Daily Archives: 25/02/2007

Bobagens amazônicas

É triste ver um grande intelectual perder a compostura. Não, não me refiro ao comentário evitável de Renato Janine Ribeiro, meu amigo, sobre a morte de João Hélio, mas ao artigo “A perda da Amazônia”, de Hélio Jaguaribe, na página 3 da Folha de hoje. Um monte de sandices persecutórias sobre religiosos que lutam para ampliar terras de índios para que sejam declaradas independentes do Brasil e depois internacionalizadas por gringos…

Gente, é coisa do nível do que o Estadão publicava na década de 1980, comendo na mão dos milicos que queriam expulsar o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) da Amazônia. As alegações eram exatamente as mesmas. Até o Estadão, ao que parece, deixou de acreditar nelas – só sobrou o Jornal do Brasil, que publicou uma série de manchetes, recentemente, com denúncias similares. Obviamente, caíram no vazio, ou melhor, encontraram solo fértil na cabeça de Jaguaribe.

O mestre fala sem corar das ONGs e pesquisas de estrangeiros como biombos para ações de desnacionalização da Amazônia (não sei como não apontou como veraz o mapa de livro didático que mostra a floresta como área de domínio internacional e todos sabem ser uma fraude pedestre). Ele poderia ter falado da mineradora Rio Tinto tentando reduzir a área de unidades de conservação, mas preferiu deblaterar contra a demarcação de terras para 200 mil indígenas.

Desconfio que Jaguaribe não conhece a Amazônia. Ou, então, não fez a lição de casa. Se está preocupado com a presença de pesquisadores americanos e de outras nacionalidades da Amazônia, deveria ao menos preocupar-se de conhecer ou obter informação sobre quem são e o que fazem lá. Pode começar pela própria Folha, que traz hoje uma entrevista com Dan Nepstad feita por Rafael Garcia.

Jaguaribe talvez ficasse arrepiado ao iniciar a leitura. Afinal, um colonizado dum repórter vai entrevistar logo um gringo sobre a Amazônia, e ainda por cima nos Estados Unidos! (durante a reunião da AAAS) Mas faria melhor de ler a entrevista toda, porque aí descobriria que Nepstad defende os interesses do… agronegócio brasileiro! Sim, ele está convencido de que a certificação socioambiental da soja e da carne bovina abrirá mercados para os produtos nacionais ao mesmo tempo em que dá uma chance de sobrevivência para parte da floresta, ao menos.

Obviamente, é uma posição impopular entre ONGs conservacionistas, estrangeiras ou não. Pergunte ao Greenpeace do Brasil, que pôs todas as suas fichas na demonização da sojicultura. Não que este blog alimente qualquer simpatia com sojeiros do jaez de Blairo Maggi, mas impugná-los como mensageiros do mal é imprudente, porque eles têm a força (capital). Não deixa de ser uma atitude tão míope quanto a de Jaguaribe, pois ambas dificultam a manutenção de um terreno comum em que essas partes possam se encontrar, conhecer-se e entender-se.

A Amazônia tão cedo não se livrará dos índios, nem de sojeiros, pecuaristas, madeireiros e milicos.

Blog do Marcelo Leite