Monthly Archives: julho 2007

Rachaduras e crateras ameaçam a capital mexicana

Jeremy Schwartz
Cidade do México

Como se não fossem suficientes a poluição que reduz a longevidade, os engarrafamentos de trânsito que duram horas e os seqüestros, os moradores da Cidade do México precisam agora se preocupar com a possibilidade de ser engolidos pela terra sob seus pés.

Quando chega a estação das chuvas de verão, aumenta o temor de que as centenas de rachaduras, buracos e frestas espalhados pela cidade se abram, com conseqüências desastrosas, em uma área metropolitana na qual residem 20 milhões de pessoas.

Esse medo tornou-se realidade no início deste mês em uma favela da Cidade do México quando fortes chuvas abriram um buraco enorme na rua, que tragou um carro e um observador curioso. O homem morreu ao cair no abismo de lama de mais de 20 metros de profundidade.

O mais recente problema urbano da Cidade do México deve-se às particularidades históricas e geográficas únicas da capital. Construída no leito de um lago drenado, depois que os espanhóis destruíram a cidade de Tenochtitlan, semelhante à Veneza, a Cidade do México está afundando continuamente há séculos, e desde 1900 o seu nível desceu o equivalente a um edifício de três andares.

Ao mesmo tempo, a megalópole em processo de afundamento tem matado a sua sede drenando o aqüífero subterrâneo que fica sob a cidade. E, como isso não fosse suficiente, a cidade também está construída sobre um labirinto de falhas geológicas e minas abandonadas.

As rachaduras e fissuras subterrâneas são alargadas pelas chuvas, que ameaçam inundar o precário sistema de drenagem da cidade.

Uma rede de esgoto maciça, o Grande Canal, tem como objetivo retirar os detritos do vale em formato de tijela no qual se situa a Cidade do México. Os especialistas afirmam que chuvas particularmente intensas poderiam causar uma inundação catastrófica de água de esgoto.

“Quando os astecas se deslocaram para cá, eles jamais poderiam ter imaginado os problemas que esta localização geraria”, afirma Martin Argueta, do Serviço Geológico Mexicano. “Não nos livraremos dessas rachaduras, mas precisamos aprender a administrar o risco”.

Crescimento desordenado aumenta o risco
Grande parte do perigo se deve ao crescimento descontrolado da Cidade do México. Bairros criados de forma caótica se espalham pelas áreas mais frágeis do vale.

As autoridades governamentais muitas vezes promovem este crescimento desorganizado a fim de obterem votos cativos. Os engenheiros há muito clamam por mais restrições à construção de casas e edifícios, mas agora pode ser muito tarde para isto. A maior parte da área metropolitana está repleta de construções residenciais e comerciais.

Uma comunidade azarada
Talvez o bairro que corra mais risco seja Iztapalapa. Maior do que as cidades mexicanas de Guadalajara e Monterrey, Iztapalapa abriga alguns dos moradores mais pobres -e mais azarados- da Cidade do México.

Mais de 200 rachaduras ameaçam 10 mil casas em Iztapalapa, devido à combinação das falhas subterrâneas com a drenagem do aqüífero.

Mas apesar de toda a água sugada do subsolo, os moradores de Iztapalapa enfrentam uma falta d’água crônica, e o líquido muitas vezes precisa ser trazido até o bairro de caminhão-pipa.

David Perez Figueroa mora há quase 30 anos perto daquilo que se transformou em um enorme e perigoso buraco. Em todo o bairro, cheio de casas de concreto não terminadas e cortado por ruas estreitas, as construções inclinam-se para frente em angulações esquisitas e as rachaduras estão disseminadas de forma não natural pelas paredes.

Perez diz que eles e outros moradores preocupam-se constantemente com aquilo que começou com uma rachadura na rua oito anos atrás.

“Avisamos às autoridades, enviamos cartas, nos reunimos com funcionários do governo, mas eles nunca nos deram atenção”, reclama Perez. “Eles sabiam que esse problema existia, mas nunca o consertaram”.

Em 7 de julho último, Perez dava uma festa de formatura no salão que ele aluga para eventos especiais quando a terra se abriu. Um dos carros de seus convidados foi tragado pela enorme rachadura. Gritando, ele mandou que Jorge Ramirez, de 19 anos, se afastasse do buraco que aumentava de tamanho. Curioso, o rapaz continuou sobre a borda da fenda, onde caiu e morreu.

Jogo de empurra
Funcionários da prefeitura taparão o buraco com bentonita, uma substância argilosa que se expande ao entrar em contato com a água. As autoridades municipais de Iztapalapa dizem que só têm dinheiro para tapar uma pequena porcentagem das 200 fendas existentes no bairro. Os problemas de infra-estrutura da cidade geraram uma briga entre o conservador governo federal e a administração municipal de esquerda.

Essa é mais uma conseqüência da altamente contestada eleição presidencial do ano passado, na qual o ex-prefeito da Cidade do México, Andres Manuel López Obrador, enfrentou o conservador Felipe Calderón. As relações entre Calderón, que acabou vencendo a eleição, e o novo prefeito da Cidade do México, Marcelo Ebrard, considerado por muitos como um protegido de López Obrador, esfriaram desde então.

Calderón tem usado a situação para criticar duramente os líderes municipais, que segundo ele não investiram o suficiente em obras de infra-estrutura.

“Os problemas da cidade ameaçam inviabilizar esta grande metrópole no longo prazo. Ou, ainda pior, se não resolvermos isto rapidamente, poderemos presenciar a pior inundação da história moderna da Cidade do México, com conseqüências desastrosas para todos”, advertiu Calderón.

As autoridades municipais estão frustradas pelo fato de o governo federal não ter liberado verbas destinadas a desastres para tapar as fendas e minas abandonadas, e tampouco ter permitido que a cidade reestruturasse a sua dívida, algo que disponibilizaria mais dinheiro para as obras.

Ebrard defendeu o trabalho da prefeitura, afirmando que ela está consertando o sistema de drenagem, em um processo que inclui a construção de quatro estações de bombeamento estrategicamente localizadas para auxiliar a retirada do esgoto da cidade.

Mas, enquanto os políticos brigam, Perez afirma que os moradores de Iztapalapa continuam prendendo a respiração toda vez que chove.

Tradução: UOL

Cox NewsPaper

Maravilhas da Natureza

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O Ford que inaugurou a ‘era da Velocidade’ faz 75 anos

Don Sherman
Em Dearborn, Michigan

A ‘era da Velocidade’ completa 75 anos agora, em 2007, juntamente com o automóvel apelidado de Little Deuce Coup, que a criou, democratizando os cavalos-vapor (HPs) e fornecendo a matéria-prima a partir da qual incontáveis veículos possantes seriam moldados. Três décadas antes do apogeu dos carros poderosos, Henry Ford inventou sem querer o carro de corridas ao instalar um motor V-8 de 65 cavalos em um chassi leve e atraente. O veículo pioneiro custava US$ 460 no seu modelo mais básico, um conversível de duas portas, apenas US$ 50 a mais do que o mesmo carro movido por um motor de quatro cilindros. Ford acreditou que, mesmo em meio à Grande Depressão, o veículo seria acessível para a classe trabalhadora.

Mas o carro, que atualmente é visto como um ícone do século 20 e um dos modelos mais significantes da indústria automobilística, não foi um sucesso financeiro. Seis milhões de norte-americanos se aglomeraram nas revendedoras no dia em que foi anunciado o novo automóvel, mas após o período inicial de encomendas, a dura realidade prevaleceu: a maioria dos norte-americanos não tinha dinheiro sequer para o almoço, o que dizer para as prestações de um carro, de forma que as vendas do Ford 1932 só chegaram à metade daquelas registradas no ano anterior.

Durante dez meses de produção, foram fabricados 178.749 automóveis Ford Modelo 18 V-8, bem como 75 mil unidades do Modelo B, que tinha o mesmo chassi, mas um motor de quatro cilindros. Ambas as versões do Ford 32, cada uma oferecida em 14 estilos de carroceria, foram agregadas sob um mesmo rótulo: o Deuce.

Após a Segunda Guerra Mundial, os militares que retornavam dos campos de batalha descobriram que os Deuces eram carros usados baratos e abundantes, que o motor V-8 ‘cabeça chata’ podia ser facilmente modificado para produzir mais HPs, e que o design simples possibilitava modificações. Os carros potentes criados a partir desta combinação tornaram o Deuce o supra-sumo dos automóveis envenenados produzidos em casa.

“O Deuce conquistou a admiração dos fãs dos carros potentes por ter sido o primeiro automóvel ao mesmo tempo acessível e originalmente rápido”, diz Pete Chapouris, fã dos carros envenenados há 50 anos e presidente do grupo de carros velozes SoCal Speed Shop, em Pomona, na Califórnia.

Para testar os sinais vitais do seminal Deuce, quando este faz 75 anos, eu dirigi um Ford 1932 V-8 DeLuxe Roadster original que pertence a Lynn Stringer, de Northville, Michigan.

Circulando serenamente pelas estradas dos parques próximos à residência de Stringer, na região suburbana de Detroit, o Deuce enfrenta as armadilhas que atualmente são consideradas necessárias. O controle climático é obtido ao se abrir o pára-brisa a fim de expulsar o calor da cabine com uma brisa fresca. O entretenimento visual consiste em um céu sereno e em um show de nuvens refletidas na parte anterior do invólucro do farol. A trilha sonora é um murmúrio do V-8, tão discreto que a conversa com o meu acompanhante não é prejudicada. O Deuce de Stringer provocou tantos sorrisos e sinais de positivo com o polegar que eu me senti como um fuzileiro naval em uma parada militar no Memorial Day.

O Ford 32 foi a colaboração mais frutífera entre Henry Ford, o industrialista caseiro que colocou o mundo sobre rodas, e o seu filho, Edsel, que foi presidente da Ford Motor Company de 1919 até a sua morte em 1943.

Ao final da década de 1920, a Chevrolet havia ultrapassado a Ford, cujo Modelo T demorava muito a ser vendido. A Chevrolet respondeu ao novo Modelo A da Ford, de 1928, introduzindo um modelo ‘seis cilindros pelo preço de quatro’ no ano seguinte. O V-8 de 1932 foi um contragolpe: ele custava apenas US$ 15 a mais do que o Chevrolet de seis cilindros, e US$ 35 a menos do que o Plymouth de quatro cilindros.

Inimigos comuns e amigos do ‘lado escuro’
O outro inimigo de Henry Ford foi a Grande Depressão, que levou a cidade de Detroit à falência, deixando a metade da força de trabalho local desempregada e reduzindo a produção de carros a 15% da sua capacidade. Ele esperava que um Ford novo e empolgante pudesse atrair aquele dinheiro guardado debaixo do colchão, fazendo com que o país saísse do buraco econômico.

Edsel Ford dedicou-se ao design do projeto. O filho de Henry, mais urbano do que o pai, pegou emprestado toques visuais da divisão de luxo da companhia a fim de fazer com que o 32 se parecesse com um baby Lincoln. Uma caixa de radiador aerodinâmica, pára-choques estriados e acabamentos brilhantes deram ao novo modelo um toque de excelência.

Embora os V-8 estivessem disponíveis em vários modelos de luxo, nunca um motor do gênero fora oferecido em um carro projetado para a classe trabalhadora. Henry saboreou o desafio de inventar um V-8 para as massas. Ele integrou diversos componentes em um único bloco de motor a fim de eliminar etapas do processo de fabricação. Sistemas simplificados de combustível, lubrificação e ignição também reduziram os custos.

Mas o lançamento apressado do V-8 no mercado acabou sendo um erro. O carro apresentava defeitos no motor atribuídos a pistões frágeis, arrefecimento inadequado e lubrificação deficiente. Porém, assim que esses defeitos foram corrigidos, os consumidores se deliciaram com a velocidade do Deuce.

Cartas de elogio vieram até do ‘lado escuro’ da sociedade. Clyde Barrow (um dos integrantes da dupla criminosa Bonnie and Clyde) escreveu: “Com velocidade constante e ausência de problemas, a Ford superou todos os outros carros”. Uma carta dirigida à Ford com a assinatura de John Dillinger (famoso ladrão de bancos dos EUA na década de 1930), de autenticidade duvidosa, dizia: “Sou capaz de fazer qualquer outro carro comer a poeira do Ford”.

Os amantes dos carros potentes logo descobriram que os 65 HPs e uma velocidade máxima de 120 quilômetros por hora eram apenas o início para o V-8. Em leitos de lagos secos, corredores na Califórnia atingiram velocidades de quase 210 quilômetros por hora antes da Segunda Guerra Mundial. O V-8 ‘cabeça chata’ era também o motor preferido nas pistas retas e ovais.

Stringer aderiu ao movimento em 1955, quando era um adolescente de Steubenville, em Ohio. “Comecei comprando uma revista automobilística contendo fotos e artigos sobre o Ford 32″, conta ele. “Quando era aluno da Universidade Purdue, dirigi um calhambeque envenenado feito com a conjugação de uma carroceria de Ford Modelo A, um chassi de um Ford 32 e um motor Chevrolet V-8. Finalmente comprei o meu primeiro Deuce, um cupê de cinco janelas, em 1959″.

Stringer ingressou na Ford Motor Company em 1963, e passou a maior parte dos seus 35 anos na companhia trabalhando como engenheiro de caminhões. Em 1968, o seu gosto deslocou-se dos carros envenenados para os Deuces originais de fábrica. Desde então ele foi proprietário e restaurador de dezenas de modelos daquele automóvel.

“Os 32s sempre me atraíram devido às suas linhas e ao visual suave”, diz Stringer.

Em 1978 ele comprou por US$ 7.000 o veículo que eu dirigi. Após um processo de reconstrução que durou oito anos, usando peças novas ainda disponíveis e tinta com a tonalidade do modelo original, este carro foi premiado em várias exposições de prestígio, incluindo algumas organizadas pelo Early Ford V-8 Club of America. Com menos de 80 mil quilômetros rodados, dos quais apenas 800 quilômetros referem-se ao período posterior à restauração, este carro é a coisa mais próxima possível de um Ford 32 recém-fabricado. Stringer calcula que o seu Deuce valha US$ 125 mil.

Contrastando com a maioria dos carros antigos, nenhum ruído desagradável é emitido pelo motor V-8, que pega rapidamente e responde satisfatoriamente ao acelerador. A alavanca de mudança alta sai direto do assoalho, não possuindo nenhum envoltório que prejudique o seu funcionamento. A passagem de marchas é fácil, contanto que se preste atenção ao amplo trajeto horizontal da mudança em forma de “H”. Além disso, é recomendável que não se tente passar apressadamente as marchas.

É claro que a dinâmica de direção é antiquada. O volante ou é pesado (durante as manobras de estacionamento) ou necessita de constantes correções (para compensar a folga enquanto se dirige em velocidade normal). Os freios roncam em baixa velocidade e carecem do poder de parada para que se dirija em auto-estradas. As saliências nas estradas provocam uma cacofonia de guinchos e chacoalhadas apesar do amplo isolamento de borracha acrescentado ao modelo de 1932. A suspensão rudimentar reage às grandes sacudidelas com vários movimentos cíclicos de mola.

Quando espicaçado por uma rápida pisada no acelerador, o Deuce reage rapidamente e a velocidade aumenta. A aceleração deste V-8 é modesta para os padrões atuais, mas para os da década de 1930 ela provavelmente rivalizava em popularidade com a elevação das barras das saias das mulheres, as viagens de avião e o fim da Lei Seca. A impulsão da primeira marcha faz com que o carro chegue a 40 quilômetros por hora, e a segunda a 64 quilômetros por hora. Aos 75 anos de idade, o Deuce é ainda um deleite para o motorista.

Várias centenas de Fords 1932 deverão se dirigir para Dearborn, no Michigan, de 9 a 12 de agosto, para a comemoração do 75° aniversário do Deuce. As informações sobre o evento estão disponíveis no site www.deuce75.com

Tradução: UOL

The New York Times
http://www.nytimes.com/

Maravilhas da Natureza

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FLORESTAN FERNANDES: Cientista, político

O sociólogo Florestan Fernandes, que faria 87 anos, é tema de entrevista com o filósofo Bento Prado Jr., que morreu em janeiro.

FABRICIO MAZOCCO, COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

“Florestan tornou-se essencialmente um sociólogo crítico de uma sociedade na qual ele entrou como membro das classes oprimidas.”
Essa é uma das definições feitas por um dos maiores filósofos contemporâneos do país, Bento Prado Jr. (1937-2007), sobre um dos sociólogos mais representativos do Brasil, Florestan Fernandes, que teria completado 87 anos no dia 22.
Bento Prado, morto em 12 de janeiro passado, considerava-se um discípulo indireto de Florestan, como ele mesmo se autodenomina nesta entrevista concedida em novembro de 2005, para a Semana Florestan Fernandes, realizada no mesmo mês na Universidade Federal de São Carlos.
Logo após ingressar como aluno de filosofia na USP, na segunda metade da década de 50, Prado teve os primeiros contatos com o professor de sociologia Florestan Fernandes (1920-95).
Entretanto a influência veio com a amizade e o trabalho conjunto com Octavio Ianni (1926-2004) e Fernando Henrique Cardoso (1931), assistentes diretos de Fernandes.
Em 1961, Prado tornou-se professor de filosofia na USP. Em 1969, por decreto presidencial, Prado, Fernandes e outros colegas da USP foram cassados. Leia a seguir a entrevista.

FOLHA – Que influências tiveram na sua vida as idéias e estudos de Florestan Fernandes?
PRADO JR. – Embora eu jamais tenha sido aluno do Florestan, participei durante muitos anos de um trabalho conjunto com seus discípulos e iniciei -ou aprofundei- minha leitura de Marx e de outros clássicos das ciências sociais guiado um pouco pelos assistentes do Florestan, de tal maneira que, indiretamente, posso dizer que, sem ter sido aluno, fui algo como um discípulo indireto.

FOLHA – O que Florestan representa para a sociedade brasileira?
PRADO JR. – Ele tem que ser pensado em dois níveis diferentes: como cientista social e como homem político. É óbvio que essas duas faces não são divergentes, porque sua obra científica desde muito cedo se encaminhou para uma visão crítica da sociedade brasileira.
E, entre uma visão científico-crítica da sociedade brasileira e uma militância política de oposição e de crítica à organização social do Brasil, há uma perfeita continuidade.
Entre o sociólogo -preocupado com os excluídos, com os preconceitos raciais e com todos os processos de exclusão- e o militante -defensor dos excluídos-, há uma perfeita continuidade. Essa continuidade está marcada pelo adjetivo “crítico”, a crítica transformada em comportamento, em atividade política.
Digamos que Florestan, depois de 1969, ficou bem mais crítico do que era antes, quando, por obrigação quase profissional, era obrigado a apresentar a seus alunos a totalidade das ciências sociais, todos os clássicos da sociologia.
Por obrigação profissional, o Florestan professor era mais eclético que o Florestan militante.

FOLHA – Se pudesse resumi-lo em poucas palavras…
PRADO JR. – Diria que ele se tornou essencialmente um sociólogo crítico de uma sociedade na qual entrou como membro das classes oprimidas.
Antes de ser sociólogo, foi um engraxate que teve que abandonar seus estudos para poder ajudar sua mãe a sobreviver e só voltou aos estudos lá pelos seus 16, 17, 18 anos.
Então, como garçom de um bar em São Paulo, foi estimulado pelos seus clientes por causa de sua inteligência, por sua leitura e por sua cultura inteiramente adquirida autodidaticamente, fora dos muros escolares.

FOLHA – Como sociólogo, Florestan vai a campo para o desenvolvimento de seus estudos.
PRADO JR. – Florestan se tornou propriamente militante após a cassação, pós-69. Ele o fez oprimido pela história presente, mas sob o fundo de uma tradição já existente de um pensamento crítico.
Na década de 30, são várias as obras fundadoras de uma teoria do Brasil; penso em Caio Prado Jr., na “História Econômica do Brasil”; em Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”; em Gilberto Freyre.
Quando Florestan começou a escrever, escreveu sob a orientação de professores franceses, tendo às suas costas o esboço de uma teoria do Brasil que já era crítica.
Gilberto Freyre, cuja posição política sempre foi mais oscilante e jamais foi um crítico de esquerda da sociedade brasileira, é injusta e freqüentemente acusado de excessivamente conservador, o que acho que não é propriamente verdade.
Mas, se não era excessivamente conservador, seguramente não era revolucionário, como tendiam a sê-lo Sérgio Buarque e Caio Prado.
Sérgio Buarque sempre esteve próximo dos movimentos socialistas. Em todo caso, tratava-se de um engajamento teórico que jamais chegou a se converter em uma prática política formal, como é o caso do Florestan, que se tornou deputado.
Entre uma atitude intelectual crítica e uma militância como representante da população no Parlamento, há uma diferença crucial.
Tenho a impressão de que essa é a diferença fundamental do adjetivo “crítico” em Florestan e na boa tradição a que pertence.

FOLHA – Um ponto do Florestan “marxista” é que a classe operária deveria sempre ser bem-informada, e aí vem a defesa da educação.
PRADO JR. – É preciso nuançar um pouco as coisas. Nas décadas de 40 e de 50, Florestan era bem menos marxista do que o Florestan posterior. Nesses textos sobre indução sociológica, ele se aproximava muito mais da tradição do empirismo lógico.
De uma certa maneira, a sua carreira é de radicalização, em que as posições não permanecem as mesmas.
Nessa evolução da sociologia clássica e de uma interpretação filosófica da sociologia clássica, que às vezes era próxima do empirismo lógico, ele se aproximou cada vez mais de um estilo marxista, mas que não foi sempre o definidor de seu estilo.
Quanto às teses globais a respeito da importância política do ensino, da escola, para a democracia, é claro que não posso estar em desacordo com as teses defendidas por Florestan.

FOLHA – Como o fato de ter sido cassado influenciou a formação de Florestan?
PRADO JR. – Pessoalmente, ele não deve ter deixado de viver essa experiência como uma grande dor. É claro que o exílio a que foi forçado lhe deu a oportunidade de um reconhecimento internacional maior do que tinha até então.
Mas tenho a impressão de que a importância do seu departamento dentro da faculdade, da sua tarefa de formador de formadores era muito próxima do coração.

De tal maneira que ele deve ter sofrido uma grave frustração de uma vocação de formador que lhe foi proibida e que passou depois a desempenhar de outra maneira, como homem político.
Uma coisa é ser professor, outra é ser deputado. Os meios de que dispõem um e outro são muito diferentes.
Mas se pode dizer que os alvos de um e de outro, em última instância,, eram os mesmos, de tal maneira que, a despeito de sua frustração ao ser excluído injustamente da USP e de ter sofrido com essa exclusão, não deixou de continuar a sua atividade com os mesmos objetivos, fora da universidade.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

A humanidade cada vez mais vulnerável do planeta Terra

O aumento da ameaça de calamidades, desastres e emergências em escala global têm de ser colocado no centro do palco. Eles não são eventos periféricos, mas reflexos do modo como vivemos nossas vidas normais, estruturamos nossas sociedades e distribuímos recursos


Agnes Callamard , Randolph Kent

“A maior ameaça a longo prazo”, segundo o cientista político Anatol Lieven, “é uma que nossos meios de comunicação praticamente nunca discutem, porque tem prazo excessivamente longo e não tem atrativo para entrar na moda: a crescente falta d’água, devida a uma combinação de superpopulação, uso e conservação horrivelmente ineficiente e o efeito do aquecimento global nas geleiras do Himalaia. Se a tendência atual continuar, é virtualmente certo que em cinqüenta anos, a maior parte do Paquistão vai ficar quente como o Saara – mas um Saara com uma população de centenas de milhões de seres humanos. O mesmo acontecerá no norte da Índia.”1 A fusão das geleiras do Himalaia – que está em curso agora e é provavelmente irreversível – é devida a variações climáticas que foram o resultado direto de atividades humanas dos últimos cem anos. Nos dez mil anos de história da humanidade moderna, foi apenas durante este breve intervalo que os seres humanos tornaram-se realmente um fator importante no traçado do rumo da natureza. Tornaram-se “engenheiros planetários”, sustenta o professor Albert Harrison, da Universidade da Califórnia. “Já transformamos o nosso próprio planeta. Mudamos a paisagem da Terra com enormes poços de minas e com a agricultura; modificamos o curso das águas com sistemas de açudes, comportas e canais; lançamos toneladas de hidrocarbonetos e outros produtos químicos na atmosfera, criando o aquecimento global e abrindo buracos na camada de ozônio.” 2 Em outras palavras, os seres humanos tornaram-se o maior dos perigos para a natureza. Desastres e emergências não são eventos periféricos, mas antes reflexos do modo como vivemos nossas vidas normais, estruturamos nossas sociedades e distribuímos nossos recursos.

O aumento dos desastres naturais

A tendência crescente dos assim chamados “desastres naturais” enfatiza claramente isto. Desflorestamento e destruição de pântanos, migração de áreas rurais improdutivas para cidades que não podem arcar com infra-estruturas de apoio e meios de subsistência e a relativa indiferença dos governos para com o aquecimento global atestam o fato acabado que as perdas devidas a desastres naturais nos anos 1990 foram o triplo das perdas dos anos 1980 e quinze vezes as dos anos 1950. Dados existentes também dissipam o mito de que as conseqüências econômicas e sociais dos desastres “naturais” estão limitadas às áreas atingidas pelo desastre. Este foi o tema central de uma conferência em 2001 – intitulada “Superpovoando a Costa” – na Universidade de Stanford, na Califórnia. Geólogos e peritos em relevo e na mitigação das conseqüências de desastres avaliaram os possíveis efeitos de vários desastres naturais, inclusive terremotos e erupções vulcânicas na Costa do Pacífico, de Lima a Los Angeles, Seattle, Anchorage, Tóquio e Taipé3 . Como observou um especialista, “As conexões que construímos para ligar a costa oeste dos Estados Unidos à Ásia são todas vulneráveis a “eco” transtornos… e terremotos muito maiores e devastadores estão previstos para Seattle e São Francisco4 . Apesar dessa crescente ameaça aparente, contudo, os planejadores continuam a permitir a concentração de pessoas, a atividade econômica e a infra-estrutura nessas áreas. Tais tendências parecem não ter atraído a atenção para a necessidade de “retroadaptar” sociedades para criar infra-estruturas mais difusas e distribuídas.

Nos dez mil anos de história da humanidade moderna, foi apenas durante cem anos que os seres humanos tornaram-se realmente um fator importante no traçado do rumo da natureza.

Assim, o terremoto de 1999 em Taiwan não foi apenas muito oneroso em termos de vida e propriedade, mas também arruinou economias distantes como em San José, na Califórnia, onde as indústrias eletrônicas pararam devido a uma falta de componentes essenciais normalmente fornecidos pelas companhias taiwanesas. O terremoto revelou uma dimensão perturbadora [senão totalmente inesperada] da globalização: a vulnerabilidade econômica dos trabalhadores californianos – sob a forma de desemprego em grande escala – diante de um evento a milhares de milhas de distância.

O futuro agora

E voltando à preocupação de Lieven com as conseqüências imediatas da fusão do Himalaia, não é só o fato de que centenas de milhões de asiáticos do sul serão privados de água e de seus meios de subsistência. Também é preciso considerar os impactos que uma combinação do aquecimento global, conservação inadequada e superpovoamento poderiam ter ao mesmo tempo em outros lugares. Deveríamos também prever o impacto migratório que centenas de milhões de pessoas desesperadas – em busca da sobrevivência – causarão sobre as áreas urbanas da Ásia do Sul e sobre a segurança e estabilidade dos estados da região. E então é preciso considerar como essa potencial insegurança e instabilidade em uma variedade de formas – doenças transmitidas globalmente, padrões migratórios desorganizadores, conflitos regionais – correm o risco de aumentar a vulnerabilidade humana em escala global.

Em outras palavras, desastres e emergências não são de modo algum monopólio do Terceiro Mundo. Estão tão relacionados “conosco” quanto com “os outros”. O presente grau de insegurança resultante do 11 de setembro, a chamada guerra contra o terror e a intervenção no Iraque são uma lembrança dramática, presente demais, pelo qual não podemos mais manter a idéia de uma crise humana periférica, geograficamente contida. Em vez disso, somos todos os atores involuntários de uma pandemia global surgida por ações humanas, sejam guiadas por impiedoso interesse pessoal, zelo messiânico ou sobrevivência econômica percebida. Nada disso sugere que essas tendências sejam inevitáveis, mas antes que precisamos mudar o modo como encaramos desastres e emergências – suas causas, locais e efeitos. É cada vez mais importante fazer isto, pois o futuro, de tantas maneiras, é agora.

Rumo a calamidades globais

O professor Martin Rees, da Cambridge University, afirmou categoricamente que “por volta do ano de 2020 uma situação de bioerro ou bioterror terá matado um milhão de pessoas.” 5 Do mesmo modo, o professor T. Homer-Dixon sugere que a humanidade já criou as condições para catástrofes globais de grande porte. Espera-se apenas pela “falência síncrona dos sistemas globais, sociais, econômicos e biofísicos, surgindo de tensões diversas e contudo interativas” 6 . Ainda assim, as estruturas que são responsáveis pelos meios de prever e mitigar, prevenir-se ou ao menos preparar-se para reagir à vulnerabilidade crescente da vida humana parecem incapazes de fazer isso. Sem dúvida, invariavelmente somos atingidos pelo que poderia ser descrito como comportamento mal adaptável. Institucionalmente, organizações governamentais, não-governamentais e inter-governamentais – todas as ditas “humanitárias” de um modo ou outro – continuam presas a percepções e processos que têm mais a ver com a sua sobrevivência institucional imediata e com a sua rotina. Dito isto, devemos reconhecer os problemas que qualquer organização enfrenta tentando prever o futuro. O professor Rees nota que em 1937 a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos organizou um estudo com o objetivo de prever a superação de obstáculos ao progresso. “O relatório desse estudo” prossegue ele dizendo, “constitui leitura salutar para os autores de previsões tecnológicas de hoje. “Há algumas avaliações sensatas sobre agricultura, sobre gasolina sintética e borracha sintética. Porém o mais notável são as coisas que faltaram. Nada de energia nuclear, nada de antibióticos… nada de aviões a jato, nem foguetes, nem qualquer uso do espaço, nada de computadores, certamente nenhum transistor. O comitê não percebeu as tecnologias que de fato dominaram a segunda metade do século XX. Menos ainda poderiam prever as transformações sociais e políticas que ocorreram durante esse tempo.” 7
Ambiente de alta complexidade

As perdas devidas a desastres naturais nos anos 1990 foram o triplo das perdas dos anos 1980 e quinze vezes as dos anos 1950.

A questão para as organizações, no entanto, não é tanto a previsão e sim a capacidade de monitorar, analisar e adaptar-se a um ambiente global marcado pela rápida mudança e pela complexidade. O estudo do presente e do futuro requerem níveis elevados de competência integrada, uma gestão eficaz de informação e uma análise interdisciplinar. Ele exige também um engajamento da ação voltado, em primeiro lugar, às pessoas atingidas pelas catástrofes.

Os desafios que se anunciam exigem organizações capazes de se adaptar e, para tanto, investir tempo e energia para monitorar grandes tendências e suas conseqüências. Suas estruturas seriam projetadas para integrar uma gama relativamente ampla de competência e, principalmente, acomodariam as diferentes “linguagens” do cientista, do estrategista político, do planejador, do especialista em ética e do que toma decisões. Essas organizações teriam que ter a coragem de desnudar o poder, enfrentar suas fraquezas de compromisso e trabalhar em parceria com outras. As organizações, mesmo bem preparadas, orientadas para o futuro, tecnicamente informadas, não podem assumir a responsabilidade de reagir unilateralmente às crises atuais e futuras. A implicação das populações direta ou indiretamente atingidas na elaboração na reação sugerida é crucial se se pretende obter alguma legitimidade e eficácia8 . Acima de tudo, estas organizações – que podemos chamar de “adaptativas” – seriam orientadas para o exterior, mais centradas na compreensão do ambiente em que operam e não se satisfazer com práticas auto-referenciadas.

A deficiência da reação

A chamada comunidade humanitária de hoje não preenche estas exigências. É inerentemente reativa, freqüentemente incapaz de desenvolver estratégias para prever, quanto mais responder às crises emergentes. Só no começo da última década, por exemplo, as organizações humanitárias começaram a prever as conseqüências do colapso do Estado. As chamadas “emergências complexas” foram um reconhecimento tardio. Ainda assim, uma gama de crises em grande escala era claramente inevitável, dada a inabilidade ou falta de vontade dos Estados para dar proteção e bem-estar a seus cidadãos. Diminuição dos meios de vida, violência descontrolada e colapso das infra-estruturas pressagiariam deslocamentos em massa, fome e doenças incontroláveis. Não que os sinais de alerta não estivessem à mão desde 1970 [por exemplo, o Paquistão Oriental], ou estivessem cada vez mais evidentes nos anos 1980 [por exemplo, o Sudão],mas foi só quando múltiplas crises [por exemplo, a antiga Iugoslávia, o Chifre da África] não puderam mais ser explicadas no palavreado convencional das agências é que uma nova perspectiva emergiu.

Estas mesmas organizações também continuaram a perpetuar a divisão entre as chamadas emergências “naturais” e as “causadas pelo homem” – apesar da muito óbvia dinâmica interativa das duas. Ainda hoje a maioria das organizações responsáveis por desastres e emergências não focalizam as ligações entre desastres naturais, como secas, e a conseqüente diminuição dos meios de subsistência e seu impacto político sobre a estabilidade de sociedades afetadas por desastres. A interligação cada vez mais estreita entre desastres naturais e situações de emergência política continuam a escapar dos mecanismo de resposta às crises e, freqüentemente, de seus quadros de análise.

O “poder” humanitário

O terremoto de 1999 em Taiwan não foi apenas muito oneroso em termos de vida e propriedade neste país, mas também arruinou economias distantes como na Califórnia.

Outro exemplo esclarecedor origina-se das relações entre as comunidades ameaçadas de crise e as organizações humanitárias. Algumas, no setor humanitário procuraram, nos dez últimos anos, visar as questões de suas relações desiguais com populações afetadas por crises e suas responsabilidades9 . No centro dessa questão está a constatação de que os atores do tratamento das crises exercem poder sobre as vidas de indivíduos e comunidades afetadas por crises e que o “poder” humanitário pode ser abusivo ou mal utilizado. Algumas agências procuraram insistir para que o ethos humanitário tire sua referência moral daqueles que sofrem e sobrevivem às situações de crise em vez de ter essa referência definida através e por um único ator: o interventor bem intencionado10 . A procura por mecanismos de compromisso constitui um dos mais importantes desenvolvimentos éticos dentro do setor. Demonstra que ele tem capacidade para engajar-se criticamente com a praxis humanitária. Mesmo assim, esses progressos falharam em permear o pensamento humanitário dominante e as práticas. Os desafios políticos e de segurança originados das operações no Afeganistão e Iraque ofuscaram mais ainda a busca por um maior compromisso.

Cultura organizacional

Falhas em antecipar as fontes das crises humanas, em ser estratégico em esforços para aliviar efeitos, mas também em reagir aos desastres e emergências podem ser explicadas de muitas maneiras. Um nível de explicação relaciona-se com a cultura organizacional de muitos dentro da comunidade humanitária. Reagindo imediatamente ao mais agudo desafio atual – como os paralelos com bombeiros tão freqüentemente usados – está o ethos subjacente da comunidade humanitária. Construir-se na aprendizagem e nos achados, como a previsão de crises – até a muito louvada necessidade de prevenção e alerta contra desastres e emergências – não está profundamente enraizada na cultura humanitária Outra explicação está no ambiente competitivo no qual as organizações não-governamentais e as agências da ONU operam. Como quatro recentes estudos independentes concluíram, de um modo ou de outro, os crescentes recursos financeiros para a assistência humanitária geraram uma corrida nunca para as fontes de recursos, muitas vezes afetando as necessidades relacionadas com os desastres e as emergências, a expensas da própria integridade dessas organizações. 11
Interesse dos financiadores

“As organizações humanitárias” são freqüentemente guiadas pelos interesses e prioridades de seus financiadores que usam seus recursos de assistência humanitária em primeiro lugar e principalmente para praticar políticas que reflitam seus interesses nacionais. 12 Concomitante às orientações dos doadores de recursos, não existem prêmios institucionais para organizações que pensem estrategicamente em vulnerabilidades futuras.Isto por sua vez reforça a mais do que evidente inclinação das agências humanitárias para perpetuar a crença de que desastres e emergências são fenômenos aberrantes que não podem ser previstos. As organizações – e quem as sustenta – relutam em investir energia, quanto mais recursos em atividades destinadas a serem especulativas e teóricas. A inabilidade percebida para prever fornece a todos os envolvidos uma desculpa organizacional para não desenvolver capacidades para lidar com a incerteza e pensar mais estrategicamente. Organizações ditas “humanitárias” de um modo ou outro continuam presas a percepções e processos que têm mais a ver com a sua sobrevivência institucional imediata.

Incapazes de dominar suas próprias agendas, essas organizações que deveriam estar na linha de frente da prevenção, do alerta e da reação contra emergências são essencialmente anti-risco. Elas muitas vezes relutam em pensar estrategicamente e em lidar com as conseqüências do pensamento estratégico. Tais conseqüências podem incluir a recomendação – avisos sobre as fontes da crescente vulnerabilidade – e prescrição – corajosas medidas para contrabalançar agentes de desastre e emergência. Ambas atitudes carregam o perigo inerente de ficarem contra esses financiadores que asseguram a sobrevivência de sua organização.

Vinte questões globais

De acordo com J.F. Rischard, há pelo menos vinte questões globais que têm de ser resolvidas – que vão desde pontos comuns (como o aquecimento global) a questões de regulamentação global (como a biotecnologia) se o mundo tiver de sobreviver. Mas o piloto sumiu. As formas pelas quais os problemas estão sendo resolvidos atualmente simplesmente não estão à altura da tarefa. 13 A persistente tentativa do governo dos EUA em enterrar a ameaça da mudança de clima14 e o descarrilamento, junto com outros estados, dos tratados globais para reduzir a velocidade da mudança climática demonstram isso. Assumir um compromisso com uma complexidade multifacetada, imediata e de longo prazo pode não ser fácil para as agências humanitárias. Contudo, elas têm um papel chave a desempenhar encaminhando e preparando para a vulnerabilidade global. O primeiro passo essencial nessa direção é abandonar a perigosa assunção de que desastres e emergências acontecem com os “outros” e na verdade são fenômenos aberrantes. O ponto de partida estratégico e programático deve ser o de que os riscos globais estão aumentando, e que eles são cada vez mais globais. A ameaça da vulnerabilidade em grande escala tem de ser colocada no centro do palco.

O papel da ONU

Os recursos a utilizar para enfrentar a vulnerabilidade em grande escala e para conduzir as reações mundiais só podem ser multilaterais. O papel das Nações Unidas deve então ser redefinido e novos modos de ação devem ser experimentados. Não será fácil, para um sistema petrificado no imediato, e cuja ordem do dia depende habitualmente dos caprichos de alguns Estados membros, desempenhar um papel ativo na elaboração de “roteiros humanitários” do futuro e na sensibilização de seus membros. Isto exigirá que a Organização das Nações Unidas (ONU) assuma um grau de transparência e de responsabilidade que não aparece facilmente em uma instutuição onde falsas evasivas são muitas vezes o único meio de conciliar interesses divergentes.

O debate sobre a reforma das Nações Unidas oferece uma oportunidade que não se deve perder. Poder-se-ia, por exemplo, pensar na criação de um fórum da responsabilidade humanitária, uma espécie de conselho de sábios, composto de pessoas eminentes e de representantes das populações afetadas que avaliaria e vigiaria a gestão das crises humanas, tanto na esfera da prevenção quanto da destinação equitativa de ajuda financeira e da intervenção humanitária propriamente dita. Do mesmo modo, preparando sua contribuição para a conferência de Kobe sobre a redução dos desastres, prevista para janeiro de 2005, a ONU empreendeu pesquisas para desenvolver uma abordagem sistemática e coerente da prevenção das catástrofes e das respostas a dar-lhes, em todo o sistema da ONU.
Um compromisso diferente. A maioria das organizações humanitárias não focalizam as ligações entre desastres naturais, como secas, e a conseqüente diminuição dos meios de subsistência e seu impacto político.

Em muitos aspectos, a experiência de formas diferentes de compromisso já foi feita. A campanha dos Médicos Sem Fronteiras para o acesso aos medicamentos essenciais, a da Oxfam para um comércio equitativo, ou a nova estrutura organizacional mundial da Action Aid são exemplos atuais de novos modos de ação e de novos arranjos institucionais postos em prática pelas ONG para maximizar sua legitimidade e sua eficiência. Estes modos de intervenção global só são possíveis afastando as idéias rotineiras e enfrentando as lacunas atuais em matéria de responsabilidade, eficiência e legitimidade. Abordagens semelhantes deveriam ser aplicadas para a previsão e prevenção dos desastres.

Finalmente, é essencial que os Estados assumam suas responsabilidades, tanto individualmente, ratificando e aplicando os tratados, como coletivamente, velando pelo bom funcionamento do sistema multilateral. Neste quadro, é necessário que se orientem para respostas mais coerentes, apelando para um maior espírito de iniciativa. Os financiadores deveriam igualmente levar em conta suas escolhas na destinação de recursos para o setor humanitário e deveriam apoiar as organizações que procuram realmente novas maneiras de administrar a ajuda humanitária15.

(Traduzido do original inglês por Betty Almeida)

1 – Lieven, A., “Preserver and Destroyer,” London Review of Books, vol.25, No.2, 23, janeiro de 2003.
2 – Harrison, Albert A., Spacefaring: the Human Dimension, Berkeley, University of California Press, 2001, p.77.
3 – Kennedy, D., “Science Terrorism and Natural Disasters”, Science, vol. 295, No. 5554, 18 Janeiro de 2002, p.405
4 – Ibid., p.405.
5 – Rees, M., Our Final Century: Will the Human Race Survive the 21st Century, Londres, William Heinemann – 2003, p.7.
6 – “The real danger of the 21st Century”, conferência que fez parte do ciclo de palestras sobre “A segurança para um século novo”, organizado por um grupo bipartite para o Congresso norte-americano. 1° de dezembro de 2001.
7 – Op cit., Rees, M., Our Final Century, p.13
8 – Ver os argumentos de Amy Bartholomew e Jennifer Breakspear contra a posição Ignatieff que os USA adotaram na guerra do Iraque: “Human Rights as Swords of Empire”, in Socialist Register 2004, editado por Leo Panitch e Colin Leys, Merlin Press, 2003, p.131.
9 – Ver por exemplo o trabalho da Sphere (www.sphere.org,), HAP International www.hapintenational.org , ALNAP (www.alnap.org)
10 – Ver Hugo Slim, “Doing the Right Thing” in Studies on Emergencies and Disaster Relief, No. 6, Nordiska Afrikainstitutet, 1997
11 – Development Initiatives, Global Humanitarian Assistance Flows 2003, maio de 2003; Minear, Larry and Smillie, Ian, The Quality of Money: donor behaviour in humanitarian financing, Humanitarianism and War Project, Feinstein International Famine Center, Tufts University, abril de 2003; Darcy, James, ‘Measuring humanitarian need: A critical review of needs assessment practice and its influence on resource allocation’, Overseas Development Institute, Humanitarian Policy Group, fevereiro de 2003; Mark Dalton et al, “Changes in Humanitarian Financing: Implications for the United Nations”, outubro de 2003.
12 – Smile and Minear, Op cit.
13 – J.F. Rischard, High Noon : 20 global problems, 20 years to solve them, New York – Basic Books, 2002, p.155.
14 – Citado no The Observer, 22 de fevereiro de 2004.
15 – Para um ponto de vista complementar, ler David Sogge, “Une nécessaire réforme de l’aide internationale”, Le Monde diplomatique, setembro de 2004.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

Maravilhas da Natureza

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Maravilhas da Natureza

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Entrevista – Luis Varese

Jornalista, antropólogo e representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados no Brasil, Luis Varese explica, em entrevista exclusiva, o trabalho do ACNUR, diz que não há mocinhos e bandidos na Colômbia, define a guerra do Iraque como infundada e diabólica e diz acreditar em um futuro de paz. Mas deixa claro: “Isso depende da luta dos povos, não da vontade de Algore”.

Entrevistadores: Andrea Dip, Marcos Zibordi e Ana Luiza Moulatlet

Andrea Dip – O senhor pode nos contar um pouco sobre sua infancia? A história de vida é importante…
Sou filho de imigrantes italianos, que vieram para o Peru no ano 1947. Meu pai advogado e minha mãe também advogada, com uma tradição familiar anarquista, socialista. Nasci em Lima mas me criei na alta Amazônia. Então minhas primeiras recordações de infância são da selva amazônica. Tenho cinco irmãos no total. Um irmão e uma irmã que moram na Itália, um irmão que mora nos Estados Unidos que é um antropólogo conhecido, um grande especialista em Amazônia no Peru, uma irmã mais velha que mora em Havana, é cineasta, um irmão que mora em Hollywood, cineasta também, e esse humilde servidor que mora em Brasília!

Andrea Dip – E como era a situação da Amazônia nessa época?
Muito tranqüila, linda, mas eu morei lá até os seis anos e depois fui pra Lima. Fiz universidade em Lima.

Andrea Dip – De jornalismo?
Jornalismo e antropologia.

Andrea Dip – E por quê?
Acho que influenciado pelo meu irmão mais velho que é dez anos mais velho que eu. Participei muito do movimento estudantil.

Andrea Dip – Na universidade?
Sim. E jogava futebol. Meu primeiro salário foi de futebolista.

Marcos Zibordi – Mas não teve uma crise uma hora de decidir entre futebol, jornalismo, antropologia?
A luta humanitária, democrática conduziu a minha vida.

Marcos Zibordi – Tem o contexto político do Peru também, né?
Contexto político sim. Ditadura, uma atrás da outra. Um processo revolucionário muito interessante com o general Velazques Alavarado, de modernização do Peru. Participei na reforma agrária como estudante e depois entrei no governo.

Marcos Zibordi – O senhor foi fazer o que no governo?
Eu trabalhei com o sistema nacional de apoio à mobilização social. Nesse tempo eu morava na Nicarágua, na comunidade de Ernesto Cardenal, que foi um poeta nicaragüense. E aí fui seduzido pela revolução militar.

Marcos Zibordi – Essa comunidade é o que era?
Era uma comunidade de poetas que depois se tornou uma comunidade insurgente contra a ditadura de Somoza.

Marcos Zibordi – Então o senhor também teve um pezinho nesse lado cultural dessa época, não só pela via da política, pela via da cultura?
Claro. Da poesia, da luta contra a ditadura de Somoza. Depois participei como correspondente de guerra na Nicarágua, em 78, 79, até depois do trunfo da revolução popular sandinista.

Andrea Dip – Correspondente de onde?
Da revista Marca. E no Peru conheci o Thiago de Melo, Darcy Ribeiro. Ele morou alguns meses na nossa casa, na casa dos meus pais. O Darcy foi professor do meu irmão e depois trabalhou no governo do general Velazques comigo. Grande amigo. E Thiago até agora é um grande irmão.

Andrea Dip – E como o senhor foi parar no ACNUR?
Eu fui preso no Peru em 1984. Fui solto em 1986, sem nenhuma garantia de segurança, então fui para o México e lá fui contratado como consultor do ACNUR para trabalhar com refugiados.

Marcos Zibordi – Só um minutinho, o senhor foi preso por quê?
Como abade Faria. Você sabe quem é o abade Faria, não? Aquele que estava na cela ao lado do conde de Monte Cristo na novela de Dumas. Ficou preso por razão de suas idéias.

Andrea Dip – Preso por subversão.
Claro, sob alegações de terrorismo. Mas acusação de terrorismo não tem solidez.

Andrea Dip – O senhor sofreu tortura?
Sofri, quinze dias. Mas depois deu tudo certo.

Marcos Zibordi – O senhor chegou a matar alguém?
Não. Ainda não!

Andrea Dip – Então o senhor foi um refugiado?
Sim, fui refugiado. Exilado, né?

Andrea Dip – E qual era o seu cargo?
Era consultor para a reintegração dos nicaragüenses que haviam saído por causa da guerra e voltaram, e depois participei de um projeto de “impacto rápido”. São pequenas ações para a construção do tecido social nas comunidades que foram devastadas pela guerra. Hoje, por exemplo, o exercito do Brasil, no Haiti está aplicando um projeto de “impacto rápido” que foi desenhado pelo ACNUR.

Andrea Dip – E como é feito esse trabalho? Deve ser um trabalho difícil.
É feito com muita participação da população. Você não tem que impor idéias novas, criar, tem que reconstruir o que existia, e acrescentar algum elemento que melhore as condições de vida. As comunidades perdem as coisas simples, a infra-estrutura, escola, posto de saúde, a ponte, a estrada, o barco para transportar os produtos, a possibilidade de semear, a possibilidade de comercializar. Então você vai reconstruindo o que tinha com as idéias da população, no método Paulo Freire, “vamos aprender juntos”.

Ana Luiza Moulatlet – Qual é a sua trajetória?
Nicarágua, mm lugar chamado de Porto Cabezas, que é de onde saiu um dos grupos que fez a invasão em Playa Quirón, na baía de Cochino em 1962. Lugar completamente isolado. Depois outro povoadinho de 3.000 habitantes, e depois já Manágua, México, o sudeste do México, Campeche, Chiapas, Timor Leste. Eu abri o escritório do ACNUR no Timos Leste. Macedônia, no alto conflito, voltei para Chiapas, Genebra, Brasília, e depois veremos.

Ana Luiza Moulatlet – Quanto tempo o senhor costuma ficar em cada lugar?
Depende do posto. Genebra dois anos, Timor Leste seis meses, Macedônia seis meses. Chiapas três anos. No sudeste do México quatro anos. Na Nicarágua seis anos, porque primeiro fui consultor e depois já membro.

Marcos Zibordi – O fato de ter muitos refugiados iraquianos é fácil de entender, porque a gente vê todo dia na televisão. E, talvez por desconhecimento, achei incrível o fato de que é praticamente o mesmo número de colombianos refugiados. E a gente não vê, tantas notícias na mesma proporção que chegam as notícias do Iraque. Como é que o senhor vê isso, é um problema da mídia mesmo ou é o tipo de guerra, o tipo de conflito que tem lá que não aparece muito?

Andrea Dip – Não dá tanto ibope…
Depois dos anos 90, eu diria que o que não aparece na CNN não existe. É claro que o conflito no Iraque é um conflito brutal. Sem razão, sem justificativa histórica, sem justificativa ética, moral. O início dessa guerra foi contra a vontade das Nações Unidas.. E ainda vira notícia porque todos os dias você tem 42, 62 civis mortos por bombas colocadas em mercados. O caso da Colômbia é um conflito que tem 50 anos ou mais, tem um processo de insurgência contra uma situação de grande injustiça, mas também tem um conflito interno dos próprios partidos políticos colombianos. Liberais e conservadores…

Andrea Dip – E são muitos grupos, muitas facções.
Sim. Então isso foi mudando. Até que nos anos 1980 você tinha três grandes grupos guerrilheiros, que era o M-19, o ELN e as Farc, as Farc o mais antigo, de origem no partido Comunista. Nos final dos anos 80 abriu-se uma possibilidade de uma abertura democrática. O Partido Comunista participou das eleições através, não lembro exatamente, mas acho que da Frente Popular ou Frente Única Popular. Mataram 4.318 candidatos dessa frente, candidatos a senadores, deputados, mas também a prefeitos, vereador, candidatos populares.

Andrea Dip – Quem matou?
A estrutura do poder. Não posso dizer governo, mas estrutura que não queria que um frente popular ganhasse.

Andrea Dip – Então foi um massacre.
O M-19 se desarmou, entrou na participação eleitoral, também teve muitas mortes. O ELN participou dessa frente popular mas depois retrocedeu. Então ficou um processo de fechamento dos espaços democráticos. O conflito continuou. Hoje o conflito tem muitos atores, todo o conflito está transversalizado pelo narcotráfico. Pensem que o narcotráfico é um elemento não somente de produção, comercialização, etc, mas o fator de lavagem de dinheiro, o montante de dinheiro do narcotráfico na Colômbia é imenso. Provavelmente a terceira parte do PIB da Colômbia tem a ver com o narcotráfico, seja lavagem, seja exportação, seja produção. Então toda a sociedade está impregnada pelo narcotráfico, incluindo as Farc, incluindo provavelmente o ELN. Sem dúvida os paramilitares e de alguma maneira a própria estrutura do governo, do Estado.

Andrea Dip –Não tem mocinho e bandido na Colômbia, né?
É um conflito muito sui generis. Estamos acostumados a conflitos entre ricos e pobres, exército e insurgentes, ditadura. O governo, o Estado colombiano procurou muitas formas de resolver o conflito. O diálogo, o desaparecimento do diálogo, a volta do diálogo, a força militar, a volta para o diálogo, novamente a força militar. Hoje o presidente Uribe implantou um programa de segurança democrática que preservou as cidades principais com um nível de segurança e lançou uma forte ofensiva contra as Farc principalmente. Isso tem um sucesso relativo, impacto na população civil não foi necessariamente positivo. Do nosso ponto de vista do Alto Comissariado para Refugiados, o aumento dos deslocados internos, que hoje são, as cifras não são exatas, entre 2 milhões e meio, 3 milhões e meio.

Andrea Dip – E uma coisa que me pareceu, ouvindo depoimentos de algumas pessoas que vieram da Colômbia, é que, principalmente as mulheres, não entendem muito bem o que está acontecendo.
Eu acho que hoje, os atores mais conscientes do conflito são as diligências. As diligências das FARCS, as diligências do ELN, diligências dos Paramilitares, certamente as diligências do governo, as forças armadas e todo um enorme setor da sociedade civil, porque na Colômbia tem um fantástico setor da sociedade civil que está construindo uma opção de paz nas condições mais difíceis. O evento mais importante da literatura da língua castelhana é na Colômbia. Um dos melhores teatros da América Latina é o teatro colombiano. A literatura colombiana continua sendo literatura de vanguarda. Uns atores agressivos no conflito, e outros que procuram soluções de paz.No meio você tem, como sempre, essa enorme massa de manobra, ou massa explorada, ou massa de guerra, que é a grande parte da população civil.

Andrea Dip – Principalmente no campo…
No campo e na cidade, na periferia da cidade. Então, por que essas mulheres fogem? A maioria dos casos que entra no Brasil é de mulheres ou famílias que fogem para preservar o único bem que eles têm, que são os filhos, do recrutamento forçado. Meninos, garotas, crianças de 12 anos já são recrutados para trabalhar para as FARC ou para os militares ou para o narcotráfico. Não é que “eu optei pelas FARC porque finalmente vou ganhar uma sociedade comunista”. Nem sabem o que é uma sociedade comunista. Mas eu também não sei.

Marcos Zibordi – Nem nós…
não é um ‘Ó, vou optar pelo neo-liberalismo’. Não. O homem foge porque um dia passou uma coluna, pediu para eles três galinhas, chegou o exército e disse ‘Ah, você é colaborador das FARC?’ Chegam os paramilitares e dizem, ‘Não, você deu uma vaca para as FARC, dê uma vaca para mim’, ou o pior de tudo, você tem um filho de 12 anos que já está pronto para a guerrilha, tem que descer com os Paramilitares, tem que defender o povo, se é com as FARC tem que defender a luta revolucionária, se é com o narcotráfico para usar como mula ou para a colheita da folha de coca ou para qualquer outro procedimento.

Andrea Dip – Porque não deu a vaca ele foi ameaçado e fugiu para o Equador. Porque ele continua sendo perseguido? Qual é o lucro eles têm em continuar perseguindo pessoas que já saíram do país?
Porque foi se degenerando em um conflito de caráter mafioso. Eu não posso permitir que você tenha uma solução indo para o Equador, porque senão a minha autoridade está questionada. ‘Ah, você pensa que indo para o Equador vai estar salvo? Então eu persigo até o Equador, mato você ou seqüestro seu filho, para que você veja que ninguém pode sair do controle, seja das FARC, seja dos paramilitares, seja do narcotráfico, seja de algum dos atores do conflito’. O Grande Chefão.

Andrea Dip – E é um número muito grande que está no Equador…
250 mil que estão no Equador por causa do conflito, dos quais 14 mil são reconhecidos como refugiados, 45 mil estão na fila para ser reconhecidos como refugiados. O papel de países solidários como Brasil, Argentina, Chile, que assinaram um documento chamado Plano de Ação do México no ano de 1994, incorporam três elementos importantíssimos: as cidades solidárias, as fronteiras solidárias e o reassentamento solidário.

Andrea Dip – Deixam casa, saem com a roupa do corpo, com um filho que conseguiram puxar junto, mas o outro ficou pra trás…
Muitos deles nem pedem refúgio. Outros, aqueles que pedem, passam pelo processo de seleção. No caso dos colombianos deve haver um processo mais ou menos rápido. É quase evidente que se você mora nessa área onde tem conflito você precisa da proteção internacional. É reconhecido. Mas tem alguns que querem aproveitar o instrumento do para migrar aos Estados Unidos ou Canadá. O que você faz é que reconhecimento se é ou não é refugiado, e se é refugiado vai receber uma assistência mínima até ele conseguir se virar como pode. Porque na verdade é isso. Para o reassentamento sim, tem um processo de seleção mais rigoroso. Por exemplo: no Brasil a prioridade que dá o Conare, a Comissão Nacional de Refugiados, é mulheres em risco, crianças em risco, perseguidas ou obrigadas a se prostituir para sobreviver, essa é uma opção. Eventualmente pessoas que não podem se integrar porque não foram reconhecidas como refugiadas pelo governo do Equador mas o Acnur considera que sim, são refugiados. O Brasil, manda uma comissão de seleção e recebe através da sociedade civil, das ongs que colaboram com o Acnur, com financiamento do Acnur, do Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul.

Andrea Dip – Eu gostaria que o senhor explicasse um pouquinho qual é a preocupação do ACNUR na questão do gênero e o que está sendo feito a esse respeito. Porque eu entendi que no programa de reassentamento a maioria é de mulheres com filhos. E de solicitantes, a maioria é de homens sozinhos.
Os solicitantes que chegam são de origem africana ou iraquiana nesse momento. Do Congo, Iraque, Sudão, Serra Leoa, Angola. Mas, nesse caso por que são principalmente homens? Porque viajam de barco, então é mais fácil para um jovem de 18, 25 anos pegar um barco, saltar. Caminhar com a família já é outra história. Os colombianos que entram pela Amazônia vêm com as familias. Aí não temos seleção. A seleção é no reassentamento. Porque o governo do Brasil que convida. Os que chegam por conta própria não passam por seleção. Então, dada a distância que tem o Brasil com as áreas de conflito é mais fácil que cheguem homens sozinhos e que depois procurem a reunificação familiar. Não é de agora que estamos preocupados, o Acnur sempre teve essa preocupação do tema do gênero. Hoje estamos sistematizando muitas experiências, estamos treinando cada vez mais os parceiros e o governo, na tentativa de descobrir as sutilezas da violência de gênero contra as mulheres. Não é somente a violência doméstica. É um conjunto de formas sutis de discriminação e de violência, sobretudo psicológica, e física também, contra as mulheres refugiadas.

Andrea Dip – Mas isso lá no país em que estavam ou já refugiadas?
No país de origem e já refugiadas. Tem mulheres que são refugiadas por ser mulheres. A mulher é objetivo militar desde a história das primeiras guerras. Primeiro os clãs seqüestravam mulheres para aumentar a reprodução. E também porque as mulheres eram depositárias do conhecimento. A última grande bestialidade, brutalidade da humanidade nesse tema foi na Bósnia, onde os sérvios ortodoxos, cristãos ortodoxos, estupraram as mulheres muçulmanas bósnias para, não somente humilhar o combatente, o macho, mas porque, na cultura muçulmana, uma mulher estuprada já não é aceita na comunidade. Isso foi parte da limpeza étnica. Nesses casos tão evidentes, o Acnur tem uma estratégia, um trabalho. mas depois tem outros casos que não são tão evidentes, mas que precisam de uma atenção. Uma mulher jovem, com dois filhos, que deve passar a fronteira, o guarda de fronteira diz: “Tudo bem, vou te dar passagem. Mas tenho uma cama aí atrás…” É um processo sistemático de aproveitamento da sua condição de mulher. 80% dos refugiados do mundo, dos 20,1 milhões de refugiados, são mulheres e crianças. Se tiramos as crianças homens, estamos falando de uns 57% de 21 milhões de refugiados, são mulheres, ou meninas.

Marcos Zibordi – Pelo que me parece, as ações nos países que recebem os refugiados são diferentes e voltadas para situações pontuais. No caso do Brasil, essas pessoas vêm, são assentadas, são distribuídas em outras cidades. Elas têm possibilidade de uma inserção maior na sociedade brasileira, do tipo arrumar emprego, colocar os filhos na escola?
A pedra angular do sucesso do nosso trabalho é a solidariedade dos povos. Salvo nos casos onde os refugiados estão em acampamentos fechados de onde não podem sair. O Brasil recebe, a pessoa tem um documento, tem direitos iguais ao de qualquer cidadão brasileiro, menos direitos políticos e militares. A inserção na escola é gratuita, livre, igual para qualquer um cidadão brasileiro. A inserção social é ajudada pela Cáritas. Muito depende do refugiado. O refugiado é como qualquer um de nós, pode ser um bom cara, um mau cara, um bom comerciante, um mau comerciante, pode ser um bandido, pode ser um tipo simpático, um tipo antipático, um tipo que não quer se relacionar, um tipo que não quer aprender o português, um tipo que quer prender o português e fazer de tudo, pode jogar muito bem o futebol, pode não jogar futebol, gostar do samba, não gostar do samba. Então o processo de inserção não tem uma regra. Você dá as condições básicas: documentação, acesso aos serviços básicos…

Andrea Dip – Inclusive cursos profissionalizantes…
Claro. ‘Mas eu era médico’. Sim, mas aqui a lei diz que é necessário regularizar os seus documentos, os diplomas. Você se encontra com o grêmio dos médios…

Marcos Zibordi – Conselho de medicina.
Conselho regional, que, por temor, eu acho um temor infundado, não aceita que o médico colombiano trabalhe como médico, se não passar por X exames, nos próximos 5 anos. Então, claro, esse companheiro chegou, ele era médico, ou ela era médica, ou ela era enfermeira, tinha um status, médico tem um status social. Chega e passa a ser um vendedor de cachorro-quente naesquina. Esse é um trauma sério para o refugiado. Ele perde esse entorno social que todos nós temos: o primo, o irmão, o padre da paróquia, companheiro de futebol, o meu inimigo do bairro.

Marcos Zibordi –O povo brasileiro é mais receptivo?
Eu não conheço nenhum povo do mundo que não seja receptivo. A solidariedade dos povos é incrível. Você não acredita o que acontece. Assim como a violência pode ser… Uma briga entre duas torcidas de futebol pode virar uma guerra, não? IAcho que o brasileiro tem um jeito muito fraterno. Isso abre as portas para o mercado laboral, ou para os ambientes sociais. Nas amizades é um pouco mais lento. Ser refugiado não é garantia de ser mantido, você tem que trabalhar e trabalhar bem. Eu acho que as condições no Brasil são melhores que em outros países. Não vou dizer em quais porque vocês são jornalistas. Também não vou dizer que o negro e o colombiano vão encontrar trabalho tão fácil quanto o branco e o alemão.

Andrea Dip- Mas em compensação o governo não ajuda como deveria. Dá verbas? Qual é a relação do governo com a ACNUR?
A relação do governo com o ACNUR é ótima, a legislação brasileira, sem demagogia, é uma das mais avançadas do mundo. Como o processo foi lento, do ponto de vista numérico não foi muito impactante, o envolvimento do governo garantindo a saúde, a educação, o acesso a algumas universidades federais, até o momento isso funcionava muito bem, não precisava muito mais. Hoje nós pensamos que o governo deveria ter uma participação de doação ao ACNUR, não tanto para o tema dos refugiados no Brasil, mas também para o tema dos refugiados no mundo. O alto comissário falou disso com o senhor presidente, e e é um processo de negociação que está caminhando. O Brasil está cumprindo todos os seus compromissos com as Nações Unidas, e gostaríamos de ter também uma participação, mas é um processo.

Marcos Zibordi- No Brasil, existem varias pessoas vivendo em áreas de risco, favelas, que poderiam se encaixar perfeitamente em todas as condições para pedir ajuda ao ACNUR. É possível isso acontecer?
O Estado brasileiro tem instrumento de proteção interna, existem programas de apoio a testemunha, ou a esse tipo de pessoas. O Estado tem capacidade de resposta. Mas o segundo e mais importante é que para ser refugiado, para pedir refugio, você precisa sair do país de origem. Um brasileiro não pode chegar num escritório do ACNUR e pedir refugio ao escritório. Ele tem que sair do país de origem e pedir refugio lá.

Marcos Zibordi- Existem movimentos sociais e políticos para impedir a entrada de estrangeiros principalmente na Europa e Estados Unidos. Esses países resistem no caso de refugiados também?
Depois do 11 de setembro, o atentado terrorista contra as torres gêmeas, a primeira reação foi o fechamento de fronteiras.

Marcos Zibordi – Que atingiu a vocês também?
Que atingiu os solicitantes de refúgio. O que é uma reação natural, eu diria, lógica e reconhecemos que o dever dos Estados é proteger seus cidadãos. A primeira reação do ACNUR foi dizer: “olha, nenhum dos que participaram nesses atentados são solicitantes, nenhum imigrante documentado. E descarregar a reação policial contra os solicitantes de refúgio é uma reação que o ACNUR como depositário do mandato das Nações Unidas para a proteção da pessoa humana em nível internacional não vai aceitar”, mas aconteceu. Certamente não será a construção de nenhum muro, não será o fechamento das fronteiras que vai resolver o problema nem das imigrações e menos ainda das solicitações de refúgio. Hoje, por exemplo, há solicitantes de refúgio do Oriente Médio que podem passar até um ano e meio presos nos Estados Unidos até que se verifique se estes senhores não são ou não têm nenhum vínculo com terroristas.

Andrea Dip – Mas não é a maioria…
Os outros países fecham as fronteiras, não deixam entrar. Então porque diminuiu o número de refugiados e aumentou o número de deslocados internos? Porque não podem sair. Isso tem um impacto. Tivemos uma resposta policial a um problema humanitário e hoje o grande trabalho do alto comissário Antonio Gutierrez é reabrir essas portas. Imigrante não é solicitante. Os direitos humanos são universais, individuais e indivisíveis e ultrapassam as fronteiras. Você marcha com a sua mochila de direitos humanos através da Argentina, da Bolívia, do Brasil, um brasileiro não perde seus direitos humanos na Argentina, ao menos que seja em uma partida de futebol.

Andrea Dip – Estrangeiro não vota, portanto não deve haver muita vontade política em ajudar. Imagino que isso no Brasil também aconteça, não?
Acontece. Não é um eleitor, não é mão-de-obra importante, selecionada. Mas esses são critérios muito restritos e pequenos. Os Estados Unidos é o país que mais recebe refugiados no mundo , que mais reassentados recebe no mundo, são 70 mil reassentados por ano. Ontem eu vi na CNN que os produtores agrícolas estão protestando contra a lei de fechamento contra os imigrantes, porque eles precisam da mão-de-obra. Nunca falemos de imigrantes ilegais, falemos de imigrantes irregulares ou não-documentados, porque um imigrante que atravessa uma fronteira sem documentos comete uma falta administrativa, não é um delito penal.

Marcos Zibordi- O senhor acha que é possível o Brasil chegar a esse grande sonho da política internacional que é fazer parte do Conselho de Segurança?
A ONU vai mudar. Há duas tendências grandes, uma é a de quem quer converter a ONU numa grande ONG instrumental de interesses financeiros e outra, a majoritária, quer um espaço democrático de debates. Eu certamente acredito na segunda, porque eu sou um militante da ONU, não somente um funcionário, não somente mercenário. Vamos ter que mudar. Funcionários velhos como eu vão ter que sair para que os jovens que sabem fazer a coisa de uma outra maneira entrem. Seguramente vai mudar, mas é preciso consolidar o espaço democrático do conserto da nações. É o único lugar onde um pequeno país qualquer, com um nome desconhecido tem o mesmo voto na Assembléia Geral do que um país como a Índia, a França, Brasil e Itália. Então nós devemos defender esse espaço, não somente por uma reivindicação democrática. Devemos garantir o futuro da humanidade. Descobriram depois de 20 anos que era melhor também compartilharmos um pouco com os pobres. Quem sabe eles também têm fome. Descobriram, ou pior ainda, temos que compartilhar com os pobres porque eles são potenciais clientes.

Andréa Dip- Ou pela violência, que é o que acontece no Brasil hoje? Tentar conter um pouco do medo…
Eles se sentem super seguros, eles fecham as portas, fecham as cidades, fecham o bairro, moram nas montanhas rodeados de guarda costas…

Andréa Dip- Mas aqui no Brasil isso é furado constantemente. O homem vive em uma fortaleza e entra lá um bandido, ou um alguém que vai seqüestrar a filha dele.
Eu acho que também tem um processo de sensibilização e de tomada de consciência pela sociedade. Eu não acredito tanto no medo. Se você é rico vai morar em San Marino. Quem vai procurar a filha do rico em San Marino?
Claro que existem os loucos completos, as quadrilhas perversas. Mas isso sempre existiu. Não é privilegio do século XXI. O processo democrático é muito jovem. Há 50 anos atrás, a Europa estava sob a ditadura.

Marcos Zibordi- O senhor têm netos?
Sim.

Marcos Zibordi- O senhor acha que seus netos vão viver em um mundo de paz? O senhor se diz um otimista relativo…
Poderia ser um mundo de paz relativo! Eu acho que esse toque do clarim, essa “clarinada” em espanhol, do meio ambiente tem impacto. O desastre da guerra do Iraque pode produzir mais guerra. Porque o ganho é tão alto, e aqueles que estão ganhando dinheiro com isso, estão ganhando tanto, que eles não têm medida! Eu não estou falando de magia, mas o cara que tem 6 milhões de dólares na sua conta, para que quer sete milhões? Ou duzentos? Ele não vai ter tempo pra desfrutar disso. É como um processo demoníaco! Assim como a guerra do Iraque está produzindo um desastre tão grande, pode ser que para querer resolver a guerra do Iraque, entrem no Irã. Mas pior ainda, pode ser que decidam… “Olha, o irã está muito dificil, tem franceses… mas a Venezuela… quem se importa com a Venezuela? Ou A Colômbia. A Colombia é nossa!” Como sou relativamente otimista, eu acho que depois desse “toque do clarim” ambiental, que a guerra do Iraque está produzindo, é possivel que caminhemos para um período grande de paz, se conseguirmos controlar o impacto ambiental. Mas depende da luta dos povos. Não é da vontade de Al Gore. Al Gore é um bom propagandista. Mas se nós não lutarmos por mais democracia, mais controle na violencia domestica, a lei Maria De La Peña… se nós não conquistarmos esses espaços, ninguem vai dar nada para ninguem. Se nós não conquistarmos os Chioco Mendes multiplicados por dez mil… Isso é uma atitude. Se meus netos vão viver num mundo de paz? Paz é uma aspiração muito grande. Mas um mundo melhor acho que sim. Não pior.

Caros Amigos
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A arma de guerra chamada Barbie

A arma de guerra chamada Barbie
Paula Sibila

A boneca criada em 1958 é pioneira na configuração de um modelo corporal que talvez seja o mais tirânico da história ocidental

Uma temporada após a outra, desfiles de moda acendem seus holofotes nas mais diversas cidades do mundo. Olhos fascinados (ou entediados) assistem aos vaivéns das passarelas, onde as modelos que servem de “cabide para as roupas” costumam despertar mais curiosidade que as extravagantes vestes em exibição.

O corpo das modelos exerce um magnetismo não isento de polêmicas, tais como os escândalos e burburinhos ligados à anorexia, mas seu brilho nunca diminui. Elas continuam atraindo os olhares, surpreendentemente idênticas umas às outras, e todas muito diferentes das comuns mortais que as admiram em silêncio -e que gostariam de se parecer com elas. Exércitos de mulheres de todas as procedências querem copiar esses corpos-modelos que tanto se assemelham entre si, como numa clonagem universal de um protótipo que há décadas permanece incólume: a Barbie.

Embora já esteja ficando quase velha, essa boneca esguia e eternamente jovem continua sendo o ícone de um padrão de beleza dos mais insistentes. Tendo habitado a infância das meninas do mundo inteiro há quase meio século, a Barbie tornou-se um verdadeiro clássico na imposição das leis do “corpo bom” em nossa sociedade. Todo um baluarte pedagógico, a famosa boneca é uma pioneira na configuração de um modelo corporal que provavelmente seja o mais tirânico da história ocidental.

Pois as medidas da Barbie são humanamente impossíveis: se os 29 cm de plástico oco que a conformam fossem transformados em carne feminina, para conservar as proporções de sua silhueta curvilínea demandariam uma altura de 2m13 e as seguintes medidas de busto, cintura e quadris: 96-45-83 cm.

Os cálculos indicam que uma mulher com essa contextura pesaria menos de 50 kg, portanto não possuiria a quantidade de gordura corporal suficiente para ter ciclos menstruais regulares e não conseguiria nem sequer andar. Isto significa que até mesmo as modelos que mais aproximam seus corpos dessa imagem ideal ainda permanecem longe da “boneca perfeita”. As medidas habituais das profissionais da passarela são 1m75 de altura e os clássicos 90-60-90.

Quanto às mulheres “reais”, a meta está bem mais longe dessa harmonia numérica: para ter as formas da Barbie, uma mulher ocidental de porte médio deveria esticar sua altura corporal em 40 cm, extrair uns 25 cm da sua cintura e uns 20 cm dos quadris e, além disso, acrescentar mais alguns centímetros nos seios.

Há, ainda, um dado bombástico: em 1958, quando a esposa do dono da empresa Mattel teve a idéia genial de fabricar esse novo brinquedo, o design da Barbie foi encomendado a um especialista com um currículo expressivo. Trata-se de Jack Ryan, um engenheiro, que antes de chefiar o departamento de pesquisa e desenvolvimento da Mattel, também trabalhou para o Pentágono e para a empresa Raytheon, fabricante de equipamento bélico.

Nesse emprego anterior, o engenheiro foi responsável pelo design dos mísseis Sparrow e Hawk. Sabe-se que os brinquedos nunca são artefatos neutros ou “inocentes”; ao contrário, eles propõem “estilos de vida” capazes de influenciar uma geração inteira -ou várias, como é o caso da bem-sucedida boneca norte-americana. Nesse sentido, a Barbie não é uma trivial mercadoria, e tampouco é apenas uma boneca. Ela é, sobretudo, um tipo de corpo: um poderoso modelo corporal que com ela nasceu e com ela ainda se desenvolve. Ela é, aliás, uma verdadeira arma de guerra, cujo efeito consiste na radiação do “corpo perfeito” por todos os cantos do planeta.

A história da Barbie é muito eloqüente. Ela foi a primeira boneca cujo corpo ousou imitar as formas de uma mulher adulta, enquanto os brinquedos mais tradicionais destinados às meninas sempre reproduziram a figura do bebê ou de uma criança. “Be anything”, promete o slogan da Barbie: seja o que desejar, você é livre para inventar seu próprio destino, pode escolher o tipo de trabalho que irá desempenhar quando for adulta. Faça o que você quiser, desde que a sua aparência seja como deve ser; isto é, o mais parecida possível com a boneca impossível.

Pois a Barbie encarna duas tendências aparentemente contraditórias: por um lado, ilustra a ampliação da autonomia e das liberdades de escolha para as mulheres; por outro lado, também representa a ardilosa transformação do corpo em uma mercadoria que deve ser constantemente aperfeiçoada. Duas tendências que se aprofundaram nas últimas décadas, e não há dúvidas que a própria Barbie contribuiu para sua expansão. Por isso, quando as meninas crescem e não conseguem atingir nem o sucesso e nem o talhe prometidos na infância, costumam recorrer a consolos mais acessíveis para aliviar suas frustrações: as modelagens do bisturi, por exemplo, ou então os antidepressivos -que um jargão mais antiquado chamaria de barbitúricos.

Não deixa de ser significativo, portanto, que esta altíssima loira de silicone tenha sido lançada em 1959, prenunciando não apenas a “liberação feminina” que logo viria, mas também a popularização das modelos hipermagras que seguiram o exemplo da manequin Twiggy. Com suas inéditas medidas enxutas e sua aparência “desnutrida”, essa modelo britânica escandalizou o mundo quando apareceu pela primeira vez nas páginas da revista “Vogue”, em 1965.

No entanto, apesar das convulsões iniciais, suas formas descarnadas logo conquistaram tanto o público como os mercados, e hoje nem suas medidas nem seu aspecto causam espanto algum. Ao contrário, parecem perfeitamente “normais”. Tanto, que seria difícil identificar a magricela Twiggy se ela desfilasse em qualquer “fashion week” do planeta.

Na época do seu lançamento, porém, há mais de quatro décadas, até a revista que a descobrira admitiu o choque da novidade que tais formas corporais apresentavam. A “Vogue” viu-se obrigada a publicar a seguinte advertência junto às fotografias: “Suas pernas fazem pensar que ela não tomou suficiente leite quando era bebê, e seu rosto mostra a expressão que deviam ter os habitantes de Londres durante a guerra”.

Paralelamente a estes dois fenômenos emblemáticos -a aparição da Barbie em 1959 e de Twiggy em 1965-, que marcaram os primeiros passos no advento deste novo ideal do corpo feminino, o mundo ingressava em uma nova era. Nesse ambiente transtornado pelas revoltas da juventude e pelas reivindicações feministas, vivenciava-se uma flexibilização da rigidez moral que até então tinha constrangido os relacionamentos e costumes.

Nesse quadro, começava a agonizar a velha “cultura da intimidade”, que teve seu auge no século 19 e na primeira metade do 20, e deu à luz às subjetividades interiorizadas da modernidade. Um mundo, enfim, no qual os sofrimentos eram vivenciados como conflitos interiores (pessoais e privados), muitas vezes provocados pela necessidade de “reprimir” os desejos individuais em face à severa moral vigente.

Diante da agonia desse universo, na segunda metade do século passado, começou a despontar um novo regime de constituição das imagens corporais e dos “modos de ser”, um movimento histórico extremamente complexo que ainda está em andamento, e que deslancharia uma crescente exteriorização do eu. Desse processo participaram ativamente aquelas duas personagens femininas: tanto a boneca Barbie como o corpo-modelo cuja linhagem Twiggy inaugurara.

Constantemente se renovam as roupas, os estilos e os incontáveis acessórios que a empresa Mattel comercializa há 48 anos sob a lucrativa marca Barbie, mas a silhueta da boneca permaneceu praticamente idêntica ao longo de todo esse tempo. Em 1965, suas pernas se tornaram flexíveis; em 1968, o rosto ganhou um aspecto ainda mais jovem, com longos cílios contornando seus enormes olhos azuis. Depois, os cabelos lisos cresceram ainda mais e o corpo ganhou maior mobilidade.

Em 1997, quando a moça já era bem mais que uma balzaquiana, os fabricantes resolveram responder às crescentes críticas acerca da influência negativa que estaria exercendo sobre as meninas do mundo inteiro, alastrando um padrão corporal inatingível e contribuindo, dessa maneira, para a “epidemia” de distúrbios alimentares e transtornos da imagem corporal. Assim, nos exemplares mais recentes, tanto a cintura como os quadris da boneca engrossaram levemente, na tentativa de tornar seu corpo um pouco mais “realista”, enquanto os seios foram diminuídos. De todo modo, as mudanças são bastante sutis, e a Barbie continua sendo a Barbie.

A verdade é que o mercado desaconselha alterações mais profundas nessa esbelta figura, que é líder de vendas entre todas as bonecas jamais criadas: somente no ano em que virou quarentona, faturou US$ 2 bilhões. Vendem-se anualmente mais de 100 milhões de exemplares em 140 países: a cada segundo, três meninas deste planeta ganham um novo clone. Mas tais números se referem apenas à marca oficial; esquecendo as incontáveis imitações que, a rigor, cumprem idêntica função. Existe até um dado tão inútil como ilustrativo: se colocássemos todas as Barbies vendidas nos primeiros 30 anos -isto é, apenas até 1989- enfileiradas da ponta das madeixas aos curvos pés, seria possível dar quatro vezes a volta ao mundo. Ninguém pode dizer que seja pouca coisa.

É claro que não se trata apenas de uma mercadoria a mais, porém de um produto intensamente fetichizado. Não por acaso, esta boneca já foi tema de sérios estudos acadêmicos e protagonizou exposições em museus e centros culturais. Sob o nome de “complexo de Barbie”, ainda, conhece-se a síndrome que leva algumas mulheres a recorrer à cirurgia plástica e outras técnicas afins para provocar drásticas mudanças em seus corpos, tendentes a se parecerem com a loiríssima boneca.

Algumas o fazem explicitamente, e chegam a ficar famosas por causa disso: escrevem livros sobre sua cruzada, contam suas experiências na televisão e mostram orgulhosas os resultados. Um exemplo é Cindy Jackson, cujo site na internet dispensa comentários: http://www.cindyjackson.com. Mas não é preciso evocar esses extremos: são inúmeras as mulheres que perseguem essa meta sem explicitá-lo, por isso é tão comum encontrar êmulas anônimas da Barbie andando pelas ruas de qualquer cidade.

Como uma prova da vigorosa influência cultural desse modelo, não surpreende que os padrões de beleza vigentes em nossa sociedade tenham mudado radicalmente nos últimos 50a anos. Junto com esses protótipos ideais, também foi se metamorfoseando a silhueta das mulheres reais de todo o planeta. Basta citar apenas um exemplo bastante elucidativo: em 1951, a moça que ganhou o concurso de Miss Suécia media 1m71 de altura e pesava 68,5 kg; pouco mais de três décadas depois, sua colega de 1983 media 1m75 e pesava 49 kg.

Entre uma e outra rainha de beleza escandinava, houve uma verdadeira barbierização dos padrões. Em termos médicos, o índice de massa corporal (IMC) da primeira era de 23,4, um valor que ainda é tido como normal, enquanto o da segunda é de 16, e já está bem aquém do mínimo considerado saudável.

As manequins sempre foram magras: algumas décadas atrás, quando ainda não eram celebridades e nem constituíam o sonho que toda menina quer encarnar quando crescer, pesavam 8% menos que a média da população, mas atualmente essa diferença é de 23%. No ano passado, ecoando uma série de notícias trágicas sobre mortes de modelos que sofriam de anorexia (entre elas, a brasileira Ana Carolina Reston), os organizadores da “fashion week” de Madri impediram a participação de todas aquelas profissionais cujo índice de massa corporal fosse inferior a 18. Para uma jovem de 1m75 de altura, esse valor implica um peso de 56 kg.

Proibições semelhantes foram adotadas em desfiles realizados em outros países, mas a decisão foi polêmica e muito criticada, inclusive por alguns médicos, que sublinharam a ineficácia de utilizar apenas um indicador isolado e arbitrário. De todo modo, sabe-se que a grande maioria das modelos atuais ficaria desempregada se a nova regra se generalizasse, pois estima-se que seu IMC oscile entre 17 e 17,5, podendo chegar até 15,6 -quando os parâmetros médicos continuam a indicar que o valor “normal” repousa entre 18,5 e 25.

Confirmando esse brusco emagrecimento e alongamento ocorrido nas últimas décadas, tanto dos padrões corporais considerados ideais como das medidas reais dos corpos-modelo, uma revista afirmou que as medidas de Gisele Bündchen “são perfeitas: 1m79 metro de altura e 54 kg”. Isso implica um índice de massa corporal de 16,85 -portanto, ela também seria banida dos desfiles, caso a nova regra vingasse. Cabe frisar, porém, que o perfil dessa modelo gaúcha se aproxima, bem mais que a maioria de nós, dos padrões propostos pela Barbie; contudo, ela tampouco chega a atingi-los.

Por isso, aquele engenheiro Jack Ryan -criador de mísseis para o Pentágono e da boneca Barbie para e empresa Mattel- ergue-se como uma encarnação moderna do mítico escultor grego Pigmalião, aquele que esculpira uma estátua perfeita da qual acabou se apaixonando. Afinal, o designer de equipamento bélico que forjou a boneca mais famosa do mundo foi o sexto marido da bela atriz Zsa Zsa Gabor, loira e esguia estrela de Hollywood dos anos 50 -considerada a primeira celebridade que ficou famosa apenas por causa da sua celebridade; não por acaso, foi tia-avó de outra loira hoje célebre: Paris Hilton.

O casamento do inventor e sua musa, porém, foi tão “imperfeito” que sequer durou um ano. Contudo, assim como Pigmalião, o engenheiro norte-americano acabou criando, artificialmente, uma mulher mais “perfeita” que qualquer exemplar real e carnal do gênero feminino. Seguindo os passos da sua ancestral mitológica -aquela escultura construída em marfim na Grécia Antiga-, a boneca de plástico nascida em um laboratório do século 20 logo se converteria no ícone do “corpo perfeito”, um modelo a ser desejado e imitado fervorosamente.

E uma verdadeira arma de guerra, pois tal desejo é tão ardente quanto universal, capaz de converter todas as diferenças em meros desvios com relação a essa poderosa norma. Nos últimos anos, os avanços do padrão corporal magro, esbelto e “sarado” têm enxugado, gradativamente, todas as alternativas que a diversidade étnica e cultural do mundo pré-globalizado tinha a oferecer.

Um exemplo é bem local: as famosas mulatas do carnaval carioca recorrem, cada vez mais, à lipoaspiração e ao silicone para tornear seus corpos de acordo com os moldes globais. Outro exemplo é bastante longínquo, remete àquelas silhuetas exóticas que alguma vez encantaram o pintor Paul Gauguin e foram imortalizadas em todas as cores de sua obra.

Trata-se de um arquipélago da Micronésia rodeado pelo Oceano Pacífico, onde os corpos e certos hábitos das nativas estão mudando de um modo peculiar: poucos anos depois da televisão dos Estados Unidos ter irrompido no cotidiano desse grupo de ilhas outrora isoladas, as mulheres começaram a se preocupar intensamente com o próprio peso e com o aspecto corporal, recorrendo a severas dietas e exercícios físicos. Além de mudarem os padrões de beleza ancestrais, multiplicaram-se os casos de anorexia e bulimia na região. Tudo para se parecer com ela: a Barbie.

Pois mesmo constituindo um ideal inatingível, sempre existe a possibilidade de comprar o rosto e o corpo das modelos, uma promessa que é vendida nas mais diversas embalagens: nas prateleiras de supermercados e farmácias, nas academias de ginástica e nas clínicas de tratamentos estéticos, e agora também nos “reality-shows de transformação”.

Paula Sibila
É professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídia, do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (IACS-UFF). Doutora em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ e em Saúde Coletiva pelo IMS-UERJ, é autora do livro “O Homem Pós-Orgânico: Corpo, Subjetividade e Tecnologias Digitais”.

Revista Trópico

Uma Terra sem humanos

Uma nova forma de avaliar o impacto da humanidade sobre o ambiente é pensar como o mundo se sairia se todas as pessoas desaparecessem

Alan Weisman

INTRODUÇÃO
É uma fantasia comum imaginar que você é a última pessoa viva na Terra. Mas e se todos os seres humanos fossem varridos de repente do planeta? Tal premissa é o ponto de partida de The world without us (O mundo sem nós), nova obra do autor de livros científicos Alan Weisman, professor associado de jornalismo da University of Arizona. Nesse longo exercício de pensamento, Weisman não especifica exatamente o que elimina o Homo sapiens, em vez disso ele simplesmente assume o desaparecimento repentino de nossa espécie e projeta a seqüência de eventos que provavelmente ocorreria nos anos, décadas e séculos a seguir.

Segundo Weisman, uma grande parte de nossa infra-estrutura física começaria a ruir quase que imediatamente. Sem equipes para a manutenção das ruas, nossos grandes bulevares e rodovias começariam a rachar e a ficar abaulados em questão de meses. Nas décadas seguintes, muitas casas e edifícios comerciais ruiriam, mas alguns itens comuns resistiriam à degradação por um tempo extraordinariamente longo. Panelas de aço inoxidável, por exemplo, poderiam durar milênios, especialmente se ficassem enterradas nos sítios pré-históricos cobertos por ervas daninhas em que nossas cozinhas se transformariam. E certos plásticos comuns permaneceriam intactos por centenas de milhares de anos, não se decompondo até que micróbios evoluíssem para adquirir a capacidade de consumi-los.

O editor da SCIENTIFIC AMERICAN Steve Mirsky entrevistou Weisman recentemente para descobrir por que ele escreveu o livro e que lições podem ser tiradas de sua pesquisa. Veja trechos da entrevista nas páginas seguintes.

Se os seres humanos desaparecessem amanhã, o magnífico horizonte de Manhattan não sobreviveria por muito mais tempo. Weisman descreve como a floresta de concreto de Nova York voltaria a ser uma floresta real.

“O que aconteceria a todas as nossas coisas se não estivéssemos mais aqui? Será que a natureza conseguiria eliminar todos os nossos vestígios? Há alguma coisa que fizemos que seja indestrutível ou indelével? Será que, por exemplo, a natureza transformaria a cidade de Nova York na floresta que a ocupava quando Henry Hudson a viu pela primeira vez, em 1609?

Tive uma conversa fascinante com engenheiros e profissionais de manutenção em Nova York sobre o que seria necessário para conter a natureza. Descobri que nossa infra-estrutura imensa, imponente e opressiva, que parece tão indestrutível, é na verdade bastante frágil e continua existindo e funcionando graças aos poucos seres humanos dos quais todos nós realmente dependemos. O nome Manhattan vem de um termo indígena que se refere a colinas. Ela era uma ilha cheia de morros. A região acabou aplanada para receber a grade de ruas. Ao redor das colinas costumavam fluir cerca de 40 ribeirões diferentes e havia várias nascentes por toda a ilha. O que aconteceu a toda aquela água? A quantidade de chuvas ainda é praticamente a mesma, mas hoje a água está dominada. No subterrâneo. Parte da água escorre pelo sistema de drenagem, mas ele nunca é tão eficiente quanto a natureza. Assim, há muita água correndo no subsolo, tentando sair. Mesmo em um dia claro e ensolarado, as pessoas responsáveis pela manutenção do metrô em Manhattan precisam bombear 49 milhões de litros de água para fora, ou os túneis inundariam.

Há lugares em Manhattan onde eles lutam o tempo todo contra o afloramento de rios subterrâneos que corroem os trilhos. Nas salas de bombeamento você vê uma quantidade enorme de água jorrando. E lá embaixo, em uma pequena caixa, estão as bombas que levam a água embora. Mas se os seres humanos desaparecessem amanhã, uma das primeiras coisas a ocorrer seria o desligamento da eletricidade. Nossa energia elétrica vem em grande parte de usinas nucleares ou movidas a carvão, que têm chaves de segurança automáticas para garantir que não saiam do controle no caso de ninguém estar monitorando o sistema. Assim que a energia elétrica fosse cortada, as bombas deixariam de funcionar, e os túneis do metrô começariam a se encher de água. Em 48 horas haveria muitas inundações em Nova York, algumas delas visíveis na superfície. Poderia acontecer transbordamento das bocas-de-lobo. Elas ficariam rapidamente entupidas com detritos – para começar, com os inúmeros sacos plásticos que o vento sopraria pela cidade e, mais tarde, como ninguém apararia a vegetação dos parques nem recolheria a vegetação seca, com o acúmulo de folhas e material orgânico.

Mas o que aconteceria no subsolo? Corrosão. Pense nas linhas de metrô abaixo das avenidas. Enquanto espera pelo trem, observe aquelas colunas de aço que sustentam o teto, que na verdade é a rua. Tudo começaria a sofrer corrosão e, ao final, ruiriam. Após algum tempo surgiriam crateras nas ruas – possivelmente em apenas duas décadas. E em pouco tempo algumas ruas voltariam a ser os riachos de superfície que existiam em Manhattan antes.

Muitos dos prédios em Manhattan estão apoiados sobre leito rochoso. Mas mesmo se contarem com vigas de aço na fundação, essas estruturas não foram projetadas para ficar submersas o tempo todo. Assim, também os prédios começariam a ruir. E como a mudança climática deve causar eventos mais extremos, com mais furacões atingindo a costa leste, a queda de um prédio, num desses eventos, derrubaria mais alguns, criando uma clareira. Essas clareiras receberiam sementes de plantas lançadas pelo vento, e estas se estabeleceriam nas fendas do asfalto. As clareiras já estariam cobertas de folhas, mas a cal vinda do concreto moído criaria um ambiente menos ácido para várias espécies. A cidade começaria a desenvolver seu próprio ecossistema. Toda primavera, quando a temperatura estivesse oscilando em torno do ponto de congelamento, novas rachaduras apareceriam. A água entraria nas rachaduras e congelaria. As rachaduras aumentariam e mais sementes seriam levadas pelo vento para dentro delas. Isso aconteceria bem rapidamente.

Como os ecossistemas da Terra mudariam se os seres humanos estivessem fora da jogada? Weisman diz que podemos ter um vislumbre desse mundo hipotético observando bolsões “primitivos” onde as marcas da humanidade sejam mais leves.

Para ver como o mundo seria se os humanos desaparecessem, comecei indo a lugares abandonados, que as pessoas deixaram por diferentes motivos. Um deles é o último fragmento de floresta primitiva na Europa. É como num conto de fadas dos irmãos Grimm: uma floresta escura, fechada, com lobos uivando e toneladas de musgo pendurado nas árvores. E esse lugar existe. Ele fica na fronteira da Polônia com a Bielo-Rússia. Era uma reserva de caça, estabelecida nos anos 1300 por um duque lituano que mais tarde se tornou rei da Polônia. Uma série de reis poloneses e depois czares russos a mantiveram como área de caça particular. Houve pouco impacto humano. Após a Segunda Guerra Mundial, ela se tornou um parque nacional. Você vê carvalhos e freixos de mais de 45 metros de altura e 3 metros de diâmetro, com sulcos tão profundos na casca que pica-paus os enchem de pinhas. Além de lobos e alces, essa floresta abriga o último rebanho selvagem de Bison bonasus, o bisão europeu nativo.

Também visitei a zona desmilitarizada coreana. Nela há um pequeno trecho de terra – com cerca de 240 km de extensão por 4 km de largura – junto do qual dois dos maiores exércitos do mundo ficam posicionados um diante do outro. Entre eles fica uma reserva “involuntária” de vida selvagem. É possível ver espécies que poderiam estar extintas se não fosse por aquele pedacinho de terra. Às vezes você ouve os soldados gritando uns com os outros por alto-falantes ou exibindo sua propaganda política de um lado a outro, e no meio de toda aquela tensão é possível ver bandos de garças azuis que passam o inverno lá.

Mas para realmente compreender um mundo sem os seres humanos percebi que é preciso aprender como o mundo era antes da nossa evolução. Então fui para a África, onde os seres humanos surgiram, e o único continente onde ainda há animais selvagens de grande porte. Antigamente havia animais de grande porte em todos os continentes e em muitas das ilhas. Tínhamos criaturas enormes na América do Norte e do Sul – preguiças-gigantes maiores que mamutes; castores do tamanho de ursos. O motivo de sua dizimação é controverso, mas muitos indícios apontam para nós. As extinções em cada massa de terra parecem coincidir com a chegada dos seres humanos. Mas a África é o local onde os seres humanos e os animais evoluíram juntos e os bichos de lá aprenderam estratégias para evitar nossa ação predatória. Sem os seres humanos, a América do Norte provavelmente se tornaria em curto prazo um bom habitat para cervos gigantes. À medida que as florestas se restabelecessem por todo o continente, herbívoros maiores se desenvolveriam, no tempo evolutivo, para tirar proveito de todos os nutrientes presentes nas espécies lenhosas. Predadores maiores também evoluiriam seguindo o mesmo padrão.

Pensar em uma Terra sem humanos pode ter benefícios práticos. Weisman explica que sua abordagem pode trazer uma nova luz aos problemas ambientais.

Não estou sugerindo que temos de nos preocupar com o desaparecimento repentino dos seres humanos amanhã, com algum raio alienígena mortal que nos eliminaria a todos. Pelo contrário, o que descobri é que essa forma de olhar para nosso planeta – fazendo-nos sumir apenas teoricamente – revelou ser tão fascinante que desarma os temores das pessoas ou a terrível onda de depressão que pode nos envolver quando lemos sobre os problemas ambientais que criamos e os possíveis desastres que poderemos enfrentar no futuro. Porque, francamente, sempre que lemos sobre essas coisas, nossa preocupação é: oh, meu Deus, nós vamos morrer? Será este o fim? Meu livro elimina essa preocupação bem no começo ao dizer que o fim já aconteceu. Por qualquer motivo, nós, seres humanos, desaparecemos, então agora vamos relaxar e ver o que acontece em nossa ausência. É uma maneira deliciosa de reduzir todo temor e ansiedade. E olhar para o que aconteceria em nossa ausência é outra forma de enxergar melhor o que acontece em nossa presença.

Por exemplo, pense em quanto tempo levaria para eliminar algumas das coisas que criamos. Algumas das invenções mais formidáveis têm uma longevidade que ainda não podemos prever, como alguns dos poluentes orgânicos persistentes que começaram como pesticidas ou produtos químicos industriais. Ou nossos plásticos, que têm uma presença gigantesca em nossa vida e no ambiente. E quase todas essas coisas só surgiram após a Segunda Guerra Mundial. Você começa a pensar que provavelmente não há como termos resultado positivo, e que estamos testemunhando uma maré esmagadora de proporções geológicas desencadeada pela raça humana na Terra. Eu levanto a possibilidade, quase no final do livro, de os seres humanos poderem continuar fazendo parte do ecossistema de forma muito mais equilibrada com o resto dos ocupantes do planeta.

É algo que abordo ao olhar primeiro não apenas para as coisas horríveis que criamos, e que são tão assustadoras – como a radioatividade e os poluentes, alguns dos quais poderão ainda persistir até o fim do planeta –, mas também para algumas das coisas belas que fizemos. Levanto a questão: não seria uma triste perda a humanidade ser extirpada do planeta? E quanto aos nossos maiores atos de arte e expressão? Nossa mais bela escultura? Nossa melhor arquitetura? Algum sinal que indique que estivemos aqui a certa altura resistirá? Essa é a segunda reação que obtenho junto às pessoas. A princípio elas pensam: esse mundo seria lindo sem nós. Mas então reconsideram: não seria triste não estarmos aqui? E não acho que o desaparecimento de todos nós da face da Terra seja necessário para voltarmos a um estágio mais saudável.

QUEM PODERIA NOS SUBSTITUIR?
Dizem que a natureza abomina o vácuo. Se os seres humanos desaparecessem, alguma outra espécie poderia evoluir para um animal que fabricasse ferramentas, tivesse plantações, usasse linguagem e fosse capaz de dominar o planeta? Segundo Alan Weisman, os babuínos poderiam ter uma chance razoável. Eles têm o maior cérebro entre os primatas, com exceção do Homo sapiens, e, como nós, se adaptaram a viver nas savanas à medida que os habitats florestais na África encolheram. Weisman escreve em The world without us: “Se os ungulados dominantes nas savanas – o gado – desaparecessem, os gnus se multiplicariam para ocupar seu lugar. Se os humanos desaparecessem, os babuínos ocupariam o nosso? Será que sua capacidade craniana permaneceu suprimida durante o Holoceno porque saímos à frente deles, sendo os primeiros a descer das árvores? Sem os humanos no seu caminho, será que o potencial mental deles aumentaria e os levaria a um avanço evolucionário repentino em todas as fissuras de nosso nicho abandonado?”.

Hollywood, com sua longa série de filmes Planeta dos macacos, parece concordar com Weisman. Um segundo cenário fora da África poderia se desenrolar centenas de milhares de anos após o primeiro. Alguém se perguntaria como os arqueólogos babuínos do futuro interpretariam os extraordinários artefatos humanos – esculturas, cutelaria, sacos plásticos – enterrados sob seus pés. Weisman acha que “o desenvolvimento intelectual de qualquer criatura que os escavasse poderia ser abruptamente elevado para um plano evolucionário mais alto pela descoberta de ferramentas já prontas”. Mesmo como fantasmas, poderíamos continuar moldando o futuro. – Edward Bell

OS VENCEDORES…
Nosso fim seria uma boa notícia para muitas espécies. Abaixo, uma pequena amostra dos animais e plantas que se beneficiariam com o desaparecimento dos seres humanos.

AVES: Sem os arranha-céus e linhas de transmissão para atrapalhar o vôo, pelo menos1 bilhão de aves evitariam quebrar o pescoço a cada ano.

ÁRVORES: Em Nova York, carvalhos e bordos, juntamente com a invasora alianto, tomariam a cidade.

MOSQUITOS: Com o fim dos esforços de extermínio e o aumento dos charcos, grandes nuvens de insetos se alimentariam do restante da vida selvagem.

GATOS DOMÉSTICOS SELVAGENS: Eles provavelmente se sairiam bem alimentando-se de pequenos mamíferos e aves no mundo pós-humano.

…E OS PERDEDORES
Não há dúvida: nossos parasitas e animais de criação sentiriam nossa falta. Abaixo, uma lista das espécies que provavelmente sofreriam em conseqüência de nosso desaparecimento.

GADO DOMESTICADO: Eles se tornariam refeição deliciosa para leões-da-montanha, coiotes e outros predadores.

RATOS: Privados de nosso lixo, passariam fome ou seriam devorados pelas aves de rapina aninhadas nas ruínas dos prédios.

BARATAS: Sem os prédios aquecidos para ajudá-las a sobreviver no inverno, desapareceriam das regiões temperadas.

PIOLHOS: Como esses insetos são particularmente adaptados aos seres humanos, nosso desaparecimento levaria à sua extinção.

PARA SABER MAIS
Plastics and the environment. Organizado por Anthony Andrady. John Wiley & Sons, 2003.

Twilight of the mammoths: ice age extinctions and the rewilding of America. Paul S. Martin. University of California Press, 2005.

Extinction: how life on Earth nearly ended 250 million years ago. Douglas H. Erwin. Princeton University Press, 2006.

A vingança de gaia. James Lovelock. Intrínseca, 2006.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

Maravilhas da Natureza

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Sérvios vão declarar independência de Kosovo?

Enquanto seis países iniciam as discussões diplomáticas sobre o destino de Kosovo, os enclaves sérvios na província separatista ameaçam mergulhar a região na guerra civil

Andrej Hadzi Milic parece um jovem Radovan Karadzic. É um líder de milícia que ameaça violência se Kosovo – a pátria sagrada dos sérvios – for desmembrado da Sérvia. Ele prometeu que nenhum albanês sobreviverá à sua “agência de desinfecção”. Os políticos albaneses de Kosovo ridicularizam a suposta milícia de Milic como um exército fantasma de valentões, mas membros preocupados da administração da ONU em Kosovo advertem que esses agitadores podem ser fantoches de membros radicais da polícia e dos militares sérvios.

A maioria dos albaneses étnicos de Kosovo quer a independência, o que o Parlamento da Sérvia votou contra na quarta-feira por uma maioria maciça (217 a 2), antes do reinício das negociações das grandes potências em Viena. A maior parte do “Grupo de Contato” de seis países -exceto a Rússia – também é a favor da independência. A complicação é que a pequena província pode estar pronta para a guerra civil.

O pára-brisa de um ônibus que faz a ligação entre duas seções hostis de Kosovska Mitrovica -u ma cidade na fronteira de Kosovo – está rachado pelas pedras atiradas pelas pessoas na rua. Grossas lonas cobrem as janelas laterais. O ônibus segue uma estrada através do rio Ibar, que divide a parte albanesa no sul de Mitrovica do norte dominado pela Sérvia. A cidade é um microcosmo da província. Sua área setentrional é na verdade território sérvio, com bandeiras sérvias enfeitando as ruas e centenas de cartazes de Vojislav Seselj, um líder radical sérvio acusado de crimes de guerra e atualmente preso em Haia.

Cerca de 20 mil sérvios vivem no norte da província, uma área que há muito tempo escapou ao controle da administração da ONU e da força da Otan em Kosovo (KFOR). O destino dos cerca de 1.500 a 2.000 albaneses que vivem no norte dominado pelos sérvios não é muito diferente do destino dos sérvios no sul albanês: eles vivem em guetos e estão aterrorizados com a perspectiva do futuro. As autoridades sérvias ameaçaram a separação do norte de Kosovo do resto da província se Kosovo conquistar a independência.

Nesse momento, os 60 mil a 100 mil sérvios que ainda vivem no sul de Kosovo embarcariam numa grande marcha para o norte. “Qualquer um que conseguir chegar poderá se considerar com sorte”, diz Samidin Xhezairi, um albanês que ficou conhecido como Comandante Hoxha entre os rebeldes da UÇK durante a guerra de Kosovo em 1999. Se o norte se separar, ele diz, pretende retomar a luta com a Sérvia. Na opinião de Xhezairi, a guerra não terminou: os dois lados estão apenas observando um cessar-fogo.

Discurso sem ação
Na semana passada Moscou rejeitou outra proposta de resolução da ONU que levaria uma independência monitorada internacionalmente à província conflituosa. O presidente russo, Vladimir Putin, cujo país detém o poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, deixou clara sua posição: será contrário a qualquer solução que não seja aceitável para o governo sérvio em Belgrado. Mas os sérvios deverão pagar um alto preço pelo apoio de seus irmãos eslavos em Moscou. Os negociadores russos já fizeram acordos com Belgrado que tornam a futura privatização das empresas estatais sérvias, especialmente no setor energético, uma perspectiva lucrativa para a Rússia.

Washington pretende ser igualmente teimosa. Reiterando promessas feitas durante uma recente viagem à Albânia, o presidente George W. Bush continua pressionando por uma rápida decisão sobre Kosovo. Na semana passada seu especialista em Europa, Nicholas Burns, o subsecretário de Assuntos Políticos e terceiro na linha de comando do Departamento de Estado, disse que os EUA “vão reconhecer Kosovo como um Estado independente até o fim do ano – com ou sem resolução da ONU”.

Com o entrave russo à resolução da ONU, os países ocidentais pretendem deixar o destino da província para o Grupo de Contato para Kosovo, formado por Alemanha, França, Grã-Bretanha, EUA, Itália e Rússia. Nesse fórum, a Rússia não tem veto. O plano prevê uma intensa negociação durante 120 dias entre sérvios e albaneses de Kosovo. Então uma conferência internacional poderá emitir uma decisão, que os sérvios e os albaneses de Kosovo serão obrigados a aceitar.

Outra opção que está sendo considerada é uma equipe de negociação formada por representantes da União Européia, EUA e Rússia, com o objetivo de aplicar intensa pressão sobre as partes adversárias em Kosovo.

Mas os albaneses de Kosovo estão ficando impacientes com as promessas da comunidade internacional, que parecem intermináveis. O primeiro-ministro Agim Çeku e o presidente Fatmir Sejdiu reuniram-se com a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, em Washington na segunda-feira e disseram estar preparados para declarar a independência unilateralmente se o processo de 120 dias não der em nada – em 28 de novembro, data da independência da Albânia. Mas a secretária Rice os convenceu a coordenarem-se primeiro com Washington. Ela quis “salientar o fato de que ninguém ganha tentando causar um curto-circuito no processo diplomático que está em curso”, segundo o porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormack.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

Maravilhas da Natureza

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Obesidade se espalha de pessoa para pessoa, revela estudo

Gina Kolata

Obesidade pode se disseminar de uma pessoa para outra, assim como um vírus, informaram pesquisadores na quarta-feira (25/07). Quando uma pessoa ganha peso, seus amigos próximos também tendem a ganhar peso.

O estudo, publicado no “New England Journal of Medicine”, envolveu uma análise detalhada de uma grande rede social de 12.067 pessoas que foram acompanhadas de perto por 32 anos, de 1971 até 2003. Os pesquisadores sabiam quem era amigo de quem, assim como quem era cônjuge, irmão ou vizinho, e sabiam quanto cada pessoa pesava em vários momentos ao longo de três décadas. Isto permitiu que examinassem o que aconteceu ao longo dos anos à medida que alguns indivíduos se tornavam obesos. Seus amigos também se tornaram obesos? Seus parentes ou vizinhos?

A resposta, relataram os pesquisadores, foi que as pessoas apresentavam uma maior probabilidade de se tornarem obesas quando um amigo se tornava obeso. Isto aumentava as chances de se tornar obeso em 57%.

Mas não houve efeito quando um vizinho ganhava ou perdia peso, assim como parentes tinham menos influência do que amigos.

Não importava se o amigo estivesse a centenas de quilômetros de distância, a influência permanecia. E a maior influência de todas era de amigos íntimos. Nestes casos, quando uma pessoa se torna obesa, a outra tinha um aumento de 171% na chance de também se tornar obesa.

O mesmo efeito pareceu ocorrer na perda de peso, disseram os pesquisadores. Mas como a maioria das pessoas ganhou peso, e não perdeu, ao longo dos 32 anos do estudo, o resultado foi uma obesidade epidêmica.

O dr. Nicholas Christakis, um médico e professor de sociologia médica da Escola de Medicina de Harvard e um dos principais pesquisadores do novo estudo, disse que uma explicação é o fato dos amigos afetarem a percepção de peso uns dos outros. Quando um amigo próximo se torna obeso, a obesidade pode não parecer tão ruim.

“Você muda sua idéia do que é um tipo de corpo aceitável olhando para as pessoas à sua volta”, disse Christakis.

Os pesquisadores disseram que os resultados da pesquisa podem ajudar a explicar por que os americanos se tornaram mais gordos nos últimos anos – cada pessoa que se torna obesa provavelmente arrasta alguns amigos consigo.

A análise deles é única, disse Christakis, porque vai além da simples análise de uma pessoa e seus contatos sociais, mas examinando toda uma rede social de uma só vez, olhando como os amigos do amigo do amigo de uma pessoa, ou os amigos do irmão do cônjuge, podem influenciar o peso de uma pessoa. Os efeitos, disse Christakis, acentuam a importância de um processo de disseminação, uma espécie de contágio social, que se espalha pela rede”.

É claro, disseram os pesquisadores, as redes sociais não são os únicos fatores que afetam o peso do corpo. Também há um forte componente genético atuando.

A ciência mostrou que os indivíduos possuem intervalos de peso determinados geneticamente, que variam em cerca de 14 quilos para cada pessoa. Mas isto deixa um grande papel para o ambiente na determinação sobre se o peso de uma pessoa ficará perto do topo de seu intervalo ou perto da base. Quando as pessoas engordam, parece que muitas se aproximam do topo de seus intervalos. A pergunta é o motivo.

Se a nova pesquisa estiver correta, pode significar que algo no meio semeou o que muitos chamam de obesidade epidêmica, levando algumas pessoas a ganharem peso. Então as redes sociais permitiram que a obesidade se disseminasse rapidamente.

Também pode significar que uma forma de evitar se tornar gordo é evitar ter amigos gordos.

Esta não é a mensagem que visam transmitir, disseram os pesquisadores do estudo, Christakis e seu colega, James Fowler, um professor associado de ciência política da Universidade da Califórnia em San Diego.

Você não quer perder um amigo que se torna obeso, disse Christakis. Amizades são boas para sua saúde em geral, ele explicou. Então, por que não fazer amizade com uma pessoa magra, ele sugere, e permitir que o comportamento da pessoa magra influencie você e seu amigo ou amiga obesos?

Tal resposta não satisfez pesquisadores de obesidade como Kelly Brownell, diretora do Centro Rudd para Política de Alimentos e Obesidade da Universidade de Yale.

“Eu acho que há um grande risco aqui de culpar pessoas obesas ainda mais por coisas que são causadas por um ambiente terrível”, disse Brownell.

Em média, disseram os pesquisadores, seus cálculos aproximados mostram que uma pessoa que se torna obesa ganhou 8 quilos, e que o amigo da pessoa recém obesa ganhou 2 quilos. Mas alguns ganharam menos ou não ganharam peso nenhum, enquanto outros ganharam muito mais.

Estes quilos adicionais se somaram a outros aumentos naturais de peso que ocorrem à medida que a pessoa envelhece. O que geralmente ocorreu foi que o peso das pessoas aumentou o suficiente para levá-las além da fronteira, um índice de massa corpórea de 30, que é o limiar entre excesso de peso e obesidade. (Por exemplo, um homem com 1,82m que passa de 99 quilos para 102 quilos passa de alguém com excesso de peso para obeso.)

Apesar de outros pesquisadores terem ficado surpreso com os resultados, Christakis disse que a maior surpresa para ele foi ter sido capaz de realizar o estudo. Ele teve a idéia a partir de uma conversa sobre epidemia de obesidade.

“Um dia eu disse: ‘Talvez seja realmente uma epidemia. Talvez passe de uma pessoa para outra’”, lembrou Christakis.

Foi apenas por acaso que ele se deu conta de uma forma de descobrir. Ele notou que os dados que precisava estavam contidos em um grande estudo federal sobre doença cardíaca, o Estudo Framingham, que acompanhou a população de Framingham, Massachusetts, por décadas, monitorando praticamente todos seus participantes.

Os dados do estudo incluíam o endereço dos participantes e os nomes de parentes. Para que os pesquisadores se certificassem de que não perderiam o rastro das pessoas, cada uma apontou o nome de um amigo que saberia seu paradeiro no momento do próximo exame, em aproximadamente quatro anos. Como participavam grande parte da cidade e a maioria dos parentes dos envolvidos, os dados continham tudo o que Christakis e seus colegas precisavam para reconstruir a rede social e acompanhá-la por 32 anos.

A pesquisa deles desconcertou especialistas em obesidade e cientistas sociais. Mas muitos disseram que a conclusão é pioneira e pode lançar nova luz em como e por que as pessoas engordaram tanto tão rapidamente.

“É uma forma extraordinariamente sutil e sofisticada de tratar de aspectos do ambiente que normalmente não são considerados”, disse o dr. Rudolph Leibel, um pesquisador de obesidade da Universidade de Colúmbia.

O dr. Richard Suzman, que dirige o departamento de programas de pesquisa comportamental e social do Instituto Nacional de Envelhecimento, o chamou de “um dos estudos mais empolgantes que surgiram na sociologia médica em décadas”. O instituto financiou o estudo.

Mas o dr. Stephen O’Rahilly, um pesquisador de obesidade da Universidade de Cambridge, disse que a singularidade dos dados de Framingham dificultará a replicação dos novos resultados. Nenhum outro estudo do qual tenha conhecimento inclui os mesmos tipos de dados detalhados e de longo prazo sobre interações sociais.

“Eu não quero parecer um velho rabugento, mas quando você se depara com coisas que parecem inerentemente um pouco implausíveis, você eleva o padrão das provas”, disse O’Rahilly. “Boa ciência envolve replicação, mas é difícil ver como a ciência replicará isto.”

“Nossa, o Estudo Framingham é mesmo único”, disse O’Rahilly.

Tradução: George El Khouri Andolfato

The New York Times
http://www.nytimes.com/

Demografia Explosiva

O Interesse israelense em manter uma sociedade baseada em padrões culturais judaicos – com eixo em uma maioria judaica permanente – implica abandonar as pretensões sobre o conjunto do território palestino e retirar-se a fronteiras essencialmente semelhantes aos limites anteriores à guerra de 1967”. A conclusão, de Sergio Della Pergola, o mais conhecido demógrafo israelense, parece reforçar a recente decisão do primeiro-ministro Ariel Sharon, de retirar suas tropas de forma unilateral da Faixa de Gaza.

Vamos aos números: em 2000, Gaza contava com cerca de 1,12 milhão de habitantes (dos quais, apenas seis mil colonos judeus), com Israel somando 6,3 milhões de habitantes, 5,1 milhões dos quais, judeus. De acordo com projeções moderadas, em 2050, Gaza teria 5,14 milhões de habitantes, praticamente todos árabes. A Cisjordânia, sob ocupação israelense, teria nessa hipótese 6,4 milhões de habitantes. Na soma, os palestinos seriam quase 11,5 milhões nos dois territórios, com Israel alojando 11,9 milhões de habitantes. Só que mais de três milhões de cidadãos israelenses seriam árabes não-judeus.

Mesmo com a saída de Gaza, então, o fenômeno demográfico coloca em xeque o projeto do Estado Judeu, uma vez que, sem um acordo definitivo de paz baseado na retirada (total ou parcial) israelense da Cisjordânia, na criação de um Estado palestino e numa solução negociada para Jerusalém, Israel teria que conviver com uma sólida minoria não-judaica em Israel.

O ponto central dessa bomba demográfica está na diferença entre as taxas de fertilidade das populações judaica e palestina na região. Entre 1995 e 2000, o número médio de filhos dos casais judeus israelenses girava em torno da metade daquele dos muçulmanos de Israel ou dos habitantes da Cisjordânia e de um terço daquele dos moradores da Faixa de Faza. Grosso modo, essas diferenças refletem as desigualdades de renda das famílias.

Além das diferenças atuais na taxa de fertilidade, a instabilidade política histórica provocou diversos solavancos migratórios que modificaram profundamente a estrutura demográfica regional. Em 1800, a população dos territórios que hoje formam Israel, a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém, somava apenas 275 mil habitantes. Eram 500 mil em 1890, dois milhões em 1947 e nove milhões em 2000. Só entre 1947 e 2000, a população regional cresceu 4,7 vezes. Há três fontes principais dos solavancos demográficos recentes. A Segunda Guerra Mundial (1939-45) provocou a imigração de centenas de milhares de judeus europeus, sobreviventes do massacre nazista, para o embrião do Estado Judeu na Palestina britânica. A independência de Israel, em 1948, acarretou a fuga ou expulsão de cerca de 700 mil árabes palestinos. A crise e implosão da União Soviética, no fim da década de 80, deflagrou a migração de cerca de um milhão de judeus e de quase 150 mil parentes não-judeus rumo a Israel. Entre 1948 e 2000, aportaram em território israelense cerca de 2,85 milhões de judeus de quase 200 países diferentes.

O quadro instável faz com que os estudiosos apresentem cenários muito diferentes para o futuro demográfico da região. A imigração de judeus para Israel reduziu-se abruptamente nos últimos anos. A continuidade da situação de guerra não-declarada entre Israel e os palestinos pode, por exemplo, reduzir as perspectivas de estabilidade econômica – que, em tese, leva a um maior desenvolvimento e à conseqüente redução das taxas de natalidade.

Essa tensão constante também tende a reforçar a pregação dos grupos fundamentalistas religiosos – muçulmanos e judeus – que coincidem em defender famílias grandes, como forma de enfrentar o “inimigo”. Note-se que, entre os judeus, as taxas de fertilidade em Jerusalém oscilam de 1,4 filho por casal, nas famílias não-religiosas, a 6,5 filhos, nas famílias fundamentalistas. Na mão oposta, um acordo definitivo de paz poderia levar à imigração para a região de centenas de milhares de palestinos e de judeus que vivem em outros países.

Assim, as previsões de Sergio Della Pergola para os números da população de Israel em 2050 oscilam entre 9,4 e 14,8 milhões de habitantes (média de 11,9 milhões), com uma população judaica variando de 7,3 a 10,4 milhões (média de 8,8 milhões). No caso dos palestinos da Cisjordânia, Gaza e Jerusalém, incluindo também os árabes de cidadania israelense, as previsões são muito mais elásticas: vão de seis a 21,7 milhões de habitantes, com média de 11,6 milhões.

Seja qual for o desdobramento do conflito na região, a demografia apresentará um desafio comum a todos: o crescimento da densidade populacional. Em 2000, Israel apresentava taxa de 293 habitantes por km2, diante de 335 hab./km2 na Cisjordânia e impressionantes 2.384 hab./km2 na Faixa de Gaza. A prevalecerem as previsões moderadas, essas taxas crescerão para 549 hab/km2 em Israel, 1.165 hab/km2 na Cisjordânia e assustadores 13.614 hab/km2 em Gaza. Pode-se imaginar o que isso representará em termos de necessidade de geração de empregos, provisão de alimentos e pressão sobre os recursos naturais escassos, como a água, com ou sem a paz.

Sergio Della Pergola conclui seu estudo Demografia em Israel/Palestina – Desafios, Perspectivas e Implicações Políticas com uma previsão inquietante. Ele avalia que, sejam ou não israelenses e palestinos capazes de alcançar uma paz definitiva, tudo indica que o componente explosivo da demografia levará todas as comunidades a reforçarem mais e mais suas características culturais e, possivelmente, religiosas. O que tornaria a integração ainda mais difícil.

Ao analisar o futuro de Israel, o pesquisador indica que a bomba demográfica sempre colocará a população judaica em desvantagem, fazendo com o que a sobrevivência do Estado, tal como é definido pelo sionismo, dependa não apenas de uma maioria de cidadãos judeus
mas também da convivência e do estabelecimento de direitos plenos para a minoria árabe. A idéia seria diferenciar de forma definitiva a cidadania israelense da origem judaica. Della Pergola coloca também o futuro do equilíbrio geopolítico da região na dependência de que um Estado Palestino seja capaz de garantir direitos semelhantes a uma eventual minoria judaica.

Boletim Mundo
http://www.clubemundo.com.br/

Maravilhas da Natureza

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Maravilhas da Natureza

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O mar mais sujo do mundo

O Mediterrâneo tem a maior concentração de hidrocarbonetos e resíduos plásticos de todos os mares do planeta. A maior parte da poluição que chega às águas procede de atividades realizadas em terra

Pablo Linde

Em Madri

O mar Mediterrâneo é o mais poluído do mundo, segundo vários relatórios feitos por organizações ecológicas nos últimos anos. Em suas águas é tão fácil ver resíduos plásticos quanto restos de hidrocarbonetos, procedentes principalmente de terra firme. As associações ecológicas alertam para os prejuízos dessa poluição, que pode ter repercussões na saúde humana. As áreas do Mediterrâneo com mais resíduos coincidem com os grandes portos. É o que ocorre na Espanha, por exemplo, nos de Algeciras e Barcelona. As complexas soluções para esse problema dependem de responsabilidades dispersas entre os governos de vários países.

Quem se banhar hoje em dia numa praia mediterrânea tem grande probabilidade de encontrar lixo na água. Na realidade poderia haver 33 unidades de resíduos por metro quadrado de água. É a média da sujeira nas costas espanholas, segundo um relatório sobre o estado dos mares do mundo publicado pelo Greenpeace. Além disso, há outra contaminação que não se vê: até 10 gramas de hidrocarbonetos por litro, segundo um estudo da Oceana. O mar Mediterrâneo é o mais sujo do mundo.

Dejetos ilegais, descuidos humanos, causas naturais e transporte maciço de mercadorias fazem com que quase tudo o que é vivo no “Mare Nostrum” corra perigo de se contaminar ou mesmo de desaparecer.

A bordo do navio Rainbow Warrior, os ativistas da organização Greenpeace estão percorrendo há dois meses esse mar e denunciando os riscos que ele sofre. O responsável pela campanha de oceanos da organização ecológica, Sebastián Losada, explica que basta olhar enquanto se navega para ver lixo. E se a pessoa mergulhar até o fundo poderia contemplar a maior quantidade de resíduos por quilômetro quadrado nos leitos oceânicos de todo o planeta: 1.935.

No último relatório do Greenpeace fala-se sobretudo nos danos causados pelos plásticos. Ele faz uma compilação bibliográfica de diversos estudos publicados nos últimos 15 anos. São heterogêneos e não é fácil tirar muitas conclusões. Mas uma está clara: o Mediterrâneo é o líder indiscutível em sujeira mundial.

Os plásticos são “o lixo mais comum e os responsáveis pela maior parte dos problemas que sofrem os animais e as aves marinhas”, afirma o documento. Representam 75% dos resíduos nas praias. Não é difícil tropeçar com algum deles ao nadar, segundo se deduz dos dados apresentados pelo Greenpeace. Estes revelam que há 33,2 unidades flutuando por metro quadrado; desde as minúsculas até sacolas ou garrafas maiores. Em alto mar, os grandes restos de plástico são mais raros, mas podem chegar a 35 unidades por quilômetro quadrado. As zonas mais sujas são Espanha, Itália e França.

Tão preocupantes quanto os resíduos sólidos são os líquidos. “Os dejetos rotineiros são muito mais perigosos que as grandes catástrofes”, afirma o diretor de projetos de pesquisa da Oceana, Ricardo Aguilar. A cada ano são despejados ilegalmente no Mediterrâneo 400 mil toneladas de hidrocarbonetos, segundo os estudos da organização.

As áreas mais contaminadas coincidem com os grandes portos. É o que ocorre na Espanha com os de Algeciras e Barcelona. Nos lugares mais críticos podem-se encontrar até 10 gramas dessas substâncias por litro de água. Segundo Aguilar, isso provoca o desaparecimento dos organismos delicados. Os mais resistentes são contaminados e podem ser muito prejudiciais ao ser humano. “Em algumas regiões dos EUA, as crianças e as mulheres grávidas estão sendo alertados para não consumirem determinadas espécies.”

Esse tipo de poluição tem várias explicações. No Mediterrâneo navegam 30% dos navios mercantis de todo o mundo e 20% dos petroleiros, o que representa 12 mil navios por ano. Deles vem parte da sujeira. Mas a UE afirma que a grande maioria (80%) procede de diversas atividades em terra firme.

As fontes de poluição mais diretas são os rios e os sistemas de drenagem pluvial, que transportam o lixo das zonas urbanas do interior e o despejam no mar. Além disso, ao redor do Mediterrâneo vivem cerca de 150 milhões de pessoas e chegam por ano 200 milhões de visitantes. O turismo litorâneo e as águas residuais são outras duas grandes fontes de poluição.

As soluções para os problemas são tão variadas quanto difíceis de implementar. Sebastián Losada, do Greenpeace, diz que vão desde “uma diminuição do consumo até um trabalho educativo e pedagógico adequado”.

A reforma da legislação que afeta esse assunto é outra grande batalha das associações ecológicas. A Oceana fez pressão durante anos para conseguir que sejam considerados criminosos os derramamentos de combustíveis nos mares. Mas isso não basta. Na opinião de Aguilar é necessário reforçar as medidas de controle dos navios que transitam pelo mar.

O problema, na opinião de Joandomènec Ros, catedrático de ecologia na Universidade de Barcelona, é que “ninguém quer saber que o peixe e o marisco que comemos têm poluentes, que tudo o que usamos em terra termina no mar e que a solução não está no final do processo, mas no início”.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

El País
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Biocombustíveis: Os Cinco Mitos da Transição dos Agro-combustíveis

Eric Holt-Giménez, Doutor, Diretor ExecutivoExecutive Director,
Food First/Institute for Food and Development Policy

Biocombustíveis. O termo invoca a imagem vital de renovação e abundância – uma garantia limpa, verde, sustentável em tecnologia e no poder do progresso. Essa imagem permite que a indústria, os políticos, o Banco Mundial, as Nações Unidas, e até mesmo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas apresentem os combustíveis feitos de milho, cana de açúcar, soja e outras plantas como sendo o próximo passo de uma transição sutil da economia do petróleo para uma economia renovável ainda a ser definida. Extraindo o seu poder de um simples feixe de mitos cornucópios de abundância, os “biocombustíveis” dirigem a nossa atenção para longe dos poderosos interesses econômicos que irão se beneficiar com essa transição. Evita discussões sobre o crescente desequilíbrio de alimentos e energia entre o Norte-Sul. Obscurece fundamentalmente as relações político–econômicas entre terra, povo, recursos e alimentos. Ao nos mostrar apenas um lado, os “biocombustíveis” não conseguem nos auxiliar a entender as profundas consequencias da transformação industrial do nosso sistema alimentar e de combustíveis. A Transição dos Agro-combustíveis

O rápido aumento dos Agro-combustíveis
Os países industrializados liberaram o “rápido aumento” dos agro-combustíveis através de um ambicioso plano de metas para os combustíveis renováveis. Os combustíveis renováveis devem suprir 5,75% de todo combustível de transporte na Europa até 2010, e 10 por cento até 2020. Os Estados Unidos esperam obter 35 milhões de galões ao ano. Essas metas excedem em muito a capacidade agrícola do Norte industrial. A Europa teria que usar 70% de suas terras agrícolas para combustíveis. Toda a colheita de soja e milho dos EUA teria que ser processada para o etanol e bio-dísel. Convertendo toda a sua terra arável para a produção de combustíveis iria causar um grande desastre no sistema alimentar do Norte. Portanto os países do OCED [Organização de Cooperação Econômica e Desenvolvimento] estão considerando o Sul global para atender as suas demandas de combustível. Os governos do Sul parecem estar ansiosamente disponíveis. A Indonésia e a Malásia estão expandindo rapidamente as suas plantações de óleo de palma para suprir até 20 por cento do mercado de bio-dísel da UE. No Brasil – onde a area ocupada por combustíveis já ocupa uma área de terra equivalente ao tamanho da Holanda, Bélgica, Luxemburgo e Reino Unido juntos – o governo está planejando um aumento cinco vezes maior na produção de cana de açúcar. A meta é repor 10 por cento da gasolina mundial até 2025.

A rápida capitalização e concentração de poder na indústria de agro-combustíveis é impressionante. Nos últimos três anos o capital especulativo aumentou oito vezes. O investimento privado tem atolado as instituições de pesquisa públicas, como foi evidenciado pelo recente prêmio de meio milhão de dólares concedido pela BP [British Petroleum] à Universidade da Califórnia. Nos bastidores – e debaixo do nariz das leis anti-trust –gigantes petroleiras, de grãos, automóveis e engenharia genética estão formando parcerias poderosas: ADM e Monsanto, Chevron e Volkswagen; BP, DuPont, e Toyota. Essas corporações estão consolidando a pesquisa, produção, processamento e cadeias de distribuição dos nosso alimentos e sistemas de combustível sob um teto industrial colossal.

Os campeões dos agro-combustíveis nos garantem que que as sementes usadas são renováveis, são ambientamental corretas, podem reduzir o aquecimento global e iraõ promover o desenvolvimento rural. Mas o tremendo poder de mercado das corporações de agro-combustíveis aliadas a uma vontade política fraca, por parte dos governos, para regulamentar as suas atividades, nos leva a duvidar des cenários felizes. Antes de nos atirarmos nessa onda, a bagagem mítica da transição dos agro-combustíveis deve ser aberta publicamente.

Mito n° 1: Agro-combustíveis são limpos e verde
Por que a fotosíntese das plantas usadas para combustível remove gazes do efeito estufa da atmosfera e pode reduzir o oconsumo de combustíveis fósseis, nos dizem que as plantas para a produção de combustível são verdes. Mas quando se leva em consideração o “ciclo de vida” completo dos agro-combustíveis – desde o desmatamento até o consumo automotivo – a moderada economia de emissões se desfaz em vista de mais emissões causadas pelo desmatamento, queimadas, drenagem de fossas, os cultivos e as perdas de carbono do solo.

Cada tonelada de óleo de palma produzida resulta em 33 toneladas de emissões de dióxido de carbono – -10 vezes mais que o petróleo. O desmatamento das florestas tropicais para produzir etanol através da cana de açúcar emite 50 por cento mais gazes do efeito estufa e usa a mesma quantidade de gasolina. Comentando sobre o equilibrio global de carbon, Doug Parr, cientista chefe do greenpeace no Reino Unido afirma categoricamente, que “Se mesmo cinco por cento dos bio-combustíveis são obtidos através da destruição de florestas ancestrais, você perdeu todo o seu ganho de carbono.”

Há outros problemas ambientais também. Os agro-combustíveis industriais requerem grandes aplicações de fertilizantes à base de petróleo, cujo consumo global – hoje em 45 milhões de toneladas/ano- aumentaram mais do que o dobro o nitrogênio biológico disponível no mundo, contribuindo pesadamente para as emissões de óxido nitrico, um gaz estufa – 300 vezes mais potente do que o CO². Nos trópicos – onde a maior parte dos agro-combustíveis muito em breve estarão sendo cultivados – os fertilizantes químicos têm 10-100 vezes mais impacto na aquecimento global do que nas aplicações em solos temperados. Para produzir um litro de etanol é necessário de três a cinco litros de agua para irrigação, produzindo até treze litros de água suja. O tratamento dessa água consome a energia equivalente a 113 litros de gás natural, aumentando as chances de que seja simplesmente despejada no ambiente poluindo córregos, rios e o lençól freático. O cultivo intensivo de plantas para a produção de combustível também causa altos indices de erosão, especialmente na produção de soja – de 6,5 ton/hectare nos EUA e até 12 ton/hectare no Brasil e na Argentina.

Mito n°2: Os agro-combustíveis não irão causar desmatamento
Os proponents dos agro-combustíveis argumentam que as plantas usadas na produção de combustível que são plantadas em terras degradadas ecológicamente irão melhorar e não piorar o meio ambiente. Talvez o governo do Brasil tivesse isso em mente quando re-classificou alguns dos 200 milhões de hectares de floresta tropical seca [serrado], pastos, e pântanos como “degradados” e aptos para cultivo. Na verdade, esses são ecosistemas bio-diversos da Mata Atlântica, Cerrado e Pantanal, ocupados por povos indígenas, pela agricultura de subsistência, e por grandes fazendas de gado. A introdução das plantações de agro-combustível irá simplesmente empurrar essas comunidades para as “fronteiras agrícolas” do Amazonas onde os padrões devastadores de desmatamento são bem conhecidos. A soja supre 40 por cento do bio-diesel do Brasil. A NASA já correlacionou positivamente o seu preço de Mercado com a destruição da floresta Amazônica – que atualmente esta ao redor de 325. 00 hectares ao ano. Chamado de “O diesel do Desmatamento”, as plantações do óleo de palma para o bio-diesel são a causa primordial de perda de floresta na Indonésia, um país com um dos maiores índices de desmatamento do mundo. Em 2020, as plantações de óleo de palma na Indonésia irão triplicar em tamanho para 16,5 milhões de hectares – uma área equivalente ao tamanho da Inglaterra e País de Gales juntos – resultando na perda de 98% de cobertura de floresta. A Malásia que é a maior produtora de óleo de palma do mundo, já perdeu 87% de suas florestas tropicais e continua desmatando num índice de sete por cento ao ano.

Mito n° 3; Os Agro-combustíveis irão gerar desenvolvimento rural
Nos trópicos, 100 hectares dedicados a agricultura familiar gera trinta e cinco empregos. O óleo de palma e a cana de açúcar criam 10 empregos, o eucalipto dois, e a soja apenas meio emprego por 100 hectares, todos mal remunerados. Até recentemente, os agrocombustíveis supriam primordialmente os mercados locais e regionais. Mesmo nos EUA, a maior parte das usinas de etanol eram relativamente pequenas, e controladas por agricultores. Com o rápido aumento dos agro-combustíveis as grandes indústrias estão rápidamente entrando nesse mercado, centralizando as operações e criando gigantescas economias de escala. As grandes indústrias de petróleo, de grãos e a indústria genética estão rapidamente consolidando o seu controle sobre toda cadeia de valor do agro-combustível. O poder de mercado dessas corporações é impressionante: a Cargill e a ADM controlam 65 por cento de todo o comércio global de grãos, a Monsanto e a Syngenta controlam um quarto dos $60 bilhões de dólares da indústria de tecnologia genética. Esse poder de mercado permite que essas companhias extraiam lucros do segmento mais lucrativo e de baixo risco da cadeia de valor;que são, os insumos, processamento e distribuição. Os produtores do agro-combustível irão se tornar cada vez mais dependentes de um grupo extremamente organizado de empresas para obter suas sementes, insumos, serviços, processamentos e vendas. E provávelmente não irão receber muitos benefícios. Certamente, os pequenos proprietários serão forçados a sair do mercado e serão expulsos da terra. Centenas e milhares já forma deslocados pelas plantações de soja na “República da Soja”, uma área de mais de 50 milhões de hectares no sul do Brasil, norte da Argentina, Paraguai e leste da Bolívia.

Mito n°4: Os agro-combustíveis não causarão fome
A fome, disse Amartya Sen, não resulta da excasses, mas da pobreza. Segundo a FAO, há alimento suficiente no mundo para alimentar o mundo todo com uma dieta de 3,200 calorias por dia, com frutas frescas, nozes, legumes, laticínio e carne. Entretanto, por que são pobres, 824 milhões de pessoas continuam passando fome. Em 2000, os líderes mundiais prometeram, até 2015, reduzir à metade a proporção de pessoas famintas vivendo abaixo da linha de pobreza no mundo. Pouco progresso foialcançado. As pessoas mais pobres do mundo atualmente gastam 50-80% de toda a renda familiar com alimentos. E eles sofrem quando os altos preços dos combustíveis causam o aumento dos preços dos alimentos. Hoje, por que os alimentos e as plantações de combustíveis estão competindo por terrra e recursos, os altos preços dos alimentos podem na verdade, vir forçar a alta dos preços dos combustíveis. Ambos fazem subir os preços da terra e água.

Essa espiral perversa e inflacinária coloca os alimentos e os recurso produtivos fora do alcance dos pobres. O instituto Internacional de Políticas de Alimentos estimou que o preço da cesta básica irá subir 20-33 por cento até o ano 2010 e 26-135 por cento até 2020. O consumo calórico tipicamente declina quando os preços sobem na razão de 1:2. A cada 1por cento de aumento no custo dos alimentos, 16 milhões de pessoas perdem a sua segurança alimentar. Se as atuais tendências continuarem, 1.2 bilhões de pessoas poderiam estar crônicamente famintos em 2025 – 600 milhões a mais do que havia sido previsto anteriormente. O apoio internacional com alimentos provávelmente não irá socorrer por que o nosso excedente irá para os tanques de combustível. Perversamente, o apoio com alimentos somente aumenta quando os preços dos alimentos estão baixos, não alto. Ao invés de converter terra para a produção de combustível, o que é urgentemente necessário são tranferências maciças de recursos para a produção de alimentos para os pobres rurais.

Mito n° 5: A segunda geração de “agro-combustíveis” aperfeiçoados já está a caminho
Os proponents dos agro-combustíveis gostam de assegurar os céticos do “alimento versus combustível” afirmando que os atuais agro-combustíveis feitos de plantas serão muito em breve substituídos com plantas ecológicamente adaptadas como árvores de crescimento rápido e grama perene [switch-grass]. Esse mito, irônicamente citado como o jogo de “isca e a grama perene” [bait and switch-grassa] juda a tornar a primeira geração de agro-combustíveis socialmente aceitáveis.

A transição do agro-combustível transforma o uso da terra em escala maciça, jogando a produção de alimentos contra a produção de combustível, agua e recursos por terra. É irrelevante perguntar quais plantas devem ser convertidas em combustível. Plantas selvagens cultivadas para a produção de combustível não terão nenhum “impacto no meio-ambiente” por que a comercialização irá transformar a sua ecologia. Elas irão migrar rápidamente das cercas e pequenos bosques para as terras agrícolas para serem cultivadas intensivamente como qualquer outra produção agrícola industrial – com todas as externalidades ambientais associadas.

Usando plantas genéticamente modificadas com menos linina e cellulose, a industry planeja produzir plantas para o agro combustível que são fácilmente quebradas liberando açúcares, principalmente as árvores de rápido crescimento. As árvores são perenes e espalham polem muito além das sementes de plantas alimentícias. As candidatas celulósicas miscanthus, grama perene e grama canária são species invasivas. Dada a promiscuidade demonstrada das plantas genéticamente modificadas, podemos esperar contaminações genéticas maciças. Isso vai deixar a Monsanto e a Syngenta muito satisfeitas. Os agro-combustíveis vão servir como o seu Cavalo de Tróia genético, lhes permitindo colonizar completamente o nosso sistema de combustíveis e alimentos.

Qualquer tecnologia com potencial para evitar os piores impactos do aquecimento global deve ser comercialmente viável em escala global nos próximos 5-8 anos. É altamente improvável com o etanol celulósico, um produto que até agora não demonstrou nenhuma economia de carbono. Torná-lo um produto verde e viável não é apenas uma questão de mudar a escala da tecnologia existente, mas sim de avanços significativos em fisiologia das plantas que permita a quebra economicamente eficiente da celulose, hemi-celulose e a linina. A indústria dos agro-combustíveis ou está apostanto em milagres ou contanto com o apoio do dinheiro dos nossos impostos. A fé na ciência não é ciência. A fé seletiva na segunda geração de combustíveis – ao invés de trabalhar para melhorar as atuais tecnologias solares, vento ou de conservação –tende a favor dos que fazem a maior aposta.

O Gêmeo está Morto , Vida Longa ao Gêmeo
A Agência Internacional de Energia estima que nos próximos 23 anos, o mundo poderia produzir até 147 milhões de toneladas de agro-combustíveis. Isso será acompanhado por muito carbono, óxido nítrico, erosão e mais de 2 bilhões de toneladas de água poluída. Notávelmente, esse combustível irá apenas compensar o aumento anual da demanda por petróleo, que hoje está em 136 milhões de toneladas ao ano – sem nenhuma compesação alguma da demanda existente. Vale a pena?

A transição do agro-combustível encerra um capítulo de 200 anos na relação entre a gricultura e a indústria que se iniciou durante a Revolução Industrial. Naquele momento, a invenção da máquina a vapor prometia o fim da labuta. Entretanto, a decolagem da indústria foi retardada até que o governo privatizasse as areas comuns, expulsando os camponeses mais pobres da agricultura para as fábricas urbanas. A agricultura camponesa efetivamente subisidiou a indústria com alimento e força de trabalho baratos. Nos 100 anos seguintes enquanto a indústria crescia, também cresceu a porcentagem urbana da população mundial: de 3% para 13%. O petróleo e os fertilizantes a base de petróleo baratos abriram a agricultura para o capital industrial. A mecanização intensificou a produção, mantendo os preços dos alimentos baixos e a indústria crescendo rápidamente. Os próximos cem anos testemunharam uma mudança global para a vida urbana. Hoje o mundo tem o mesmo número de pessoas vivendo nas cidades e no campo. A transferência maciça de riquezas da agricultura para a indústria, a industrialização da agricultura, e a mudança rural-urbano são todos parte da “Transição Agrária’, o irmão gêmeo menos conhecido da Revolução Industrial. Os gêmeos Agrário/Industrial transformaram a maior parte do combustível do mundo e sistemas alimentares e estabeleceram o petróleo não renovável como a base do atual complexo multi-trilhonário em dólares, dos agro-alimentos.

Os pilares da indústria dos agro-alimentos são as grandes corporações de grãos, como a, ADM, Cargill e Bunge. Elas estão cercadas por uma falange igualmente formidável de processadores de alimentos, distribuidores, e redes de supermercados por um lado e do outro as empresas agro-químicas, de sementes e maquinário. Juntas, essas indústrias consomem quatro de cada cinco dólar alimento. Por algum tempo, o lado da produção do complexo dos agro-alimentos sofre uma “involução” agrícola na qual porcentagens crescentes de investimento (insumos químicos, engenharia genética e maquinário) não aumentaram a porcentagem da produtividade agrícola – o complexo dos agro-alimentos esta pagando mais e colhendo menos.

Os agro-combustíveis são a resposta perfeita para involução por que são subsidiados, crescem enquanto o petróleo diminui, e facilitam a concentração do poder de mercado em mãos dos mais poderosos jogadores das indústrias de alimentos e combustível. Como a Transição Agrária original, a atual Transição dos Agro-Combustíveis irá “cercar as areas comuns” [commons] ao industrializar as florestas e prados remanecentes do mundo. Irá levar os pequenos produstores, agricultores familiars, e povos indígenas para as cidades. Irá afunilar aos recursos rurais para os centros urbanos na forma de combustível, e irá gerar quantidades maciças de riqueza industrial.

Infelizmente a transição dos agro-combustíveis sofre de um defeito congênito: o seu gêmeo fraternal está morto. Não há uma nova revoluçãoo Industrial. Nenhum setor industrial em expansão espera para receber as comunidades indígenas deslocadas, pequenos produtores e trabalhadores rurais. Não há avanços de produção equilibradas para inundar o mundo com alimentos baratos. Dessa vez, o combustível não vai subisidiar a agricultura com energia barata. Ao contrário, o combustível irá competir com os alimentos pelo acesso a terra, água e recursos. Os agro-combustíveis geram um colapso na ligação entre alimento e combustível. Levado ao extremo, o agro-combustível será usado para plantar agro-combustíveis – uma proposição termodinâmica patética. A entropia inerente da agricultura industrial era invisível enquanto o petróleo era abundante. Hoje, os sistemas de alimento e combustível devem passar da poupança para conta corrente para a poupança. Os agro-combustíveis nos levam a usar o “cheque especial”. “Renovável” não quer dizer “ sem limite”. Mesmo podendo replantar a terra, a terra, água e nutrientes são limitantes. Fingir que isso não é verdade serve os interesses dos que monopolizam os recursos.

O apelo dos agro-combustíveis reside no seu potencial de prolongar a economia do petróleo. Com uma estimativa de reserva de apenas um trilhão de barris de petróleo no planeta, o barril de petróleo a $100 dólares não está muito longe. Quanto mais alto os preços do petróleo, mais o custo do etanol pode subir para se manter competitivo. Aqui reside a contradição para a segunda geração de agro-combustíveis: quando o petróleo se torna mais caro, a primeira geração de agro-combustíveis se torna mais lucrativa, desistimulando o desenvolvimento de uma segunda-geração de combustíveis. Se o petróleo chegar a $80 dólares o barril,, os produtores de etanol poderiam pagar mais de 45 dólares pelo alqueire (~127 kg.) de milho, tornando-o justamente com a cana de açucar também. mais competitivo. A crise de energia do planeta é potencialmente uma bonanza de $80—100 trilhões de dólares para as corporações de alimento e combustível. Não é pra menos que estamos sendo convidados a consumir enquanto encontramos soluções para o super-consumismo.

Limites – não incentivos – devem ser estabelecidos para a indústria de agro-combustíveis. É inconsciente para o Norte a tranferir o problema do super-consumismo para o Sul Global simplesmente por que os trópicos tem mais luz solar, chuva e terra arável. Se os agrocombustíveis vão auxiliar na manutenção das florestas e na produção de alimentos, claramente a indústria de grãos, cana de açúcar, e óleo de palma tem que ser regulamentadas, e não de maneira branda. Medidas fortes e passíveis de serem cumpridas, baseadas no controle da área a ser plantada com agro-combustíveis, são urgentemente necessários, assim como leis poderosas anti-trust para prevenir a concentração corporativa do poder de mercado na indústria. Benefícios sustentáveis para campo irão apenas aumentar se os agro-combustíveis forem um complemento para planos territoriais de um desenvolvimento rural sustentável, não a sua peça sentral.

Construindo Soberania Alimentar e de Combustível
A transição dos Agro-combustíveis não é inevitável. Não há razão para sacrificar a possibilidade de sistemas de alimento e combustível sustentáveis e equitativos para uma estratégia industrial que compromete ambos. Muitas alternativas bem sucedidas, locais, energéticamente eficientes e centradas nas pessoas estão atualmente produzindo alimentos e combustível de maneira a não ameaçar o sistema de alimentos, o meio-ambiente e a subsistência. A questão não é se o etanol e o bio-disel por si têm uma função no nosso futuro, mas sim se devemos ou não permitir que uma meia duzia de corporações determinem o nosso futuro nos levando por caminho sem saída durante a transição dos agro-combustíveis. Para evitar essa armadilha temos que abandonar o mito da cornucópia como legado da idade do petróleo abundante. Temos que ousar imaginar uma transição agrária diferente, constante construída com base na reforma agrária redistributiva que repovoa e estabiliza as comunidades rurais em dificuldades do mundo. Temos que reconstruir e fortalecer nossos sistemas locais, e garantir o reinvestimento da riqueza rural local. Colocar o ser humano e o meio-ambiente – ao invés dos mega-lucros corporativos – no centro do desenvolvimento rural requer soberania alimentar: o direito dos povos de determinarem os seus próprios sistemas alimentares.

No Norte Industrila e no Sull Global, centenas de milhares de produtores e consumidores estão ativamente se organizando pelo direito a um alimento saudável e culturalmente adequado produzido através de métodos ecológicamente corretos e sustentáveis. Eles estão também reconstruindo a arquitetura de sistemas alimentares locais para garantir que a maior parte da riqueza e dos benefícios cresça localmente – não nos distantes cofres corporativos das gigantes dos agro-alimentos. Eles estão responsabilizando as corporações do agro-alimento pelas externalidades que a sua indústria impõe aos contribuintes sob a forma de fome, destruição ambiental e má saúde causada por alimentos processados de baixa qualidade. Os movimentos sociais pela reforma agrária, direitos indígenas, agricultura sustentável de agricultor para agricultor, comércio ético, feiras dos agricultores, agricultura apoiada pela comunidade, hortas nas periferias e o desenvolvimento de sistemas alimentares nos bairros, são alguns exemplos do esforços amplos e multi-facetados por soberania alimentar. Organizações como a Via Campesina Internacional, o movimento sem terra no Brasil (MST), a Federação das Cooperativas dos Agricultores Afro-Americanos, e a Coalisão de Comunidades por Segurança Alimentar, estão transformando a vontade social desses movimentos rurais e urbanos em vontade política – uma fórmula para mudança social.

Os movimentos por Soberania Alimentar já estão preparando para o rápido crescimento dos agro-combustíveis. Quando o presidente dos EUA George Bush chegou no Brasil para estabelecer uma parcenria do etanol com Lula, 700 mulheres da Via campesina em protesto o receberam ocupando a refinaria de milho da Cargill em São Paulo. Mas descarrilhar a jamanta dos agro-combustíveis implica em uma mudança na Transição dos Agro-combustíveis de uma transição agrária que favorece a industria para uma que na verdade favoreça as comunidades rurais – uma transição que não drena riquezas do campo, mas que coloca os recursos nas mãos da população rural. Esse é um projeto de longo alcance. Seria bom se o próximo passo fosse o lançamento de uma moratória global, pró-ativa na expansão dos agro-combustíveis. É necessário tempo e debate público para assessar os potenciais impactos dos agro-combustíveis, e para desenvolver estruturas regulatórias, programas e incentivos para a conservação e alternativas de desenvolvimento de alimentos e combustíveis. Precisamos tempo para forjar uma transição melhor – uma transição agrária para soberania alimentar e de combustíveis.

Brasil é campeão em imposto na conta de luz

Por conta de contribuições ‘escondidas’, brasileiro paga 43,7% de tributos na conta. A boa notícia é que Aneel começa a revisar para baixo o valor do serviço.

O Brasil é campeão mundial em uma categoria nada honrosa: cobrança de impostos e encargos na conta de luz. O consumidor pode não saber para onde vai o dinheiro, mas sente no bolso: do valor total da conta, 43,7% são encargos, tributos e impostos, afirma o Instituto Acende Brasil, com base em dados da consultoria Pricewaterhouse Coopers.

Ou seja: de cada R$ 100 na conta do consumidor, R$ 43,7 vão direto para os cofres públicos. O consumidor paga uma série de encargos que a fatura não mostra – alguns deles, segundo Cláudio Sales, presidente do Instituto, sem nenhuma necessidade.

Uma dessas contribuições vencidas pelo tempo é a Reserva Global de Reversão. Criada para cobrir gastos da União com indenizações caso uma concessão tivesse que ser revogada, o tributo hoje financia políticas públicas da Eletrobrás. “(O governo) não precisa mais dessa verba”, defende Sales.

Outra taxa, a TFSEE, foi criada para cobrir os custos de funcionamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Entre outros encargos, também está embutida a Conta de Consumo de Combustível (CCC). Cobrada em todas as contas, a CCC foi instituída para subsidiar a energia consumida na Região Norte do país, onde o custo é mais alto por causa das usinas que funcionam a combustível fóssil, como carvão.

Esses e outros encargos se escondem no que, na conta, aparece como tarifa de consumo. Ou seja, no valor por killowatt-hora (KWh).

ICMS

Em cima de tudo isso, vem a maior mordida: o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que no estado de São Paulo é de 25%. Como os encargos estão incluídos no consumo, o ICMS incide sobre eles. O imposto recai também sobre outros tributos esses expressos na conta: PIS/Pasep (que financia o seguro-desemprego e abono para quem recebe até dois salários mínimos) e Cofins (contribuição para a seguridade social).

Com isso, a incidência real do imposto é superior aos 25%. “O ICMS na verdade é de 33%”, afirma Marcos Pó, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). “É uma cobrança muito exagerada”.

Revisão tarifária

A boa notícia é que as contas de luz tendem a diminuir de valor. Isso porque, a cada cerca de quatro anos, a Aneel promove uma revisão tarifária no valor cobrado pelas distribuidoras de energia elétrica aos consumidores. Essa revisão, prevista nos contratos de concessão, é feita para repassar ao consumidor os ganhos de eficiência das empresas.

“A Aneel olha todas as despesas que a distribuidora tem, avalia a eficiência e determina um repasse para os consumidores. Nas regiões metropolitanas, onde não é preciso atender a área rural, o ganho de eficiência geralmente é maior”, explica Marcos Pó.

O resultado é a redução no valor da conta. Em São Paulo, os consumidores residenciais poderão sentir essa queda já no próximo mês. A tarifa no estado pode ficar até 11% mais barata para as residências atendidas pela Eletropaulo, segundo cálculo da Aneel. Já os números da Eletropaulo sugerem queda menor, de 8%.Ainda este ano, a Aneel fará a revisão de tarifária de outras

Foto: Editoria de Arte

Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), apenas a Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), que fornece luz para os consumidores da capital Macapá, tem um quilowatt hora com valores inferiores ao praticado pela Eletropaulo, em São Paulo.

Com a queda de 12,66% para os consumidores de baixa tensão nos 24 municípios de São Paulo, incluindo a capital paulista, o custo do KWh da Eletropaulo caiu de R$ 0,28172 para R$ 0,24606. Em Macapá, é cobrado R$ 0,20841.

No entanto, segundo Alexandre Pedroza Monteiro Lopes, técnico da Superintendência de Regulação Econômica da Aneel, a Companhia de Eletricidade do Amapá não pode fazer reajustes, pois está inadimplente com o poder público.

“No caso do Amapá, a concessionária está inadimplente já há alguns anos e, quando a concessionária fica inadimplente, ela não tem direito ao reajuste tarifário. É por isso que ela está com essa tarifa defasada”, disse Pedroza, em entrevista ao G1.

Luz mais cara

Os consumidores de Campo Grande (MS) pagam a tarifa mais elevada entre as capitais estaduais e o Distrito Federal. O valor cobrado pela Empresa Energética de Mato Grosso do Sul (Unersul) pelo KWh na capital sul-mato-grossense é de R$ 0,43364.

Em Belo Horizonte (MG) e Palmas (TO), o quilowatt hora também supera os R$ 0,40. Na capital mineira, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) cobra R$ 0,43315. Em Palmas, a tarifa da Companhia de Energia Elétrica do Tocantins (Celtins) é R$ 0,42854.

Segundo Pedroza, a tarifa em Mato Grosso do Sul é a mais cara do país devido às “diferenças no custo de distribuição de energia”. “Em São Paulo, você tem uma carga muito concentrada de consumidores. Já em Mato Grosso do Sul, a carga é dispersa.”

Até 1993, não havia diferenciação tarifária no país, ou seja, os consumidores de uma mesma classe tarifária (por exemplo, a residencial) pagavam a mesma tarifa. No entanto, segundo a Aneel, havia uma espécie de “câmara de compensação”.

“Até 1993, todos os estados tinham uma mesma tarifa. Mas, como as concessionárias tinham custos diferentes de operação, aquelas que davam lucro repassavam parte desse lucro para cobrir o prejuízo das outras concessionárias”, disse Pedroza.

Impostos

Além do custo pelos quilowatts hora utilizados, a conta de luz tem a incidência de ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), tributo que variam de estado para estado, do PIS/Pasep e do Cofins, cobrados pelo governo federal sobre a receita bruta das empresas.

Por exemplo, um consumidor residencial normal em Palmas (TO), em que o custo do KWh é de R$ 0,42854, pagaria R$ 62,21 se gastasse 100 KWh no mês, segundo simulação da Celtins. O valor corresponderia a R$ 42,85 (consumo), R$ 15,55 (ICMS), R$ 0,68 (PIS/Pasep) e R$ 3,13 (Cofins).

Outra simulação feita para o G1 pela Saelpa, da Paraíba, para os consumidores da capital João Pessoa. O custo do KWh é de R$ 0,35179, mas um consumidor que gastasse 100 KWh em um mês, gastaria, segundo a Saelpa, R$ 45,38, incluindo o ICMS, PIS e Cofins.

Em Boa Vista (RR), onde o KWh custa R$ 0,30101, o consumidor pagaria, contando os impostos, R$ 38,47 se utilizasse 100 KWh no mês. Já em Cuiabá (MT), considerando um gasto de 200 KWh no mês, o consumidor residencial normal pagaria R$ 91,52, segundo a Cemat.

Além do ICMS, PIS e Cofins, segundo a Aneel, os consumidores pagam na conta de luz a Taxa de Iluminação Pública (TIP), que é de competência estadual, e o Encargo de Capacidade Emergencial (ECE), que foi instituído com o objetivo de evitar eventual risco de desabastecimento de energia.

Setor de Comunicação
Movimento dos Atingidos por Barragens
fone/fax: (61) 3386-1938
www.mabnacional.org.br

AS DUAS FACES DOS ESTADOS UNIDOS E A MANIPULAÇAO DAS CONSCIENCIAS

Miguel Urbano Rodrigues

Tenho uma amiga que me ajuda a compreender a época caótica em que vivemos. É casada com um grande médico. Ele é marxista, revolucionário. Ela adopta uma posição progressista perante os grandes problemas da humanidade. Vão festejar em breve as bodas de ouro; após quase meio século continuam a amar-se.

O 25 de Abril abriu para ela um tempo de felicidade. Foi inicialmente uma activista empenhada. Participou em jornadas de solidariedade com a Reforma Agrária, ia aos grandes comícios e não perdia um discurso de Álvaro Cunhal e Vasco Gonçalves.
A partir de 76, à medida que a contra-revolução avançava, distanciou se, amargurada. Mas continuou a acompanhar com interesse a evolução da História em Portugal e no Mundo. Lê jornais ditos de referência e vê diariamente os noticiários da televisão, mesas redondas e entrevistas com figuras públicas.
Não discute temas políticos com o marido. Comigo sim. Todas as semanas procedemos ao inventário de acontecimentos importantes. Para discordarmos quase sempre.
A grande ajuda que ela me presta é inseparável de um paradoxo. Sendo uma pessoa progressista, inteligente,generosa, sensível, com uma concepção ética da vida, é profundamente influenciada pelas mensagens mediáticas difundidas por um sistema cujo projecto de sociedade é incompatível com o seu.
Ao escutá-la apercebo-me das enormes dificuldades que nós, comunistas, enfrentamos no combate para mudar a vida num contexto social em que a grande maioria dos que identificam os males do capitalismo e desejariam viver noutro mundo são diariamente contaminados pelas mensagens do inimigo, e não estão preparados para as descodificar e rejeitar.

A MANIPULAÇAO DAS CONSCIÊNCIAS

Reescrever a historia, falsificando-a de acordo com os interesses do imperialismo, tornou-se uma necessidade estratégica dos actuais senhores do mundo. Teses tão absurdas como a do «Fim da Historia», do americano Francis Fukuyama ( ex funcionário do Departamento de Estado ) inserem-se nas campanhas que pretendem apresentar o neoliberalismo como a ideologia ideal e definitiva.
Jean Salem, no seu importante livro Lenine et la Revolution (v .odiario.info ,08.07.2007) desmonta com lucidez a politica de satanizaçao do socialismo e o seu requinte de perversidade .Esse discurso promove a alienação progressiva de milhões de pessoas e atinge em grande parte o seu objectivo. Salem conta, por exemplo, que somente 20% dos jovens franceses que responderam a uma sondagem sabia que a União Soviética desempenhou um papel decisivo na derrota do Reich nazi. Noutra sondagem , 50% admitiam que a URSS havia sido aliada de Hitler na segunda guerra mundial . Um escritor , também francês, ouviu de uma amiga russa que na escola onde o filho estudava um professor dizia nas aulas que a batalha de Estalinegrado havia sido ganha pelos EUA. Perante a objecção de um dos garotos, afirmou que fora o bombardeamento da cidade pela Força Aérea norte-americana que destruíra o VI Exercito alemão de Von Paulus. A mentira fez estragos porque nem um só dos meninos tinha a noção de que a aviação de combate dos EUA nunca interveio na Frente Oriental.
O apagamento da memória histórica é um objectivo prioritário nas campanhas de diabolizaçao do comunismo e de glorificação do heroísmo das forças armadas dos EUA, supostas vencedoras da última guerra mundial.
Pergunto:
Quantos portugueses sabem que nos combates para a reconquista da ilha de Guadalcanal, apresentada como epopeia quase mítica, apenas participaram 10 000 soldados estadunidenses?
Muito poucos.
Quantos sabem que em 1943, na Batalha de Kursk, que quebrou a coluna vertebral da Wehrmacht, intervieram quase dois milhões de soviéticos enfrentando outros tantos alemães?
Muito poucos?
Quantos sabem que o numero de divisões alemãs que em Março de 45 se opunham aos anglo-americanos na Frente Ocidental era oito vezes inferior ao das que combatiam os soviéticos na Frente Oriental?
Muito poucos?
Quantos sabem que na Batalha da Normandia, em 1944, o numero de mortos ingleses e canadianos foi muito superior ao das perdas do exercito norte -americano que, nos filmes de Hollywood, aparece como o vencedor da grande choque?
Muito poucos.
Quantos sabem que nos anos 30 o exercito vermelho infligiu uma derrota esmagadora aos japoneses na Batalha do Kalkin Gol, expulsando-os da Mongólia?
Muito poucos.
Quantos sabem que em menos de uma semana de combates o exército vermelho, na sua ofensiva no Extremo Oriente, nas vésperas do bombardeamento de Hiroshima, matou e aprisionou mais militares japoneses do que as forças armadas dos EUA em quatro anos de guerra ?
Muito poucos.
Cito apenas meia dúzia de exemplos para ilustrar o apagamento da historia ou a sua deturpação no âmbito de campanhas que promovem a alienação e visam a impor a ideia de que da Revolução de Outubro de 17 somente resultaram males para a Humanidade, enquanto o balanço do capitalismo seria altamente positivo para o progresso e a democracia.
Essas mensagens não merecem credibilidade. São falsas. Visam a difundir uma historia imaginária e ,através da manipulação das consciências, a robotizar aqueles que as absorvem.
A ideia de que os Estados Unidos, não obstante a agressividade deste ou daquele Presidente e de erros e crimes cometidos em guerras absurdas, são uma sociedade profundamente democrática, continua, porem, a ser compartilhada por uma grande parte da humanidade.
A amiga progressista e inteligente que me ajuda a fincar os pés na terra para tentar compreender o presente é um exemplo expressivo dos efeitos devastadores da manipulação das consciências.
Recebe uma massa enorme de informações contraditórias que a perturbam e desinformam e provocam nela uma reflexão cujo efeito é a incompreensão da historia, ou mais exactamente, a incapacidade de desmontar a mensagem ideológica de um sistema de exploração que desaprova.
Um dia, depois de assistir a um programa de televisão que evidenciava a integridade de um juiz dos EUA que enfrentou uma gigantesca transnacional e o governador do Estado em defesa de uma causa justa, comentou:«Eles têm coisas muito boas. A Justiça ,por exemplo». Lembrei-lhe que um tribunal da Florida condenou a séculos de prisão cinco patriotas cubanos cujo «crime» fora investigar as actividades da máfia terrorista de Miami que ali conspira contra o regime de Havana. Contei-lhe que presos políticos porto-riquenhos, alguns tratados como animais, cumprem também penas de séculos de prisão por lutarem pela independência do seu pais.
Abanou a cabeça, alegando que se tratava de excepções.
Noutra oportunidade, ao tomar conhecimento de crimes da CIA descodificados após 30 anos, desabafou : « Eles têm a coragem de reconhecer os seus erros ,o que não acontece noutros países. E não esqueças Abu Ghrabi. Praticaram ali a tortura, mas os militares implicados nessas monstruosidade estão a ser julgados e a imprensa é a primeira a trazer a publico o que se passou e a condenar em editoriais os abusos cometidos. A Constituição é democrática e as instituições funcionam.»
Eu rebati, uma por uma essas afirmações. Ela sorria, incrédula.
As reportagens sobre a garotinha inglesa sequestrada no Algarve comoveram-na, assim como o movimento de solidariedade com os pais.
Quando argumentei que os media dedicavam horas ao assunto e o noticiário sobre civis assassinados pela tropa americana no Iraque e no Afeganistão e pelos israelenses na Palestina ocupava escassos minutos por semana esbarrei com uma muralha de incompreensão.
Perguntei-lhe se tinha acompanhado os massacres do Ruanda ,tornados possíveis pela cumplicidade da França e dos EUA. Respondeu que não, e insistiu na minha insensibilidade perante o drama dos pais da criancinha inglesa.
Tentei sem êxito, incontáveis vezes, iluminar os mecanismos de um sistema de fachada democrática ,como o dos EUA, onde instituições cientificas investem milhões de dólares na defesa de um macaco ou um urso ameaçados de extinção, mas onde o Congresso aprova leis como o Patriotic Act que viola direitos e liberdades constitucionais e abre a porta a perseguições racistas a milhões de cidadãos muçulmanos e a imigrantes de dezenas de países do Terceiro Mundo.
Não sabia também que a US Army instalou um parque de blindados sobre uma área arqueológica ao lado das ruínas da Babilónia e que a maior base aérea norte- americana no Afeganistão, Begram, funciona sobre o lugar onde, soterradas, se localizam as ruínas de Kapisa, a antiga capital do Reino Kuchano, criador de uma grande civilização desaparecida.
Desmontar a engrenagem da falsa democracia portuguesa é igualmente difícil para ela. O discurso de personalidades mediáticas que criticam o funcionamento do sistema no acessório ,mas se abstêm de pôr em causa o capitalismo, impressiona-a, sobretudo quando assumem posições éticas na denuncia da corrupção ou de escândalos públicos.
Compreendo a perplexidade da minha amiga. A hegemonia exercida pelo Poder sobre a comunicação social manifesta-se em Portugal, como noutros países da União Europeia, de maneiras muito diferentes, por vezes subtis.
O silêncio dos governantes perante o branqueamento do fascismo é uma delas.
Com frequência intelectuais que se apresentam como distanciados do governo e até como adversários escrevem artigos, publicam livros ou dão entrevistas que se inserem em campanhas para reescrever a historia. Em programas de televisão –e até em teses académicas – intelectuais supostamente democratas sustentam, por exemplo, que Salazar foi um governante autoritário, mas que o regime por ele instaurado não pode ser definido como fascista. O centenário do nascimento de Marcelo Caetano foi comemorado como grande acontecimento nacional. Dedicaram-lhe suplementos especiais, livros, longos programas televisivos. Objectivo da celebração da data: projectar a imagem de um estadista de altíssimo nível, um patriota português, cidadão integro, incompreendido , que pretendia estabelecer a democracia no Pais ao assumir o Poder.
Outra frente do combate da grande burguesia para manipular as consciências é a sua atitude perante ex-comunistas que foram expulsos do PCP ou dele se afastaram. De um dia para outro esses cidadãos passam a ser tema de absorvente interesse para os media. São promovidos a revolucionários exemplares que se bateram corajosamente para renovar o partido e democratizá-lo . Alguns acabam por aderir a outros partidos que antes combatiam, são nomeados ministros, publicam livros e transformam-se em anticomunistas inflamados. São então acarinhados pelo mundo do grande capital ( gente como Zita Seabra, Veiga de Oliveira, Pina Moura, José Magalhães, Vital Moreira, Carlos Luís Figueira, Raimundo Narciso,etc ).

O FENÔMENO BUSH

Qualquer cidadão sensato acabou na Europa por formar uma péssima ideia do Presidente Bush. Mesmo nos EUA o seu índice de popularidade caiu para um nível inferior ao que tinha Richard Nixon em vésperas de ser forçado a renunciar.
Mas a desaprovação da sua estratégia de guerras «preventivas» e a pressão popular para que traga de volta o exercito de 157 000 homens que ocupa o Iraque não impedem que esse homem primário, ignorante e profundamente reaccionário conserve um imenso poder que utiliza contra a humanidade.
Já neste ano forçou o Congresso a aprovar um diploma que legaliza a tortura e conseguiu enviar mais 28 000 soldados para o Iraque .
Como é possível?
A manipulação das consciências tem como complemento a anestesia das consciências.
Na sociedade estadunidense o funcionamento da engrenagem criou em milhões de eleitores mecanismos defensivos que tendem a transformá-los em seres passivos, egoistas. Não desconhecem que as coisas correm cada vez pior nas guerras que as suas tropas travam em paises longínquos. Mas em vez de reagir activamente, preferem esquecer, até porque as coisas tambem correm mal no país. Sabem vagamente que a divida publica subiu para um patamar astronómico, que o défice comercial atingiu umnivel alarmante e os gastos militares não param de subir. Que fazem? Com excepçao de uma insignificante e corajosa minoria , assistem, passivos ao descalabro, absorvidos pelos seus problemas pessoais .
É essa atitude perigosa que permite a continuidade da estratégia irracional de George Bush. Qundo ele, dirigindo-se aos jovens da Academia Militar de West Point, em Junho de 2002 , afirmou que a América estava ameaçada «por um punhado de terroristas e tiranos loucos » foi entusiasticamente aplaudido. Encorajado, acrescentou que iria «descobrir células terroristas em sessenta países».
Esse esboço da estratégia de agressividade planetária cujos planos já haviam sido elaborados foi então recebido com simpatia pela maioria da população. A grande imprensa apoiou-o.
Com excepção de uma minoria de intelectuais progressistas e de organizações como a de Ramsey Clark, o povo dos EUA não percebeu que se iniciava um processo que, tendo como alavanca as guerras «preventivas» iria conduzir a crimes que imprimiriam um carácter neo – fascista à politica exterior do pais .No seu desenvolvimento, sectores das Forças Armadas envolvidas nessas guerras distantes, nomeadamente uma parcela do seu corpo de oficiais, assumiriam gradualmente o papel de instrumento de crimes monstruosos que só encontram precedente nos cometidos pelas SS do Terceiro Reich de Hitler.
É terrível que a maioria da humanidade não tenha consciência dessa realidade.
A ocultação da historia real, substituída pela que a televisão e o cinema difundem hoje, vem,porém, de longe.
Nas escolas dos EUA a perigosa tese da «nação predestinada» com vocação para salvar a humanidade e redimi-la dos seus vícios, forjada no final do século XVIII, continua a moldar as novas gerações. Aos adolescentes não se informa que dois milhões de vietnamitas foram abatidos numa guerra abjecta na qual os rios foram envenenados e as florestas queimadas, guerra que terminou aliás com a derrota humilhante dos EUA. A invasão de Cuba em 1898 é apresentada como epopeia libertadora . Oculta-se que a Ilha foi tratada durante sessenta anos como colónia de novo tipo.
Segundo os manuais escolares, a ocupação das Filipinas no mesmo ano inseriu-se na repulsa dos EUA pelo colonialismo . Aos estudantes não se confessa que 600 000 filipinos foram massacrados na luta que o povo do Arquipélago travou contra os invasores.

***
O desmascaramento da engrenagem da mentira concebida para reescrever a história de acordo com a lógica e os interesses do imperialismo, sobretudo o norte-americano, é uma tarefa ciclópica.
A estratégia agressiva e irracional de Bush merece hoje a desaprovação da maioria dos povos. É uma evidência. Mas da sua condenação passiva a uma atitude combativa medeia por ora uma distancia enorme.
A atitude perante os crimes ecológicos constitui outro exemplo da passividade das massas neste momento de viragem de crise global da civilização.
Alastra a consciência de que os países industrializados, com os EUA na vanguarda, estão a destruir o ambiente e a consumir os recursos naturais não renováveis em ritmo alarmante. Se essa escalada prosseguir, a Terra será inabitável para o homem num período de tempo relativamente curto.
Que fazer ?
Somente uma mobilização dos povos contra a estratégia de loucura que os ameaça poderá evitar o apocalipse que se esboça já no horizonte, situaçao na qual as guerras genocídas são inseparáveis da devastação das florestas, da poluição dos oceanos , do envenenamento do ar que respiramos.
Essa tomada de consciência, indispensvel, não é, porém, uma certeza . Desconhecemos o desfecho da catástrofe em andamento. Mas sabemos que ele depende do homem.
Acabará a humanidade, através de milhares de lutas em diferentes lugares da Terra, por gerar as formas de organização , em moldes revolucionários – é a palavra – que desemboquem num confronto vitorioso com o sistema que ameaça destruí-la?
Podemos acreditar ou não no advento de um internacionalismo que assumiria características revolucionarias.
Mas ele está ao alcance da humanidade. Não é impossível.

Resitir
http://resistir.info/

Não é o que parece

Confira algumas das informações erradas sempre repetidas pelos pacientes em dez áreas diferentes

FLÁVIA MANTOVANI
DA REPORTAGEM LOCAL

IARA BIDERMAN
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Dizer que as aparências enganam é lugar-comum, mas, tal como a frase feita, muitas afirmações que parecem refletir o bom senso não passam de ilusão. Sabe o sorvete que você acha que causou a sua gripe? Não foi ele. Aquela espinha em seu rosto também não tem nada a ver com chocolate. E, se você se sentiu culpado depois de comer esses doces e pretende perder a barriga fazendo abdominais, esqueça. Essas são apenas algumas das idéias erradas que os médicos costumam ouvir em seus consultórios. A Folha pediu a especialistas de dez áreas que selecionassem 30 enganos recorrentes. Confira a seguir a verdade sobre eles.

NUTRIÇÃO

COMER MASSA À NOITE ENGORDA MAIS
Basicamente, o que engorda é ingerir mais calorias do que as que são gastas. Há, realmente, diferenças na forma com que as várias fontes de energia são metabolizadas, mas o que conta é a quantidade e o balanceamento adequado ao longo do dia, e não a hora exata do consumo de determinado alimento. Carboidratos, como massas, favorecem a produção de insulina, o que facilita a deposição de gorduras, mas, se forem combinados, em porções adequadas, com verduras e uma fonte de proteína, esse efeito praticamente desaparece.

O AÇÚCAR MASCAVO É MAIS SAUDÁVEL QUE O AÇÚCAR BRANCO
O açúcar mascavo passa por menos etapas no refinamento, mas tem o mesmo valor calórico e o mesmo índice glicêmico que o açúcar branco. Também é metabolizado da mesma forma pelo organismo. Por não se dissolver tão facilmente, muitas vezes o açúcar mascavo é acrescentado em quantidades maiores, o que é uma desvantagem.

PESSOAS MAGRAS NÃO PRECISAM SE PREOCUPAR COM O COLESTEROL
A hipercolesterolemia (quantidade elevada de colesterol no sangue) não significa necessariamente excesso de gordura na massa corpórea. O distúrbio, um importante fator de risco para doenças cardiovasculares, pode ter causa genética e se manifestar mesmo em pessoas com peso considerado normal. Também pode ocorrer em pessoas que, por questões orgânicas, dissipam energia mais facilmente, armazenam menos gorduras no corpo etc. e por isso não engordam, mas consomem grandes quantidades de gorduras saturadas ou trans -que se transformam em colesterol “ruim” (LDL), que adere às artérias, formando as placas de gordura.

FITNESS

EXERCÍCIOS ABDOMINAIS DIMINUEM A GORDURA DA CINTURA E DA BARRIGA
A idéia de que é possível escolher a área do corpo que vai emagrecer com a realização de determinada atividade física não faz sentido. O que emagrece é o gasto calórico produzido pelo exercício. Uma série de 20 flexões gasta menos calorias do que um minuto de caminhada. O exercício pode deixar a musculatura abdominal mais forte e definida, mas não é a forma de queimar gordura na barriga.

FAZER ALONGAMENTO DEIXA A PESSOA MAIS ALTA
O alongamento pode aumentar a flexibilidade e a elasticidade do segmento corporal que for alongado e, quando feito sistematicamente, ajuda a prevenir lesões de esporte. Mas não aumenta um centímetro na altura das pessoas. Eventualmente, pode melhorar a postura, o que dá a impressão de que a pessoa ficou mais alta, mas só alongar não é o suficiente para atingir uma correção postural completa e duradoura.

PRATICAR EXERCÍCIO SÓ UMA VEZ POR SEMANA NÃO TRAZ BENEFÍCIOS
Boa notícia para os atletas de fim de semana: embora não seja o ideal, isso pode trazer benefícios para o corpo e para a saúde mental. Os resultados da atividade física dependem de três variáveis: intensidade, duração e freqüência. Se a freqüência é baixa, mas a intensidade e a duração são adequadas, vale a pena, principalmente se o praticante tomar cuidado para não se machucar durante a prática.

GINECOLOGIA

USAR PRESERVATIVO PROTEGE DA INFECÇÃO POR HPV
O preservativo é uma boa prevenção para várias DSTs (doenças sexualmente transmissíveis), das quais a infecção por HPV faz parte. Mas, infelizmente, no caso específico desse vírus, a prevenção oferecida pela camisinha é muito pequena para que a pessoa possa se considerar protegida. O vírus HPV pode estar em qualquer parte da área genital, não necessariamente no pênis, e basta o contato para sua transmissão. Atualmente, a proteção considerada mais eficaz é a vacina contra HPV.

TOMAR ANTIDEPRESSIVOS E ANSIOLÍTICOS NO INÍCIO DA GRAVIDEZ PODE CAUSAR MALFORMAÇÕES NO FETO
Durante a gestação, o uso de qualquer tipo de medicamento deve ser avaliado pelo médico. Mas não há nenhuma evidência científica relacionando o uso de antidepressivos ou ansiolíticos a malformações fetais. Mesmo no início da gravidez, época considerada mais crítica para a formação do bebê, a possibilidade de esses remédios levarem a malformações é remota.

DURANTE A GRAVIDEZ, É OBRIGATÓRIO FAZER UMA CONSULTA POR MÊS
O acompanhamento pré-natal com consultas mensais pode dar segurança à gestante e favorecer o vínculo com o médico. Mas, estritamente do ponto de vista da saúde da mãe e do bebê, oferece tantas garantias quanto quatro consultas feitas em épocas específicas da gravidez se esta for de baixo risco (85% o são). O Grupo de Investigações do Estudo de Controle Pré-Natal da OMS (Organização Mundial da Saúde) considera ideal a realização de quatro consultas no pré-natal feitas na 16ª semana de gestação, entre a 24ª e a 28ª, na 32ª semana e entre a 36ª e 38ª.

DERMATOLOGIA

CORTAR AS PONTAS DOS CABELOS OS FAZEM CRESCER MAIS RÁPIDO
Cortar as pontas até deixa as madeixas menos quebradiças, mas não influencia em nada no crescimento delas, que ocorre na raiz. Hormônios, idade e questões nutricionais são alguns fatores que influem na velocidade do crescimento dos cabelos.

CASPA É CONTAGIOSA
Como muitos xampus que combatem a caspa têm ação antifúngica, fica a impressão de que o problema é causado por um fungo e que, assim, poderia ser transmitido de uma pessoa para a outra. Só que a caspa não é causada por microorganismos. Trata-se, na verdade, de uma disritmia do couro cabeludo que ocorre em quem tem predisposição e pode ser piorada por alguns estímulos, como mudanças de temperatura, produtos químicos ou estresse. Os fungos são apenas um fator complicador: a partir do momento em que a caspa está instalada, ocorre um maior acúmulo dos fungos que já existem na nossa flora, o que pode irritar a pele e aumentar o problema. Mas eles não “transmitem caspa”.

CHOCOLATE CAUSA ACNE
Como a acne decorre do excesso de gordura nas glândulas sebáceas, há quem pense que alimentos gordurosos aumentariam a presença de cravos e espinhas. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. A gordura do chocolate vai para o sangue, e não para a glândula sebácea da pele. Alimentos com alto índice glicêmico (muito açucarados, por exemplo), esses sim, quando consumidos em excesso, podem piorar a acne, já que, indiretamente, aumentam os níveis do hormônio masculino no organismo, o que intensifica o funcionamento das glândulas sebáceas.

GASTROENTEROLOGIA

COMER EM PÉ FAZ MAL
O ato de comer em pé em si não faz mal. O que atrapalha a digestão é a tensão e o estresse que geralmente acompanham esse costume. É importante fazer as refeições com tranqüilidade, seja em pé ou sentado.

CAFÉ FAZ MAL PARA O ESTÔMAGO
Tomar café com moderação -de duas a três xícaras por dia- não faz mal a quem não tem nenhum problema no estômago. Há estudos que mostram, inclusive, que a bebida pode melhorar o processo de esvaziamento do órgão, favorecendo a digestão. O café só pode fazer mal a quem tem doenças como refluxo e gastrite -e, mesmo assim, não provoca esses problemas, apenas pode aumentar os sintomas em quem já é doente. Além disso, muitas vezes o culpado nem é a bebida, mas o excesso de açúcar usado para adoçá-la.

DOENÇAS DO FÍGADO CAUSAM AFTA E MAU HÁLITO
O fígado é culpado por muitos problemas injustamente. O gosto amargo sentido por algumas pessoas com mau hálito, por exemplo, pode dar a sensação de que o responsável é esse órgão. Mas isso raramente acontece. Geralmente, a origem está na própria boca. As doenças do fígado, aliás, costumam provocar poucos ou nenhum sintoma e apenas eventualmente atingem o aparelho digestivo.

PEDIATRIA

ALGUMAS MÃES TÊM LEITE FRACO E O BEBÊ FICA COM FOME
Não existe leite materno mais ou menos “fraco”. Ele é sempre adequado às necessidades do lactente, inclusive mudando a sua composição conforme o bebê vai crescendo. O leite materno parece mais “ralo” e é mais translúcido do que o leite de vaca porque contém menos proteínas, mas é o único que possui todas as substâncias necessárias para o desenvolvimento da criança, na forma que ela pode digerir.

CRIANÇAS ENTRE CINCO E SEIS ANOS QUE NÃO ENGORDAM PRECISAM SER ESTIMULADAS A COMER MAIS
Na faixa etária entre cinco e seis anos, há uma desaceleração natural do crescimento e do ganho de peso. Isso é previsível e considerado absolutamente normal pelos médicos. Nessa fase, é importantíssimo respeitar o apetite e a saciedade da criança, para que ela possa desenvolver bons hábitos alimentares e corra menos risco de ter sobrepeso ou se tornar obesa.

REMÉDIOS “NATURAIS” SÃO MAIS INDICADOS PARA CRIANÇAS PORQUE NÃO TÊM EFEITOS COLATERAIS
Todo remédio que funciona tem efeito colateral. Medicamentos à base de plantas, considerados “naturais”, ou drogas sintetizadas em laboratórios têm sempre um princípio ativo que leva ao efeito desejado em determinada dose. Essa não costuma ser a dosagem contida naturalmente em um vegetal. Se for menor do que a necessária para surtir efeito, pode contribuir para o agravamento da doença; se a dose for maior, aumenta a probabilidade de ocorrerem efeitos colaterais.

OFTALMOLOGIA

VER TV MUITO DE PERTO PREJUDICA OS OLHOS
Muitos pais ficam preocupados quando vêem que seus filhos estão assistindo à TV muito de perto e tentam afastá-los por acharem que isso causará prejuízo para a visão. Na verdade, o que ocorre é o inverso. Crianças que ficam muito próximas da TV o fazem, normalmente, por já possuírem alguma deficiência visual -daí a necessidade de ficar a curta distância.

LER EM UM VEÍCULO EM MOVIMENTO PROVOCA DESCOLAMENTO DE RETINA
O descolamento de retina nunca é provocado pelo ato da leitura ou por um veículo em movimento nem pelos dois simultaneamente. Trata-se, na verdade, de um problema que ocorre por um trauma sobre os olhos ou, na maioria dos casos, de forma espontânea, devido a uma doença da própria retina chamada degeneração periférica.

ÁGUA COM SAL COMBATE CONJUNTIVITE
A conjuntivite é uma doença inflamatória da conjuntiva (membrana que reveste internamente as pálpebras), que pode ser causada por bactéria, vírus e alergias irritativas -a produtos químicos, por exemplo. A utilização de água com sal costuma deixar os olhos ainda mais vermelhos.

OTORRINOLARINGOLOGIA

QUANDO O NARIZ SANGRA, É PRECISO FICAR COM A CABEÇA PARA O ALTO
Quando ocorre um sangramento do nariz, a reação quase instintiva é levantar o queixo e inclinar a cabeça para trás, para não deixar o sangue escorrer. Nessa posição, o sangue escorre do nariz em direção à garganta e pode, eventualmente, descer para o pulmão. A recomendação em caso de sangramento é abaixar a cabeça e, ao mesmo tempo, pressionar as narinas com o indicador e o polegar para estancar o sangue.

TOMAR SORVETE NO INVERNO CAUSA GRIPE E DOR DE GARGANTA
O que causa a gripe e a maioria das doenças de garganta são vírus. No inverno, fatores como poluição, baixa umidade e aglomerações em locais fechados fazem com que alguns vírus se propaguem mais facilmente, aumentando a incidência dessas doenças. A aparente relação entre tomar algo gelado e contrair a infecção ocorre porque a oscilação térmica pode propiciar pequenas alterações nos mecanismos de defesa do organismo, abrindo as portas para a contaminação, mas nunca é a causa delas.

EXCESSO DE CERA É PREJUDICIAL AO OUVIDO
A cera produzida no ouvido tem substâncias bactericidas e protege as áreas internas do órgão da umidade. Não há indicação de que precise ser retirada regularmente. Se não provoca incômodo, zumbido, dor ou dificuldade de audição, não há por que removê-la.

UROLOGIA

O PÊNIS TEM QUE SER GRANDE PARA DAR PRAZER À MULHER
Em geral, a insatisfação com o tamanho do pênis é injustificada. A vagina é elástica e sua área mais sensível fica no terço inferior, ou seja, não é preciso ter um pênis muito grande para que a parceira tenha prazer. O tamanho médio do órgão no brasileiro vai de 7 cm a 11 cm quando flácido e de 8 cm a 17 cm quando ereto. O comprimento do órgão só é considerado problemático quando mede cerca de 4 cm em flacidez e 7,5 cm em ereção (micropênis).

TODO IDOSO TEM INCONTINÊNCIA URINÁRIA
Muita gente considera a perda involuntária de urina um fato típico da velhice. Mas a incontinência não deve ser encarada como algo natural: é doença e tem tratamento. Nos homens, geralmente o problema ocorre naqueles que passaram por cirurgia contra câncer de próstata. Nas mulheres, as causas são variadas: aquelas que tiveram muitos partos desassistidos ficam mais suscetíveis. Fazer rotineiramente exames de próstata, no caso dos homens, e avaliação urológica, no caso das mulheres, ajuda a prevenir o problema. Para quem já apresenta os sintomas, cirurgia ou fisioterapia oferecem grande chance de melhora.

VASECTOMIA CAUSA IMPOTÊNCIA
O procedimento consiste apenas na ligação dos canais que transportam o espermatozóide e não influencia em nada a potência ou o desejo sexual. O homem que passou por vasectomia continua ejaculando normalmente, só que o líquido seminal liberado não possui espermatozóides -a diferença no volume do sêmen não é perceptível.

ODONTOLOGIA

MAÇÃ LIMPA OS DENTES
Não há nenhuma substância na maçã que higienize os dentes. Para colocar essa crença popular à prova, um dentista chamado Sumter Smith Arnim fez, em 1965, uma experiência simples: passou soluções com corantes nos dentes de voluntários e pediu que mordessem uma maçã. Como os dentes continuaram coloridos, o mito foi derrubado.

GRÁVIDAS TÊM MAIS CÁRIES
Há quem diga que a gestante perde o cálcio dos dentes para formar as estruturas mineralizadas do bebê e que por isso ela fica mais desprotegida e propensa a cáries. Mentira: o cálcio que vai para o bebê provém dos alimentos que a mãe ingere, e não de seus dentes. O que ocorre na gravidez é que, por questões hormonais, as mulheres podem ficar mais suscetíveis a apresentar inflamação na gengiva -o que é conhecido como gengivite gravídica. Esse problema pode ser facilmente evitado com uma boa higienização bucal, que não é diferente da recomendada para qualquer outra pessoa.

ALIMENTOS QUENTES OU GELADOS CAUSAM DOR DE DENTE
Se o dente dói quando entra em contato com algum alimento frio ou quente, provavelmente é porque é hora de ir ao dentista. Os dentes possuem sensores de frio e calor que permitem suportar as temperaturas dos alimentos que normalmente ingerimos (uma xícara de café, um sorvete, um refrigerante etc). Quem sente dor nesses casos pode ter hipersensibilidade dentinária, problema que deixa uma parte do dente -a dentina- exposta.

Fontes

DENISE STEINER, coordenadora do departamento de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia
FABIO DE REZENDE PINNA, otorrinolaringologista da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e do grupo de rinologia do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo)
ISABEL REY MADEIRA, presidente do departamento de pediatria ambulatorial da Sociedade Brasileira de Pediatria e professora de pediatria da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
IVAN CECONELLO, professor titular das disciplinas do aparelho digestivo e de coloproctologia da Faculdade de Medicina da USP e presidente do 34º Gastrão (Curso de Atualização em Cirurgia do Aparelho Digestivo e Coloproctologia)
LUCIANO FAVORITO, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Urologia e professor da Uerj
MARIANA DEL BOSCO, nutricionista da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica) e da Liga de Obesidade Infantil do Hospital das Clínicas da USP
ROBERTO VIANNA, consultor da Associação Brasileira de Odontologia e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
TURÍBIO LEITE DE BARROS, professor do departamento de fisiologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
WAGNER GHIRELLI, oftalmologista, chefe do setor de doenças da retina do Instituto Tadeu Cvintal
WLADIMIR TABORDA, ginecologista, consultor do Hospital e Maternidade São Camilo e autor de “A Bíblia da Gravidez” (ed. CMS)

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

Viena confronta a sua história do Holocausto

Uma nova mostra no Museu Judaico de Viena apresenta a maior coleção do mundo de documentos relacionados ao Holocausto que vitimou os judeus. Os documentos são inestimáveis para os historiadores e sobreviventes do Holocausto – e podem levar a uma nova onda de pedidos de indenização e restituição.

Marion Kraske
Em Viena

O rabi Paul Eisenberg, um homem robusto de 67 anos dotado de uma notável barba cinzenta, está no seu ambiente. Ele se posta em um palco ladeado por cortinas de veludo cinza e interpreta entusiasmadamente músicas do “grande cantor e contador de histórias judeu” rabi Shlomo Carlebach, regendo a orquestra e retornando a tempo para cantar canções. Nos intervalos entre as músicas, ele conta histórias sobre Carlebach, ele próprio e a vida.

O salão do centro comunitário judaico em Viena está lotado. Adolescentes com camisas pólo e pessoas mais velhas usando roupas formais assistem ao show, fascinados. Para entrar no recinto, eles tiveram que aguardar pacientemente pela revista feita por dois seguranças que falam hebraico, abrir as suas bolsas e apresentar um documento de identificação.

A comunidade judaica de Viena contava com até 200 mil pessoas antes da Segunda Guerra Mundial e à época era a segunda maior da Europa, depois da de Varsóvia. Atualmente, apenas 7.500 judeus moram na capital austríaca. Um pequeno número freqüentou a escola aqui durante a infância; outros vieram da Hungria e da Tchecoslováquia na década de 1950. Judeus uzbeques e georgianos “se infiltraram” no país após a queda da Cortina de Ferro, explica Eisenberg, acrescentando: “Somos bastante multi-culturais e diversificados”.

Existem jardins-de-infância judaicos, três escolas de período integral e uma residência para os idosos. No distrito de Leopoldstadt, com uma vista para a Catedral Saint Stephen, há açougues, padarias e restaurantes kosher. Há também judeus ortodoxos por aqui: quando as crianças andam de bicicleta no Parque Prater, as suas tranças típicas são agitadas pelo vento.

Uma história de sofrimento
Mais de 60 anos após o Holocausto, a comunidade judaica de Viena começou novamente a prosperar. Agora uma nova exposição no Museu Judaico da cidade revela o que a comunidade sofreu nos últimos três séculos.

A mostra exibe antigos documentos, fotografias, papéis de identificação, pedidos de visto, petições e anúncios públicos – coisas que dão uma idéia de como era o cotidiano dos judeus na capital austríaca. A mostra, que já atraiu considerável atenção, talvez seja a mais bem preservada coleção de materiais relativos à vida judaica antes do Holocausto.

A coletânea de documentos foi descoberta por acaso no verão de 2000. Cerca de oitocentas caixas de papelão ficaram esquecidas durante décadas em um apartamento deserto pertencente à comunidade, enquanto a poeira se acumulava e o mofo fazia estragos no papel.

Durante sete anos, os especialistas pesquisaram e classificaram as montanhas de papel. “Cada carta forneceu uma nova preciosidade”, diz o diretor do arquivo comunitário, Lothar Hölbling. Agora os documentos estão sendo disponibilizados pela primeira vez à população, em um projeto em colaboração com os Arquivos Centrais para a História do Povo Judeu (CAHJP, na sigla em inglês) em Jerusalém.

“Ordnung Muss Sein” (“É Preciso Haver Ordem”) é o título ambíguo da mostra. Somente com relação ao período de 1938 a 1945, a coleção exibe 500 mil páginas de documentos. Isso faz do arquivo de Viena a maior coleção judaica de dados da era do Nacional Socialismo.

“Uma história perdida de um país sobre o Holocausto”
“Até agora, a história da perseguição movida contra os judeus foi escrita quase que exclusivamente com base nos documentos deixados pelos perpetradores nacional-socialistas”, afirma Paul Shapiro, diretor do Centro de Estudos Avançados Sobre o Holocausto, do Museu Memorial do Holocausto, em Washington. Agora os arquivos das vítimas podem ser vistos também naquilo que o “New York Times” descreve como “Uma história perdida de um país sobre o Holocausto”.

A mostra revela aquilo que alguns judeus fizeram a fim de escapar do seu país e o terror promovido pelos nazistas após a “Anschluss”, a anexação da Áustria pela Alemanha em 1938. Pais desesperados preencheram questionários para os Kindertransporte (“transportes de crianças”) a fim de conseguir que os filhos escapassem: a pequena Erika Hausmann, por exemplo, seria mandada para viver com um irmão na Palestina ou com uma tia em Londres.

Outros lutaram para obter vistos de saída. Marianne Pollak, de 62 anos, esperava conseguir chegar a Cuba. Aqueles que tiveram sorte, como ela, receberam documentos com um carimbo da polícia local e a insígnia da águia do Reich alemão. Muitos, conforme comprovam documentos navais britânicos, cruzaram o oceano rumo ao Uruguai, ao Paraguai e ao Brasil.

Sempre que podia, a comunidade ajudava com os preparativos para as viagens. Cursos especiais permitiam que os judeus aprendessem rapidamente profissões práticas, das quais necessitavam para emigrar para países como os Estados Unidos. Aqueles que tiveram os seus bens confiscados ou que foram banidos de suas profissões recebiam roupa e alimentação. Crianças doentes e fracas foram enviadas para residências de férias. Elas ficavam ao sol, com os corpos secos estirados sobre cadeiras de armar, tirando umas breves férias do crescente pesadelo.

Em fevereiro de 1941 tiveram início as deportações a partir da Estação Aspang de Viena. Os nomes nas listas foram meticulosamente registrados em 45 arquivos que estão gastos pelo tempo: mil pessoas por viagem.

A própria comunidade judaica precisou se preparar para a expulsão em massa dos judeus – e mais tarde para a deportação – com uma eficiência burocrática. A comunidade foi obrigada a “administrar a sua própria morte”, conforme as palavras do curador do Museu Judaico, Felicitas Heimann-Jelinek.

Evidência de um crime terrível
“Passamos anos procurando por essas listas”, diz o historiador vienense Gerhard Ungar do Centro de Documentação da Resistência Austríaca (DÖW, na sigla em alemão). “Com estes arquivos, finalmente colocamos as mãos nas evidências de um crime violento monumental”.

Além da sua significância histórica, os arquivos recém descobertos têm também uma utilidade prática: para os sobreviventes e parentes das vítimas do Holocausto, eles representam um auxílio na busca por parentes perdidos ou no difícil trabalho de elaborar um processo legal no sentido de obter indenização ou restituição de bens. Desde que uma lei de restituição de obras de arte roubadas foi instituída em 1998, multiplicaram-se os processos movidos pelos sobreviventes do Holocausto ou por seus herdeiros legais no sentido de exigir a restituição dos bens confiscados. “Nós recebemos cerca de mil pedidos por mês”, afirma Ingo Zechner, diretor do Centro de Apoio e Informação às Vítimas do Holocausto. “Mal somos capazes de processar tantos pedidos”.

O passado nazista da Áustria está agora assombrando a famosa coleção de artes do Albertina, um importante museu vienense. Segundo o diretor do Albertina, Klaus Schröder, investigações internas revelaram que o museu conta com cerca de 3.600 fotografias obtidas ilegitimamente.

O ex-proprietário desse material, um sobrinho do colecionador judeu de obras de arte Julius Paul, foi expulso de Viena em 1938. Ele vendeu as obras por uns poucos centavos a peça. As imagens, em sua maioria no estilo fin de siècle, têm atualmente um valor total estimado em 7,5 milhões de euros (US$ 10,2 milhões). O processo de devolução dessa obras poderá se constituir no maior caso de restituição dos últimos 50 anos.

A mostra “Ordnung Muss Sein” estará no Museu Judaico de Viena até o dia 21 de outubro de 2007.

Tradução: UOL

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

OS MORTOS SEM “ROSTO” DO COMPLEXO DO ALEMÃO

Os governos Federal e do Estado do Rio de Janeiro promovem nos últimos dois meses no Complexo do Alemão, mais uma operação policial, que a título de combater o tráfico de drogas, já causou ao menos 43 mortos e 81 feridos, sem qualquer resultado prático na melhoria das condições de vida da comunidade. O secretário José Mariano Beltrame, sob as ordens do governador Sérgio Cabral e apoio expresso do Presidente Lula, declarou que a polícia está disposta a manter o confronto. Afirmou que essa é uma ação sem data para terminar, e trata-se de um remédio amargo para a cidade do Rio de Janeiro. Ou seja, os trabalhadores continuarão impedidos de trabalhar, as crianças e adolescentes permanecerão sem escola e lazer e as mortes em massa continuarão. E, pior, a já testada política de segurança de confronto, comprovadamente ineficiente no combate ao crime organizado no Rio de Janeiro, que já foi até estimulada pela gratificação “faroeste”, é tratada como uma grande novidade por esse governo. Essa política de segurança compromete o futuro de gerações de crianças, adolescentes e jovens que além de estarem submetidas ao medo da violência do tráfico, também passam a ser massacradas pelo medo da violência do Estado.
Mas, enfim, quem são os mortos do complexo do alemão? Qual era a história de vida destas pessoas mortas? Qual era a identidade dessas pessoas? Quais eram os seus nomes e idades? Eram crianças, adolescentes ou jovens ? Eram homens ou mulheres? Qual a origem étnico-racial ou regional dessas pessoas? Qual era o rosto destas pessoas? Em que circunstâncias cada vida foi ceifada? Havia acusações contra os mortos? E, se havia, as mesmas não deveriam ser investigadas e comprovadas ? Os indícios de crime seriam suficientes para justificar as mortes dos acusados?
A maioria das perguntas anteriores tem sido respondidas pelos órgãos de segurança do Governo do Estado do Rio de Janeiro, peremptoriamente, por meio da seguinte afirmação: todos eram traficantes. Caso fosse possível comprovar que todos eram traficantes, essas mortes estariam justificadas? É evidente que não. A justificativa de criminalizar a pobreza produzindo tantas mortes sem rosto, taxando-os de traficantes não é questionada, por expressar a crença de parcela da sociedade carioca, que aposta no recrudescimento da violência como meio de enfrentar as desigualdades sociais.
Assim, o Governo do Estado, tenta justificar sua política de “enfrentamento”, causadora de um “banho de sangue” no Complexo do Alemão, sem expressamente calcular o risco das suas operações para a vida dos moradores das favelas. E, desta circunstância surgem outras indagações: A vida humana vale quantas armas apreendidas? Cada morte pode ser justificada por quantos quilos de cocaína ou maconha? Qual o resultado prático dessas operações? Quantos empreendedores do crime organizado foram atingidos?
É óbvio, que nessas operações policiais de confronto, travadas em meio a áreas pobres de latentes conflitos sociais, não há trocas de margaridas e rosas entre as partes envolvidas. A política de segurança de confronto do Estado gera uma violência cujo resultado é semelhante à violência produzida pelo crime organizado: mortes, apartação social e o medo.
O repúdio a essa política de segurança de confronto policial, que mede forças com o crime organizado, não significa apoio à violência que também o tráfico impõe a várias comunidades de favelas. Mas, é necessário afirmar que é dever do Governo do Estado do Rio de Janeiro, e não do tráfico, respeitar a dignidade de qualquer vida humana, avaliar racionalmente os riscos de onde vão parar as balas dentro das comunidades faveladas do Rio de Janeiro, refletir como o confronto transforma o medo numa ordem institucional, que subordina, humilha e compromete a vida com dignidade dos cidadãos que moram nas favelas do Rio de Janeiro.
A política de segurança de operações de confronto institucional, que põe como alvo qualquer morador favelado, deve ser repudiada pela sociedade carioca. Essa política acentua a segregação territorial das favelas, a discriminação, agravando a exclusão, a opressão e marginalização cujas origens, sabe-se, são as ações e omissões históricas da Prefeitura do Rio de Janeiro, do Governo do Estado do Rio e do Governo Federal que tiveram oportunidades e não concretizaram políticas urbanas e ambientais de habitação e saneamento básico, moradia, educação, cultura, saúde, emprego e renda prescritas pelos Direitos Humanos Econômicos, Sociais e Culturais (DHESC).
Assim, considerando os atos comissivos e omissivos de violação dos direitos humanos pelos aparelhos de segurança pública federal e estadual , contra os mortos “sem rosto” do complexo do alemão e de outras favelas cariocas; considerando essas mortes e o abandono social como desrespeito à dignidade humana dos moradores das favelas cariocas – cujas vítimas imediatas são os afrodescendentes, os grupos de migrantes nordestinos, crianças, adolescentes, jovens e idosos ; considerando as expressas impossibilidades dos acionamentos isentos dos mecanismos de jurisdição interna (federal e estadual), resolvemos encaminhar petição de denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos – CIDH – da OEA (Organização dos Estados Americanos) contra a República Federativa do Brasil e o Estado do Rio de Janeiro por violação de direitos humanos prescritos na Convenção Americana sobre Direitos Humanos e na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem.

O “vício” em comida explica a explosão da obesidade?

Nanci Helmich

Há muito que a obesidade é atribuída à falta de força de vontade, a comer em excesso, à genética e à falta de exercícios. Cada vez mais, porém, os cientistas encontram sinais que sugerem que pode haver um fator adicional: o vício em comida.

Nas noites de segunda e terça-feira (10/7), dezenas dos principais pesquisadores do país em obesidade, nutrição e vício discutiram se a comida tinha propriedades viciadoras para algumas pessoas. Eles estavam reunidos em New Haven, Connecticut, em um encontro patrocinado pelo Centro Rudd de Política Alimentar e Obesidade da Universidade de Yale.

“Há suficientes dados científicos sugerindo haver algo, então estamos reunindo as principais autoridades para decidir se o vício em comida é real e quais são os fatores psicológicos e biológicos subjacentes”, diz Kelly Brownell, diretor do Centro Rudd.

“É surpreendente que nosso campo tenha negligenciado este conceito por tanto tempo”, diz ele. “A sociedade culpa as pessoas pela própria obesidade e fechou-se para outras explicações.”

A idéia do vício em comida vem de estudos em animais e humanos, inclusive de pesquisas de imagens do cérebro em humanos, diz Mark Gold, diretor da medicina do vício no Instituto Cerebral McKnight da Universidade da Flórida, co-organizador do encontro.

Em ambiente médico, “avaliamos as pessoas que estavam pesadas demais para deixar suas poltronas e grandes demais para passar pela porta”, disse ele. “Elas não comem para sobreviver. Amam comer e passam o dia planejando suas próximas escolhas de comida que encomendarão.”

A psiquiatra Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional e Abuso de Drogas, palestrante na reunião, diz que a pesquisa nessa área é complicada, mas os problemas de peso da maior parte das pessoas não são causados pelo vício em comida.

Alguns estudos se concentram na dopamina, um neurotransmissor do cérebro associado com o prazer e com a recompensa. “O mau funcionamento do sistema de dopamina do cérebro pode deixar algumas pessoas mais vulneráveis a comer compulsivamente, o que pode levar à obesidade mórbida”, disse Volkow. Ela fez pesquisas inovadoras na área, no Laboratório Nacional do Departamento de Energia em Brookhaven.

Para alguns compulsivos, a vontade de comer é tão intensa que supera a motivação de se envolver em outras atividades recompensadoras e dificulta o exercício do autocontrole, diz ela. Isso é similar à compulsão que uma pessoa viciada sente para tomar drogas, diz ela. “Quando isso ocorre, o comportamento de comer compulsivamente pode interferir no bem estar e na saúde.”

Há, entretanto, muitas diferenças entre o vício em drogas e a intensa compulsão por comida, disse ela. A comida é necessária para a sobrevivência, e comer é um comportamento complexo, envolvendo muitos hormônios e sistemas diferentes do corpo, não só o sistema de prazer e recompensa, diz Volkow. “Há múltiplos fatores que determinam quanto a pessoa pode comer e o que come.”

Ela não acredita que a maior parte dos casos de obesidade possa ser atribuída ao mau funcionamento dos sistemas de dopamina do cérebro. Há muitas causas para o excesso de peso, inclusive hábitos alimentares pouco saudáveis, falta de exercícios, vulnerabilidade genética e estresse, disse ela.

Apesar de não haver uma definição oficial do vício em comida, Gold define o problema de forma muito parecida à dependência de outra substância: “Comer demais apesar das conseqüências, mesmo terríveis à saúde; preocupar-se com comida e com o preparo das refeições; tentar e fracassar em diminuir a ingestão de comida; sentir-se culpado de comer e de comer demais.”

Ele acredita que alguns alimentos têm maior poder de viciar do que outros. “Talvez as rosquinhas com alto teor de gordura e açúcar causem mais recompensa ao cérebro do que a sopa.”

Outros ridicularizam a idéia de vício em comida. “Isso é uma banalização do termo ‘vício’”, diz Rick Berman, diretor executivo do Centro de Liberdade do Consumidor, grupo financiado pela indústria de restaurante e alimentos. “O termo está sendo usado de forma abusiva. As pessoas não estão assaltando lojas de conveniência para agarrar uns bolinhos. Muitas pessoas amam cheesecake e comeriam a sobremesa toda vez que fosse oferecida, mas eu não chamaria a isso de vício”, diz ele. “A questão aqui é a intensidade dos desejos das pessoas”.

Tradução: Deborah Weinberg

USA Today

Saúde pessoal: evitando os perigos das plantas de jardim

Jane E. Brody

“As folhas de três partes devem ser deixadas em paz”. Sem dúvida todos já ouviram essa advertência sobre a hera-do-canadá (“poison ivy”), uma erva daninha que a cada ano causa mais de 350.000 casos de dermatite por contato e provavelmente muitos outros milhares de casos não registrados.

O que tem se ouvido nos consultórios médicos indica que este ano está pintando particularmente ruim para a hera-do-canadá, ou Toxicodendron radicans, e as evidências sugerem que concentrações maiores de dióxido de carbono no ar contribuíram para uma forte safra com uma toxina mais potente.

O risco crescente de se deparar com uma erupção causada pela de hera-do-canadá é, entretanto, apenas uma das recentes mudanças na exposição humana a plantas tóxicas ou danosas.

Muitas casas e jardins abrigam um número crescente de plantas perigosas, e as crianças, em geral, correm mais riscos. Em 2003, de acordo com um novo livro de autoridades no assunto, centros de controle de envenenamento no país receberam mais de 57.000 ligações em relação à exposição a plantas potencialmente nocivas; 85% delas envolveram crianças com menos de 6 anos. A maior parte, entretanto, foi considerada simplesmente exposição, ou seja, nenhuma toxina foi ingerida ou a quantidade consumida foi pequena demais para ser danosa.

O livro, “Handbook of Poisonous and Injurious Plants” (Guia de Plantas Venenosas ou Nocivas), por Dr. Lewis S. Nelson, Dr. Richard D. Shih e Michael J. Balick, foi produzido sob os auspícios do Jardim Botânico de Nova York, onde Balick é diretor do Instituto de Botânica Econômica. Apesar de sua principal missão ser a de ajudar os profissionais de jardinagem a identificar e tratar males causados por plantas, esse livro luxuosamente ilustrado pode servir de guia para pessoas comuns. Ele descreve centenas de plantas problemáticas, com fotografias e descrições, nomes populares, distribuição geográfica, partes tóxicas e toxinas, efeitos no corpo e informações sobre o tratamento médico.

Fiquei chocada ao ver quantas dessas plantas potencialmente perigosas eu tinha em minha própria casa e jardim, inclusive babosa, orelha de elefante, jade, Stathiphyllum, filodendro e Dieffenbacchia, assim como dedaleira (Digitalis purpúrea), hellebore, vinca, rododendro e crisântemo. É uma bênção que nenhum de meus filhos ou netos tenha tentado morder uma delas.

É claro que o veneno das plantas tem um importante papel, especialmente de desestimular os predadores. E, em todos os tempos, muitas tiveram papéis medicinais importantes. A vinca, por exemplo, foi a fonte original da droga de combate ao câncer vincristine, e a dedaleira deu-nos o estimulante cardíaco valioso digitalis.

Os veados, que se tornaram um problema para a horticultura no Noroeste, de alguma forma sabem evitar jantar várias das plantas tóxicas, como a vinca e a dedaleira, o que permite seu plantio em áreas não cercadas. Se ao menos nossos filhos fossem igualmente sábios.

Nelson, da Escola de Medicina da Universidade de Nova York e do Centro de Controle de Envenenamento da Cidade de Nova York, disse que o problema freqüentemente começa com o fato de muitas plantas tóxicas serem belas e coloridas, levando as pessoas a escolhê-las para adornar suas casas. É justamente sua beleza, entretanto, que cria o perigo para crianças pequenas, que podem ser tentadas a colocar frutinhas vermelhas, flores e folhas tóxicas na boca.

Um segundo risco envolve adultos, que colhem o que pensam ser plantas medicinais comestíveis, mas são similares tóxicas. Em um incidente recente citado por Nelson, um grupo de pessoas catou alho-poró selvagem para cozinhar e comer. O que realmente consumiram foi a toxina cardíaca de uma falsa jovem Helleborus orientalis. Felizmente, sobreviveram ao distúrbio cardíaco resultante.

Outros casos envolveram pessoas que colheram folhas de dedaleira antes de florir, achando que era uma erva que poderia ser tomada como chá medicinal. Algumas vezes, chás medicinais que seriam seguros acidentalmente contaminam-se com plantas tóxicas. Assim, é melhor ater-se a marcas comerciais conhecidas e empacotadas nos EUA.

Apesar da ingestão de plantas venenosas ser um perigo mais comum para crianças pequenas, adultos e crianças mais velhas têm como fontes de sofrimento as plantas que criam problemas ao contato físico, como a hera-do-canadá. Perguntei a Nelson o que as pessoas fazem de errado depois de entrarem em contato com ela, e a resposta foi simples: “Não lavam as mãos rápida e cuidadosamente. Se você tirar a toxina com água e sabão em um prazo de 10 a 15 minutos, dificilmente terá uma reação.”

Isso pode ser um problema particular para entusiastas dos passeios ao ar livre, profissionais de jardinagem e outros que trabalham nas matas e que podem não notar o contato com a planta ou talvez não tenham meios de rapidamente lavar a toxina com água. Mesmo os que se lavam, às vezes não tiram bem a toxina, chamada urushiol, que fica sob as unhas e depois espalha-se para outras partes do corpo, disse Nelson.

No curso de horas ou dias, o urushiol causa uma erupção de desenvolvimento lento caracterizada por dor, coceira, vermelhidão, inchaço e bolhas. Contrariamente ao que muitos pensam, a irritação não se espalha. São as pessoas que espalham a toxina pelo corpo ao se coçarem ou tocarem na roupa contaminada.

A hera-do-canadá não é a única fonte de urushiol, uma classe de toxinas com potências variadas. É também encontrada na casca das mangas, como descobri tristemente depois de descascar uma manga com os dentes. Era ainda inverno quando chamei meu dermatologista e disse: “Parece que tenho hera-do-canadá na boca.” Sua resposta foi imediata: “Você andou comendo manga.”

Por que isso não aconteceu anos atrás? Ele disse que, após exposições repetidas ao urushiol, fiquei sensibilizada ao alergênico e, depois disso, qualquer contato causaria a mesma reação tenebrosa. Nelson disse que 85% da população tem o potencial de desenvolver sensibilidade ao urushiol. Então, se você pensa que pode passear tranqüilamente em meio à hera-do-canadá, pense novamente. Cedo ou tarde, provavelmente sofrerá como eu.

O tratamento de uma irritação por hera-do-canadá, em geral, envolve aliviar a coceira com loção de calamina e tomar um anti-histamínico oral, ou, em casos mais sérios, um corticosteróide.

Outra fonte comum de dermatite por contato é a urtiga, uma planta que também parece estar prosperando em nosso ambiente enriquecido de dióxido de carbono, disse Balick. Essas plantas são uma fonte de irritantes mecânicos. Elas têm túbulos hipodérmicos frágeis, contendo uma mistura de substâncias irritantes que são injetadas quando a pele roça contra a planta. Diferentemente da hera-do-canadá, a erupção que queima e coça causada pela urtiga tem vida curta.

Outras plantas contêm substâncias químicas irritantes, como a capsaicina dos pimentões. Essa substância é irritante para a membrana mucosa e estimula a dor e a inflamação. Isso é especialmente doloroso quando os dedos contaminados transferem a substância para os olhos ou para a genitália. Para aliviar o desconforto, é necessária lavagem repetida e cuidadosa, um analgésico para aliviar a dor e, em alguns casos, medicação antiinflamatória.

Algumas plantas, inclusive agave, Euphorbia marginata, coroa de cristo, calêndula do pântano e erva-ciática, contêm uma seiva irritante que pode causar queimadura na pele.

Finalmente, há plantas que contêm fototoxinas – substâncias que aumentam a sensibilidade da pele à luz ultravioleta que pode resultar em queimaduras solares sérias. Entre essas estão a mil-folhas, a arruda e a cenoura selvagem.

Tradução: Deborah Weinberg

The New York Times
http://www.nytimes.com/

Maravilhas da Natureza

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Maravilhas da Natureza

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Repetindo os erros da crise asiática

Philip Bowring
Em Hong Kong

No décimo aniversário do início da crise econômica asiática, muito se escreve sobre as lições que os países que foram atingidos pela crise não aprenderam. Está na hora de ver que lições o resto do mundo não aprendeu, ou onde aprendeu as coisas erradas.

Começando pelo último ponto, houve comentários no Ocidente de que os enormes superávits cambiais que a Ásia vem acumulando são uma reação exagerada à crise, resultando em crescimento econômico lento e um acúmulo de liquidez que anuncia novos problemas. Esses países também são acusados de ter deixado de entender os perigos das taxas de câmbio fixas ou inadequadas. As moedas que eram fortes demais antes de 1997 hoje estariam fracas demais, levando a uma explosão de liquidez.

Isso é factualmente errado. As taxas de câmbio fixas ou deliberadamente fracas da Ásia e seu enorme superávit de conta corrente se concentram no Japão, China, Taiwan e Hong Kong – os quatro países que tiveram uma recessão, mas não um desastre, dez anos atrás.

Dos países realmente atingidos pela crise, Tailândia, Coréia do Sul e Indonésia hoje têm moedas razoavelmente flutuantes, todas as quais se valorizaram rapidamente nos últimos três anos. Todos têm economias com crescimento de 4% a 5% e, embora tenham superávits de conta corrente, nenhum é grande em relação ao PIB. Pode haver espaço para um crescimento mais rápido, especialmente em investimentos, nos países que sofreram crises sem riscos de excesso.

A quarta grande vítima da crise, a Malásia, tem um superávit de conta corrente excessivo de mais de 10% do PIB, mas isso se deve mais ao fato de ser um exportador de petróleo do que a uma política econômica excessivamente cautelosa. A Malásia também está gradualmente liberalizando seus fluxos de capital e permitindo que sua moeda valorize.

As Bolsas nesses países estão pujantes, mas continuam relativamente baratas. Os índices de crescimento na região estão muito abaixo dos níveis anteriores à crise, mas isso tem muito a ver com as mudanças demográficas e a concorrência por investimentos da China. Por outro lado, a Índia, com seus déficits, sua presunção e seu mercado mobiliário muito caro, parece o Sudeste Asiático antes de 1997.

Se for preciso apontar o dedo, não deve ser para o Japão, Taiwan, China e Hong Kong. Todos são culpados na questão da moeda e todos têm superávit de conta corrente inchados. Mas nenhum pode acusar a China de crescimento econômico inadequado. O Japão e Taiwan vêm crescendo mais depressa que a União Européia, apesar de dados demográficos ainda piores, e os mercados de ativos ainda estão longe de seus picos do início da década de 1990.

Em 1997, os países asiáticos foram acusados de fazer empréstimos excessivos e de assimetria monetária. Mas agora é a Ásia que deve ser acusada por emprestar excessivamente aos países ocidentais. No entanto, não é que os países asiáticos necessariamente queiram comprar dólares ou libras, apesar dos déficits americano e britânico, para manter suas moedas baratas para ajudar as exportações. A arquitetura financeira internacional virtualmente os obriga a fazê-lo. Os credores têm pouca influência e provavelmente não terão mais em breve, diante da determinação da Europa a se agarrar à liderança do Fundo Monetário Internacional.

A dívida familiar excessiva é uma característica mais dos EUA, da Grã-Bretanha, da Austrália e de outras economias desenvolvidas, assim como a dívida corporativa excessiva foi da Ásia em 1997. Os desajustes monetários são mais difíceis de avaliar, devido à falta de dados, mas devem existir em escala maciça. Antes da crise asiática muitos analistas, incluindo economistas do FMI, criticavam duramente o tamanho da dívida de curto prazo asiática.

A fragilidade das informações que contribuíram para a escalada da crise asiática foi nada comparada à névoa de informação que cerca os credores e mutuários de hoje nas indústrias de fundo hedge e capitais privados. Os mercados financeiros asiáticos de então eram modelos de transparência comparados aos de hoje.

Mesmo aqueles que, como nós, advertiram em meados da década de 90 sobre os perigos dos excessos asiáticos ficaram surpresos com a velocidade e a ferocidade dos eventos de 1997. Isso torna ainda mais preocupante que os centros financeiros globais vejam criticamente como a Ásia lidou com os efeitos da crise, mas adotem exatamente o tipo de práticas que causaram a queda da Ásia.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Herald Tribune
http://www.iht.com/pages/index.php