sessenta anos depois, há um Estado indiano funcional, que é um poder crescente no mundo, apesar de suas enormes variações. Entretanto, há também o Estado indiano ineficiente, que não consegue cumprir o propósito social que a idéia de cidadania deveria fornecer.

Na classe média, há ainda um compromisso com uma Índia que tem um papel decisivo no cenário mundial – mas agora, em vez da solidariedade “não alinhada” e da história antiga, é por meio de softwares e finanças. Dez anos após a comoção causada pelos testes nucleares, a classe média acha natural o novo status da Índia; simplesmente assume que a Índia deve ser tratada como igual aos EUA e ao resto, e volta-se para as conversas de oportunidades econômicas.

Esse compromisso com sua própria idéia de Índia e seu papel central em seu crescimento econômico torna a classe média segura de si mesma. Mas, ao mesmo tempo, seu sentido de cidadania é fraco: como um todo, ela não adota um sentido de solidariedade aos pobres; freqüentemente não admite o papel do Estado em seu próprio crescimento ou sua capacidade de resolver qualquer um dos problemas do país; e, em geral, é politicamente apática.

O que explica essa introversão? A classe média, em todos os estágios de desenvolvimento, seja na Europa do século 19 ou hoje, não acredita nos que não cresceram com ela. No entanto, em sociedades mais homogêneas, os mais abastados tendem a cuidar mais dos que estão em pior situação. Sociedades altamente diversas, como a Índia, encontram mais dificuldades em institucionalizar tal sentimento fraternal.

A chave para a diversidade da sociedade indiana é o sistema de “jati” -casamentos entre grupos co-sangüíneos com ocupações hereditárias. Esses grupos, no entanto, também são colocados dentro da hierarquia antiga da “varna”, ou sistema de casta – a divisão da sociedade em cinco camadas em termos de pureza ritual – sacerdotes, guerreiros, mercadores, trabalhadores e os que estão além da possibilidade de pureza e portanto intocáveis.

Durante os séculos, houve muitos esforços para estender um sentido de humanidade comum a todas as castas. O sistema de castas também permitiu um pluralismo sem paralelos na crença e na prática religiosa; de acordo com a lógica da pureza, o sacerdote brâmane não tem controle sobre as práticas além de sua jurisdição, o que permite uma diversidade emocionante de templos, festivais e deidades. Ainda assim, o conceito de “varna”, que as pessoas são intrinsecamente puras ou impuras, enfraqueceu a noção de cidadania no subcontinente. Enquanto a constituição indiana de 1950 procurou pôr fim a tal divisão (que os britânicos haviam explorado), a noção de casta ainda leva à violência rural e à separação de grupos privilegiados.

Um problema no esforço de se entender a classe média indiana é que, apesar de estar claramente relacionada às castas, não está claro como: um desenvolvimento importante na Índia nos últimos 60 anos foi a dissociação da casta de sua base ocupacional e sua reconstituição como forma de identidade política.

Nas últimas décadas, as elites de castas superiores acostumaram-se a ver pessoas abaixo delas na hierarquia adquirindo poder econômico, especialmente desde a liberalização, no início dos anos 90. A nova classe média argumenta que, como não teve nenhuma ajuda das elites mais antigas, seu sucesso deveu-se a ela mesma, e deve servir de modelo para os pobres.

O ceticismo da classe média sobre a capacidade do Estado é compreensível, mas também está na raiz dos problemas da Índia. A premissa de muitos na classe média de que não devem nada ao Estado é simplesmente errada. A Índia cresceu economicamente em parte como resultado de um enorme investimento no ensino superior por sucessivos governos, desde Nehru.

Apesar de seu sucesso no ensino superior – e crucialmente, na Revolução Verde de produção de alimentos nos anos 60 – o Estado indiano é espetacularmente ineficiente. Muitos turistas, ouvindo falar na “Chindia” e no crescimento da China e da Índia, ficam chocados com a aparência desorganizada de tudo. A Índia não pode nem sonhar em sediar uma Olimpíada no futuro próximo, enquanto a China se atém rigorosamente ao seu cronograma de 2008. Um Estado mais eficiente – talvez menor – requer engajamento político dedicado dos que dirigem sua economia globalizadora.

A apatia política da classe média se deve em parte às diferenças na forma como a Índia do século 21 e Europa Ocidental dos séculos 18 e 19 se desenvolveram. Enquanto o crescimento da cultura burguesa ocidental do livre pensar precedeu o voto universal, a democracia indiana tem quase meio século a mais do que o nascimento de uma classe média vibrante. Então, lutar por poder político foi um elemento crucial para a cultura burguesia ocidental, na Índia os direitos políticos já eram tidos como certos e agora são negligenciados pelos que vêem sua prosperidade como resultado de seus próprios recursos econômicos.

Para a classe média, política é uma preocupação intelectual, não um imperativo ético. Freqüentemente, os mais politicamente ativos na Índia são os pobres não miseráveis: as pessoas que ganham entre US$ 1 e US$ 5 por dia (entre R$ 2 e R$ 10). São elas que tendem a dar maiorias aos partidos políticos. Isso porque suas vidas serão as mais provavelmente tansformadas pela ação do Estado.

Os partidos políticos que se concentram na reforma social – inclusive a aliança liderada pelo Congresso que venceu a eleição geral de 2004 – estão ganhando poder em muitas partes do país. O problema é que as instituições democráticas da Índia são desenvolvidas suficientemente para que os políticos fiquem tentados a se fixarem nelas, em vez de radicalmente transformá-las. Então, temos que esperar e ver se o sucesso eleitoral dos que estão fora da classe média pode tornar o Estado mais reativo às suas necessidades.

Apesar de todo o potencial para transformação que um otimista encontre na atividade política dos pobres, o que vai importar mais nas próximas décadas provavelmente ainda será o intenso ritmo do crescimento econômico.

O Estado democrático indiano não poderia ter imposto uma estratégia de controle populacional, em contraste com a eficiência clínica da China comunista. Mas agora, está claro que a China vai ficar velha muito antes de ficar rica, enquanto a jovem população indiana apreciará muito mais do crescimento sustentado deste século.

A questão é se as novas formas de atividade política e econômica combinarão para fazer do desenvolvimento menos uma questão de sorte com conseqüências não intencionais e mais uma questão de urgência moral e estratégia. Apesar de um exército de economistas apaixonados pelo desenvolvimento, isso ainda não aconteceu.

*Chakravarthi Ram-Prasad é professor de religião comparativa e filosofia na Universidade Lancaster, na Inglaterra.

Tradução: Deborah Weinberg

Prospect

Convite para um novo mundo

(Matéria publicada pela Revista Veja em 21 de julho de 1971 quando da histórica visita do presidente norte-americano Richard Nixon à China de Mao Tsé-Tung. Vale a leitura pela importância histórica.)

“Os governos dos países grandes devem estar em paz. É
conveniente e está conforme a vontade celeste que eles
respeitem um ao outro e ajam de comum acordo.”
(Carta do presidente dos EUA, John Tyler, ao imperador da China, em 1853)

Quando o conselheiro do presidente dos Estados Unidos anunciou que estava com dor de estômago, todos os repórteres e observadores diplomáticos foram dormir em paz. Na verdade, só acordaram uma semana depois, ao se revelar que a doença era falsa: Henry Kissinger passara 49 horas em Pequim combinando uma viagem de Richard Nixon à China.

A impecável manobra de diplomacia secreta – possível ponto de partida para uma mudança radical nas relações internacionais – surpreendeu o mundo inteiro na noite de quinta-feira passada. O presidente Nixon, dos estúdios da NBC em Los Angeles, informava ter aceito um convite do primeiro-ministro Chu En-lai para uma visita ao seu país antes de maio de 1972. Foi um dos mais curtos pronunciamentos de Nixon pela televisão (três minutos e meio) mas também a mais dramática iniciativa de seu governo, acelerando vertiginosamente o processo de degelo iniciado há menos de cem dias entre a China e os EUA.

Como coroamento de uma série de contatos e estudos – realizados a partir da visita à China da seleção americana de ping-pong, em abril -, Kissinger passou em Pequim o fim de semana de 9 a 11 de julho, acertando com Chu En-lai a viagem que pode abrir uma nova era no equilíbrio mundial. De um golpe, ela abre novas perspectivas para a solução da guerra no Vietnã, a admissão da China na ONU, a modificação na relação EUA-Rússia e Rússia-China, além de toda uma gama de possibilidades em problemas tão diversos quanto o futuro de Formosa, as negociações no Oriente Médio ou a crescente influência do Japão na Ásia.

A BOA COMIDA – “O objetivo dessa viagem é buscar a normalização das relações entre os dois países”, disse Nixon em sua histórica aparição na televisão. “Tomei esta decisão com a profunda convicção de que todas as nações vão ganhar com a redução de tensões e melhores relações entre China e Estados Unidos.”

Ao chegar de helicóptero no estúdio de TV, vindo da Casa Branca de verão em San Clemente, Califórnia, Nixon parecia particularmente descontraído e sorridente. Depois do pronunciamento, estava com humor suficiente para dizer aos jornalistas que ia fazer a viagem porque gosta muito de comida chinesa. Na verdade, o presidente saboreava um triunfo maior. No início do degelo, ao anunciar que pessoalmente gostaria de visitar a China, acrescentara não acreditar na possibilidade de fazer a viagem durante seu mandato. Talvez fosse um dos seus típicos excessos de cautela, mas o fato é que a visita se concretizou com uma rapidez que ninguém podia imaginar.

Os preparativos ainda guardam muitos pontos obscuros, mas até o fim da semana passada já se sabia de alguns dados básicos. De acordo com explicações de um dos raros funcionários envolvidos no processo, houve duas fases. Na primeira, montou-se uma “moldura” para as negociações. Foi uma etapa delicada. “Quando não se tem contato com um país há 22 anos, é incrível a dificuldade para descobrir com quem falar, onde falar.”

A moldura estava pronta em abril. E a partir da visita dos jogadores de ping-pong houve movimentos específicos de ambas as partes. Iniciou-se a segunda etapa, já visando concretamente à viagem de Nixon.

SIGILO TOTAL – Nos EUA, sabia das negociações, além de Nixon e Kissinger, talvez meia dúzia de pessoas – entre elas, o secretário de Estado William Rogers e o vice-presidente Spiro Agnew, que, na sua atual viagem de volta ao mundo, aproveitou várias oportunidades para elogiar a aproximação com a China. Há especulações, ainda, de que o primeiro-ministro romeno Ceausescu, que esteve em Pequim em junho, teria tomado parte nos contatos preparatórios. Seja como for, durante três meses o esquema foi sendo montado peça por peça tão secretamente, que mesmo Nixon e Kissinger, a sós, tomavam a precaução de não conversar no gabinete presidencial, para evitar o extravio de documentos ou anotacões secretas sobre as negociações. As conversas, usualmente, eram nas horas mortas depois do jantar, em esconderijos suficientemente seguros.

Quando Kissinger finalmente deixou Washington, a 1º de julho, no caminho da Indochina, Índia, Paquistão e França, o segredo estava tão bem guardado como no primeiro dia. Oficialmente, era uma viagem de “constatação de fatos”, embora se soubesse que algo muito importante estava em curso. Mas as suposições tinham direção errada: esperava-se que Kissinger fosse negociar alguma alteração básica na posição americana no Vietnã.

A PONTE – Após o seu giro pelo Vietnã do Sul, Tailândia e Índia, Kissinger desembarcou no Paquistão – uma escala peculiar, pois, apesar da guerra civil e dos atritos com a Índia, os problemas paquistaneses não pareciam bastante graves para ocupar o seu tempo, num momento de negociações cruciais com Hanói e o Vietcong.

O Paquistão, na verdade, era a ponte para Pequim. Na noite do dia 8, depois de se deixar ver no saguão do seu hotel em Islamabad, Kissinger retirou-se para seu quarto alegando uma indisposição de estômago. Na mesma noite, informava-se que havia viajado de carro para Nathiagali, cidade de veraneio nas montanhas, para descansar e organizar sua agenda de trabalho. Ao meio-dia do dia 9, um jato da Força Aérea Americana aterrava em Pequim, com Kissinger e três assessores. Ele mergulhou imediatamente nas negociações com Chu En-lai e outros altos funcionários chineses. Permaneceu ao todo 49 horas em Pequim, e o tempo que sobrou do sono e das refeições foi praticamente todo consumido nas conversações realizadas na casa de hóspedes do governo chinês, onde estava alojado, e no Grande Palácio do Povo.

Nos diálogos com o enviado de Nixon, Chu En-lai usou três intérpretes. O primeiro-ministro de 73 anos, nascido e educado (na Inglaterra, França e Alemanha) como mandarim, fala inglês perfeitamente – talvez com sotaque melhor que o de Kissinger, alemão naturalizado, cujos erros de pronúncia são notórios em Washington. O uso dos intérpretes, assim, certamente beneficiou o veterano negociador chinês, dando-lhe sempre um prazo extra para pensar nas respostas.

De volta a Islamabad, Kissinger reapareceu no hotel. E, “curado” da indisposição, pôde seguir viagem para Paris na segunda-feira, 11, com um atraso de dois dias. Finalmente, chegou na terça-feira passada à base aérea de El Toro, perto de San Clemente, sem que houvesse a mais leve suspeita sobre sua demora no Paquistão. Para Kissinger, o jovial divorciado de 48 anos que, a não ser pelo título, parece ser o verdadeiro secretário de Estado americano, era uma vitória total.

ANTES DE MAIO – Em apenas 55 horas, após o seu regresso, o processo de divulgação do maior segredo diplomático das últimas décadas estava elaborado. Durante esse período, continuou-se a pensar que Nixon e Kissinger estariam trabalhando na proposta de paz comunista em Paris e na resposta americana.

Na quinta-feira, uma hora antes de Nixon aparecer na televisão, William Rogers começou a telefonar para cerca de vinte embaixadores estrangeiros em Washington, informando-os sobre o conteúdo do pronunciamento.

Na sexta-feira anunciou-se que a viagem seria feita “mais cedo do que tarde” – provavelmente, em dezembro ou janeiro – e que Nixon, além de Chu, deverá encontrar-se com Mao.

RESPOSTA ADIADA – O anúncio da viagem de Nixon à China veio num momento importante para a solução da guerra no Vietnã: na semana passada estavam em jogo, simultaneamente, a última proposta de paz comunista – propondo a libertação dos prisioneiros americanos se os EUA fixarem uma data certa para a retirada de suas tropas ainda este ano -, a substituição do negociador americano em Paris, David Bruce, e uma inesperada manifestação chinesa, propondo a reabertura da Conferência de Genebra para debater o problema global da Indochina.

A viagem de Nixon foi anunciada poucas horas após a 121ª reunião em Paris, onde David Bruce evitou, pela segunda vez, aceitar ou rejeitar a proposta comunista. Era clara a tática dos americanos de ganhar tempo, adiando uma resposta até Nixon poder anunciar a viagem.

As negociações, de qualquer forma, devem entrar numa nova fase – a começar pela substituição de Bruce, provavelmente em meados de agosto, pelo atual americano na Coréia do Sul, William Porter. Aos 73 anos de idade, Bruce se retira oficialmente por motivos de saúde. Mas, na semana passada, corriam rumores de descontentamento mútuo: a Casa Branca estaria insatisfeita com a “falta de dinamismo” de Bruce como negociador; o diplomata estaria insatisfeito com a “falta de flexibilidade” de Nixon.

SAIGON E HANÓI – O trabalho principal de seu substituto será explorar os novos sentimentos do Vietnã do Norte. O convite para a visita de Nixon deixou suficientemente claro para Hanói que mesmo os melhores amigos cuidam primeiro de seus interesses. O Vietnã do Norte sempre olhou com desconfiança o degelo de abril – mas agora as coisas chegaram a um ponto especialmente delicado. O fato de que o inimigo número um vai visitar o amigo número um talvez leve Hanói a reconsiderar algumas de suas posições.

No Vietnã do Sul, o ambiente é de incerteza. É certo que o presidente Thieu elogiou a viagem. Mas o vice-presidente Cao Ky foi extremamente frio. Em alguns setores, temia-se uma “traição” como resultado final das conversas em Pequim.

Ao mesmo tempo, também começava a se ver uma intervenção mais direta da China nas negociações de paz. Na semana passada, o líder do partido trabalhista australiano, Gough Whitlam, comunicou aos EUA que, durante um encontro com Chu En-lai, na semana anterior, em Pequim, o primeiro-ministro lhe anunciara a intenção de reabrir a conferência de Genebra – um movimento considerado positivo pelos EUA. A China poderá, ainda, participar da Conferência de Paris, corno “observador interessado”. Nos meios políticos americanos, a impressão na semana passada era de que a retirada das tropas dos EUA poderá ser completada por volta de maio de 1972 ou mesmo antes, uma vez que a partir de agora é possível esperar concessões de Hanói.

UM LINCOLN? – Todo esse movimento representa para Nixon uma jogada de primeira grandeza em política interna. A legião de adversários que concentravam seus ataques contra a atuação do presidente na guerra, segundo relata José Roberto Guzzo, correspondente de VEJA em Nova York, ficou repentinamente sem terreno firme sob os pés. Aconteça o que acontecer, na pior das hipóteses, Nixon já é o presidente que chegou mais perto da paz. “Dentro de cinqüenta anos”, comenta o jornal belga “La Dernière Heure”, “os povos talvez digam que Nixon foi um LincoIn.”

As primeiras reações internas à viagem foram um sucesso sem precedentes para a Casa Branca. O presidente teve apoio praticamente total do Congresso, de ambos os partidos e de todas as tendências. Seus mais duros adversários na questão da guerra aprovaram sem reservas a sua iniciativa. O mesmo aplauso veio de grande parte dos setores conservadores.

Para a campanha de 1972, as coisas podem ter começado a mudar radicalmente. O tema da paz, uma arma de primeira linha para o Partido Democrático, pode esfriar – talvez, até, desaparecer. Por outro lado, Nixon precisará apaziguar o influente setor conservador da máquina partidária republicana, pois a solidariedade no Congresso e os elogios dos liberais pacifistas não representam necessariamente votos em outubro de 1972.

Há, também, os riscos da viagem. Nixon precisa tirar resultados positivos da missão e, diante da magnitude de certos problemas que envolvem as relações EUA-China, parece claro que o presidente deu um passo audacioso. Um fiasco na visita seria fatal.

Nos meses que o separam de Pequim, Nixon terá que trabalhar intensamente para afastar o perigo de um imprevisto que não seria o primeiro. Uma viagem à União Soviética, planejada pelo presidente Eisenhower em 1960, foi cancelada à última hora, devido à derrubada de um avião de espionagem U-2 em território russo. Lyndon Johnson, por outro lado, também não esperava ter de cancelar, devido à intervencão militar soviética em Praga, sua viagem a Moscou em 1968.

ANTES DO PRELÚDIO – De qualquer forma, a simples intenção do presidente americano, antes mesmo de ser concretizada, é um marco sem precedentes na política internacional dos últimos 25 anos. “Estamos observando a liquidação de dois decênios de uma política americana, no leste da Ásia, dominada por John Foster Dulles”, opinou Edgar Snow, o escritor americano que entrevistou Mao Tsé-tung em dezembro último. Para o jornal “Le Monde”, “essa decisão, inconcebível há vários meses, é o prelúdio das maiores redivisões de mapas vistas pelo mundo desde a guerra”.

Não resta dúvida, porém, de que a maior carga de surpresa e de readaptação às novas circunstâncias caiu sobre o próprio povo americano. Antes da tomada do poder pelos comunistas na China, em 1949, Mao Tsé-tung e seus companheiros eram classificados pela imprensa dos EUA como “pretensos comunistas”, “reformadores agrários”, ou mesmo “socialistas à inglesa”. O próprio Stálin encorajava opiniões controvertidas, qualificando-os, em conversa com o diplomata Averell Harriman, de “comunistas de margarina”.

O LIVRO FECHADO – Quando o presidente Harry Truman percebeu a ascensão da força de Mao e a iminência de uma guerra civil entre comunistas e as forças de Chiang Kay-shek, enviou o general George Marshall à China para tentar reconciliar as duas partes. Era a última visita de um representante dos Estados Unidos à nação chinesa: dois anos após o fracasso da missão Marshall, Mao Tsé-tung assumia irremediàvelmente o controle de todo o país, instituía a República Popular da China e forçava as tropas de Chiang Kai-shek a se refugiarem na ilha de Taiwan.

Para os Estados Unidos, as alianças estavam seladas e, durante os 22 anos seguintes, a China comunista permaneceu um livro fechado para a população americana. De tempos em tempos, um novo golpe – guerra da Coréia, escalada americana no Vietnã, Revolução Cultural na China – aprofundava ainda mais o abismo político e diplomático entre os dois governos. Até fevereiro deste ano a possibilidade de um confronto direto Estados Unidos-China (motivado pela intervenção aliada no Laos) era, por muitos, levantada com seriedade.

A descida dos primeiros americanos no planeta China, em abril deste ano, foi a primeira revelação de um novo mundo. A notícia da visita de Richard Nixon a Mão Tsé-tung já anuncia seus prováveis contornos.

VELHOS AMIGOS – No seu grande salto da última quinta-feira, o presidente Nixon fez apenas uma – mas significativa – ressalva pública: a reaproximação com a China, disse ele, não se faria “às custas dos nossos velhos amigos” (a China nacionalista). Apesar dessa garantia, é dificil imaginar qualquer progresso efetivo no degelo, que, de alguma forma, não custe caro ao regime anticomunista de Chiang Kai-shek. Mais do que o Vietnã – onde uma solução é considerada uma questão de tempo -, Formosa permanece como o maior obstáculo entre Washington e Pequim. O governo comunista reclama soberania sobre Formosa e não aceita a formação de duas Chinas; o governo nacionalista sustenta que o regime de Pequim é rebelde e ilegal.

Na dupla rigidez, a de Pequim é a mais séria: sua principal exigência aos EUA é a saída dos navios da Sétima Frota do estreito de Formosa e a retirada das bases militares na ilha. Quanto ao reconhecimento formal da soberania, não é uma preocupação para os comunistas. “A liberação de Formosa”, disse recentemente Chu En-lai, “é assunto interno chinês. E não será tão complicado como se pensa.”

DESABAFO AMARGO – Até o momento, Pequim não deu sinal algum de que negociaria uma solução intermediária para o problema. Os comunistas também não aceitam a idéia de um plebiscito no qual os 14 milhões de habitantes (12 milhões de nativos da ilha e 2 milhões de chineses vindos do continente) decidiriam entre três hipóteses: continuação do regime atual, independência ou anexação à China continental. A única indicação mais branda que se conseguiu até agora foi uma recente declaração de Chu En-lai comprometendo-se a impedir qualquer ação vingativa contra os habitantes da ilha. É muito pouco para o entendimento, e o caminho americano – apertado entre a necessidade de obter progressos significativos com Pequim e a impossibilidade de abandonar Formosa à própria sorte – parece especialmente obscuro nesse problema.

Os chineses nacionalistas, de qualquer forma, pressentem a tempestade. O embaixador de Formosa nos EUA, James Shen, foi avisado da viagem de Nixon vinte minutos antes do pronunciamento, num dos telefonemas de Rogers, e respondeu: “Não posso dar crédito a meus ouvidos”. No dia seguinte, ele entregava uma violenta nota de protesto e desabafava amargamente com os jornalistas: “Esse não é o tipo de coisa que um amigo e aliado deveria fazer. Não fornos consultados e nem ao menos avisados com um mínimo de antecedência. Foi uma manobra barata”. Em Formosa, o tom era o mesmo. O gabinete foi convocado com urgência e o premier C. K. Yen falava da possibilidade de “uma tragédia”.

Na sexta-feira, o governo de Chiang Kai-shek ordenou ao embaixador Shen que retornasse a Taipé e divulgou comunicados em que classificava o anúncio da visita de Nixon como “jogo sujo” dos Estados Unidos.

QUASE NA ONU – Ao mesmo tempo que a viagem de Nixon criava visões de isolamento em Formosa, ficava claro que, agora, a China comunista está separada da ONU por um fio – no fim da semana, em Nova York, havia uma forte impressão de que Pequim poderia ser admitido na próxima Assembléia Geral, em setembro, substituindo o regime nacionalista. A posição dos EUA, mais uma vez, será decisiva – e o Departamento de Estado já anunciou que uma “nova posição” será conhecida num futuro próximo.

PROBLEMAS NO JAPÃO – Fora do contexto diretamente chinês, a viagem de Nixon – além de receber uma ampla aprovação mundial – veio introduzir novos elementos em toda a área do Pacífico. O principal envolvido é o Japão. Para a China, o “problema japonês” é uma preocupação de primeira importância. Em seu encontro com Nixon, Chu En-lai certamente mencionará a ajuda militar americana ao Japão. Segundo Pequim, os EUA estariam “remilitarizando o Japão”, tornando-o um fator de desequilíbrio no Pacífico. Em Tóquio, por outro lado, a ida de Nixon à China desperta complexos problemas de política interna – porque a oposição ganhou novos argumentos para forçar o governo a melhorar suas relações com Mao – e de relações externas: embora a visita tenha sido oficialmente aplaudida, o governo não vê com bons olhos o principal fiador de sua segurança aproximar-se de Pequim.

RESERVA EM MOSCOU – Resta a União Soviética, onde, aparentemente, a surpresa da viagem desorientou os líderes (a notícia foi transmitida pela Rádio de Moscou, sem comentários, com sete horas de atraso). Certamente criou um ambiente de irritação, pois os soviéticos se viram completamente à margem de um movimento diplomático fundamental. Na sexta-feira à tarde, o primeiro-ministro Alexei Kossiguin conferenciou durante mais de duas horas com quatro personalidades americanas, entre as quais o senador Frank Church, sem mencionar uma única vez o surpreendente anúncio da viagem de Nixon. Foi um notável exemplo da reserva soviética.

Segundo as primeiras análises, porém, o lance americano não parece visar a União Soviética ou conter qualquer tipo de ameaça a Moscou. Seu objetivo seria, essencialmente, o de tentar construir uma estratégia a longo prazo com a China. Ainda assim, é possível que os soviéticos decidam por conta própria recuar em sua política de entendimento com os EUA. E as conseqüências disso logo apareceriam nas conversações sobre Berlim e mesmo sobre o Oriente Médio. De qualquer forma, para o Kremlin, a agenda das viagens oficiais do presidente Nixon já tem um sabor particularmente desagradável: primeiro a Romênia, em 1969, e agora a China – precisamente os dois países mais rebeldes à liderança soviética no mundo comunista.

Incontestavelmente, é curioso que um presidente dos Estados Unidos visite Pequim antes de Moscou – embora mantenha relações com a União Soviética há quase quarenta anos -, antes mesmo de reconhecer o governo de Mao.

A estranheza em Moscou, o desagrado em Taipé, os problemas em Tóquio, nada disso parece, no entanto, ser mais importante do que o suspiro de alívio coletivo ouvido em quase todas as capitais mundiais. E num dia antes de maio, quando Mao Tsé-tung responder com um caloroso “huangyn” (bem-vindo) ao “hello” de Richard Nixon, um momento histórico estará ocorrendo. Primeiro passo para a paz ou fonte de insuspeitados conflitos, será certamente o instante em que se começará a desenhar uma nova face para as relações internacionais no século XX.

Revista Veja
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