Monthly Archives: maio 2007

Grande sertão

Há 55 anos, o escritor João Guimarães Rosa fazia uma viagem pelo interior de Minas Gerais. Além de lembranças, trouxe personagens

João Correia Filho

Algumas viagens entram para a história. Outras entram também para a literatura. Foi o que aconteceu com o escritor João Guimarães Rosa, quando, em maio de 1952, há exatos 55 anos, se lançou numa empreitada pelo sertão mineiro que marcaria sua vida e sua obra.

Acompanhado de oito vaqueiros e levando 300 cabeças de gado, percorreu em dez dias os 240 quilômetros que separam Três Marias e Araçaí, na região central de Minas Gerais, sua terra natal. Trazia amarrada ao pescoço uma caderneta, onde anotava tudo que via e ouvia – as conversas com os vaqueiros, as sensações, as dificuldades e tudo que brotasse daquele mundo que ele reencontrava depois de anos vivendo como diplomata no exterior.

As cadernetas, hoje parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, foram reunidas em dois diários, que Rosa chamou de A Boiada 1 e A Boiada 2. As anotações seriam utilizadas como elementos de suas próximas obras – entre elas, Corpo de Baile (lançado em 1956), Tutaméia (de 1967) e Grande Sertão: Veredas (1956).

No dia 16 de maio, o escritor chegava à fazenda Sirga, de seu primo Francisco Moreira, em Três Marias. Três dias mais tarde, a boiada partiria para a viagem, fazendo seu pouso em várias fazendas e vilarejos da região.

Rosa fez questão de acompanhar o dia-a-dia dos vaqueiros em tudo, comendo da mesma comida – carne-seca, toucinho, feijão e arroz com pequi – e dormindo nos mesmos locais. Em Barreiro do Mato, por exemplo, teria dormido dentro de uma grande forma de rapadura, um enorme tacho côncavo, e em vários outros locais passou a noite em colchões de palha de milho, comuns naquela época.

Já próximo a Cordisburgo, cidade em que nasceu e etapa final da viagem, a comitiva teve um encontro com uma equipe da revista O Cruzeiro, que cobria a viagem do já famoso autor de Sagarana, lançado em 1946.

As obras de Rosa possuem uma infinidade de referências diretas e indiretas à viagem de 1952. A principal delas está em Corpo de Baile, mais especificamente na novela “Uma Estória de Amor”, inspirada na vida de Manuel Nardy, um dos oito integrantes da comitiva. Ele aparece transfigurado no personagem de Manuel Jesus Rodrigues, o Manuelzão. As semelhanças vão além do nome: estão em acontecimentos da vida do vaqueiro.

Outro vaqueiro que se destacou durante a viagem foi João Henrique Ribeiro, o Zito. Embora não tenha ficado tão famoso quanto Manuel, era Zito quem seguia o tempo todo ao lado do escritor.

Assumiu as funções de guia e de cozinheiro da tropa e tirava quase todas as dúvidas de Guimarães Rosa. Embora não tenha resultado na criação de um personagem, a relação entre Zito e o escritor também teve seu destaque na obra.

A perspicácia do vaqueiro chamou tanto a atenção de Rosa que, anos mais tarde, ele o homenagearia em Tutaméia, lançado no ano da morte do escritor. Em um dos quatro prefácios, Guimarães Rosa transcreve trechos de conversas com o vaqueiro e elogia sua inteligência e criatividade.

Aventuras na História
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Reformas republicanas e modernizadoras

Uma reforma mais radical e abrangente, que abranja o conjunto do Poder e do Sistema Judiciário brasileiro, adquire enorme urgência diante da revelação do envolvimento de quadros do Judiciário e do Ministério Público com o crime organizado e com a máfia do jogo.

Jeferson Miola

Em duas áreas em que o Estado tem monopólio de atuação vêm se processando reformas de caráter republicano e modernizador. São reformas que se concretizam sem estardalhaços, sem traumas e sobrevivendo aos habituais combates odiosos da oposição contra o governo. E que têm prescindido de mudanças no arcabouço jurídico-constitucional do país, pelo menos no estágio em que se encontram. A forma de condução e a compreensão estratégica de longo prazo dos seus operadores são características que têm assegurado êxito na implementação dessas reformas, imprescindíveis para a nação e para a sociedade brasileira. É o que vem acontecendo em relação à Política Externa e aos assuntos da Justiça, vista sob a jurisdição do Poder Executivo.

A Política Externa brasileira durante o governo Lula girou cento e oitenta graus em relação ao padrão de submissão e alinhamento anterior. E consegue produzir, com isso, resultados favoráveis na diplomacia, na economia e na inserção internacional do Brasil. O Itamaraty soube posicionar o país de maneira altiva e exemplar no concerto das nações, como também reforçou a postura de independência na sustentação de interesses e posições brasileiras no exterior. Esta política restituiu a plena soberania do Brasil e inaugurou uma nova fase da Política Externa enquanto vetor para a construção do desenvolvimento interno autônomo, sustentável e, por isso, instrumento poderoso para a diminuição das imensas disparidades regionais, econômicas e sociais.

Por outro lado, a reforma na Justiça que está em andamento, delimitada no espaço de poder institucional do Ministério da Justiça, vem conseguindo alterar profundamente a cultura e o modo de funcionamento do Estado brasileiro, outrora prisioneiro das oligarquias e setores dominantes.

Concebida e iniciada por Márcio Tomáz Bastos e continuada com a mesma visão pelo ministro Tarso Genro, a reforma da Justiça brasileira avança em questões importantes como a valorização e profissionalização dos agentes públicos, no aperfeiçoamento dos serviços e ações operacionais e na realização de maciços investimentos em tecnologia, especialização, informações e inteligência.

Atualmente a Polícia Federal e as demais instituições de combate ao crime possuem independência e autonomia para o enfrentamento à criminalidade – muito diferente da atuação no passado, quando eram instrumentalizadas para perseguir e atacar adversários de governos de plantão e proteger os representantes do poder. Não são impostos limites à investigação e à apuração de fatos e indícios, independentemente da posição social, política ou econômica das pessoas investigadas.

Apesar do anacronismo do Estado brasileiro em muitas áreas em que direitos civis ainda não foram concretizados, na Justiça se observam avanços importantes que modernizam o país, tornando crível a idéia de República entre nós. É perceptível, neste sentido, o esforço de qualificação das estruturas permanentes do Estado para a proteção da sociedade nos campos dos direitos econômicos, de consumo e de cidadania; para o combate à corrupção, lavagem de dinheiro e ao crime organizado; e em políticas de segurança pública.

Em tempos não muito distantes, seriam impensáveis as operações deflagradas pela Polícia Federal [bem articuladas institucionalmente com vários órgãos] como a Operação Navalha, descortinando os meandros do poder e os escaninhos da corrupção, mesmo que se deparando com o envolvimento de altos agentes públicos com o crime.

No país que deseduca o povo e que tolhe a esperança na justiça social em razão de privilégios, de impunidades, de favorecimentos e de vantagens, as mudanças realizadas na área da Justiça podem ser consideradas revolucionárias, e serão de valor transcendental para a sedimentação de um sentimento de justiça e de igualdade no Brasil.

Uma reforma mais radical e abrangente, que abranja o conjunto do Poder e do Sistema Judiciário brasileiro – que já era considerada inadiável -, adquire enorme urgência diante da revelação do envolvimento de quadros do Judiciário e do Ministério Público com o crime organizado e com a máfia do jogo. Não realizá-la significaria renunciar à idéia de que é possível o país se conciliar com a Justiça.

Jeferson Miola, integrante do Instituto de Debates, Estudos e Alternativas de Porto Alegre (Idea), foi coordenador-executivo do 5º Fórum Social Mundial.

Carta Maior
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As seqüelas da política cambial

ALTAMIRO BORGES

Apesar de o presidente Lula ter afirmado em sua recente entrevista coletiva que não está preocupado com a queda do dólar e que manterá o cambio flutuante, crescem os temores no governo e na sociedade sobre os efeitos deletérios, imediatos e futuros, das políticas monetária e cambial adotadas pelo ortodoxo Banco Central. “[A queda do dólar] é boa para uns e ruim para outros”, desconversa Lula. Nas últimas semanas, a moeda estadunidense despencou para menos de R$ 2, a menor cotação desde 2001. No acumulado deste ano, ela já sofreu perdas de quase 9%, resultando numa supervalorização da moeda brasileira, o real.

De fato, aparentemente, a política cambial tem reflexos contraditórios, como insiste o presidente. Por um lado, a desvalorização do dólar faz, num primeiro momento, cair os preços de alguns produtos e serviços, como o dos eletroeletrônicos importados e das passagens aéreas, o que alivia o bolso dos consumidores – em especial, das camadas ricas e médias da sociedade. “As viagens para conhecer a Disneylândia, que foram esquecidas pela classe média por um tempo, voltaram a ficar em alta”, festeja o jornal Folha de S.Paulo. O “derretimento” do dólar também atrai o capital estrangeiro para o país, tanto que a Bolsa de Valores fechou com forte oscilação na semana passada, registrando novos recordes na sua pontuação.

“Os custos excedem as vantagens”

Por outro lado, porém, a valorização artificial do real prejudica as exportações brasileiras e afeta toda a cadeia produtiva. Setores industriais como dos têxteis, calçados e outros perdem competitividade no país e no exterior – o que, a curto prazo, pode aumentar a quebradeira das empresas e o índice de desemprego. Além disso, a atual política cambial serve ao capital financeiro especulativo, que migra para o Brasil em busca do lucro fácil proporcionado pelas mais altas taxas de juros do planeta. Pesando estes dois lados da “moeda”, fica a pergunta: a quem interessa esta política? O economista Paulo Nogueira Batista Jr., que hoje inclusive faz parte do governo, não vacila em afirmar que ela não serve aos interesses nacionais.

“Alguns consideram a queda do dólar inevitável ou bem-vinda. Ela refletiria a situação internacional e a melhoria dos ‘fundamentos’ da economia brasileira. Muitos lembram que o real forte ajuda a controlar a inflação… Esses argumentos têm alguma validade. Mas parece estar ficando cada vez mais claro que os custos da valorização excedem suas vantagens”. Entre outros efeitos negativos, ele pontua: “a valorização persistente e crescente do real tende a provocar a erosão gradual das contas externas”; “prejudica o nível de atividade, especialmente no setor industrial”; “deprime a competitividade das exportações e estimula a substituição da produção nacional por importações”; e “estimula a migração de investimento de empresas brasileiras para o exterior”. Em síntese, ele serve para exportar “produção, investimentos e empregos”.

“Um alerta ao Banco Central”

As seqüelas do cambio flutuante já se fizeram sentir no ano passado. Segundo estudos do Ministério do Trabalho, então sob comando de Luiz Marinho, o dólar barato afetou o mercado de trabalho, reduzindo a abertura de vagas. A criação de empregos com carteira assinada em 2006 foi menor do que em 2005 – 4,7% contra 5%. A valorização do real atrapalhou as vendas de produtos dentro e fora do país e reduziu a necessidade das empresas reforçarem a produção com mais contratações. “O nível de emprego poderia ter sido melhor se o juro tivesse caído mais e o câmbio estivesse num patamar que estimulasse exportações e inibisse importações”, criticou, na época, Luiz Marinho, amigo intimo do “tranqüilo” presidente Lula.

“Esse resultado é um alerta para a equipe econômica do governo, especialmente para o Banco Central. O câmbio prejudica a indústria nacional e está afetando a tomada de decisões do empresariado”, completou o ex-ministro. No mesmo período, em janeiro passado, a Confederação Nacional das Indústrias divulgou um estudo que corroborava as suas criticas. A pesquisa apurou que as fábricas já estavam se adaptando à queda do dólar, mas à custa da redução dos investimentos – principalmente os voltados à exportação, que já não despertavam tanto apetite do patronato. O estudo revelou que, para as grandes empresas, o preço do dólar é tido como o segundo maior problema para os seus negócios – depois dos “impostos”.

Ortodoxos ainda dão as cartas

O debate sobre a política cambial sempre gerou polêmicas no interior do governo Lula e, inclusive, já fez algumas vítimas. Recentemente, o Ministério da Fazenda demitiu o seu secretário de Política Econômica, Julio Sérgio Gomes de Almeida, que denunciou, numa entrevista ao O Estado de S.Paulo, que a queda do dólar está “dissolvendo as relações interindustriais e as relações de mercado” e provocando “a dispensa de 350 trabalhadores”. Pressionado pelo Banco Central, o ministro Guido Mantega, que nos bastidores até manifesta temores com a valorização do real, exonerou o seu auxiliar – em mais uma vitória do banqueiro Henrique Meireles. Há quase um “pacto do silêncio” no ministério para inibir críticas à política cambial.

O que predomina na equipe econômica do governo, apesar dos espaços conquistados pelos heterodoxos neste início de segundo mandato, ainda é a visão ortodoxa. O Banco Central é o bunker destes adoradores do “deus-mercado”. Para eles, juros e cambio devem ser regulados pela “mão invisível do mercado”, sem maiores intervenções do Estado. Como desvenda o economista Ricardo Carneiro, os neoliberais negam a “centralidade desses preços-chave na definição da trajetória de longo prazo da economia, em aspectos essenciais como o ritmo de crescimento e a distribuição da renda. Mais do que isto, diante de uma gestão ortodoxa da economia neste campo, as demais políticas terminam por assumir um caráter compensatório”.

Economia sob graves riscos

Em contraposição ao recente triunfalismo do governo, Ricardo Carneiro avalia que as políticas monetária e cambial trarão duras seqüelas. “As taxas de juros elevadas constituem, via de regra, um desestimulo ao investimento produtivo… Já a flutuação exacerbada da taxa de câmbio, produto da crescente liberalização e da abertura financeira, constitui um outro óbice. As experiências exitosas de desenvolvimento mostram a relevância de taxas de câmbio estáveis para definir estratégias consistentes de inserção na economia globalizada, pela sua importância na atração do investimento direto estrangeiro e na competitividade das exportações. Com a alta volatilidade da taxa de câmbio não há cálculo de longo prazo possível”.

No mesmo rumo das preocupações, Elias Jabbour também considera que o câmbio flexível compromete o futuro da economia brasileira. De forma irônica, debocha dos que festejam a queda do dólar. “Os arraiais do entreguismo – dentro e fora de governo – estão em festa. ‘Viva o real forte’. Mais parece um bacanal à custa da independência nacional”. Para ele, essa política agrava a desindustrialização e desnacionalização do país. Ele questiona até os efeitos positivos dos investimentos do PAC. “Quem serão os beneficiados, as cadeias produtivas nacionais ou internacionais? As encomendas de equipamentos serão feitas aonde? Os empregos gerados no Brasil serão restritos às atividades como da construção civil?”. Em virtude do atual câmbio, ele afirma que “o PAC pode significar uma grande janela de transferência monetária ao exterior”.

Estudioso da experiência econômica chinesa, Jabbour lembra que “a manutenção de uma taxa de câmbio desvalorizada foi certamente o fôlego que transformou, não somente as suas empresas, mas tais países em grandes agentes nos assuntos internacionais”. Além da desindustrialização e desnacionalização, o câmbio flutuante ainda geraria pesado ônus aos cofres públicos. “Há uma diuturna campanha contra a previdência pública por conta de um ‘prejuízo’ no ano passado na cifra de R$ 10 bilhões. Por outro lado, não é tratado como ‘prejuízo’ e sim como ‘operações de salvamento’ as constantes intervenções (em apenas um dia o BC comprou cerca de US$ 2 bilhões) no sentido de conter a queda do dólar. Impressionante!”, ironiza.

Um câmbio a serviço da nação

Diante destes e outros efeitos destrutivos, já pressentidos por vários setores da economia, os ortodoxos do Banco Central afirmam que não há alternativas. Mas isto não é uma fatalidade. Paulo Nogueira lembra de três medidas que poderiam evitar o desastre futuro. “A primeira providência teria que ser uma aceleração do ritmo de queda dos juros. A taxa de juro no Brasil continua fora dos padrões internacionais e contribui poderosamente para impulsionar a valorização do real”. A segunda seria “evitar as metas ambiciosas de inflação e até flexibilizar alguns aspectos do regime de metas”. E, numa proposta ainda mais arrojada, o novo integrante do Ministério da Fazenda defende que “sempre existe a possibilidade de erguer barreiras tributárias e de outra natureza contra a entrada de capitais especulativos ou de curto prazo”.

Para Elias Jabbour, a política cambial deve servir aos interesses nacionais e não ficar à mercê do mercado. “Nossa verdade cambial deve ser pautada pela adoção de um câmbio – nada neutro – com capacidade de promoção do desenvolvimento. Um câmbio que conduz ao mais completo emprego dos potenciais ociosas da nossa econômica. Um câmbio como instrumento de planejamento econômico e não como expressão da ação especulativa. Um câmbio que nos aproxime não dos custos visíveis e sim dos custos sociais”. Caso não vingue uma política ativa, soberana e planejada do Estado, o cambio continuará sendo forte entrave à aceleração do crescimento da economia e, provavelmente, ajudará a empacar o PAC.

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “As encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição).

Metade de negros em pesquisa tem ancestral europeu

Estudo aponta predominância de europeus nas linhagens paternas

Carolina Glycerio e Silvia Salek

SÃO PAULO E LONDRES – Uma análise genética de um grupo de 120 negros brasileiros indicou que metade deles tem pelo menos um ancestral europeu por parte de pai.

No estudo, liderado pelo geneticista Sérgio Pena, professor titular de bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foram analisados os cromossomos Y dos 120 indivíduos em busca do ancestral paterno mais distante de cada um deles.

O cromossomo Y é passado de pai para filho sem sofrer mudanças, a não ser em casos de mutação. Ou seja, o Y de alguém que vive hoje no Brasil pode ser idêntico ao de um português que viveu no Algarve três séculos atrás ou ao de um africano trazido como escravo da África Ocidental no século 16.

Comparando o cromossomo Y dos 120 brasileiros de São Paulo com as informações de um banco com dados sobre populações de todo o mundo, os pesquisadores conseguiram identificar a origem do ancestral mais distante de cada um no grupo.

Apesar da pele negra, esses parentes distantes de 60 indivíduos (50%) vieram da Europa. Saíram da África os ancestrais de 58 (48%) e da própria América, apenas 2 (1,6%).

Para Sérgio Pena, esse estudo confirma as conclusões de suas pesquisas anteriores sobre as origens da população brasileira que mostram que a cor da pele é um “péssimo indicador de ancestralidade” porque ela representa uma parte ínfima do código genético humano.

“Com exceção de imigrantes de primeira ou segunda geração, não existe nenhum brasileiro que não carregue um pouco de genética africana e ameríndia”, afirmou o geneticista, em entrevista à BBC Brasil.

Ancestral materna

Os números se invertem quando o foco é a ancestralidade materna, rastreada pelo DNA mitocondrial – uma outra parte do DNA que homens e mulheres herdam da mãe e que também atravessa gerações sem sofrer mudanças, salvo em casos de mutação.

Essa análise revelou que, por parte de mãe, 102 (85%) dos 120 estudados têm conjuntos de seqüências genéticas (haplogrupos) tipicamente africanos.

Apenas quatro (2,5%) dos negros que fizeram parte da pesquisa têm uma ancestral materna proveniente da Europa e 14 (12,5%), da América.

Para Sérgio Pena, os resultados demonstram a “assimetria sexual” nos cruzamentos que deram origem ao povo brasileiro – com uma predominância de europeus nas linhagens paternas e uma maior distribuição nas linhagens maternas entre africanas, ameríndias e, em menor grau, européias.

É a confirmação genética dos indícios históricos de que nos tempos da colônia prevaleciam os relacionamentos sexuais entre os colonizadores europeus – que vinham em grupos de muitos homens e poucas mulheres – e as mulheres nativas (ameríndias) ou trazidas como escravas da África.

Romance X violência

O historiador Manolo Florentino, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reconhece o desequilíbrio sexual destacado por Pena e acrescenta que, entre os portugueses que vinham para o Brasil, a proporção era de oito ou nove homens para cada mulher.

Por outro lado, Florentino refuta a idéia de que grande parte do povo brasileiro tem origem num relacionamento forçado entre o colonizador e a índia ou a escrava.

“A miscigenação brasileira tem muito mais a ver com o português pobre que interage matrimonialmente e sexualmente com as mulheres negras do que propriamente com homens de elite mantendo relações sexuais com mulheres pobres negras escravizadas”, afirma o historiador.

Seu argumento é que a maior parte dos portugueses que vinha para cá era de pobres aventureiros que saíam do norte de Portugal e, ao chegar aqui, geralmente sem família, se relacionavam com as índias e africanas.

“É muito mais uma história que reúne pobres amantes de cores diferentes do que violência e estupro, como uma certa vertente quer fazer passar.”

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Jornal Estado de S. Paulo
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O valor da notícia

A imprensa de qualidade desempenha um papel de liderança: rádio e TVs dependem de temas e contribuições provenientes do jornalismo “argumentativo”

JÜRGEN HABERMAS

Semanas atrás, a página de economia do jornal alemão “Die Zeit” assustou seus leitores com a manchete “O quarto poder corre perigo?”. Tratava-se da notícia alarmante de que o “Süddeutsche Zeitung” rumava para um futuro econômico de incertezas.
A maioria dos acionistas quer se ver livre do jornal; caso as coisas se encaminhem para um leilão, é possível que um dos dois bons diários supra-regionais da Alemanha [o outro é o "Frankfurter Allgemeine"] caia nas mãos de investidores privados, fundos de investimento ou conglomerados de mídia.
Haverá quem diga: “Business as usual” [negócios, como sempre]. O que poderia haver de alarmante no fato de que os proprietários queiram fazer uso de seu direito de se desfazer de seus negócios, sejam quais forem seus motivos?
A crise dos jornais, desencadeada no começo de 2002 pelo colapso do mercado publicitário, ficou para trás -no “Süddeutsche Zeitung” e em outros órgãos de imprensa da mesma dimensão. As famílias que agora se dispõem a vender sua participação detêm 62,5% das ações e escolheram um momento propício.
Apesar da concorrência digital e dos novos hábitos de leitura, os lucros vêm aumentando.
Deixando de lado a boa conjuntura econômica, os lucros se devem sobretudo a medidas de racionalização com impacto direto sobre o desempenho e a margem de manobra das redações. Notícias bombásticas à maneira do jornalismo norte-americano ditam a tendência atual.
Assim, por exemplo, o “Boston Globe”, um dos poucos jornais de centro-esquerda dos EUA, teve que renunciar a todos os seus correspondentes no estrangeiro, enquanto os grandes encouraçados da imprensa nacional -como o “Washington Post” e o “New York Times”- temem a capitulação diante de fundos ou conglomerados ávidos por “sanear” jornais em vista de taxas de lucro descabidas; no caso do “Los Angeles Times”, esse já é fato consumado.

Jugo do lucro
Há três semanas, o “Die Zeit” voltou à carga, falando de um “ataque de Wall Street à imprensa dos EUA”.
O que há por trás desse tipo de manchete? Certamente, o temor de que os mercados não façam justiça à dupla função que a imprensa de qualidade até hoje desempenhou: atender à demanda por informação e formação, sem comprometer taxas de lucro aceitáveis.
Mas os lucros em alta não serão uma confirmação de que jornais “enxutos” satisfazem melhor os desejos de seus consumidores?
Conceitos vagos como “profissional”, “arrojado” ou “sério” não servem apenas para velar a preeminência concedida ao leitor adulto, que sabe o que quer?
A imprensa terá o direito de, sob o pretexto da “qualidade”, cercear a liberdade de escolha de seus leitores?
Por que forçar a leitura de reportagens áridas em vez de “infotainment” [fusão, em inglês, das palavras "information" e "entertainment", informação e entretenimento], comentários objetivos e argumentos circunstanciados, ao invés de encenações apelativas de personalidades e acontecimentos?
A objeção que se manifesta nessas questões se baseia na suposição polêmica de que os consumidores escolhem com autonomia, segundo suas preferências pessoais. Mas essa espécie de verdade acaciana certamente induz ao erro quando se trata de uma mercadoria tão peculiar quanto a informação política e cultural. Pois essa mercadoria a um só tempo atende e transforma as preferências de seus consumidores.

Formação em massa
Não há dúvida de que leitores, ouvintes e espectadores seguem suas preferências ao fazer uso dos meios de comunicação: querem se divertir ou se distrair, querem se informar ou tomar parte em debates públicos.
Mas, quando se interessam por um programa político ou cultural, quando recebem a “bênção matinal realista” da leitura de jornais, todos se expõem -com alguma medida de autopaternalismo- a um processo de aprendizado de resultados imprevisíveis.
No curso de uma leitura, novas preferências, convicções ou juízos podem se formar.
A metapreferência que orienta uma tal leitura se dirige então àquelas prioridades que se exprimem na auto-imagem de um jornalismo independente e que fundamentam o prestígio da imprensa de qualidade.
A polêmica sobre o caráter peculiar da mercadoria “informação e formação” faz pensar no slogan que fez furor quando do surgimento da televisão: essa nova mídia não seria mais que “uma torradeira com imagens”.
Pensava-se que a produção e o consumo de programas televisivos podiam ser deixados inteiramente a cargo do mercado. Desde então, as empresas de comunicação cuidam de fornecer programas para seus espectadores enquanto vendem a atenção do público a seus anunciantes.
Sempre que imperou sem peias, esse modo de organização causou danos políticos e culturais. O sistema “híbrido” de televisão [na Alemanha] é uma tentativa de remediar o mal.
E as leis locais, as decisões de tribunais federais e os princípios de programação das emissoras públicas refletem a noção de que as mídias eletrônicas não devem satisfazer apenas as necessidades mais comercializáveis dos consumidores.
Ouvintes e espectadores não são apenas consumidores mas também cidadãos com direito à participação cultural, à observação da vida política e à voz na formação de opinião.
Com base nesses direitos, não é o caso de deixar programas voltados a tais necessidades fundamentais da população à mercê da conveniência publicitária ou do apoio de patrocinadores.
Mais ainda, as taxas que financiam esses serviços também não devem variar ao sabor dos orçamentos locais, isto é, da conjuntura econômica -é o que argumentam algumas emissoras num processo contra os governos locais, em trâmite no Supremo Tribunal Federal alemão.
A idéia de uma reserva pública voltada para a mídia eletrônica pode ser interessante.
Mas algo assim poderia servir de modelo para a organização de jornais e revistas “sérios”, como o “Süddeutsche Zeitung” ou o “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, “Die Zeit” ou “Der Spiegel”, para não falar das revistas mensais mais ambiciosas?

Efeito político
O resultado de um estudo sobre fluxos de comunicação pode ter interesse nesse contexto: ao menos no âmbito da comunicação política -ou seja, para o leitor enquanto cidadão-, a imprensa de qualidade desempenha um papel de “liderança”: o noticiário político do rádio e da televisão depende em larga escala dos temas e das contribuições provenientes do jornalismo “argumentativo”.
Suponhamos que uma dessas redações caia nas mãos de investidores que trabalham com lucros rápidos e prazos curtos: a reestruturação e o enxugamento nesses lugares estratégicos não tardarão a pôr em risco os padrões jornalísticos e a afetar em cheio a vida política.
Pois a comunicação pública perde vitalidade discursiva quando lhe falta informação fundamentada ou discussão vivaz, coisas que não se obtêm sem custos.
A esfera pública não teria mais como opor resistência às tendências populistas e não seria mais capaz de desempenhar funções que lhe cabem no quadro de um Estado democrático de Direito.
Vivemos em sociedades pluralistas. O processo de decisão democrático só pode ultrapassar as cisões profundas entre visões de mundo opostas se houver algum vínculo legitimador aos olhos de todos os cidadãos.
O processo de decisão deve conjugar inclusão (isto é, a participação universal em pé de igualdade) e condução discursiva do conflito de opiniões.
Pois tão-somente a discussão deliberativa fundamenta a suposição de que, no longo prazo, os processos democráticos propiciam resultados mais ou menos racionais.
A formação de opinião por via democrática tem uma dimensão epistêmica, uma vez que envolve a crítica de afirmações e juízos errôneos.
Esse é o papel de uma esfera pública dotada de vitalidade discursiva.
Esse papel se evidencia intuitivamente tão logo se tenha em mente a diferença entre o conflito público de opiniões concorrentes e a divulgação de pesquisas de opinião.
Opiniões que se formam por meio de discussão e polêmica são, a despeito de toda dissonância, filtradas por informações e argumentos, enquanto as pesquisas de opinião apenas invocam opiniões latentes em estado bruto ou inerte.

Mediação
É claro que os fluxos díspares de comunicação numa esfera pública dominada pelos meios de comunicação de massa não permitem o tipo de discussão ou consulta regrada que tem lugar em tribunais ou sessões parlamentares.
Mas isso também não é necessário, pois a esfera pública é apenas um dos elos relevantes: ela faz as vezes de mediação entre discursos e discussões nos foros do Estado, de um lado, e as conversas episódicas ou informais de eleitores potenciais, de outro.
A esfera pública dá sua contribuição à legitimação democrática da ação estatal ao selecionar temas de relevância política, elabora-os polemicamente e os vincula a correntes de opinião divergentes.
Por essa via, a comunicação pública estimula e orienta a formação da opinião e do voto, ao mesmo tempo em que exige transparência e prontidão do sistema político.
Sem o impulso de uma imprensa voltada à formação de opinião, capaz de fornecer informação confiável e comentário preciso, a esfera pública não tem como produzir essa energia.
Quando se trata de gás, eletricidade ou água, o Estado tem a obrigação de prover as necessidades energéticas da população.
Por que não seria igualmente obrigado a prover essa outra espécie de “energia”, sem a qual o próprio Estado democrático pode acabar avariado?
O Estado não comete nenhuma “falha sistêmica” quando intervém em casos específicos para tentar preservar esse bem público que é a imprensa de qualidade.

Melhores resultados
O problema é apenas de ordem pragmática: como se alcançam os melhores resultados?
Em certo momento, o governo [do Estado] de Hessen concedeu ao jornal “Frankfurter Rundschau” um crédito subsidiado -sem sucesso. Mas as subvenções diretas são apenas um dos meios disponíveis.
Outros caminhos são as fundações com participação pública ou a renúncia fiscal para famílias envolvidas no ramo.
Nenhuma dessas soluções está livre de problemas. E ainda é preciso aclimatar a idéia de subvenções a jornais e revistas.
Em termos históricos, a idéia de regular o mercado da imprensa tem alguma coisa de contra-intuitivo. Afinal, o mercado foi outrora o cenário em que idéias subversivas puderam se emancipar da repressão estatal.
Mas o mercado só é capaz de desempenhar essa função se as determinações econômicas não penetrarem nos poros dos conteúdos culturais e políticos dispersos no mercado.
Agora, como antes, a crítica adorniana da indústria cultural constitui o ponto central. A observação cética é indispensável, pois nenhuma democracia pode se dar ao luxo de uma falha de mercado nesse setor.

JÜRGEN HABERMAS (1929) é um dos principais filósofos e sociólogos vivos. Colaborou entre 1955 e 1959 com Adorno e Horkheimer no Instituto de Pesquisa Social, em Frankfurt, e lecionou nas universidades de Heidelberg e de Frankfurt. Entre suas obras de maior impacto traduzidas para o português estão “Mudança Estrutural na Esfera Pública”, “Direito e Democracia” e “Consciência Moral e Agir Comunicativo” (Tempo Brasileiro). Este texto foi publicado originalmente no jornal alemão “Süddeutsche Zeitung”. Tradução de Samuel Titan Jr.

Jornal Folha de S. Paulo
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Atividade de lazer vira profissão

Provas oferecem opções antes vistas mais como diversão, como desenhista de animação

TOMÁS CHIAVERINI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Foi-se o tempo em que passar tardes em frente ao videogame, em ensaios com colegas da banda ou em encontros para rabiscar desenhos animados eram atividades restritas às horas de lazer.
O que era brincadeira agora virou profissão. Cursos que formam criadores de jogos digitais, desenhistas de animação, músicos de rock e outros profissionais de carreiras pouco tradicionais vêm se tornando cada vez mais comuns nas instituições brasileiras.
Com ofertas de vagas no meio do ano e carga horária reduzida, eles já têm mais demanda do que graduações como direito ou administração em certas universidades.
Boa parte dessas novidades, como jogos digitais e produção de cachaça, surge na onda de crescimento das graduações tecnológicas. Entre 2000 e 2007, aumentou em cerca de 900% o número desse tipo de curso que recebeu aval do ministério para funcionar, segundo dados do Inep (instituto de pesquisas do MEC).
De todos os cursos que oferecem vestibular no meio do ano, pelo menos 300 são graduações tecnológicas. Entre os cursos incomuns, há ainda vários -produtor e músico de rock, escritor e agente literário- classificados como seqüenciais.

Preocupação
Alguns pais ainda vêem com desconfiança o fato de os filhos escolherem uma carreira não tão comum.
Esse foi o caso da mãe de Morian Marroni, 27, que se preocupou quando ele resolveu deixar o emprego e mudar-se de Nova Odessa para São Paulo para ingressar na primeira turma do curso de graduação tecnológica em design de animação da Anhembi Morumbi.
Marroni conta que sempre quis trabalhar com desenhos animados e que, quando descobriu que havia um novo curso na área, não teve dúvidas. “Meu pai me apoiou na hora, mas minha mãe ficou um pouco chateada”, afirma.

Incomuns
Uma das instituições em que os cursos “diferentões” superaram a maioria dos tradicionais em número de inscrições no vestibular foi a Unisinos (Universidade do Vale dos Sinos), no Rio Grande do Sul.
Na instituição, entre todos os cursos superiores oferecidos no final do ano passado, o mais procurado foi o seqüencial de músico e produtor de rock. A graduação tecnológica em jogos digitais ficou entre as quatro mais procuradas.
Para a diretora de graduação da universidade, Paula Caleffi, 42, o sucesso desses cursos inusitados deve-se ao fato de eles serem criados para suprir demandas específicas do mercado de trabalho. “As organizações vêm nos procurar em busca de pessoas que se formaram nessas áreas específicas.”

Jornal Folha de S. Paulo
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A polícia que abala a República

Oito lições para entender a ´nova Polícia Federal´ e a grita dos incluídos na Operação Navalha

Fred Melo Paiva

Sérgio Sérvulo da Cunha, 72, é um senhor de sobrancelhas espessas e discurso com começo, meio e fim. Gosta de ser coerente e deixar isso claro. Acredita ter tomado parte em uma pequena revolução empreendida pelo ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, o que inclui o aperfeiçoamento do trabalho da Polícia Federal. Mas, quando viu a bancada petista do Senado apoiar uma emenda que estabelecia a súmula vinculante nos procedimentos do Superior Tribunal Federal, pulou fora. Na ocasião, era chefe de gabinete do Ministério. Antes, porém, tinha escrito um livro contra o expediente que restringe os recursos a serem julgados no STF.
Sentiu-se desconfortável. E saiu elogiado por todo o mundo. ‘Doutor Sérgio’ é advogado formado em Direito e Filosofia pela USP. Foi procurador do Estado entre 1963 e 1991. Autor de uma dezena de obras jurídicas, foi assessor da Presidência do Conselho da OAB e advogado de acusação contra o presidente Fernando Collor. Na quintafeira passada, ele recebeu a reportagem do Aliás para uma entrevista sobre a PF e a Operação Navalha. A seguir, os melhores trechos da conversa.

1. O povo gosta da PF – antes dela, Direito Penal era apenas para os três Ps (preto, pobre, prostituta)
‘A admiração do povo pelo trabalho da Polícia Federal é um fato extremamente positivo para o Brasil. Passamos por isso em alguns episódios pontuais, o dos fiscais do Sarney. Não foi, no entanto, um fenômeno que tivesse a mesma durabilidade desse que ocorre agora com relação à PF. Em poucos momentos da vida política brasileira podemos perceber uma identidade entre povo e governo. O comum é o contrário, e nosso déficit de cidadania vem em grande parte daí. Sempre vimos o poder político como opressor.
Sempre tivemos uma idéia muito negativa do serviço público.
Apenas aqui e ali vemos ilhas de excelência. Isso, porém, jamais aconteceu com relação à atividade policial, porque são muito recentes as marcas deixadas pela ditadura militar. A PF era alguma coisa que vegetava dentro da burocracia do governo e que somente aparecia nos noticiários de forma negativa. Agora a população está vendo que a PF trabalha. Mais do que isso, a PF tem ajudado a acabar com a máxima que diz que o Direito Penal é para os três Ps – o preto, o pobre, a prostituta. Claro que nada é perfeito e tudo precisa ser aperfeiçoado. Mas, no geral, a instituição constitui um fato novo e realmente positivo na história do Brasil.

2. A grita dos incluídos – se houve excesso na operação, que se puna
‘Só o tempo e as investigações vão permitir a distinção entre interesses privados, direitos feridos, legalidades e ilegalidades. Se houve excessos na Operação Navalha, é preciso que se surpreenda os culpados. De todo modo, aqueles que se sentiram atingidos terão o direito de se defender. ‘O ministro da Justiça, Tarso Genro, é um quadro do PT.
Dessa forma, não seria justificada a crítica de que a PF pode ter protegido o partido na Operação Navalha? Tudo se pode dizer sobre uma situação quando se quer polemizar. Até agora, não há fatos que dão razão à acusação. E a biografia de Tarso Genro não autoriza ilações nesse sentido.

3. A PF gosta de aparecer na televisão – mas ninguém se lembra do rosto de seu diretor, Paulo Lacerda
‘As ações da PF parecem muito bem cuidadas do ponto de vista da apresentação, sobretudo para o público televisivo. Isso talvez faça parte de uma estratégia de comunicação, mas é verdade que aqui e ali há atitudes que são desagradáveis e desnecessárias, como o fato de se algemarem os presos preventivos.
Todo o resto me parece pedagógico e dentro de critérios aceitáveis. Você jamais viu um delegado se promovendo pessoalmente com essas coisas. Aliás, será que alguém se lembra da imagem do famoso (diretor-geral da PF) Paulo Lacerda? Ele quase não aparece.

4. Uma polícia (quase) profissional – ponto para o presidente, o ministro e o delegado
‘Não é errado falarmos em uma nova Polícia Federal. Ela começa a ocorrer com a chegada do presidente Lula, o ministro Márcio Thomaz Bastos e o delegado Paulo Lacerda. O trabalho deles foi importante para criar as práticas, as estruturas e as mentalidades que são necessárias para a implantação de uma tradição de excelência. A Polícia Federal toma muito cuidado com a formação de seus quadros. Todos os delegados e agentes passam por um concurso muito bem organizado e por uma escola de polícia realmente capaz de prepará-los. Muitos desses policiais federais desenvolveram um compromisso ético com o exercício de sua atividade profissional. Sentem orgulho de fazer parte da instituição. ‘O policial federal tem importância dentro do que está fazendo, goza de apoio da estrutura.
No serviço público, sua remuneração está em um nível superior. Quando ele passa no concurso para a PF, já vem com uma melhor formação. Na imagem do povo, a polícia estava associada exclusivamente à criminalidade – como na célebre música do Chico Buarque: ´Chame o ladrão, chame o ladrão!´. Para mudar isso, no que diz respeito à PF, foi preciso mudar a política que vinha sendo implantada.

5. A PF prende, o Judiciário solta – porque o rico nunca fica preso
‘O fato de a PF prender e o Judiciário soltar não é questão que aflorou agora. Já existia antes, na Polícia e na Justiça dos estados. Não podemos imaginar, com isso, que os policiais federais sempre prendem certo e que o Judiciário sempre solta errado. Até porque, entre a prisão, o inquérito e o processo, existem várias fases do procedimento que estão sujeitas a prazos. Quando a Polícia Federal prende alguém não significa que esse alguém esteja previamente condenado. É necessário abrir oportunidade para a sua defesa, e é possível que, no curso do processo, as provas não corroborem as suspeitas. Essas questões que, na visão mais popular, podem parecer sutilezas jurídicas fazem parte dos direitos fundamentais, protegidos pela Constituição e pelos Direitos Humanos. E este é inclusive um aspecto discutível quando se observa as diligências da PF.
Se vivemos hoje em um universo da imagem, e se essas pessoas são apresentadas publicamente, então isso leva a pensar que todas são criminosas, o que nem sempre se verifica depois – afinal, a Polícia prende apenas suspeitos. ‘É por culpa das leis que quem tem dinheiro nunca fica preso? Não. Acontece que, entre as leis e a sua efetiva aplicação, vai uma distância grande.
Nossa prática processual é medieval, fundada no papelório. O juiz que tem um processo para julgar jamais trata esse processo como sendo algo que merecesse uma atenção única e privilegiada. Digo isso não apenas porque na vara dele estão correndo outros 2 mil processos, que ele não tem tempo nem condições materiais de atender.
Mas digo isso também porque, com relação aos serviços da Justiça, os profissionais que lá estão não trabalham com o mesmo cuidado que os profissionais privados. Se qualquer um da atividade privada enxergasse o exercício de suas funções, digamos, com o mesmo grau de tranqüilidade que em geral o servidor público conduz um trabalho, ele teria de fechar os seus negócios no final do primeiro mês. Minha vida profissional decorreu em grande parte dentro do serviço público. Então não estou aqui para fazer o julgamento desse tipo de mentalidade.
Mas, sem dúvida, é ela, em grande parte, a responsável pela ineficiência do Judiciário e dos seus sistemas de controle. Por isso é preciso elogiar o Conselho Nacional de Justiça. Antes dele, nunca houve efetivamente no Brasil o controle da atividade jurisdicional. Porque, a princípio, quem controla o Judiciário é a cidadania, a opinião pública. Note que a Contituição diz que todos os processos devem ser públicos. Mas, nas corregedorias, eles são sempre sigilosos, de modo a proteger a dignidade pessoal do servidor público – e também a ineficiência e a prevaricação. Some-se a isso o fato de que no Brasil o povo jamais concebeu o Judiciário como algo tão importante quanto os outros dois poderes. ‘A eficiência da Polícia Federal é apenas razoável. Todos os serviços por ela prestados precisam ser aperfeiçoados. Veja que seu efetivo é de cerca de 12 mil policiais, enquanto a correspondente argentina tem mais de três vezes esse número. Mas estamos caminhando, e o aperfeiçoamento é um processo que se vai fazendo simultaneamente, observando o dinamismo interno mas também o externo – os pontos de contato com os outros poderes e com a opinião pública. Agora, enquanto o servidor público do Judiciário não passar pela profissionalização que os policiais federais passaram, continuaremos patinando.

6. Uma polícia independente do Poder Executivo – assim deveria ser
‘A PF está subordinada ao Executivo. Mas, se olharmos para trás, podemos ver o quanto progredimos. No Império, e até na Primeira República, a atividade policial dependia das autoridades locais ou estaduais. Isso não é bom. É importante que haja uma total independência dessas forças com relação aos níveis superiores da administração. Isso serve especialmente para a Polícia Federal, mas deveria acontecer também nos estados. Deve haver, sem dúvida, uma subordinação hierárquica e administrativa – mas uma total independência funcional, nos moldes da que existe no Ministério Público, que também está encartado dentro da administração. Mesmo o Judiciário atua assim: faz parte do serviço público mas é independente. ‘Em tese, sou contra a proposta de subordinação da PF ao Judiciário. E por razões muito simples: por um lado, o Judiciário funciona muito mal; por outro, tem demonstrado tendência acentuada ao abuso de poder. O nosso Judiciário recebeu da Constituição – e também da emenda 45 – poderes tais e tantos que hoje produzem desequilíbrio entre o Executivo, o Legislativo e o próprio Judiciário. Então, é claro que não se deve dar mais poderes a ele, que tecnicamente já é um poder controlador. Antes, o que devemos fazer é controlar o exercício dos poderes que esse Judiciário já recebeu.

7. A manipulação política da PF – como evitar a tentação
‘A manipulação da Polícia é sempre uma probabilidade – e na história brasileira, infelizmente, foi sempre fato. Isso aconteceu até muito recentemente. Lembre-se do que ocorreu com a candidatura de Roseana Sarney à Presidência da República. A criação e a valorização de tradições republicanas é a melhor maneira de evitar a tentação. Ao Poder Judiciário cabe exercer o controle jurisdicional sobre todas as demais atividades do governo. Nesse sentido, aliás, o Judiciário tende equivocadamente a abusar em alguns pontos e a manter uma reserva exagerada em outros.

8. Nenhuma novidade – o governo sempre peca por ação ou omissão
‘A PF é mais eficiente porque os governos estão sempre sendo ameaçados por uma maior instrumentalização por parte da criminalidade. Percebemos isso muito bem nos episódios do PCC em São Paulo, assim como nos fatos revelados agora pela Operação Navalha. Acontece que nunca houve a possibilidade de uma independência e neutralidade que se pusesse a investigar dentro do próprio governo – do Executivo, do Judiciário, do Legislativo. No Brasil, a atividade do governo sempre foi vegetativamente criminosa, por omissão e por ação. Operações como a Navalha estão pondo a nu alguma coisa que é histórica dentro do nosso comportamento político. O que está sendo mostrado agora sempre foi assim. Sempre existiu essa espécie de máfia, com suas regras próprias e consensuais. A dificuldade de se romper com isso é uma só: os sistemas legais, dentro dos quais operam essas máfias, também possuem suas regras funcionais. Se você rompe com determinadas peças, como ele vai funcionar? Como os políticos serão eleitos, se não tiverem certas facilidades? Todos sabemos que eleições custam caro. Então, como vamos eleger os nossos políticos? É por esses motivos que a classe política, vamos dizer, tem uma certa elasticidade ética com relação à sua própria atuação. ‘O foco da PF é menos o crime de colarinho branco e mais a corrupção governamental. Talvez isso decorra do fato de Paulo Lacerda ter se especializado na apuração de crimes financeiros. Além disso, este era um terreno inexplorado, virgem, onde pulula o ilícito. Para quem vive em Brasília, essa questão estava afrontando os olhos, de tal modo que, se a Polícia não fizesse nada, um dia até as pedras começariam a gritar.’

Jornal Estado de S. Paulo
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À BEIRA DE UMA NOVA CRISE MONETÁRIA MUNDIAL?

Robert Kurz

Por muito paradoxal que isso possa parecer, a globalização do capital está em contradição com o dinheiro. Pois, tal como não pode haver um Estado mundial, tão pouco pode haver um dinheiro imediatamente mundial. Só pode haver dinheiro na forma de moeda, fundada numa nação ou numa região mundial, regulada pelos respectivos bancos emissores. Até à primeira guerra mundial isso não constituía problema, porque as moedas mais importantes continuavam ligadas ao padrão-ouro e por isso as taxas de câmbio eram bastante estáveis. Quando o padrão-ouro universal se desmoronou, na época das guerras mundiais e das crises económicas, deixou de haver qualquer medida para a relação entre as moedas e assim o mercado mundial entrou em colapso. Foi em 1944, na estância americana de desportos de Inverno, Bretton Woods, que se estabeleceram os fundamentos para uma ordem económica mundial no pós-guerra. O dólar, como nova moeda de reserva e de comércio mundial, devia possibilitar um sistema de câmbios fixos. A estabilidade desse sistema estava garantida pelo facto de o dólar ser a única moeda convertível em ouro.

Nesta base cresceram rapidamente o comércio mundial e a exportação de capital. Todavia, com isso os Estados Unidos perderam a sua superioridade absoluta como estado industrial e exportador. As reservas de ouro de Fort Knox derreteram-se. Em 1973 o sistema de Bretton Woods teve que ser denunciado. As taxas de câmbio entraram em oscilações incontroláveis. Esta crise monetária mundial apenas pode salvar-se do descalabro porque, apesar de tudo, o dólar manteve-se como moeda mundial. Agora, porém, o seu único fundamento irracional era a posição dos Estados Unidos como potência militar mundial (“porto seguro”). Quando nos anos oitenta o déficit da balança de transacções dos Estados Unidos transbordou, sobretudo face ao Japão, o dólar ameaçou cair em flutuações incontroláveis, o que ainda foi travado pelos acordos dos principais bancos emissores ocidentais. Mas o problema continuou a enfunar-se. Entretanto, já não há nenhuma região do mundo que não apresente crescente superavit na balança de transacções com os Estados Unidos. Depois do Japão e dos tigres asiáticos, é sobretudo a máquina exportadora chinesa, construída pelos conglomerados transnacionais, que impulsiona o enorme volante do circuito do déficit do Pacífico e com ele a conjuntura mundial.

O déficit da balança de transacções dos Estados Unidos quase duplicou desde os anos oitenta. Segundo os manuais de economia política este “desequilíbrio” sem paralelo tem de ser corrigido com um cataclismo nas relações das taxas de câmbio. Porém, com uma desvalorização drástica do dólar e uma correspondente valorização das moedas asiáticas, não só se deteria abruptamente o rolo compressor das exportações, mas também se desvalorizariam as astronómicas reservas de divisas do Japão e da China; e seria de esperar um surto inflacionista nos Estados Unidos. É por isso que as moedas asiáticas são mantidas artificialmente baixas com intervenções dos bancos emissores e assim se vai andando. Porém o euro sobe, tal como o preço do ouro. Até agora estes sinais de alarme têm sido menosprezados. Uma vez que o euro não tem “cobertura”, nem de ouro, nem de uma máquina militar superior, continua a ser mais que duvidoso que ele possa substituir o dólar como moeda de reserva e de comércio mundial (mesmo isso seria acompanhado de turbulências incalculáveis). Quanto mais tempo se protelar a correcção das taxas de câmbio na Ásia, mais provável se torna uma “aterragem brusca” do dólar e com ela uma nova crise monetária mundial incontrolável. E assim cairia também por terra a novíssima e esplendorosa retoma.

Original VOR EINER NEUEN WELTWÄHRUNGSKRISE? in www.exit-online.org. Publicado em Neues Deutschland, 04.05.2007

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A nova era do gelo: Conversando com a Rússia – ou não

Ângela Merkel deixou a reunião de cúpula entre a UE e a Rússia, na semana passada, desapontada. A postura agressiva de Vladimir Putin está dividindo a Europa e o governo alemão sobre a melhor forma de se dirigir a Moscou

Ralf Beste, Konstantin von Hammerstein, Ralf Neukirch e Matthias Schepp

Vladimir Putin não estava ali para uma conversa educada. Com uma expressão facial congelada, o presidente russo sentou-se à mesa muito antes de sua convidada, Ângela Merkel. O gesto deixou claro que a reunião era sua, e ele estabeleceria o tom do encontro em Samara, no Rio Volga, na semana passada.

Putin não fez esforço algum para sorrir quando encontrou Merkel – que atualmente detém a presidência rotativa da UE – e o presidente da Comissão Européia, José Manuel Barroso, na sexta-feira (18/5). As duas delegações sentaram-se frente a frente, lembrando os negociadores de armas durante a Guerra Fria, em um pavilhão construído especialmente para o encontro. O piso de mármore, as colunas altas e o enorme candelabro deram a impressão da grandiosidade imperial que Putin tentou reclamar para a Rússia.

O ambiente estava totalmente gélido quando o anfitrião e seus convidados dirigiram-se à imprensa, ao meio dia. “Estou um pouco preocupada que algumas pessoas tiveram dificuldades de chegar aqui”, disse Merkel, levando Putin a comprimir os lábios. Naquela manhã, a polícia em Moscou tinha impedido o campeão mundial de xadrez e político da oposição na Rússia Garry Kasparov de voar para Samara, onde lideraria um protesto.

Era como se uma tempestade estivesse fermentando em torno do Volga. Putin eriçou-se e partiu para o ataque. E as prisões de manifestantes na Alemanha, que estavam planejando um protesto durante a reunião do G8 no mês que vem? Depois perguntou por que a UE não havia protestado após a morte de um manifestante russo, diante da polícia estoniana. O homem estava protestando contra a transferência de uma estátua que homenageava a luta da União Soviética contra a Alemanha nazista.

Putin não é mais aquele líder que se dirigiu ao Parlamento alemão em setembro de 2001. Na época, ele prometeu manter “o espírito de liberdade e humanismo” enquanto perseguia a amizade com a Europa. “A Rússia sempre teve sentimentos especiais pela Alemanha”, dissera.

Mas Putin em 2007 personifica o movimento imperial russo por maior poder. O país quer ter um papel de liderança mundial, e Putin escolheu conscientemente abandonar suas palavras calmantes e gestos conciliatórios para mostrar sua verdadeira natureza de defensor implacável dos interesses russos.

Ele aprendeu a usar as vastas fontes de energia do país como arma política. Ele também tenta dividir a UE sempre que pode. Ex-Estados comunistas, como Polônia, Lituânia e Estônia, são colocados sob pressão com sanções comerciais, enquanto clientes importantes de energia, como Alemanha e Hungria, são mimados e atendidos.

Na reunião de cúpula, Merkel enfrentou um presidente russo que fazia pressão por seus próprios interesses. Enquanto falava com a chanceler, ele repetidamente referiu-se ao caos amplo sob seu predecessor, Boris Yeltsin, e de como restaurara a ordem.

Depois, o presidente russo passou a descrever o que Moscou vê como hipocrisia Ocidental. Ele disse que não deu ordens para que Kasparov fosse mantido longe do local da reunião. Mas a polícia às vezes faz coisas sem informar ao governo. Isso deve estar claro para a chanceler, disse Putin com o um sorriso. Ele também perguntou à Merkel por que deveria se preocupar em conversar com os americanos. Talvez digam que querem dialogar com a Rússia, mas, no final, querem agir unilateralmente – como aconteceu com os planos para o escudo americano de defesa de mísseis, que se estenderá até a fronteira da Rússia, ou com Kosovo, onde Washington está pressionando pela independência da Sérvia (antiga amiga da Rússia). Merkel apenas disse que valia a pena manter abertas as linhas de comunicação.

Quando o avião do governo alemão deixou Samara, no início da tarde, a chanceler mal conseguia esconder sua frustração. O que importava era que os dois lados tinham discutido suas diferentes posições, disse. Por esta lógica, o fato de manter negociações era uma conquista. Cada ataque de Putin, portanto seria prova de que o relacionamento com a Europa está funcionando – ou de que um relacionamento existe.

O ministro de relações exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, que também estava no avião, deu sua interpretação da situação. Ele falou de considerações de longo prazo. A discussão, disse ele, se provaria um episódio menor inofensivo. Mas havia também a chance da atual presidência da UE pela Alemanha entrar para a história como o início de uma nova era do gelo na Europa.

Uma parceria mais privilegiada?

Enquanto Putin avança com sua nova política externa, mais ou menos sem oposição, os críticos e defensores russos na Europa estão travando uma amarga batalha sobre como melhor envolver o grande poder a Leste. Os alemães, que tentam forjar laços especiais com Moscou desde quando Otto von Bismarck era chanceler, estão sendo particularmente avaliados.

“A Alemanha é refém de sua ambição de querer ter uma parceria mais privilegiada com a Rússia do que os outros Estados da UE”, criticou Jacek Saryusz-Wolski, membro polonês do comitê de relações exteriores do Parlamento Europeu, na sexta-feira.

A divisão, entretanto, não é apenas na Europa, mas também se apresenta dentro da grande coalizão alemã de cristãos democratas conservadores (CDU) e social-democratas de centro esquerda (SPD). Enquanto o ex-chanceler Gerhard Schröder (SPD) elogia assiduamente a “estabilidade e confiabilidade” do regime de Putin, Karl-Theodor zu Guttenberg, principal nome da política externa do partido irmão do CDU na Bavária, o CSU, não vê nada além de perigo: “A assim chamada ‘nova Ostpolitik’ do Ministério de Relações Exteriores é uma quimera.”

O líder parlamentar do SPD, Peter Struck, irrita seus próprios parceiros na coalizão quando recomenda manter uma eqüidistância entre a Rússia e os EUA: “Temos que ter a mesma distância entre nós e os EUA, de um lado, e a Rússia do outro.”

Martin Schulz, membro do SPD do parlamento Europeu, até sugere que os EUA devem ser culpados pelas pressões crescente com Moscou: “Surge a pergunta se o curso de confronto dos EUA contra a Rússia não será uma reação a uma possível aproximação com a UE.”

No ministério de Merkel, defensores das duas abordagens conflitantes em relação à Rússia contiveram-se. Mas isso não significa que ela concorda com seu próprio ministro responsável por esta importante questão de política externa alemã. Merkel é cristã democrata criada na Alemanha Oriental sob um regime do qual manteve distância e compartilha a desconfiança da Rússia demonstrada por muitos de seus colegas na UE no antigo bloco oriental.

Merkel não quer “eqüidistância” entre Moscou e Washington, e não tem tempo para a amizade que Putin manteve com Schröder. Mas seu atual ministro de relações exteriores, Steinmeier, foi chefe de gabinete de Schröder e vê os laços de Berlim com a Rússia no contexto da administração anterior. Ele não tem a fé total de Schröder em Putin -”A Rússia não é um modelo de democracia”, diz Steinmeier- mas acredita que a proximidade de Schröder com Moscou formou parte da atual fundação para a política externa alemã.

Um artigo do Ministério de Relações Exteriores alemão intitulado “reaproximação pelo engajamento” recomenda perseguir uma linha que ligue “irreversivelmente” a UE e a Rússia – envolvendo inclusive operações militares conjuntas e uma zona de livre comércio do Atlântico ao Pacífico. Mas esse artigo agora parece ultrapassado; até membros pró-Rússia do governo alemão temem que sua política de cooperação esteja fadada ao fracasso. “A situação mudou”, diz Steinmeier.

Superestimando a UE

Um problema é que Moscou não quer aceitar a ampliação da Otan para países que antes pertenciam ao Pacto de Varsóvia. Moscou simplesmente ainda não se habituou à perda do status de superpotência. É também uma questão de geopolítica: Putin e seus generais acreditam que o sistema antimísseis americano chegará perto da Rússia por razões estratégicas – para espionar o vasto país e para trazer os dois países do Leste europeu (Polônia e República Checa, que abrigarão elementos do escudo) para mais perto da estratégia militar americana.

E a Ucrânia, ex-Estado soviético de 47 milhões de habitantes, é o maior prêmio na nova disputa geopolítica. Washington apoiou a chamada Revolução Laranja, que levou ao poder o presidente pró-EUA Viktor Yuschenko. O presidente americano, George W. Bush, enviou centenas de assessores e gastou milhões. Yushchenko quer até mesmo levar a Ucrânia para a UE e a Otan, o que seria um pesadelo para Putin e seu governo.

Ao longo da fronteira Sul da Rússia, onde a barriga do país foi tornada vulnerável pela guerra na Tchetchênia, Putin foi forçado a ver a minúscula nação de a Geórgia aumentar seu exército com a ajuda americana. O presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili, fortemente pró-EUA, é tão irritante para Putin quanto o presidente venezuelano Hugo Chávez é para Bush. É uma mosca na sopa de Moscou.

E na região rica em gás e petróleo entre a Rússia e a China, tanto os EUA quanto a Europa estão tentando liberar a Ásia Central das garras de Moscou, construindo oleodutos que evitam o solo russo. Mas até agora tiveram apenas sucesso limitado: há duas semanas, Putin convenceu o Turcomenistão e o Cazaquistão a entrarem em um novo acordo de oleoduto de 700 milhões de euros (em torno de R$ 2 bilhões) que levará gás natural ao longo da costa do mar Cáspio até a Rússia.

Foi um forte golpe contra os esforços da UE de conquistar um pé na Ásia Central. O novo projeto roubará um dos fornecedores mais impotantes do oleoduto Nabucco, patrocinado pela UE – que deve entregar gás para o sudeste da Europa pela Turquia – enquanto o Turcomenistão coopera com Moscou.

Isso prenuncia o fim da meta de Steinmeier de maior engajamento da UE com a Rússia e de envolvimento na esfera de influência de Moscou na Ásia Central – ao menos por enquanto.

A estratégia russa de Steinmeier baseia-se, afinal, em uma estimação exagerada das possibilidades geopolíticas da UE. A assinatura de um novo acordo de parceria entre a Rússia e a UE continua suspensa, e o fornecimento de energia – por décadas o elo vital entre Moscou e a Europa Ocidental – tornou-se ponto de crescente dissensão.

Agora Steinmeier está tentando salvar o que pode. Antes da reunião de Samara ele voou para Moscou para uma palestra de três horas e levou uma passagem do discurso de Putin para parlamentares alemães em setembro de 2001. “Em relação à integração européia, não simplesmente apoiamos o processo, mas o vemos com esperança”, dissera Putin na época.

O ministro de relações exteriores queria ver se o presidente russo se mantinha firme nessa posição. Putin tentou assegurar-lhe que sim, evidentemente. Steinmeier não estava presente no Bundestag alemão no dia em que Putin fizera seu discurso, mas Merkel sim. Estava sentada na segunda fileira, determinada a não se impressionar pelas palavras de um ex-espião soviético.

Quando o Parlamento levantou-se para aplaudir o final do discurso de Putin, ela passou pelas fileiras de legisladores conservadores com um toque de sarcasmo. Um legislador ainda se lembra de como ela sussurrou: “Agradecimentos à KGB”.

Tradução: Deborah Weinberg

Der Spiegel

Carta Aberta à Comunidade

Movimento em defesa do Colégio da FSA

A comissão de pais, alunos, professores e funcionários do Colégio da Fundação Santo André, entidade mantenedora – Fundação Santo André, sem fins lucrativos, VEM a público ESCLARECER que foi surpreendida com a decisão da não abertura da 1.ª Série do Ensino Médio, em janeiro de 2007, às vésperas do início do ano letivo, mesmo tendo 36 alunos matriculados, que foram transferidos para outras escolas. Esta decisão foi tomada pela Câmara de Orçamento e Finanças da Instituição e referendada pelo Conselho Diretor da FSA. Vale lembrar que, por motivos políticos, nos anos 80, o Colégio da Fundação Santo André foi fechado, sendo reaberto em 1990 com a proposta de oferecer à Comunidade um ensino de qualidade, preocupado com a formação integral do aluno, preparando-o para a vida e para o mundo do trabalho, com mensalidades acessíveis, possibilitando o ingresso de alunos provenientes das redes pública e privada. Hoje, novamente, o Colégio da Fundação Santo André sofre a ameaça de ser fechado!

Até a presente data, não houve um posicionamento oficial por parte da Reitoria em relação às atividades para o próximo ano, o que nos leva a concluir que não há garantia de manutenção do funcionamento do Colégio para 2008! Portanto, convidamos todos, que de alguma forma participaram conosco nestes 17 anos, a integrarem este movimento.

- Pela continuidade de funcionamento do Colégio da Fundação Santo André,
- Pela manutenção de uma escola pública democrática e participativa,
- Pelo respeito a toda comunidade escolar.

PARTICIPE DA ASSEMBLÉIA A SER REALIZADA EM 16/06/07
ÀS 9h NO AUDITÓRIO DA CÂMARA MUNICIPAL DE SANTO ANDRÉ

MOVIMENTO S.O.S. FUNDAÇÃO SANTO ANDRÉ

Vale pensar no Etanol a longo prazo?

É preciso encontrar uma forma de usar a palha do milho, e não os seus grãos

por Matthew L. Wald

O terminal do aeroporto em Sioux Falls, Dakota do Sul, parece igual a qualquer outro, até se chegar à esteira de bagagem. Entre os carrosséis está um carro de corrida ao estilo fórmula Indy, coberto por selos que indicam que ele roda a etanol. Ao se aproximar dos balcões de aluguel de carro, você verá um aviso dizendo aos clientes que não abasteçam os carros alugados com E85, a mistura de ultra-etanol vendida localmente, pois não foram projetados para eles e o combustível arruinaria seus motores.

Esse é o território do etanol, o centro do esforço americano para transformar carboidratos em hidrocarbonetos. Os EUA caíram na farra do etanol. Em agosto de 2005, o Congresso aprovou um grande pacote de energia propondo a produção de mais de 28 bilhões de litros de etanol por ano até 2012, em comparação aos 15 bilhões de litros -naquele ano, para ajudar a substituir o combustível importado. Analistas do setor disseram que o país queimará tal quantidade de etanol muito antes do prazo, graças aos subsídios e incentivos fiscais do governo – e especialmente se os preços do petróleo permanecerem altos –, pois o custo para converter matéria vegetal em etanol é inferior aos US$ 2,50 por galão que a gasolina atingiu ao final de 2005.

De fato, segundo a Associação de Combustíveis Renováveis dos EUA, a previsão para a produção doméstica de etanol era de mais de 19 bilhões de litros em 2006. Tal quantidade é pequena em comparação ao consumo de gasolina e diesel de cerca de 530 bilhões de litros anuais, mas representa um aumento de 50% em um ano. Andrew Karsner, secretário-assistente de energia para eficiência e energia renovável do Departamento de Energia dos EUA (DOE), disse que devido à pressão de mercado exercida pelo alto preço do petróleo, investidores estão se esforçando para construir usinas de etanol. Há um boom do etanol, ele disse, “um pouco parecido com a corrida do petróleo na Pensilvânia nos anos 1850”.

Mas essa corrida vale a pena? Não da forma como produzimos etanol no momento. Todo o etanol vendido comercialmente nos EUA vem de grãos de milho e consome muita energia para ser produzido. Alguns estudos indicam que o refino de um galão desse combustível consome mais energia do que fornece quando queimado. Mesmo as pesquisas positivas mostram apenas um ligeiro ganho líquido de energia. Outra mostra que o ciclo do etanol a partir do milho reduz os gases responsáveis pelo efeito estufa apenas marginalmente ou não o diminui em comparação à gasolina.

O etanol não fará sentido econômico ou ambiental até que os refinadores aperfeiçoem métodos para obtê-lo a partir da celulose, não do milho. A celulose constitui o colmo de um pé de milho e o tronco das árvores e outras plantas como as gramíneas. Mas apesar de os cientistas compreenderem os processos biológicos para converter os açúcares presentes na celulose, as companhias que tentam produzir etanol a partir desses materiais ainda não atingiram viabilidade comercial. A cana-de-açúcar é a fonte vegetal adequada, bem mais rica em açúcares, matéria-prima para o etanol. Mas os EUA não dispõem do clima e de mão-de-obra barata para explorar o produto, como faz o Brasil.

Tornar viável a produção de etanol a partir da celulose exigirá avanços agrícolas e grandes melhorias no processo industrial. De outro modo, o etanol continuará sendo um produto inadequado, com pouco benefício líquido, e os EUA permanecerão dependentes do petróleo estrangeiro.

Renovável? Na Verdade, Não
Grande parte do etanol produzido nos EUA é vendido como uma espécie de aditivo para a gasolina. Ele pode constituir até 10% da mistura, o máximo que os motores convencionais podem suportar sem danos. Em alguns lugares, os motoristas podem encontrar a mistura E85 – 85% de etanol e 15% de gasolina comum sem chumbo. Ela exige motores flex projetados especialmente para tolerá-la. Caso contrário, o etanol corrói os selos do motor e do sistema de combustível. Milhões de veículos têm motores flex (apesar de muitos proprietários não saberem), mas há poucas centenas de lugares que vendem E85 e a rede de oferta do combustível está se expandindo lentamente.

Mesmo assim, a produção de etanol de milho está crescendo em parte devido ao apoio de senadores e deputados de estados rurais. A iniciativa também conta com o suporte de pessoas que não atuam na agricultura e acreditam que o país deve ser menos dependente do petróleo importado. Os defensores argumentam que o etanol é um combustível renovável, pois o milho pode ser cultivado ano após ano. A Associação dos Combustíveis Renováveis afirma que o consumo de 28 bilhões de litros por ano significa 179 milhões de barris a menos de petróleo estrangeiro. Tal nível equivaleria a cerca de 15 dias de importação – um começo, mas não uma cura.

No entanto, o etanol não é tudo aquilo que parece. O primeiro problema é que o barril padrão (159 litros) equivale a cerca de 106 litros de gasolina por conter apenas 80 mil unidades térmicas britânicas (BTU) de energia, contra cerca de 119 mil da gasolina normal sem chumbo. Se você encher o tanque com E85, irá esvaziá-lo 33% mais cedo. Mesmo se um litro de etanol for mais barato na bomba, os motoristas terão de comprar mais litros para percorrer a mesma distância.

Outro problema é que os EUA não possuem alguns recursos para produção de etanol. O país tem milho em abundância, mas fabricar esse combustível exige grandes quantidades de gás natural. Basicamente o etanol combustível é produzido da mesma forma que as bebidas alcoólicas. A levedura se alimenta do açúcar e produz álcool e dióxido de carbono. O resultado é destilado, o álcool é evaporado e então capturado e recondensado. O gás natural é usado para aquecimento em várias etapas. A produção de um galão (3,785 litros) de etanol, com seus 80 mil Btus de energia, atualmente exige cerca de 36 mil BTUs de gás natural.

Nos anos 90, quando o Congresso americano tentou estimular a economia dos estados rurais com leis que encorajavam a produção de mais etanol, o gás natural era barato, custando em média US$ 3 por milhão de BTUs. No ano passado, chegou a US$ 14. Além disso, a maior demanda eleva os preços do gás natural para todos. Apesar de os defensores do etanol afirmarem que ele faz parte de um futuro de energia sustentável, o uso de tanto gás natural pode não ser sustentável, mesmo hoje. A produção americana está caindo e a canadense não é suficiente para acompanhar o aumento do consumo. Ironicamente, para produzir etanol “doméstico”, os EUA terão de importar gás natural de fora da América do Norte.

Como alternativa, alguns produtores de etanol estão queimando carvão, que não se enquadra em nenhuma definição de limpo e renovável. Seu uso libera tanto dióxido de carbono que dirigir um quilômetro com tal etanol seria pior para a mudança climática do que fazer o mesmo com gasolina. Em teoria, uma destilaria poderia produzir calor com energia comprada de uma companhia elétrica mas, para muitas delas, isso significaria queimar mais carvão e gás natural para atender à demanda.

O etanol também exige outras formas de energia. A óbvia é o diesel combustível usado nos caminhões-tanque que o transportam – já que o etanol não é transportado em dutos como a gasolina e o diesel. Os dutos já estão contaminados com água, que não se mistura com a gasolina ou diesel, mas se associa ao etanol, arruinando seu valor como combustível. O diesel também alimenta as máquinas que colhem o milho, que costuma ser fertilizado com produtos químicos produzidos com gás natural.

Essas considerações são fundamentais para o cálculo de um “equilíbrio líquido de energia” para o etanol. Os resultados são alvo de intenso debate. David Pimentel, professor de agricultura da Cornell University, afirmou em 2005 que é necessária mais energia para produzir um galão de etanol que aquela que o combustível produz quando queimado. Os críticos argumentam que Pimentel atribuiu pouco valor aos subprodutos – alguns podem servir como ração para animais, substituindo a necessidade de plantação de milho –, e conferiu ao etanol custos de energia irrelevantes, como o valor do alimento consumido pelos trabalhadores nas produtoras de etanol. Mas o consenso entre os analistas é que, mesmo se o valor da energia líquida do etanol for positivo, a margem é pequena. Naquele mesmo ano, um grande estudo realizado pelo American Institute of Biological Sciences concluiu que o etanol do milho produzia apenas cerca de 10% mais energia do que a necessária para produzi-lo. Tal resultado foi comparado aos 370% de energia gerada a partir da cana-de-açúcar como é colhida no Brasil.

Michael Wang, físico do Centro para Pesquisa de Transporte do Argonne National Laboratory, calculou que a produção de 1 milhão de BTUs de etanol exige 740 mil BTUs de combustíveis fósseis, considerando-se todos os passos da cadeia – fertilizar os campos, colher o milho, destilar o amido em álcool e assim por diante. O etanol é promovido como um produto agrícola, mas é em grande parte um produto de combustíveis fósseis.

O benefício do etanol para o efeito estufa é ainda menor. Na Science de janeiro de 2006, Alexander E. Farrell, um professor de energia e recursos da University of California em Berkeley, declarou que o efeito sobre os gases responsáveis pelo efeito estufa era “ambíguo”: o etanol fabricado com gás natural é marginalmente melhor do que a produção de gasolina para os poluentes responsáveis pelo aquecimento global, mas aquele produzido com carvão é pior. A queima de um galão (3,785 litros) de gasolina libera cerca de 9 kg de dióxido de carbono, contando a contribuição tanto do motor do carro quanto da refinaria. A promoção de uma troca pelo etanol com base na limitação de emissões de gases responsáveis pela mudança climática é enganosa.

Ciclo de Vida ou Ciclo Político?
Infelizmente, considerações sobre a energia líquida e poluição podem não ter tido um grande papel no estabelecimento de um “padrão de energia renovável” para 2012, feito pelo governo federal dos EUA em 2005, ou ao se dar uma isenção fiscal de US$ 0,51 por galão ao etanol. “O Congresso não fez uma análise do ciclo de vida; ele fez uma análise ADM”, disse um funcionário federal. Ele se referia à Archer Daniels Midland, a gigante de produtos agrícolas, que há anos é uma força motriz por trás da política para o etanol.

A análise do ciclo de vida dos combustíveis parece ser uma idéia nova para pessoas que estabelecem a política de energia. Pela primeira vez, no lugar de avaliar o resultado da conversão do BTU de baixo valor para o de alto valor (como carvão em eletricidade ou óleo cru em gasolina) apenas com base no preço, os analistas estão considerando as perdas de energia e emissões de poluentes.

Mas se essas avaliações migrarão para a política é outra história. Por exemplo, uma ampla coalizão de defensores de biocombustíveis, energia eólica e solar formou uma entidade chamada “25 x 25”. Eles desejam que 25% da energia do país venha de fontes renováveis até 2025. Dezenas de membros do Congresso americano apóiam o grupo, mas em uma coletiva de imprensa em 2006, realizada em Washington para apresentar a organização, seus líderes não souberam dizer se energia eólica, solar, etanol ou combustão direta de biomassa seria a maior fonte.

Parte do repentino interesse pelo etanol é, na verdade, uma conseqüência imprevista de um esforço político fracassado para mexer na composição da gasolina. Nos anos 80, alguns estados começaram a exigir certos níveis de oxigênio na gasolina, uma tentativa irrefletida para que os carros queimassem combustível de maneira mais limpa. Em resposta, a maioria das refinarias acrescentou éter metilterciobutílico (MTBE) – e não etanol – à gasolina. Nos anos seguintes, inspetores descobriram que sempre que gasolina vazava no solo, o MTBE – um possível carcinógeno – migrava prontamente para a água potável local.

Na Lei de Energia de 2005, o Congresso eliminou a regra que encorajava o MTBE e as refinarias o abandonaram devido a problemas judiciais potenciais. Mas como precisavam de outro substituto de alta octanagem e temiam novas iniciativas em relação aos níveis de oxigênio, correram para o etanol. As refinarias de petróleo americanas por acaso também estão com pouca capacidade, de forma que a adição do etanol aumentaria o volume de gasolina produzida, adiando a necessidade de construção de novas e caras instalações.

A Palha. Não a Espiga
Outro problema fundamental atormenta o plano para o etanol: o milho. A safra é abundante no momento, mas nem isto está perto de ser suficiente para saciar uma parcela significativa da sede do país por combustível.

Pimentel escreveu em uma carta ao senador John McCain do Arizona, em fevereiro de 2005, que a produção de 12,8 bilhões de litros de etanol estava consumindo cerca de 14% da safra de milho dos EUA. Naquele ritmo, 100% da safra de milho supririam apenas 7% do combustível consumido no país. Mesmo se, de alguma forma, a safra pudesse crescer muito mais, os agricultores americanos nunca cultivariam nada próximo da quantidade necessária para atender à demanda do país. Para os críticos, qualquer aceleração na agricultura deveria ser usada para aumentar a exportação da safra ou alimentar as pessoas que passam fome no mundo.

Uma solução seria derivar o etanol da celulose. A celulose forma o colmo do milho, a haste dos grãos e o corpo de outras plantas não consideradas como culturas, como gramíneas. Há muito mais celulose do que grãos de milho; segundo o Departamento de Agricultura, uma colheita em massa de celulose por todo o país poderia gerar etanol suficiente para substituir um terço da gasolina consumida nos EUA.

Em termos de energia, a obtenção de etanol a partir da celulose em vez do milho tem dupla função. Para o milho, a celulose em si pode ser considerada como quase “gratuita” – requer um pouco de trabalho a mais para colher a palha, mas não exige nenhum fertilizante adicional. Os agricultores dizem que devem deixar parte do colmo, sabugos e folhas para revigorar o solo, mas podem colher grande parte da matéria vegetal. A “Switchgrass” (Panicum virgatum), gramínea favorita para etanol, exige o mínimo de fertilizantes.

Em segundo lugar, quando o açúcar é removido, o material que resta, a lignina, queima bem. A líder norte-americana na pesquisa de etanol de celulose, a Iogen Corporation, em Ottawa, Ontário, prevê que quando construir uma usina em escala comercial, a energia da queima da lignina fornecerá aquecimento suficiente para ferver água para geração de eletricidade. O etanol de celulose começa com refugos agrícolas e termina com dois produtos comercializáveis: combustível para transporte e energia elétrica. As emissões líquidas de dióxido de carbono por quilômetro dirigido são próximas de zero – ou talvez menores que zero, se a eletricidade co-produzida substituir carvão ou gás natural em uma usina de força. A lignina emite dióxido de carbono quando queimada, mas o cultivo de mais milho e switchgrass consomem gases. Os otimistas, incluindo os cientistas na Iogen, prevêem a adaptação do processo para matéria-prima de menor valor, incluindo a conversão da celulose em papel.

Mas ainda restam problemas. O principal deles é o controle dos processos naturais que decompõem a celulose; os açúcares presentes na fibra não podem ser destilados em etanol até estarem livres da lignina. As bactérias ou fungos devem produzir enzimas para realizar o serviço. No entanto, elas vivem em locais inconvenientes, como florestas distantes ou nas entranhas de um cupim, e revelaram ser mais difíceis de controlar do que o levedo. Fazer com que cresçam e se multipliquem dentro do ambiente desconhecido de um tanque de aço inoxidável de 7.500 litros é complicado, assim como manejar sua atividade em escala industrial para sustentar a conversão do etanol dentro desse espaço.
Várias companhias fizeram seus processos funcionar, mas aparentemente não o suficiente para atrair empréstimos.

Certos organismos que estão sendo testados podem melhorar essa possibilidade. A Iogen, que usa um fungo de Guam que os cientistas da empresa chamam de “podridão da floresta”, manipulou o DNA do organismo para aumentar sua produção de enzimas.

Outros pesquisadores estão usando enzimas produzidas por cogumelos. No ano passado, a Honda disse que pode ter encontrado um novo candidato para o trabalho. A Agrivida, em Cambridge, Massachusetts, está tentando modificar geneticamente milho que contém enzimas que aceleram a decomposição em etanol.

No entanto, o secretário de Energia dos EUA, Samuel Bodman, disse em 2006 que a tecnologia poderá se tornar comercialmente viável em cinco anos. Mais empresas devem ser atraídas em parte devido aos incentivos generosos do governo, apesar de ninguém parecer estar pronto para produzir em uma escala comercial.

Enquanto isso, depender do etanol do milho é uma estratégia insustentável: a agricultura nunca será capaz de fornecer uma safra suficiente, a conversão não combate o aquecimento global e socialmente isso pode ser visto como uma forma de tirar comida do prato das pessoas. Os defensores argumentam que o etanol de milho é uma ponte tecnológica para o etanol de celulose, mas por ora é uma ponte para lugar nenhum.

Resumo/ Mito e Realidade
Apesar de os políticos promoverem o etanol produzido a partir do milho cultivado nos EUA como substituto para o petróleo estrangeiro, a conversão faz pouco sentido energético. É necessária uma grande quantidade de combustível fóssil e mesmo se 100% da produção americana de milho fosse destilada em etanol, atenderia apenas a uma pequena fração do combustível consumido no país.

Estudos mostram que a produção de etanol a partir do milho cria quase a mesma quantidade de gases do efeito estufa que a de gasolina. A queima do etanol em veículos oferece pouca ou nenhuma redução na poluição.

Derivar etanol da celulose – presente na palha de milho, haste dos grãos e gramíneas – consome menos combustível fóssil do que o etanol do grão de milho. Mas as empresas estão tendo dificuldade para fazer com que as enzimas naturais necessárias para a conversão se multipliquem e trabalhem dentro dos grandes biorreatores necessários para produção em grande escala. Organismos mais promissores estão sendo descobertos; a viabilidade do etanol em longo prazo depende do sucesso deles.

Do campo à estrada: como o combustível é produzido
Muitos passos são necessários para converter petróleo em gasolina e milho em etanol, assim como entregá-los aos postos. Alguns estágios empregam muita energia, consumindo muito combustível fóssil

Etanol de grãos ou cellulose
Os passos iniciais na conversão de milho ou celulose em etanol possuem diferenças significativas. O milho é moído, cozido e amassado antes de entrar em um tanque de fermentação. A celulose é tratada com vapor para expor as fibras que as enzimas então convertem em açúcares, em um biorreator. As empresas ainda estão à procura de biorreações eficientes em grande escala mas, em compensação, a lignina que sobra do processo pode ser queimada para gerar vapor e eletricidade. A destilação das duas matérias-primas deixa resíduos que podem ser usados como base de ração para animais.

Combustível para fazer combustível
Quantidades bem diferentes de combustível fóssil (gás natural, petróleo e carvão) são queimadas para produzir gasolina e etanol, considerando todos os passos da extração ou cultivo à entrega final. Os números são médias obtidas a partir de seis estudos realizados por pesquisadores do California Institute of Technology.

Para conhecer mais
Ethanol fuels: energy balance, economics, and environmental impacts are negative. David Pimentel, em Natural Resources Research, vol. 12, no 2, págs. 127-134, junho de 2003. Disponível em www.ethanol-gec.org/netenergy/neypimentel.pdf

Updates energy and greenhouse gas emissions: results of fuel ethanol. Michael Wang, no XV Simpósio Internacional de Álcoois Combustíveis, 26-28 de setembro de 2005.
Disponível em www.transportation.anl.gov/pdfs/TA/354.pdf

Plan B 2.0: rescuing a planet under stress and a civilization in trouble. Edição atualizada. Lester R. Brown. W.W. Norton, 2006.
Visão do 25X25 para energia renovável: www.25×25.org/

Matthew L. Wald É repórter do The New York Times, no qual escreve sobre temas relacionados à energia desde 1979. Ele já escreveu sobre refino de petróleo, produção de eletricidade, automóveis elétricos e híbridos e poluição do ar. Wald atua em Washington, D.C., onde também acompanha segurança nos transportes e outros assuntos.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

Estudo revela 60 anos de transformações sociais no país

Entre os Censos de 1940 e 2000, a população brasileira cresceu quatro vezes. O Brasil rural tornou-se urbano (31,3% para 81,2% de taxa de urbanização). Nesse período, houve o envelhecimento da população brasileira, que na faixa de 15 a 59 anos, aumentou de 53% para 61,8%. O número de pessoas autodeclaradas pardas aumentou de 21,2% para 38,5%, reflexo do processo de miscigenação racial. Quanto à religião, nesses 60 anos, os evangélicos cresceram de 2,6% para 15,4% da população. O país conseguiu reduzir em cinco vezes a taxa de analfabetismo, que caiu de 56,8% para 12,1%. A taxa de escolarização, entre crianças de 7 a 14 anos, aumentou de 30,6% para 94,5%. Já o percentual de casados cresceu de 42,2% para 49,5%. Os brasileiros natos passaram de 96,6% para 99,6%. No período em foco, agricultura, pecuária e silvicultura, que em 1940 representava 32,6% da população ocupada, declinou para 17,9%, em 2000.

Essas são algumas das conclusões do estudo “Tendências Demográficas: uma análise da população com base nos resultados dos Censos Demográficos de 1940 e 2000”, que será lançado no dia 25 de maio, com informações sobre sexo, idade, cor, religião, nacionalidade, educação, nupcialidade e grupos de atividades econômicas referentes aos dois Censos.

A população do Brasil aumentou, entre 1940 e 2000, quatro vezes, passando de 41,2 milhões para 169,8 milhões de habitantes. Na década de 40, os cinco estados mais populosos do Brasil eram São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Em 2000, a Bahia trocou de posição com o Rio de Janeiro. Em 1940, o município do Rio de Janeiro destacava-se como o de maior população, seguido dos municípios de São Paulo, Recife, Salvador e Porto Alegre. Em 2000, São Paulo era o mais populoso, concentrando 6,1% do efetivo populacional do país. Em 1940, havia equilíbrio entre o número de homens e mulheres (20,6 milhões); em 2000, o contingente feminino (86 milhões) ultrapassou o masculino (83,6 milhões). Ao analisar as razões de sexo, segundo as Grandes Regiões, observou-se que a região Nordeste foi a única que registrou predomínio feminino em 1940, provavelmente em razão da emigração masculina.

Maior crescimento populacional ocorreu no Centro-Oeste e Norte

Em 60 anos, a densidade demográfica1 saltou de 4,8 hab/km2 para 19,9 hab/km2. O Centro-Oeste (de 0,7 para 7,2 hab/km2) apresentou crescimento duas vezes e meia maior que o nacional, seguido pela região Norte (de 0,4 para 3,4 hab/km2), cujo aumento da densidade foi o dobro do nível nacional. De acordo com o estudo, em 1940 havia concentração populacional na faixa litorânea e aglomerados populacionais dispersos pelo interior, especialmente nas regiões Sudeste e Sul, mas já era possível perceber novas manchas de povoamento na Região Centro-Oeste. Sessenta anos após, persistiram as diferenças regionais, por exemplo, densidades demográficas de 3,4 hab/km2, no Norte do país, a 78,3 hab/km2, no Sudeste.

Na região Sudeste, o Rio de Janeiro, com 82 hab/km2 (1940) e 328 hab/km2 (2000), e São Paulo, com 28 hab/km2 (1940) e 149 hab/km2 (2000), apresentam as maiores densidades do país. O estado de Alagoas, tanto em 1940 quanto em 2000, manteve a terceira posição no ranking nacional com 34 hab/km2 (1940) e 101 hab/km2 (2000). Contudo, foram os estados da região Norte que revelaram o maior crescimento, especialmente Rondônia e Roraima, que em 1940 não atingiam 1 hab/km2 e passaram em 2000, para 5 hab/km2 e aproximadamente 2 hab/km2 , respectivamente.

Entre 1940/2000, as maiores taxas de crescimento anuais ocorreram nas regiões Centro-Oeste e Norte (4,1% e 3,6%). Na ótica estadual, as maiores taxas de crescimento registradas foram em Rondônia (8,0%) e Roraima (6,0%), áreas favorecidas por incrementos demográficos da expansão da fronteira agrícola a partir da década de 1970. Já as menores foram observadas nos estados da Paraíba (1,5%) e Minas Gerais (1,7%), em geral, associadas a saldos migratórios negativos.

No período compreendido pelo estudo, o Brasil rural tornou-se urbano. Na década de 40, menos de um terço (31,3%) da população morava nas cidades, enquanto no 2000 já eram 81,2%. O contingente de população urbana, que correspondia a 12,8 milhões de habitantes, em 1940, atingiu 137,9 milhões, no último Censo. Em números absolutos, no entanto, a população rural cresceu de 28,2 milhões para 31,8 milhões de habitantes, entre as duas épocas. No Censo de 1940, o Brasil contabilizava 1.574 municípios. Ao longo dos 60 anos posteriores, foram criados 3.933 municípios, totalizando 5.507. Atualmente, existem 5.564. O grande incremento quanto à criação de municípios incidiu naqueles até cinco mil habitantes. Em 1940, 54,4% dos municípios possuíam população até 20 mil habitantes. Em 2000, foram 73% dos municípios do total.

O declínio da taxa de fecundidade e a redução da mortalidade contribuiu para o estreitamento da base da pirâmide etária brasileira, entre os Censos de 1940/2000, com redução no número de jovens e ampliação dos idosos. Enquanto o contingente de pessoas entre 0 a 14 anos decresceu, no período estudado, de 42,9% da população para 29,6%; na faixa etária de 15 a 59 anos, houve aumento de 53% para 61,8%, bem como entre os idosos (60 anos ou mais), passou de 4,1% para 8,6%. Em relação ao peso dos inativos (crianças, adolescentes e idosos) sobre o segmento populacional potencialmente ativo, no primeiro Censo abordado nesse estudo havia 88,7 inativos para cada 100 pessoas em idade ativa, enquanto em 2000, eram 61,7 inativos.

Miscigenação reduz percentual de brancos e pretos

As pessoas que se auto-declararam como brancas, em 1940, representavam 63,4% da população e, de acordo com o Censo 2000, houve redução para 53,7%. Também decresceu a proporção de pretos (14,6% para 6,2%). Houve grande ganho populacional para as pessoas que se auto-declararam pardas, de 21,2% para 38,5%, influenciado pelo processo de miscigenação racial. Para o Nordeste, foi observada, em 1940, a maior proporção de pretos do País (19,6%). Essa tendência manteve-se também em 2000, entretanto, a proporção caiu para o patamar dos 7,7%. Com a proporção mais significativa de brancos, destacou-se, em 1940, a região Sul, com 89,4%, apresentando também a menor proporção de pretos (6,0%) e pardos (4,3%) do País. Em 2000, a região Sul, manteve a proporção bem elevada de brancos (83,6%). Santa Catarina (94,4%) e Rio Grande do Sul (88,7%) lideravam, no Censo 1940, o percentual de brancos, em razão da imigração, especialmente de alemães, italianos e eslavos. O Censo de 1940 não incluiu os indígenas, que foram contados no Censo 2000: 734 mil em todo território nacional, ou 0,4% dos brasileiros.

Evangélicos aumentaram em todas as regiões

O estudo mostrou uma expressiva redução de católicos apostólicos romanos de 95% para 73,6% da população no período 1940/2000. Enquanto isso, os evangélicos cresceram de 2,6% para 15,4%. O estudo demonstra que, em 1940, 98,9% dos moradores do Nordeste eram católicos e no Censo de 2000, a região também manteve-se com a maior proporção de católicos (79,9%). Em relação aos evangélicos, o Sul apresentava o maior percentual regional (8,9%), enquanto em 2000 esta liderança foi ocupada pela região Norte (19,8%). Entre os estados, Rondônia apresentou um aumento extraordinário entre os evangélicos, no período 1940/2000, chegando a 27,2% da população total. A perda de integrantes católicos no estado também impressiona: -39,8%. Piauí manteve-se como o estado com o maior percentual de católicos entre a década de 40 (99,6%) e o ano 2000 (89,8%).

Em 1940 e 2000 Brasil tinha 16,4 milhões de analfabetos

Comparando-se os Censos de 1940 e 2000, a taxa de analfabetismo de pessoas de 10 anos ou mais de idade, foi reduzida em cinco vezes, passando de 56,8% para 12,1%. Curiosamente, em números absolutos, o país tinha, em 1940, a mesma quantidade de analfabetos que no ano 2000 – 16,4 milhões. Nos dois Censos, persistiram as diferenças regionais. Enquanto o último censo do país (2000) revelou taxas de analfabetismo que oscilavam entre 5,3% para Santa Catarina e 30,1% para Alagoas, há 60 anos, oscilavam entre 34,1% para o Rio de Janeiro e 80,5% para Tocantins. As dez maiores taxas de analfabetismo, em 1940, pertenciam a estados das regiões Norte e Nordeste, com exceção de Goiás (que ocupava a sétima colocação). Este quadro persistiu no ano 2000.

Em 1940, menos de um terço das pessoas entre 7 e 14 anos freqüentava a escola, enquanto em 2000, a taxa de escolarização passou para quase 95% das crianças nessa faixa. Os maiores crescimentos foram observados nas regiões Nordeste, que passou de 18,8% (1940) para 92,9% (2000), e Centro-Oeste, que passou de 20,5% para 95,5%. O baixo nível de escolarização da década de 40 era revelado por taxas que oscilavam entre 9,7%, para o Tocantins, e 54,3%, para o Rio de Janeiro. Em 2000, o Rio Grande do Sul atingiu 97,3% de pessoas de 7 a 14 anos de idade freqüentando escola e o Amazonas detinha a menor taxa de escolarização (83,2%).

Percentual de solteiros caiu e aumentaram as uniões consensuais

Na década de 40, mais da metade das pessoas (51,6%) com 10 anos ou mais eram solteiras, enquanto em 2000 o percentual caiu para aproximadamente um terço (38,5%) da população nesta faixa. No sentido contrário, os casados cresceram de 42,2% para 49,5% da população nesta faixa de idade, e os desquitados e divorciados de 0,2% para 4,1%. O percentual de viúvos caiu de 5,9% para 4,1% neste período. Em 1940 o estado com o maior percentual de solteiros era Amapá (62,1%), enquanto em 2000 era o Piauí (43,3%). Tanto em 1940 quanto em 2000, os homens eram maioria entre os solteiros, sendo que em 1940 a região Norte apresentava proporção significativa de homens solteiros (62,6%). Uma característica revelada pelo Censo de 2000 foi o aumento das uniões consensuais, fato não investigado em 1940. A maior proporção de casados, em 1940, estava no Sudeste (44,6%), enquanto 60 anos mais tarde, o Sul tinha a maior proporção (54,6%).

Japoneses estavam presentes em 9% dos municípios brasileiros em 2000

A distribuição da população do país segundo a nacionalidade, em 1940, revelou que 96,6% eram brasileiros natos, sendo o percentual de estrangeiros de 3,1%. Em 2000, 99,6% eram brasileiros natos. Desde 1940 até os dias de hoje, o maior percentual de imigração ocorreu na década de 50, quando 203,4 mil pessoas chegaram ao país, sendo quase metade (43,6%) desses imigrantes provenientes da Europa. De acordo com o Censo 2000, 9% dos 5.507 municípios tinham japoneses, especialmente nos estados de São Paulo e Paraná; 6,1% dos municípios, portugueses, com destaque para Rio de Janeiro e São Paulo; em 5,1% dos municípios viviam italianos, principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre; 4,4% dos municípios tinham espanhóis, notadamente em São Paulo, no Rio de Janeiro e Salvador; e 3,6% dos municípios tinham alemães, com forte concentração nas capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre.

Mão-de-obra nordestina manteve-se predominantemente rural

Em 1940, 28,9 milhões de pessoas de 10 anos ou mais de idade estavam ocupadas em alguma atividade econômica, contingente que aumentou para 65,6 milhões de pessoas. A agricultura, pecuária e silvicultura em 1940, que representava 32,6% da população ocupada, declinou para praticamente a metade, 17,9% em 2000 e na proporção por sexo as mulheres dobraram a sua participação.

Em 1940, a composição da população por idade assumia característica de uma população jovem e a participação do grupo de 10 a 19 anos na população ocupada era a maior, com 33,7% do total, característica de um país de economia agrícola e de subsistência. O comportamento observado para 2000 revelou que a maior participação estava na faixa etária de 20 a 29 anos.

O estudo observou, ainda, que em 1940, nos estados do Tocantins, Paraíba e Espírito Santo, a proporção de pessoas de 10 anos ou mais de idade ocupadas nas atividades da agricultura, pecuária e silvicultura atingia 40% de sua população total. As menores proporções foram encontradas nos estados pertencente à região Norte, fruto do desenvolvimento das atividades extrativas, e também no Estado do Rio de Janeiro, como resultado da diversificação na absorção da mão-de-obra em outros setores de atividade. Em 2000, os estados pertencentes à região Nordeste mantiveram as primeiras posições nas atividades agrícolas, e Rio de Janeiro e São Paulo as menores, com 2,5% e 5,8%, respectivamente.
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1Quociente entre o volume total de população da área e sua extensão territorial (hab./km2)

Comunicação Social do IBGE
25 de maio de 2007

Instituto Paulo Freire lança obra em homenagem às teorias do educador

No aniversário de dez anos da morte de Paulo Freire, instituto que leva seu nome rememora as teorias pedagógicas freireanas e sua defesa do papel simbólico, políticoe humano de ser professor.

Carta Maior – Natália Suzuki

SÃO PAULO – A metodologia educacional desenvolvida por Paulo Freire ao longo do século XX foi aplicada extensamente não só no Brasil mas também em diversos outros países, principalmente nos da África. Por trazer novas concepções sobre a relação entre educadores e educandos, na década de 60, o seu sistema foi acusado pelo governo militar brasileiro de subverter a ordem.

“Como pessoa, Paulo Freire era um consenso, uma unanimidade. Já a sua obra, não, porque ela não queria agradar a todo mundo. Freire fugia de todas as tendências pedagógicas”, enfatizou Moacir Gadotti, diretor do Instituto Paulo Freire em homenagem realizada nesta quarta-feira (9) em São Paulo, aos dez anos da morte do educador.

Depois do golpe militar em 1964, Paulo Freire foi preso por alguns meses e depois foi obrigado a deixar o Brasil. Durante o seu primeiro exílio no Chile, que durou cinco anos, elaborou inúmeras teses e programas de alfabetização. Foi nessa época também que escreveu a obra Pedagogia do oprimido. Esse trabalho questiona a doutrinação ideológica do aluno por parte dos professores num contexto social permeado de contradições e desigualdades.

Segundo Luiz Carlos de Oliveira, diretor de uma escola pública localizada no bairro da Freguesia do Ó, periferia paulistana, que segue métodos freireanos, “toda a construção de Paulo Freire é revolucionária”. Para ele, suas teorias ajudam “a buscar a autonomia das crianças e dos adolescentes para serem sujeitos dos seus próprios processos”. Oliveira afirma que a sociedade atual reprime esses protagonistas e, muitas vezes, exclui-os do acesso às descobertas e ao conhecimento.

“Numa realidade mais justa, meu pai desejava que tanto o opressor como o oprimido se libertassem do jogo de opressão. Para ele, não havia educação sem diálogo”, lembra Lutgardes Freire, filho caçula do mestre.

O legado de Freire ainda permanece e os seus métodos continuam a ser praticados em inúmeras instituições de ensino por todo o mundo. “Paulo Freire queria realçar a ‘boniteza’ de ser professor e o seu papel simbólico e político, mas, ao mesmo tempo, queria realçar o seu papel humano”, define Gadotti.

A paixão de ensinar
“Paixão é enfermidade da alma, definiu Kant [filósofo alemão]. Para ser revolucionário e transformador, precisa ultrapassar os limites da razão. Precisamos de professores apaixonados para romper com a lamúria e o desencanto”, disse Moacir Gadotti, ao explicar o título do seu livro A Escola e o professor – Paulo Freire e a paixão de ensinar, pré-lançado na homenagem a Paulo Freire em São Paulo.

O livro de Gadotti rediscute as teses freireanas e define a pedagogia de Freire, como sendo “de luta e de esperança”. Este livro é a continuação de outros dois já publicados: Um legado de esperança (2001) e Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido (2005). Segundo o autor, “faltava responder como Paulo Freire entendia o ato de ensinar, hoje em crise. O que é ser professor na ótica de Freire?”, questiona.

Para Gadotti, “ser professor hoje é viver intensamente o seu tempo com consciência e sensibilidade. Não se pode imaginar um futuro para humanidade sem educadores. Os educadores, numa visão emancipadora, não só transformam a informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também formam pessoas”.

A partir do sistema de Freire, o autor procura redefinir o papel do educador e a situá-lo como agente social. Atualmente, são 50 milhões de professores no mundo todo. “Somos organizados e alguma coisa podemos fazer para mudar a ordem das coisas, inclusive mudar o sentido mesmo do que somos e fazemos (…), mas vivemos numa crise profunda da identidade”, afirma o autor em seu livro.

Carta Maior
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A África nos genes do povo brasileiro

Análise de DNA revela regiões que mais alimentaram o tráfico de escravos para o país

Ricardo Zorzetto

Durante pouco mais de três séculos de tráfico negreiro o trecho da África Ocidental que vai do Senegal à Nigéria possivelmente forneceu muito mais escravos ao Brasil do que se imaginava. A proporção de homens e mulheres capturados nessa região e enviados à força para cá pode ter superado – e muito – os 10% do total estimado anos atrás pelos historiadores norte-americanos Herbert Klein e David Eltis, estudiosos do tráfico de escravos no Atlântico. Os argumentos que agora servem de suporte à revisão dos cálculos, em especial para o Sudeste do Brasil, não são apenas históricos, mas genéticos. Analisando a constituição genética de pessoas que vivem em três capitais brasileiras, os geneticistas Sérgio Danilo Pena e Maria Cátira Bortolini estão ajudando a resgatar parte dessa história ainda não de todo esclarecida sobre a origem dos quase 5 milhões de escravos africanos que chegaram aos portos de Rio de Janeiro, Salvador e Recife e contribuíram para a formação do povo brasileiro.

Em dois estudos recém-concluídos a equipe de Pena, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e a de Maria Cátira, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), compararam o padrão de alterações genéticas compartilhado por africanos e brasileiros. Desse modo, conseguiram estimar a participação de diferentes regiões africanas no envio de escravos para o Brasil, o último país da América Latina a eliminar a escravidão com a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888.

Os resultados confirmaram que foram três as regiões da África – a Oeste, a Centro-Oeste e a Sudeste – que mais exportaram mão-de-obra africana para o país até 1850, quando o ministro da Justiça do Império Eusébio de Queirós formulou uma lei tornando crime o tráfico de escravos. Até aí, nada muito novo, e a genética apenas corrobora as informações históricas a respeito de uma das situações mais cruéis a que um ser humano pode submeter outro. Já se sabia que o Brasil foi um dos poucos, se não o único, países das Américas a receber africanos de todas as origens.

A novidade é o envolvimento maior no tráfico negreiro da África Ocidental, também conhecida como Costa Oeste, região de onde vieram povos como os iorubás, os jejes e os malês, que exerceram forte influência social e cultural no Nordeste brasileiro, em especial na Bahia.

Durante os três séculos em que os portugueses controlaram o tráfico no Atlântico – o mais antigo, de mais longa duração e maior em termos numéricos –, a proporção de escravos embarcados no Oeste, no Centro-Oeste e no Sudeste da África oscilou bastante. Avaliando registros de viagem africanos, Herbert Klein, da Universidade de Colúmbia, e David Eltis, da Universidade Emory, calcularam que, no total, 10% dos escravos teriam vindo da região Oeste da África e 17% da Sudeste.

O principal fornecedor de escravos seria mesmo o Centro-Oeste, onde ficava a colônia portuguesa de Angola, que teria contribuído com 73% dos africanos enviados para o Brasil amontoados no porão de pequenos navios. “Os dados sobre o tráfico de escravos ainda são incompletos e os historiadores aceitam que a maior parte veio da região de Angola”, comenta Marina Mello Souza, da Universidade de São Paulo (USP), especialista em história africana.

Cientes de que os registros de viagem nem sempre refletem com precisão o passado, nos últimos tempos os historiadores passaram a recorrer também à genética na tentativa de compreender melhor o que de fato ocorreu. “Nossas estimativas anteriores se basearam em amostras parciais”, disse Klein à Pesquisa FAPESP.

“Estamos revendo essas projeções, com base no trabalho de geneticistas e na revisão dos dados de viagem que a equipe de David Eltis vem investigando na Universidade Emory.” E, nesse ponto, os trabalhos de Pena e Maria Cátira podem colaborar para esse reexame histórico. A análise do material genético compartilhado por brasileiros e africanos revelou que a proporção de escravos oriundos do Oeste da África – entre Senegal e Nigéria – pode ter sido de duas a quatro vezes maior que o contabilizado até o momento, bem mais próximo dos números exportados por Angola.

Origens e destinos – Superior à esperada, a contribuição do Oeste africano provavelmente não se distribuiu igualmente pelo país. Pena e sua aluna de doutorado Vanessa Gonçalves analisaram amostras de sangue de 120 paulistas que classificavam a si próprios e aos seus pais e avós como sendo pretos, seguindo a nomenclatura adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que agrupa os brasileiros em brancos, pretos e pardos – os movimentos de afrodescendentes em geral usam a palavra negro para se referir a pretos e pardos.

Quatro de cada dez pretos paulistas apresentavam material genético típico do Oeste africano. Essa proporção, no entanto, foi menor no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, segundo artigo da equipe da UFRGS a ser publicado no American Journal of Physical Anthropology. Dos 94 pretos cariocas testados por Maria Cátira e Tábita Hünemeier, 31% traziam no sangue a assinatura genética do Oeste africano, apresentada por apenas 18% dos 107 pretos gaúchos. Além de indicar origens e destinos, esses dados talvez expliquem a penetração heterogênea no país do candomblé, religião com importantes traços culturais iorubás e jejes.

Na busca pelas origens do povo brasileiro, não são apenas os historiadores que recorrem aos achados genéticos. Também os geneticistas precisam, por vezes, voltar aos livros de história, sociologia ou antropologia para compreender o que as características genéticas lhes mostram. Ao menos um fato histórico ajuda a entender por que a proporção de pretos com origem no Oeste africano é mais elevada em São Paulo do que a do Rio ou a de Porto Alegre. Nos séculos XVI e XVII, os africanos oriundos do Oeste chegaram aos portos de Salvador e Recife para em seguida serem vendidos aos proprietários dos engenhos de cana-de-açúcar do Nordeste.

Mais tarde, porém, a decadência da economia açucareira levou ao deslocamento da mão-de-obra escrava para as plantações de café que floresciam no estado de São Paulo. Antes dessa migração interna, entre o fim do século XVIII e o início do XIX, São Paulo já apresentava uma concentração de escravos do Oeste africano muito mais elevada que no restante do país. De acordo com Klein, as razões para essa diferença ainda não são completamente compreendidas, mas talvez possam ser parcialmente explicadas pela importação de mão-de-obra diretamente do Oeste africano.

Maria Cátira explica a proporção mais baixa de material genético típico do Oeste da África entre os pretos de Porto Alegre pelo fato de os escravos chegarem ao sul do país por via indireta: 80% da mão-de-obra africana do Rio Grande do Sul era proveniente do Rio de Janeiro, onde a presença de povos do Oeste africano era mais baixa que no Nordeste brasileiro. Ainda assim transparece na composição genética dos pretos brasileiros o tráfico mais intenso para o país de escravos de Angola, no Centro-Oeste africano. Uma proporção menor (12%), mas significativa, veio da região de Moçambique, no Sudeste, sobretudo depois que a Inglaterra passou a controlar mais rigidamente os portos de embarque na costa atlântica da África.

Presença feminina – A contribuição africana para a composição genética do brasileiro não foi desigual apenas do ponto de vista geográfico. Enquanto os homens africanos foram os braços e as pernas que movimentaram a economia açucareira do Nordeste, as mulheres exerceram um encanto especial, de cunho sexual, sobre os senhores de engenho de origem européia, como o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre registrou em 1933 em Casa-grande & senzala, ensaio clássico sobre a formação do país. Por essa razão, o preto brasileiro guarda hoje em seu material genético uma contribuição maior das mulheres do que dos homens africanos, embora o volume do tráfico masculino tenha sido maior.

Essa desigualdade, que os geneticistas chamam de assimetria sexual, torna-se evidente quando se comparam dois tipos de material genético. O primeiro é o DNA encontrado nas mitocôndrias, usinas de energia situadas na periferia das células. Transmitido pelas mães aos filhos de ambos os sexos, o chamado DNA mitocondrial permite conhecer a origem geográfica da linhagem materna de uma pessoa. O segundo tipo de material genético estudado é o cromossomo Y, que os pais passam apenas para seus filhos homens e serve como indicador da linhagem paterna.

A equipe de Pena constatou que 85% dos pretos de São Paulo tinham DNA mitocondrial africano, enquanto apenas 48% apresentavam cromossomo Y característico da África. De modo semelhante, o grupo coordenado por Maria Cátira viu que, em 90% dos pretos do Rio e em 79% dos de Porto Alegre, o material genético africano era de origem materna. Do lado paterno, só 56% do Rio e 36% de Porto Alegre tinham material genético paterno típico da África. “Esses números comprovam a história de exploração sexual das escravas pelos brancos”, comenta Pena, “uma história nada bela porque se baseava em relação de poder”.

Essa assimetria sexual confirmada pela genética já havia sido antes documentada e detalhada pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, no livro Raízes do Brasil, pelo antropólogo Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro, além de nos livros de Gilberto Freyre. Ela se tornou inconteste quando Pena e Maria Cátira começaram há cerca de dez anos, em trabalhos paralelos e complementares, a investigar a formação genética de brancos e pretos brasileiros com o auxílio do DNA mitocondrial e do cromossomo Y.

As primeiras evidências de que o brasileiro carregava em suas células o material genético de índios, africanos e europeus surgiram em abril de 2000, quando o país comemorou os cinco séculos da chegada do colonizador português a este lado do Atlântico ou os 500 anos do descobrimento do Brasil. Aproveitando a data oportuna, Pena publicou – primeiro na revista Ciência Hoje, de divulgação científica, e depois no periódico acadêmico American Journal of Human Genetics – o trabalho que chamou de “Retrato molecular do Brasil”. Nesse estudo com 200 brasileiros das regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul, o geneticista da UFMG constatou que, na realidade, 33% descendiam de índios por parte de mãe e 28% de africanos. Em outro estudo, publicado em 2001, mostrou que 98% dos brancos descendiam de europeus pelo lado paterno. Obviamente, a colaboração de índios e negros variava de acordo com a região do país.

Essa era a demonstração genética do que já se conhecia do ponto de vista histórico, sociológico e antropológico. Os primeiros grupos de colonizadores europeus que chegaram ao Brasil depois de 1500 eram formados quase exclusivamente por homens. Milhares de quilômetros distantes de casa, tiveram filhos com as índias. Mais tarde, com a chegada dos escravos durante o ciclo econômico da cana-de-açúcar, passaram a engravidar também as africanas.

A análise do material genético de pretos feita por Pena e Maria Cátira reforça esses resultados: 85% dos pretos brasileiros têm uma ancestral africana, mas os homens africanos estão representados em apenas 47% dos pretos – o restante tem ancestrais europeus em sua linhagem paterna. “É o outro lado da moeda”, diz Pena.

Retrato molecular – Mas o que o DNA mitocondrial e o cromossomo Y de fato revelam? Depende. São ferramentas genéticas fundamentais para determinar a composição de uma população porque são blocos de DNA que não se misturam com outros genes e passam inalterados de uma geração a outra. Mas esse material genético contém muito pouca informação sobre as características físicas de um indivíduo. Ter DNA mitocondrial africano, por exemplo, indica apenas que em algum momento do passado – recente ou não – houve uma mulher africana na linhagem materna daquela pessoa. É por isso que alguém com cabelos louros e olhos azuis pode ter entre suas ancestrais uma africana de pele escura, assim como um homem de pele escura e cabelos encaracolados pode ser descendente de europeus.

Na tentativa de detalhar essa razão, Pena decidiu investigar um terceiro tipo de material genético: o chamado DNA autossômico, que se encontra no núcleo de quase todas as células do corpo. Pena e Flavia Parra selecionaram dez trechos do DNA autossômico típicos da população africana e criaram uma escala chamada índice de ancestralidade africana: quanto mais desses trechos uma pessoa possui, mais próxima ela estaria de um africano. Em seguida, foram procurá-los na população brasileira. Os pesquisadores mineiros testaram esse índice em 173 homens brancos, pretos e pardos de Queixadinha, interior de Minas Gerais, e viram que, em média, os três grupos apresentavam proporções semelhantes de ancestralidade africana, que era intermediária entre a de um português do Porto, em Portugal, e a de um africano da ilha de São Tomé, na costa Oeste da África.

Em outro estudo, Pena e a bióloga Luciana Bastos-Rodrigues analisaram 40 outros trechos de DNA autossômico e descobriram que eles são suficientes para distinguir um indivíduo africano de outro europeu ou de indígena nativo das Américas. Ao comparar esses mesmos trechos de 88 brancos e 100 pretos brasileiros com os de africanos, europeus e indígenas, Pena e Luciana observaram altos níveis de mistura gênica: tanto os brancos como os pretos apresentavam características genéticas de europeus e de africanos. Essa mistura foi ainda mais evidente entre os pretos, que, segundo Pena, “resultam de um processo de intensa miscigenação”.

Com base nesses resultados obtidos em dez anos de investigação das características genéticas do brasileiro, Pena e Maria Cátira não têm dúvida em afirmar que, ao menos no caso brasileiro, não faz o menor sentido falar em raças, uma vez que a cor da pele, determinada por apenas 6 dos quase 30 mil genes humanos, não permite saber quem foram os ancestrais de uma pessoa.

O geneticista brasileiro Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago, Estados Unidos, concorda, embora afirme que as diferenças genéticas entre populações de continentes distintos podem ser úteis na área médica – por indicar capacidades diferentes de metabolizar medicamentos – e usadas para definir raça. “Isso não significa que as raças sejam profundamente diferentes entre si nem superiores umas às outras”, diz. Para ele, o aumento da miscigenação nos últimos séculos erodiu as divisões entre esses grupos, como no caso brasileiro, e deve tornar obsoleto o conceito genético de raças.

Como já disse Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala, “todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo – há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo Brasil –, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro”.

Revista da FAPESP
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Proposta do governo Lula é um ataque frontal aos direitos dos trabalhadores

Ivan Valente
Deputado Federal Psol/SP

A ver pelas recentes declarações de Lula, de considerar como “férias” as greves sem punição, entre outras pérolas, como: “você pensa em modernizar e o pessoal entra em greve” se referindo aos funcionários do Ibama – o funcionalismo deve se preparar para enfrentar fortes ataques por parte do governo.

Segundo matéria publicada no jornal Valor Econômico (15/05), o governo prepara um anteprojeto de regulamentação do direito de greve no setor público. A proposta ficou a cargo da Advocacia Geral da União (AGU) e do Ministério do Planejamento, já está na Casa Civil, e em breve deverá dar entrada no Congresso.

O conteúdo do anteprojeto relatado na matéria e não negado por nenhuma autoridade do governo, pelo contrário, corroborado pelas recentes declarações de Lula, significa na prática uma lei antigreve, bem ao gosto da mídia conservadora que faz coro com o governo. Lula se une ao que existe de mais reacionário na política brasileira e mais uma vez, a exemplo do que fez na reforma da previdência, procura satanizar o funcionalismo público, tratando-os como “bodes expiatórios” e causa de todos os males no setor público.

Não é casual que este projeto apareça logo após o governo ter apresentado, dentro do propalado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o Projeto de Lei Complementar (PLC) 01-2007, que institucionaliza o arrocho salarial, fixando o reajuste da folha de pagamento do conjunto funcionalismo em apenas 1,5% acima da inflação nos próximos dez anos, sem levar em consideração a necessidade de contratação de novos servidores, aumento de demanda e progressão nas carreiras. O que, evidentemente, causa uma justa reação do conjunto do funcionalismo, o governo tenta assim, se antecipar às lutas que virão, querendo engessar as possibilidades de que haja greves que contestem o arrocho anunciado.

O anteprojeto é um grande retrocesso, ressuscita tudo aquilo que historicamente sempre foi condenado pelas forças populares e democráticas no nosso país, retroagindo direitos e conquistas, inclusive, as garantidas na Constituição Federal de 1988. Esta assegurou ao conjunto do funcionalismo o direito de livre organização sindical, o exercício da greve e da negociação coletiva. No entanto, indicou ao Congresso Nacional a edição de lei complementar para regulamentar esses dispositivos.

O que chama a atenção é que o forte interesse do governo em regulamentar a greve, vem desacompanhado do interesse de assegurar as negociações coletivas, como a ratificação da Convenção 151 da OIT, que define regras gerais para a negociação coletiva no serviço público. O que a imprensa não fala e o governo desconsidera, é que as categorias do funcionalismo público são obrigadas a ficar ao bel prazer de ministros e demais autoridades, implorando audiências e quando conseguem através das mobilizações assegurar negociações, não há nenhum dispositivo legal que garanta que elas serão cumpridas.

Segundo o que já foi publicado, o anteprojeto apresenta questões como:

Estipula que uma assembléia só terá direito de aprovar greve se reunir 2/3 da categoria. Além de ser um ataque à autonomia e livre organização sindical, cria um impeditivo burocrático para a maioria das categorias, basta pensar em categorias numerosas e organizadas nacionalmente ou estadualmente, como docentes universitários ou os professores da rede estadual de ensino de São Paulo. Desconsidera que os sindicatos em geral têm a sensibilidade de aprovar greve quando há adesão efetiva de suas categorias, e principalmente, que a adesão é um ato voluntário. Caso contrário, a greve fracassa. Portanto, o movimento sindical já criou mecanismos próprios e democráticos para aferir a disposição de greve de suas respectivas categorias, lembrando que as greves, na maioria das vezes, é a última medida a ser tomada, caso não haja vontade do poder público em negociar.

Estabelece que 40% dos trabalhadores precisam se manter trabalhando durante o movimento grevista. Mais uma vez, desconsidera-se a experiência dos sindicatos do funcionalismo público, são principalmente os trabalhadores que sabem quais são os setores essenciais e que precisam ser mantidos em funcionamento para que a população não sofra danos irreparáveis. As greves do funcionalismo sempre primaram pela preocupação em assegurar o essencial, ou seja, o funcionamento daquilo que poderia colocar em risco a vida e a segurança.

Impõe a necessidade de comunicação prévia e pública do movimento grevista, no que chama de “atividades de interesse inadiável” com 72 horas de antecedência, pela proposta a maioria dos setores, e em outros casos, com 48 horas. Ainda, caso a greve seja considerada ilegal, haverá corte do ponto e a possibilidade da contratação temporária de servidores. Do contrário, caso a greve não seja considerada ilegal, os servidores serão obrigados a repor 50% dos dias parados.

As propostas apresentadas pelo governo estão de forma indiscutível patenteadas naquilo que chamamos de modelo neoliberal, inclusive na sua forma mais perversa, que é a restrição da democracia. Isso caso viesse de um governo de origem liberal já seria motivo suficiente para um duro repúdio de todos aqueles que lutam e lutaram pela democracia em nosso país, mas vem de um governo de origem operária, fruto das lutas sindicais e que em inúmeras vezes esteve presente nas lutas das principais categorias do funcionalismo.

A greve é um direito legítimo, ainda mais, quando os serviços públicos estão sucateados e a lógica do governo é a do ajuste fiscal e da prioridade do pagamento dos juros da dívida pública em detrimento de investimentos no setor público e garantia dos direitos dos trabalhadores. Historicamente a luta e a resistência dos trabalhadores públicos foram fundamentais para frear ataques às condições de trabalho, privatizações e demissões. Sem a luta do funcionalismo e deixados ao humor dos governos neoliberais de plantão, a qualidade dos serviços públicos estariam ainda mais comprometidas com todas as suas conseqüências para o aumento da exclusão social no país.

Nunca é demais lembrar, apesar de tudo o que já aconteceu no governo Lula, que ele foi reeleito sob a expectativa alimentada por parte dos setores da esquerda como uma forma de barrar o avanço da direita representada por Alckmin. No entanto, parte do governo Lula ataques que em nada ficam a dever a qualquer governo tipicamente de direita.

O momento, portanto, é de resistência. É preciso unidade dos movimentos sociais, fortalecendo em todo o país movimentações como a jornada de lutas marcada para o dia 23 de maio e as mobilizações de várias categorias do funcionalismo, já em curso ou previstas para os próximos dias. É preciso que todos aqueles comprometidos com a defesa da democracia e com as lutas dos trabalhadores reajam a mais estas tentativas de cassar direitos duramente conquistados, só a mobilização social será capaz de barrar esses ataques.

Câmara dos Deputados – 16/05/07

Os novos e velhos problemas da cana

Valor Econômico

A polêmica que se instala em torno das relações trabalhistas entre bóias-frias e produtores de cana-de-açúcar é mais complexa do que pode parecer à primeira vista. O lado visível do grave problema social que representa os amontoados de trabalhadores que saem dos seus Estados para cortar cana, em safras que vão liberar novamente esta mão-de-obra seis a oito meses depois, e o centro das reivindicações do movimento sindical e dos movimentos sociais ligados ao setor, é a exigência de produtividade. A mecanização desse setor teve um efeito às avessas para o trabalhador braçal: os usineiros, que antes da mecanização exigiam oito toneladas de cana colhida por dia, por trabalhador, passou a usar a referência da produtividade da máquina para aumentar gradativamente as exigências de produtividade humana. Hoje um patrão pode exigir o corte de 10 a 20 toneladas por dia per capita – varia de acordo com a região, mas de qualquer forma resultou no aumento do esforço físico e do número de horas trabalhadas por cortador de cana.

As relações de trabalho são rigorosamente as mesmas que fizeram outras monoculturas que existiram no país: há um intermediador de mão-de-obra, que percorre os Estados mais pobres – hoje eles atuam em especial no Norte e no Nordeste. São escolhidos para o trabalho, de preferência, os mais jovens. Ao entrar no ônibus para ir até a cidade onde o trabalho é contratado, o cortador de cana já faz a primeira dívida com o “gato”, a de transporte. O “gato”, por sua vez, ganha em média R$ 60 por cada aliciado dos empregadores. Não é incomum também que ele seja o responsável pela venda de suprimentos para os trabalhadores. Tornam-se “donos” dessa mão-de-obra conforme as dívidas se acumulem.

No Estado de São Paulo, ao longo da mecanização, houve um aumento simultâneo da formalidade do trabalho. O cortador é contratado como trabalhador eventual. Mas, segundo Luiz Bassegio, da Pastoral do Migrante, essa formalização foi praticamente anulada pelas exigências de concorrência do cortador de cana com as máquinas. Como se ganha por tonelada cortada (em média R$ 2,5 a R$ 3 por tonelada) e existe uma meta mínima de corte, o cortador é obrigado a trabalhar mais horas. A partir da mecanização do corte de parte da cana, os empregadores começaram também a cobrar do cortador cortes mais rentes ao chão, semelhantes aos feitos pela máquina e mais trabalhosos.

Existem, nas culturas de cana-de-açúcar, fatos que remetem esses trabalhadores ao século XIX. A “tonelada” é medida pelo que se chama de “triângulo”, na verdade uma medida de tamanho de cada cana cortada. Supõem-se que um “x” de braçadas com a mesma medida pese a tonelada. Recentemente, o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Cosmópolis, que está entre os mais organizados, conseguiu dos produtores a medição de fato, “por computador”. Segundo Bassegio, no primeiro uso da nova medição constatou-se que as 10 toneladas exigidas por dia de cada trabalhador que eram “medidas” pelo triângulo na verdade pesavam 20 toneladas. Como, até onde se sabe, é só lá que se pesa de verdade a cana, e não se “mede” a tonelada”, supõem-se que nos outros lugares os cortadores estão sendo lesados por essa tradição.

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Prostituição, drogas e crime seguem rota do etanol

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A outra tradição é a de queimar o canavial antes do início do trabalho de corte. Sem a queimada, é praticamente impossível ao trabalhador, mesmo acostumado com esse tipo de atividade, cortar a cana. Isso expõe não apenas o cortador, mas as cidades próximas, a chuvas de fuligem – que hoje são muito comuns na cidade de Ribeirão Preto, por exemplo. Para o trabalhador, isso não representa apenas a possibilidade de um problema respiratório futuro, mas o risco de ser carbonizado durante a queimada. Não é um acidente de trabalho incomum.

Além das questões que remetem ao passado, a euforia da cana está trazendo também problemas para o futuro. Nesta semana, por exemplo, o Correio Braziliense publicou reportagem assinada pelo repórter Amaury Ribeiro Jr que descreve o resultado do “boom” do etanol sobre municípios do Triângulo Mineiro. Segundo a reportagem, em Delta, em menos de 4 anos, foram plantados 300 mil hectares de cana-de-açúcar em antigas áreas de pastagem ou de agricultura. A cidade, que tem 5 mil habitantes, dobra sua população para 10 mil habitantes no período de colheita. Calcula-se que, apenas para a região do Triângulo, afluam pelo menos 20 mil bóias-frias, principalmente do Maranhão e do Alagoas. A pequena Delta, segundo a reportagem, começou a registrar taxas de homicídio inimagináveis antes da duplicação da produção de álcool Delta de Alagoas. É também o destino de crianças e adolescentes aliciados ou sequestrados para engordar a prostituição na região.

Com a mudança do perfil dos locais de destino dos bóias-frias, que passaram a engrossar a periferia de pequenas ou grandes cidades, o alcoolismo deixou de ser o único problema entre cortadores de cana. O uso do crack por cortadores de cana foi registrado em tese de mestrado em psicologia social de Arlete Fonseca Gonçalves já em 2003. Em 1996, a Polícia Federal já considerava como “rota caipira” 54,7 mil quilômetros quadrados do território paulista, entre os rios Tietê, Paraná e Grande. Arlete aponta estatísticas do Centro de Atendimento Toxicológico (Ceatox) de Botucatu, de 1994 a 1999, que acusavam uma média de 94 atendidos na população rural por dependência de crack, maconha ou cocaína. Um especialista em culturas de cana-de-açúcar pede que se atente, também, para os “maturadores de cana” – são herbicidas que vêm sendo usados há quatro anos para antecipar a colheita. Até agora não se tem idéia do efeito que possa ter sobre o trabalhador que fica em permanente contato com esses produtos.

Daí se conclui que o etanol não é uma solução nem econômica, nem ecológica, sem maiores comprometimentos. Antes que o país vire um imenso canavial, é necessário equacionar relações trabalhistas, de saúde e inclusive as questões urbanas que envolvem a produção do etanol.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião.

Quando o mar se acalma, os espanhóis se preparam para os barcos de imigrantes

De Victoria Burnett
Em Madri

Os serviços de resgate espanhóis e grupos de ajuda humanitária se preparam para uma onda de embarcações transportando imigrantes da África para as Ilhas Canárias, nesta semana, após mais de 800 chegarem em barcos de pesca nos últimos cinco dias.

Austin Wainwright, o coordenador de resposta de emergência da Cruz Vermelha para as Ilhas Canárias, disse que o aumento acentuado no número de chegadas estava associado à melhora do tempo e que espera ver a chegada de barcos de maior porte, que percorrem distâncias maiores, ao arquipélago ao longo do verão no hemisfério norte.

“É certo que a partir deste ponto no ano nós veremos mais chegadas”, ele disse.

Mais de 300 imigrantes chegaram às ilhas em cinco barcos na segunda-feira, segundo os serviços de emergência das Ilhas Canárias, elevando o número de recém-chegados até quinta-feira para 815. Cerca de duas dúzias de crianças vieram nos barcos entre os imigrantes, a maioria aparentemente oriunda do Senegal, disse Wainwright. Ele disse que os barcos senegaleses, que tendem a ser maiores, foram os primeiros avistados seguindo para as ilhas há duas semanas, e ele espera que o número deles aumente nos próximos meses, à medida que aproveitam o tempo clemente para fazer a longa jornada.

Uma enxurrada de mais de 30 mil imigrantes às Ilhas Canárias no ano passado, a maioria africanos, estressou as forças de segurança e serviços sociais da região e provocou alarme entre os espanhóis que, como mostram as pesquisas, consideram a imigração entre suas maiores preocupações. Ela provocou fortes críticas locais e internacionais à decisão do governo do primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero de oferecer anistia a cerca de 600 mil trabalhadores imigrantes ilegais.

Na segunda-feira, representantes do governo buscaram acalmar os temores de que ocorrerá uma enxurrada de imigrantes como a do ano passado.

“Em comparação ao ano passado, a situação está muito mais sob controle”, disse Marlene Menesis, uma porta-voz do governo central das Ilhas Canárias, que disse que os esforços da Guarda Civil Espanhola e da Guarda Costeira, assim como da força européia para imigração, a Frontex, ajudaram a reduzir pela metade o número de chegadas até o momento neste ano, para menos de 3 mil.

“Muitos dos barcos mal deixaram os portos ou atingiram águas internacionais quando foram obrigados a retornar”, disse Menesis.

José Segura, o representante do governo central nas Ilhas Canárias, disse que o Ministério do Interior planeja enviar duas grandes embarcações para ajudar a policiar as águas do arquipélago e o ministério emitiu uma declaração dizendo que intensificou a quantidade de imigrantes ilegais repatriados, enviando 168 para casa no fim de semana.

Wainwright disse que, apesar do número de chegadas ter caído neste ano, o tamanho de algumas das embarcações usadas para o transporte de imigrantes aumentou, assim como a proporção de imigrantes asiáticos a bordo, indicando que as Ilhas Canárias se tornaram um alvo para uma rede cada vez mais sofisticada de contrabando de pessoas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

International Herald Tribune

Ambiguidades que limitam uma definição de raça

O conceito de raça não se sustenta se for definido como grupos geneticamente distintos.

por Michael J. Bamshad e Steve E. Olson

Nas ruas de qualquer cidade grande podemos ver uma amostra da variedade aparente da humanidade: tons de pele que vão do leite claro ao marrom escuro; texturas de cabelo variadas, desde as finas e lisas até as grossas e crespas. As pessoas usam freqüentemente características físicas como essas – juntamente com a área de origem geográfica e a cultura compartilhada – para agruparem a si mesmas e a outras em “raças”. Mas qual é, do ponto de vista biológico, a validade do conceito de raça? As características físicas transmitem alguma informação confiável sobre a constituição genética da pessoa, para além da indicação de que a ela possui os genes associados a olhos azuis ou cabelos enrolados?

A questão é difícil, em parte porque a definição implícita a respeito do que torna a pessoa membro de uma raça particular difere conforme a região do mundo. Alguém classificado como “negro” nos Estados Unidos, por exemplo, pode ser considerado “branco” no Brasil e “de cor” (uma categoria distinta do “negro” e do “branco”) na África do Sul.

Mas as definições ordinárias de raça algumas vezes funcionam bem para dividir grupos de acordo com as inclinações geneticamente determinadas para certas doenças. A anemia falciforme, por exemplo, afeta geralmente descendentes de africanos ou mediterrâneos, e a fibrose cística é mais comum entre as pessoas de ascendência européia. Além disso, embora os resultados sejam controversos, alguns estudos sugerem que os afro-americanos tendem a reagir de forma mais deficiente a certas drogas destinadas ao tratamento de doença cardíaca.

Durante os últimos anos, cientistas reuniram dados relativos à constituição genética de populações em todo o mundo num esforço para investigar o elo entre a ancestralidade e os padrões de doença. Esses dados estão agora fornecendo respostas para várias questões polêmicas. Poderíamos usar a informação genética para distinguir grupos humanos com herança comum e para classificar indivíduos em determinados grupos? Esses grupos corresponderiam às descrições usadas para especificar a raça? E, em termos mais práticos, a divisão das pessoas conforme as definições raciais costumeiras, ou as similaridades genéticas informariam algo útil sobre como os membros desses grupos vivenciam uma doença ou reagem a um tratamento?

Em geral, responderíamos sim à primeira questão, não para a segunda, e diríamos um sim enfático para a terceira. Nossas respostas fundamentam-se em várias generalizações sobre raça e genética. Alguns grupos diferem geneticamente de outros, mas o modo pelo qual são divididos depende de que genes são examinados. Tomando como critério os genes relativos à cor da pele, uma pessoa pode ser classificada em um grupo, mas essa mesma pessoa pode ser classificada em um grupo diferente se o critério for outra característica. Muitos estudos demonstraram que cerca de 90% da variação genética humana ocorrem no interior de uma população que vive em determinado continente, enquanto que 10% da variação distinguem populações continentais.

Em outras palavras, em média o âmbito de variação genética no interior de uma população humana particular é muito maior que entre duas populações. Isso significa que os indivíduos de populações diferentes são, em média, apenas um pouco mais diferentes entre si que indivíduos da mesma população.

As populações humanas são muito similares, mas podem, freqüentemente, ser distinguidas.

Classificando os Humanos
Para identificar os elos entre as definições sociais de raça e a herança genética os cientistas devem, em primeiro lugar, encontrar um modo seguro de dividir os grupos segundo a ancestralidade. Nos últimos 100 mil anos, os humanos anatomicamente modernos migraram da África para outras partes do mundo e aumentaram dramaticamente em número. Essa expansão deixou uma marca distinta em nosso DNA comum. Para determinar o grau de parentesco entre grupos, os geneticistas apóiam-se em pequenas variações, ou polimorfismos, no DNA ­ especificamente na seqüência de pares de base, os constituintes do DNA. A maioria desses polimorfismos não ocorre no interior dos genes, as seqüências de DNA que codificam a informação para a elaboração das proteínas (as moléculas que constituem grande parte de nossos corpos e que realizam as reações químicas da vida).

Assim, essas variações comuns são neutras, já que não afetam diretamente um traço particular. Alguns polimorfismos, porém, ocorrem nos genes, podendo contribuir para a variação individual dos traços e para as doenças genéticas.

Ao seqüenciarem o genoma humano (o conjunto total do DNA nuclear), os cientistas identificaram milhões de polimorfismos. A distribuição desses polimorfismos nas populações reflete suas histórias e os efeitos da seleção natural. Para permitir a distinção entre grupos o polimorfismo genético ideal seria um que estivesse presente em todos os membros de um grupo e ausente nos membros de todos os outros. Mas os principais grupos humanos separaram-se muito recentemente e misturaram-se em demasia para permitir a existência dessas diferenças.

Os polimorfismos que ocorrem em diferentes freqüências ao redor do mundo podem, entretanto, ser usados para uma classificação aproximada das pessoas em grupos. Um tipo útil de polimorfismo é o Alus, pequenas peças de DNA que possuem seqüência similares entre si. O Alus replica ocasionalmente, e a cópia resultante insere-se aleatoriamente em uma nova posição no cromossomo original ou em outro cromossomo, em geral em uma localização que não exerce efeitos sobre o funcionamento dos genes próximos. Cada inserção é um evento único. Uma vez inserida, uma seqüência de Alus pode permanecer no lugar ao longo de eras, passando da pessoa para os seus descendentes. Portanto, se duas pessoas têm a mesma seqüência Alus no mesmo ponto em seu genoma, elas descendem de um ancestral comum que lhes transmitiu aquele segmento específico de DNA.

Um de nós (Bamshad), trabalhando com Lynn B. Jorde, Stephen Wooding e W. Scott Watkins, cientistas da University of Utah, e com Mark A. Batzer, da Louisianna State University, examinou 100 diferentes polimorfismos Alu em 565 pessoas nascidas na África subsaariana, na Ásia e na Europa.

Primeiro, determinamos a presença ou a ausência dos 100 Alus em cada uma das 565 pessoas. Em seguida, afastamos dos dados os critérios identificadores (como lugar de origem e grupo étnico) e distribuímos as pessoas em grupos usando apenas sua informação genética. Nossa análise resultou em quatro grupos diferentes. Quando reintroduzimos os critérios para examinar se a atribuição de cada grupo individual se correlacionava com os critérios comuns, previamente definidos, de raça e etnia, percebemos que dois dos grupos consistiam só de indivíduos da África subsaariana, sendo que um deles era composto quase inteiramente de pigmeus Mbutti. Os outros dois grupos eram compostos, respectivamente, apenas por indivíduos da Europa e do leste da Ásia. Descobrimos que precisávamos de 60 polimorfismos Alus para determinar, com 90% de exatidão, o continente original dos indivíduos. Para obter aproximadamente 100% de exatidão, porém, precisaríamos usar por volta de 100 Alus.

Outros estudos forneceram resultados comparáveis. Noah A. Rosenberg e Jonathan K. Pritchard, geneticistas que trabalhavam no laboratório de Marcus W. Fledman, da Stanford University, analisaram cerca de 375 polimorfismos chamados de repetições pequenas em tandem (short tandem repeats) em mais de mil pessoas de 52 grupos étnicos diferentes da África, Ásia, Europa e Américas. Examinando as freqüências variadas desses polimorfismos, puderam distinguir cinco grupos diferentes de pessoas cujos ancestrais estiveram isolados por oceanos, desertos ou montanhas: africanos subsaarianos; europeus e asiáticos a oeste do Himalaia; asiáticos do leste; habitantes da Nova Guiné e da Melanésia e americanos nativos. Os pesquisadores identificaram, no interior de cada região, subgrupos que em geral correspondiam à etnia que cada um dos membros declarara.

Esses resultados indicam que as análises genéticas podem distinguir grupos de pessoas de acordo com suas origens geográficas. Mas é preciso tomar cuidado. Os grupos de determinação mais fácil foram os que estavam amplamente separados entre si geograficamente. Essas amostras maximizam a variação genética entre os grupos.

Quando Bamshad e colegas usaram os seus 100 polimorfismos Alu para tentar classificar uma amostra de indivíduos do sul da Índia em um grupo separado, os indianos revelaram ter mais em comum com os europeus ou os asiáticos. Em outras palavras, como a Índia esteve sujeita a muitas influências genéticas da Europa e da Ásia, as pessoas desse subcontinente não se agrupam em um único conjunto.

Concluímos assim que pode ser necessário examinar centenas, talvez milhares de polimorfismos para distinguirmos grupos cujos ancestrais misturaram-se, historicamente, com várias populações.

A Raça Humana
Já que as pessoas podem ser em geral classificadas em grupos mediante o uso de dados genéticos, cabe perguntar: as noções comuns de raça correspondem às diferenças genéticas subjacentes entre as populações? Em alguns casos sim, mas freqüentemente não. Por exemplo, costuma-se usar a cor da pele ou as características faciais ­ traços influenciados pela seleção natural ­ para dividir as pessoas em raças. Mas grupos com características físicas similares podem ser totalmente diferentes geneticamente. Indivíduos da África subsaariana e aborígenes australianos podem ter a pigmentação da pele similar (resultado da adaptação ao sol intenso), mas geneticamente são inteiramente distintos.

Em oposição, dois grupos que são geneticamente similares podem ter sido expostos a diferentes forças seletivas. Neste caso, a seleção natural pode exagerar algumas das diferenças entre os grupos, fazendo com que eles pareçam, superficialmente, mais distintos do que na realidade são. Traços como a cor da pele foram fortemente afetados pela seleção natural e não refletem necessariamente os processos que moldaram, na população, a distribuição de polimorfismos neutros como o Alus ou as pequenas repetições em tandem. Assim, traços ou polimorfismos afetados pela seleção natural podem ser índices deficientes para determinar a identificação com um grupo e podem implicar parentesco genético quando, de fato, essa relação quase não existe.

Outro exemplo de como é difícil caracterizar as pessoas diz respeito às populações dos Estados Unidos. A maioria das pessoas que se descrevem como afro-americanas têm ncestrais relativamente recentes no oeste da África, e os africanos do oeste apresentam, geralmente, freqüências de polimorfismos que podem ser distinguidas das freqüências dos europeus, asiáticos e americanos nativos. A fração de variações de genes que os afro-americanos compartilham com os africanos do oeste, entretanto, está longe de ser uniforme, pois, durante séculos, os afro-americanos misturaram-se com grupos provenientes de outras partes da África e de regiões que estão além desse continente.

Nos últimos anos, Mark D. Shriver, da Pennsylvania State University, e Rick A. Kittles, da Howard University, definiram um conjunto de polimorfismos para estimar a fração dos genes de uma pessoa que se origina em cada região continental. Descobriram que a contribuição do oeste da África para os genes dos indivíduos afro-americanos foi, em média, de 80%, embora varie entre 20% e 100%. A mistura de grupos é também aparente em muitas pessoas que acreditam ter só ancestrais europeus. Segundo as análises de Shriver, cerca de 30% dos americanos que se consideram “brancos” têm menos de 90% de ancestralidade européia. Assim, a ancestralidade declarada pelas pessoas não é necessariamente um bom índice da composição genética de grande número de americanos. As noções comuns de raça nem sempre refletem a composição genética da pessoa.

A compreensão da relação entre a raça e a variação genética tem importantes aplicações práticas. Vários dos polimorfismos que diferem em freqüência entre grupos exercem efeitos específicos sobre a saúde. As mutações responsáveis pela anemia falciforme e por alguns casos de fibrose cística, por exemplo, resultam de alterações genéticas cujas freqüências parecem ter aumentado porque eram uma proteção contra doenças predominantes, respectivamente, na África e Europa. As pessoas que herdaram uma cópia do polimorfismo da anemia falciforme mostram alguma resistência à malária; as que herdaram o traço da fibrose cística podem ser menos propensas à desidratação resultante do cólera. Os sintomas só surgem naqueles que herdaram duas cópias das mutações.

A variação genética também desempenha um papel na suscetibilidade individual a um dos piores flagelos de nossa época: a Aids. Algumas pessoas têm uma pequena falha nas cópias de um gene que codifica um receptor particular na superfície da célula, chamado de receptor chemokine 5 (CCR5). Esses indivíduos não produzem receptores CCR5 na superfície de suas células. A maioria dos tipos de HIV-1, o vírus que causa a Aids, liga-se ao receptor CCR5 para entrar nas células e, portanto, as pessoas que carecem dos receptores CCR5 são resistentes à infecção pelo HIV-1. Este polimorfismo no gene receptor CCR5 é encontrado quase exclusivamente em grupos a nordeste da Europa.

Vários polimorfismos no CCR5 não impedem a infecção, mas influenciam o ritmo com que a infecção pelo HIV-1 leva à Aids e à morte. Alguns desses polimorfismos exercem efeitos similares em diferentes populações, enquanto outros apenas alteram a velocidade da progressão da doença em grupos determinados.

Um polimorfismo, por exemplo, está associado à lenta progressão da doença em europeus-americanos, mas com a progressão acelerada em afro-americanos. Nesses exemplos ­ e em outros similares ­ um polimorfismo exerce um efeito relativamente grande sobre uma doença. Se o mapeamento genético fosse barato e eficiente, todas as pessoas poderiam ser mapeadas em relação a todas essas variações de genes vinculadas a essas doenças. Mas o mapeamento genético ainda é caro e suscita questões relativas à privacidade e ao consentimento: algumas pessoas podem não querer saber sobre os fatores genéticos capazes de aumentar o risco de desenvolver uma doença particular.

Até que essas questões tenham sido decididas, a ancestralidade declarada pelas pessoas continuará sendo um recurso de diagnóstico potencialmente útil para os médicos.

A ancestralidade pode ser relevante também para algumas doenças comuns em determinadas populações. A maioria das doenças comuns, como hipertensão e diabetes, são os resultados acumulados de polimorfismos em vários genes, cada um dos quais exerce uma pequena influência própria. A pesquisa recente sugere que polimorfismos que exercem um efeito particular sobre um grupo podem ter influências diferentes em outro. Esse tipo de complexidade torna ainda muito mais difícil usar os polimorfismos detectados como orientação.

Raça e Medicina
A importância de pertencer a um grupo para o tratamento de doenças foi, em anos recentes, tema de controvérsia. Em janeiro passado, o Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos divulgou orientações defendendo a coleta de dados raciais e étnicos em todos os testes clínicos. Alguns pesquisadores contestaram, afirmando que as diferenças entre os grupos são tão pequenas, e que os abusos históricos associados com a classificação das pessoas conforme a raça foram tão extremos que o fato de se pertencer a um grupo deve desempenhar, no máximo, um papel diminuto nos estudos médicos e genéticos. Eles sustentam que o FDA deve abandonar sua recomendação e, em vez disso, estimular os pesquisadores a realizar testes clínicos destinados a coletar dados genômicos sobre cada pessoa. Outros sugerem que somente mediante o uso da noção de se integrar um grupo, incluindo as definições comuns de raça baseadas na cor da pele, será possível compreendermos como as diferenças genéticas e ambientais entre os grupos contribuem para as doenças.

Uma série de artigos na edição de março passado do New England Journal of Medicine debateu os dois lados das implicações médicas da noção de raça. Os autores de um artigo ­ Richard S. Cooper, da Loyola Stritch School of Medicine, Jay S. Kaufman, da University of North Carolina at Chapel Hill e Ryk Ward, da University of Oxford ­ argumentam que raça não é um critério adequado para ser aplicado pelos médicos na escolha de uma droga particular para um determinado paciente. Eles apontaram duas descobertas de diferenças raciais que são consideradas questionáveis: a de que uma combinação de certas drogas dilatadoras dos vasos sangüíneos seria mais eficaz no tratamento da insuficiência cardíaca de pessoas com ancestrais africanos e a de que inibidores específicos de enzimas (enzima de conversão angiotensina, ou inibidores ACE) são pouco eficazes para o tratamento dessas pessoas. No
segundo artigo, um grupo liderado por Neil Risch, da Stanford University, respondeu que grupos raciais ou étnicos podem diferir entre si geneticamente e que essas diferenças podem ter relevância médica. Eles citam um estudo mostrando que a taxa de complicações da diabetes de tipo 2 varia de acordo com a raça, mesmo levando-se em conta disparidades de educação e de renda.

A intensidade desses argumentos reflete influências científicas e sociais. Muitos estudos biomédicos não definiram rigorosamente o critério de se pertencer a um grupo, confiando, em vez disso, em relações inferidas baseadas em categorias raciais. A disputa sobre a importância da integração a um grupo ilustra também como a percepção da raça é fortemente moldada por diferentes perspectivas sociais e políticas. Nos casos em que integrar um grupo geográfica ou culturalmente definido está correlacionado com traços genéticos vinculados à saúde, o conhecimento de algo sobre o grupo do indivíduo pode ser importante para um médico. À medida que os grupos humanos vivem em meios diferentes e têm experiências distintas que afetam a saúde, o fato de ser parte de um grupo pode refletir também fatores não genéticos que são relevantes para os médicos.

A despeito das implicações médicas da genética da raça, as descobertas das pesquisas são por si só estimulantes. Durante centenas de anos, as pessoas quiseram saber de onde vieram os vários grupos humanos e como eles estão relacionados entre si. Elas especularam sobre as razões que explicam as diferenças de aparência física entre os grupos humanos e perguntaram-se se as diferenças biológicas entre os grupos são mais que superficiais. Os novos dados genéticos e os novos métodos de análise estão permitindo que abordemos essas questões. O resultado será uma compreensão muito mais profunda de nossa natureza biológica e de nossa inter-relação humana.

Os pesquisadores freqüentemente usam pequenas peças de DNA chamadas de polimorfismos Alus para determinar se diferentes populações estão relacionadas entre si. Os Alus não têm nenhuma função conhecida, mas eles se replicam e se inserem aleatoriamente no genoma de uma pessoa. Como os Alus inseridos não são extirpados, os padrões Alus podem ser usados como um critério para estimar a proximidade genética entre duas pessoas – e, na média, entre duas populações. Por exemplo, um polimorfismo Alus no cromossomo 1 ocorre aproximadamente em 95% dos africanos subsaarianos que formaram a amostra, em 75% dos europeus e africanos do norte e em 60% dos asiáticos, enquanto que um polimorfismo Alu diferente no cromossomo 7 está presente em aproximadamente 5% dos subsaarianos, 50% dos europeus e africanos do norte e 50% dos asiáticos.

Algumas pessoas apresentam os dois polimorfismos. Um único polimorfismo não pode, por si só, distinguir entre todos os membros de um grupo humano e todos os membros de outro grupo, mas a análise de centenas desses polimorfismos permite que os cientistas agrupem os indivíduos de diferentes localidades de acordo com o seu perfil genético – M.J.B e S.E.O.

A contagem do número de unidades de DNA nos cromossomos, chamadas de repetições pequenas em tandem (short tandem repeats), permite que os cientistas agrupem os indivíduos de acordo com a sua provável ancestralidade. Uma dessas repetições, a AAAG, ocorre entre duas e sete vezes nas pessoas com herança africana, mas entre cinco e oito vezes nas pessoas cujos ancestrais vieram da Europa ou do Oriente Médio. (Toda pessoa herda um conjunto de repetições da mãe e um do pai.) Assim, alguém que apresenta dois e três repetições tem, provavelmente, herança africana, enquanto alguém que apresenta seis e oito repetições tem provavelmente ancestrais provenientes da Europa ou do Oriente Médio. No entanto, pessoas que apresentam entre cinco e sete repetições ocorrem em ambas as populações, o que torna mais difícil classificar essas pessoas usando apenas esta repetição. – M.J.B. e S.E.O.

Mapping Human History: Genes, Race, and Our Common Origins. Steve Olson. Houghton Mifflin, 2002.

Human Population Genetic Structure and Inference of Group Membership. Michael J. Bamshad et al. em
American Journal of Human Genetics, Vol. 72, no 3, págs. 578-589; março de 2003.

The importance of Race and Ethnic Background in Biomedical Research and Clinical Practice. Esteban Gonzalez Burchard et al. em New England Journal of Medicine, Vol. 348, no 12, págs. 1170-1175; 20 de
março de 2003.

Race and Genomics. Richard S. Cooper, Jay S. Kaufman e Ryk Ward em New England Journal of Medicine,
Vol. 348, no 12, págs. 1166-1170; 20 de março de 2003.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

Independência do Banco Central = Hegemonia do capital especulativo

Emir Sader

A política monetária parece um tema monetarista. Mas não é. A moeda mede o valor das coisas. Ela não define o valor, mas o expressa. Uma hiperinflação, por exemplo, diz às pessoas que elas não valem nada ou deixam de valer ao longo do dia ou das horas seguintes. Daí o desespero de se desfazer das moedas comprando algo que materialize o valor de forma menos efêmera. Quando o “mercado” joga alguém no desemprego, está dizendo que ele não vale nada, nem sequer o miserável salário mínimo.

A política monetária, em épocas em que o desenvolvimento e não a estabilidade era o objetivo central das políticas econômicas, servia como alavanca estratégica para a expansão econômica, definindo os diferentes câmbios para importação, fomentando algumas e protegendo a outras. Uma reforma fundamental, talvez a de maiores conseqüências, do governo FHC, foi a de renunciar a esse papel da política monetária, desvinculando-a do desenvolvimento e elevando-a a objetivo maior do governo: a estabilidade monetária. Foi a partir daí que o Banco Central passou a ter uma função estratégica, subordinando as outras instâncias do governo a variáveis definidas por ele, de forma cada vez mais autônoma, a começar pela taxa de juros.

A taxa de juros é a remuneração do capital financeiro, assim como o lucro é a do capital industrial, comercial ou agrícola, e os salários remuneram o trabalho. Autonomizar o Banco Central e a política monetária é a expressão institucional e política da hegemonia que o capital financeiro assume no neoliberalismo. O capital financeiro sob sua forma especulativa, isto é, não como financiador do desenvolvimento econômico, do consumo e da investigação, mas essencialmente da compra de papéis da dívida pública e da compra e venda de papéis nas bolsas de valores. Um capital parasitário, que não cria bens, nem empregos, apenas transfere capital, acentuando sua concentração.

Daí a importância do tema da independência, da autonomia do Banco Central. Independência, como se sabe, do governo e das suas prioridades, definidas politicamente pelo povo através do voto, para que ele fique livre para subordinar-se aos interesses do capital financeiro. Não seria necessária a denúncia da Carta Capital sobre as reuniões sistemáticas que oa dirigentes do Banco Central fazem com representantes do sistema bancário e financeiro, mas sua existência é uma confissão da promiscuidade e da subordinação orgânica e política do Banco Central aos interesses dos grupos especulativos.

Lutar por um Banco Central subordinado à prioridade do social, para a qual foi eleito o governo Lula, que foi expressa na sua reeleição pelo voto popular, reitera a necessidade da prioridade das políticas sociais e não as políticas do Banco Central, porque foram aquelas e não estas, que reelegeram a Lula. No entanto, quatro anos e meio depois da posse de Lula, a taxa de juros nominal dimuinuiu apenas a metade do que ela era naquele momento, em que se recebia uma economia fragilizada do governo FHC. A taxa de juros real do Brasil continua a ser a mais alta do mundo, atraindo capitais especulativos, que fortalecem artificialmente o real, diminuindo ainda mais a competitividade das exportações, afetando o nível de desenvolvimento e de criação de empregos no país, como um dos seus perversos efeitos colaterais.

Lutar pela democratização do Conselho Monetário Nacional corresponde igualmente a fazer da política monetária um tema político – de relações de poder – e social – a quem beneficia e a quem prejudica a política econômica – e não apenas econômico-financeiro, como se se tratasse de uma questão técnica. Por que o Banco Central se reúne com os banqueiros e não com os sindicalistas, com os os movimentos sociais, com os outros empresários, grandes, médios e pequenos? Porque sua independência do governo lhe deixa as mãos livres para subordinar-se ao capital financeiro.

Não existe uma ciência monetária, que defina o nível ótimo das taxas de juros. Toda definição representa decisões sobre política econômica, com conseqüências sociais e políticas diretas. Ou a política monetária e o Banco Central se subordinam aos interesses gerais do povo brasileiro, que votou por mais política social – voto interpretado por Lula, no discurso da vitória, ao afirmar que governaria para os pobres, mas reconhecendo, paradoxalmente, que os ricos nunca ganharam tanto – e não por mais especulação financeira ou será instrumento para que estes ganhem cada vez mais, às custas da produção, do desenvolvimento, da distribuição de renda, das políticas sociais.

Carta Maior
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Qualidade da água do rio Tietê piora ainda mais

Conclusão é da Cetesb, que apresentou relatório sobre condição ambiental no Estado. Motivos ainda estão sendo investigados, mas a variação das chuvas no ano passado é citada como uma das causas.

AFRA BALAZINA
JOSÉ ERNESTO CREDENDIO

DA REPORTAGEM LOCAL

Parecia não ser possível, mas a qualidade da água do rio Tietê piorou ainda mais em 2006. Segundo a Cetesb (agência ambiental paulista), o rio apresentava situação praticamente estável nos últimos anos.
A conclusão foi apontada ontem pela Cetesb na apresentação dos relatórios de qualidade ambiental do Estado de São Paulo, que incluem a situação de praias, rios, águas subterrâneas e disposição do lixo.
Os motivos ainda estão sendo investigados, mas a variação das chuvas no período é citada como uma das causas por Eduardo Mazzolenis de Oliveira, gerente do departamento de Águas Superficiais da Cetesb.
No início e no final do ano, uma maior precipitação em relação às médias históricas pode ter levado maior carga de poluição para o rio -a água “lava” a rua e joga no Tietê, por exemplo, o lixo acumulado nas vias.
Já o período de estiagem, no meio do ano, foi mais rigoroso em 2006 que a média histórica e também pode ter prejudicado o rio -o menor volume de água dificulta a diluição do esgoto.
Num dos pontos monitorados, em Santana de Parnaíba (quando o rio sai de SP para o interior e está com a contribuição de esgoto do Tamanduateí, do Aricanduva e do Pinheiros), o oxigênio passou de 0,4 mg/l para 0 mg/l. Segundo Nelson Menegon Júnior, gerente de Águas Interiores da Cetesb, para que exista vida no rio é necessário 4 mg/l de oxigênio.
O nitrogênio amoniacal, subproduto do esgoto não tratado ou tratado parcialmente, ficou com média 15,81 mg/l nesse ponto (contra uma média histórica de 11,73 mg/l).
Segundo a Sabesp, para reduzir a poluição do rio Tietê “serão necessários investimentos contínuos e ininterruptos na expansão dos serviços de coleta e tratamento de esgotos” e, ainda, acompanhar o crescimento populacional na região metropolitana de São Paulo.
A empresa diz que foram investidos US$ 1,1 bilhão na primeira etapa do Projeto Tietê -realizado entre 1992 e 1998 com a meta de coletar e tratar o esgoto gerado na região metropolitana do Estado.
Atualmente, o programa está na segunda etapa, que se estende até o 1º semestre de 2008. Nessa fase estão sendo investidos US$ 400 milhões -metade desse total é financiada pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Estão sendo construídos 36 quilômetros de interceptores, 1.200 quilômetros de redes coletoras e 290 mil ligações domiciliares.
Para o ambientalista Carlos Bocuhy, do Proam (Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental), para melhorar o Tietê ainda falta “uma política integrada de saneamento” -uma gestão intermunicipal.
Para ele, o aumento populacional na última década e a ampliação da atividade econômica na área aumentam a quantidade de esgoto sem tratamento jogado no local. Esses fatores, diz, aliados à ausência de tratamento dos efluentes em algumas cidades provocam o aumento da poluição do rio.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

Especial Dólar

Dólar em queda

Pela primeira vez em seis anos, a cotação do dólar caiu abaixo de R$ 2. Confira a evolução da moeda desde o início do Plano Real e tire suas dúvidas.

Desde a implantação do real, o País experimentou três políticas de câmbio: a paridade, com o limite de cotação de R$ 1 por dólar; o sistema de bandas, em que o dólar podia oscilar dentro de uma faixa de preço; e o câmbio flutuante, o atual modelo, pelo qual a cotação da moeda varia conforme a oferta e a demanda. Confira abaixo a flutuação da moeda, veja quem ganha e quem perde com a desvalorização e tire suas dúvidas sobre seu impacto.

[img:18maidolar.jpg,full,centralizado]

1994 – Banco Centro define a paridade entre o real e o dólar. No primeiro dia de negociação, 4 de julho, o dólar cai a R$ 0,94

1994 – É adotado o sistema de banda larga, com minidesvalorizações da moeda

1997 – Pouco após o ínício da crise asiática, Gustavo Franco assume a presidência do Banco Central

1998/99 – Em meio aos reflexos da crise da economia russa, em agosto de 1998 FMI, Bird, BID e BIS socorrem o Brasil, com empréstimos de US$ 41,5 bilhões. Em janeiro do ano seguinte, Gustavo Franco demite-se do BC e é substituído por Francisco Lopes. Governo adota o câmbio livre, permitindo a flutuação total do dólar

1999 – Em ferevereiro, Armínio Fraga é indicado para substituir Franciso Lopes na presidência do BC. Dólar vai acima de R$ 2

2001 – Economia sofre com os reflexos da crise argentina

2002 – Dólar vai além dos R$ 3, com o fortalecimento da candidatura de Lula, e chega a R$ 3,99, após sua vitória

2003 – Compromisso com a estabilidade econômica leva alívio aos mercados, e a cotação do dólar começa a cair

2004 – A partir de 2004, com o aumento da confiança no País e do superávit da balança comercial, cresce a oferta de dólares no mercado brasileiro

2007 – Cotação do dólar cai abaixo de R$ 2, o menor nível desde janeiro de 2001. A expectativa é que a moeda continue oscilando em torno dos R$ 2, com forte inclinação para baixo

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1 – Por que o a cotação do dólar está caindo?

Porque a entrada de dólares no País vem superando a saída da moeda americana. Esse excesso de oferta gera a valorização do real ante o dólar, que entra no País via exportações, investimentos estrangeiros diretos, investimentos financeiros, captações internacionais e turismo. Já a saída é registrada via importações, investimentos brasileiros diretos ou financeiros no exterior e levado por turistas brasileiros em visita a outros países. Outro fator é a queda do Risco-Brasil, que está abaixo dos 160 pontos.

2 – A queda do dólar significa que o real está se valorizando?

Sim. A valorização diz respeito a fatores como o aumento da confiança dos investidores externos no País e à progressiva queda de juros.

3 – É um fenômeno apenas brasileiro?

Não. As moedas de outros países, como Egito, Colômbia, Canadá, Austrália e Peru, também vêm se valorizando ante o dólar. Este já é considerado um fenômeno global causado pelo desequilíbrio das contas norte-americanas.

4 – O dólar baixo prejudica o País?

Embora prejudique alguns setores da economia, como têxteis, calçados e confecções, a queda necessariamente não prejudica o crescimento do País. Há setores que são beneficiados, entre eles os que dependem da importação de insumos e máquinas para a produção.

5 – O que o governo pode fazer para controlar a queda?

Partindo do princípio que mantenha o câmbio flutuante – ou seja, não regule sobre as cotações do real e do dólar, deixando que o mercado se encarregue do ajuste -, a medida comum é comprar dólares, reduzindo a oferta da moeda no País. Com a queda do dólar para patamar abaixo de R$ 2,00, o governo indicou a possibilidade de desoneração de tributos federais.

6 – Qual o papel do Banco Central?

A atitude habitual do BC é intervir no mercado, comprando ou vendendo dólares de acordo com o interesse do governo, influenciando na oferta da moeda no País.

7 – Quais os efeitos da queda do dólar para a população em geral?

Na prática, o dólar baixo aumenta o poder de compra do consumidor, já que os preços dos produtos importados tendem a cair, influenciando o mercado interno. Além disso, viajar para o exterior fica mais barato.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

Apenas 25% das trabalhadoras domésticas tem carteira assinada e 55% são negras

O relatório sobre discriminação no mercado de trabalho, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), destaca que no Brasil o trabalho doméstico é um setor onde o país ainda tem que avançar muito para combater a precarização e a discriminação. A notícia é da Folha de Londrina, 11-05-2007.

De acordo com a OIT, um grupo muito específico, formado por mulheres, negras e pobres, está no centro da discriminação contra trabalhadores domésticos. ”Elas são o exemplo de profissão onde a discriminação no trabalho aparece com muita clareza. É preciso que o país atue para promover a igualdade para essas trabalhadoras”, diz a coordenadora da área de gênero e raça da OIT no Brasil, Solange Sanches.

Segundo dados de 2005 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad/IBGE), existem no Brasil cerca de 6,6 milhões de pessoas no trabalho doméstico, das quais 93,4% são mulheres. Destas, 55% são negras. De todas as mulheres que trabalham no País, 17% são domésticas.

A maioria das trabalhadoras domésticas possui pouca escolaridade. De acordo com o relatório da OIT, nas regiões metropolitanas, mais de 60% têm o ensino fundamental incompleto. Em duas capitais pesquisadas pela OIT, Salvador e Brasília, mais de 20% o trabalho doméstico era realizado por mais de 20% do total de jovens entre 18 e 24 anos com alguma ocupação.

Além de ser tipicamente feminina, a profissão de doméstica também registra um alto grau de informalidade. Segundo o relatório da OIT, em 2005 apenas 25% das trabalhadoras domésticas (1,56 milhão) tinham carteira assinada. As empregadas domésticas brancas com carteira assinada somavam 29,9%, enquanto que as negras, 23,4% (Pnad/2003).

Outro dado citado no relatório é a baixa remuneração das trabalhadoras domésticas, que quase sempre ganham cerca de um salário mínimo. Em algumas regiões metropolitanas pesquisadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (Pesquisa Emprego e Desemprego/2003 e 2004), os rendimentos variavam entre R$ 222,00 em Salvador até R$ 383,00 em São Paulo.

Para o ministério, deve ser considerado empregado doméstico aquele maior de 16 anos que presta serviços de natureza contínua (frequente, constante) e de finalidade não-lucrativa à pessoa ou à família, no âmbito residencial. A Constituição Federal de 1988 concedeu alguns direitos sociais aos trabalhadores domésticos, como salário mínimo, irredutibilidade salarial, repouso semanal remunerado, férias anuais remuneradas, licença gestante, aviso prévio e direito a Previdência Social.

Instituto Humanitas Unisinos
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Muito mais que novos combustíveis

A meta é ambiciosa: reduzir pela metade as emissões de CO2 e ainda assim transformar o acesso à energia num direito de todos. A humanidade precisa estar disposta a uma nova relação consigo mesma (A possível Revolução Energética, parte 3)

Um novo paradigma é, como se viu, algo muito mais profundo que a simples mudança das fontes energéticas. Para que a meta de redução pela metade das emissões de CO2 seja alcançada, [R]evolução Energética julga necessário (e plenamente possível) criar uma nova noção de eficiência energética. A que temos hoje considera um único fator: o preço final dos combustíveis. A que é necessária para salvar o planeta precisa ser capaz de criar algo muito mais complexo: relações sustentáveis do ser humano com a natureza e consigo mesmo.

Isso implica rever os princípios do modelo atual: a começar da visão antropocêntrica de mundo. O ser humano precisa abandonar a postura de senhor da natureza, e passar a se reconhecer como parte dela. Isso não equivale a penúria: o documento enfatiza, como se verá adiante, a necessidade de estender o uso da energia aos que hoje não têm acesso a ela. Mas significa redução máxima do desperdício, do consumo alienado cuja finalidade não é o bem-estar — mas a preservação de relações sociais, econômicas e simbólicas perversas.

Como meta, o relatório propõe uma redução no uso geral de energia, ao longo dos próximos 43 anos. Somadas todas as fontes, consumimos, hoje, 435,1 mil petajoules por ano [1] — dos quais 348,6 mil provêm de combustíveis sujos. Sem mudança de políticas e atitudes, passaremos, em 2050, a 807,7 mil petajoules/ano. O Greenpeace demonstra que é possível reduzir essa marca para 421,9 petajoules/ano. Será uma diminuição de 3% em relação ao dispêndio atual e de 47% em relação à previsão para 2050, no cenário-referência. [2]

Em cheque, a civilização do automóvel

Para assegurar tal economia, será preciso rever mais três princípios do paradigma anterior. O consumo individualista dará lugar ao consumo responsável. Possuir riqueza não deve equivaler a direito de contaminar o planeta. O relatório sugere uma ampla mudança nos métodos de produção e nos hábitos de consumo. Técnicas avançadas de construção reduzem sensivelmente o uso de ar condicionado e de aquecimento, em residências e escritórios. Aquecedores solares podem ser instalados também nas fachadas dos edifícios, para ampliar sua auto-sustentabilidade. O uso de lâmpadas e aparelhos elétricos e eletrônicos econômicos faz enorme diferença no consumo total de energia. Na indústria, o mesmo se obtém com motores, compressores e bombas eficientes, ou com a reciclagem. A produção de alumínio primário, por exemplo, requer uso ultra-intensivo de eletricidade. Mas esse dispêndio é reduzido em 90% a 95% na produção secundária do metal.

Nos transportes, tanto os biocombustíveis quanto os motores elétricos e híbridos estão avançando. Mas por que não questionar, também, a racionalidade dos sistemas baseados no automóvel? A construção e manutenção de ruas e rodovias asfaltadas suga uma enorme parcela das finanças públicas. A circulação nas cidades torna-se caótica — frenética no ritmo e muito lenta na velocidade. Cada usuário perde no trânsito, a cada ano, milhares de horas, que poderiam ser dedicadas à leitura (em trens, bondes e ônibus confortáveis), ao descanso, lazer e convívio com seus semelhantes. Os índices de mortes, mutilações e ferimentos em acidentes automobilísticos são brutais.

Mudanças no padrão de consumo podem ser suscitadas tanto por atitudes individuais (como poupar água, ou deixar de usar plásticos descartáveis) quanto por decisões coletivas. Certas práticas devem ser simplemente proibidas (o uso de veículos poluentes ou a fabricação de motores ineficientes, por exemplo). Em outros casos, funcionam os estímulos financeiros, positivos e negativos. Pedágios eletrônicos sobre a circulação de automóveis nas cidades são perfeitamente aceitáveis, se a arrecadação destina-se a melhoras reais nos sistemas de transporte coletivo. O emprego de métodos de construção sustentáveis e aparelhos eletrônicos econômicos pode ser promovido por meio de incentivos fiscais e de crédito.
No lugar da mega-empresa, a rede de produtores autônomos

Na esfera da geração de energia, o modelo da concentração produtiva é substituído pela geração descentralizada. Por sua própria natureza e diversidade, as fontes renováveis estão disponíveis em todo o planeta, e podem ser aproveitadas também em pequenos espaços e instalações. Isso multiplica as possibilidades de captação e oferece enormes vantagens de autonomia e redução de custos. Já existe tecnologia disponível para construir casas e edifícios que geram toda a energia de que necessitam. Instalar um catavento, uma usina de concentração solar ou uma unidade de produção de óleo de mamona requer incomparavelmente menos espaço e capital que construir uma refinaria de petróleo ou escavar uma mina de carvão. Em regiões remotas do Sul do planeta, as fontes limpas podem garantir que centenas de milhões de pessoas tenham, pela primeira vez, acesso à eletricidade. Em todas as partes do mundo, a autonomia livra as sociedades da dependência em relação a um número reduzido de grandes corporações, historicamente conhecidas por seu poder e apetite para devastar o ambiente, desalojar populações, conspirar contra governos legítimos, formar cartéis e impor preços.

O uso descentralizado de fontes renováveis permite resolver problemas de transporte e produção que marcam o padrão fóssil. O deslocamento diário de milhões de toneladas de petróleo e derivados, carvão e gás resulta em enormes perdas ambientais e econômicas. Na geração termelétrica, estima-se que 61% da energia existente nos combustíveis simplesmente se perca, na forma de calor e por ineficiência tecnológica. A transmissão de eletricidade, por fios de alta e baixa tensão, rouba 10% adicionais.

[R]evolução Energética demonstra que outra fonte notável de economia é o emprego da tecnologia da informação para estabelecer a geração colaborativa de energia em rede. Trata-se de um princípio capaz de superar a ênfase atual na competição entre empresas. As redes de transmissão, criadas há mais de um século, foram construídas para integrar apenas um pequeno número de grandes unidades geradoras. A energia que chega a cada casa ou empresa pode vir, digamos, de uma hidrelétrica (limpa) situada a centenas de quilômetros ou — se o nível da represa está baixo — de uma termelétrica poluente, porém operante.

A informática permite criar redes com centenas ou milhares de fornecedores. Nelas, cada unidade despeja energia no sistema de acordo com as condições físicas e as prioridades definidas socialmente. A rede pode priorizar a geração de energia solar, nos períodos de maior luz, aproveitar os momentos de alta intensidade dos ventos e elevado volume das águas e, até mesmo, quando necessário, incorporar energia suja para evitar interrupções. A fonte fóssil, contudo, é automaticamente desligada, assim que as renováveis voltam a distribuir eletricidade. Todo o processamento é feito em “centrais elétricas virtuais”, cujo papel é exatamente coordenar o sistema para “produzir” energia evitando perdas e aproveitando ao máximo a capacidade instalada. Essas centrais virtuais permitem, além disso, articular a produção local autônoma com territórios mais vastos. Um catavento pode fornecer energia exclusivamente para a localidade mais próxima, nos momentos de pico do consumo; e, quando esse diminui, redirecionar sua produção para o sistema.
Reduzir as emissões garantindo o direito à energia

A adoção de conceitos como consumo responsável e descentralização é ainda mais necessária porque o paradigma da [R]evolução Energética inclui, como elemento indispensável. a justiça social. No novo padrão, a energia passa a ser vista como um bem a que os seres humanos têm direito, independentemente de capacidade aquisitiva. Isso significa incorporar centenas de milhões de seres humanos, hoje, excluídos ao consumo de eletricidade e aos sistemas de transporte. O trecho do relatório que trata do tema é particularmente expressivo.

“A energia é central para reduzir a pobreza e a desigualdade e promover grandes avanços em áreas como Saúde e Educação. Mais de um quarto da população do mundo não se beneficia de serviços modernos de energia. Na África Sub-saariana, 80% dos habitantes não têm acesso a eletricidade. (…) Populações empobrecidas gastam até um terço de sua renda em energia, principalmente para cozinhar. As mulheres, em particular, empregam uma parte considerável de seu tempo coletando, processando e usando combustível tradicional pra cozinhar (…) Essas horas poderiam ser gastas no cuidado com as crianças, educação ou geração de renda. (…) A Organização Mundial da Saúde estima que 2,5 milhões de mulheres e crianças morrem prematuramente a cada ano, por respirar fumaça de fogões de biomassa.

“Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, de reduzir pela metade a pobreza até 2015, não serão alcançados sem energia para ampliar produção, renda e educação, criar empregos e reduzir o desgaste de lutar todos os dias pela própria sobrevivência.(…) Não será possível reduzir os índices de mortalidade sem energia para a refrigeração necessária em clínicas, hospitais e campanhas de vacinação. (…) As crianças não estudarão à noite sem luz em suas casas. Não se bombeará nem tratará água sem energia”.

Jornal Le Monde
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Na América Latina, o papa confronta a Teologia da Libertação

Larry Rohter
Em São Paulo

No início dos anos 80, quando o papa João Paulo II quis reprimir o que ele considerava um movimento perigoso na Igreja Católica Romana – a Teologia da Libertação, inspirada no marxismo- ele procurou um assessor de confiança: o cardeal Joseph Ratzinger.

Agora o cardeal tornou-se o papa Bento 16 e, quando chegar aqui, na quarta-feira (9/4), para sua primeira visita pastoral à América Latina, talvez se surpreenda com o que encontrará. A Teologia da Libertação, que ele chamou certa vez de “ameaça fundamental à fé da igreja” persiste como uma força ativa, até desafiadora na América Latina, lar de quase metade dos católicos romanos do mundo, que são em torno de 1 bilhão.

Nos últimos 25 anos, enquanto o Vaticano se movia para silenciar os teóricos da Teologia da Libertação e a igreja reforçava sua hierarquia conservadora, os males sociais e econômicos que o movimento abordava pioraram. Nos últimos anos, a política na região também pendeu para a esquerda, dando um novo ímpeto e credibilidade à demanda do movimento que a igreja adote “a opção pelos pobres”.

Hoje, cerca de 80.000 “comunidades de base” operam no Brasil, a mais populosa nação católica romana, e quase 1 milhão de “círculos da Bíblia” reúnem-se regularmente para ler e discutir a escritura do ponto de vista da Teologia da Libertação.

Durante a visita de cinco dias, o papa Bento ao Brasil reunir-se-á com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, canonizará um santo, pregará aos fiéis e visitará um centro de tratamento de drogados, antes de inaugurar a conferência de bispos latino-americana que discutirá o futuro da igreja na região, onde a Teologia da Libertação surgiu, prosperou e atraiu tanto de sua censura. Alguns defensores da Teologia da Libertação estarão presentes, outros estarão em uma reunião paralela, e todos foram advertidos a não serem agressivos demais em suas opiniões.

No passado, os seguidores da teologia mantiveram-se firmes, enquanto esquadrões da morte criavam vários mártires do movimento, desde o arcebispo Oscar Arnulfo Romero, de El Salvador, morto em 1980 enquanto celebrava uma missa, até Dorothy Mae Stang, freira americana assassinada na Amazônia brasileira em fevereiro de 2005. As pressões do Vaticano, comparadas com isso, não atemorizam, dizem.

“Apesar de tudo, prosseguimos de uma forma subterrânea”, disse Luiz Antonio Rodrigues dos Santos, professor de 55 anos, ativo no movimento por quase 30 anos. “Que Roma e os críticos digam o que quiserem, simplesmente perseveramos em nosso trabalho com os pobres e oprimidos.”

Em uma manhã fresca e nublada no final de abril, as evidências da vitalidade do movimento eram claras. Representantes de 50 comunidades de base reuniram-se na Igreja do Apóstolo São Paulo, na zona Leste desta grande cidade, uma região de moradia de trabalhadores humildes e favelas.

Com quatro padres presentes, as leituras da Bíblia alternavam-se com preocupações mais mundanas: críticas às propostas do governo de reduzir pensões e os direitos dos trabalhadores sob o código trabalhista brasileiro. O serviço terminou com um Pai Nosso e um hino.

“Na terra da humanidade, concebida como uma pirâmide, há poucos no topo e muitos na base”, cantou a congregação. “Na terra da humanidade, os que estão no topo esmagam os que estão na base. Ó pobres oprimidos, pessoas submetidas à dominação, o que estão fazendo aí parados? o mundo da humanidade tem que ser mudado, então se levantem, não fiquem parados.”

Depois, a discussão voltou-se para outros problemas sociais, principalmente a falta de saneamento básico. Um representante do Partido dos Trabalhadores discutiu estratégias para pressionar o governo a terminar um projeto de esgoto. Os fiéis concordaram em organizar uma campanha de lobby.

Em outras áreas, a Teologia da Libertação defende fortes laços com os sindicatos. Em uma missa do dia 1º de maio para comemorar o Dia Internacional do Trabalho, a cruz de madeira foi coberta com cartazes pretos com as palavras “imperialismo” e “privatização” e houve aplausos quando a homilia criticou as políticas econômicas “neoliberais” do governo, defendidas por Washington.

“Acreditamos em fundir questões de fé com ação social”, disse Valdir Resende dos Santos, discípulo que une as comunidades de base e grupos de trabalho nos subúrbios industriais locais. “Aconselhamos os grupos e os movimentos sociais, mobilizamos os desempregados e trabalhamos com sindicatos e partidos, sempre de uma perspectiva baseada no Evangelho.”

Desde que a Teologia da Libertação surgiu, nos anos 60, misturou consistentemente política com a religião. Os seguidores muitas vezes são ativos em sindicatos e partidos políticos de esquerda e criticam governos que comparam a fariseus dos tempos modernos.

Eles entendem esse ativismo como virtude necessária para responder às necessidades dos pobres. Os oponentes dizem que insinua perigosamente a igreja no âmbito político, temporal, e vêm anunciando nos últimos anos o declínio e desaparecimento do movimento.
Algumas das distinções nesse debate são sutis. O papa João Paulo II estendeu seu alcance para direitos humanos e política quando desestimulou o aborto e o divórcio e instigou os poloneses e outros europeus a rejeitarem o comunismo. Acredita-se que ele ajudou a fomentar o eventual colapso da União Soviética.

Alguns dizem que isso difere do ativismo político adotado pela Teologia da Libertação, direto, de classe. Como cardeal, Ratzinger certa vez chamou o movimento de “fusão da visão da história pela Bíblia com a dialética marxista” e outros críticos reclamam de sua ênfase na ação coletiva direta em nome de Jesus em detrimento da fé individual.

Como disse o papa João Paulo II, no início de seu papado: “Este conceito de Cristo como figura política, revolucionária, o subversivo de Nazaré não está de acordo com o catecismo da igreja.”

Certamente a Teologia da Libertação foi forçada a se retirar dos altos níveis da hierarquia da igreja. Bispos e cardeais que apoiavam e protegiam o movimento nos anos 70 e 80 morreram ou aposentaram-se, sucedidos por clérigos abertamente hostis a tais comunidades e aos valores que esposam.

“As comunidades de base só podem prosperar em áreas onde há bispos que as estimulam. Se você tira o apoio do bispo, fica difícil chegarem a qualquer lugar”, disse Margaret Hebblethwaite, autora religiosa britânica cujos livros incluem “Base Communities: An Introduction” (comunidades de base: uma introdução) e “The Next Pope” (o próximo papa).

Ainda assim, o movimento continua ativo, especialmente nas áreas mais pobres, como a Amazônia, o interior do Nordeste e os arredores de grandes centros urbanos como este, o maior do Brasil, com quase 20 milhões de habitantes na região metropolitana. Esperando atrair menos atenção e críticas, alguns desses grupos simplesmente dizem que estão envolvidos com “o pastoreio social”.

A luta entre os teólogos da Libertação e o papa Bento – cuja própria teologia foi formada em reação ao alcance da ideologia nazista – tem sido longa e amarga. Em 1984, quando era o responsável no Vaticano por supervisionar as questões de fé e doutrina, Ratzinger declarou: “A Teologia da Libertação é uma heresia singular”.

Mais recentemente, ele disse: “Parece-me que não precisamos da Teologia da Libertação, mas da Teologia do martírio” e argumentou que o movimento somente se tornará uma teologia válida “quando se recusar a aceitar o poder e a lógica mundana” e em vez disso enfatizar a “liberdade interior”. Essas declarações, porém, são de quando desempenhava as ordens de João Paulo, e há especulações por aqui que suas opiniões podem ter se suavizado.

Isso ajuda a explicar algumas das manobras teológicas que vêm acontecendo na América Latina recentemente.

Em nome dos conservadores, o Vaticano impôs sanções sobre teólogos da Libertação, como Gustavo Gutierrez do Peru, Leonardo Boff do Brasil e, mais recentemente, Jon Sobrino de El Salvador, jesuíta nascido na Espanha. Quanto o Vaticano repreendeu Sobrino em março, Pedro Casaldaliga do Brasil, um dos bispos mais comprometidos com a Teologia da Libertação, escreveu uma carta aberta pedindo que a igreja reafirmasse seu “verdadeiro compromisso ao serviço dos pobres do Senhor” e “o laço entre fé e política”.

Isso gerou uma forte reação de Felipe Aquino, teólogo conservador cujas opiniões são freqüentemente transmitidas por estações de rádio católicas da região. “Em vez de receber a advertência cordial do Vaticano, o senhor continua incorrigível, envenenando o povo com a Teologia da Libertação que, como observou Ratzinger, aniquila a fé verdadeira e subverte o evangelho da salvação”, escreveu.

Em uma conferência com a imprensa no dia 27 de abril, o arcebispo de São Paulo recém nomeado, Odilo Sherer, 57, tentou conciliar as duas opiniões opostas. Enquanto criticou a Teologia da Libertação por usar “o marxismo como ferramenta de análise”, ele também elogiou os teólogos da libertação por redirecionarem a missão da igreja no Brasil para que se concentrasse nas questões de injustiça social e pobreza.

Ele também argumentou que o movimento estava em declínio. Os seguidores, entretanto, estão menos certos disso.

“A força da realidade social dura da América Latina é mais forte do que a ideologia de Roma, então a Teologia da Libertação ainda tem grande vitalidade”, disse Boff, ex-frade franciscano que deixou o clérigo em 1992, argumentou em recente entrevista. “É verdade que não tem a visibilidade que tinha e não é tão controversa quanto foi, mas está muito viva e bem.”

Tradução: Deborah Weinberg.

The New York Times
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Preço da gasolina dispara na França, enquanto o do barril de petróleo diminui

O preço na bomba é quase o mesmo de há dez meses, quando o barril alcançou a sua cotação recorde; a culpa pode ser das multinacionais americanas

Jean-Michel Bezat

As más recordações do verão de 2006 seguem assombrando a memória dos motoristas franceses: os preços da gasolina vendida nos postos alcançaram nos últimos dias níveis próximos daqueles de julho de 2006, quando o barril oscilava entre US$ 70 e US$ 78.

Por mais que as cotações do petróleo bruto tivessem diminuído nitidamente desde então (entre US$ 60 e US$ 65), esta queda não foi repassada e o preço médio na bomba da gasolina “super 95″ é hoje de 1,32 euro – equivalente a R$ 3,60 – ou seja, por volta de 0,45 centavos de euro (R$ 1,23) descontadas as taxas, segundo informa a União Francesa das Indústrias Petroleiras (Ufip). Um nível muito próximo do preço recorde de 1,34 euro alcançado há dez meses.

Trata-se de um duro golpe para os consumidores, mesmo se a gasolina representa apenas um quarto do mercado dos combustíveis para os automóveis na França, e mesmo se a força do euro em relação ao dólar alivia um pouco a fatura.

Desde o início de fevereiro, o litro de “super 95″ aumentou em 17 centavos de euro. Vale lembrar que o preço do barril de petróleo bruto, de fato, aumentou desde que ele alcançou em meados de janeiro o seu nível mais baixo no período (US$ 50) para subir novamente até o seu mais alto nível (US$ 66) no final de abril no mercado de Nova York, mas a explicação continua sendo insuficiente.

Para obter uma explicação mais precisa, é preciso se voltar para o próprio mercado do refino da gasolina. “No final de abril, início de maio, houve um forte aumento do preço internacional da gasolina nos mercados de Nova York e de Roterdã (Holanda), que alcançaram patamares excepcionalmente elevados”, explica Jean-Louis Schilansky, o delegado geral da Ufip.

Nunca a diferença entre o preço de um barril de petróleo bruto e um barril de gasolina (US$ 32) esteve tão alta. As margens das refinarias também foram excelentes no primeiro trimestre, reconhecem executivos da multinacional Total. Na Europa, elas alcançaram US$ 33 a tonelada em média para o grupo petroleiro francês, ou seja, uma progressão de 28% em relação aos três primeiros meses de 2006.

Como fica o poder aquisitivo?

Considerando-se os volumes que são escoados nos Estados Unidos, é a América que faz o preço da gasolina, comenta Jean-Louis Schilansky. Ora, a demanda americana esteve intensa no início de maio, ao passo que o aumento anormal do número de refinarias paralisadas (incidentes, manutenção…) neste país provocou problemas de abastecimento.

Por mais que as reservas da França sejam excedentes e que ela tivesse exportado 6,1 milhões de toneladas de gasolina em 2006, ela foi duramente atingida por esses aumentos.

Nos Estados Unidos, eleitos democratas deram a entender que as grandes companhias (Exxon, Chevron, BP…) estariam reduzindo deliberadamente a oferta, de forma a provocar aumentos dos preços. A candidata à investidura democrata para a eleição presidencial de 2008, Hillary Clinton denunciou essas multinacionais que, aos seus olhos, “não são consideradas como responsáveis pela manutenção dos seus equipamentos”, acusando-as de “obrigar os consumidores a arcarem com as conseqüências das dificuldades com abastecimento”.

O impacto é menos grave na França, onde o consumo de gasolina não pára de diminuir (- 5,9% em 2006) em proveito do óleo diesel (+ 2,7%), em parte importado da Rússia. Este aumentou muito menos, segundo explica Jean-Louis Schilansky, passando de 1,01 euro (R$ 2,75) no início de janeiro para 1,07 euro (R$ 2,92) em maio.

Ele assegura que “a tendência no mercado internacional da gasolina está agora para baixo, de 4 a 5 centavos”. Um refluxo que, segundo ele, deveria se traduzir por uma diminuição em breve dos preços na bomba.

Será mesmo uma certeza? Os estoques americanos de gasolina permanecem inferiores em 7% aos níveis que eles apresentavam em 2006 na mesma época, segundo as estatísticas que foram publicadas na quarta-feira, 9 de maio, pelo departamento americano da energia. Além disso, a “driving season”, o período durante o qual os americanos utilizam maciçamente os seus carros, vai começar no final de maio…

Na França, o aumento dos preços da gasolina amputa gravemente a renda das famílias. O que fará o novo governo? Apesar do discurso de campanha de
Nicolas Sarkozy sobre a necessidade de aumentar o poder aquisitivo, nenhuma previsão foi anunciada neste campo.

O novo presidente da República não sinaliza qualquer intenção de restabelecer a TIPP flutuante, que previa uma redução da taxa interior sobre os produtos petroleiros, de modo a amortecer a disparada dos preços na bomba. Ele tampouco pretende impor uma sobretaxa sobre os lucros das companhias que operam na França.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde
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CTNBio ignora a biossegurança

Graças à MP sancionada pelo presidente Lula em março, comissão libera milho transgênico da Bayer

Luís Brasilino

da redação

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) liberou, hoje (16), o plantio e a comercialização do milho transgênico Liberty Link, da transnacional alemã Bayer. A decisão ainda precisa ser confirmada pelo Conselho Nacional de Biossegurança, formado por 11 ministros, mas a tendência é que a liberação seja mantida.

Em nota, a Via Campesina Brasil afirma que “a liberação comercial do milho transgênico é uma total irresponsabilidade com os agricultores, a agricultura e com a biodiversidade brasileira”.

Com a medida, as lavouras de milho brasileiras correm sério perigo de serem contaminadas pela variedade transgênica. Este grão, ao contrário da soja, se reproduz por meio de polinização cruzada, o que aumenta muitas vezes as chances de contaminação. E, como o Decreto de Rotulagem, em vigor desde 2003, nunca foi cumprido, a população pode passar a consumir, nos próximos meses, milhos transgênicos inadvertidamente.

Já os agricultores que insistirem em cultivar a variedade convencional da semente estarão expostos a um outro risco. Por conta da polinização cruzada, sua lavouras podem ser contaminadas pelo Liberty Link, o que os obrigaria a pagar royalties para a Bayer quando forem vender seus produtos.

Além disso, segundo documento apresentado pela Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA) à CTNBio, no dia 20 de março, “não há nada no dossiê apresentado pela Bayer que se aproxime de um estudo sobre impactos do milho Liberty Link no meio ambiente”. A Comissão baseou sua decisão exclusivamente em dados fornecidos pela transnacional.

Tal documento foi apresentado à CTNBio numa audiência pública – realizada por ordem judicial – para discutir os impactos do milho transgênico. Milton Fornazieri, integrante da Via Campesina Brasil, revela, na nota da entidade, que, na ocasião, “a Comissão não abriu a metodologia do encontro, só aprovou a exposição de pessoas favoráveis aos transgênicos e desdenhou qualquer argumentação que fosse de encontro à liberação do milho”. Além disso, a CTNBio ainda não respondeu nenhuma das questões levantadas na audiência por pessoas contrárias à liberação de transgênicos.

Ajuda do governo

A liberação foi a primeira desde a aprovação, em 2005, da Lei de Biossegurança. E, talvez, só tenha ocorrido por conta desta nova legislação. Ao dispensar estudos de impacto ambiental e à saúde para aprovar a comercialização de transgênicos, a lei seria inconstitucional, garantem especialistas. Inclusive, a Procuradoria Geral da República entrou com uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a Lei de Biossegurança.

Mas o que é certo é que o Liberty Link não teria sido aprovado sem a ajuda da medida provisória 327, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 21 de março. O dispositivo reduziu o quórum mínimo da CTNBio, composta por 27 membros, para liberação comercial de transgênicos de dois terços (18 membros) para a metade (14). O milho da Bayer foi aprovado por 17 votos a quatro.

Jornal Brasil de Fato
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10 meses e muitas visitas

O blog CONTROVÉRSIA completa neste dia 17 de maio seu 10º mês no ar. Neste último mês acumulamos 26.200 visitas, estabelecendo novo recorde, o que representa cerca de 850 visitas diárias, em média. Mais uma vez, obrigado pela audiência.

Ainda em maio o Blog CONTROVÉRSIA ultrapassou a barreira das 100 mil visitas, marca obtida no dia 08. É muito clic.

Acompanhe a movimentação mês a mês (desde 17 de julho de 2006).

01° mês: 3 mil visitas (0 a 3.000)
02° mês: 3 mil e 500 visitas (3.000 a 6.500)
03° mês: 5 mil visitas (6.500 a 11.500)
04° mês: 5 mil e 800 visitas (11.500 a 17.300)
05° mês: 7 mil e 900 visitas (17.300 a 25.200)
06° mês: 10 mil visitas (25.200 a 35.200)
07º mês: 13 mil e 800 visitas (35.200 a 49.000)
08° mês: 13 mil e 100 visitas (49.000 a 62.100)
09° mês: 19 mil e 700 visitas (62.100 a 81.800)
10° mês: 26 mil e 200 visitas (81.800 a 108.000)

Obrigado. Ricardo Alvarez

A mais valia

O conceito de mais-valia é um conceito-chave. Através dele podemos explicar, de forma científica e rigorosa, a exploração capitalista e, assim, vislumbrar o que é necessário para suprimi-la.
Como já vimos o operário só possui sua força de trabalho. Ele a oferece como mercadoria ao burguês (dono dos meios de produção), que a compra por uma determinada quantia em dinheiro (salário) para fazê-lo trabalhar durante certo período de tempo; 8 horas por dia, por exemplo. A partir do momento em que a compra, a força de trabalho do operário passa a pertencer ao burguês, que dispõe dela como quiser.
O custo de manutenção da força de trabalho constitui seu valor; a mais-valia é a diferença entre o valor produzido pela força de trabalho e o custo de sua manutenção.
Para ficar mais fácil de entender, vamos estudar um exemplo. Supondo que um operário seja contratado para trabalhar 8hs por dia numa fábrica de motocicletas. O patrão lhe paga R$ 16 por dia, ou seja, R$ 2 por hora, o operário produz duas motos por mês. O patrão vende cada moto por R$ 3.883,00. Deste dinheiro, ele desconta o que gasta com matéria-prima, desgaste de máquinas, energia elétrica, etc.; exagerando calculamos que esses gastos somem R$ 2.912,00. Logo, sobram de lucro para o patrão R$ 971,00 por moto vendida. Se o operário produz duas motos por mês, ele produz, na verdade R$ 1.942,00 por mês (ou 2 x R$ 971,00). Se, num mês, ele trabalhar 240hs, produzirá R$ 8,10 por hora (R$ 1.942,00 dividido por 240 horas). Portanto, em 8hs de trabalho ele produz R$ 64,80 (R$ 8,10 x 8hs) e ganha R$ 16,00. A mais-valia é exatamente o valor que o operário cria além do valor de sua força de trabalho. Se sua força de trabalho vale R$ 16,00 e ele cria R$ 64,80, a mais-valia que ele dá ao patrão é de R$ 48,80. Ou seja, o operário trabalha a maior parte do tempo para o seu empregador.
Medido em tempo temos que das 8hs que o operário trabalha diariamente, ele só recebe 2hs e 6min. Esse valor que o patrão embolsa, é o trabalho não pago.
Ao patrão o que interessa é o aumento constante da mais-valia porque assim seus lucros também aumentam. Para fazer isso, o capitalista usa algumas formas básicas: aumentando ao máximo a jornada de trabalho (mais-valia absoluta), de modo que depois do operário ter produzido o valor equivalente ao de sua força de trabalho, possa continuar trabalhando muito tempo mais; esta forma de obter maior quantidade de mais-valia é muito conveniente ao capitalista porque ele não aumenta seus gastos nem em máquinas e equipamentos, nem em infra-estrutura e consegue um rendimento muito maior da força de trabalho. Era o método mais utilizado no começo do capitalismo.
Mas não se pode prolongar indefinidamente a jornada de trabalho, pois existem limites para isso:
= Limites físicos: porque se o operário trabalha durante muito tempo, não pode descansar o suficiente que dê para refazer sua força de trabalho na forma devida irá produzindo um esgotamento intensivo, logo, uma baixa no rendimento, o que não interessa ao patrão.
= Limites históricos: porque à medida que o capitalismo foi se desenvolvendo, a classe operária também se desenvolveu se organizou e começou a lutar contra a exploração capitalista. Através de árduas lutas a classe operária foi conseguindo reduzir a jornada de trabalho, obrigando o capitalista a buscar outras medidas para aumentar a mais-valia. Então, para isso, o patrão teve de lançar mão de outras formas para fazer com que o operário produzisse mais, reduzindo o tempo de trabalho necessário (mais-valia relativa), sem reduzir a jornada de trabalho: introduzindo máquinas mais modernas, incentivando a produtividade, etc.
O fim da exploração capitalista exige o fim da propriedade e do controle privado dos meios de produção e a abolição do direito de herdá-los. Ao eliminar a propriedade privada dos meios de produção, eliminamos o antagonismo de classes, socializando assim entre os que produzem as riquezas que são produzidas.

O TORPOR DO CAPITALISMO

Chega ao fim o mito da expansão ilimitada do mercado

ROBERT KURZ 11/02/96

Há uma concepção ingênua, porém sensata, sobre a produtividade: quanto mais ela cresce, assim pensa o bom raciocínio humano, mais alívio traz à vida em comum. A maior produtividade permite fabricar mais bens com menos trabalho. Não é maravilhoso? Em nossa época, no entanto, parece que o aumento da produtividade, além de criar uma quantidade exagerada de bens, resultou numa avalanche de desemprego e de miséria.
Desde o final dos anos 70, os sociólogos costumam falar de um desemprego tecnológico ou “estrutural”. Isso significa que o desemprego desenvolve-se com independência dos movimentos conjunturais da economia e cresce até mesmo em períodos de surto financeiro. Nos anos 80 e 90, a base desse desemprego estrutural, de ciclo para ciclo, tornou-se cada vez maior em quase todos os países; em 1995, segundo números da Organização Internacional do Trabalho, 30% da população economicamente ativa de todo o mundo não possuía emprego estável.
Essa triste realidade, além de incompatível com o bom raciocínio humano, suscitou uma curiosa reação dos economistas. Os doutores em ciências econômicas agem como se o fenômeno irracional do desemprego em massa não tenha absolutamente nada a ver com as leis da economia moderna; as causas, segundo eles, devem ser buscadas em fatores alheios à economia, sobretudo na política financeira equivocada dos governos.
Ao mesmo tempo, porém, os mesmos economistas afirmam que o aumento da produtividade não diminui o número de empregos, mas é responsável, ao contrário, pelo seu crescimento. Isso foi comprovado pela história da modernidade. O que para o observador imparcial se assemelha à causa da doença, deve assim integrar a própria receita para a cura. Os economistas operam com uma equação que mais parece um sofisma. Onde está o erro?
Um axioma da teoria econômica afirma que o objetivo da produção é suprir a falta de bens da população. Ora, isso é uma pura banalidade. Todos sabem que o objetivo da produção moderna é originar um lucro privado. A venda dos bens produzidos deve render mais dinheiro do que o custo de sua produção. Qual a relação interna entre esses dois objetivos? Os economistas dizem que o segundo objetivo é apenas um meio (na verdade o melhor meio) de atingir a primeira meta. E, no entanto, é evidente que ambos objetivos não são idênticos; o primeiro refere-se à economia como um todo, o segundo à economia das empresas. Disso resultam contradições que, desde seu início, tornaram instável o sistema econômico moderno.
A idéia tão natural de que o aumento da produtividade facilita a vida dos homens não leva em conta a racionalidade das empresas. Na verdade, trata-se de saber qual será o uso de uma maior capacidade produtiva. Se a produção visa a suprir as próprias necessidades, a evolução dos métodos e dos meios será utilizada simplesmente para trabalhar menos e desfrutar do maior tempo livre.
Um produtor de bens para o mercado, no entanto, pode ter a brilhante idéia de trabalhar tanto quanto agora e utilizar a produtividade adicional para produzir uma quantidade ainda maior de mercadorias, a fim de ganhar mais dinheiro em vez de aproveitar o ócio. Um administrador de empresas é mesmo forçado a chegar a essa idéia, pois de nada lhe serve que os assalariados conquistem um maior espaço de tempo livre. Para ele, a produtividade adicional representa de qualquer modo um trunfo contra a concorrência, sendo revertida em benefício da diminuição dos custos da empresa, e não em favor da maior comodidade dos produtores.
É por isso que, na história econômica moderna, a jornada de trabalho diminuiu numa proporção muito menor do que o aumento correspondente de produtividade. Hoje em dia, os assalariados ainda trabalham mais e durante mais tempo do que os camponeses da Idade Média.
A diminuição dos custos, portanto, não significa que os trabalhadores trabalham menos mantendo a mesma produção, mas que menos trabalhadores produzem mais produtos. O aumento da produtividade reparte seus frutos de forma extremamente desigual: enquanto trabalhadores “supérfluos” são demitidos, crescem os lucros dos empresários. Mas, se todas as empresas entrarem nesse processo, há a ameaça de surgir um efeito com que não contavam os interesses obtusos da economia empresarial: com o crescente desemprego, diminui o poder de compra da sociedade. Quem comprará então a quantidade cada vez maior de mercadorias?
As guildas dos artesãos da Idade Média pressentiram esse perigo. Para elas era um pecado e um crime fazer concorrência aos colegas por meio do aumento de produtividade e tentar conduzi-los a todo custo à ruína. Os métodos de produção eram por isso rigidamente fixados, e ninguém os podia modificar sem o consentimento das guildas. O que impedia um desenvolvimento tecnológico era menos a incapacidade técnica do que essa organização social estática dos artesãos. Estes não produziam para um mercado no sentido moderno, mas para um mercado regional limitado, livre de concorrência. Essa ordem de produção durou mais tempo do que geralmente se supõe. Em grande parte da Alemanha, a introdução de máquinas foi proibida pela polícia até meados do século 18.
A Inglaterra, como se sabe, foi a primeira a derrubar tal proibição. O caminho, assim, ficou livre para as invenções técnicas como o tear mecânico e a máquina a vapor, os dois motores da industrialização. E, súbito, irrompeu a temida catástrofe social: em toda a Europa, na passagem do século 18 para o 19, alastrou-se o primeiro desemprego tecnológico em massa.
Tudo isso é passado, dizem os economistas: a evolução posterior não demonstrou que os temores eram infundados? De fato, apesar da expansão contínua das novas forças produtivas do ramo industrial, o desemprego tecnológico caiu rapidamente. Mas por que motivo? Acossados pela concorrência recíproca, os industriais foram obrigados a restituir aos consumidores parte de seus ganhos com a produção. As máquinas tornaram os produtos essencialmente mais baratos ao consumidor.
Embora para a produção de uma certa quantidade de produtos têxteis fosse necessária uma força de trabalho menor do que antes, a demanda por roupas e tecidos baratos cresceu tanto que, ao contrário das expectativas, um número considerável de trabalhadores foi empregado nas novas indústrias.
Com isso, porém, o problema não foi solucionado pela raiz. Todo mercado, a seu tempo, atinge um limite de saturação que o torna incapaz de conquistar novas camadas de consumidores. Somente numa certa fase da evolução o aumento da produtividade conduz à criação de mais empregos para a sociedade, apesar da menor quantidade de trabalho necessária para a confecção de cada produto.
Nessa fase, os métodos desenvolvidos barateiam o produto e o preparam ao grande consumo das massas. Antes de alcançar esse estágio, o aumento de produtividade lança o antigo modo de produção numa profunda crise, como mostra o exemplo dos artesãos têxteis no século 19. Na outra ponta do desenvolvimento, a crise é igualmente uma ameaça (com base na própria produção industrial), quando o estágio de expansão é ultrapassado e os mercados periféricos encontram-se saturados.
Mas essa mesma expansão ainda pode ser transferida a outros setores. Ao longo do século 19, os antigos redutos artesanais foram progressivamente industrializados. Cada vez mais produtos tiveram seus preços reduzidos e permitiram a explosão do mercado. O processo sofreu uma tal aceleração que os artesãos “supérfluos” eram imediatamente absorvidos pelo trabalho industrial, evitando assim que se repetisse a grande crise social dos antigos produtores têxteis.
As crises, mesmo que inevitáveis, pareciam somente transições dolorosas para se atingir novos patamares de prosperidade. Mas o que ocorre quando todos os ramos da produção já estão industrializados e todos os limites de expansão do mercado já foram alcançados?
O desenvolvimento econômico parecia refutar também esse receio. A indústria não apenas absorveu os antigos ramos da produção artesanal, mas também criou a partir de si mesma novos setores produtivos, inventou produtos jamais imaginados e infundiu a sede de compra nos consumidores. O processo de aumento da produtividade, expansão e saturação dos mercados, criação de novas necessidades e nova expansão parecia não ter limites.
Economistas como Joseph Schumpeter e Nikolai Kondratieff formularam, a partir dessas idéias, a teoria dos chamados “grandes ciclos” no desenvolvimento da economia moderna. Segundo essa teoria, uma certa combinação de indústrias sempre atinge seu limite histórico de saturação, envelhece e começa a encolher, após uma fase de expansão impetuosa. Empresários inovadores, na condição de “destruidores criativos” (Schumpeter), inventam todavia novos produtos, novos métodos e novas indústrias que libertam o capital dos antigos investimentos estagnados e lhes dá novo alento num corpo tecnológico renovado.
O exemplo lapidar desse nascimento de um novo ciclo é a indústria automobilística. Em 1886, o engenheiro alemão Carl Benz já tinha construído o primeiro carro; mas até a Primeira Guerra Mundial, tal mercadoria permaneceu um produto de luxo extremamente caro. Como que egresso das páginas do livro-texto de Schumpeter, surgiu então o empresário inovador Henry Ford. Sua c~mação não foi o próprio automóvel, mas um novo método de produção.
No século 19, a produtividade cresceu sobretudo pelo fato de os ramos artesanais terem sido industrializados por meio da instalação de máquinas. A organização interna da própria indústria ainda não fora objeto de grandes cuidados. Só após 1900 o engenheiro norte-americano Frederick Taylor desenvolveu um sistema de “administração científica”, a fim de desmembrar as áreas de trabalho específicas e aumentar a produção.
Ford descobriu por meio desse sistema reservas insuspeitadas de produtividade na organização do processo produtivo. Observou, por exemplo, que um operário da linha de montagem perdia em média muito tempo ao buscar parafusos. Estes foram então transportados diretamente ao local de trabalho. Parte do processo tornou-se “supérfluo” e, logo em seguida, foi introduzida a esteira rolante.
Os resultados foram surpreendentes. Até a Primeira Guerra, a capacidade produtiva de uma fábrica de automóveis de porte médio permanecia em torno dos 10 mil carros por ano; em Detroit, a nova fábrica de Ford produziu, no exercício financeiro de 1914, a fantástica cifra de 248 mil unidades do seu célebre “Modell T”. Os novos métodos deflagraram uma nova revolução industrial. Mas tal revolução “fordista” ocorreu tarde demais para poder evitar a crise econômica mundial (1929-33), desencadeada pelos custos da guerra e pelo declínio global do comércio.
Depois de 1945, porém, sobreveio o “grande ciclo” da produção industrial de automóveis, aparelhos domésticos, divertimentos eletrônicos etc. Baseado no antigo modelo, só que agora em dimensões muito maiores, o aumento da produtividade criou um número espantoso de novos empregos, já que a expansão do mercado de carros, geladeiras, televisões etc, exigia, em termos absolutos, mais trabalho do que os métodos “fordistas”, em termos relativos, economizavam em cada produto.
Nos anos 70, as indústrias fordistas atingiram seu nível histórico de saturação. Desde então vivemos a terceira revolução industrial, da microeletrônica. Cheio de esperanças, alguém se lembrou imediatamente de Schumpeter. De fato, os novos produtos passaram por um processo semelhante de barateamento, à maneira dos automóveis e das geladeiras: o computador, antes um aparelho caro e destinado a grandes empresas, transformou-se rapidamente num produto de consumo das massas. Desta vez, porém, o surto econômico não causou o correspondente aumento de empregos.
Pela primeira vez na história da modernidade, uma nova tecnologia é capaz de economizar mais trabalho, em termos absolutos, do que o necessário para a expansão dos mercados de novos produtos. Na terceira revolução industrial, a capacidade de racionalização é maior do que a capacidade de expansão. A eficácia de uma fase expansiva, criadora de empregos, deixou de existir. O desemprego tecnológico da antiga história da industrialização faz seu retorno triunfal, só que agora não se limita a um ramo da produção, mas se espalha por todas as indústrias, por todo o planeta.
O próprio interesse econômico das empresas conduz ao absurdo. Já é tempo, depois de 200 anos de era moderna, que o aumento da produtividade sirva para trabalhar menos e viver melhor. O sistema de mercado, porém, não foi feito para isso. Sua ação restringe-se a transformar o excedente produtivo em mais produção e, portanto, em mais desemprego. Os economistas não querem compreender que a terceira revolução industrial possui uma qualidade nova, em cujo meio a teoria de Schumpeter não é mais válida. Em vão, eles ainda esperam o “grande ciclo” da microeletrônica _em vão, ainda esperam Godot.

Jornal Folha de S. Paulo
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José Ramos-Horta quer “reconstruir a unidade nacional” em Timor Leste

Eleito presidente com 69% dos votos, o novo dirigente, prêmio Nobel da paz de 1996, terá de reerguer um país cuja unidade está “em frangalhos”

Do correspondente Francis Deron
Em Bancoc, Tailândia

José Ramos-Horta, o incansável defensor da causa de Timor Leste na cena internacional durante a ocupação do território pela Indonésia, de 1975 a 1999, venceu com enorme facilidade a primeira eleição presidencial organizada desde a independência, sacramentada em 2002.

Nesta sexta-feira, 11 de maio, a comissão eleitoral anunciou que Ramos-Horta havia obtido 69% dos votos válidos por ocasião do segundo turno do pleito presidencial que foi realizado na quarta-feira. Os 520.000 eleitores de Timor Leste aprovaram de forma inquestionável a candidatura de José Ramos-Horta para substituir Xanana Gusmão, o herói nacional que havia desistido de se apresentar para pleitear um segundo mandato, e para tentar salvar o país da falência política na qual ele está mergulhado já faz um ano. O seu concorrente, Francisco Guterres, conhecido como “Lu-Olo”, obteve 31% dos votos. Ele declarou que estava se inclinando “diante da escolha da maioria”, “porque eu respeito o princípio da democracia”.

Foi apurada a totalidade dos votos no nível dos treze distritos. Esta contagem oficial deverá ser confirmada por uma nova contagem em nível nacional, que permitirá então anunciar os resultados definitivos.

Nascido em 1949 em Dili, a capital do que era então o Timor português, José Ramos-Horta, de pai português – exilado pelo ditador Salazar – e de mãe timorense, recebeu sua educação na missão católica, assim como muitos dos seus compatriotas. Ele mesmo enviado em exílio para a África portuguesa pela administração colonial, por seu ativismo em prol da independência do Timor, ele ocupou em novembro de 1975 o cargo de ministro das relações exteriores da efêmera República Democrática do Timor Oriental, fundada por ocasião da partida dos colonos de Lisboa e que foi aniquilada um mês mais tarde pelo exército de Jacarta.

Foi ele quem tentou alertar a administração americana, sob Gerald Ford e
Henry Kissinger, a respeito da iminência de uma anexação do território pela Indonésia. Em vão: o caso havia sido objeto de um acordo, concluído por Washington com o ditador Suharto em troca de vantagens estratégicas e econômicas substanciais para os Estados Unidos no arquipélago

Durante os combates da resistência contra o exército indonésio, Ramos Horta perderá cinco dos seus onze irmãos e irmãs. Exilado mais uma vez, ele estudou o direito internacional em várias universidades ocidentais (Holanda, Estrasburgo, Estados Unidos), tornando-se simultaneamente a figura a mais visível, nas arenas internacionais, da resistência timorense.

O seu combate, que contou com um apoio poderoso do Vaticano, lhe valerá compartilhar em 1996 o Prêmio Nobel da paz com o bispo de Dili, Carlos Belo, uma distinção que foi apresentada explicitamente como uma manifestação em defesa dos “pequenos povos oprimidos”.

Enfrentamentos entre clãs

Um excelente orador, pouco conhecido em seu próprio país, que havia sido promovido ao posto de chefe da diplomacia de Timor Leste depois da proclamação da independência, José Ramos-Horta fora obrigado a ceder, em
2006, às exortações do seu amigo Xanana Gusmão. Na ocasião, o chefe do
Estado convocou Ramos-Horta para substituir – quando ele esteve forçado a abandonar o seu então eterno nó borboleta – o primeiro-ministro Mari
Alkatiri, que havia sido conduzido a este cargo pela ala marxista do partido histórico do independentismo, o Fretilin.

Constatando, na quinta-feira, a sua vitória inelutável, José Ramos-Horta afirmou querer “reconstruir uma unidade nacional” reduzida a frangalhos pelos enfrentamentos entre clãs do ano passado, que esvaziaram a pequena capital timorense de uma boa parte da sua população.

Francisco Guterres, o candidato derrotado do Fretilin, declarou que a sua intenção daqui para frente é de animar um movimento de reconquista eleitoral que tem como primeiro objetivo as eleições legislativas, previstas para o final de junho, início de julho.

O balanço dos cinco primeiros anos da mais nova nação da Ásia não permite grandes esperanças para o partido oriundo da luta armada, e, pior ainda, oferece perspectivas sombrias para a próxima equipe dirigente, da qual Xanana Gusmão está decidido a ser o motor à frente de um governo sólido: enquanto o país dispõe em alto-mar de reservas de hidrocarbonetos que a Austrália não lhe contesta mais, a metade dos timorenses adultos está sem emprego, e a outra vive com uma renda média situada, salvo algumas exceções, entre as mais baixas do planeta.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde
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