Daily Archives: 08/07/2007

O assassinato de García Lorca

Há 70 anos o poeta espanhol foi executado junto com um professor e dois auxiliares de toureiro

Luis García Montero

Na noite de 13 de julho de 1936 Federico García Lorca tomou o trem para Granada. Os poeta ainda avaliava a possibilidade de viajar para o México, convidado pela atriz Margarita Xirgu, para desfrutar do sucesso que estavam alcançando suas obras teatrais. Vivia um momento de plena maturidade e reconhecimento público, haviam-se perfilado todos os matizes de sua voz lírica nos poemas do “Divã de Tamarit” e acabava de escrever “A Casa de Bernarda Alba”, uma obra plena, de grande significado na evolução teatral do autor, porque nela suas indagações estéticas superavam ao mesmo tempo o experimentalismo elitista da vanguarda e as facilidades populistas da arte comercial.

Poucos dias depois de ler diante de um grupo seleto de amigos o manuscrito de “A Casa de Bernarda Alba”, tomou o trem para Granada. Além de passar o 18 de julho, dia de seu santo, com seus pais e sua irmã Concha, parece que queria afastar-se dos ares conflituosos de Madri por uma rápida temporada.

Mas Granada estava longe de respirar tranqüilidade. O poeta devia conhecer as tensões que se haviam condensado na cidade. Sua relação estreita com Fernando de los Ríos, deputado socialista por Granada, fazem pensar assim. A Frente Popular havia impugnado o resultado das eleições de fevereiro de 1936, denunciando a manipulação dos caciques na província. A repetição das eleições em 31 de março não serviu para acalmar as feridas abertas durante meses de grandes comícios, greves, tiroteios falangistas, incêndios, provocações e reações violentas.

Tratava-se de um mal-estar parecido com o que havia se apoderado de Madri, a mesma agitação promovida pela radicalização social e pelos conspiradores contra a República, interessados em alimentar a desordem.

Mas em Granada, uma pequena cidade de província, quase todo mundo se conhecia e as intrigas, os rancores, os ânimos de vingança, adquiriam uma proximidade caseira, muito propícia para encarniçar os ódios desatados em uma guerra civil.

García Lorca estava na casa de verão de sua família, a Huerta de San Vicente, quando os militares golpistas se apoderaram da cidade em 20 de julho. Granada era então um Comando Militar sob as ordens da Capitania Geral de Sevilha, assumida desde o dia 19 pelo general Queipo de Llano, um dos comandantes do exército que recorreu de forma mais decidida ao terror como conduta oficial dos golpistas.

A resistência da cidade foi mínima e heróica: grupos de operários com escopetas se entrincheiraram no Albaicín e mal puderam resistir ao ataque da aviação e da artilharia rebeldes. A repressão foi sem dúvida muito dura, e cruel, pois desnecessária. Nem Queipo de Llano nem o comandante Valdés Guzmán, as autoridades militares máximas, vacilaram na hora de aplicar o extermínio como o melhor método para a regeneração espanhola.

Sempre me surpreenderam as suposições sobre as razões últimas da morte de García Lorca (homossexualidade, disputas familiares, notícias de rádio, apolitismo). O poeta foi um dos mais de 5 mil granadinos executados em virtude dos conselhos de guerra ou dos passeios da Esquadra Negra. Entre outros, foram fuzilados o general Miguel Campins, chefe do Comando Militar e leal à República, o prefeito, o presidente da Câmara de Vereadores, o reitor da universidade, o diretor do jornal mais importante da cidade, “El Defensor de Granada”, e diversos deputados, vereadores, professores, sindicalistas…

Como não iriam fuzilar um poeta republicano, partidário da Frente Popular e exemplo de liberdade viva nos ambientes mais sórdidos de um provincianismo que ele mesmo havia caracterizado como “a pior burguesia da Espanha”?

Federico García Lorca não se sentiu realmente ameaçado até 9 de agosto, quando uma patrulha irrompeu na Huerta de San Vicente em busca dos irmãos do caseiro, Gabriel Perea Ruiz. Insultado, golpeado, humilhado, temeu por sua vida e pediu auxílio a Luis Rosales, um poeta amigo, bem situado no novo regime pelo papel que seus irmãos falangistas e ele mesmo haviam exercido na rebelião. Rosales foi à Huerta e reuniu-se com a família para avaliar as diversas possibilidades. Federico García Lorca não quis se arriscar a cruzar as linhas inimigas para passar à zona republicana e preferiu se abrigar na casa familiar dos Rosales, no número 1 da rua Angulo.

Ali recebeu a notícia, em 16 de agosto, da execução de seu cunhado José Fernández-Montesinos, prefeito socialista da cidade. Nesse mesmo dia, por volta da 1 da tarde, Ramón Ruiz Alonso apresentou-se na casa dos Rosales com uma ordem de detenção. Ruiz Alonso, antigo deputado da CEDA e muito ativo nas lides repressivas dos primeiros dias da sublevação, cumpriu seu encargo de forma espetacular, com tumulto de tropas e cerco da casa.

O poeta foi conduzido ao Governo Civil. Luis Rosales tentou libertar seu amigo, mas no regime militar que ele e seus irmãos estavam ajudando a impor não havia lugar para cidadãos como Federico García Lorca.
Angelina Cordobilla, uma mulher que trabalhava para a família Lorca, levou comida para o prisioneiro na manhã dos dias 17 e 18 de agosto. Quando se apresentou na manhã do 19, disseram-lhe que o poeta não estava ali. Com efeito, durante a noite de 18 para 19 fora conduzido para La Colonia, uma prisão improvisada em uma vila de recreio nas proximidades de Víznar.

Ao amanhecer, como escreveu Antonio Machado, foi visto caminhando entre fuzis em Granada, a sua Granada. Foi executado junto com o professor Dióscoro Galindo e os banderilheiros Francisco Galadí e Joaquín Arcollas.

Um coveiro de La Colonia acompanhou há anos o escritor Ian Gibson à fossa onde foram sepultados os corpos. Durante muitos anos o Barranco de Víznar foi o território sagrado dos democratas granadinos, o lugar no qual prestamos culto a nossos mortos. A democracia urbanizou aquele espaço simbólico que havia formado a história bárbara da Espanha, construindo ali um parque em memória das vítimas da Guerra Civil.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Publicado em El Pais

Republicação do BLOG

Pensamento de Milton Santos chega às telas do cinema

André Gardini
05/07/2007

Milton Santos, um dos mais importantes pensadores sobre o território brasileiro, teve uma parte de sua obra transformada em documentário pelo diretor de cinema Silvio Tendler. “Encontro com Milton Santos, ou o mundo global visto do lado de cá”, merece mérito pela preciosidade do registro, o último antes da morte de Milton, em 2001. Mas não apenas por isso. Para Tendler, o documentário traz a discussão sobre um mundo do ponto de vista dos pobres que procuram alternativas para o mundo como ele é hoje.
O documentário de 89 minutos, vencedor na categoria Júri Popular no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2006, será lançado no dia 17 de agosto em cinco capitais do Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Porto Alegre. Para Milton Santos, essas cinco capitais fazem parte da Região Concentrada, que abrange os estados da região Sudeste (Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo), os estados da região Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e dois estados do Centro-oeste (Mato Grosso do Sul e Goiás), tendo como pólo as metrópoles de São Paulo e do Rio de Janeiro. Essa região se caracteriza pela modernização generalizada, onde os acréscimos de ciência e tecnologia se verificam de modo contínuo, pela intensa circulação interna e acentuada divisão territorial do trabalho. A nova proposta de regionalização para o território brasileiro de Milton Santos está no livro “O Brasil: território e sociedade no inicio do século XXI”, escrito juntamente com Maria Laura Silveira, professora de geografia da USP.
Tendler conta que a entrevista com o professor Milton Santos foi o ponto de partida e também sua principal referência. O documentário expõe um pensamento acerca da globalização e discute as distorções impostas aos países pobres que pagam injustamente pelo crescimento da economia dos países ricos e as conseqüências provenientes dessa lógica do capital, que amplia as diferenças ao invés de redistribuir as riquezas. “O lado de cá são os países do sul, explica o diretor. “Na verdade, para Milton a globalização tem características dos regimes totalitários como o nazismo e facismo, por isso ele a chamava de globaritalismo, que se refere a esse processo imposto pelas grandes empresas à humanidade”, explica Tendler, e completa, “Milton Santos é um dos pensadores oriundo do mundo do sul que pensou esse processo de globalização de um ponto de vista dos pobres”.
O documentário traz um pensamento pessimista do presente, mas uma visão otimista quando tenta mostrar as possibilidades de um novo mundo, também sinalizado pelo professor Milton Santos, onde a união entre as “novas técnicas” e “os de baixo” podem fazer um futuro mais distinto para a humanidade. Milton Santos é um intelectual que, por suas idéias e práticas, inspira o debate sobre a sociedade brasileira e a importância que a categoria território tem na construção desse novo mundo.
De acordo com informações da Agência Senado, onde o documentário foi lançado no último dia (19), no auditório Petrônio Portela do Senado Federal, no filme Milton Santos explica que a informação é o coração da globalização. É através dos sistemas de comunicação que as grandes empresas estabelecem atualmente os seus domínios. Mas é também através da comunicação que pode se dar a mudança rumo a um futuro mais humano. As novas tecnologias de informática-eletrônica, apropriadas, cada vez mais, por pequenos grupos, podem trazer à luz fatos antes conhecidos, e até mesmo desconhecidos pela maior parte das pessoas, sob um novo olhar, um novo ponto de vista.
O conceito de espaço e abordagem inovadora
A obra de Milton Santos traz uma nova proposta sobre o conceito de espaço. O território usado, que é sinônimo de Espaço Geográfico, deve ser estudado sobre a ótica das novas tecnologias, dos agentes hegemônicos e dos hegemonizados, da crescente fluidez que acelera os fluxos das grandes empresas ao mesmo tempo em que nega essa possibilidade para os homens mais pobres, que ele chamou de “os homens lentos”. Nessa abordagem o território adquire novas características para se tornar um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações.
De acordo com Milton, as velhas noções de centro e periferia já não se aplicam, pois o centro poderá estar situado a milhares de quilômetros de distância e a periferia poderá estar dentro do próprio centro. Daí a correlação entre espaço e globalização, que sempre foi perseguida pelos detentores do poder político e econômico, mas só se tornou possível com o progresso tecnológico. Para contrapor-se à realidade de um mundo movido por forças poderosas e cegas, impõe-se, para Santos, a força do lugar, que, por sua dimensão humana, anularia os efeitos perversos da globalização.

ComCiência

“Cavalos de Tróia” do capital transnacional

O autor analisa aspectos da forma como se estrutura o “novo” emaranhado político e econômico mundial, assim como suas repercussões na América Latina. Para isso, previamente muitos intelectuais, negando a ciência, estabelecem bases conceituais que correspondam aos projetos imperialistas e criam “oposições de palha” que enaltecem a subjugação nacional. A economia e a correlação política mundial são analisadas nos últimos tempos através de muitos enfoques, tais como: a interdependência econômica; a globalização, a perspectiva da hegemonia (leia-se Petras, 2005: 289-296) e, propriamente, a do imperialismo (Lênin, 1989), a estes quatro enfoques pode-se agregar a teoria do “império” (Hardt e Negri, 2000).

Wilson Enríquez

A noção de interdependência econômica encobre a evidente relação de assimetria que existe entre os países do Norte1 e do Sul. O conceito da globalização, ainda que aborde o fenômeno da expansão do capital e a intensificação da sua acumulação em todo o globo terrestre, busca ocultar a forma como se ramifica o capital em todo o mundo, ou seja, centra somente no aspecto econômico, mas oculta as molas da dominação política, ideológica e militar que abrem atalhos para a expansão do capital.

O conceito de hegemonia, ainda que analise a disputa política que origina o poder econômico, assume a submissão dos oprimidos, ocultando também a luta sem trégua entre capital e trabalho, tal como a resistência diária dos povos.

Por sua vez, o conceito de império* tenta explicar a expansão do capital a partir da suposta desaparição ou extinção paulatina dos Estados-nação. Aqui, o conceito de soberania se desloca para uma nova estrutura global de domínio (Borón, 2004), o que para nós é uma sofisticação que caiu como um castelo de cartas depois do 11 de setembro, tanto pelo que representa o ataque em si, como pelas medidas de agressão que o USA vem infringindo como Estado-nação imperialista a países como Afeganistão e Iraque. Outras vezes, como as ameaças de uma maior agressão imperialista a uma lista de países, os quais estigmatizou com o rótulo de países terroristas.

O enfoque do imperialismo cada vez é menos utilizado, mesmo permitindo estabelecer uma melhor compreensão da forma como empresas transnacionais e certos Estados-nação repartem o mundo.

Ao delinear a noção de imperialismo, Lênin estabelece como seus traços fundamentais:

1) A concentração da produção e do capital chega a um grau tão elevado de desenvolvimento que cria os monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida econômica;

2) A fusão do capital bancário com o industrial e a criação, no terreno deste “capital financeiro” da oligarquia financeira;

3) A exportação de capitais, diferente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande;

4) Formam-se associações internacionais monopolistas, que repartem o mundo entre si e

5) Termina a divisão territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes (Lênin, 1989: 88).

Lênin faz esta sistematização nas primeiras décadas do século XX. Dali em diante, o capitalismo ao nível mundial, mais propriamente o imperialismo, sofreu uma série de crises, superando-as mediante a utilização de um sem número de estratagemas. Esta situação nos permite recorrer à elaboração conceitual leninista para decantar a dinâmica imperialista de nossos tempos.

A dinâmica imperialista

Uma das mais fortes crises do capital foi o denominado crack de 1929, posteriormente amenizado pela política do Estado de Bem Estar (Welfare State), funcional às formas de exação de mais-valia mediante técnicas de controle de tempo e micro-movimentos corporais dos operários na fábrica, nos marcos dos sistemas de organização do processo de trabalho tayloristas e fordistas (veja-se Coriat, 1997).

Outro período de crise do capital conduziu à Segunda Guerra Mundial, conflagração bélica de alta intensidade, cuja finalização deu lugar a novas regras e protagonistas na repartição do mundo (USA e União Soviética pós-Stálin).

O pós-guerra abriu o período da Guerra Fria. Esta foi uma época em que algumas nações oprimidas da África e da Ásia deixaram de ser colônias das potências imperialistas — principalmente européias. Na América Latina se alentou a industrialização e substituição de importações, processo encarado de forma distinta por cada país latino-americano. Mesmo assim, paralelamente o capital se expandiu e intensificou sua acumulação em todo o globo.

Até o fim da década de 1960, múltiplas manifestações populares, assim como a elevação exponencial das resistências do trabalho sobre o capital originaram o ocaso do Estado de Bem Estar aplicado nos países do Norte e estendido somente aos enclaves econômicos dos países do Sul2.

Esta situação trouxe como consequência um longo período de gestação e introdução das denominadas medidas neoliberais imbricadas com uma série de novas configurações, tanto no processo de trabalho e de acumulação de capital quanto no de repartição do mundo, que na América Latina foram contidas com rebeliões populares, lutas operárias e processos de guerrilha que foram confrontadas com operativos sanguinários como a chamada “operação Condor” na América do Sul.

A tensão política se manteve até a década de 1980 com movimentos de libertação nacional na Nicarágua, Guatemala e El Salvador, e inclusive com a guerrilha maoísta no Peru, que adentrou a década de 90.

Este período se caracteriza por introduzir novas formas de organização social de trabalho nas grandes indústrias, sob critérios de flexibilização trabalhista extraídos da proposta do toyotismo (veja-se Coriat, 2000), que se aplicam a todo o mundo — atendendo às especificidades de cada contexto concreto — a sangue e fogo com o objetivo de uma maior acumulação do capital. As condições de trabalho em muitos casos retrocedem ao ponto de partida das lutas dos movimentos operários no século XIX e começo do século XX na América Latina.

Quanto à repartição do mundo, o fato de maior transcendência foi o desabamento político e econômico da União Soviética e de seus países aliados — o bloco da Europa do Leste. Os países onde se praticou um capitalismo de Estado, a partir do final dos anos 50 — apesar do rótulo de socialismo —, enfrentaram um sério obstáculo para uma maior acumulação do capital. Por isso se tornou compreensível sua ulterior hecatombe e bancarrota que, por sua vez, implicou no atestado de óbito da Guerra Fria.

As décadas de 80 e 90 se caracterizaram por uma acelerada expansão do capital e intensificação de sua acumulação em todo o mundo, uma maior divisão internacional do trabalho que balizou a industrialização em certos países do Sul (mais especificamente do Sudeste Asiático), alentados pelo ingresso de capitais dos países imperialistas do Norte.

Em todo o mundo se teceram as condições mais precárias para o trabalho, combinando um aumento da mais-valia relativa (intensificação do trabalho) ao introduzir permanentemente tecnologia de ponta no interior das fábricas, com um paradoxal aumento da mais-valia absoluta ao se estender as jornadas de trabalho devido à multiplicação dos operários a domicílio.

Esta variante da exploração capitalista teve como marco a organização do trabalho toyotista, que fomenta a progressiva elevação de operários a domicílio, alargamento do chão de fábrica como diria Marx, impondo-se salários por empreitada sem que seja claramente perceptível, além de incluir-se no processo de produção toda a família do empreiteiro — mulheres e crianças — para intensificar a sub-remuneração salarial. No ideológico se cria a ficção de que o “operário a domicílio é um empresário” sendo um dos artífices desta cínica definição Hernando de Soto (1997), cujo texto O outro caminho (El Otro Sendero) foi traduzido para muitos idiomas.

Quanto à repartição do mundo, no começo da década de 1990, o USA opta por concentrar seus esforços no controle dos hidrocarbonetos no Oriente Médio com uma agressão imperialista denominada “operação tempestade no deserto”. Os Estados europeus, conscientes das oportunidades que estavam abertas com a queda da União Soviética e de suas próprias debilidades impulsionam uma aliança mais próxima entre eles, o que resultou na União Européia — EU.

Paralelamente, as empresas transnacionais em aliança com os capitais bancários — no que Lênin denomina capital financeiro — iniciam a absorção das empresas de economia mista, tidas como estatais, das nações do Sul, em uma complexa estratégia ideológica, política e econômica, onde o fator corrupção lhes permite fartar-se de recursos naturais, matérias-primas minerais e hidrocarbonetos, instituições bancárias estatais, empresas de serviços de alta rentabilidade, cuja potencialidade foi incrementada posteriormente com o ingresso de novas tecnologias de informação e comunicação (TIC), como a internet.

Também adquirem ações das indústrias mais exitosas do Sul, aquelas que surgiram sob a proposta da CEPAL — Centro de Estudos para a América Latina e Caribe, da industrialização e substituição de importações, precipitando o desastre e bancarrota das “menos exitosas” que, em geral, eram as que tinham menos capital constante (máquinas e tecnologia) e maior capital relativo (uma grande legião de operários). Daí que antigas fábricas ou usinas apareçam hoje como meros elefantes brancos, colossos fantasmagóricos cuja presença questiona a viabilidade industrial em países do Terceiro Mundo.

Os movimentos do capital financeiro dos países do Norte acabam desestabilizando as economias dos países do Sudeste asiático em razão de sua característica intrínseca de capital especulativo, desencadeando uma nova crise mundial no fim da década de 1990 e começo do século XXI.

O episódio do World Trade Center foi um pretexto excelente para que o USA utilizasse todo seu poderio militar contra uma lista de países “terroristas”, ou seja, que desejavam sua independência, com a anuência da grande maioria dos países da EU e sem oposição aparente de nenhum Estado-nação, salvo os protestos dos agredidos e a solidariedade de todos os povos do mundo. Esta época, a vivemos atualmente.

China e Índia: competência?

A divisão internacional do trabalho, as necessidades de expansão do capital e o imperativo ideológico imperialista que permita justificar seu acionamento são elementos que coincidem com um novo estratagema: a construção de ídolos com pés de barro.

O regozijo de certos analistas pelo crescimento das economias chinesa e indiana, no fundo estimula a confiar no sistema, porque supostamente abre as portas para uma concorrência perfeita, um suposto fair play na economia que se opõe ao caráter monopolista do sistema capitalista mundial, cuja mensagem é: “todos os países podem progredir dentro das regras do jogo capitalista, se esta for a proposta”.

O mais surpreendente para estes analistas é que na China e na Índia o crescimento de sua economia é sustentado, as taxas de crescimento superam os 9% para o caso da China e os 8% para a Índia. De fato, segundo os profetas da “macroeconomia”, um crescimento sustentado de 15 anos com uma taxa de crescimento de 10% é a condição para alcançar o status de país desenvolvido (veja-se Dorn-busch, 2002).

Uma reflexão sobre a situação da China e Índia nos leva a exemplificar o crescimento de suas economias como um “frango que cresceu rapidamente graças à inoculação de hormônios”, ou seja, um crescimento que se deve mais a uma intervenção externa que a um desenvolvimento a partir das próprias forças internas.

Uma das formas como se move o capital transnacional nos últimos tempos é o singular atrativo que sentem por países do Sul, com uma enorme densidade demográfica. Sem dúvida os motivos para se sentirem atraídos são muitos: vastas legiões de mão de obra barata disponível, um enorme mercado cativo e uma perfeita fachada para encobrir seu caráter explorador com dois “cavalos de Tróia”: os Estados da China e da Índia.

A China, com cerca de 1 bilhão e 300 mil habitantes, e a Índia, com mais de 1 bilhão e 100 mil, são uma enorme fonte de mão de obra e a disponibilidade de um enorme exército de reserva industrial, assim como um incrível número de consumidores. Estas razões são mais que suficientes para que o capital transnacional se instalasse nestes países. De fato, o PIB de US$ 2.228.862 milhões da China e de US$ 785.468 milhões da Índia estão entre as 15 economias mundiais com maior geração de PIB3.

Porém, o PIB per capita desses países é de US$ 1.740 para a China e US$ 720 para a Índia. Estes últimos indicadores são superados por todos os países da América do Sul, com exceção da Bolívia, cujo PIB per capita é de US$ 1.010, superando o da Índia, mas não o da China. À margem disto, é necessário assinalar que o PIB per capita é uma mera média que não reflete o nível dos contrastes sócio-econômicos das classes sociais em cada país. Ou seja, deve-se pensar na elite burocrática estatal chinesa e na velha estratificação social por castas da sociedade indiana ao arrepio da situação das enormes massas populares destes países.

Algo poucas vezes mencionado sobre as economias chinesa e indiana é a origem dos capitais que movem muitas de suas empresas. Os interesses capitalistas ianques e da União Européia estão presentes na China atraídos por essa densa população que somada representa um terço da população do planeta. Este assunto adquire muita importância, porque no mundo repartido por interesses imperialistas não há lugar para um novo Estado-nação imperialista que trate de se impor somente através da dinâmica econômica.

Esta situação é identificada por Amin (s.f.) com o termo francês rattrapage que encerra “a impossibilidade de países periféricos de alcançar níveis de desenvolvimento similares aos dos países centrais”. Não existe livre concorrência ou concorrência perfeita no sistema capitalista, muito menos os mercados se regulam por uma “mão invisível”. A agressão imperialista ao povo iraquiano e as ameaças a uma longa lista de países, que na atualidade é encabeçada pelo Irã são demonstração patente desta situação, que de maneira alguma deve ser confundida como uma encruzilhada insolúvel e um pessimismo histórico para conceber que outro mundo é possível. A transformação do mundo é uma possibilidade que requer ser reconstruída a partir da luta dos povos, por métodos que definitivamente colidem com as regras do jogo imperialista.

Assim como a China e a Índia provocam o mais caloroso entusiasmo dos adoradores do capital e dos mais conspícuos militantes da chamada “esquerda caviar”, na América Latina, Brasil e México que concitam a atenção do capital transnacional e do imperialismo.

Dinâmica e resistência

A América Latina se caracteriza por uma incipiente industrialização. Os maiores enclaves industriais latino-americanos se encontram nas cidades de São Paulo, Cidade do México e Buenos Aires. As medidas neoliberais das décadas de 1980 e 1990 desagregaram mais a classe operária, com a elevação da figura do “operário a domicílio”, que além de permitir maior acumulação de capital por uma severa compressão dos salários, além de erodir drasticamente a potencialidade de organização e rebeldia dos operários.

Inclui-se neste pacote neutralizador da força operária o repetitivo discurso de contentar o “operário a domicílio” com um suposto status empresarial, como definiu De Soto (1997).

A atual crise econômica mundial gerou um crescente processo de mobilizações em toda América Latina, que permitiu o fortalecimento de organizações populares que questionam de maneira séria o modelo neoliberal. Sobretudo se fortaleceram os movimentos camponeses, as organizações de bairro e os grupos de defesa dos recursos naturais. No entanto, as organizações sindicais operárias em geral tiveram seu avanço freado pela consolidação de “aristocracias sindicais”, salvo raras exceções de organizações sindicais que mantém a defesa dos interesses do proletariado.

Esta situação originou uma nova correlação de forças na América Latina, onde retornaram — ainda que com menos entusiasmo — os discursos de “nacionalização” que se impuseram nas décadas de 1960 e 70, sob a proposta da CEPAL. Os matizes são distintos: vão desde a altissonância e os calorosos discursos anti ianques de Hugo Chavez até a extrema moderação e alinhamento cerrado com o USA, como é o caso do Estado colombiano, que viabilizou a assinatura do Tratado de Livre Comércio com a mencionada potência imperialista.

Os discursos nacional-populistas se repetem em grande parte dos países latino-americanos. Fala-se do renascimento da esquerda latino-americana, matizada por propostas inócuas para o capital imperialista como a chamada Alternativa Bolivariana para os Povos da América — ALBA e o Tratado de Comércio dos povos — TCP, que são mecanismos efetivos de propaganda dos governos de Cuba, Venezuela e Bolívia. Mesmo assim, não têm maior incidência econômica em nenhum dos três países, razão pela qual perde pouco a pouco a credibilidade das massas latino-americanas.

Dessa forma, Chávez, um pouco mais audaz e ambicioso, propõe a criação do Banco do Sul, um banco regional latino-americano impulsionado por países sul-americanos que pretende substituir as tarefas do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Idéia agourenta que tem uma forte carga demagógica, como a criação de um suposto socialismo do século XXI baseado em bons negócios petroleiros com o USA, sem sair dos marcos do velho modelo primário exportador imposto pelo imperialismo.

Evo Morales, seu aliado, prefere a utilização de um discurso indigenista com acréscimos exóticos, sem nenhuma intenção emancipadora do povo boliviano, muito menos uma séria ação descolonizadora. Não pretende renunciar ao capital — nem sequer de palavra, a exemplo de Chávez — daí sua proposta do capitalismo andino-amazônico.

Evo Morales se especializou em arremeter contra o USA e retratar-se ou desculpar-se em fração de segundos. A assinatura da ALBA ou o TCP pretendiam ser alternativas ao TLC do USA. Mesmo assim, as missões político-econômicas para manter o Acordo de Promoção Comercial Andina e Erradicação de Droga (ATPDEA, na sigla em inglês) com o USA são apresentadas como grandes êxitos de sua gestão.

A moderação ou submissão do governo boliviano chegou até a classificar a viagem de George Bush à América Latina como um saudável gesto de aproximação da realidade sul-americana, como assinalou textualmente o vice-presidente Álvaro Garcia Linera, enquanto em São Paulo, uma inédita quantidade de policiais era mobilizada para garantir a segurança de Bush enquanto que, paralelamente, o povo brasileiro saía às ruas para repudiar o representante da maior potência imperialista do mundo. Essa dinâmica se repetiu em Bogotá, Montevidéu, Guatemala e Yucatán, também visitadas por Bush.

A passagem de Bush pela América Latina merece atenção especial. As visitas ianques das décadas de 1950 e 1960 culminaram em uma imediata maior repressão, assim como o fomento de governos sanguinários na década de 1970.

A visita de Kissinger na década de 1980 culminou com a imposição das medidas neoli berais que redundaram em uma maior exação de capitais a toda América Latina, cujos resultados econômicos são fartamente conhecidos.

Esta excursão mostrou o interesse do imperialismo ianque pelo Brasil e México, duas economias que se encontram entre as 15 que geram maior PIB, mas que enfrentam situações críticas, porque suas taxas de crescimento anuais não conseguiram ultrapassar 3 % em 2005, segundo dados do Banco Mundial. Igualmente a tentativa de desarticulação da proposta nacional-populista de Chávez de uma maior integração latino-americana, golpeando o Mercosul através de Tabaré Vásquez, e tentando consolidar a atração da Comunidade Andina de Nações (CAN) a um acordo de livre comércio com o USA com sua visita à Colômbia. Essa ação permite reverter o fracasso da falida proposta do Acordo de Livre Comércio das Américas —ALCA, o mesmo motivo que orientou sua visita à Guatemala, que é a maior economia da América Central.

No anedotário ficará Bush, sua esposa e Condoleeza Rice dançando samba em São Paulo, os abraços com “esquerdista” Luiz Inácio da Silva, a auto-proclamação de Bush como “bolivariano”, hipócritos gestos de simpatia que foram respondidos com o repúdio nas ruas das massas latino-americanas. O que fica como tarefa é nossa atenção ao que vem, porque estamos conscientes de que a visita de Bush só tem como objetivo uma maior exação de capital ao povo latino-americano.

Também como anedota fica a “contra-excursão imperialista” de Hugo Chavez pela Argentina — onde gritou “gringo home” para Bush — depois pela Bolívia. Na Nicarágua falou da agonia do imperialismo ianque e culminou a excursão no Haiti, onde outorgou ajuda aos haitianos e finalmente na Jamaica. É um evidente gesto simbólico de Chávez. Primeiro visita a Argentina, que é a terceira economia latino-americana depois de Brasil e México, e inclui os três países (Bolívia, Nicarágua e Haiti) que ostentam os mais baixos PIBs da América Latina, o que o levou a percorrer o caminho inverso da nação imperialista do Norte.

A pergunta é quão efetivas são as arremetidas meramente verbais contra o imperialismo ianque, assinalar que se encontra em agonia, quando as cifras, mesmo referendando uma desaceleração da acumulação de capital, não mostram que o poderio econômico ianque tenha entrado em colapso, muito menos sua capacidade tecnológica e militar em todo o globo. Ao que parece, o discurso de Chávez não faz mais que reforçar a ilusão da prosperidade chinesa e indiana, lugar que pelas razões já mencionadas pode ser ocupado por Brasil e México. Esta ilusão vocifera aos ingênuos a possibilidade falaz do assentamento na cena política mundial de “potências imperialistas emergentes” ou “sub-imperialistas”, falsidade orientada ao reforço do papel de “cavalos de Tróia” do capital transnacional que desempenham alguns Estados-nação, mas que não deixam de pertencer ao Sul.

1. Como países do norte se entende indistintamente as maiores nações imperialistas, altamente industrializadas
2. Como países do Sul entendemos os países do terceiro Mundo ou as nações oprimidas do mundo.
3. As cifras mencionadas neste texto correspondem ao ano de 2005 e foram extraídas sítio da internet www.worldbank.org

Referências bibliográficas
Amin, Samir
s.f. Capitalismo, imperialismo, mundialización.

Borón, Atílio
2004, Imperio & Imperialismo. Una lectura crítica de Michael Hardt y Antonio Negri. Buenos Aires: CLACSO.

Coriat, Benjamin
2000, Pensar al revés. Trabajo y organización en la empresa japonesa. 5ª Edição. Madri: Siglo XXI.
1997, El taller y el cronómetro. Ensayo sobre el taylorismo, el fordismo y la producción en masa. 11ª Edição. Madri: Siglo XXI.

De Soto, Hernando
1997, El otro sendero, la revolución informal. Bogotá: Oveja Negra.

Dornbusch, Rudiger et al.
2002, Macroeconomía. Madri: McGraw Hill.

Hardt, Michael y Negri, Antonio
2000, Imperio. Cambridge-Massachussets: Harvard University Press.

Lênin
1989, El imperialismo, fase superior del capitalismo. Moscou: Progreso.

Petras, James
2005, La economía política de la política exterior de Estados Unidos para América Latina. En: Revista OSAL. Ano V- Nº 17- Maio-Agosto. Buenos Aires. Pp. 289-296.

*Nota da redação — Império não se refere simplesmente a um Estado com domínio sobre muitos outros; uma consideração pejorativa diante da vigente administração semicolonial exercida pelo USA, por exemplo. Aqui se critica império como uma terminologia que vem sendo adotada em detrimento do conceito científico: imperialismo. A seguir, alguns outros conceitos da vigente religião (do trabalho e da subjugação nacional) são colocados em evidência pelo autor, denunciando que são adotados com o mesmo objetivo de falsificar os conceitos científicos.

O sistema do dólar e a realidade económica dos EUA no pós guerra

F. William Engdahl [*]

É comumente aceite que os Estados Unidos, apesar dos recentes problemas, são ainda a principal locomotiva na promoção do crescimento da economia mundial, e o pilar do sistema global. Mas o que se passaria se descobríssemos que, em vez de ser o pilar, os Estados Unidos eram, na realidade, o coração de um sistema económico disfuncional, que está propagando a instabilidade, o desemprego, e uma recessão económica global?

Nenhuma outra nação no mundo consegue sequer aproximar-se da superioridade dos EUA em termos de bombas inteligentes, tecnologia militar ou simplesmente em capacidade bélica. A posição dos EUA no mundo desde 1945, e especialmente desde 1971, apoiou-se em dois pilares: na sua superioridade militar sobre todos os outros países, e no papel do dólar como moeda de reserva mundial. No entanto o dólar representa hoje o calcanhar de Aquiles da hegemonia americana.

Em meu entender, o mundo entrou, desde o colapso da bolha do mercado de valores EUA em 2001, numa fase nova e altamente perigosa. Estou a referir-me aos fundamentos insustentáveis que têm suportado o sistema do dólar. Mas o que é o sistema do dólar?

Como funciona o sistema do dólar

Depois de 1945, os EUA emergiram da segunda guerra mundial como o país com as maiores reservas de ouro do mundo, com a maior capacidade industrial, e com um excesso de dólares apoiado por ouro. Durante a guerra-fria nos anos 50 e 60, os EUA podiam ser generosos com os aliados, como a Alemanha e o Japão, podiam permitir que as economias da Ásia e da Europa Ocidental florescessem para contenção do comunismo. Com a abertura dos EUA às importações do Japão e da Alemanha Ocidental, foi possível alcançar a estabilidade. Mas o mais importante é que se construiu uma estreita zona de comércio que trabalhava sempre, primeiro, em benefício dos EUA.

Este funcionamento do sistema manteve-se até finais dos anos 60, quando a dispendiosa guerra de Vietname drenou as reservas de ouro dos EUA. Em 1968 essa drenagem atingiu níveis de tal maneira críticos, que os bancos centrais estrangeiros que possuíam dólares, temendo que o défice americano convertesse os seus dólares em nada, preferiram antes o ouro que os suportava.

Em Agosto de 1971, Nixon rompeu finalmente o acordo de Bretton Woods, e recusou resgatar dólares por ouro, dado que não tinha ouro suficiente para entregar. Isto levou ao início da fase mais importante da história económica mundial. Depois de 1971 o dólar deixou então de estar indexado a uma onça de ouro, isto é, a algo que fosse mensurável, mas sim às impressoras da Tesouro e da Reserva Federal dos EUA.

O dólar passou a ser então uma moeda política. Temos “confiança” nos EUA como o defensor do mundo livre? Num primeiro momento Washington não se apercebeu da arma que tinha criado depois de ter rompido com o ouro. Simplesmente reagiu por necessidade, pois as suas reservas de ouro estavam perigosamente baixas. Fez valer o seu papel como pilar na NATO e na segurança de mundo livre, para pedir aos seus aliados que continuassem a aceitar os seus dólares como faziam antes.

As moedas flutuaram para cima e para baixo contra o dólar. Os mercados financeiros foram lentamente liberalizados. Foram levantados os controlos. Foi permitida a banca em paraísos fiscais com fundos de investimento e produtos financeiros derivados sem regulação. Todas estas mudanças tiveram a sua origem em Washington em coordenação com os bancos de Nova Iorque.

O paradoxo da dívida do dólar

O que ficou logo claro para os círculos da Tesouro e Reserva Federal dos EUA depois de 1971, foi que passavam a ter a possibilidade de exercer mais influência global por via da dívida, dívida do Tesouro, coisa que nunca foi possível fazer através dos excedentes comerciais. A dívida de uma pessoa é o crédito de outra. E como todos os produtos chave, de entre todos eles o petróleo, são comercializados globalmente em dólares, a procura de dólares continuaria, apesar de os EUA virem a criar mais dólares que a sua própria economia pudesse justificar.

Desta maneira, os seus sócios comerciais acumularam tantos dólares que temeram criar uma crise do dólar. Pelo contrário, foram acumulando sistematicamente até ao presente, acabando assim por enfraquecer as suas economias pelo seu apoio ao sistema do dólar, temendo não já aquela crise, mas sim um colapso global. O primeiro choque aconteceu em 1973 com o aumento do preço do petróleo em 400%. As economias da Alemanha, do Japão e de todo o mundo foram devastados e o desemprego aumentou. No entanto o dólar ganhou.

Temos testemunhado desde 1971, tanto na Europa como no resto do mundo, que o sistema do dólar é a verdadeira fonte de inflação global. Entre 1945 e 1965, a provisão total de dólares cresceu apenas uns 55%. Esses foram os anos dourados de crescimento estável e baixa inflação. Depois do rompimento de Nixon com ouro, entre 1970 e 2001, os dólares expandiram-se acima de 2.000%!

O dólar é ainda a única moeda de reserva global. Isto significa que os outros bancos centrais têm necessidade de possuir dólares como reserva para conseguir resistir às crises monetárias, para apoiar o seu comércio externo e para financiar as importações de petróleo, entre muitas outras coisas. Hoje, cerca de 67% de todas as reservas dos bancos centrais são dólares. O ouro representa apenas uma pequena parcela, e os euros aproximadamente 15%. Até à criação do euro não havia nenhum rival teórico do dólar como moeda de reserva.

Mas o que é pouco conhecido é a ligação que existe entre o défice comercial dos EUA e o sistema do dólar. Os Estados Unidos seguiram uma política deliberada de défices comerciais e défices orçamentais durante a maior parte das últimas duas décadas, denominada de “negligência benigna”, na realidade com o objectivo de fazer depender o resto do mundo do sistema monetário norte-americano. Pois enquanto todo o mundo aceita os dólares como dinheiro com valor, os EUA ficam com a vantagem de ter a exclusividade de imprimirem todos os dólares. O truque consiste em conseguir que o mundo aceite esta situação. A história dos últimos 30 anos explica como é que esta estrutura se foi montando com a ajuda da OMC, do FMI, do Banco Mundial e de George Soros para nomear apenas alguns.

Na realidade verificou-se a evolução de um mecanismo mais efectivo do que o conseguido com a utilização do padrão-ouro pelo império britânico na Índia e nas restantes colónias. Enquanto os EUA mantiverem a sua hegemonia militar exclusiva, o mundo continuará a aceitar os inflacionados dólares dos EUA como pagamento para os seus bens. Os países em desenvolvimento como a Argentina, o Congo ou a Zâmbia, são forçados a adquirir dólares para defender as suas moedas e conseguir assim a aprovação do FMI na obtenção de empréstimos. As nações industriais são forçadas a ganhar dólares para defender as suas próprias moedas correntes. O objectivo principal das decisões económicas, financeiras e políticas dos EUA, não foi outro senão de manter o papel único do dólar na economia mundial. Não é por acaso que o maior centro financeiro do mundo é Nova Iorque. É o núcleo do sistema global do dólar.

O sistema funciona da seguinte maneira: Uma companhia alemã, digamos a BMW, consegue dólares com as suas vendas de carros nos EUA. Deposita os dólares no Bundesbank ou no Banco Central Europeu em troca de marcos ou euros que possa usar no seu mercado local.

É desta forma que o banco central alemão constrói as suas reservas monetárias em dólares. Desde as crises petrolíferas dos anos setenta, que a necessidade de ter dólares para importar petróleo passou a ser uma política de segurança nacional para a maioria dos países, a Alemanha incluída. A exportação a troco de dólares passou a ser um objectivo nacional. Mas a partir da data em que o Bundesbank deixou de trocar os seus dólares por ouro, colocou-se a questão do que fazer com a montanha de dólares conseguida com o seu comércio. Então decidiram que no mínimo deviam comprar títulos do Tesouro dos EUA, um investimento seguro e fiável, para ganhar o correspondente à taxa de juro. Assim, na medida em que os EUA aumentavam um défice orçamental, tinham mais títulos para serem comprados.

Hoje em dia, a maioria dos bancos centrais estrangeiros têm títulos do Tesouro dos EUA ou activos similares deste país, como parte das suas “reservas monetárias”. Estima-se que possuam entre 1.000 mil milhões e 1.500 mil milhões de dólares em dívida do governo dos EUA. É precisamente aqui que se encontra a perversidade deste sistema. Com efeito, a economia dos EUA está viciada no empréstimo estrangeiro, tal qual como um viciado em drogas. Na realidade só com o financiamento do consumo é possível poder gozar um nível de vida muito mais elevado do que poderia ter a partir das suas próprias poupanças. Os EUA vivem à custa do dinheiro que lhes é emprestado pelo resto do mundo, mas sempre através do sistema do dólar. Assim desta forma, os trabalhadores alemães fabricam carros da BMW e, se o seu banco central usar os dólares para comprar títulos dos EUA, entregam esses carros aos americanos a troco de nada.

Actualmente o défice comercial americano cresceu até uns inacreditáveis 500 mil milhões de dólares, mas apesar disso o dólar não entra em colapso. Porquê? Só em Maio e Junho últimos, o Banco da China e Banco do Japão compraram conjuntamente 100 mil milhões em títulos do Tesouro dos EUA e doutros tipos de dívida do governo! E isto aconteceu apesar de o valor destes títulos estar em queda. Simplesmente tiveram esta opção para salvar as suas exportações manipulando o yen contra o dólar para prevenir a sua revalorização.

Devido ao facto de o sistema mundial de pagamentos, e mais importante ainda, do mercado de capitais mundial — acções, títulos e derivados — ser em dólares, o dólar acaba por subjugar as restantes moedas. O Banco Central Europeu poderia oferecer uma alternativa, mas não tem qualquer possibilidade de conseguir isso. Simplesmente reage a um mundo dominado pelo dólar. Os bancos alemães destroem a economia alemã no seu ímpeto para imitar bancos dos EUA. O sistema do dólar está a destruir a base industrial alemã. A política económica nacional alemã, juntamente com o Bundesbank antes, e agora a política do Banco Central Europeu, está orientada em grande parte para o reduzido sector de exportação no sentido de maximizar os superávites comerciais em dólares, e por outro lado, a grande banca está orientada para atrair tantos dólares quanto seja possível.

A China assume hoje em dia um papel fundamental

A China é o país que possui, na actualidade, o maior superávite de dólares. A globalização é, na realidade, a palavra chave para o domínio do dólar. O yuan Chinês está indexado ao dólar. Os EUA estão a ser invadidos com produtos chineses baratos, correntemente ali fabricados por multinacionais americanas. Hoje, a China detém o maior excedente comercial com os EUA, mais de 100 mil milhões de dólares por ano. O Japão é o segundo, com 70 mil milhões. O Canadá com 48 mil milhões, o México com 37 mil milhões e, a Alemanha com 36 mil milhões ocupa a quinta posição dos países com os quais os EUA sustentam o seu défice. Todos eles somam quase 300 mil milhões do défice colossal de 480 mil milhões em 2002. Isto sugere uma interpretação para as prioridades da política externa americana.

O que é mais perverso neste sistema é o facto de Washington ter tido êxito em conseguir que os países com excedentes comerciais invistam as suas próprias poupanças nos EUA, transformando-se em credores deste país ao comprar títulos do Tesouro. Países asiáticos como a Indonésia, exportam capital para os EUA, em vez de ser ao contrário.

O Tesouro dos EUA e Greenspan [1] , estão convencidos de que os seus sócios comerciais sempre se sentirão forçados a comprar mais dívida americana, para evitar o colapso do sistema monetário global, tal como sucedeu recentemente em 1998, com a suspensão de pagamentos da Rússia, e com a crise dos fundos de investimento LTCM (Long-Term Capital Management).

Os funcionários do Tesouro aprenderam a ser mestres na arte de aplicar “uma de cal e outra de areia”. O secretário do Tesouro, Snow, serviu-se de um golpe táctico, quando permitiu que o dólar colapsasse depois do início da guerra do Iraque, advertindo a Alemanha do risco de se aproximar muito da França com o euro. Algumas semanas depois, o dólar caiu abruptamente e a indústria exportadora alemã ressentiu-se fortemente. Snow fez marcha atrás na sua decisão, e o dólar estabilizou. Agora o dólar aparece de novo, como a moeda estrangeira mais fluente nesse país.

Mas a dívida deve ser paga? Poderá pagar-se sempre? Os bancos centrais continuam a comprar nova dívida para pagamento da dívida anterior. A dívida dos EUA representa assim os activos do resto do mundo, activos que são a base dos seus sistemas de crédito.

A segunda base de sustentação do dólar, tem a ver com a dívida dos países pobres. Aqui, a influência dos EUA é estratégica, uma vez que possui o controlo das instituições multilaterais financeiras como o Banco Mundial, o FMI e a OMC. Países como o Brasil, Argentina ou Indonésia, vêm-se obrigados a desvalorizar as suas moedas face ao dólar, a privatizar as indústrias chave estatais e a cortar os subsídios, com o único objectivo de pagar as suas dívidas, na maioria dos casos, a bancos privados americanos. E quando estes países resistem a vender os seus melhores activos são apelidados publicamente de corruptos. O crescimento dos paraísos fiscais nas ilhas do Caribe, para além de constituir parte do circuito de branqueamento dos dinheiros da droga, é também uma consequência directa das decisões que se tomaram em Washington nos 70, e posteriormente, para desregulamentar os mercados financeiros e os bancos. Enquanto for o dólar a moeda global, quem ganha são os EUA ou, no mínimo, os seus grandes bancos.

Este é o tipo de imperialismo do dólar, muito mais refinado do que alguma vez foi possível imaginar nos tempos do império britânico. Esta é uma parte não mencionada nos debates acerca do “império” americano. Em lugar de investir nas colónias, como fez a Inglaterra, os EUA tiram benefício do comércio, uma vez que o dinheiro dos estados clientes, retorna à economia americana. O problema é que Washington permitiu este perverso sistema, deixando-o fora de qualquer controlo, até ao ponto de ameaçar arrastar o mundo inteiro para o colapso. O mundo poderia ser hoje muito menos instável se os EUA tivessem tido políticas de longo prazo, investindo no crescimento económico e na auto-suficiência de países como a Argentina e o Congo, em vez de os sangrar com a devolução das suas dívidas impagáveis em dólares.

A bomba da dívida interna dos EUA

A pergunta a fazer é se o sistema do dólar está a alcançar os seus limites? Nos últimos 30 anos, este sistema organizou-se à base de uma crescente dívida em dólares. Que poderia acontecer se o resto do mundo decidisse não entregar as suas poupanças ao Tesouro dos EUA, para o financiamento do seu défice ou das suas guerras? Que poderia acontecer se a China, o Japão ou a Rússia, decidissem diversificar o seu risco, comprando dívida em euros? Esse dia chegará mais cedo do que se possa pensar.

Para além da colossal dívida para com o resto do mundo, o peso da dívida interna dos EUA atingiu níveis alarmantes nas três últimas décadas, especialmente na última.

A dívida dos EUA, tanto pública como privada, mais do que duplicou desde 1995. Neste momento, oficialmente, é da ordem de 34.000 mil milhões de dólares, quando em 1995, era de 16.000 mil milhões e em 1985 era de “somente” de 7.000 mil milhões. Mas o mais alarmante é que a dívida cresceu mais rápido que o crescimento dos rendimentos para a poder pagar, ou do PIB.

A situação provocada pela dívida dos EUA estalou a partir da crise asiática de 1997. O motivo central desta explosão tem origem no consumo privado, e a razão fundamental é o crescimento da dívida hipotecária ajudada pelas duas agências semi-governamentais conhecidas por Fannie Mae e Freddie Mac. Após o ano de 2001 e do colapso da exuberância do mercado de acções, a Reserva Federal baixou a taxa de juro 13 vezes até atingir o mínimo histórico dos últimos 45 anos.

As famílias americanas endividaram-se com novos créditos hipotecários nos primeiros seis meses deste ano, com um crescimento anual de 700 mil milhões, tendo duplicado assim o crescimento da dívida em relação ao ano de 2000. Como consequência, a totalidade do crédito hipotecário dos EUA situa-se muito perto dos 5.000 mil milhões. Uma dívida duas vezes maior do que em 1996, e que cresceu com um ritmo superior aos rendimentos pessoais “per capita”. Esta dívida é superior ao PIB da maioria das nações.

O objectivo foi o de inflacionar a especulação no mercado imobiliário, para que a economia não parasse. Esta política teve como resultado terem sido alcançados níveis assombrosos de dívida, dado que foi facilitada pelas taxas de juros historicamente baixas. Mas quando os juros voltarem a subir, milhões de americanos vão deparar-se com uma situação insustentável, sobretudo se o desemprego crescer. Fannie Mae e Freddie Mac asseguram ambos 3.000 mil milhões de dólares em créditos hipotecários dos EUA. O sistema bancário americano detém a maioria das hipotecas. Quando a bolha imobiliária rebentar, encontrar-nos-emos com uma nova crise bancária, programada também de antemão, com os bancos JP Morgan/Chase, Wells Fargo e o Bank of América, como os maus da fita.

Desde o colapso do mercado de valores há três anos atrás, que a economia americana tem sido conduzida com a única intenção de evitar uma recessão severa, através do volume recorde do crédito ao consumo. “Shop until you drop” (consome até desfaleceres) é uma expressão popular americana. A Reserva Federal pressionou a baixa dos juros até a uma taxa de 1%, a mais baixa nos últimos 45 anos. O objectivo foi o de manter baixo o custo da dívida, para que as famílias continuassem a pedir crédito para gastar. Na actualidade, 76% do PIB da economia americana deve-se à despesa das famílias com o consumo. E a maior parte deste consumo está ligada a uma explosão recorde na compra de habitação.

No entanto, a taxa de crescimento da nova dívida familiar está a alcançar níveis alarmantes, ao mesmo tempo que o conjunto da economia de produção contínua a extinguir-se ou a declinar. Hoje em dia as fábricas americanas só trabalham a 74% da sua capacidade, um nível muito próximo dos seus níveis históricos mais baixos. Com tanta capacidade de produção sem ser utilizada, não há muitos empresários que pretendam investir em novas indústrias ou empregos. Por isso vão para a China.

Mas Greenspan continua a apostar na moeda estrangeira para apoiar o consumo numa bolha de crédito com juros baixos. Quando esta moeda estrangeira deixar de apoiar a economia americana, fluindo hoje para os EUA à razão de 2.500 milhões de dólares por dia, a Reserva Federal será obrigada a subir os juros para tornar mais atractivos os investimentos em dólares. Mas juros mais elevados, poderiam provocar uma crise no consumo baseado no crédito, na dívida hipotecária de longo prazo, nas dívidas dos cartões de crédito, bem como nos empréstimos para a compra de automóveis. Juros mais elevados, poderiam mergulhar a economia americana numa depressão, e tudo isto poderia acontecer apesar da pouca vontade que demonstra George Bush em ser reeleito.

Existe um limite para a capacidade de endividamento das famílias americanas para manter a economia a funcionar.

Não se verifica nenhuma recuperação da economia dos EUA. O que está a acontecer é, apenas, a explosão de um consumo endividado, baseado num aumento desmedido da compra e do preço da habitação.

A dívida imobiliária da responsabilidade das famílias alcançou um novo máximo em Junho com 8.700 mil milhões de dólares, o dobro do que era em 1994. As famílias já estão acostumadas a suportar pagamentos cada vez maiores para coisas tão básicas como a habitação e o automóvel. O pagamento de empréstimos para automóveis é em média realizado para prazos de 60,7 meses, o crédito concedido para a compra desses automóveis aumentou para 27.920 dólares, e uma casa nova custa em média 243.000 dólares.

Com um desemprego em alta e uma economia real que não está em crescimento, chegará um momento em que a realidade se manifeste de uma forma violenta, quando mercado hipotecário atingir o seu limite. Chegados a este ponto, o perigo está em os consumidores terem de deixar de comprar, e a economia nessa altura, não será capaz de criar novos postos de trabalho, nem promover uma recuperação real. Os postos de trabalho terão fugido para a China.

Devemos estar já nesse ponto, ou então muito próximo dele. Nas últimas seis semanas, as taxas de juros aumentaram bruscamente, pois os proprietários de títulos do Tesouro começaram a vender em larga escala, temendo que a rentabilidade do mercado imobiliário pudesse ter chegado ao fim, tentando assim retirar algum proveito antes do colapso dos valores dos títulos. O Banco Central Europeu tem advertido os bancos membros para que não comprem mais Freddie Mac ou dívida das agências governamentais norte-americanas.

O problema é que este processo de criação da dívida, interna e estrangeira, necessária para manter a economia americana em funcionamento, acumulou uma dinâmica de risco que está a destruir a base que resta da indústria produtiva e tecnológica. Henry Kissinger advertiu, numa conferência da Computer Associates, em Junho, que os EUA estavam a promover a destruição da sua própria classe média e das suas indústrias estratégicas, mediante a deslocalização para a China, Índia e outras zonas com custos mais reduzidos. Hoje, apenas 11% do conjunto da força de trabalho americana está no sector industrial, enquanto que em 1970 era de 30%. A América pós-industrial é uma bolha económica em vias de rebentar.

O chefe da Reserva Federal Americana, Greenspan, advertiu também a China sobre o aumento das trocas comerciais com os EUA, pressionando para que este país reavaliasse o renminbi, tornando assim os seus produtos menos competitivos nos mercados americanos. Mas isto é algo sumamente perigoso, pois este país asiático possui 340 mil milhões em títulos do Tesouro americano e em outros activos da reserva. Os EUA necessitam das poupanças chinesas em dólares para financiar os seus défices crescentes.

Os EUA estão presos na sua própria teia: os postos de trabalho americanos, os postos de trabalho com elevada componente tecnológica, assim como os da indústria produtiva, estão a deslocar-se continuamente das empresas americanas para a China, Índia ou para outras áreas mais baratas. Se Washington pressiona a China e outros países, com a intenção de que cortem as suas exportações, arrisca-se a matar a galinha dos ovos de ouro dos dólares. Quem comprará a crescente dívida em dólares do governo? Os negociantes privados de títulos, estão a tentar vender desesperadamente os seus títulos americanos. A Alemanha e o Japão, só podem comprar uma determinada quantidade de dívida em dólares.

A guerra americana do Iraque, mais do que um sinal de força, é um claro sinal de debilidade. É, todavia, uma debilidade económica, não militar.

O petróleo, a alimentação e o dinheiro como armas estratégicas

A razão fundamental para a guerra do Iraque é de carácter estratégico, muito para além das agendas de Richard Perle e de outros falcões. A hegemonia americana é um sistema distorcido do dólar, que depende cada vez mais do nível de apoio que o mundo possa dar para sustentar os actuais níveis de dívida dos EUA. Tal qual como o velho aprendiz de feiticeiro. No entanto já foi ultrapassado o ponto em que isto se pode conseguir de um modo fácil. Este é o verdadeiro significado do crescente unilateralismo americano e da actuação militar, como base da sua política externa. A Europa não pode ser considerada como uma parte da dívida do Terceiro Mundo, como o foi nos anos 80. Tanto o Japão como a China devem ser tidos cada vez mais em conta.

Mesmo que o americano comum renuncie às suas prometidas pensões de reforma, se o sistema do dólar tiver de permanecer hegemónico, deverá encontrar novas e mais fortes fontes de apoio, ainda que isso signifique, provavelmente, desestabilização e guerras para o resto do mundo.

Será que, devido a este contexto, alguns dos que pensam a longo prazo em Washington ou em qualquer outra parte, planificaram uma estratégia para estabelecer o controlo militar de todos os recursos estratégicos petrolíferos, face a um único rival em potência, que é a Eurásia, quer dizer desde Bruxelas a Berlim, passando por Moscovo e Pequim? A vulnerabilidade do dólar e os problemas da dívida americana, são bem conhecidos nos principais círculos políticos.

Como uma vez observou Henry Kissiger: “Quem controla o abastecimento de alimentos, controla as pessoas. Quem controla a energia, controla continentes inteiros. Mas quem controla o dinheiro, pode controlar o mundo”.
[1] Este artigo é anterior ao afastamento de Greenspan do banco central dos EUA. Conferencia proferida em Feldkirch, na Áustria, em Setembro de 2003

[*] Autor de A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, Pluto Press Ltd. Actualmente está a terminar um livro sobre Organismos Geneticamente Modificados (OGM): Seeds of Destruction: The Hidden Political Agenda Venid GMO. Sítio do autor: www.engdahl.oilgeopolitics.net .

O original encontra-se em globalresearch.ca/ . Tradução de MJS.

Resitir
http://resistir.info/