Monthly Archives: março 2007

Entrevista com Miguel González Arroyo

A revista NÓS DA ESCOLA (Ano 1, Nº 8, 2002), distribuída pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro por meio da MULTIRIO, trouxe uma intrigante entrevista com Miguel González Arroyo.

A discussão gira em torno da questão da indisciplina escolar que é apontada por grande parte dos professores como uma das causas do baixo rendimento dos alunos. Sabemos que esse tema ocupa lugar de destaque na lista de reclamações feitas pelas escolas às famílias de seus alunos e vice-versa. Espero com isso contribuir para a ampliação das discussões acerca dessa temática por vezes turva, difusa, mas amplamente nobre e necessária. As mentes dos que querem pensar, pensarão!

Nós da Escola: Qual o conceito de disciplina na escola?

MIGUEL: Disciplina e educação. Como unir dois processos tão desencontrados? Que significado pode ter para um docente quando se pensa como educador e para uma escola quando se pensa como educandário? Falar em disciplina? Educar para a disciplina? Educar seria disciplinar? Confesso que tenho dificuldade em encontrar qualquer relação entre educar e disciplinar seres humanos. Como educador, sou contra qualquer uso da educação para disciplinar crianças, adolescentes ou jovens. Penso antes em Paulo Freire, na educação como aprendizado da liberdade.

Nós da Escola: Onde está o problema da disciplina? No aluno? No professor? Na escola? Na família ou na sociedade?

MIGUEL: Quando a escola, a família ou a sociedade passam a entender a disciplina ou indisciplina como problema da infância ou da adolescência é um grave indicador do nosso fracasso como educadores(as). Quando uma família, um educandário, uma sociedade são violentas com suas crianças, adolescentes ou jovens, como esperar que eles (as crianças) não aprendam essas lições? A sociedade é violenta, indisciplinada, dominada pela procura de lucro. A concorrência somente submete o povo ao desemprego, ao subemprego. Os horizontes humanos se fecham para nossos adolescentes e jovens. Há violência maior? A infância é jogada nas ruas para sobreviver a qualquer custo. As famílias e escolas padecem essa violenta indisciplina social. Por vezes a reproduzem. Inclusive na rigidez das escolas. Como esperar que essas crianças, adolescentes e jovens sejam ordeiros e bem-comportados? Os adultos recolhem o que semeiam. Culpar de violentos(as), os alunos(as), os filhos ou filhas é uma irresponsabilidade.

Nós da Escola: Os professores falam em alunos indisciplinados, os alunos falam em professores bravos. Podemos sair desse olhar mútuo, deixar as acusações mútuas e pensar nas responsabilidades do convívio escolar?

MIGUEL: Primeiro devemos começar por superar essa visão saudosista de que nós fomos filhos e alunos mais disciplinados. A indisciplina, a inquietação, o questionamento sempre foram qualidades da infância, da adolescência e da juventude de todos os tempos. Coitada da escola, ou da sociedade em que a infância ou a juventude perderem o questionamento e a inquietação. Só nos cemitérios e nos campos de concentração, ou nas ditaduras (lembram do filme “A vida é bela”?) encontraremos essa disciplina. Somente em escolas ou salas de aula que viraram cemitérios encontraremos essa disciplina. Encontraremos corpos infantis e juvenis cheios de vida disciplinados, silenciosos, quietos, parafusados em suas carteiras, rígidos, olhando para a nuca do colega da carteira da frente. Esse sonho nada tem de pedagógico. Todos sabemos de milhares de educadores e educadoras e de escolas que têm orgulho de educar crianças, adolescentes e jovens vivos, questionadores e estimulam essa vida, problematizam seus questionamentos. Educadores(as) que reinventam, como Paulo Freire, a pedagogia problematizadora, libertadora. É possível um convívio escolar humano. Conheço inúmeras escolas onde reina um clima alegre, humano, construído com empenho por educadores e educandos.

nós da Escola: Quais são os alunos vistos como indisciplinados?

MIGUEL: Os pobres, os filhos e as filhas dos setores populares. Os mesmos que a mídia e as elites vêem como violentos e indisciplinados. Na escola, com freqüência, nos deixamos contaminar pelo olhar negativo que nossa sociedade excludente tem do povo, dos trabalhadores, dos negros, dos milhões de cidadãos que essa mesma sociedade condena à miséria e à sobrevivência mais elementar e ainda espera que fiquem bem-comportados. A nossa cultura escolar e docente se deixa contaminar facilmente pela cultura elitista que vê o povo como incivilizado, sem cultura, sem valores, sem disciplina. Nomeamos nossos(as) alunos(as) com termos pejorativos: repetentes, evadidos, lentos, desatentos, violentos, indisciplinados, carentes, sem caráter, sem hábitos morais… Se houver ainda educandários e docentes que vêem os(as) filhos(as) do povo com esse olhar tão negativo deveriam reconhecer que não têm preparo para serem nem educandários nem educadores. O mais grave é que muitos docentes das escolas populares são também filhos(as) do povo. Seria bom lembrar dos valores e da dignidade das famílias e comunidades. Onde nasceram, se criaram e se educaram. Talvez a indigna condição de docentes nos desumanizou? Renunciamos a nossa origem?

Nós da Escola: Como os(as) educadores(as) podem repensar seus valores e sua cultura profissional para trabalhar com alunos(as) das classes tidas como violentas?

MIGUEL: Reaquecendo os valores e a cultura popular de origem em que muitos(as) nasceram e passaram sua infância, adolescência e juventude. Trazendo a sua memória os valores e a dignidade de suas famílias, de suas comunidades trabalhadoras e negras. Reagindo violentamente aos valores e à cultura das elites violentas que mantêm o povo na miséria, no desemprego e no desespero e quando esse mesmo povo luta e reage por dignidade é pichado de violento. Pensemos como categoria docente que também é mantida no limite de salários de sobrevivência por essas mesmas elites no poder, o que temos em comum com os valores e a cultura das elites que nos violentam? Faz mais de 20 anos que a categoria docente, da escola pública popular sobretudo, é tida como violenta, indisciplinada, por quê? Porque luta por sua dignidade. Talvez esta nossa história docente nos ajude a entender que essa é mesmo a cultura política, social e pedagógica que condena a impaciência do povo como violência. Será essa a mesma cultura que nos contamina a ponto de condenarmos nossos(as) alunos(as) como violentos, indisciplinados? Por que não termos um olhar pedagógico e ver em sua indisciplina a procura da mesma dignidade, dos mesmos direitos pelos quais nós docentes lutamos? Se nossa indisciplina é um valor de que nos orgulhamos, reconheçamos os valores da indisciplina dos educandos.

O fantasma do militarismo atiça o Japão

Enquanto a sociedade debate as homenagens prestadas a criminosos de guerra, políticos nipônicos brincam com fogo. Eles querem reabilitar o passado imperial do país e liquidar os artigos da Constituição que proíbem a guerra

Tetsuya Takahashi

Segundo as agendas de Tomohiko Tomita, ex-administrador do palácio imperial, publicadas em 20 de julho de 2006 [1], o imperador japonês Hirohito (ou Showa) interrompeu suas visitas ao santuário Yasukuni. Isso se deu desde que os dirigentes do templo decidiram incluir na celebração os quatorze criminosos de guerra – ditos de classe A. Esses foram condenados à morte pelo Tribunal Militar Internacional do Extremo Oriente, em documento conhecido sob o nome de “Processo de Tóquio”, de 1947. Sete pessoas, dentre as quais o primeiro ministro da época (e também antigo general) Hideki Tojo, foram executados. Outros sete morreram na prisão.

Dedicado ao xintoísmo, o santuário Yasukuni foi contruído em 1869, sob a “prescrição sagrada” do imperador Meiji. Seu fim era glorificar as façanhas daqueles que morreram para derrubar o governo durante as guerras civis do fim do xogunato e do começo da Restauração [2]. Tais mortes contribuíram para a construção do novo Estado imperial, ou seja, o poder de Meiji. Em seguida, este santuário, o único ligado ao exército, celebraria todos os militares ou auxiliares militares do ex-exército japonês mortos em guerras no estrangeiro, somando cerca de 2,46 milhões de “almas heróicas”. O período estende-se desde a primeira expedição militar do Japão moderno ao estrangeiro – a expedição de Taiwan, em 1874 – passando pela guerra sino-japonesa (1894 a 1895), a guerra russo-japonesa (1904 a 1905), a Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918), o Incidente da Manchúria (1931), a Guerra Total entre a China e o Japão (1937 a 1945), até a Guerra do Pacífico (1941 a 1945) e a derrota.

Na época do “Grande Japão” colonial, (ler, nesta edição, “A construção do império nipônico” o imperador era ao mesmo tempo o detentor da soberania, o chefe religioso e o comandante do exército. Os japoneses e os habitantes das colônias eram todos considerados servos. A “moral nacional” consistia, “em tempos de crise nacional, dedicar-se ao imperador e ao Estado em detrimento de sua própria vida”. Os militares mortos em combate tornavam-se indivíduos exemplares para a nação durante suas “guerras santas”. E o santuário Yasukuni tinha a missão de, em qualquer circustância, elevar o moral das tropas e realizar uma mobilização espiritual do conjunto da nação para a guerra.

Após a derrota, ele foi considerado “símbolo do militarismo japonês”, “santuário da guerra” ou mesmo “santuário das invasões”, o que levou à sua neutralização. Em dezembro de 1945, depois do decreto contra o xintoísmo promulgado pelo quartel-general das forças aliadas, ele foi separado do Estado. Gerido por uma associação religiosa, depende do poder privado como as igrejas católicas ou os templos budistas, seguindo o princípio da separação entre política e religião, instituído na Constituição promulgada em 1946. Esta situação ainda perdura.
Atitude ambígua diante dos crimes de guerra

Desde a sua nomeação, em 2001, até a sua saída, em 2006, o primeiro-ministro Junichiro Koizumi visitou o templo todos os anos, sempre em 15 de agosto – dia de derrota para Tóquio, da vitória da China na guerra contra o Japão e da liberação, pela Coréia, da dominação colonial. Yasukuni tornou-se o problema diplomático mais importante entre Tóquio, de um lado, e Pequim e Seul, de outro. Rejeitando qualquer crítica, Koizumi construiu para si a imagem de um “dirigente que defende sempre a posição do Japão, sem jamais se curvar diante das críticas estrangeiras”.

Muitos políticos e jornalistas perguntam-se se não seria possível retirar os criminosos de guerra “classe A” do santuário. Eles têm usado as agendas do ex-veradministrador Tomita para consolidar sua posição, explicando que “mesmo que o imperador Hirohito tenha se recusado a visitar o templo, por causa do culto a esses criminosos de guerra, o primeiro-ministro deveria também interrompê-las”. No entanto, as agendas de Tomita ocultam vários pontos da história.

É evidente que os cultos no santuário de Yasukuni e as visitas oficiais representam atos que negam a responsabilidade japonesa sobre a guerra. Claro que, dentre os primeiros-ministros que o visitaram depois da guerra, nenhum negou abertamente essa responsabilidade. Em nome do governo japonês, o próprio Koizumi reafirmou a validade da declaração de 1995 do primeiro ministro Murayama Tomiichi, onde esse teria expressado seu “sentimento de sincero arrependimento e profundas desculpas pelas penas e enormes danos que [o Japão] infligiu a seus vizinhos num passado ainda recente ao longo da dominação colonial e das invasões, seguindo uma política errônea”.

Isto não impede que os dirigentes do santuário Yasukuni expliquem que se tratou de uma “guerra por defesa e sobrevivência” do Japão, a fim de salvar a Ásia da dominação colonial ocidental. Por conseqüência, o conjunto dos “criminosos de guerra”, sejam eles de classe A, B ou C, seriam “falsamente acusados”. Eles teriam recebido esse qualificativo injusto depois de um julgamento unilateral pelos países vencedores.
Uma polêmica que esconde o principal

O debate seria consideravelmente reduzido caso se inferisse que é apenas a presença dos criminosos de guerra de classe A na celebração comum [3] do santuário a causa do problema. Bastaria então retirá-los para que todos os problemas desaparecessem.

Na verdade, o conceito de criminosos de guerra de classe A permitiu julgar os dirigentes japoneses desde o Incidente da Manchúria, em 1931 (e até mesmo antes, em sua preparação, em 1928) até a guerra do Pacífico. Isso significa que o período julgado vai de janeiro de 1928 a agosto de 1945. Em outras palavras, a história anterior à agressão japonesa contra a Ásia, para constituir seu Império com várias colônias, dentre as quais a Coréia e Taiwan, não foi questionada.

É preciso dizer que os países que julgaram o Japão no imediato pós-guerra sofriam a dominação colonial dos Estados Unidos, Reino Unido, Holanda e França. Esses não teriam nem vontade, nem capacidade, de julgar a responsabilidade japonesa sobre a questão da dominação colonial (leia, nessa edição, “Japão: espelho do Ocidente”.

Todos os mortos em combate do exército japonês durante essas guerras coloniais é celebrado no santuário Yasukuni desde a Expedição de Taiwan de 1874. Nesta ilha, a dominação colonial apoiou-se, no princípio, sobre a repressão militar dos taiwaneses de origem chinesa, que haviam desencadeado levantes armados contra os ocupantes. As vítimas seguintes foram as etnias aborígenes da ilha. A Coréia sofreu ataques militares desde 1876, e a sua rebelião foi igualmente combatida. Os militares japoneses, assim como todos os que morreram em combate durante aquele período, tornaram-se divindades no santuário de Yasukuni. Por meio de sua glorificação, ao lado dos criminosos de guerra de classe A, continua-se a renegar a dominação colonial nipônica.
A criação da potência justifica guerras e mortes?

Isto não diz respeito apenas aos revisionistas de extrema direita mas também de “intelectuais progressistas”, que, de qualquer maneira, reconhecem a responsabilidade dos criminosos de guerra de classe A. Na realidade, segundo eles, a era Meiji permitiu ao Japão igualar-se às potências ocidentais e constituiu uma vitória considerável. Apenas depois, a partir dos anos 1920, o Japão teria se desviado. Ou ainda: até a época do conflito sino-japonês e da guerra russo-japonesa. Ou seja, até o começo do século XX, o exército japonês era são; ele teria degenerado apenas a partir da agressão contra a China.

Ao apresentar as agendas de Tomita, a mídia colocou a tônica no fato de que “o imperador Showa deixou de visitar o santuário Yasukuni por lhe ser desagradável saber que os criminosos de guerra de classe A eram celebrados ali”. De repente, apenas esses parecem culpados, e a responsabilidade do imperador se esvai. Assim como durante o Processo de Tóquio, ao longo da qual o imperador Hiroito não foi interrogado, mesmo sendo o dirigente supremo do Japão e comandante do exército. Ele pôde continuar no cargo depois da guerra, sob o título de “símbolo do Japão e da unidade na nação japonesa” (artigo 1o. da Constituição). Foi usado pelos Estados Unidos por medo de que o Japão se tornasse comunista. A responsabilidade do imperador, antes dissimulada e negada, foi mais uma vez ocultada do episódio das visitas ao santuário.

As distorções não param por aí. O santuário Yasukuni muda a própria história dos combatentes. Ele transforma os mortos ensangüentados e miseráveis dos campos de batalhas em mortos sublimes e heróicos. Essa falsificação não leva em conta o caso dos militares originários de colônias, de onde vinham mais de vinte mil coreanos (e um número quase igual de taiwaneses), mortos em combate –- no total, cerca de cinqüenta mil mortos. Na verdade, no contexto de sua política de “imperialização”, ou seja, de assimilação, o Japão exigia dos coreanos e dos taiwaneses que “servissem e morressem pelo imperador e pelo Estado”. Muitos deles foram mobilizados de maneira autoritária. Mesmo entre os homens que serviram como voluntários, a motivação fundamental era salvar-se da segregação étnica — o que não significa uma interiorização da fé xintoísta.
Os colonizados relembram os crimes de guerra

Em 1978, pela primeira vez, os parentes de um morto de Taiwan pediram que seu nome fosse retirado das listas da celebração comum. Em seguida, famílias coreanas fizeram o mesmo, o que acabou acarretando em processos. A celebração do morto, explicam as famílias, “no seio deste símbolo do militarismo do povo agressor, ao lado dos agressores que nos invadiram e dominaram ao longo da colonização, constitui uma ignomínia completamente intolerável”. Até agora, os dirigentes do santuário recusaram-se a responder positivamente a esta argumentação: “Se eles eram japoneses na hora de sua morte, é impossível deixarem de ser depois de morrerem” [4].

Além disso, é preciso lembrar o caso dos mortos civis da batalha de Okinawa, na primavera de 1945. Reino autônomo dos Ryukyu, situado entre o Japão e a China, Okinawa foi destruída pelo governo japonês em 1879, marcando o primeiro período da colonização japonesa moderna. Na fase final da guerra do Pacífico, o exército japonês convoca civis não-combatentes, em nome de uma pretensa “unidade entre o povo e o exército”. A trágica batalha de Okinawa fez 100 mil mortos entre os civis. Foram mortos como espiões, ou vítimas de “suicídios coletivos” provocados pelos militares. Uma grande parte deles são celebrados no santuário Yasukuni [5]. Assim, de vítimas das guerras do exército japonês eles passaram a… colaboradores deste mesmo exército. Por fim, dos 2,46 de mortos mortos celebrados (2 milhões só da Guerra do Pacífico), quase 60% deles não foram mortos em combates. Morreram de fome. Foi o caso, por exemplo, da maioria dos soldados enviados principalmente para a Nova Guiné, falecidos depois de terem esgotado seus estoques de mantimentos, perdidos no meio da floresta equatorial, condenados a apodrecer por ali mesmo.

As agendas de Tomita foram utilizadas para interrromper as visitas oficiais ao santuário Yasukuni. No entanto, a médio e longo prazo, há o risco de elas terem um efeito inverso. Alguns políticos influentes, a começar pelo ex-ministro das Relações Exteriores, Taro Aso, pediram a nacionalização do santuário, a fim de retomar as visitas imperiais. Esta proposta já foi apresentada pelo Partido Liberal Democrata [PLD, no poder] com um “projeto de lei pelo patrocínio estatal do santuário Yasukuni” (apresentado ao Legislativo sucessivamente em 1968, 1970 e 1973). A oposiçao derrotou-o na época, invocando principalmente “o risco de um retorno ao militarismo”.
Santuário nacionalizado: símbolo da nova ambição militar

Mais de trinta anos mais tarde, os políticos influentes do PLD sustentam que, “a fim de retirar os criminosos de guerra de classe A por decisão do Estado, depois de obter o consentimento da China e da Coréia do Sul, e enfim, de retomar as visitas do primeiro-ministro e sobretudo do imperador, é a única via possível consiste em nacionalizar o santuário Yasukuni”.

Isto está inscrito no projeto da nova Constituição, que revisando o artigo 9 do texto atual [que proíbe a guerra] e afirma claramente a existência de um “exército de defesa”. Em outras palavras, seria suspensa a proibição de uso da força armada, “a fim de manter a paz no mundo”. O atual primeiro-ministro Shinzo Abe expressou claramente seu desejo de se dedocar a essa revisão constitucional durante seu mandato. Após o envio de tropas terrestres de autodefesa ao Iraque, houve um debate interno dentro desta organização para saber se seria possível ou não celebrar eventuais mortos no santuário Yasukuni.

Tudo acontece como se o governo japonês do começo do século 21 tentasse novamente constituir um “exército japonês” e de construir um santuário Yasukuni de caráter nacional, que o sustente.

Tradução: Patrícia Andrade

Jornal Le Monde

http://diplo.uol.com.br/

[1] As agendas foram reveladas pelo Nihon Keizai shimbun, de Tóquio. Tomita exerceu suas funções até 2003, quando faleceu.

[2] Na seqüência de uma verdadeira guerra civil, o shogunato (governo militar) cai. O império é restaurado plenamente em janeiro de 1868. Abre-se o que se chama de Era Meiji (até 1912

[3] A “celebração comum” é organizada para todo o grupo de mortos inscritos no interior do santuário.

[4] Declaração, em 1978, do segundo vigário do santuário Yasukuni.

[5] Prometeu-se às suas famílias, em 1985, uma pensão indenizatória.

Criança que fica em creche é mais agressiva, diz estudo

Pesquisa mostra que crianças que ficaram muito tempo em creches tinham problemas de comportamento como desobediência e agressividade

LONDRES – Um estudo divulgado nesta segunda-feira, 26, nos Estados Unidos afirma que quanto maior o tempo que uma criança passa em uma creche, antes mesmo de entrar no jardim de infância, maior a probabilidade de a criança ter problemas com comportamento agressivo na escola.

A conclusão é da pesquisa publicada na revista Child Development e realizada pelo Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos.

O professor de psicologia da Universidade Birbeck de Londres Jay Belsky, diretor do Instituto para Estudo de Crianças, Famílias e Questões Sociais, foi um dos autores da pesquisa.

O estudo analisou 1364 crianças americanas desde o nascimento em 1991 em dez lugares diferentes dos Estados Unidos. Elas foram acompanhadas até os 54 meses de idade.

Os professores destas crianças – quando elas atingiam os 11 anos de idade – relataram que elas tinham problemas de comportamento como “entrarem em muitas brigas”, “desobediência” e “muitas discussões”.

Definição

Os pesquisadores afirmam que as crianças estudadas não eram uma amostra de crianças na população americana. Durante o estudo os pesquisadores mediram a qualidade, quantidade e tipo de cuidados recebidos desde o nascimento até os 54 meses de idade.

O cuidado de crianças nas creches foi definido como o cuidado recebido por crianças vindo de qualquer outra pessoa que não fosse a mãe, agendado com regularidade por, pelo menos, dez horas por semana. Isto inclui o cuidado dispensado por pais, avós e outros familiares.

Os pesquisadores descobriram que, nas primeiras séries da vida escolar, crianças com mais experiências em creches mostraram, aos 11 anos, maior freqüência do que os pesquisadores chamaram de problemas de externalização de comportamento.

Professores

Crianças que passaram mais tempo longe das mães nos primeiros anos da infância, em creches ou sob os cuidados de outras pessoas, tiveram mais probabilidade de ter mais ocorrências de relatos de comportamento agressivo, segundo relato dos professores.

Estes relatos de comportamento agressivo ocorriam independentes da qualidade da creche ou dos cuidados dispensados às crianças observadas.

Mas os pesquisadores destacaram que o comportamento destas crianças era considerado normal.

Os autores do estudo sugeriram que a correlação entre creches e problemas de comportamento pode ocorrer devido ao fato de que alguns funcionários de creches não teriam o treinamento adequado e não teriam tempo de cuidar do problema.

Funcionários de creches podem não ser capazes de dar atenção suficiente ou orientação para tratar de problemas que podem ocorrer quando grupos de crianças estão juntos – como resolver conflitos a respeito de brinquedos ou atividades, por exemplo.

“Estas descobertas acrescentam ao crescente corpo de pesquisa que mostra que a qualidade e o tipo de cuidado recebido pela criança no início da vida podem ter um impacto duradouro no desenvolvimento”, disse James Griffin, do Escritório de Ciência para pesquisa, do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos.

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Qualidade do ar causa alerta em oito pontos de SP

Jornal Folha de S. Paulo
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São Paulo – A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) apontou no seu último relatório estado de atenção em oito pontos da cidade. De acordo com o boletim divulgado pela Cetesb, as regiões do Ibirapuera, Santo Amaro, Mooca, Nossa Senhora do Ó, Parque D. Pedro II, Pinheiros, Santana e em Diadema, na Grande São Paulo, atingiram o estado de alerta na qualidade do ar.

“Isso se deu por causa das altas concentrações do poluente ozônio nas oito regiões acima. Neste ano, foi a primeira vez que verificamos este número elevado de estações com altos índices de ozônio”, explica o gerente da Divisão de Tecnologia de Avaliação de Qualidade do Ar da Cetesb, Jesuíno Romano.

Segundo informações do Centro de Gerenciamento de Emergências da Prefeitura (CGE), a umidade do ar atingiu índices baixíssimos por causa do tempo seco ontem. Em alguns locais, a média de umidade do ar ficou em 17%, índice considerado ruim pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Hoje o CGE registrou índices mais baixos em comparação aos observados ontem. “Vamos ficar em alerta o dia todo. Hoje à tarde os níveis devem ficar abaixo de 20% por causa das altas temperaturas e, principalmente, pela massa de ar quente que está sobre a região metropolitana de São Paulo”, afirma a meteorologista do CGE, Lucyara Rodrigues.

Amanda Valeri

OFERTA DE ÁGUA NO ORIENTE MÉDIO PODE CAIR PELA METADE ATÉ 2050,

O Banco Mundial (Bird) alertou que se os países do Oriente Médio quiserem
evitar um agravamento na falta de água na região, terão de cooperar uns com
os outros. Esta é uma das recomendações de um relatório divulgado
recentemente pelo órgão, que traça um futuro seco para o Oriente Médio se
não forem implementadas mudanças na administração da água.”A disponibilidade
de água per capita vai cair pela metade até 2050, com sérias conseqüências
aos já sobrecarregados lençóis subterrâneos e sistemas hidrográficos
naturais”, alerta o documento.A história recente do Oriente Médio não
inspira grandes esperanças: o ex-primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon,
teria dito que a Guerra dos Seis Dias, em 1967, começou quando engenheiros
sírios tentaram desviar parte do fluxo de água de Israel.Após assinar o
tratado de paz com o Estado israelense, em 1979, o presidente do Egito,
Anwar Sadat, disse que seu país nunca mais lutaria em uma guerra, exceto
para proteger suas fontes de água. O rei Hussein, da Jordânia, também já deu
declarações neste sentido.A questão da água está sempre presente nas
negociações de paz entre israelenses e palestinos, já que os lençóis de água
que abastecem Israel ficam na Cisjordânia e o rio Jordão corre por uma parte
dos territórios ocupados.Porém, na opinião da especialista em administração
de recursos naturais, co-autora do estudo do Banco Mundial, Julia Bucknall,
a falta de água atualmente “pode ser muito mais um veículo condutor para a
paz do que para a guerra, como era antigamente”.

BBC

Colapso das colônias – Será que plantações de transgênicos estão matando as abelhas?

Uma dizimação misteriosa das populações de abelhas preocupa os
apicultores alemães, enquanto um fenômeno semelhante nos EUA está
assumindo gradualmente proporções catastróficas

Gunther Latsch

Walter Haefeker é um homem que está acostumado a pintar cenários
sombrios. Ele faz parte do conselho diretor da Associação Alemã de
Apicultores (Dbib) e é vice-presidente da Associação Européia de
Apicultores Profissionais. E como reclamar faz parte da atividade do
lobista, é praticamente seu dever profissional alertar que “a
própria existência da apicultura está em risco”.

O problema, disse Haefeker, tem várias causas, uma delas o ácaro
Varroa, oriundo da Ásia, e outra a prática disseminada na
agricultura de borrifar as flores silvestres com herbicidas e
promover a monocultura. Outra possível causa, segundo Haefeker, é o
uso crescente e controverso de engenharia genética na agricultura.

Já em 2005, Haefeker encerrou um artigo para o qual contribuiu no
jornal “Der Kritischer Agrarbericht” (Relatório Agrícola Crítico)
com uma citação de Albert Einstein: “Se a abelha desaparecer da
superfície do planeta, então ao homem restariam apenas quatro anos
de vida. Com o fim das abelhas, acaba a polinização, acabam as
plantas, acabam os animais, acaba o homem”.

Eventos misteriosos nos últimos meses repentinamente fizeram a visão
apocalíptica de Einstein parecer mais relevante. Por motivos
desconhecidos, as populações de abelhas por toda a Alemanha estão
desaparecendo – algo que até o momento está prejudicando apenas os
apicultores. Mas a situação é diferente nos Estados Unidos, onde as
abelhas estão morrendo em números tão dramáticos que as
conseqüências econômicas poderão em breve ser calamitosas. Ninguém
sabe o que está causando a morte das abelhas, mas alguns
especialistas acreditam que o uso em grande escala de plantas
geneticamente modificadas nos Estados Unidos poderia ser um fator.

Felix Kriechbaum, um representante da associação regional dos
apicultores na Baviera, informou recentemente um declínio de quase
12% na população local de abelhas. Quando as “populações de abelhas
desaparecem sem deixar vestígio”, disse Kriechbaum, é difícil
investigar as causas, porque “a maioria das abelhas não morre na
colméia”. Há muitas doenças que podem fazer as abelhas perderem seu
senso de orientação, de forma que não podem encontrar seu caminho de
volta às suas colméias.

Manfred Hederer, o presidente da Associação Alemã de Apicultores,
quase que simultaneamente informou uma queda de 25% nas populações
de abelhas por toda a Alemanha. Em casos isolados, disse Hederer,
declínios de até 80% foram informados. Ele especula que “alguma
toxina em particular, algum agente do qual não estamos
familiarizados”, está matando as abelhas.

Até o momento, os políticos têm demonstrado pouca preocupação diante
de tais alertas e da situação difícil dos apicultores. Apesar de
estes terem recebido uma chance de expor seu caso -por exemplo, às
vésperas da aprovação pelo Gabinete alemão do documento de política
de engenharia genética de autoria do ministro da Agricultura, Horst
Seehofer, em fevereiro- suas queixas ainda permanecem em grande
parte ignoradas.

Mesmo quando os apicultores recorrem à Justiça, como fizeram
recentemente em um esforço conjunto com a sucursal alemã da
organização de agricultura orgânica Demeter International e outros
grupos contrários ao uso de plantações de milho geneticamente
modificado, eles só podem sonhar com o tipo de atenção da mídia que
grupos ambientalistas como o Greenpeace atraem com seus protestos em
locais de teste.

Mas isto poderá mudar em breve. Desde novembro passado, os Estados
Unidos estão vendo um declínio das populações de abelhas tão
drástico que ofusca todas as ocorrências anteriores de mortalidade
em massa. Os apicultores na Costa Leste dos Estados Unidos se
queixam de terem perdido mais de 70% de suas colônias desde o final
do ano passado, enquanto a Costa Oeste vê um declínio de até 60%.

Em um artigo em sua seção de negócios no final de fevereiro, o “New
York Times” calculou os prejuízos que a agricultura americana
sofreria em caso de dizimação das abelhas. Especialistas da
Universidade de Cornell, no interior de Nova York, estimaram o valor
que as abelhas geram -polinizando plantas responsáveis por frutas e
legumes, amendoeiras e trevos que alimentam animais- em mais de US$
14 bilhões.

Os cientistas chamam o fenômeno misterioso de “Colony Collapse
Disorder” (CCD, desordem de colapso da colônia) e ele está se
transformando rapidamente em uma espécie de catástrofe nacional.
Várias universidades e agências do governo formaram um “Grupo de
Trabalho para CCD” para procurar as causas da calamidade, mas até o
momento continuam de mãos vazias. Mas, como Dennis van Engelsdorp,
um apicultor do Departamento de Agricultura da Pensilvânia, eles já
estão se referindo ao problema como uma potencial “Aids do setor de
apicultura”.

Uma coisa é certa: milhões de abelhas simplesmente desapareceram. Na
maioria dos casos, tudo o que resta nas colméias são proles
condenadas. Mas as abelhas mortas não são encontradas – nem nas
colméias e nem em qualquer lugar próximo delas. Diana Cox-Foster, um
membro do Grupo de Trabalho para CCD, disse ao “The Independent” que
os pesquisadores estão “extremamente alarmados”, acrescentando que a
crise “tem o potencial de devastar o setor de apicultura americano”.
É particularmente preocupante, disse ela, o fato da morte das
abelhas ser acompanhada por um conjunto de sintomas “que não parece
se enquadrar em nada na literatura”.

Em muitos casos, os cientistas encontraram evidência de quase todos
os vírus de abelha conhecidos nas poucas abelhas sobreviventes
encontradas nas colméias, após a maioria ter desaparecido. Algumas
apresentavam cinco ou seis infecções ao mesmo tempo e estavam
infestadas de fungos – um sinal, disseram especialistas, de que o
sistema imunológico dos insetos pode ter entrado em colapso.

Os cientistas também estão surpresos com o fato de abelhas e outros
insetos geralmente deixarem as colméias abandonadas intactas.
Populações próximas de abelhas ou parasitas normalmente atacariam os
depósitos de mel e pólen das colônias que morreram por outros
motivos, como um frio excessivo no inverno. “Isto sugere que há algo
tóxico na própria colônia que os repele”, disse Cox-Foster.

Walter Haefeker, o diretor da associação alemã de apicultura,
especula que “além de vários outros fatores”, o fato de plantas
geneticamente modificadas, resistentes a insetos, atualmente serem
usadas em 40% das plantações de milho americanas pode ter um papel.
O número é muito menor na Alemanha -apenas 0,06%- e a maioria se
encontra nos Estados do leste, de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e
Brandemburgo. Haefeker recentemente enviou a um pesquisador do Grupo
de Trabalho para CCD alguns dados de um estudo de abelhas que ele há
muito sente que mostra uma possível conexão entre a engenharia
genética e a doença nas abelhas.

O estudo em questão é um pequeno projeto de pesquisa realizado na
Universidade de Jena, de 2001 a 2004. Os pesquisadores examinaram os
efeitos do pólen de uma variante geneticamente modificada de milho,
chamada “milho Bt”, sobre as abelhas. Um gene de uma bactéria do
solo foi inserido no milho, que permitiu à planta produzir um agente
que é tóxico a pragas de insetos. O estudo concluiu que não havia
evidência de “efeito tóxico do milho Bt em populações saudáveis de
abelhas”. Mas quando, por acaso, as abelhas usadas nas experiências
foram infestadas por um parasita, algo estranho aconteceu. Segundo o
estudo da Jena, “um declínio significativamente forte no número de
abelhas” ocorreu entre os insetos que se alimentaram de uma ração
altamente concentrada de Bt.

Segundo Hans-Hinrich Kaatz, um professor da Universidade de Halle,
no oeste da Alemanha, e diretor do estudo, a toxina bacteriana no
milho geneticamente modificado pode ter “alterado a superfície dos
intestinos das abelhas, o suficiente para enfraquecê-las e permitir
a entrada dos parasitas – ou talvez tenha sido o contrário. Nós não
sabemos”.

É claro, a concentração da toxina era dez vezes superior nas
experiências do que no pólen normal do milho Bt. Além disso, a ração
das abelhas foi ministrada ao longo de um período relativamente
longo de seis semanas. Kaatz preferia ter continuado estudando o
fenômeno, mas carecia dos recursos necessários. “Aqueles que têm o
dinheiro não estão interessados neste tipo de pesquisa”, disse o
professor, “e aqueles que estão interessados não tem o dinheiro”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

Globo demite editor de economia do Jornal Nacional

Marco Aurélio Mello, editor há quatro anos do principal jornal da emissora, foi demitido por seu trabalho “não ser mais compatível” com a empresa. Em outubro, ele foi um dos jornalistas que se recusou a subscrever o abaixo-assinado em defesa da cobertura da Globo das eleições presidenciais.

Bia Barbosa – Carta Maior

SÃO PAULO – A Rede Globo demitiu, nesta sexta-feira (23), o jornalista Marco Aurélio Mello. Há quatro anos editor de economia do Jornal Nacional, Mello está há mais de 12 anos na empresa, nove em São Paulo. Antes de integrar a equipe do Jornal Nacional, foi, por três anos, editor de política do Jornal da Globo. Segundo informações de funcionários da empresa, o editor recebeu a notícia da sua demissão do chefe de jornalismo em São Paulo, Luiz Cláudio Latgé. Ele teria dito a Mello que, após uma avaliação interna de seu trabalho, a conclusão era a de que ele não era mais compatível com a empresa. Latgé teria chegado a dizer que foi feito um esforço para que Mello fosse aproveitado em outros jornais da Globo, mas que as equipes já estariam fechadas.

Em outubro do ano passado, Marco Aurélio Mello foi um dos jornalistas que não subscreveu o abaixo-assinado divulgado por funcionários da Globo em defesa da cobertura feita pela empresa da campanha presidencial (leia matéria “População critica cobertura; Globo faz abaixo-assinado pra se defender”).

Ele chegou a assinar o documento, mas depois, ao perceber que o texto seria usado politicamente, pediu a Mariano Boni, da chefia de redação do Jornal da Globo, pra retirar seu nome. Na ocasião, outras quatro pessoas fizeram o mesmo pedido. Boni teria dito “quem não estiver satisfeito com a cobertura da Globo que pegue o chapéu e vá para a Record”.

“Não tenho dúvidas de que ele ficou com essa marca lá dentro”, disse um jornalista à Carta Maior. Logo depois das eleições, Marco Aurélio Mello foi deslocado para a equipe do Bom Dia Brasil. Depois que voltou das férias tiradas no final do ano, retornou ao Jornal Nacional e foi demitido um mês depois.

Colegas contam que não houve nenhum erro cometido pelo editor neste período. A tentativa de desqualificação do trabalho de um jornalista antes de sua demissão, no entanto, parece ser prática da emissora. Em entrevista concedida à revista Caros Amigos no ano passado, o jornalista Franklin Martins descreveu assim o momento em que ficou sabendo de sua demissão:

“Ó, Franklin, nós fi zemos uma pesquisa qualitativa muito grande, vários grupos aqui, todos os jornais, todos os telejornais, todos os âncoras, os comentaristas e tivemos uma surpresa: a sua imagem diante do telespectador é fraca”. Eu olhei: “Como é que é?” “É, sua imagem é fraca.” [...] me estenderam um papelzinho que tinha uma foto minha e cinco tópicos do que a qualitativa tinha dito a meu respeito. A primeira era assim: “Alguns entrevistados não souberam dizer quem era”. A outra dizia: “Fala sobre as coisas da política, as coisas de Brasília”. Terceiro: “Dá menos opinião e mais informação” – o que considero um extraordinário reconhecimento do que eu quero fazer como profi ssional. Quarto: “Faz comentários muito equilibrados” – a mesma coisa. E eu digo: “Bom, e aí?” “E aí nós pensamos melhor, eu pensei melhor, e decidi não renovar o seu contrato.” Eu digo: “Espera aí, conta outra!” “Não, não, é isso.” “Ó, fulano (pede que não coloquemos o nome), eu saí de férias você dizendo que minha posição é consolidada; agora você diz que saiu numa pesquisa uma coisa assim, todo mundo vai achar evidentemente que tem alguma coisa a ver com o Diogo Mainardi. Tem alguma coisa a ver com isso?” “Eu sou peremptório, não tem nada a ver com isso.” “Mas todo mundo vai achar que tem, e aí?” “Não, não.” Aí eu olhei: “Então não há o que discutir, mas é o seguinte: tenho o Fatos e Versões pra gravar amanhã, como é que faz?” “Não, você não precisa gravar mais nada na TV Globo.” “Está vendo, é alguma coisa diferente de a minha imagem estar fraca, porque, se minha imagem estivesse fraca, talvez você tivesse dito: ‘Você não quer ficar na Globo News, fazer alguma coisa?’ Não, alguma coisa aconteceu que eu não sei o que é e você não quer me dizer, e acho que devia me dizer.” “Não, não.” “Então está bom.”

“Cabeças vão rolar”
O caso de Marco Aurélio Mello não é o primeiro nem deve ser o último. No dia 19 de dezembro, o repórter Rodrigo Vianna, que havia feito críticas internas à cobertura da Globo das eleições presidenciais, foi informado de que não teria seu contrato de trabalho renovado, depois de cerca de doze anos de casa. Antes da notícia, Vianna foi afastado da cobertura de política e destacado para atuar nos jornais locais (leia matéria “Repórter da Globo denuncia parcialidade na cobertura das eleições 2006”).

O mesmo está acontecendo com outros profissionais. Repórteres e editores foram deslocados para funções inferiores ou para jornais de menor prestígio. Outros sumiram do ar sem que seu destino seja conhecido. A imensa maioria deles se recusou a participar do abaixo-assinado do final do ano. Na redação, o clima é o de que novas cabeças vão rolar.

“É claro que eles mapearam as pessoas”, contou um jornalista da Globo.

Procurado pela reportagem da Carta Maior, Marco Aurélio Mello preferiu não dar declarações sobre o assunto. A Central Globo de Comunicação informou que a demissão do editor se deve a mudanças operacionais e remanejamento interno da equipe.

Carta Maior

http://agenciacartamaior.uol.com.br/

Poluição de mananciais ameaça abastecimento em São Paulo

Mais de um bilhão de pessoas no mundo não têm água potável. Essa realidade, porém, não é tão distante: a represa do Guarapiranga, que abastece quase 4 milhões de pessoas em São Paulo, está seriamente ameaçada.

Natália Suzuki - Carta Maior

SÃO PAULO – A garantia de água potável para os próximos anos tem sido uma das grandes preocupações ambientais, pois compromete diretamente a sobrevivência da vida no planeta. Nos últimos 60 anos, o consumo de água aumentou sete vezes, em parte porque a população mundial duplicou, mas também porque houve o aumento do desperdício, da contaminação hídrica e do seu uso na agricultura.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, nos próximos 25 anos haverá uma drástica diminuição da disponibilidade de água por habitante. Estima-se que a diminuição será próxima dos 30%. Atualmente, mais de um bilhão de pessoas já vivem sem acesso à água potável, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O panorama se agrava com a previsão de um crescimento populacional de dois bilhões de novos habitantes, principalmente em cidades de países em desenvolvimento, que deverão ter uma rápida expansão urbana.

O Brasil é um país que tem um papel importante na discussão, já que 12% de toda água disponível do mundo estão em seu território. Mas, ainda assim, o país não tem conseguido preservar os seus mananciais de forma satisfatória.

Um exemplo dessa situação, que conjuga crimes ambientais, descaso e falta de planejamento, é a região metropolitana do Estado de São Paulo (RMSP). Metade de toda a sua área está localizada em mananciais da Bacia do Rio Tietê; são 21 municípios de um total de 39. A maior parte deles – fundamentais para o abastecimento da população dessas cidades – está poluída. Corpos d´água, que convivem lado a lado com a população paulistana, como o próprio Tietê, Pinheiros, Tamanduateí e Ipiranga estão contaminados.

Hoje, a RMSP conta com uma baixa disponibilidade hídrica por habitante, que é semelhante à proporção da região nordeste do Brasil. Essa condição obriga a região buscar água de outras fontes que se situam fora da Bacia do Tietê, como por exemplo, a represa da Cantareira.

Além da poluição, o desperdício colabora no déficit. De toda a água produzida pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), 40% se perde no processo de produção. A metade dessa perda é devido às velhas tubulações e encanamentos do sistema que geram muitos vazamentos ao longo de toda a distribuição. A outra parte é referente ao que se chama “roubo de água”, o que inclui ligações clandestinas feitas tanto por moradias de populações carentes, como pelo pequeno comércio, como é o caso de muitos lava-rápidos.

“A maioria dos rios poluídos [de São Paulo] poderiam ser usados para o abastecimento. Se os rios não fossem poluídos, haveria maior disponibilidade”, afirma Marussia Whately, coordenadora do Programa Mananciais do Instituto Socioambiental (ISA). “A cultura brasileira é muito relapsa e displicente com uso de recursos naturais. É um mau uso histórico, um processo de quem sempre teve tudo a mão”, avalia.

O mais ameaçado
A represa Guarapiranga é o manancial mais ameaçado da região metropolitana de São Paulo. Contudo, ela é responsável pelo abastecimento de 3,7 milhões de pessoas, as quais não vivem apenas em seu entorno, mas em outros bairros paulistanos mais distantes.

O esgoto e a poluição difusa são as principais causas da poluição da Guarapiranga. De acordo com os resultados do Seminário Guarapiranga 2006, divulgados na última quarta-feira (21), a deficiência dos serviços de saneamento, sobretudo da rede de coleta, afastamento e tratamento do esgoto da população da bacia, é uma das principais responsáveis pelo quadro.

“A situação atual do reservatório e seus afluentes caracteriza-se pela deterioração progressiva da qualidade das águas, em função do crescente aumento do despejo de esgotos e da poluição difusa”, descreve o relatório. A poluição difusa é aquela depositada ao longo de toda a bacia e que provem do escoamento superficial das casas, dejetos domésticos e resíduos comerciais e industriais de pequeno porte.

A deterioração da Guarapiranga é um processo histórico, que ocorre paralelamente com a expansão da cidade. Na década de 80, a presença de algas foi registrada nas suas águas, que indicam a grande quantidade de material orgânico na represa. O excesso de poluição tem aumentado a quantidade de plantas aquáticas, cujo impacto incide na qualidade da água e no assoreamento da represa.

Uma outra causa para o assoreamento na represa é a sua intensa ocupação populacional. Com a instalação de novas casas, o terreno cede e desliza para dentro da represa, reduzindo o seu tamanho e a sua capacidade de armazenamento de água.

Mas essa ocupação contribui de outras formas para as condições atuais da represa. O local, hoje, é densamente povoado. Segundo a professora e coordenadora do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), Maria Lúcia Refinetti Martins, a população chega a mais de um milhão de pessoas na região da bacia e a tendência é o seu crescimento, mesmo ali sendo uma Área de Proteção Permanente (APP), o que, em tese, restringiria a ocupação imobiliária indiscriminada. Por conta disso, grande parte dos 200 mil domicílios da região da bacia está em situação irregular.

A comunidade Vera Cruz, no bairro do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, ilustra bem a situação. Apenas uma pequena parte das moradias são regularizadas e, portanto, contam os serviços de saneamento básico. A conseqüência disso é que parte considerável das moradias, especialmente as que estão mais próximas à represa e nas encostas dos terrenos mais acidentados, despeja todo o seu esgoto nas águas do Guarapiranga sem qualquer tipo de tratamento.

Nessas casas desprovidas do serviço público, os próprios moradores improvisam um sistema de canalização de água e esgoto, cujo destino mais curto e mais fácil é a represa que está logo ao lado.

Mas o fato de essas moradias se situarem entorno da represa não lhes garante abundância de água. “Falta muita água aqui quase todos os dias, mas tem dia que pega a gente de surpresa e ficamos até três dias sem água. Daí precisa pegar água do poço. A gente tem mandar as crianças limpas para a escola. E o a rede de esgoto joga tudo na represa. Nós fizemos a rede”, afirma a moradora Maria Valdete da Conceição, que vive ali há oito anos.

Na verdade, o exemplo da Vera Cruz, é um micro universo de uma realidade em que 70% da população de toda a RMSP tem esgoto coletado, mas apenas 35% desse total têm o seu esgoto tratado. Com exceção dos municípios de São Paulo e de Embu-Guaçu, os outros da Bacia não têm qualquer tipo de tratamento dos seus esgotos, que depois de coletados, são jogados em cursos d´água, como o Embu-Guaçu e o Embu-Mirim, ambos afluentes da represa do Guarapiranga.

Apenas metade da rua Bernardo Clavijo, na Vera Cruz, tem o seu esgoto coletado, a outra metade nem isso, dispondo apenas do serviço de distribuição de água. Ainda assim, a Sabesp cobra desses moradores pelos dois serviços. A conta emitida pela Sabesp para uma das casas dessa rua, com vencimento do 16 de fevereiro de 2007, cobrava R$21,21 pela água e R$21,21 pelo esgoto. A moradora afirma que conta apenas com o serviço de água.

Segundo Marussia, os problemas de fornecimento terão um efeito maior nas populações mais pobre. “Cada vez mais, os pobres não têm saneamento desde que os serviços de saneamento viraram um negócio por conta das privatizações. O pobre não tem dinheiro para pagar esse serviço e por isso não o recebe, ainda que seja um direito seu”.

A Sabesp foi procurada insistentemente pela reportagem, mas até o fechamento dessa matéria não atendeu ao pedido de entrevista.

Segundo especialista, o continente não está derretendo

Jurema Aprile*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Afinal, o que está derretendo na Antártida? O gelo marinho, os icebergs, as banquisas, a calota polar ou as geleiras? Cerca de 10% da área do planeta Terra é coberta de gelo e 90% desse volume está na Antártida. Mas o continente gelado não está derretendo e contribui minimamente para o aumento no volume das águas marinhas observado nos últimos anos.

A afirmação é de um dos principais especialistas no assunto, o glaciólogo Jefferson Simões, coordenador do Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que estuda a questão do gelo do planeta e o descongelamento. A glaciologia é uma área da geologia que estuda as geleiras, as glaciações e seus efeitos sobre a Terra.

Falta consenso
Cálculos apresentados por pesquisadores em painéis climáticos internacionais prevêem que até o ano 2100 o nível do mar poderá se elevar de 60 cm a 1 m por conta de gelo que se tornará liquefeito e aumentará o volume das águas marinhas.

Em relação a isso, Simões, que é geólogo com doutorado em glaciologia, ressaltou que é uma parte muito pequena do gelo do planeta que está derretendo – exatamente 0,7% do volume total – e a participação do gelo antártico nesse percentual é mínima.

O volume do gelo antártico corresponde a 25 milhões km3. Se derretesse todo, equivaleria a um aumento de 60 metros no nível médio dos mares.

Estudos realizados nos últimos anos e publicados em revistas científicas produziram resultados contraditórios. Alguns indicavam a perda de gelo e outros o engrossamento da camada – não há consenso dos pesquisadores.

Registros gelados
A cobertura de gelo antártico tem papel fundamental no sistema ambiental. Ela é um dos principais controladores do sistema climático terrestre e do nível do mar.

Além disso, essa cobertura “arquiva” nas suas camadas a evolução e os eventos principais da atmosfera do planeta. Ficam registrados ali os resultados da ação humana sobre o ambiente nas últimas décadas. Daí se entende a importância dos estudos em glaciologia antártida.

“As pessoas confundem gelo marinho – mar congelado – com gelo de geleiras”, diz Jefferson Simões. Mar congelado tem impactos ambientais climáticos significativos, mas não afeta o nível marinho.

O aumento no nível das águas do mar está relacionado em 70% ao derretimento das geleiras -que concentram a maior parte da água doce do planeta – e em 30% à expressão térmica do mar, ensina o glaciólogo.

Outro equívoco comum é o uso da expressão “calotas polares”. Elas não existem. O que há são áreas cobertas de gelo, como os mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida.

Afinal, o que é uma geleira?
Decididamente, não é um iceberg, aqueles blocos imensos de gelo que se vê, em fotos ou filmes, flutuando no mar. A geleira ou glaciar é uma massa continental de gelo de limites definidos, que se movimenta lentamente por ação da gravidade: ela nunca está parada.

O termo ”geleira” não é aplicado às massas de gelo formadas pelo congelamento da água: essas são as banquisas. E mais: a expressão “manto de gelo” só se refere a uma massa de neve e gelo muito espessa, com área maior de 50 mil km2. Só existem dois mantos de gelo no planeta: o antártico e o groenlandês.

Um manto pode estar apoiado sobre rochas ou flutuar na água – nesse caso são chamados plataformas de gelo. Elas têm espessura que vai de 200 a 2.000 m e são fixas à costa, podendo se estender por até 500.000 km2.

Plataformas podem aumentar de tamanho pela acumulação de neve e gelo ou pelo fluxo do gelo. Também perdem massa pelo desprendimento de icebergs. Estes podem durar mais de dez anos “viajando” na água antes de derreter. Aproximadamente 42% da costa antártida são cobertas por plataformas de gelo.

Se aquece, descongela
O descongelamento que mais contribui para o aumento das águas oceânicas no mundo ocorre ao sul da Groenlândia, nas calotas de gelo das ilhas árticas, na região polar Norte.

Outra contribuição vem do derretimento das geleiras de montanhas localizadas em regiões temperadas e tropicais. Toda essa água vai para os rios e, então, toma o caminho do mar. Na Bolívia, as geleiras estão derretendo rapidamente. Na capital, La Paz, 70% das águas vêm das geleiras.

O derretimento das geleiras nos Andes tem impactos no Brasil, causando aumento do volume das águas tanto na bacia do Paraná quanto na Amazônica. Também há diminuição do gelo na Patagônia.

O descongelamento das geleiras eternas em regiões tropicais tem sido atribuído ao aquecimento global, por pesquisadores como os da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos. A geleira Qori Kalis, no Peru, estaria encolhendo cerca de 60 m ao ano, arriscando-se a desaparecer completamente em cinco anos.

Duas medidas
Para o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), as mudanças climáticas são “muito provavelmente” causadas pela ação humana.

O IPCC estabelece 90% de probabilidades de que o aquecimento da superfície do planeta seja provocado pelas emissões de gases causadores do efeito estufa, ou seja, pela ação humana.

Há estudiosos que lêem essa afirmação de outra forma: existem 10% de chances de que o aquecimento global não seja causado pela emissão de gases estufa e sim por condições naturais.

Mudanças sempre ocorreram
Para o glaciólogo Jefferson Simões, mudanças no clima sempre ocorreram e não há motivo para pânico. Preocupante, para ele, é a velocidade desse processo.

Quando essas mudanças do clima acontecem de forma rápida, os organismos não têm tempo suficiente para se adaptar e se desenvolver. Quando os processos são mais lentos, nós nos adaptamos.

Em 12 mil anos, entre a última idade do gelo e o tempo presente, a temperatura média da Terra aumentou 7º C. Em comparação, nos últimos 140 anos, registrou-se um décimo desse aumento.

# Com informações da Agência FAPESP.

*Jurema Aprile é jornalista.pagina3@pagina3ped.com

Colapso das colônias – Será que plantações de transgênicos estão matando as abelhas?

Uma dizimação misteriosa das populações de abelhas preocupa os apicultores alemães, enquanto um fenômeno semelhante nos EUA está assumindo gradualmente proporções catastróficas

Gunther Latsch

Walter Haefeker é um homem que está acostumado a pintar cenários sombrios. Ele faz parte do conselho diretor da Associação Alemã de Apicultores (Dbib) e é vice-presidente da Associação Européia de Apicultores Profissionais. E como reclamar faz parte da atividade do lobista, é praticamente seu dever profissional alertar que “a própria existência da apicultura está em risco”.

O problema, disse Haefeker, tem várias causas, uma delas o ácaro Varroa, oriundo da Ásia, e outra a prática disseminada na agricultura de borrifar as flores silvestres com herbicidas e promover a monocultura. Outra possível causa, segundo Haefeker, é o uso crescente e controverso de engenharia genética na agricultura.

Já em 2005, Haefeker encerrou um artigo para o qual contribuiu no jornal “Der Kritischer Agrarbericht” (Relatório Agrícola Crítico) com uma citação de Albert Einstein: “Se a abelha desaparecer da superfície do planeta, então ao homem restariam apenas quatro anos de vida. Com o fim das abelhas, acaba a polinização, acabam as plantas, acabam os animais, acaba o homem”.

Eventos misteriosos nos últimos meses repentinamente fizeram a visão apocalíptica de Einstein parecer mais relevante. Por motivos desconhecidos, as populações de abelhas por toda a Alemanha estão desaparecendo – algo que até o momento está prejudicando apenas os apicultores. Mas a situação é diferente nos Estados Unidos, onde as abelhas estão morrendo em números tão dramáticos que as conseqüências econômicas poderão em breve ser calamitosas. Ninguém sabe o que está causando a morte das abelhas, mas alguns especialistas acreditam que o uso em grande escala de plantas geneticamente modificadas nos Estados Unidos poderia ser um fator.

Felix Kriechbaum, um representante da associação regional dos apicultores na Baviera, informou recentemente um declínio de quase 12% na população local de abelhas. Quando as “populações de abelhas desaparecem sem deixar vestígio”, disse Kriechbaum, é difícil investigar as causas, porque “a maioria das abelhas não morre na colméia”. Há muitas doenças que podem fazer as abelhas perderem seu senso de orientação, de forma que não podem encontrar seu caminho de volta às suas colméias.

Manfred Hederer, o presidente da Associação Alemã de Apicultores, quase que simultaneamente informou uma queda de 25% nas populações de abelhas por toda a Alemanha. Em casos isolados, disse Hederer, declínios de até 80% foram informados. Ele especula que “alguma toxina em particular, algum agente do qual não estamos familiarizados”, está matando as abelhas.

Até o momento, os políticos têm demonstrado pouca preocupação diante de tais alertas e da situação difícil dos apicultores. Apesar de estes terem recebido uma chance de expor seu caso -por exemplo, às vésperas da aprovação pelo Gabinete alemão do documento de política de engenharia genética de autoria do ministro da Agricultura, Horst Seehofer, em fevereiro- suas queixas ainda permanecem em grande parte ignoradas.

Mesmo quando os apicultores recorrem à Justiça, como fizeram recentemente em um esforço conjunto com a sucursal alemã da organização de agricultura orgânica Demeter International e outros grupos contrários ao uso de plantações de milho geneticamente modificado, eles só podem sonhar com o tipo de atenção da mídia que grupos ambientalistas como o Greenpeace atraem com seus protestos em locais de teste.

Mas isto poderá mudar em breve. Desde novembro passado, os Estados Unidos estão vendo um declínio das populações de abelhas tão drástico que ofusca todas as ocorrências anteriores de mortalidade em massa. Os apicultores na Costa Leste dos Estados Unidos se queixam de terem perdido mais de 70% de suas colônias desde o final do ano passado, enquanto a Costa Oeste vê um declínio de até 60%.

Em um artigo em sua seção de negócios no final de fevereiro, o “New York Times” calculou os prejuízos que a agricultura americana sofreria em caso de dizimação das abelhas. Especialistas da Universidade de Cornell, no interior de Nova York, estimaram o valor que as abelhas geram -polinizando plantas responsáveis por frutas e legumes, amendoeiras e trevos que alimentam animais- em mais de US$ 14 bilhões.

Os cientistas chamam o fenômeno misterioso de “Colony Collapse Disorder” (CCD, desordem de colapso da colônia) e ele está se transformando rapidamente em uma espécie de catástrofe nacional. Várias universidades e agências do governo formaram um “Grupo de Trabalho para CCD” para procurar as causas da calamidade, mas até o momento continuam de mãos vazias. Mas, como Dennis van Engelsdorp, um apicultor do Departamento de Agricultura da Pensilvânia, eles já estão se referindo ao problema como uma potencial “Aids do setor de apicultura”.

Uma coisa é certa: milhões de abelhas simplesmente desapareceram. Na maioria dos casos, tudo o que resta nas colméias são proles condenadas. Mas as abelhas mortas não são encontradas – nem nas colméias e nem em qualquer lugar próximo delas. Diana Cox-Foster, um membro do Grupo de Trabalho para CCD, disse ao “The Independent” que os pesquisadores estão “extremamente alarmados”, acrescentando que a crise “tem o potencial de devastar o setor de apicultura americano”. É particularmente preocupante, disse ela, o fato da morte das abelhas ser acompanhada por um conjunto de sintomas “que não parece se enquadrar em nada na literatura”.

Em muitos casos, os cientistas encontraram evidência de quase todos os vírus de abelha conhecidos nas poucas abelhas sobreviventes encontradas nas colméias, após a maioria ter desaparecido. Algumas apresentavam cinco ou seis infecções ao mesmo tempo e estavam infestadas de fungos – um sinal, disseram especialistas, de que o sistema imunológico dos insetos pode ter entrado em colapso.

Os cientistas também estão surpresos com o fato de abelhas e outros insetos geralmente deixarem as colméias abandonadas intactas. Populações próximas de abelhas ou parasitas normalmente atacariam os depósitos de mel e pólen das colônias que morreram por outros motivos, como um frio excessivo no inverno. “Isto sugere que há algo tóxico na própria colônia que os repele”, disse Cox-Foster.

Walter Haefeker, o diretor da associação alemã de apicultura, especula que “além de vários outros fatores”, o fato de plantas geneticamente modificadas, resistentes a insetos, atualmente serem usadas em 40% das plantações de milho americanas pode ter um papel. O número é muito menor na Alemanha -apenas 0,06%- e a maioria se encontra nos Estados do leste, de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Brandemburgo. Haefeker recentemente enviou a um pesquisador do Grupo de Trabalho para CCD alguns dados de um estudo de abelhas que ele há muito sente que mostra uma possível conexão entre a engenharia genética e a doença nas abelhas.

O estudo em questão é um pequeno projeto de pesquisa realizado na Universidade de Jena, de 2001 a 2004. Os pesquisadores examinaram os efeitos do pólen de uma variante geneticamente modificada de milho, chamada “milho Bt”, sobre as abelhas. Um gene de uma bactéria do solo foi inserido no milho, que permitiu à planta produzir um agente que é tóxico a pragas de insetos. O estudo concluiu que não havia evidência de “efeito tóxico do milho Bt em populações saudáveis de abelhas”. Mas quando, por acaso, as abelhas usadas nas experiências foram infestadas por um parasita, algo estranho aconteceu. Segundo o estudo da Jena, “um declínio significativamente forte no número de abelhas” ocorreu entre os insetos que se alimentaram de uma ração altamente concentrada de Bt.

Segundo Hans-Hinrich Kaatz, um professor da Universidade de Halle, no oeste da Alemanha, e diretor do estudo, a toxina bacteriana no milho geneticamente modificado pode ter “alterado a superfície dos intestinos das abelhas, o suficiente para enfraquecê-las e permitir a entrada dos parasitas – ou talvez tenha sido o contrário. Nós não sabemos”.

É claro, a concentração da toxina era dez vezes superior nas experiências do que no pólen normal do milho Bt. Além disso, a ração das abelhas foi ministrada ao longo de um período relativamente longo de seis semanas. Kaatz preferia ter continuado estudando o fenômeno, mas carecia dos recursos necessários. “Aqueles que têm o dinheiro não estão interessados neste tipo de pesquisa”, disse o professor, “e aqueles que estão interessados não tem o dinheiro”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Der Spiegel

É a mesma pessoa, acredite.

Lula em 2007

“Os usineiros de cana, que dez anos atrás eram tidos como bandidos do agronegócio, estão virando heróis nacionais e mundiais, porque todo mundo está de olho no álcool”

Lula em 2000 (Revista Caros Amigos)

“Não se justifica num país, por maior que seja, ter alguém com 30 mil alqueires de terra! Dois milhões de hectares de terra!!! Isso não tem
justificativa em lugar nenhum do mundo! Só no Brasil. Porque temos um presidente covarde, que fica na dependência de contemplar uma bancada ruralista a troco de alguns votos”

A praga

RUBEM ALVES

Permitir o divórcio equivale a dizer: o sacramento é uma balela. Donde, a Igreja Católica é uma balela…

É BOM atentar para o que o papa diz. Porta-voz de Deus na Terra, ele só pensa pensamentos divinos. Nós, homens tolos, gastamos o tempo pensando sobre coisas sem importância tais como o efeito estufa e a possibilidade do fim do mundo. O papa vai direto ao que é essencial: “O segundo casamento é uma praga!”
Está certo. O casamento não pertence à ordem abençoada do paraíso. No paraíso não havia casamento. Na Bíblia não há indicação de que as relações amorosas entre Adão e Eva tenham sido precedidas pelo cerimonial a que hoje se dá o nome de casamento: o Criador, celebrante, Adão e Eva nus, de pé, diante de uma assembléia de animais, tudo terminando com as palavras sacramentais: “E eu, Jeová, vos declaro marido e mulher. Aquilo que eu ajuntei os homens não podem separar…”
Os casamentos, o primeiro, o segundo, o terceiro, pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-paraíso. Nessa ordem não se pode confiar no amor. Por isso se inventou o casamento, esse contrato de prestação de serviços entre marido e mulher, testemunhado por padrinhos, cuja função é, no caso de algum dos cônjuges não cumprir o contrato, obrigá-lo a cumpri-lo.
Foi um padre que me ensinou isso. Ele celebrava o casamento. E foi isso que ele disse aos noivos: “O que vos une não é o amor. O que vos une é o contrato”. Aprendi então que o casamento não é uma celebração do amor. É o estabelecimento de direitos e deveres. Até as relações sexuais são obrigações a ser cumpridas.
Agora imaginem um homem e uma mulher que muito se amam: são ternos, amigos, fazem amor, geram filhos. Mas, segundo a igreja, estão em estado de pecado: falta ao relacionamento o selo eclesiástico legitimador. Ele, divorciado da antiga esposa, não pode se casar de novo porque a igreja proíbe a praga do segundo casamento. Aí os dois, já no fim da vida, são obrigados a se separar para participar da eucaristia: cada um para um lado, adeus aos gestos de ternura… Agora está tudo nos conformes. Porque Deus não enxerga o amor. Ele só vê o selo eclesial.
O papa está certo. O segundo casamento é uma praga. Eu, como já disse, acho que todos são uma praga, por não ser da ordem paradisíaca, mas da maldição. O símbolo dessa maldição está na palavra “conjugal”: do latim, “com”= junto e “jugus”= canga. Canga, aquela peça pesada de madeira que une dois bois. Eles não querem estar juntos. Mas a canga os obriga, sob pena do ferrão…
Por que o segundo casamento é uma praga? Porque, para havê-lo, é preciso que o primeiro seja anulado pelo divórcio. Mas, se a igreja admitir a anulação do primeiro casamento, terá de admitir também que o sacramento que o realizou não é aquilo que ela afirma ser: um ato realizado pelo próprio Deus. Permitir o divórcio equivale a dizer: o sacramento é uma balela. Donde, a igreja é uma balela… Com o divórcio ela seria rebaixada do seu lugar infalível e passaria a ser apenas uma instituição falível entre outras. A igreja não admite o divórcio não é por amor à família. É para manter-se divina…
A igreja, sábia, tratou de livrar seus funcionários da maldição do amor. Proibiu-os de se casarem. Livres da maldição do casamento, os sacerdotes têm a suprema felicidade de noites de solidão, sem conversas, sem abraços e nem beijos. Estão livres da praga…

Jornal Folha de S. Paulo
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CAIO PRADO JR., HISTORIADOR

FERNANDO NOVAIS

Mito ou realidade, a chamada “Revolução de 30″ parece ter indiscutivelmente estimulado entre nós as atividades intelectuais, particularmente voltadas para a interpretação do país; “nunca se falou tanto em realidade brasileira como nessa época — cada um, claro está, vendo-a de maneira diferente.”[1] Do volumoso caudal de publicações de então, contudo, poucas resistiram à corrosão definitiva do tempo, que vai separando impiedosamente o joio do trigo. Dentre essas poucas, que ainda hoje mantêm sua vitalidade, Evolução política do Brasil (1933) talvez não tenha, quando de seu lançamento, despertado o interesse que depois viria a consolidar.[2] Hoje, quando pensamos nas grandes “interpretações” surgidas naquele contexto, é sobretudo para três obras que nos voltamos: além do livro de Caio Prado Jr., Casa Grande & Senzala (1933) de Gilberto Freyre e Raízes do Brasil (1936) de Sérgio Buarque de Holanda. De lá para cá, os três autores enriqueceram normemente nossa brasiliana, por caminhos diversos e às vezes opostos, mas vale lembrar aquele ponto de partida: aparecem no bojo do que porventura se possa chamar a “geração de 30″, nos quadros de nossa história intelectual.

Fixado esse patamar, convém esclarecer objetivos e limitações, antes de avançar o passo. Efetivamente, o título acima não é uma manifestação da modéstia; antes, pretende ser um exercício de precisão. Caio Prado J r ., ainda que, quanto a nós, seja sempre e antes de tudo historiador, cultivou também a filosofia, a economia e o ensaio político. Aqui cui daremos exclusivamente de sua obra historiográfica, não nos aventurando pelas sendas filosóficas nem mesmo quando tratarmos de problemas metodológicos, quer dizer, esses problemas serão vistos tal como aparecem na prática do historiador, e não nas formulações do filósofo. O mesmo para a teoria econômica, por mais que estejam interpenetradas na obra. Dada a postura metodológica do autor — Caio Prado Jr. é marxista explícito — essa fusão é absolutamente natural, e necessária, pois as fronteiras entre as ciências tendem a se diluir. Não significa isso que deixem de existir especializações e formações profissionais, nem que trabalhos centrados numa ou noutra direção careçam de validade; significa, sim, que devem ser vistos como partes de um conjunto mais amplo e integrado, etapas de um roteiro mais longo a ser percorrido. O que tentaremos é traçar o perfil de sua obra de historiador, enfatizando o que nos pareça mais relevante em contribuições, indicando a leitura que nos pareça mais fiel e compreensiva; não deixaremos, é claro, de discutir e questionar alguns pontos, e avançar observações preliminares para situá-lo na historiografia e na cultura brasileira. Não trataremos, porém, da coerência do conjunto da obra (história, filosofia, economia). Pensamos que essa caracterização inicial seja uma etapa importante para uma avaliação mais definitiva e global; sabemos que as limitações indicadas impõem provisoriedade a conclusões.

Delimitada, circunscrita, a tarefa não é, ainda assim, fácil; pois os estudos de historiografia — isto é, de história da história — são sempre inçados de dificuldades sem conta. Procura a historiografia conhecer melhor a história através da obra dos historiadores, ao mesmo tempo em que a obra dos historiadores através da história. Neste jogo complexo, em que várias etapas têm de ser ultrapassadas, vários recortes são possíveis: pode-se, por exemplo, fixar um tema (um evento, um processo) e elencar as
obras de vários autores a ele referentes; ou, em sentido inverso, fixar um autor, e acompanhar os temas por ele tratados. No primeiro caso, a biografia do historiador contará menos; no segundo, ganhará relevo. E reaparecem as dificuldades: a biografia é um dos mais difíceis gêneros de história.

No caso de Caio Prado Jr., intelectual em atividade, contamos com o sugestivo esboço biográfico de Francisco Iglésias;[3] por ali se percebe que esse percurso existencial se organiza em torno de dois eixos básicos: a militância política e a ruptura de classe que ela envolveu. Pertencente ao tronco de uma das mais típicas famílias da elite aristocratizante de São Paulo,[4] Caio Prado Jr. desde muito jovem tornou-se militante comunista e pensador marxista. Sua produção intelectual configura a praxis-teórica em sentido pleno, pois fundada diretamente na atividade política. É aí que radicam, evidentemente, as opções mais fundas, — que por serem a um tempo intelectuais e existenciais assumem a força de convicções extremas, marcando a coerência que atravessa toda a obra. Mais ainda, a recorrência e insistência em certos temas, problemas, explicações, posições: nesse retornar quase obsessivo a certos pontos parece expressar-se a reafirmação daquelas opções ou rupturas. Percurso de vida e andamento do discurso relacionam-se, assim, iluminando-se mutuamente. É, por outro lado, sua origem de classe, a que se liga uma refinada e sólida formação intelectual, que de certo modo permitiu a Caio Prado Jr. escapar do esquementismo em que tantas vezes sossobram os intelectuais marxistas. Marxismo, para ele, não terá significado o desdobramento natural da radicalização do intelectual de classe média, em determinadas condições; [5] mais do que isso, implicava o rompimento com as raízes, o engajamento como intelectual orgânico do mundo do trabalho. Dramática, essa ruptura de classe ainda pode ser vista de outro ângulo. Trata-se, efetivamente, não apenas de uma facção de classe dominante, mas de uma elite aristocratizante, que se configurou em certos momentos e em algumas regiões do Brasil, como os senhores de engenho ou “barões” do café. Ora, o declínio de uma elite aristocratizante — declínio enquanto estilo aristocratizante de vida — parece ter o condão de estimular o espírito crítico,[6] e este parece ser o caso do clã Silva Prado, como se pode acompanhar no livro do brasilianista D. Levi. A “decadência”, eis um fator de radicalização intelectual, a ser acrescido aos já analisados por Míchael Lowy. E mais uma vez, no caso de Caio Prado Jr., a condição de classe associa-se tanto à radicalização de suas posições como ao espírito crítico que lhe garante a independência de espírito.

As condições sociais, se permitem um certo equacionamento, nunca esgotam a compreensão de uma obra, que envolve sempre a marca pessoal do autor. Nem pretendemos, com as observações anteriores, uma análise das condições sociais da produção historiográfica de Caio Prado Jr.; apenas procuramos indicar alguns aspectos, mais ligados à configuração das obras, isto é, aos temas abordados, à linha de interpretação, e ao estilo do discurso. Iniciada, em 1933, como indicamos, prossegue com Formação do Brasil Contemporâneo (1942), e História econômica do Brasil (1945), retomando-se depois com A Revolução brasileira (1966) e História e Desenvolvimento (1968). Quase todos os livros de Caio Prado Jr. têm várias edições. A partir de 1946 Evolução política do Brasil é reeditado com outros estudos, de grande interesse.[7] Trata-se de merecido êxito intelectual. Em seus pontos altos há consenso no reconhecimento de que se trata de um marco em nossa historiografia e nos estudos brasileiros em geral. Quando do aparecimento de Formação do Brasil Contemporâneo (1942), em amplo comentário, escrevia José Honório Rodrigues que “esse livro marca uma fase crítica na história de nossa história.”[8] E recentemente, em seu movimentado balanço da cultura brasileira contemporânea, Carlos Guilherme Mota destaca que “com as interpretações de Caio Prado Jr., as classes emergem pela primeira vez nos horizontes de explicação da realidade social brasileira — enquanto categoria analítica.”[9]

Enquanto José Honório refere-se a Formação do Brasil Contemporâneo, Carlos Guilherme reporta-se a Evolução política do Brasil. São livros de índole inteiramente diversa, mas ambos de grande penetração; daí o juízo altamente positivo dos críticos. O mais antigo (Evolução política, 1933) é um ensaio, navegando nas grandes linhas; Formação do Brasil (1942) é uma pesquisa em profundidade, um corte num “momento decisivo” de nossa história. O primeiro funda-se mais na bibliografia antecedente, questionando-lhe as visões; o segundo sem ignorar a historiografia, baseia-se essencialmente nas fontes coesas, — correspondência de autoridades, memórias, viajantes etc. E o fato de o autor desempenhar-se excelentemente nos dois estilos de trabalho já nos ajuda a compreender seu êxito intelectual, o impacto da obra no conjunto. E isto nos remete para um outro traço, característico de seus trabalhos: eles se estruturam sempre em torno de um eixo básico, e se desdobram por veredas laterais, sempre muito sugestivas de novos caminhos de pesquisa. Há, assim, no conjunto e em cada obra, esse núcleo recorrente de concentração, e os desdobramentos que se vão dispersando. Trata-se, desde logo, da perseguição permanente à mesma problemática básica (a identidade nacional, as possibilidades de mudança inscritas no processo histórico), e da sua retomada de vários ângulos e direções.

Detenhamo-nos, portanto, nestes pontos centrais, à procura de seus procedimentos metodológicos. A estrutura analítica de Formação do Brasil Contemporâneo, ponto mais alto da obra historiográfica, oferece, a nosso ver, o caminho mais seguro de acesso a esse núcleo mais decisivo de sua contribuição, ou seja, os temas visados, a formulação da problemática, as categorias através das quais se procede à reconstrução da realidade. É curioso notar que, embora o livro tenha sido saudado desde o início, e venha sendo citado e estudado constantemente, não se tenha destacado essa articulação mais geral que o caracteriza. Até certo ponto pode-se dizer que a sua utilização tem sido antes tópica, seja incorporando elementos de sua exposição, seja aprofundando temas laterais por ele suscitados. Não quero dizer que o livro não tenha sido compreendido, mas que não se tomou como tema a discussão e o aprofundamento de sua linha de análise. Em certos casos, efetivamente, essa atitude empobreceu o aproveitamento da obra.

À simples leitura, percebe-se que, depois de indicar o tema (Introdução), o autor procura definir o que chamou de “sentido da colonização”; segue-se a análise dos vários setores da realidade histórica agrupados em três conjuntos: “Povoamento”, “Vida material” e “Vida Social”, cada um deles subdivididos em capítulos. Nota-se que as considerações iniciais (“sentido”), voltam ao final de cada capítulo, sendo por isso consideradas “chave” para a compreensão; esse texto, — a Introdução — sempre citado, tornou-se “clássico”. Uma indagação mais profunda revela o movimento do discurso: recorte do objeto, apreensão de seu sentido, reconstrução do real a partir desse “sentido”. E o seu travejamento dialético vai transparecendo: o sentido, isto é, a essência do fenômeno, explica as suas manifestações, e ao mesmo tempo explica-se por elas. Não se trata, portanto, na constante recorrência ao ponto inicial, de simples recurso de ênfase; uma vez fixada a essência do fenômeno, dispõe-se da categoria explicativa básica para a reconstrução da realidade, dando-lhe inteligibilidade: daí, a volta permanente ao ponto de partida. É, em suma, essa categoria que explica os vários segmentos (dálhes “sentido”), ao mesmo tempo em que por eles se explica, isto é, a análise dos vários segmentos vai eriquecendo e comprovando a categoria fundamental.

Recortado o objeto, a análise desdobra-se, portanto, em dois movimentos: da aparência para a essência, e da essência para a realidade. E isto nos remete diretamente para o Marx do post-facio da Contribuição à crítica da economia política,[10] onde esses dois movimentos são claramente indicados, e o livro de Caio Prado Jr. começa a aparecer como um exemplo bem-sucedído na prática da dialética. Por isso, entendê-lo como um exemplo de interpretação econômica da história, ou mesmo como manifestação de economicismo, — como tantas vezes tem ocorrido — parece uma leitura acanhada, que não vai às últimas dimensões do texto. Diga-se, de passagem, que algumas passagens menos felizes podem levar a essa visão. Mas, insistimos, não é um ou outro trecho destacado que importa, mas o movimento conjunto da análise. Entre o sentido da colonização e o povoamento, produção, comércio, classes sociais etc., o que existe não é relação causal, mas conexões de sentido, Diríamos mesmo que os segmentos (povoamento, vida material, vida social) poderiam ser descritos e analisados em qualquer seqüência, pois guardam a mesma relação com a categoria explicativa. A segmentação aliás visa apenas a facilitar a exposição, sendo que se pode notar a interpenetração entre eles. É o tipo de análise que permite ultrapassar a visão segmentária e economicista.

Uma outra questão liga-se a essas considerações: a mesma visão, a nosso ver, já estava presente em Evolução política (e, posteriormente, em História econômica), mas a exposição cronológica, não seguindo os passos da análise, dificulta a compreensão do procedimento metodológico. Os pontos centrais da análise porém, são os mesmos, em função da mesma problemática: a constituição da nação a partir da colônia, “colonial” e “nacional” como as categorias que explicitam um determinado processo histórico específico. Assim, parece legítimo inferir que a ordem da exposição pode ou não coincidir com os passos da análise. Esses passos, contudo, envolvem problemas teóricos altamente complexos: sobretudo o “primeiro movimento”, isto é, o que, na realidade aparente, identifica as categorias essenciais — parece de difícil formulação. Não pretendemos discutir este problema, apenas anotar que, na obra que estamos analisando, esse primeiro movimento consiste na inserção do fenômeno analisado num contexto mais amplo. Assim, no clássico “sentido da colonização”, Caio Prado Jr. integra a colonização (isto é, povoamento, economia, sociedade) de uma determinada área no contexto da expansão comercial européia, e é dessa maneira que apreende o seu “sentido”. Isto, é claro, resolve apenas parcialmente o problema, para certo tipo de análise; pois quando é o próprio “contexto mais amplo” que se questiona, a dificuldade reaparece em toda sua força.

E aqui vamos nos aproximando das possíveis limitações, que mesmo as obras mais penetrantes acabam por revelar. Se buscamos uma integração crítica da contribuição de Caio Prado Jr., que assimile seus avanços procurando ao mesmo tempo ultrapassá-los, temos que questionar este núcleo de sua análise, e não apenas seus aspectos laterais. Nesta linha, talvez se possa argüir que, no movimento de inserção no conjunto, isto é, no esforço por apreender a categoria básica, a análise se deteve a meio caminho. Trata-se de definir com precisão o que deve ser inserido em que; e talvez o Brasil na expansão marítima européia seja um recorte que apanhe apenas algumas dimensões da realidade, não levando a análise até a linha do horizonte. “Brasil”, é claro, não existia, a não ser enquanto colônia, e é da colônia portuguesa que trata Caio Prado Jr.: a questão é saber se não seria preciso o conjunto do mundo colonial. Expansão comercial européia é a face mercantil de um processo mais profundo, a formação do capitalismo moderno; e a questão consiste em saber se não seria preciso procurar as articulações da exploração colonial com esse processo de transição feudal-capitalista. Assim, a análise, embora centrada numa determinada região, seria sempre a análise do movimento em seu conjunto, buscando permanentemente articular o particular e o geral. A análise das formas de acumulação primitiva na gestação do capitalismo parece ser, por outro lado, o caminho para explicitar essas conexões estruturais. O que levaria à reformulação das unhas gerais, e da própria visão do conjunto. Mas, insistimos, é essa uma crítica que parte da análise de Caio Prado Jr., e a incorpora.

De toda maneira, a compreensão desse núcleo central parece-nos indispensável para compreender a obra nos seus desdobramentos. É por aí que se apreende sua extraordinária coerência. Trata-se de compreender a nação a partir da colônia e por oposição a ela, e indagar as possibilidades de transformação inscritas nesse processo. Já em Evolução política a problemática e as categorias básicas de análise estavam esboçadas, e o estudo incidiu particularmente sobre o processo de emancipação; e não será demais lembrar que o enfoque geral ali esboçado para a análise da independência como um processo mais abrangente resiste até hoje, como o que de melhor dispomos para o estudo do problema. Inserido no contexto da formação do estado nacional, a emancipação política ganhou sentido e ultrapassou a visão dos lances mais pitorescos ou mesmo dramáticos. Assim, Caio Prado Jr. insistiu na importância de levar o processo até as lutas da regência, dando início a estudos no capítulo que dedicou a essas lutas, um dos pontos mais altos do livro. Ele mesmo retomaria o tema, na introdução à edição do Tamoio, ou no estudo sobre Cipriano Barata. Outros autores aprofundariam o estudo dessas rebeliões.

Por outro lado, a análise das características da economia colonial, esboçada no primeiro livro, assume no segundo seu pleno desenvolvimento. A discriminação de seus setores, sua forma de articulação e desenvolvimento etc., permitiram caminhar para a configuração do que seria a economia nacional, isto é, voltada para dentro, centrada no mercado interno, — em processo de constituição. Esta linha seria desenvolvida na História econômica, e retomada em Diretrizes para uma política econômica (1954). Aqui, para além da análise do processo histórico, mas a partir dela, se transita para as potencialidades nele inscritas, caminhando-se no sentido da atuação política efetiva. Como que se recompõe de novo coerência da obra no conjunto. É essa última dimensão que se enfatiza em A Revolução brasileira (1965) e A questão agrária no Brasil (1979). Por todas essas obras, o autor foi semeando pistas e sugerindo temas, alguns tratados por novos pesquisadores, outros ainda não abordados, à espera dos estudiosos. Esse caráter seminal é outra marca das grandes obras.

Grande obra, no seu conjunto, tiveram razão os críticos ao considerá-la um marco em nossa história intelectual. Talvez valha a pena meditar um pouco sobre o significado dessa avaliação. Pois quando dizemos que uma obra é um “marco” convém explicar em que “série”. Neste sentido, três ângulos de análise se abrem, altamente sugestivos, para uma avaliação crítica da obra historiográfica de Caio Prado Jr. Ela pode, obviamente, ser vista no quadro da historiografia brasileira, e é isto que vimos esboçando, com essas notas preliminares. Não pode haver dúvida quanto ao seu significado preeminente nesse campo, não somente pela contribuição efetiva como pela fermentação que vem provocando.

Mas Caio Prado Jr. historiador pode ainda ser visto no quadro do marxismo latino-americano. E aqui sua posição (ao lado da de J. C. Mariátegui, que começa a ser estudado entre nós) parece ser excepcional. Durante muito tempo o que caracterizou o marxismo latino-americano foi um extremado esquematismo: a renovação, em curso, parece ligar-se à crítica do pensamento cepalino, ou noutros termos, é criticando os esquemas da chamada economia política cepalina que o marxismo entre nós adquire força de interpretação, ultrapassando esquemas simplificadores. Caio Prado Jr. (como Mariátegui), escrevendo suas principais obras no período anterior a essa renovação, tem as características do segundo período. Basta lembrar a ausência, nas suas obras, das citações rituais características da ortodoxia estéril. Essas constatações importam para uma futura história do pensamento marxista na América Latina.

Finalmente, caberia discutir o interior da “geração de 30″, com que iniciamos estas notas. E isso levaria à comparação com as obras de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Sérgio Buarque, de mais difícil assédio, formula mais explicitamente a questão da identidade nacional, que acompanha a obra dos três, os quais, na procura dessa identidade, formularam diferentes “interpretações”. Caio Prado Jr. e Gilberto Freyre formam um curioso contraponto. Ambos se ligam às classes dominantes, de duas regiões que entretanto evoluem de forma divergente. Se, em São Paulo, pode-se pensar num declínio de estilo aristocratizante de uma elite da camada dominante, esta como um todo está em franca ascenção econômica; no Nordeste, ao contrário, a decadência econômica faz declinar inexoravelmente o peso de suas elites no conjunto da nação. Gilberto Freyre talvez por isso, analisa sempre o Brasil a partir de seu passado, isto é, daquilo que deixou de ser; Caio Prado Jr., ao contrário, pensa sempre o país pelas suas potencialidades, isto é, pelo que ele pode vir a ser. Se esta visão talvez possa considerar-se utópica, a primeira é seguramente nostálgica.

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Fernando Novais é historiador e professor da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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Novos Estudos
Cebrap, São Paulo,
v. 2, 2, p. 66-70, jul. 83

Notas:
[1] Wilson Martins. História da Inteligência brasileira (São Paulo. 1979), vol. VI I . p. 1.

[2] Em seu minucioso levantamento das publicações, W.Martins não menciona Evolução política no contexto de 50, referindo-se depois às suas reedições.

[3] Cf. Francisco Iglésias. “Um historiador revolucionário”. Introdução a Caio Prado Júnior, história, introdução e seleção de textos por F. Iglésias. São Paulo. 1982, pp.7-47. Coleção “Grandes Cientistas Sociais”, coordenada por Florestan Fernandes.

[4] Cf. Darrel Levi. A família Prado, trad. Port, São Paulo, 1977.

[5] Cf. Michael Lowy. Para uma sociologia dos intelectuais revolucionários, trad. port., São Paulo, 1979, especialmente pp. IX a XV e 1 a 9.

[6] Chamou-me a atenção para a relação entre “declínio aristocrático” e espírito crítico a socióloga Maria Arminda Nascimento Arruda; retornei o tema com Armem Mamigonian, geógrafo, numa viagem pelo interior de Santa Catarina.

[7] Bibliografia de Caio Prado Jr.: Evolução política do Brasil, 1933. URSS, um novo mundo, 1934 (2.ª ed. 1935). Formação do Brasil contemporâneo, 1942 (17.ª ed. 1981). História econômica do Brasil, 1945 (28.ª ed. 1983). Evolução política do Brasil e outros estudos, 1946 (12.ª ed.1980). Dialética do conhecimento, 1952 (6.ª ed. 1980). Diretrizes para uma política econômica brasileira, 1954. Esboço dos fundamentos da teoria econômica, 1957 (5.a ed. 1969). Introdução à lógica dialética, 1959 (4.ª ed. 1979). O mundo do socialismo, 1962 (3.ª ed. 1967). A revolução brasileira, 1966 (6.ª ed. 1978). História e desenvolvimento, 1968 (3.ª ed. 1978). Estruturalismo de Levi-Strauss, marxismo de Althusser, 1971. A questão agrária no Brasil, 1979 (3.ª ed. 1981).

[8] José Honório Rodrigues. Notícia de vária história, Rio de Janeiro, 1959, p. 92. A resenha saíra no suplemento literário de O Jornal.

[9] Carlos Guilherme Mota. Ideologia da cultura brasileira, São Paulo, 1977, p. 28.

[10] Cf. K. Marx — Contribuição à critica da economia política, trad. de Florestan Fernandes, São Paulo, 1946, pp. 219-231.

Em defesa do voto obrigatório

Léo Lince

Com o voto facultativo, o direito de votar e o de não votar ficam inscritos, em pé de igualdade, no corpo legal. Uma parte do eleitorado deixará voluntariamente de opinar sobre a constituição do poder político. O desinteresse pela política e a descrença no voto serão registrados como mera “escolha”, sequer como desobediência civil ou protesto. A consagração da alienação política como um direito legal interessa aos conservadores, reduz o peso da soberania popular e desconstitui o sufrágio como universal.

Existe um mal-estar no senso comum em relação ao voto obrigatório. Toda obrigação incomoda. Este fato, indiscutível, favorece os defensores do voto facultativo, que se apresenta como elemento de desmonte da praga dos currais eleitorais. Falso. Na República Velha, o voto era facultativo e os currais proliferavam. O voto obrigatório foi implantado na década de 30 e os curais continuam a operar até hoje. Ou seja, sendo obrigatório ou facultativo, o voto pode se tornar mercadoria: a coerção que encurrala eleitores é de outra natureza.

No entanto, razões não faltam para o sucesso de público da proposta. Ela joga com a desmoralização da política em geral e com a descrença no voto como instrumento efetivo de mudança (elementos que favorecem a cristalização do poder de quem já está por cima) e, ao mesmo tempo, ainda aparece como uma concessão à liberdade individual. Desobrigado de votar, o indivíduo fica mais “livre” ao deixar de “perder” aquele pedaço do dia em que, de dois em dois anos, comparece na sessão eleitoral. Falsa conquista, perigoso conceito de liberdade individual que compromete a realização do princípio republicano da soberania popular.

O voto, além de um direito duramente conquistado, deve ser considerado um dever cívico, sem o exercício do qual aquele direito se descaracteriza ou se perde, afinal liberdade e democracia são fins e não apenas meios. Quem vive numa comunidade política não pode estar desobrigado de opinar sobre os seus rumos. Nada contra a desobediência civil, recurso legítimo para o protesto cidadão que, no caso eleitoral, pode se expressar no voto nulo (cuja tecla deveria constar na máquina de votar). A questão, no caso, é outra. Com o voto facultativo, o direito de votar e o de não votar ficam inscritos, em pé de igualdade, no corpo legal. Uma parte do eleitorado deixará voluntariamente de opinar sobre a constituição do poder político. O desinteresse pela política e a descrença no voto serão registrados como mera “escolha”, sequer como desobediência civil ou protesto. A consagração da alienação política como um direito legal interessa aos conservadores, reduz o peso da soberania popular e desconstitui o sufrágio como universal.

Ganha com a mudança quem quer o povo na “maioria silenciosa”, gigante adormecido, aglomerado de consumidores, nunca como titular soberano e organizado do poder político. Nos EUA, onde o voto é facultativo, a abstenção eleitoral é enorme e tende a se perpetuar nos mesmos grupos sociais e étnicos, especialmente os discriminados socialmente e os negros. A redução da universalidade do sufrágio se expressa como exclusão social e elemento efetivo de cristalização do poder nas mãos da chamada “classe política”. No quadro brasileiro atual, a investida neoliberal no “Estado mínimo” se associa à teoria da representação mínima, que articula voto facultativo, cláusula de barreira e sistema distrital misto. Querem reduzir a participação política, eliminar partidos e esterilizar o voto de oposição.

Para o cidadão ativo, que além de votar se organiza para garantir os direitos civis, políticos e sociais, o enfoque é inteiramente outro. O tempo e o trabalho dedicado ao acompanhamento continuado da política não se apresentam como restritivos da liberdade individual. Pelo contrário, são obrigações auto-assumidas no esforço de construção e aprofundamento da democracia e de vigília na defesa das liberdades individuais e públicas. A idéia de que a democracia se constrói nas lutas do dia-a-dia se contrapõe, na essência, ao modelo liberal. O cidadão escolado na disputa política sabe que a liberdade de não ir votar é uma armadilha. Para que o sufrágio continue universal, para que todo poder emane do povo e não dos donos do poder econômico, o voto, além de um direito, deve conservar a sua condição de dever cívico.

Léo Lince é sociólogo.

Carta do cacique Seattle

Há mais de um século e meio, em 1855, o cacique Seattle, dos Suquamish, do Estado de Washington, costa Oeste dos Estados Unidos, enviou esta carta ao presidente Franklin Pierce, em resposta a uma oferta para compra do território indígena. As reflexões do líder Suquamish ainda têm uma surpreendente atualidade.

“O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. É uma atitude gentil da parte dele, pois sabemos que não necessita da nossa amizade. Vamos pensar na oferta. Sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e se apossará dela. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas: não perdem o brilho.

Mas como é possível comprar ou vender o céu, o calor da terra? É uma idéia estranha. Não somos donos da pureza do ar e do brilho da água. Como alguém pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada floco de neblina nas florestas escuras, cada clareira, todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é o mesmo que outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de esgotá-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem nenhum sentimento. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim porque o homem vermelho seria um selvagem que nada compreende.

Não há paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o som do desabrochar da folhagem na primavera, o zumbir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d’água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com perfume de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.

Se eu me decidir a aceitar a venda, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.

Nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Nossos guerreiros vergam sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos doces e bebidas ardentes. Não importa muito onde passaremos nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso povo.

Sabemos de uma coisa que o homem branco talvez venha um dia a descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira do homem vermelho como do branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa que as outras raças. Continua sujando sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça. É o fim da vida e o começo da sobrevivência.

Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos que esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, que visões do futuro oferece para que possam tomar forma os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são desconhecidos para nós. E por serem desconhecidos, temos que escolher nosso próprio caminho. Se concordarmos com a venda é para garantir as reservas que foram prometidas. Lá talvez possamos viver nossos últimos dias. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem sobre as pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se vendermos nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca se esqueçam de como era a terra quando tomaram posse dela. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos e ama-a como Deus ama a todos nós. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino”.

Scientific American Brasil

http://www2.uol.com.br/sciam/

8° mês de aniversário do CONTROVÉRSIA

O blog CONTROVÉRSIA completa hoje seu 8º mês de aniversário. Neste último mês acumulamos 13.100 visitas e só temos a agradecer os Controversos: mais uma vez, obrigado.

Acompanhe as visitas mês a mês (desde 17 de julho de 2006).

1° mês: 3 mil visitas (0 a 3.000)
2° mês: 3 mil e 500 visitas (3.000 a 6.500)
3° mês: 5 mil visitas (6.500 a 11.500)
4° mês: 5 mil e 800 visitas (11.500 a 17.300)
5° mês: 7 mil e 900 visitas (17.300 a 25.200)
6° mês: 10 mil visitas (25.200 a 35.200)
7º mês: 13 mil e 800 visitas (35.200 a 49.000)
8° mês: 13 mil e 100 visitas (49.000 a 62.100)

Obrigado. Ricardo Alvarez

Estados Unidos são diplomáticos quando discutem o poderio militar da China

Eric Rosenberg
De Washington

Autoridades de alto escalão do governo Bush adotam uma estratégia de “beliscar e afagar” quando se trata de discutir o crescente poderio militar da China.

A abordagem consiste em garantir a Pequim que os Estados Unidos não pretendem se constituir em uma ameaça com o seus cada vez maiores orçamentos de defesa e com a enorme força militar norte-americana espalhada pelo mundo, e que chega às portas da China. Ao mesmo tempo, os norte-americanos desejam soar um alarme a respeito do rápido incremento do poderio militar da China.

Essa estratégia foi integralmente exibida na semana passada.

O secretário de Defesa, Robert Gates, se empenhou em sinalizar que os Estados Unidos não vêem a China como uma ameaça, apesar de Pequim ter anunciado recentemente um aumento de 18% nos seus gastos militares, e de ter testado com sucesso, em janeiro passado, uma arma destruidora de satélites.

“Neste momento não vejo a China como um adversário estratégico dos Estados Unidos”, disse Gates aos jornalistas. “Em certas áreas, trata-se de um parceiro. Em outras, de um concorrente. Creio que é muito importante que dialoguemos com os chineses sobre todas as facetas do nosso relacionamento como forma de construir uma confiança mútua”.

Mas, separadamente, dois almirantes advertiram que o poderio militar chinês, que cresce rapidamente, se constitui em uma grande preocupação para os interesses dos Estados Unidos.

O almirante Michael Mullen, o mais graduado oficial da ativa na marinha – a força que provavelmente arcaria com o maior ônus de qualquer conflito com a China – alerta que a China está aumentando rapidamente o tamanho da sua marinha de guerra e, em particular, a sua capacidade de projetar poder para além da sua costa e de Taiwan, que Pequim considera uma província renegada.

“Eles estão construindo uma grande marinha com bastante capacidade extra”, disse Mullen aos repórteres. “Para mim, isso vai muito além de apenas se prepararem para um problema com Taiwan, caso algo saia errado no relacionamento com Taiwan”.

O almirante William Fallon, comandante das forças norte-americanas no Pacífico que está deixando o cargo, advertiu o Congresso que a incipiente capacidade da China de destruir satélites “é nitidamente formulada para conter as nossas capacidades”, referindo-se à confiança que as forças armadas dos Estados Unidos depositam nos satélites norte-americanos.

Fallon está deixando o seu atual posto para se tornar o principal comandante das forças norte-americanas no Oriente Médio.

Mike McConnell, o mais graduado oficial de inteligência dos Estados Unidos, alertou um painel parlamentar no mês passado para a modernização militar chinesa, que teve início nove anos atrás, e que progride em “ritmo acelerado”.

“Os chineses estão desenvolvendo sistemas de ataque convencional de longo alcance de maior capacidade e mísseis balísticos de curto e médio alcances dotados de ogivas que podem ser guiadas nos estágios finais de um ataque e que são capazes de atingir porta-aviões e bases aéreas dos Estados Unidos”, declarou McConnell.

Embora Estados Unidos e China sejam grandes parceiros comerciais, os dois países mantém “um relacionamento complexo”, conforme admitiu o presidente Bush. Esse relacionamento é caracterizado por atritos ocasionais que por vezes chegam à beira de um conflito militar direto.

Em 1996, por exemplo, enquanto Taiwan se preparava para realizar eleições presidenciais, a China testou 25 mísseis sem ogivas explosivas a 40 quilômetros da ilha. Os Estados Unidos responderam enviando dois porta-aviões ao Estreito de Taiwan, o canal apertado que separa Taiwan da China, em uma demonstração maciça de força e de solidariedade para com a ilha.

Em 2001, um avião de caça chinês colidiu com uma aeronave de espionagem EP-3, da Marinha dos Estados Unidos, em espaço aéreo internacional, obrigando o aparelho norte-americano a fazer uma aterrissagem de emergência em um aeroporto chinês. O piloto chinês morreu e a tripulação norte-americana ficou detida durante 11 dias, criando um impasse tenso, no estilo da Guerra Fria.

Parte do complexo relacionamento entre Estados Unidos e China é a rede de laços econômicos entre as duas nações. A China é um dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos e no ano passado registrou um superávit comercial recorde com Washington de US$ 232,5 bilhões. Ao mesmo tempo, a China é dona de uma grande parcela da dívida dos Estados Unidos – US$ 350 bilhões em títulos do governo norte-americano, ou 15% do total de títulos do governo dos Estados Unidos em mãos de países estrangeiros.

Washington também precisa da cooperação de Pequim para combater o terrorismo, resolver os impasses nucleares com a Coréia do Norte e o Irã e solucionar as questões referentes ao comércio internacional.

A China conta com a capacidade de aumentar rapidamente o poderio das suas forças armadas devido ao seu recente crescimento econômico de dois dígitos. Segundo a Agência de Inteligência de Defesa do Pentágono, a China está gastando anualmente entre US$ 70 bilhões e US$ 100 bilhões com as suas forças armadas.

Entretanto, os gastos militares chineses ficam bem aquém daqueles dos Estados Unidos. Caso o Congresso aprove o orçamento de defesa proposto por Bush no mês passado, os Estados Unidos gastarão mais com a defesa nacional do que todos os outros países combinados.

O orçamento inclui US$ 481,4 bilhões para aquisição de armamentos e treinamento de tropas – um aumento de 11,3% em relação a este ano – e US$ 141,7 bilhões para financiar as operações militares dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. Levando-se em conta também os programas de segurança nacional do Departamento de Energia, o total solicitado chega a cerca de US$ 640 bilhões para o ano fiscal que terá início em 1º de outubro.

Hearst Newspapers

Educação: tragédia nada; é drama!

MARIO SERGIO CORTELLA
ESPECIAL PARA A FOLHA

CADA VEZ que sai o resultado de alguma avaliação dos nossos sistemas de ensino, especialmente no que tange aos indicadores de qualidade do conhecimento apropriado pelos discentes, lá vem a recorrente frase: “Essa nossa educação é uma tragédia”… O uso dessa expressão é equivocada, pois supõe um fatalismo ou uma desdita da qual não há saída, como se o destino tivesse decidido por nós, homens e mulheres, e só nos caberia agora lamentar ou praguejar.
Não é bem assim. Podemos afirmar conscientemente a natureza dramática das nossas miserabilidades educacionais, sem que elas ganhem um caráter trágico. Tragédia e drama não são a mesma coisa, nem no teatro, nem nas práticas cotidianas.
“Tragédia” é tudo aquilo que está fora de qualquer controle humano, isto é, o que não conseguimos impedir, só aceitar resignadamente. Basta lembrar que a própria origem do termo designava na antiga Grécia um gênero teatral cujo final sempre terminava em desgraça, por mais que personagens tentassem afastar quaisquer conseqüências catastróficas. Aliás, sabemos ser “tragóidia” (trágos/bode+oidé/canção), o “canto do bode”, dado que para aplacar a ira dos deuses, em várias cerimônias havia o sacrifício daquele animal.
E “drama”? É ação plena de aventuras, desventuras, tramas, dificuldades, sempre com a possibilidade de intervenção humana e solução ao nosso alcance. No drama não há forças invencíveis que nos impeçam definitivamente de fazermos nossas escolhas, realizar decisões e possibilidades. É só lembrar: a seca é trágica, enquanto a fome por causa dela é dramática; a inundação é trágica, enquanto o desabamento de casas em área de risco é dramático; o terremoto é trágico, as mortes por falta de abrigo são dramáticas. O inevitável é trágico; o evitável é dramático.
Então, não dá para ficar apenas indicando “bodes expiatórios”, que normalmente oscilam entre a escolha de docentes e em outras dos discentes, quase sempre vítimas -nem todas ou todos, pois existe também a delinquência magisterial- de estruturas predatórias e pedagocidas. Desse modo, se é drama a ser por nós tecido, é preciso reorientar a progressão continuada e os sistemas de ciclos, sem abandoná-los, mas evitando que impliquem promoção automática inconseqüente; dar mais substância à educação permanente docente, incentivando e facilitando o acesso às especializações e aos mestrados e doutorados; robustecer a gestão democrática, com o envolvimento deliberativo das comunidades escolares (pais, alunos, funcionários e professores) nos conselhos por escola e dos cidadãos nos conselhos municipais de educação; Mais? Articular um relacionamento mais próximo às entidades representativas do magistério, que não se limitam a pauta de reivindicações e que há muitas décadas também têm patrocinado a formação docente com seus cursos abertos, seminários e congressos; aderir criticamente, mas aderir, às referências obrigatórias que metas de qualidade (níveis baixos de evasão e retenção inútil e níveis altos de avaliação discente) trarão na sua conexão com benefícios e repasses de recursos por parte das estruturas de financiamento público.
Por fim, recusar a lógica que submete o investimento social à disponibilidade orçamentária, definindo antes o que é “qualidade” e, aí sim, compondo um custo-aluno-qualidade que corresponda à necessidade educacional. Tragédia? Jamais…

MARIO SERGIO CORTELLA , 53, é professor-titular do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e da pós-graduação em educação (currículo) da PUC-SP; foi secretário municipal da Educação de São Paulo (1991/1992, governo de Luiza Erundina) e é autor, entre outros livros, de “A Escola e o Conhecimento” (Cortez)

Paisagem na Península Antártica está em profunda transformação

Roberta Jansen escreve para “O Globo”:

Blocos monumentais de gelo. Icebergs que parecem embarcações à deriva. Paredões brancos. Neve por toda parte.

Quem chega à Antártica pela primeira vez só vê gelo. Mas pesquisadores e militares que já estiveram aqui diversas vezes garantem que a paisagem mudou completamente, sobretudo nos últimos cinco anos.

O aquecimento global na Península Antártica não é uma compilação de dados científicos. É algo visível.

- A vegetação é um dos maiores indicadores – aponta o especialista em solos Carlos Schaefer, da Universidade Federal de Viçosa, cujo estudo nas Ilhas Shetlands é um dos aprovados para o Ano Polar Internacional. – Quanto menos permafrost (solo congelado), maior a oportunidade do surgimento de vegetação.

Geleiras desaparecem

A existência de mais musgo é um dos sinais visíveis do aquecimento na Península. O desaparecimento de geleiras e a retração das áreas cobertas de neve são outros.

A desintegração de plataformas de gelo, como Larsen A e Larsen B, no leste da Península, que perderam 15 mil quilômetros quadrados em 15 anos, são o exemplo mais dramático.

- Dá para conferir visualmente. O mar, perto da estação brasileira, congelava sempre. Hoje, raramente isso acontece – afirma o geofísico espacial Christiano Brum, do Instituto Nacionais de Pesquisas Espaciais (Inpe), que já esteve 13 vezes na Antártica. – Havia uma geleira perto da estação do Brasil que, de 2001 para 2005, deixou de existir.

A temperatura média global do ar aumentou 0,8 grau Celsius em 140 anos. Mas na Península Antártica, a elevação registrada foi de 3 graus Celsius nos últimos 55 anos. Uma diferença bastante considerável, mesmo se levarmos em conta que as regiões polares são as mais sensíveis a qualquer alteração climática.

Embora o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU, formado por 2.500 cientistas, dê como praticamente certo que a ação humana está por trás desse aumento de temperatura, pesquisadores buscam, nas mais diversas áreas, por mais indícios dessas mudanças e das possíveis relações de causa e efeito.

- As mudanças na paisagem na Península são muito claras – afirma o gl acio logista Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. – Estamos vendo mudanças que ocorrem naturalmente, sim, mas que estão acontecendo muito depressa. O mais importante não são as mudanças em si, mas a velocidade com que ocorrem.

O projeto do grupo de Simões aprovado para este Ano Polar vai investigar, justamente, a história do clima para tentar distinguir, com a ajuda de dados do passado, o que seriam alterações naturais e o que pode estar sendo induzido pelo homem.

Perfurando o gelo a profundidades cada vez maiores, os pesquisadores conseguem o que se chama de testemunhos de gelo. Encapsulado no gelo, está um arquivo natural da história do clima e das concentrações de gases atmosféricos.

O grupo da UFRGS já tem um registro dos últimos 720 mil anos. A meta agora é chegar a 1,5 milhão.

- Nesses 720 mil anos, a diferença do mais frio para o mais quente foi de 8 graus Celsius – contou. – Agora, em 140 anos, já tivemos um aumento de 0,8 grau e isso está se acelerando.

Outro indício, aponta ele, é o aumento das concentrações de gases do efeito estufa, como o CO2, que também podem ser medidas pelos testemunhos de gelo e cujo volume nunca esteve tão alto quanto agora.

Um outro projeto a ser finalizado no Ano Polar é o de Schaefer, que estuda as variações nos solos congelados (permafrost). Até o verão de 2009, o grupo de Schaefer terá concluído o levantamento dos solos das Ilhas Shetlands, num total de 180 quilômetros quadrados.

- Constatamos que o solo nessa região tem menos permafrost do que se imaginava – afirma.

Outros oito países participam do mapeamento dos solos na Península.

- Tenho convicção de que o aquecimento causado pelo homem provoca todas essas mudanças. Mas para termos uma certeza científica, precisamos ainda de uma série de 15 a 20 anos de dados.

O Globo 7/3

Origens da Europa

O medievalista Jacques Le Goff explica em dois novos livros as estruturas política e religiosa do continente

HILÁRIO FRANCO JR

Comprovando mais uma vez que todo estudo do passado parte do presente, enquanto os deputados elaboravam a Constituição européia, em 2002/2003, o historiador francês Jacques le Goff repensava a Europa à sua maneira em duas obras agora à disposição do público brasileiro: “O Deus da Idade Média” e “As Raízes Medievais da Europa”.
Nelas o autor insiste no caráter interdependente de vários aspectos da vida social medieval, sobretudo daquilo que a partir do século 18 chamamos de religião e de política. Ou, nos termos da época, sacralidade e poder.
No primeiro daqueles livros, tal relação é vista em especial pelo ângulo da sacralidade, considerada dado cultural cuja historicidade é visível não apenas no cristianismo como também em Deus. A imagem que se tem deste, lembra Le Goff, depende da sociedade estudada e, nela, da condição sociocultural do indivíduo que elabora tal imagem.
Por isso mesmo, a passagem da multiplicidade de deuses do paganismo à concepção de um só Deus do cristianismo não eliminou traços politeístas na crença medieval. Os anjos, os santos e mesmo a Trindade atestam um monoteísmo diferente daqueles do judaísmo e do islamismo, bem mais estritos.
Quaternidade
A própria Trindade, diz Le Goff, ganha aspecto de Quaternidade com a valorização da figura da Virgem. Também ligada ao “politeísmo medieval” estava a especialização de funções das pessoas da divindade, o Pai associado ao poder, o Filho ao sofrimento, o Espírito Santo ao saber, a Virgem à proteção.
Embora o curto texto de “O Deus da Idade Média”, resultado de entrevista com um jornalista especializado, esteja evidentemente dirigido ao grande público, não deixa, como se vê, de tocar pontos essenciais e de apresentar idéias polêmicas que fazem o interesse do livro.
O segundo dos textos ora comentados privilegia, por sua vez, a questão do poder. Opção compreensível, já que ele é parte de uma coleção dirigida pelo próprio autor e significativamente chamada “Fazer a Europa”.
Coleção composta até o momento por 20 títulos de autores de seis diferentes nacionalidades e lançados simultaneamente na Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália, além de, num segundo momento, Bulgária, Eslováquia, Eslovênia, Grécia, Holanda, Hungria, Lituânia, Polônia, Portugal e Turquia.
O prefácio comum a todos os livros, assinado por Le Goff, deixa claro o objetivo da coleção e, evidentemente, de seu próprio livro: “Esclarecer a construção da Europa e seus trunfos inesquecíveis, sem dissimular as dificuldades herdadas”.
Certidão de nascimento
Nesse sentido, o volume paradigmático da coleção é este, no qual a pergunta do título û”L’Europe Est-Elle Née au Moyen Age?” (Nasceu a Europa na Idade Média?, o nome do livro em francês)û já traz implicitamente a resposta afirmativa.
Por isso, mais do que uma história medieval da região, a intenção do livro é apontar diversos elos entre a Europa daquela época e a de hoje e buscar naquela material de reflexão para esta.
As convicções do cidadão Le Goff, democrata e socialista, ficam reforçadas quando o historiador Le Goff observa o processo de mestiçagem e aculturação (entre latinos, germanos e celtas) dos princípios da Europa, momento em que “se firma a dialética entre a unidade e a diversidade, entre a cristandade e as nações, que até hoje é uma das características fundamentais da Europa”.
Um documento do século 9ø indica que já havia potências superiores a outras, o que explica a gênese das pretensões atuais do par Alemanha-França, “sem dúvida necessário para a estabilidade da Europa, mas criador de desigualdades e de ciúmes na comunidade européia”.
Algo semelhante ocorre com os idiomas, “mas o exemplo medieval prova que um certo multilingüismo limitado (…) é preferível a um monolingüismo que não estivesse ancorado numa longa tradição cultural e política, o que seria o caso se o inglês se tornasse a língua da Europa”.
Também em relação às suas facetas mais sombrias, a Europa medieval ajuda a pensar a Europa moderna: “As medidas tomadas pelos reis e concílios visigodos contra os judeus podem ter estado na fonte do anti-semitismo europeu”; mais do que do exterior, ao longo dos séculos a ameaça para a Europa veio “dos confrontos armados entre as nações e do caráter guerreiro dos europeus”.
Questão de linguagem
Trata-se, em suma, de livros bem-vindos, recentes e produzidos por um dos grandes intelectuais da atualidade. Por isso mesmo, é pena que as traduções em questão apresentem problemas facilmente evitáveis.
Alguns de língua portuguesa, dentre eles os primários “os quais incluiu-se” (Deus) ou “incarnar/incarnação” (que não é mero erro tipográfico, aparece várias vezes em “Raízes”).
A eterna questão da versão ou não de nomes próprios é mal resolvida em ambas. Por que ûem “Deus”û Pedro Venerável, mas Pierre Lombard e Pierre de Poitiers? Ou, em “Raízes”, Bordéus e Tolosa, mas Avignon e Guyenne; Thomas Becket, mas Tomás de Chobham?
Nesse livro, confunde-se Galiza (noroeste espanhol) com Galícia (região ao norte dos Cárpatos), para uma mesma cidade são usadas duas formas (Lyon, Lião), há grafias incorretas (Madrid, Franche-Compté) ou inexistentes em português (Pampelune no lugar de Pamplona).
Curiosamente, ambos as traduções confundem “românico” (“roman”, séculos 11-13) com “romano” (“romain”, Antigüidade). Algumas vezes surgem situações estapafúrdias.
Na primeira tradução, ao transformar um “pour” (para) em “por”, atribui-se equivocadamente a um personagem (Oto 4ø) a autoria da obra de outro (Gervais de Tilbury) e, para complicar, uma nota do tradutor afirma que se tratava de dois textos com o mesmo título!
Na segunda tradução, a expressão “Idade Média masculina” (“mâle Moyen Âge”) é transfigurada numa incompreensível “mancha Idade Média”!
Jacques le Goff, que em fins de 2003 o semanário francês “L’Express” qualificou, em título, de “O papa da Idade Média”, merecia que suas obras tivessem melhor sorte no Brasil.
O Deus da Idade Média
Autores: Jacques le Goff
e Jean-Luc Pouthier
Tradução: Marcos de Castro
Editora: Civilização Brasileira
(tel. 0/ xx/21/2585-2000)
Quanto: R$ 24,90 (132 págs.)

As Raízes Medievais
da Europa
Autor: Jacques Le Goff
Tradução: Jaime A. Clasen
Editora: Vozes (tel. 0/xx/24/2233-9000)
Quanto: R$ 49 (384 págs.)

HILÁRIO FRANCO JR. é professor de história na USP e autor, entre outros, de “A Idade Média” (Brasiliense).

Estréia ‘Os 12 trabalhos’, de Ricardo Elias

Numa alegoria paulistana do mito de Hércules, o cineasta apresenta o mundo dos motoboys como uma realidade dura. A escolha de um motoboy como protagonista foi a idéia do diretor para fazer uma radiografia vertical dos estratos sociais de São Paulo.

Silas Martí

Talvez seja colorida demais a São Paulo retratada por Ricardo Elias em Os 12 Trabalhos, segundo longa-metragem do diretor, que estréia sexta-feira, 9, nos cinemas. Numa alegoria paulistana do mito de Hércules, o cineasta apresenta o mundo dos motoboys como uma realidade dura, mas com um lirismo afetado, que vez ou outra esbarra na pieguice de tom moralizador.

Héracles, interpretado pelo estreante Sidney Santiago, premiado nos festivais do Rio e de Gramado, é um jovem negro com passagem pela Febem que decide mudar de vida. Ele abandona o tráfico e, com a ajuda do primo Jonas, Flávio Bauraqui (O Cheiro do Ralo, Zuzu Angel), vai trabalhar como motoboy, mas antes de assinar o contrato, terá de passar por 12 provas.

Não por acaso, a empresa se chama Olimpo Express, braço da filial hercúlea montada por Elias na capital paulista. Assim como o herói grego, Héracles busca a redenção, no caso um emprego, que o tire da vida do crime. A escolha de um motoboy como protagonista foi a idéia do diretor para fazer uma radiografia vertical dos estratos sociais de São Paulo.

Num mesmo dia, Héracles pode ser terapeuta, assistente social, traficante e babá. Os contatos são rasos, mas intensos, já que ele aparece em momentos de dor, separação ou angústia na vida de cada um. Ele transporta e quase perde o gato de uma professora aposentada, acompanha um idoso para fazer exames médicos, leva drogas a pedido de outro motoboy para um arquiteto em crise, presencia a despedida de dois apaixonados no aeroporto e faz as vezes de psicólogo numa conversa com a namorada do primo recém-abandonada.

Tendo as ruas e avenidas de São Paulo como estrutura tensa de trocas, o motoboy circula pelo sistema como célula vital, gozando às vezes da perspectiva de um parasita. Entra nas casas mais humildes e prédios de executivos no mesmo dia, levando pedidos de divórcio e ordens de despejo.

Em tom onisciente, Héracles prevê o futuro de cada personagem que cruza seu caminho. São nesses momentos que o ar profético da narração em off mergulha a trama num fatalismo fácil: uma falta de esperança e desespero às vezes precoce que pouco tem a ver com a cidade ensolarada de cores vibrantes captada pelas lentes de Elias. Não que um filme sobre a falta de perspectivas e a crise da juventude tenha de ser mais agressivo no diálogo e menos colorido nas imagens.

Oscilando entre o risco de morte no asfalto e o contato romantizado com os clientes, sem contar as cenas fantásticas que ilustram os desenhos em quadrinhos que ele rabisca nos momentos livres, o roteiro revela uma esquizofrenia latente entre a vontade de realizar um retrato lírico dos jovens da periferia, longe do fatalismo evidente em algumas cenas, e o gosto amargo do sangue esparramado pelas ruas em acidentes fatais – segundo estatísticas, dois motoboys morrem por dia em acidentes de trânsito em São Paulo.

Mas a esquizofrenia é válida porque não deixa de ser verdadeira numa cidade como São Paulo. E, como mostra o roteiro, há luz no fim do túnel. Se não está na moda, como afirma uma personagem do filme, a periferia precisa estar em pauta. À diferença do retrato célebre de Fernando Meirelles, cujo Cidade de Deus foi comparado de maneira injusta a De Passagem, primeiro longa de Ricardo Elias, o segundo filme do diretor volta na mesma linha, mostrando a vida como ela é sem ignorar seus momentos sublimes.

Carta Maior

Deu no Blog do Laranjeira

ALDO E O PSOL

Será um desastre para a vida pública do ex-vereador Aldo dos Santos se ele aceitar a indicação, pelo PSOL, de candidato a prefeito de São Bernardo. O partido que saiu da cabeça da ex-senadora Heloísa Helena ainda se encontra em processo de formação e não reúne condições para apresentar candidato a um cargo dessa natureza, muito menos em Santo André. Mas, nas duas cidades, tanto Aldo quanto o ex-vereador Ricardo Alvarez têm mais de 80% de chances de retornarem às Câmaras de Vereadores dessas duas cidades, não obstante as eleições municipais tenham sido marcadas, não pela mensagem ideológica, mas pelos recursos financeiros dos candidatos.

http://carlos.laranjeira.zip.net/

“As perdas foram e continuam sendo enormes”

Entrevista com Marcelo Rede

O berço da civilização propriamente dito foi na África, mas já no Paleolítico, a região que hoje é o Iraque conheceu o início da sua ocupação, por populações coletoras e caçadoras que migraram do continente africano para o Oriente-Próximo. Ali, já no Neolítico, a região reuniria condições para o aparecimento, há dez mil anos, de uma nova organização social, centrada na agricultura, no pastoreio e, mais tarde, no IVº milênio a.c., nas cidades. O arqueólogo e historiador Marcelo Rede – graduado em História pela Universidade de São Paulo, com especialização e doutorado em História Antiga (Assiriologia) pela Université de Paris I – Panthéon-Sorbonne e membro estrangeiro do laboratório HAROC do CNRS (Nanterre), Histoire et Archéologie de l’Orient Cuneiforme – conversa com o Icarabe sobre as heranças culturais e as riquezas arqueológicas que seguidas civilizações deixaram no solo iraquiano.
a Arturo Hartmann

Icarabe: Para dimensionar o que foi perdido no Iraque, qual a importância dos estudos arqueológicos que ali são feitos? Que tipo de riquezas arqueológicas existem no solo do país?
Marcelo Rede: A antiga Mesopotâmia, que corresponde, grosso modo, ao atual território do Iraque, foi palco de algumas das primeiras manifestações do que podemos chamar de processo civilizatório. Assim, desde a pré-história, assistiu às primeiras experiências de agricultura irrigada e de domesticação dos animais, ao surgimento das primeiras cidades e ao aparecimento do primeiro sistema de escrita que conhecemos, o cuneiforme. Portanto, o subsolo iraquiano guarda os registros arqueológicos de fenômenos originais, até então inéditos, cuja compreensão é fundamental para entendermos a própria trajetória da humanidade. É neste sentido que falamos do Oriente-Próximo como o ‘berço da civilização’. Do mesmo modo, como estamos diante da primeira experiência da escrita, entendida como o registro gráfico de uma língua, os tabletes de argila, com escrita cuneiforme, guardam a memória dos primeiros textos, das primeiras narrativas mitológicas, dos primeiros discursos de poder, das primeiras notações comerciais e contábeis, dos primeiros escritos religiosos. Enfim, trata-se de um patrimônio cultural inestimável e que só é parcialmente conhecido; ainda há muito o que descobrir e pesquisar. Há mais de dez mil sítios arqueológicos repertoriados no Iraque, mas apenas alguns foram devidamente escavados. Uma quantidade imensa de textos já descobertos aguarda publicação.

Icarabe: E o que foi perdido disso?
Rede: Elas foram e continuam sendo enormes. Assim como acontece com a população, os patrimônios histórico e arqueológico iraquiano têm sofrido horrivelmente nestes últimos anos de guerra e ocupação. Num primeiro momento, quando o governo de Bagdá foi derrubado e a capital invadida, as atenções foram capitalizadas por aquilo que era mais extraordinário do ponto de vista da mídia: os bombardeios, que afetaram vários monumentos, e, sobretudo, o saque do Museu Nacional de Bagdá ou o incêndio que destruiu a Biblioteca Nacional, com perda de manuscritos inestimáveis. As cenas de saqueadores saindo do Museu carregando algumas das peças mais preciosas e conhecidas da arqueologia mesopotâmica, como o vaso de Uruk, chocaram o público e os estudiosos. Entretanto, passado este primeiro impacto, duas observações devem ser feitas: em primeiro lugar, no caso do Museu, as perdas acabaram sendo bem menores do que se temia de início: muitas peças foram recuperadas ou devolvidas posteriormente e um inventário mostra que houve perdas sérias, mas limitadas. Em segundo lugar, o que é mais preocupante é o processo menos visível e midiatizado de destruição contínua de escavações clandestinas que alimentam o mercado negro de antiguidades. Falando cruamente, não são os bombardeios e os saques espetaculares em museus de renome que mais contribuem para o problema, mas a própria situação que se seguiu à queda do regime de Saddam Hussein, a desorganização geral do país, a situação de penúria extrema, que faz com que os parcos recursos disponíveis sejam canalizados, evidentemente, para necessidades mais prementes, o esfacelamento da máquina administrativa do Estado, que impede qualquer ação concreta de reorganização dos museus, de proteção aos sítios arqueológicos, etc. Hoje, as perdas mais agudas concentram-se, sem dúvida, nos sítios arqueológicos, sobretudo os que estão situados fora da zona de controle mais direto do governo central, no sul xiita ou no norte curdo. No primeiro caso, nós temos notícias de vários tabletes do sítio de Umma que chegaram recentemente ao mercado de antiguidades. No segundo, os palácios Assírios, como o de Sennaqueribe, que era um Museu aberto, encontra-se completamente destruído.

Icarabe: Por que essa região, e Bagdá especificamente, é chamada de berço da civilização?
Rede: A região mesopotâmica é várias vezes chamada assim, e com razão, como vimos. Mas não propriamente Bagdá, que é bem mais tardia. Nos primeiros milênios da chamada civilização, foram outras cidades que se destacaram: Uruk, Shuruppak, Eridu, Lagash, Nippur, Ur, todas situadas no sul do território que hoje é o Iraque. Já Bagdá é bem posterior: não se sabe exatamente desde quando é ocupada, mas em 762, o califa Al-Mansur a elegeu para ser a sede do califado Abássida. A escolha foi bem pensada: Bagdá encontra-se no centro da bacia mesopotâmica, às margens do rio Tigre, mas no ponto em que o Eufrates está próximo, a não mais de 40 km. A cidade domina igualmente o entroncamento com o rio Diyala e não está muito longe do sopé dos montes Zagros. Os acessos ao Irã, à leste, às zonas pantanosas e ao golfo Pérsico, ao sul, à Anatólia, ao norte, e ao deserto e ao Mediterrâneo, à oeste, é privilegiado. Os dois séculos que se seguiram à fundação foram uma época de ouro. A cidade transformou-se em um dos mais poderosos centros políticos do mundo islâmico e era chamada de Madînat al-Salam, a “vila da salvação”. Sua importância comercial a colocou entre os principais pólos econômicos da Terra e a cidade ganhou fama como centro de saber, estudo religioso e ciência. O mundo muçulmano encontrava-se em plena expansão, ocupando o norte da África e chegando até a península Ibérica. Bagdá firmou-se nessa constelação de cidades que desempenharam um papel fundamental na cultura islâmica de então, ao lado de Córdoba, Sevilha e Granada (na Espanha), Damasco e Alepo (na Síria), Jerusalém (no território palestino) e Fustat, depois Cairo (no Egito). Foi durante esse período que uma parte dos contos das “Mil e Uma Noites” foi compilada. Os ulamas, sábios islâmicos, confluíam para o califado de Bagdá. Além da religião, da literatura e do saber muçulmanos, boa parte da herança ocidental, em particular a grega, foi preservada e transmitida pelos sábios da cidade. Enquanto a Europa ocidental se enclausurava em uma vida rural, a evolução urbana nas cidades islâmicas foi acelerada: no fim do século VIII, Bagdá já alcançava 6.000 hectares e contava talvez com mais de 1 milhão de habitantes. O tecido urbano se enriquecia com palácios, mesquitas, escolas (madrasas), mercados (suqs), casas de banhos e jardins. As relações mercantis com a Índia e a China se consolidavam e Bagdá passou a ser um elo fundamental da chamada “rota da seda”.

Icarabe: O Iraque é hoje conhecido por sua identidade árabe, que é predominante, mas há diversas outras heranças que fazem parte da sociedade iraquiana e diferencia o país de outros países árabes. Você consegue perceber e fazer esse tipo de análise estudando o passado e observando o presente?
Rede: A história da humanidade é uma sucessão de culturas, por vezes há assimilações e continuidades, por vezes, substituições abruptas, destruição, esquecimento. É preciso levar em conta que, desde a invasão persa, em 539 a.C., que colocou fim ao império babilônico, a região passou por sucessivas dominações, formas de governo e culturas diferentes, inclusive com o ingresso de novas populações: macedônios, reinos helenísticos, romanos, mongóis, mais tarde o império Otomano etc. Além disso, deve-se também considerar que a expansão islâmica, a partir do século VII d.C., mudou consideravelmente o perfil da região, do ponto de vista político, religioso e cultural. Deste modo, muitas das culturas da antigüidade mais remota, como os sumérios, assírios e babilônios, foram lentamente soterradas pelos recém-chegados. Não se esqueça também que, até o século XIX, ou seja, há pouco mais de 150 anos atrás, não sabíamos praticamente nada de todas essas sociedades antigas, fora algumas poucas referências nos autores clássicos (gregos e latinos) e na Bíblia. Foi só com as descobertas arqueológicas e com a decifração das antigas escritas e línguas que elas puderam ser resgatadas do esquecimento. Se pensarmos bem, é algo muito recente. O que é interessante notar é que, no contexto do Próximo-Oriente, o Iraque sempre se destacou por uma postura mais aberta sobre suas heranças culturais. A identidade iraquiana procurou assimilar, para além do elemento preponderante islâmico, também o seu passado pré-islâmico. Isso se refletiu de modo marcante na arqueologia do país, na formação de quadros capazes de estudar o seu passado, nos contatos científicos com o ocidente etc. Logicamente, também houve um lado negro desta recuperação do passado, com as tentativas de Saddam em manipulá-lo em benefício próprio, por exemplo, associando sua imagem à de Nabucodonosor, rei babilônico entre 604 e 562, época do apogeu de Babel. Evidentemente, esta identificação com a antiga Babilônia – que era traduzida em imagens em cartazes e nas cédulas do dinheiro local – tem a ver com o fato de que Nabucodonosor foi o destruidor de Jerusalém. Aqui, história do passado e política do presente são forçadas a estranhas alianças.

Icarabe: Os danos do conflito para os estudos arqueológicos se resumiram ao Iraque ou atingiram uma escala maior?
Rede: A situação no Oriente-Próximo é muito diversificada, mas a região é bastante instável e os conflitos resultam sempre em perigo para o patrimônio arqueológico, que, no final das contas, compõe o conjunto de documentos sobre os quais trabalham os especialistas. É preciso lembrar o óbvio: este patrimônio material é… material. Portanto, pode ser vitimado pelas guerras (locais, regionais, internacionais) assim como qualquer outro elemento do ambiente físico de um país, como a infra-estrutura, as pontes, a malha rodoviária, os quarteirões residenciais. O Líbano e, particularmente, Beirute sofreram muito com a guerra civil. No Afeganistão, a situação já era caótica antes da queda do regime Talebã: não esqueçamos a explosão dos Budas de Bamyan, que datavam do século VI, pelos fundamentalistas talebãs. E não melhorou muito desde então. Na região palestina, também a situação política impede ou dificulta muito os trabalhos arqueológicos. No momento, as equipes européias e japonesas concentram-se na Síria e na Jordânia. Israel é um caso a parte, com um aparato arqueológico próprio bem desenvolvido e que, em função da chamada ‘arqueologia bíblica’, atrai o interesse e o investimento de muitos centros de pesquisa de todo mundo.

Timidez

O leitor Guilherme Cortezi Buccironi diz: “Sou muito tímido. Tenho dificuldade para falar com pessoas estranhas e aparecer em público. Não consigo me relacionar direito, pois é difícil expressar o que sinto”.

Eugenio Mussak

Posso falar sobre timidez com autoridade – fui um menino que, quando brincava de Sala da Justiça, queria ser o Homem Invisível. Nos primeiros anos do colégio, época em que as meninas e as espinhas aparecem ao mesmo tempo, eu sofri tanto por causa da timidez que muitas pessoas achavam que eu seria uma espécie de ser isolado, um eremita urbano. Felizmente essa profecia não se realizou. É bem verdade que a maioria dos adolescentes apresenta algum grau de timidez que desaparece no início da vida adulta, notadamente após os 20 anos, mas eu apresentava um grau maior que meus colegas.

Lembro-me de vários episódios em que a timidez me fez passar maus bocados. Certa feita eu e meus amigos estávamos impressionados com a beleza de uma garota nova na cidade, mas ninguém tinha coragem de chegar perto. Até que aconteceu o improvável: um dia ela perguntou meu nome.

Juro que levei tempo para lembrar como eu me chamava. E, quando falei, saiu aquela voz de adolescente, metade grossa, metade fina. Foi quando desejei ser tragado pela terra. Ela, então, com toda a naturalidade, me perguntou se eu sabia como conseguir um livro, onde era a biblioteca, coisas assim. Era tudo o que ela queria – uma informação. Aí retomei o controle, porque sabia as respostas. Depois fiquei horas pensando sobre o choque térmico provocado pela timidez. O frio glacial que se apoderou de mim quando ela falou comigo transformou-se em um calor infernal quando tive que responder, para, depois de passado o susto, surgir um calorzinho morno e aconchegante, em que me senti confortável, fora de perigo, ainda que me chamasse de idiota mil vezes. E a vida foi passando, entremeando embaraços com superações. No fundo, uma história comum.
Barreira transponível

A timidez é algo assim, como uma barreira que nos afasta do mundo circundante, impedindo que nossos pensamentos e sentimentos sejam exteriorizados. O tímido prefere não se expor porque teme a crítica, e o faz por dois motivos. Se a crítica for severa, irá confirmar as suspeitas de sua inferioridade. Se for favorável, colocará em cheque sua autocrítica. Portanto, não há saída.

Pode ser que a timidez não impeça a pessoa de se desenvolver, trabalhar, produzir e realizar-se. Mas prejudica a qualidade da vida. Ela depende de como ocorre o processo de interação do indivíduo com o meio onde está inserido. Quanto melhor for a qualidade dessa interação, maior o conforto, a troca e o aprendizado. Qualquer barreira que isole a pessoa do convívio social provoca fissuras em seu desenvolvimento e compromete sua felicidade. Imagine viver em um pátio separado do resto da cidade por um muro alto, que impede a comunicação, apesar de não impedir que você perceba que existe vida lá fora. Pois a timidez é esse muro.

Mas, calma, nem tudo está perdido. Primeiro temos que saber que todas as pessoas têm algum muro. Pode ser mais alto ou mais baixo, mas não há ninguém que não revele o desejo de que alguma coisa fosse diferente em si e em sua relação com o mundo. Segundo, é importante frisar que o tal muro pode ser retirado, ainda que com algum esforço, é claro.

O psicólogo americano Carl Rogers é conhecido por ser autor da Teoria do Eu. Ele percebeu, em seu trabalho clínico, que as pessoas se referiam a si mesmas como se fossem outra pessoa, chamada Eu. “Sinto que não estou sendo meu verdadeiro eu” – esse tipo de manifestação é bastante comum em consultórios de psicoterapia. O que a pessoa está querendo dizer, na verdade, é que ela acredita que sua verdadeira essência é diferente daquela que ela demonstra atualmente.

Os que são tímidos, no íntimo, sabem que não precisam ser. E gostariam de não ser, mas como ultrapassar a barreira? Carl Rogers criou uma abordagem interessante. O terapeuta aceita a pessoa que está à sua frente como ela é. A primeira impressão é que o terapeuta não está entendendo o desejo do paciente de modificar seu interior e aproximar-se de seu verdadeiro eu. Com o tempo, entretanto, fica claro que esse “eu” nada mais é que uma introjeção da imagem dos outros.

Quando a pessoa finalmente se aceita como é, abre-se um imenso caminho que leva a dois lugares: ao convívio mais equilibrado e harmônico com os outros e à condição de promover mudanças consistentes, baseadas em suas tendências e seus potenciais e não em modelos auto-impostos. Engraçado, o ser humano. Ele só começa a mudar depois que começa a gostar de si mesmo como é.

Esse é um bom caminho para lidar com a timidez. Quando você se aceita como é, passa a acreditar que os outros também o aceitarão. E, a partir desse convívio livre de conflito, tem início um processo natural de desenvolvimento, e você vai passando da fase de se aceitar para a fase de gostar de si mesmo.
Timidez não é doença

Há uma condição mental que a ciência trata como doença: a fobia. Trata-se de um intenso medo, uma aversão irreprimível a alguma coisa. Quando essa coisa é a relação com outras pessoas, falamos de fobia social. Quem sofre desse transtorno apresenta uma intensa ansiedade em situações em que tem de mostrar desempenho social, às vezes chegando a verdadeiro pânico.

Poderíamos dizer, após uma análise superficial, que a fobia social é uma forma grave de timidez, mas não é bem assim. Observado em suas reações, o portador de fobia social parece uma pessoa muito tímida, e é estimulado a deixar de lado a timidez a partir de atitudes. Entretanto, o que ele precisa é de mudanças estruturais em sua personalidade. Necessita de ajuda terapêutica especializada, pois seu medo é irracional, desproporcional e fora de controle.

Felizmente isso é raro. O comum é a timidez pura e simples, em que a pessoa também experimenta ansiedade, mas, mesmo assim, vai levando a vida e amadurecendo o convívio com o mundo na medida em que os anos passam. O tímido reconhece que é tímido, e sabe que é responsável pelo medo que tem de se expor à crítica dos outros. O portador de fobia social não é assim. Ele culpa os outros pelo medo que carrega permanentemente. Preferiria mudar o mundo a mudar a si mesmo, o que é irracional e impossível.

Portanto, qualquer um que diga que é tímido é porque é mesmo – e não é, com certeza, um fóbico social. O próximo passo é aceitar a si mesmo como uma pessoa única, que carrega a mistura excessivamente humana de virtudes e defeitos. Ninguém é desprovido de insatisfação com alguma característica que carrega pela vida. Nem mesmo os ídolos do cinema, nem os muito ricos ou muito belos, nem os imensamente famosos. Eles não são perfeitos, são estereótipos quase sempre inimitáveis e, por serem humanos, têm seus próprios modelos, que tentam imitar, sem, na maioria das vezes, conseguir.
O antídoto

A timidez não merece tratamento, pois não é uma doença. Mas pode ser atendida com medidas que visam diminuí- la. Eu comecei este artigo confessando que me considero um tímido. Vou contar mais uma de minhas características: sou asmático. Aliás, combinação comum, asma com timidez. Uma alimenta a outra. A asma dificulta a respiração, a timidez dificulta o convívio. Nenhuma das duas impede, apenas dificulta, imobiliza, entristece.

Antigamente, o asmático era protegido, aquecido, deixado dentro de casa, na cama, coberto dos pés à cabeça. Depois que entendemos as causas alérgicas e emocionais da asma, a conduta com o asmático mudou, e ele passou a ser mais exposto ao ar puro. Eu vivi as duas épocas. Enquanto ficava em casa, superprotegido, minha asma só fazia aumentar. Ela começou a diminuir, até passar por completo, ou quase, quando comecei a me expor àquilo que mais desencadeava as crises: o exercício físico. Para os asmáticos, o exercício mais indicado é a natação. Fui dar minhas braçadas, e até que não me saí mal na empreitada.

A necessidade de resolver um problema de saúde fez com que eu me tornasse nadador, apesar da imensa limitação física no início. Ainda sou asmático, mas a asma está sob controle. Pois com a timidez foi a mesma coisa. A necessidade, no entanto, foi de outra natureza: eu precisava ganhar a vida. E sabe qual foi minha melhor oportunidade? A de dar aulas! Mas como, com a timidez que me tirava o fôlego mais que a própria asma? Foi quando a coragem teve que ser maior que o medo – aliás, dois companheiros inseparáveis.

A primeira aula, em um cursinho preparatório para o exame supletivo, deu mais frio na espinha do que o frio que senti na pele quando comecei a nadar. Tremia como vara verde. Eu conhecia a matéria que devia ensinar. Sabia, com certeza, muito mais que meus alunos. Mas a timidez… Essa funcionava como uma ave agourenta a garantir que os alunos me fariam perguntas que eu não saberia responder. E eles me achariam ridículo, burro e feio. Mas, como é a necessidade que ensina o sapo a pular, tive que encarar o giz e o quadro-negro.

O que era para ser bico de estudante transformou-se em uma carreira para toda a vida. Até hoje amo profundamente o magistério, e atribuo parte desse amor ao fato de que foi ele que me livrou do sofrimento que a timidez me dava. Repare: eu não disse que estou livre da timidez, e sim do sofrimento, pois aprendi a lidar com as relações humanas pela insistência, determinação e esforço. Não sei quantas piscinas nadei e quantas aulas ministrei, só sei que foram muitas. E sei que a asma e a timidez ainda estão em mim, mas hoje eu estou no controle, não mais esses dois embusteiros.

Não, ninguém precisa virar professor para controlar a timidez, assim como para a asma existem outras medidas mitigadoras. Mas, acredite, sem aceitar-se como é, e sem se expor ao convívio humano, aí fica difícil. E digo mais: atribuo minha qualidade didática, reconhecida como muito boa, ao fato de que eu tinha de ser aceito, portanto tinha de ser o mais didático possível. Os grandiloqüentes, comunicativos, extrovertidos não necessariamente erão os melhores comunicadores, pois eles não questionam sua aceitação. Os tímidos, esses precisam se superar, por isso costumam estar entre os melhores após vencer suas barreiras interiores.

Portanto, caros tímidos, encarem sua característica não como uma limitação, mas como o forte motivo que os levará ao melhor dos mundos – o das relações humanas baseadas na qualidade, na essência, na verdade. Sem imitar modelos e invejar os extrovertidos.

Eugenio Mussak é educador e escritor. Neste espaço, faz reflexões a partir de inquietações levantadas pelos leitores. Envie suas dúvidas para: pensandobem@abril.com.br

Vida Simples

Álcool, crescimento e pobreza

VINICIUS TORRES FREIRE

Progresso da indústria e da ciência do álcool convive com o mundo do lavrador que corta 8 toneladas de cana por dia

O LAVRADOR de Ribeirão Preto recebe em média R$ 2,50 por tonelada de cana cortada. Menos que o de Piracicaba, onde a tonelada vale R$ 3. Os canaviais de Ribeirão Preto pertencem à grande propriedade. Suas terras mais planas permitem o uso de máquinas. As empresas, mais capitalizadas, dispõem de dinheiro para comprá-las.
Em Piracicaba, as terras são mais íngremes; as fazendas, menores.
Nos anos 80, o lavrador fazia cinco toneladas de cana por dia. A mecanização da colheita o obrigou a ser mais produtivo. O corta-cana derruba agora oito toneladas por dia. Para abater toda essa cana, precisa dar 8.000 golpes com seu facão.
Uma lei paulista determina que os canavieiros reduzam a área de cana queimada, atividade poluente e cada vez mais perdulária. A palha que não é queimada tem uso econômico. Em breve, poderá virar álcool também.
A cana queimada facilita o corte manual. Cortar a cana “crua” é economicamente inviável e ainda mais desumano. Mas, em 2021, a queimada estará proibida. A lei e a capitalização da indústria da cana reduzem rapidamente a queimada e, assim, o emprego do corta-cana. Quem sobra, deve competir com a máquina. Mas a mecanização é inevitável.
O trabalhador deve cortar a cana rente ao chão, encurvado. Usa roupas mal-ajambradas, quentes, que cobrem o corpo, para que não seja lanhado pelas folhas da planta. Mas se acidenta mesmo assim. Se corta com o facão, tem lesões por esforço repetitivo. O excesso de trabalho causa a “birola”: tontura, desmaio, cãibra, convulsão. A fim de agüentar dores e cansaço, toma drogas e soluções de glicose, quando não farinha mesmo. Têm havido mais mortes por exaustão nos canaviais.
Se o corta-cana de produtividade média trabalha no regime “5×1″ (cinco dias de trabalho por um de folga), recebe uns R$ 500 por mês.
Cerca de 50% dos trabalhadores do Brasil ganham menos que isso. Algumas estatísticas, ainda imprecisas, dizem que 70% dos trabalhadores da indústria da cana têm emprego formal. No Brasil, os empregados protegidos pela lei e pela seguridade social não passam de 50% do total.
A indústria alcooleira resultou de um plano estatal de criar um setor econômico e uma tecnologia nova.
Perdulário, estatista e sem fiscalização (é da ditadura, de 1975), ainda assim o programa desenvolveu pela primeira vez no Brasil a integração sistemática de pesquisa científica, empresa rural e industrial.
O setor da cana faz hoje uns 3,5% do PIB. Exporta US$ 8 bilhões. Gera toda a energia elétrica que consome e ainda vende excedentes. A indústria de São Paulo contrata cientistas e engenheiros para desenvolver máquinas e equipamentos mais eficientes para as usinas de álcool. Mas agora também equipa a indústria de celulose, papel e mineração, além de usinas elétricas. A pesquisa privada e pública na área agrícola (cana, laranja, eucalipto etc.) desenvolve a bioquímica e a genética no país.
O progresso do setor poderia ser um modelo nacional para a pesquisa e a indústria de software, materiais, remédios, teles e internet ou mesmo reciclagem de lixo. Mas há vasta inércia e silêncio sobre tais assuntos. Assim como nada se ouve sobre a miséria do corta-cana no mundo maravilhoso do etanol.

A verdade incómoda do profeta Al Gore & a incomodidade da verdade

Alfonso del Val [*]

Recordação de algumas atrocidades do duo Clinton-Gore

Apresenta-se nas salas de cinema do mundo inteiro um produto audiovisual denominado “Uma verdade incómoda”. Ele faz parte de uma extensa campanha propagandística, com base na teoria no aquecimento global do planeta, do senhor Al Gore, ex–vice-presidente dos Estados Unidos da América.

Com o seu computador Macintosh e graças à Internet e à informação obtida pela sua privilegiada situação política, Gore conseguiu elaborar um livro com o mesmo título, com publicação próxima em Espanha. Com mais de 700 mil cópias vendidas só na edição inglesa, às quais há que juntar as que foram vendidas em 23 edições em outros tantos idiomas, o livro de Gore, juntamente com o filme e o DVD (um milhão de cópias vendidas só nos Estados Unidos), conseguiu formar um verdadeiro corpo diplomático de carácter mediático que lhe abre as portas dos grandes salões e fóruns mundiais.

Al Gore foi recebido a 6/Fevereiro/2007 em Madrid pelo presidente do governo espanhol no Palácio da Moncloa [e no dia 8 em Lisboa pelo primeiro-ministro português]. Vários ministros e outras personalidades acorreram à sua primeira conferência em Espanha: “O maior problema actual da humanidade e a nossa contribuição para travá-lo”. Conferência que se anuncia nos media com o subtítulo: “debate aberto com Al Gore”. Esta conferência permitiu a presença daqueles que pagaram 470 € + IVA, quantia que não dava direito a tirar fotografias nem a gravação audiovisual, nem tão pouco a formular qualquer pergunta ao senhor Gore, proibição que também afectou os jornalistas. Apesar da oferta de lugares gratuitos às organizações ecologistas, algumas destas receberam resposta negativa à sua presença se não desembolsassem a quantia mencionada.

Al Gore apresenta-se no filme como um enviado da Natureza, de origem norte-americana, mas que também se dirige aos norte-americanos (o produto há-de vender-se no mundo inteiro). O novo profeta, seguindo a metodologia bíblica das sete pragas do Egipto, anuncia-nos a oitava praga do aquecimento global que arrasaria de novo o planeta. Com um discurso americano para norte-americanos, Gore maneja habilmente a informação que lhe parece oportuna e nesta linha elabora as conclusões sobre o terrível futuro que se nos avizinha e as soluções que já conhecemos.

Assim, os dados que oferece sobre a situação actual do aquecimento global do planeta provém dos “cientistas” em que ele confia e que dizem a verdade, e não dos maus que a escondem por dinheiro. Al Gore de modo algum cita os cientistas (cerca de 2500) que desde 2001 e com mandato da ONU trabalham no Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC na sigla inglesa) que, certamente, oferecem uma informação mais rigorosa e menos catastrofista que a expressa pelo ex–vice-presidente. Al Gore só nos fala do CO 2 (anidrido carbónico ou dióxido de carbono) como o único gás com efeito de estufa, ignorando deliberadamente os outros gases, como o metano, responsáveis por um efeito muito maior ainda que estejam presentes em menor quantidade. Este esquecimento terá algo a ver com a política do presidente Bush de desprestígio da ONU e da recusa de ratificação do Protocolo de Quioto?

O senhor Gore parece que gosta mais do simples CO 2 do que das dioxinas, dos furanos, dos PCB e outras de substâncias complexas, de reciclagem impossível na natureza – ao contrário do CO 2 (que poderia ser convertido em biomassa, se não desflorestassem o planeta) –, sobre os quais existe um acordo absoluto quanto à sua extrema periculosidade. Por esta razão, identificadas as doze substâncias mais letais existentes na atmosfera, nos solos, nos nossos corpos e na maioria dos seres vivos, que hão-de manter-se durante gerações, se assinou em 2001 e se ratificou em 2004 a Convenção de Estocolmo. Mas nos processos de incineração, nos quais se geram a maioria destes compostos, para além do CO 2 em que só se fixa o discurso de Al Gore, continuam e pouco ou nada sabemos da sua evolução, se exceptuarmos a informação dos investigadores médicos, sobre a sua maior presença nos tecidos e órgãos humanos.

O CIE é o responsável pelos campos de internamento dos imigrantes que conseguem chegar vivos à Espanha. No seu filme, podemos ver como vai sofrer a Natureza, a obra de Deus, com maior precisão e crueldade do que os seus próprios habitantes. Ao referir-se aos efeitos das alterações climáticas em África mostra-nos um pobre mapa com o lago Chade sem imagem alguma do sofrimento dos seus habitantes. A única imagem que oferece para nos mostrar a sua angústia e o seu sofrimento que o leva até à morte é a de um urso polar que nada, durante 100 km, à procura de gelo e que morre. Talvez a visita a Espanha lhe pudesse servir para que alguns ministros e outras autoridades lhe sugerissem que mudasse o urso por africanos que, em muito maior número, morrem ao tentar o atravessamento do estreito de Gibraltar à procura de uma vida melhor. Saberá ele, ou os seus assessores audiovisuais, que os africanos não são brancos como o urso?

Sem dúvida, na película, não podemos ver as causas que provocaram a ruína económica e social desse gigantesco continente que contém uma grande parte dos recursos naturais do planeta e que, talvez, por isso se encontre na actual situação de ruína. Simplesmente, ao mostrar-nos o lago de Chade seco (com uma seta que diz Darfur à direita e Níger à esquerda), indica-nos que o ex–vice-presidente não lhe interessa os outros problemas que existem por lá. E, por isso, não nos diz como solucioná-los.

Tão pouco nos diz o senhor Gore qual é a causa verdadeira da situação no mundo sobre o esgotamento dos recursos, a degradação ambiental e a actual desigualdade económica e social. Apesar de que em 1972 já se tenha feito um estudo exaustivo (“Os limites do crescimento”, estudo apresentado pelo Clube de Roma, sobre a avaliação da situação humanitária, feito por Donella H. Meadows, Denis L. Meadows, Jorgen Randers et William Berens III), ao qual se seguiram outros estudos que deram ocasião à declaração da Cimeira da Terra (Rio de Janeiro, 1992) sobre a necessidade da conservação dos recursos; o senhor Gore não nos fala nas soluções para a redução do consumo de alguns recursos naturais, energéticos ou outros. Só nos fala de energia e CO 2 . Não se preocupa com o sofrimento actual das pessoas devido à destruição dos seus territórios, às migrações e mortes como consequência da depredação dos recursos, mas só se mostra compungido ao pensar na sua quinta na qual passou a sua idílica infância. Preocupa-o não saber em que condição ficará com o dito aquecimento global. O consumismo é intocável, como alma mater e motor da nossa civilização actual que transforma recursos naturais em resíduos na proporção de 93%. Só 7% dos recursos naturais que utilizamos (minerais energéticos e não energéticos, alimentos, etc) são transformados em bens úteis para o nosso exagerado consumo. Al Gore indica-nos que a solução está na mudança de automóvel por outro sem nos dizer se na fabricação e utilização deste novo automóvel se consome mais ou menos recursos e se a eficiência transformadora (maior aproveitamento dos recursos) será maior ou menor. O mesmo acontece com a energia, mostrando-nos painéis fotovoltaicos (transformam a luz solar em corrente eléctrica) que, hoje por hoje, necessitam no seu processo de projecto, fabricação e montagem, mais energia do que aquela que vão produzir na sua vida útil. Diz-nos o senhor Gore que se exija das empresas eléctricas o fornecimento de energia limpa e verde. A que novas formas de energia se refere o senhor Gore quando nos diz que se pode atingir a emissão zero de CO 2 ? Alcançar este objectivo no uso intensivo da energia num país como os EUA, e no mundo, significa não queimar matéria orgânica (petróleo, gás natural, carvão, biomassa, etc). Só a energia nuclear de fusão, o sonho do reactor reprodutor (ITER), pode fornecer garantidamente as gigantescas procuras actuais, e maiores ainda no futuro, que a nossa civilização exige no consumo-destruição-fabricação-consumo. Só uma fonte inesgotável de energia eléctrica poderia garantir a disponibilidade do hidrogénio para substituir os combustíveis fósseis nos processos de combustão. Coincidências entre Al Gore e Jeremy Rifkin.

QUAL O AUTOMÓVEL DE JESUS CRISTO?

Uma vez mais, Al Gore recorda-nos que é norte-americano e, no fundamental, fala para os norte-americanos. Só se refere ao resto do mundo nas partes menos importantes do seu discurso. Diz-nos que devemos reduzir a dependência do petróleo estrangeiro, não a mobilidade compulsiva. Esquece-se que se deslocam, constantemente, cada vez mais, mais depressa e mais longe materiais, produtos e pessoas. Diz-nos que devemos reduzir a extracção do petróleo do nosso país. A que país se refere? A maioria não tem petróleo. Esta meta de redução da dependência, com a ideia da segurança nacional, traduz-se num verdadeiro dilema pois torna-se necessária a importação do petróleo, tanto para os militaristas (guerras territoriais para controlar o petróleo) como para os falcões do fisco (repercussão das importações no valor do dólar) e para os sectores económicos do neoconservadorismo que apoiam o presidente Bush. Também parece que pretende satisfazer os desejos das prédicas de poderosas seitas evangelistas que falam na necessidade de o homem conservar a Terra que Deus nos deu. Ainda que Al Gore não responda à pergunta chave para estas seitas: Que automóvel conduziria Jesus Cristo nos dias de hoje?

Al Gore, definitivamente, pretende assustar-nos (o medo é o instrumento mais subtil e útil do poder) ao responsabilizar-nos a todos, mas sem mostrar-nos um gráfico ou uma tabela que indique a responsabilidade que corresponderia a cada um de nós (pessoas, grupos económicos e sociais, países). E mais, no fundo, ele tão pouco sabe porque nos acusa. Assim, lamenta-se como alguém que em nome de Deus tenha passado por aqui, ao referir-se aos desastres produzidos pelo furacão Katrina.

Al Gore não exige responsabilidades aos conhecidos causadores da situação actual e futura, cujo enriquecimento material é ainda maior do que o aumento do desastre ambiental que produziram (só a Exxon-Mobil obteve, em 2006, 30,36 mil milhões de dólares de lucros, o maior jamais alcançado por uma empresa na história do capitalismo), mas exige que aceitemos esta situação como o pecado de toda a humanidade e que trabalhemos todos juntos no futuro para nos salvarmos do perigo que está para acontecer.

Tão pouco nos indica quanto CO 2 se emitiu para a atmosfera como consequência da fabricação, ensaios, transporte e utilização do desproporcionado exército do seu país que não representa a humanidade no seu conjunto. Nem o do emitido nas sucessivas guerras para o controlo do petróleo (bombardeamentos, explosões de poços de petróleo e refinarias, roturas de oleodutos e gasodutos).

Para emitir este discurso simples e sustentado já existe o republicano Schwarzenegger, talvez com maior experiência cinematográfica. Mas, no seu estado da Califórnia, supostamente avançado do ponto de vista ambiental, ainda ninguém consegue comprar o tal automóvel capaz de ser conduzido por Jesus Cristo.

Como conclusão, a propaganda de Al Gore não oferece nada de novo e rigoroso (melhor escrito e estudado, ainda que não apresentado com tais parangonas, existe no primeiro relatório do Clube de Roma de 1972; mais rigoroso e aparentemente científico encontra-se na informação fornecida pelo IPCC, órgão da ONU, em 2001). Segue a Bíblia na sua apresentação simplista da análise das causas e da formulação das medidas, recomendando a reza aos que sejam seus crentes. Para cobrar os benefícios do desastre e os que se derivam da sua divulgação, incluído o próprio, existem nomes e apelidos. Para pagar os danos ambientais devemos estar todos juntos e irmanados e ao que nos toca mais concretamente devemos perguntar-lhe como a Deus: “porquê nós e aqui?” Al Gore desaproveita nesta magnífica, talvez irrepetível, ocasião, a oportunidade de nos oferecer o seu currículo pessoal no que respeita aos trabalhos, aos sacrifícios e aos resultados obtidos durante a sua carreira política incluindo o seu período como vice–presidente dos EUA. Talvez assim tivesse ganho as eleições e fosse hoje presidente em vez de andar a vender livros e DVDs, ainda que então talvez não fosse iluminado por Deus para andar a fazer prédicas sobre o desenvolvimento sustentável, algo que, segundo manifesta o próprio, só aconteceu depois de ter perdido as eleições presidenciais. Eis agora o que o novo profeta ecologista manifesta: “vi claramente a missão que me estava destinada”.

Vejam, leiam e julguem vós, sobretudo os privilegiados que puderam ouvir e ver o profeta, por 470 € + IVA, se não se assiste a um fenómeno global, ecológico, económico e religioso, que atrai por igual as crianças e os mais crescidos, orientais e ocidentais, plebeus (como eu que só vi o DVD que nos emprestou um amigo) e aristocratas (que lhe pagaram os 200 mil dólares por conferência e têm a possibilidade de vê-lo ao vivo e inclusive falar-lhe). Para terminar, umas últimas perguntas:
– O que terão aprendido, quer o presidente do Governo quer os ministros e outras autoridades, com as suas conferências?
– Pagaram as suas entradas?
– Se sim, fizeram-no com o dinheiro dos nossos impostos?
– Pagaram-lhe pelos seus méritos?
– Ou por outros “méritos” que não conhecemos?
– Ser-lhe-á dado o próximo prémio Príncipe das Astúrias de 2007?
– O senhor Gore alguma vez terá a oportunidade de ler este artigo e outros semelhantes?
– Dir-nos-á, finalmente, qual é o automóvel que Jesus Cristo conduziria hoje? Em Madrid não o podemos averiguar.
1- Pedro Prieto. Editor de Crisis energética. Al Gore en España. ¿El huevo del calentamiento global o la gallina del agotamiento fósil? Disponible en Crisis energética: http://www.crisisenergetica.org/article.php?story=20070205190147543
2- Una verdad antigua. Marcela Çaldumbide. Advogado.
3- Quando Al Gore exercia seu papel de vendedor de drogas ao serviço das multinacionais.

Instabilidade política e econômica amaldiçoa nações ricas em petróleo

Dos dez maiores países exportadores do mundo, apenas três são democracias estáveis e sem traços de autoritarismo

Ruth Costas

Não é por simples coincidência que a maioria dos países que hoje domina a pauta dos noticiários também consta na lista dos grandes exportadores de petróleo. ‘Não há petróleo em lugar calmo no mundo’, observou recentemente o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli. Por causa da alta na cotação desse produto nos últimos anos, a Venezuela é o país que mais cresce na América Latina, mas também aquele cujos rumos políticos mais preocupam; o Irã tem os cofres cheios para investir no seu polêmico programa nuclear; e o ditador do Sudão, Omar alBashir, está armando milícias para combater rebeldes na região de Darfur. ‘A produção de petróleo favorece a concentração de riqueza e poder e, num momento em que a cotação está elevada, esses regimes de viés autoritário aproveitam para se consolidar’, explica Michael Ross, da Universidade da Califórnia, nos EUA, que estuda a trajetória política de países cuja economia é dependente do petróleo.
Especialistas como ele se referem à instabilidade econômica e política criada pelo petróleo como ‘o paradoxo da riqueza’ ou, simplesmente, ‘ a maldição do petróleo’. ‘Dos dez maiores exportadores de petróleo do mundo, apenas a Noruega, o Canadá e o México têm regimes democráticos estáveis e sem traços de autoritarismo’, afirma Ross. ‘Além disso, se hoje a economia desses exportadores vai de vento em popa, na grande maioria há poucos sinais de que estejam sendo construídas as bases para um desenvolvimento sustentável no longo prazo.’ Para o cientista político Paul Collier, que estuda esse fenômeno na Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha, há ao menos quatro mecanismos que contribuem para que o petróleo sele a ruína de alguns países. O primeiro está relacionado a questões políticas. ‘Ao fornecer ao Estado uma fonte de renda farta e fácil, o petróleo torna os impostos dispensáveis’, explica Collier. Por um lado, o contribuinte paga menos. Por outro, o Estado ganha uma carta de alforria de empresários e estratos médios da sociedade.
Antes da descoberta de petróleo no Kuwait, na década de 30, o clã Al Sabagh tinha de consultar um grupo de comerciantes para tomar decisões. Depois, a vontade do xeque virou lei. Algo semelhante aconteceu na Arábia Saudita. ‘Como desde o início da exploração de petróleo não havia a necessidade de prestação de contas, hoje um terço dos ganhos obtidos com esse produto cobre os gastos da família real saudita, um terço retorna à petrolífera estatal e apenas o terço restante é usado para financiar obras e serviços que beneficiam o resto do país’, afirma o economista americano Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard.
A segunda causa da ´maldição do petróleo´ está relacionada à corrupção. Segundo o FMI, todos os anos, 20% dos US$ 5 bilhões pagos pelo setor petrolífero ao governo de Angola desaparecem em contas bancárias particulares. Enquanto isso, dois terços da população vivem com menos de US$ 1 ao dia e, por falta de investimentos em saúde e saneamento básico, uma criança morre a cada minuto no país. ‘Em 2002, diversas ONGs lançaram uma campanha para pressionar as empresas petrolíferas a publicarem os pagamentos que faziam para governos problemáticos’, conta o economista Michael Renner, pesquisador do Worldwatch Institute, com sede em Washington. ‘Esse é um primeiro passo importante, embora o ideal seria que os governos divulgassem exatamente como estão gastando o dinheiro.’ O terceiro problema relacionado ao petróleo diz respeito aos conflitos internos. Governos e grupos rebeldes gastam fortunas se armando para garantir sua fatia dessa riqueza.
Calcula-se que, para cada 5% a mais de participação do petróleo nas exportações de um país, haja um aumento de 1,6% em seus gastos militares.
Como demonstra a experiência em Estados com instituições frágeis e disputas territoriais acirradas, como Angola e Sudão, tal militarização pode ter efeitos explosivos. Segundo Collier, 23% dos países cuja economia se baseia em riquezas naturais como o petróleo experimentaram conflitos civis nos últimos cinco anos. Entre os que não dependem de riquezas naturais, essa incidência é de apenas 0,5%.
A quarta e última causa da ‘maldição’ está relacionada a questões econômicas. Trata-se de um fenômeno que recebeu o nome de ‘doença holandesa’ porque foi observado pela primeira vez na Holanda da década de 60, após a descoberta de imensas jazidas de gás natural no país. Basicamente, a venda do petróleo inunda o mercado interno com divisas e valoriza a moeda local. Isso estimula as importações e torna os produtos nacionais mais caros e menos competitivos. É a combinação da falta de investimentos com a queda das vendas externas e a feroz competição com os importados que leva à ruína produtores de diversos setores. ‘Numa economia baseada em manufaturas, a riqueza se distribui naturalmente porque todos os dias os funcionários de uma empresa lucrativa voltam para casa um tantinho mais ricos’, diz Renner. ‘O problema é que a indústria petrolífera gera poucos empregos para a população local e você não irá ouvir falar em um pequeno empreendedor que abriu uma microempresa de prospecção de petróleo.’ Some-se a tudo isso as incertezas sobre o futuro da cotação desse produto no mercado internacional – e o resultado está longe de ser o cenário ideal para uma trajetória de desenvolvimento consistente e sustentável. A boa notícia é que alguns países têm encontrado soluções eficientes para contornar a ‘maldição’.
Todos os anos, o governo norueguês deposita parte dos lucros do petróleo em um fundo que já conta com U$S 200 bilhões e serve de garantia para os dias de vacas magras e cotações baixas. O restante é investido na melhoria dos serviços públicos. ‘Obviamente a realidade da Noruega é diferente da de países em desenvolvimento, mas criar mecanismos para que o dinheiro chegue à população, estimular a prestação de contas e fazer um planejamento econômico no longo prazo é a receita para transformar o petróleo em aliado em qualquer canto do mundo’, afirma Paul Collier.
Países como o México e o Catar fizeram bem-sucedidas apostas na diversificação da economia. ‘Onde o petróleo é apenas um entre muitos setores, nenhum desses efeitos perversos é observado’, diz o economista egípcio Robert Mabro, autor de 13 livros sobre o mercado petrolífero.
Há três décadas, o clã que governa Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, investiu os recursos petrolíferos em infra-estrutura, como parte de um projeto para tornar a região um centro de turismo, comércio, tecnologia e indústria. Hoje, o petróleo representa só 7% do PIB e a economia cresce 16% ao ano. ‘A ´maldição´ passou longe e essa se tornou uma das regiões mais promissoras do Oriente Médio’, completa Mabro.

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Blogueira vira referência na campanha

A socialite Arianna Huffington atrai celebridades para seu blog de esquerda e afia a língua para as eleições de 2008

Patrícia Campos Mello
CORRESPONDENTE WASHINGTON

Seja para arrecadar recursos de campanha, espalhar boatos sobre adversários ou fazer a chamada propaganda viral, os blogs prometem esquentar as eleições americanas de 2008. E a superblogueira Arianna Huffington, dona do popular blog de esquerda Huffington Post, já se prepara para a briga cibernética que vem por aí. O Huffington Post surgiu em maio de 2005 como a resposta da esquerda, ou dos liberais, como se diz por aqui, para o altamente visitado blog conservador Drudge Report.
Mas Arianna fez mais que isso – tirou os blogs do domínio de anônimos e os trouxe para a esfera das supercelebridades e insiders políticos. A começar por ela mesma, socialite convertida numa das mais famosas comentaristas políticas nos EUA e eleita pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do país no ano passado.
O que dizer de uma mulher que se casou com um multimilionário gay, concorreu ao governo da Califórnia e passou por uma transformação radical – de conservadora renhida, que aconselhava o republicano Newt Gingrich, para ‘liberal’, que defende temas ambientais e se alinha com os democratas? Arianna nasceu na Grécia há 57 anos, foi morar em Londres quando tinha 16 anos e formouse na Universidade de Cambridge. Ela publicou seu primeiro livro, uma pioneira crítica ao feminismo chamada A Mulher Feminina, aos 22 anos. O livro fez um enorme sucesso na Europa e catapultou Arianna para o centro da cena intelectual de Londres.
Arianna namorou por muitos anos o endeusado jornalista inglês Bernard Levin, que foi um dos principais colunistas do jornal britânico The Times. Levin tinha ‘metade da altura de Arianna e o dobro de sua idade’, como diziam as más línguas. Mas o intelectual inglês foi a grande paixão de Arianna. Solteirão convicto, não quis casar com ela.
Depois da decepção amorosa, a grega mudou para os EUA, onde se tornou figurinha fácil em festas da alta sociedade novaiorquina. Continuou escrevendo livros, entre eles a biografia de Maria Callas. Em 1986, ela se casou com o multimilionário do petróleo Michael Huffington, que foi deputado pelo Partido Republicano. Na época, Arianna começou a escrever comentários políticos, de inclinação bastante conservadora.
Em 1997, Arianna e Huffington se separaram e, um ano depois, o milionário saiu do armário. Huffington afirmou, até mesmo, que Arianna já sabia que ele era gay desde o dia em que eles casaram. Ela nega.
Arianna divorciou-se de Huffington e também do conservadorismo. Mudou-se para Los Angeles com as duas filhas, onde passou a ser vista ao lado de políticos do calibre do reverendo Jesse Jackson. Ela organizou o Projeto Detroit, uma campanha ambientalista que ganhou ressonância com uma série de propagandas na TV contra o uso dos utilitários esportivos, os SUVs. Em um dos comerciais, donos de utilitários diziam: ‘Eu mandei nosso soldados para a guerra’.
Em 2003, Arianna lançou-se candidata independente ao governo da Califórnia, disputando o cargo com Arnold Schwarzenegger, mas seu desempenho foi pífio. Desistiu antes da eleição, com intenções de voto abaixo de 2%.
Para esta habitué dos holofotes, críticas nunca faltaram. Durante as campanhas políticas do marido, nas quais ela era a coordenadora de facto, Arianna foi chamada de ‘Lady MacBeth da direita’. A grega foi apontada como uma das maiores alpinistas sociais de todos os tempos. Depois, quando se tornou colunista liberal, jornais disseram que ‘ela troca de ideologia como troca de roupa’.
Com seu blog não foi diferente. O Huffington Post recebeu críticas duras quando estreou.
Foi tachado de site fútil, desvirtuador do perfil alternativo dos blogs, símbolo da ‘blogosfera das vaidades’. Mas hoje tem 2,3 milhões de visitantes por mês.
Entre os blogueiros do Huffington Post estão o escritor Norman Mailer, Nora Ephron, Larry David (criador do Seinfeld), Katrina Vanden Heuvel, editora da revista de esquerda
The Nation, o jornalista James Fallows, a ex-New Yorker Tina Brown, insiders políticos como Harry Reid, líder da maioria no Senado, além de vários deputados e lobistas.
O site deu vários furos – no caso Scooter Libby, por exemplo, levantou a lebre para a atuação da jornalista do New York Times Judith Miller, que se fez de mártir e foi para a prisão para não revelar sua fonte, mas descobriu-se depois que seu papel na história do vazamento da agente da CIA Valery Plame não era tão inocente assim.
O Huffington Post acaba de receber um investimento de US$ 5 milhões de um grupo de capital de risco e está montando uma equipe para cobrir as eleições de 2008. De alvo de chacota, Arianna e o Huffington Post se transformaram em ponto de referência. Um dos segredos de Arianna é que ela não tem papas na língua. Em entrevista à revista Time no ano passado, disse sobre Hillary Clinton: ‘O cheiro do medo é como perfume barato em volta dela: ´Eau de não deixe eu estragar tudo e jogar minhas chances pela janela´….por isso, com medo de perder e tentando agradar a todos, Hillary ficou pasteurizada. Cada palavra que sai de sua boca passa por – o que os assessores vão pensar disso? Como será visto nas pesquisas? Será que as mulheres de 25-35 no leste de Ohio vão aprovar?’ A camaleoa Arianna promete não descansar a língua ferina nestas eleições.

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Aldeia na Grécia vive à sombra do carvão

Niki Kitsantonis
em Akrini, Grécia

Akrini é uma aldeia no norte da Grécia povoada por descendentes de refugiados que fugiram de suas casas perto do Mar Negro, quando estourou a guerra com a Turquia, no início do século passado. Agora os aldeões querem fugir de novo.

A cidade está a apenas 3,5 quilômetros das chaminés expelidoras de fumaça de Aghios Dimitrios, a maior usina elétrica a linhita da Grécia, que emite mais dióxido de carbono do que qualquer outra usina a carvão na Europa, segundo o grupo ambientalista WWF.

Akrini também fica a 3,5 quilômetros de uma mina de linhita que cobre 7 mil hectares. A aldeia é cercada por montanhas de cinza tóxica produzida pela usina. Os moradores acreditam que as cinzas são responsáveis pelos crescentes problemas respiratórios e constante aumento no número de mortes por câncer e doenças cardíacas na aldeia, e estão fazendo lobby junto ao conselho de eletricidade para a relocação da comunidade de 1.000 habitantes.

“Primeiro nossos avós se tornaram refugiados quando foram forçados pelos turcos a fugir”, disse Alexandros Sargiannidis, um conselheiro municipal de Akrini. “Agora nós sentimos que estamos sendo forçados a nos tornarmos refugiados em nossa própria terra.”

Akrini não é a única. Ela é apenas uma de várias aldeias no eixo produtor de eletricidade da Grécia na região norte de Kozani – lar de cinco usinas de força que fornecem 70% da eletricidade do país – onde os níveis de poluição do ar preocupam ecologistas e funcionários de saúde.

Problemas semelhantes foram informados em aldeias ao redor da segunda maior usina de linhita da Grécia, em Megalopolis, em Peloponeso. Em uma destas aldeias, Valtesi, os níveis de radiação no ar estão quatro vezes acima do normal por causa das “cinzas contendo isótopos radioativos transportadas pelo ar”, segundo um estudo de 2002 da Universidade Técnica Nacional, em Atenas.

O conselho de eletricidade, PPC, disse que “respeita rigorosamente as leis ambientais” e disse que os níveis de poluição em Akrini não são altos o bastante para justificar o pedido dos moradores de relocação. “Há outras aldeias que estão ainda mais próximas de nossas usinas de força”, disse Constantinos Melas, um diretor de mina do conselho de eletricidade.

Mas em vez de restringir o uso de linhita de baixo grau, de acordo com o esforço da União Européia (UE) para conter as emissões de dióxido de carbono responsáveis pelo aquecimento global, o conselho de eletricidade está planejando aumentar as operações nacionais de linhita, incluindo uma ampliação em Kozani que traria a mina e as montanhas de cinzas ainda mais próximas de Akrini.

“Nós já estamos cercados”, disse Sargiannidis, que também lidera a associação dos moradores que está fazendo lobby contra as políticas de mineração do conselho de eletricidade. “Isto é ultrajante.” Os moradores locais levaram seu caso à Comissão Européia. Dezesseis aldeias, incluindo Akrini, apelaram por ajuda em outubro de 2004. Uma resposta em fevereiro de 2006 apenas apontou que os dados fornecidos pelo governo grego e pelo conselho de eletricidade não eram adequados para uma avaliação final.

O comissário ambiental da União Européia, Stavros Dimas, que é grego, se recusou a comentar o assunto, dizendo que a comissão não pode julgar aspectos individuais do plano de energia de um país membro. Mas em uma visita a Atenas em 22 de fevereiro, Dimas alertou a Grécia a reduzir suas emissões de carbono e adotar energias mais limpas, caso contrário enfrentaria “conseqüências irreversíveis”.

O ministro do Meio Ambiente, Giorgos Souflias, rebateu dizendo que a Grécia não é a pior poluidora da UE. Mas ele também descreveu o conselho de eletricidade como o maior poluidor da Grécia devido à sua insistência na linhita. Os moradores de Akrini prometeram bloquear as esteiras de transporte que levam a linhita à usina de Aghios Dimitrios -como fizeram em julho passado- a menos que o conselho de eletricidade concorde até 31 de março em ajudar na relocação. “Eles não podem fornecer eletricidade à Grécia à custa de nossa saúde”, disse Sargiannidis.

O fato dos aldeões terem hipotecas em imóveis cujo valor despencou desde que a usina a carvão começou a operar em 1985, ele disse, dificulta para eles financiarem sua própria mudança. O conselho de eletricidade ajudou na relocação de duas aldeias vizinhas para obter acesso a depósitos subterrâneos de linhita, mas diz que não há motivo para mudar Akrini “porque não há linhita” e “não há problema de poluição”.

Como uma concessão, o conselho instalou coberturas de metal sobre as esteiras que transportam cinzas e novos filtros para reter as cinzas nas usinas. Também pediu ao Kozani Technical College que realizasse um novo estudo de poluição. Um estudo anterior pela faculdade, realizado no ano passado a pedido das aldeias, mostrou que a presença média diária de partículas poluidoras do ar, conhecidas como PM10, era de 75 microgramas por metro cúbico, 50% acima do limite da UE de 50 microgramas por metro cúbico.

Alguns cientistas contestam o valor de tais estudos. “Não há sentido em medir os poluentes no ar”, disse Panayiotis Becharakis, do departamento de fisiologia da Universidade de Atenas. “Nós devemos determinar quais as conseqüências destes poluentes na saúde das pessoas.”

Uma análise dos arquivos do cartório local, realizada pela associação de Sargiannidis, mostra que o número de mortes por câncer e problemas cardíacos em Akrini dobrou de 2001 a 2006 e agora são responsáveis por 80% de todas as mortes na aldeia. Dados do Serviço Nacional de Estatísticas mostram que o índice de mortalidade por câncer em Akrini é pelo menos o dobro do índice nacional.

E há os problemas respiratórios. “Pesquisa recente mostra que um percentual extremamente alto de crianças que vivem perto das usinas de força em Kozani tem problemas respiratórios”, disse Dimitris Ibrahim, da filial de Atenas do Greenpeace, “e estudos nos Estados Unidos mostram que altas emissões de PM10 reduzem em média a expectativa de vida em 14 anos”.

Os moradores de Akrini vêem tais tendências refletidas em sua comunidade. Evgenios Kazantzidis, um caminhoneiro, perdeu quatro membros de sua família, incluindo sua esposa, para o câncer nos últimos 10 anos. “Eu quero que meus três filhos e seis netos saiam daqui”, ele disse.

Maria Papadopoulou, cujo marido dirige um caminhão que remove as cinzas da usina local para um aterro, tem três filhas, de 7 a 18 anos, todas com rinite alérgica, um quadro que lembra febre do feno crônica. O refrigerador da família conta com um estoque de medicamento para seus males.

Em vez de apostar na linhita, dizem os ecologistas, a Grécia deveria trabalhar para melhorar seu retrospecto medíocre de exploração de fontes de energia renováveis. Em 2005, a linhita era responsável por 60% da produção de energia da Grécia e a energia renovável representava 12% (principalmente hidrelétrica).

O restante vinha de petróleo e gás natural importados. “A Grécia possui um potencial tremendo de sol e vento”, disse Ibrahim, do Greenpeace. Há algum progresso. Sob pressão da UE para produzir 20% de sua energia a partir de fontes renováveis até 2010, o governo destinou 2,5 bilhões de euros para energia mais limpa em um projeto de lei que será apresentado ao Parlamento em abril.

A lei pede pela instalação de 2.500 fazendas de vento com uma capacidade de produção combinada de energia de cinco gigawatts (a usina a linhita Aghios Dimitrios tem capacidade de quatro) e a criação de pequenos projetos hidrelétricos, parques solares e usinas de biogás.

Os ecologistas dizem que tais iniciativas são encorajadoras, mas não compensam os danos causados pelo uso de combustíveis fósseis pela Grécia. “É simples”, disse Lazos Tsikritzis, chefe do Movimento Ecológico de Kozani. “Nós temos que parar de queimar linhita.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

International Herald Tribune

A coroação da MPB

Os festivais da canção exibidos por emissoras de TV entre 1966 e 1968 seduziram o público, abriram alas para o tropicalismo e mudaram o significado da expressão “música popular brasileira”

Celso Masson, com reportagem de Cristina Mucci

Houve um momento em que o Brasil inteiro cantava. Nas escolas, nas ruas, campos e construções. Geraldo Vandré ainda não havia sequer rascunhado os versos em que falaria de flores, mas o país caminhava, dançando conforme a música.

Eram sambas, marchinhas, bossas, modas de viola. Até iê-iê-iê se assoviava. Nem o golpe militar de 1964, que mal havia mostrado todos os dentes, parecia capaz de estancar o ânimo dos brasileiros para a cantoria.

As melodias ocupavam bares, teatros, o rádio e a televisão. Nas grandes cidades, onde a força da TV já se impunha, o povo se dividia entre “disparados” e “bandidos”, os fiéis torcedores daquilo que realmente importava: “A Banda” ou “Disparada”.

Qual canção merecia vencer? Era outubro de 1966, e o júri convocado pela TV Record, temendo uma tragédia, decidiu pelo empate.

Venceu Chico Buarque de Holanda com “A Banda”, cantada por Nara Leão. Venceram também Geraldo Vandré e Théo de Barros com “Disparada”, interpretada por Jair Rodrigues.

Mais que uma disputa, foi uma festa – e com trilha sonora da melhor qualidade. A cultura dos festivais da canção se consolidava naquela final, tão eletrizante quanto justa. Começava ali um novo ciclo da música brasileira, cujo apogeu criativo se daria no ano seguinte.

Em 1967 entrou em vigor a Lei de Segurança Nacional, em que a ditadura militar apertava o cerco sobre o país – entre os crimes previstos estava o de “guerra psicológica”, no qual poderiam ser enquadrados aqueles que discordassem publicamente do governo. Mesmo assim, uma safra raríssima de compositores e intérpretes não se intimidou.

Foi à TV em outubro defender com sangue, suor e lágrimas um repertório capaz de mudar o país. “Ponteio”, “Domingo no Parque”, “Roda Viva” e “Alegria, Alegria” foram as quatro primeiras colocadas em um festival que chegou ao fim com Roberto Carlos na quinta posição.

Ainda hoje, a força daquele momento reverbera nas canções que o tempo não cala. Mas, se parece inimaginável que Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Edu Lobo possam competir entre si, o fato é que 40 anos atrás isso aconteceu. Foi exatamente assim que nasceu a MPB.

Da TV para o disco
É verdade que a sigla para “música popular brasileira” já existia àquela altura. Ela batizava inclusive o grupo que acompanhou Chico Buarque em “Roda Viva” e outras canções, o MPB-4. Só que as três letrinhas serviam para abreviar um baita nomão, que soma dez sílabas e que era usado indistintamente para todo tipo de música cantada no país, da chula dos pampas ao baião nordestino.

Tudo o que não fosse erudito era música popular brasileira. A chegada da geração de compositores da qual hoje faz parte o atual ministro da Cultura, Gilberto Gil, deu outro significado àquela sigla. Produto de seu tempo, a MPB se depurou intuitivamente a partir da convergência dos vários elementos sonoros que perpassavam todo o cancioneiro nacional. Até que virou um gênero autônomo.

Ao contrário de significar qualquer coisa, a MPB tornou-se, na segunda metade dos anos 60, um estilo bem definido em termos de música e letra. Uma sonoridade tão identificada com a cultura popular que pôde tomar esse nome emprestado.

Tão além do regional que fez sucesso em todo o país. Era música. Era popular. Era brasileira.

E foi legitimada junto ao público graças ao sucesso das canções apresentadas nos festivais de 1966 e 1967. Com eles, em vez de chegar ao público pelo rádio, a música entrava na casa das pessoas pela TV, e só depois pelo disco.

Junto com cada nova canção vinha a imagem de uma época: Elis Regina com seus braços ensandecidos subindo e descendo enquanto cantava “Arrastão”; os Mutantes em figurino psicodélico; Sérgio Ricardo e sua famosa “violada” no auditório. Aquilo era excitante, transgressor.

Mesmo que o termo tenha ficado datado, a forma da MPB urdida naqueles festivais dura até hoje. Que outra nomenclatura poderia servir à obra de Djavan, à de Lenine ou à de Chico César? O que eles fazem, ainda que a partir de influências distintas, é MPB, e deriva em grande parte daquele som que se cristalizou nos bastidores da TV Record em fins dos anos 60. Disso não há dúvida.

O que pouca gente sabe, contudo, é que quem nos presenteou com a invenção da MPB foi Solano Ribeiro, o homem por trás dos festivais e que com eles se confunde. Sua vida está contada na autobiografia Prepare seu Coração. O livro explica, entre outras coisas, como a TV foi fundamental para que o Brasil conhecesse o melhor de sua música. Mais ou menos o oposto do que ocorre hoje.

O maior ibope
A televisão abriu espaço para a música porque ela dava audiência, como já havia ficado claro em programas como Brasil 60, apresentado por Bibi Ferreira na Excelsior, e O Fino da Bossa, com Elis Regina, na Record – o maior sucesso da TV naquela época. Mas o casamento, mesmo por interesse, foi feliz.

A música, da velha à jovem guarda, conseguiu ocupar seu espaço na telinha. Isso ficaria ainda mais evidente quando o produtor Solano Ribeiro, que trabalhava na Excelsior, teve a idéia de reproduzir a fórmula já consagrada na Itália pelo Festival de San Remo, do qual Roberto Carlos havia sido vencedor, em 1968, com “Canzone per Te”.

Ao contrário do italiano, o festival de Solano não teria qualquer participação das gravadoras ou editoras de música. “Minha estratégia era colocar no mercado uma porção de músicas, cantores, cantoras e conjuntos musicais, e as gravadoras que se servissem, de acordo com a sua agilidade e competência”, recorda Solano. Bastou essa sacada para renovar radicalmente a música brasileira.

O festival era a grande oportunidade para que novos talentos pudessem “se vender”. Mas sua contribuição para a música foi bem maior. A TV, querendo ou não, virou a plataforma de lançamento da tropicália, que jamais teria feito o barulho que fez se ficasse longe das câmeras.

Por mais que Caetano e Gil tenham entrado para a história como criadores daquele movimento, o tropicalismo não existiria sem algumas das cabeças que trabalhavam nos bastidores dos festivais, entre elas o próprio Solano Ribeiro, além dos maestros Júlio Medaglia e Rogério Duprat.

Foi Solano quem deu um empurrãozinho para que Caetano compusesse “Alegria, Alegria”, como ele mesmo recorda: “Eu tinha uma visão clara da música no Brasil e no mundo. O rock dos Beatles e dos Rolling Stones estava aí. Por outro lado, vi que a música brasileira precisava sair do binômio mar/campo. A juventude estava ligada no mundo urbano, até nas cidades do interior do Brasil, onde havia vida universitária. Percebi que a música precisava de temática urbana”, diz.

“Em um encontro com Caetano, falei para ele que era preciso inventar uma nova estética. Dias depois o Guilherme Araújo, que o empresariava, apareceu e disse: ‘Meu querido, você não acredita. O Caetano fez uma música sensacional, coerente com tudo o que você disse. O nome é ‘Alegria, Alegria’”.

O refrão, que indaga “Por que não? Por que não?” foi o ponto de partida para o que viria depois. Mas o choque que a canção representou começava logo nos primeiros acordes, escritos pelo maestro Júlio Medaglia.

“A grande surpresa no arranjo de ‘Alegria, Alegria’ era o fato de ser uma marcha-rancho bem convencional tocada por instrumentos eletrônicos”, explica o maestro. “Quando o Caetano entrou com aquelas guitarras elétricas, o público vaiou imediatamente.

Só que no decorrer da música ele convenceu – e acabou aplaudido.” O mesmo não aconteceu no festival do ano seguinte, quando Caetano apresentou “É Proibido Proibir” e foi vaiado do começo ao fim. “O Caetano foi vanguarda”, afirma Júlio Medaglia. “Sua postura no festival de 1968 representou uma tomada de posição importantíssima.
O tropicalismo significava uma abertura para todos os tipos de linguagens, de idéias e de componentes não-musicais que integrariam a música brasileira a partir dali. E a ala mais reacionária, inclusive dos estudantes, estranhou aquilo tudo.

Esse reacionarismo fora do comum deu ainda mais força para o movimento, a ponto de Caetano encerrar sua apresentação com aquele discurso tão contundente, resumido na frase ‘Se vocês forem para política como são para estética nós estamos feitos!’”

Ainda que as grandes controvérsias, inclusive no palco, tenham eclodido no festival de 1968, que durou dois meses, entre novembro e dezembro, o de 1967 permanece cotado como o mais importante do ponto de vista musical. As canções nele apresentadas continuam no gosto popular, e a audiência da Record ainda é a maior de todos os tempos: com 97 pontos no Ibope, a final entrou para o Guiness Book e nunca mais foi superada.

A participação de Solano Ribeiro e Júlio Medaglia na definição do que viria a ser a MPB não se limitou a encorajar Caetano Veloso para que hasteasse a bandeira tropicalista. Junto com os demais jurados dos festivais, coube a eles fazer a triagem do que merecia espaço na TV e o que deveria ficar de fora.

A pré-seleção das canções inscritas foi feita na edícula da casa em que Júlio Medaglia morava com os pais, num pequeno espaço transformado em estúdio. “Naquele quartinho é que nós fazíamos as análises. Ninguém sabia que a gente estava lá. O assédio em relação ao júri do festival era tão grande que só dessa forma nós podíamos trabalhar sossegados”, afirma Júlio, recordando que seu pai costumava servir caipirinhas para animar os trabalhos. Os jurados eram, entre outros, Décio Pignatari, Augusto de Campos, Roberto Corte Real, César Camargo Mariano e Amílton Godoy, “gente de primeiríssima qualidade”, como diz o maestro.

Com milhares de canções para ouvir, essa turma teve o mérito de fazer uma seleção inquestionável. Claro que muita gente chiou por ter sido descartada – e a Record, considerando o apelo dos que se diziam injustiçados, fez um festival só com os desclassificados.

Um dia após as canções dos “sem festival” terem sido apresentadas, o Jornal da Tarde estampou na capa a manchete definitiva: “O júri tinha razão”. Quase 40 anos depois, o veredicto continua valendo.

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