Daily Archives: 17/07/2007

Um ano de vida do Blog CONTROVÉRSIA

Em 17 de junho de 2006 foi postada a primeira matéria do Blog CONTROVÉRSIA e ele nascia sem muitas pretensões. O mar da virtualidade onde rolam ondas de bilhões de gigabites diariamente rebaixaram as expectativas. Pensei comigo mesmo: vamos fazer uma experiência, pois o máximo que pode acontecer é o Blog morre por inanição de visitas.

Não foi o que aconteceu. Atingimos a incrível marca de 180 mil visitas hoje, em 17 de julho de 2007, 365 dias após intensa navegação nas águas da rede mundial de computadores.

A marca do Blog é sua qualidade, que pode ser comprovada pelos inúmeros e-mail recebidos dos internautas. Grande prazer ainda posso sentir ao encontrar gente na rua que diz “ser leitor do Blog”.

A quantidade também deixou sua marca nesta data: foram 4 mil postagens, ou uma média de 11 por dia.

Enfim, deixo o meu mais sincero agradecimento aos Controversos e a promessa de manter a qualidade das publicações.

Para reforçar o momento de alegria, neste 12º mês de vida o Blog recebeu 41 mil visitas, ou seja, mais de 1.300 por dia em média.

Acompanhe a movimentação mês a mês (desde 17 de julho de 2006).

01° mês: 3 mil visitas (0 a 3.000)
02° mês: 3 mil e 500 visitas (3.000 a 6.500)
03° mês: 5 mil visitas (6.500 a 11.500)
04° mês: 5 mil e 800 visitas (11.500 a 17.300)
05° mês: 7 mil e 900 visitas (17.300 a 25.200)
06° mês: 10 mil visitas (25.200 a 35.200)
07º mês: 13 mil e 800 visitas (35.200 a 49.000)
08° mês: 13 mil e 100 visitas (49.000 a 62.100)
09° mês: 19 mil e 700 visitas (62.100 a 81.800)
10° mês: 26 mil e 200 visitas (81.800 a 108.000)
11° mês: 31 mil visitas (108.000 a 139.000)
12º mês: 41 mil visitas (139.000 a 180.000)

Em breve o CONTROVÉRSIA trará uma boa novidade aos seus leitores. Aguarde.

Obrigado. Ricardo Alvarez

Maravilhas da Natureza

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Se não mudarem, EUA serão Roma, alerta historiador

ENTREVISTA COM CULLEN MURPHY

A “Pax Americana” é uma ilusão, e o processo de “declínio e queda” não será súbito, afirma autor norte-americano

Para o jornalista e historiador Cullen Murphy, uma erosão lenta começa a corroer o Império Americano. Embora creia que muito separe os EUA de seu predecessor cujo fim sepultou a Idade Antiga, fatores de risco os aproximam: a dependência do poder militar e a obsessão por segurança -a um custo insustentável-, a terceirização de funções do governo, a arrogância. Como estancar a queda? “Estaríamos nos ajudando se parássemos de tentar projetar poder em cada canto.”

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

“Are We Rome?”, pergunta o título do livro. É uma brincadeira com o som da pergunta que os pais mais ouvem dos filhos durante as viagens, “Are we home yet?”, “já chegamos em casa?, e a pergunta que historiadores, analistas e pensadores norte-americanos se fazem cada vez mais: “Nós já somos Roma?”.
“Nós”, no caso, é o Império Norte-Americano. Responder a essa questão e traçar paralelos entre as duas épocas são o que propõe Cullen Murphy, 55, jornalista e especialista em história medieval, no livro que acaba de lançar, cujo subtítulo é “A Queda de um Império e o Destino dos EUA”. “Não, ainda não” é o que ele responde à Folha, numa troca de e-mails.
Ainda assim, acredita, há muitos e perigosos paralelos entre o país comandado por George W. Bush hoje e o império que terminou em 476, ao ver seu exército derrotado pelos soldados de Odoacro, um “bárbaro” que era cristão, conhecia os meandros de Roma e até meses antes servia no mesmo regimento que agora caía.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

FOLHA – Para usar o duplo sentido do título de seu livro, nós já estamos em Roma?
CULLEN MURPHY – Não, ainda não. Há evidentemente muitas diferenças entre os EUA e o antigo Império Romano, e algumas dessas diferenças podem trazer em si sinais do futuro. Diferentemente de Roma, os EUA são um país de classe média, uma democracia e uma sociedade marcadamente igualitária. Ainda assim, há muitos e perigosos paralelos com a Roma antiga, e eles deveriam preocupar mais os americanos.
Por exemplo, a maneira com que os EUA dependem crescentemente do poder militar para atingir seus objetivos, mesmo com nossas Forças Armadas já no limite de sua capacidade. Ou a terceirização de funções governamentais para empresas privadas, o que enfraquece a capacidade do governo de agir em benefício de todos os seus cidadãos -e aumenta a habilidade dos interesses privados em agir em benefício de poucos. Por fim, a mentalidade que vê os EUA como o centro do sistema solar, com todos os outros países orbitando em torno de nós.

FOLHA – O que mais?
MURPHY – Há pessoas na direita que vêem os EUA como ainda na fase ascendente e ainda no processo de expansão de seu poder no mundo. Há, obviamente, muitos outros, não só na esquerda, que se preocupam com o fato de que a “Pax Americana”, como a “Pax Romana” de muitos séculos atrás, ser uma ilusão. Ilusão essa que vai levar os EUA a trilhar um caminho perigoso e fútil, na minha visão.
O processo de “declínio e queda” não vai ser súbito, mas uma erosão lenta, como foi para Roma. O que nós chamamos de “queda de Roma” não foi uma catástrofe ocorrida da noite para o dia, aquela imagem popular dos bárbaros empurrando as portas da cidade. Ao contrário, levou séculos, ocorrendo mais rapidamente em alguns lugares que em outros.
Você pode estar vivendo bem no meio dessa “queda” e não se dar conta. Para alguns, a queda se parece muito com o que vemos agora, aliás: novos povos adquirindo nova autoridade e poder econômico, alguns grupos demográficos novos se mudando para cidades, outros grupos mais antigos se tornando gradualmente marginalizados.

FOLHA – Se a decadência for inevitável, qual seria o próximo império? A China, como muitos acreditam? Algum outro dos BRICs (acrônimo para Brasil, Rússia, Índia e China)?
MURPHY – Outros países vão se destacar e se tornar potências econômicas e militares regionais. Isso é bom, creio. A China, é claro, será um deles, assim como a Índia. Mas vários outros terão papel importante. Por exemplo, além dos países da Europa Ocidental, citaria Turquia, Austrália e Brasil. Quanto ao “próximo império”, talvez estejamos passando do ponto em que teremos impérios convencionais. Não sei, será que em 500 anos alguém vai escrever um livro chamado “Are We America?”?

FOLHA – O sr. dedica boa parte do livro à questão da segurança, acha que o preço de manter um império é a constante vigilância. Ironicamente, isso não o levará à ruína?
MURPHY – O custo da segurança -ou, para ser mais preciso, o custo do que achamos ser segurança- é insustentável a longo prazo. Foi insustentável para Roma. É o mesmo dilema: seus Exércitos são muito pequenos para as metas que eles têm de (ou desejam) cumprir, mas ao mesmo tempo muito grandes para serem mantidos por muito tempo. São custosos em termos humanos e financeiros.
Não sei se esse problema tem solução, além da mais óbvia: parar de tentar projetar nosso poder em cada canto do mundo. Nós só estaríamos nos ajudando se fizéssemos isso. Se adotássemos uma política de energia inteligente, por exemplo, que levasse em conta nosso imenso poder tecnológico, poderíamos abrir mão de manter a presença maciça atual no Oriente Médio.

FOLHA – O número de mercenários no Iraque já quase se equivale ao de soldados. O Império Romano fazia o mesmo…
MURPHY – Nesse momento, há 150 mil soldados americanos no Iraque, e cerca de 100 mil mercenários. O problema de manter um Exército muito numeroso em ação é que o preço político se torna muito alto. É muito mais fácil fingir que o número de tropas oficiais está estabilizado -ou mesmo reduzido- e ao mesmo tempo contratar profissionais do setor privado para fazer o serviço. A prática não é nova, mas a proporção atual é inédita.
E não afeta apenas os militares. Há hoje 2 milhões de funcionários públicos no governo federal. Estima-se que haja mais 12 milhões -você leu certo- prestando serviços, em contratos privados, realizando todo tipo de trabalho público, mas empregados por companhias privadas. Pode ser que sejam em tese mais eficientes, menos burocráticos. Mas, com o tempo, a erosão do poder do governo é muito significativa. E, quando houver uma nova crise, o governo pode descobrir tarde demais que não tem autoridade direta para fazer o que deve ser feito. Isso aconteceu em Roma.

FOLHA – A comparação entre Washington e Roma é recorrente. Por que o sr. acha que historiadores a acham tão atraente?
MURPHY – Não vamos nem falar do fato de que Washington e Roma até se parecem fisicamente, com todo aquele mármore se erguendo do pântano. O fato é que Roma era o Estado mais rico, sofisticado e poderoso da época, o que os EUA também são hoje. Como Roma, também têm uma ideologia de superioridade -nossa nota de dólar chega mesmo a usar as palavras de Virgílio para proclamar “Novus Ordo Seclorum”, uma nova ordem para os tempos.
Após a Segunda Guerra (1939-45), quando aos EUA foi confiado o papel de líder mundial num grau nunca ocorrido antes (um papel que o país desempenhou de maneira satisfatória por várias décadas, na minha opinião), as pessoas começaram a dizer “Pax Americana”, em referência à “Pax Romana”. Mas outra razão que leva as pessoas a fazer a comparação entre os dois impérios tem a ver com o que não são as melhores qualidades de ambos: a arrogância, o orgulho excessivo, o fato de sermos voltados para nós mesmos.

FOLHA – Há um sentimento mais ou menos disseminado no resto do mundo de que, mesmo com novas tecnologias integradoras como a internet e o cabo, os norte-americanos continuam sendo um povo insular, fechado em si mesmo. Por que isso acontece, em sua opinião? Geografia? Destino? Ou simplesmente porque eles podem?
MURPHY – Os americanos sempre fomos de certa maneira insulares. Os pioneiros acreditavam que tinham deixado o doente Velho Mundo para trás, e que isso lhes dava uma chance de criar uma sociedade nova. Nunca deixamos por completo a idéia do “excepcionalismo”, de sermos um povo especial.
Combine isso ao fato de sermos protegidos por dois oceanos e de termos todo um continente para explorar, e não chega a ser surpreendente que os EUA sejam isolados, mesmo sendo uma potência mundial. Mas isso precisa mudar. Numa era de globalização econômica e migração humana vasta, nenhum país pode fingir que o resto do mundo não conta. Os americanos não podem mais se dar ao luxo de ser paroquiais.

FOLHA – De onde a comparação entre o presidente George W. Bush e o imperador Diocleciano?
MURPHY – Tenho pensado nos EUA sob a ótica de Diocleciano já há algum tempo, por conta do grande investimento dos últimos anos -a começar de Ronald Reagan, na verdade- em segurança nacional e do declínio relativo de investimento em programas domésticos. A comparação não é absolutamente exata por várias razões. Ainda assim, parece claro para mim que os EUA estão se tornando o Estado que se preocupa em primeiro lugar e principalmente com a segurança nacional em termos militares -o que Diocleciano (284-305) também fez, ao se tornar imperador depois de um período de caos e declínio.
Mas o trecho ao qual você se refere, em que comparo os preparativos para uma viagem ao exterior de Bush aos do imperador, me ocorreu quando meu avião aterrissou na Irlanda e eu vi ambos os Air Force One na pista, cercados por militares, cercas de arame farpado, vigiados com caças com mísseis. Um imperador romano se deslocava pelo mundo com um pesado aparato de segurança -como Bush, levava com ele um governo inteiro em miniatura…

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

Desnacionalização acelerada na indústria brasileira

Carlos Lessa

Esta semana a professora Carmen Garcia divulgou na defesa e aprovação de sua tese de Doutorado em Ciências da Engenharia de Produção na COPPE/UFRJ, a presença de capital estrangeiro na indústria existente no país. A professora teve que fazer um trabalho de paciência chinesa para reconstituir em detalhe esta presença entre 1985 e 2002.

Entre as duas datas foi implantada a adesão político-econômica do Brasil à globalização financeira. Houve o progressivo e acelerado programa de abertura comercial, com redução da proteção à indústria, privatizações e desregulamentações.

Houve a equalização da empresa sob controle de nacionais com a filial estrangeira no acesso ao mercado e aos incentivos públicos. Foi desmantelado o instrumental de política de industrialização que o Estado desenvolveu ao longo das décadas anteriores em busca de um padrão de desenvolvimento apoiado na dinâmica industrial e ampliação do mercado interno.

Duas evidências fortes balizam a trajetória do capital estrangeiro na indústria no período 1985-2002. Em primeiro lugar, a participação de filiais estrangeiras no valor de transformação industrial cresceu de 31% para 40% em 2002. Se forem consideradas apenas as grandes empresas (mais de 500 trabalhadores), a percentagem é de 47%. Isoladas, nas 100 maiores empresas o capital estrangeiro comanda 57% do VTI. Nas médias e pequenas empresas, onde é maior a presença nacional, houve perda de posição entre 1985 e 2002 (caíram de 35% para 29%). Desde o século XIX até 1985, a participação estrangeira atingiu 31%. A partir de então, em apenas 17 anos saltou para 40%.

A segunda evidência é o medíocre crescimento da economia brasileira, que na latino-américa apenas supera o Haiti. A promessa neoliberal falava de “tempos difíceis” com a mudança de modelo, que seriam sucedidos por uma vigorosa expansão da economia.

Em 2007, continuamos na mediocridade, com o desemprego crescente de jovens, com a “exportação” de jovens para o exterior, com a degradação das instituições republicanas.

Ao abandonar a plataforma dinâmica de estruturação do mercado interno, perdemos posição no cenário industrial internacional. Em 1980, o Brasil era a 8ª economia industrial e hoje somos a 13ª.

A professora apurou a lente da indústria extrativa e de transformação, agrupou as indústrias em cinco grupos: indústrias baseadas em ciência (eletrônica, farmacêutica, aeronáutica etc); indústrias de produção contínua em escala (química, siderurgia, automobilística etc); indústrias de produção diferenciada (eletrodomésticos, instrumentos médicos e máquinas e equipamentos); indústrias intensivas em trabalho (têxtil, confecções, calçados, mobiliário etc) e indústrias baseadas em recursos naturais (extrativa mineral, cimento, alimentos, bebida, madeira e extração e refino de petróleo).

Refletindo a abertura comercial, a indústria intensiva em trabalho perdeu 7% de posição no VTI. A indústria diferenciada caiu 2%; a em produção contínua manteve sua colocação. Houve crescimento do peso da indústria intensiva em recursos naturais e da baseada em ciência.

As filiais estrangeiras controlam 82% do setor da indústria baseada em ciência; 73% da diferenciada, e 68% da produção contínua. É particularmente inquietante a progressão da empresa estrangeira na indústria intensiva em recursos naturais. Nestas, a presença das filiais cresceu de 15%, em 1985, para 24%, em 2002.

Em termos estruturais, a indústria brasileira não é muito diferente da chinesa. A diferença é que, na China, a taxa de investimento é de 40% do PIB, enquanto que no Brasil não chega a 20%.

Os arautos da globalização festejam o quadro, pois a presença da filial estrangeira que não desenvolve tecnologia de ponta, que amplia comprometimento cambial com a remessa de lucros, que prefere comprar empresas e suas frações de mercado a construir novas plantas, frente ao cenário medíocre, sugere que o Brasil poderá ocupar uma posição central com as indústrias intensivas em recursos naturais.

Imaginam que uma República Velha reciclada, aonde proteínas brancas e vermelhas, alimentos processados e, provavelmente, etanol e biodiesel seriam os carros-chefes de uma nova economia brasileira. Abriríamos mão do sonho de um sistema industrial integrado para ocuparmos nichos baseados na mãe natureza. Isto pode vir a ocorrer, segundo as tendências detectadas por Carmen Garcia.

Cabe sublinhar que haverá uma mudança fundamental – e para pior – entre o café da República Velha e as commodities relacionadas.

Comparemos o café com a soja. Novas variedades de café eram desenvolvidas pelo IAC – Instituto Agronômico de Campinas. Na soja, a Monsanto domina o negócio das sementes. As máquinas da agropecuária são de filiais; os fertilizantes, após a privatização, idem. Não há nenhum grupo nacional com peso na comercialização da soja, enquanto que na República Velha era de nacionais a exportação de café. Na economia da soja, a produção agrícola e o transporte por caminhão são os refúgios dos nacionais.

Tempo houve em que se falava dos países centro-americanos como “banana-republic”. Foram os exemplos perfeitos de perda de soberania nacional.