Monthly Archives: fevereiro 2007

Viramos turcos!

Khalid Tailche

“Viramos turcos para permitir-nos o que o céu não consente aos otomanos?”. Estas são as exatas palavras de Otelo, o nobre mouro árabe a serviço da República de Veneza, no segundo ato da obra homônima de William Shakespeare. À época de Shakespeare, mais especificamente quando a peça Otelo foi ensaiada pela primeira vez, em 1604, o Império Turco invadira os paises árabes, desde o Egito, controlando o mar Mediterrâneo em boa parte da Europa Ocidental, e foi até a Hungria. A invasão turca representava, por um lado, uma ameaça para os europeus, e por outro, a consolidação de uma má fama para os turcos. Sob o Império Turco, milhares de pessoas foram massacradas, e outras milhares foram exiladas para longe de sua terra.

A ironia é que, no nosso tempo, os inimigos de ontem podem ser os aliados de amanhã. A Turquia, monstro que ameaçava seus vizinhos, acaba sendo a ponte que liga a Europa ao Oriente Mulçumano. Apesar da história sangrenta da morte de milhares de armênios – em um dos massacres mais violentos da história mundial -, a invasão do mundo árabe e a ameaça à Europa, a Turquia é hoje um país democrático que quer fazer parte da União Européia. E por que não, já que a capital da Turquia localiza-se no lado Europeu da Turquia, e não no lado asiático?

Os dois países árabes que têm fronteiras com a Turquia são Iraque e Síria. Até hoje podemos observar várias palavras da língua turca no dialeto iraquiano. O efeito não pára por aí. As relações econômicas e políticas entre a Turquia e os países árabes também mudaram. Da mesma forma que se aproxima dos países europeus, na posição de país amigo e possível aliado, não perde seu papel de liderança na região. Mesmo assim, a longa invasão turca ao mundo árabe criou certa sensibilidade entre os árabes e os turcos, que pode ser observada até hoje, registrada na memória do mundo árabe em geral.

Longe da Turquia, no continente americano, está o Brasil, um país que abarca uma variedade étnica imensa. Cosmopolita, apresenta mistura de raças de vários países. Tanta diversidade cria muitas vezes dificuldades no entendimento das diferenças culturais e históricas, gerando um senso popular sobre as raças e suas origens. No caso dos árabes, muitas vezes ficaram surpresos pelo fato de serem chamados de turcos!

O apelido não agrada aos árabes, mas justifica-se, pois na época do principal fluxo de imigração árabe para o Brasil, estes chegaram com passaportes do Império Otomano, que ocupava seus países naquele momento. Também por causa da música e da comida, muitas vezes semelhantes nos vários países árabes e na Turquia, a confusão cultural se espalhou. Desde então, árabes têm sido chamados de turcos e sentem-se ofendidos, pois muitos brasileiros não compreendem a diferença.

A questão que se apresenta é: será que o nosso mundo globalizado de hoje vai nos aproximar uns aos outros, criando uma harmonia maior entre os países do mundo e seus povos, ou o antigo lobo cobiçoso só mudará sua aparência, mas não seu comportamento, guardando escondidos seus dentes afiados? Não sabemos, mas o futuro nos dirá. Há esperança de que os povos comecem a aprender a respeitar os outros e a conviver com mais harmonia e sem preconceitos. Assim, o passado não será mais amargo, e todos nós seremos chamados de turcos, árabes ou brasileiros com prazer!

Khalid Tailche, graduado em literatura no Iraque, nasceu em Mosul, Iraque, e vive há 19 anos no Brasil.

Icarabe

Vitória do neoliberalismo torna virtude o que era visto como um defeito: o individualismo

França solidária x França liberal – o país está dividido entre os defensores de um projeto coletivo e do interesse geral, e os expoentes do individualismo neoliberal e do “cada um por si”

Jean-Louis Andreani
Em Paris

Esperança coletiva, solidariedade social e política…

Essas palavras eram as mais utilizadas em maio e junho de 1936 (quando a Frente Popular, uma coalizão dos partidos de esquerda então no poder, instituiu muitas leis trabalhistas, tais como a das férias remuneradas). Setenta anos depois deste “belo verão”, o contraste é espantoso entre a França da Frente Popular, por vezes ingênua com o seu entusiasmo excessivo, em particular no plano internacional, e aquela do verão que está começando: não há mais nenhum projeto coletivo, instaurou-se uma angústia social multiforme, enquanto a solidariedade está em frangalhos diante dos avanços de uma verdadeira ideologia do individualismo.

De fato, uma nova linha divisória veio se sobrepor às diversas fraturas que já tomaram conta do país, para desenhar duas Franças: a da solidariedade, e aquela do “indivíduo-rei”, que por vezes vem a ser a do cada um por si.

Vale reconhecer que, no âmbito da população, a generosidade e o cuidado com os outros sempre se opuseram ao egoísmo e à indiferença. Mas a vitória das idéias neoliberais, a partir dos anos 80, proporcionou ao individualismo uma justificativa política e econômica.

Combinada com o fim das grandes esperanças coletivas das quais se alimentava a esquerda, a consagração do neoliberalismo transformou numa virtude aquilo que era anteriormente considerado como um defeito francês. Simultaneamente, o advento de uma sociedade cujos valores essenciais são o indivíduo e o dinheiro fortaleceu ou recriou a necessidade de solidariedade entre aqueles que ficam entristecidos com esta evolução num plano humano ou que a recusam de um ponto de vista político.

De um lado, portanto, temos uma França seduzida pelas idéias liberais. Para ela, o indivíduo é o conceito essencial, a concorrência o melhor regulador da sociedade, a lei do mercado uma regra intangível e salutar. A defesa das conquistas sociais, a recusa do crescimento das desigualdades, ou ainda a intervenção da potência pública na economia, acabaram sendo marcadas pelo selo do “arcaísmo”, ou, até mesmo, do “partidarismo oculto do comunismo”.

O princípio de precaução (segundo o qual medidas precisam ser tomadas quando existem razões suficientes para acreditar que uma atividade ou um produto pode causar danos à saúde ou ao meio-ambiente), que está inscrito na Constituição, não passa de um sinal de cautela excessiva e de recusa do progresso. Com isso, uma certa indiferença para com os outros, fora do circulo familiar e das relações privadas, é com freqüência o corolário dessas idéias, mesmo se ela não é confessa ou assumida.

Do outro lado, a França solidária revolta-se contra a exclusão; fica indignada com as desigualdades que existem tanto na França como no resto do mundo; defende os serviços públicos “à francesa”; recusa a preeminência econômica das idéias liberais, agita-se no âmbito daquilo que de vez em quando vem tomando as aparências de uma “contra-sociedade” nostálgica dos grandes movimentos do passado. Não raro esses militantes da solidariedade se sentem decepcionados com a política, na qual eles não mais encontram o que procuram para satisfazer sua vontade de engajamento coletivo.

O crescimento avassalador desta necessidade de solidariedade é perceptível de diversas maneiras. Assim, em 21 de maio, dezenas de milhares de pessoas manifestaram em Paris com música e debaixo da chuva, tendo como única palavra de ordem a solidariedade internacional para com os países do Sul duramente atingidos pela pandemia de Aids. Da mesma forma, pela primeira vez, a editora Autrement publica um “guia da solidariedade” chamado a se tornar anual –”Ensemble, Initiatives solidaires en France, Guide 2006″ (“Juntos, iniciativas solidárias na França, Guia 2006″, editora Autrement, 320 pág., 18 euros).

A discrepância volta a ser encontrada em relação à concepção da Europa, das relações internacionais, etc. Ela se reproduz nas forças políticas, sociais, na Igreja. Sem estarem engajados à esquerda, alguns cristãos recusam uma doutrina que deixa os mais fracos “à beira do caminho”. Nas periferias, eleitos de direita sabem que apenas uma forte solidariedade dos habitantes entre eles e do país com elas poderia permitir às suas comunas saírem da situação de crise e do marasmo.

Ainda no campo da direita, alguns eleitos locais constatam os danos sociais provocados pelo aumento dos preços no setor imobiliário e lamentam que apenas o mercado governe o acesso à moradia. Inversamente, uma parte da esquerda moderada mostra-se sensível ao canto das sereias liberais. En particular, este é o caso da “esquerda caviar”, conforme sublinha Laurent Joffrin no seu livro, “História da Esquerda Caviar” (editora Robert Laffont).

A fratura
A fratura/ruptura entre essas duas Franças talvez seja mais profunda do que aquela que opunha a direita e a esquerda durante os anos 60 e 70. Na época, ambas agiam em nome do interesse geral, mesmo se os dois campos tinham uma idéia diferente do que esse interesse vinha a ser.

Hoje, os liberais os mais radicais, ou os mais sinceros, contestam a própria existência deste interesse geral. Eles escoram sua concepção nos princípios de Adam Smith, um economista escocês do século 18, segundo o qual a situação mais adequada para todos resulta do livre jogo da busca, por parte de cada um, do seu interesse pessoal.

O pai do liberalismo econômico morreu em 1790, um ano depois do início da Revolução francesa, que fundamentou justamente uma filosofia política inversa: desde 1789, toda a história política da França foi construída em função da idéia de que o Estado republicano representa e defende um interesse geral que não resulta da soma dos interesses particulares.

Ora, os neoliberais os mais radicais, dentro da linhagem dos postulados fundamentais do thatcherismo (definidos por Margaret Thatcher, que foi primeira-ministra do Reino-Unido de 1979 a 1990), preferem ficar excluídos deste consenso.

Assim, um site na Internet intitulado “A página liberal, a atualidade dentro de uma visão liberal”, publica um texto cujo autor, Georges Lane, sublinha: “Aos olhos da classe política e dos meios de comunicação, é considerada ultra-liberal toda pessoa que raciocina a partir do ser humano (…) e não a partir do conceito vago de “sociedade”, toda pessoa que sustenta que o ser humano (…) age em função do seu interesse pessoal e não levando em conta um suposto interesse geral”.

Este texto remete ao de um outro autor, que expõe suas idéias, entre outros, no site do Instituto Hayek, o qual goza de uma audiência importante. Sob o título “A Raposa no Galinheiro”, François Guillaumat sustenta que “a opção de não interferir na vida política, econômica e social” não sacrifica (…) o interesse “da sociedade aos interesses particulares”, uma vez que “só existe um interesse (…) para seres vivos individuais”. Este texto afirma também que todo “poder político se baseia em última instância no poder de prejudicar, na capacidade de destruição”.

Vale reconhecer que o extremismo que esses textos expressam não é compartilhado pelo conjunto dos liberais franceses. Mas o questionamento do papel do Estado, e até mesmo da ação política em si, a visão muito individualista da sociedade, são efetivamente a fonte da sua abordagem.

É difícil dimensionar ao certo a importância relativa das duas Franças, a solidária e a liberal. Em todo caso, é certo que elas não mais se entendem e que elas conversam cada vez menos entre elas. O seu principal ponto de encontro talvez seja a apropriação das novas tecnologias no manuseio das quais, por meio de utilizações diferentes, as duas são exímias. É muito pouco para alimentar a coesão de um corpo social.

Le Monde

Entre santarrões e fanfarrões

Portugal, país católico, passo a passo descriminaliza o aborto. Nos EUA, políticos vivem de malabarismos

Sérgio Augusto

A Terra continua esquentando, nossos menores cometeram mais dois crimes hediondos, Romário conseguiu marcar três gols (na galinha-morta do Volta Redonda, até eu), a situação do Greg complicou-se ainda mais na firma do Tide, mas o assunto da semana foi aquilo que o Aurélio define como ‘expulsar prematuramente do útero o produto da concepção’. Na Europa, nos EUA, e mesmo aqui, onde a mãe de um dos assassinos do menino João Hélio lamentou-se por ter dado à luz um maldito fruto de seu ventre.
Domingo passado, os portugueses foram às urnas para revelar se queriam chegar mais rápido ao século 21 e distanciarse da Polônia, Irlanda e Malta, livrando da cadeia as mulheres que lá praticam o aborto depois das primeiras 12 semanas de gravidez, ainda que tenham sido vítimas de estupro e corram risco de morte. Na quintafeira, durante o 7º Congresso do Partido Socialista Europeu, na cidade do Porto, a postulante socialista à presidência da França, Ségolène Royal, felicitou o primeiro-ministro português José Sócrates pela coragem de promover o referendo do aborto. O premiê luso sorveu, orgulhoso, o cumprimento, mesmo ciente de que a consulta popular não fora um feito exclusivo do PS português, mas sobretudo o resultado de múltiplos movimentos de cidadãos (contra e a favor da atual lei antiaborto), que contribuíram para despartidarizar a questão e diminuir um pouco a abstenção, conforme me informou a escritora portuguesa e cronista do semanário Expresso Inês Pedrosa. Embora legalizado há 30 anos na terra de Ségolène – e desde 2001 sem a exigência de autorização parental -, o aborto ainda é uma questão de peso nos debates pré-eleitorais da França. Discute-se por lá não a revogação de uma conquista (a legalização de 1975), mas o aprimoramento de sua eficácia, mediante o aperfeiçoamento de meios capazes de prevenir a gravidez. Essa é a questão nodal do aborto. E não apenas na França, onde as mulheres passaram a livrar-se de fetos indesejados como quem extrai um dente. ‘Mulher nenhuma, por muito que tenha sido educada para o auto-sacrifício e o masoquismo, prefere fazer um aborto a preveni-lo’, escreveu Inês Pedrosa, duas semanas antes do referendo. ‘A diferença está em que, se o ´sim´ganhar, as mulheres de menores recursos deixarão de ser humilhadas nos bancos dos réus dos tribunais’ – arrematou a escritora. Ela, como seus patrícios, não foi às urnas para, simplesmente, defender o direito da mulher de tomar decisões sobre o seu corpo e a sua vida, mas, acima de tudo, para acabar com a sua vexatória e estigmatizante criminalização.
Nos EUA, o problema do aborto possui contornos e dimensões diferentes. Divisor de águas nas eleições locais e nacionais, motivo de atentados criminosos contra médicos e clínicas, o aborto predomina amplamente sobre as questões morais que mais tocam os americanos, o que não seria tão inquietante se os americanos se preocupassem mais com os rumos da guerra no Iraque, os perigos do terrorismo e os percalços da economia do que com quizilas morais e religiosas.
O aborto cumpre, hoje, um papel que já foi do abolicionismo, do sufrágio feminino e dos direitos civis, as três mais bemsucedidas cruzadas liberais de uma América que parecia ler a Bíblia com a mão esquerda e guinou para a direita depois da morte de Martin Luther King, em 1968. Desde então, os democratas passaram a representar a secularidade e os republicanos, a religiosidade. Mas as eleições presidenciais de 2008 descortinam um cenário surpreendente: à frente dos postulantes democratas, dois cristãos que rezam e vão à missa (Hillary Clinton e Barack Obama); entre os republicanos, dois pretendentes pouco dados a manifestações de fé (John McCain e Rudy Giuliani).
Na revista do New York Times que hoje chega às bancas, o conservador Gary Rosen discute essa inversão de papéis.
Rosen acha que, apesar de tudo, os carolas continuarão votando nos republicanos, por razões ideológicas ou programáticas. Ou pavlovianas, acrescento eu.
Não dá para se contar nos dedos os parlamentares americanos majoritariamente eleitos por sua posição antiaborto. A recíproca é verdadeira. Colin Powell deixou de ser vice na última chapa de Bush por ser o que os americanos chamam de ‘prochoice’, ou seja, por conceder à mulher o direito de escolher se quer ou não dar à luz um filho indesejado. John Kerry, o adversário democrata de Bush nas eleições presidenciais de 2004, perdeu um bocado de votos por não ter sabido livrar-se da pecha de ‘pro-choice’ que caluniadores republicanos lhe pespegaram.
Comparado a alguns Estados norte-americanos, Portugal é quase um modelo de avanço social e civilidade. Os legisladores republicanos de Dakota do Sul tornaram o aborto ilegal naquele Estado, até em casos de estupro e incesto, só abrindo exceção às vítimas cuja vida esteja em perigo. Em meados do ano passado, a última clínica que praticava abortos legais em Jackson (Mississippi) foi fechada por pressões de grupos que consideram a interrupção da gravidez ‘um mal comparável ao Islã, ao nazismo e ao homossexualismo’- todos eles, diga-se, eleitores de Bush, que, ‘renascido em Cristo’, mandou executar mais presidiários no Texas do que todos os governadores que o precederam, e, como presidente, iniciou uma guerra contra um país sem culpa pelos atentados de 11 de setembro, e tentou esconder as torturas cometidas por seus comandados em prisioneiros iraquianos.
E o que dizer de Paul Hill, que, em 1994, assassinou o ginecologista John Britton e seu guarda-costas numa clínica autorizada a praticar abortos em Pensacola (Flórida)? Hill diziase um ‘soldado de Deus’; mas nem assim livrou-se da injeção letal que, nove anos depois, despachou o Torquemada da obstetrícia para os quintos do inferno. Hill era apenas um demente. Piores, a meu ver, são os picaretas da fé, os templários do bigotismo, os evangelistas da hipocrisia, como James Falwell, Pat Robertson e tantos outros, volta e meia envolvidos em escândalos que até ao tinhoso chocariam.
John Allen Burt, outro fanático republicano de Pensacola (já deviam ter examinado a água da cidade), foi preso em 2003 por molestar sexualmente uma jovem de 15 anos sob sua custódia. Bob Barr, congressista republicano da Geórgia, autor de um decreto em defesa da família, cujos fundamentos estariam sendo solapados pelas ‘chamas do hedonismo, do narcisismo e da moral egocêntrica’, já pagou um aborto para a segunda mulher, não honra a pensão alimentícia dos filhos dos dois primeiros casamentos, e foi fotografado a limpar com a língua o creme batido espalhado sobre o seio de uma
stripper.
Com santarrões como esses, precisamos liberar até (ou sobretudo) o aborto retroativo.?

Estado de S. Paulo

Aquecimento global chega ao cordel

A terra está esquentando e a culpa é do homem“, do cordelista Walter Medeiros:

Muita coisa nesta vida

Já conseguiu me chocar

Me fez rir e fez chorar

E continuei na lida;

Mas agora vou narrar

O pior fato que há

Na nossa terra querida.

Não é de se apavorar

Mas é bem preocupante

Pois um problema gigante

Acabam de anunciar;

É dose prá elefante

Pois deu no alto-falante

Que a terra vai esquentar.

Não se trata de rompante

Pois quem disse foi a ONU

Nem se deve perder sono

Ou ver algo delirante;

Se a terra não tem dono,

Dióxido de carbono

É pior que meliante.

Falam também no metano

E no óxido nitroso

Um efeito horroroso

Para o habitat humano;

O calor calamitoso

Que já é muito danoso

Aumenta a cada ano.

Não é conto de trancoso

Mas é de bem e de mal

Catástrofe ambiental

É bom ficar bem cioso;

Rádio, tv e jornal

Divulgaram tudo igual

Sem ter mais vez prá dengoso.

(…)

Falam em mais um porém

Sobre as camadas polares

Que perderão seus lugares

Pois esquentarão também;

Derreterão sob olhares

Dos filhos que aqui deixares

E a quem queres muito bem.

Mais de dois mil cientistas

Assinam o relatório

Não é um dado simplório

É de encher as revistas

Apesar do falatório

De um ianque inglório

Prá quem tudo é terrorista.

(…)

Já faz quase doze anos

Que se falou em Kyoto

Não era coisa de boto

Mas sobre erros humanos

Gases, fumaça, esgoto,

Não é coisa de garoto

Mas faltam americanos.

(…)

A ciência observou

Que essa variação

Teve a participação

Do homem que relegou

Por causa de ambição

Destrói da terra o pulmão

Que Deus um dia criou.

Não é qualquer impressão

Capaz de gerar enganos

Pesquisaram em mil anos

Região por região

Então daqui a cem anos

Caso sejam mais insanos

Não sei como será não.

(…)

Acho que vou terminar

Deixo a bola com você

Para não enlouquecer

Vou parar de matutar;

Para quem conseguiu ler

Quero apenas dizer

Que só quem viver verá.

Bobagens amazônicas

É triste ver um grande intelectual perder a compostura. Não, não me refiro ao comentário evitável de Renato Janine Ribeiro, meu amigo, sobre a morte de João Hélio, mas ao artigo “A perda da Amazônia”, de Hélio Jaguaribe, na página 3 da Folha de hoje. Um monte de sandices persecutórias sobre religiosos que lutam para ampliar terras de índios para que sejam declaradas independentes do Brasil e depois internacionalizadas por gringos…

Gente, é coisa do nível do que o Estadão publicava na década de 1980, comendo na mão dos milicos que queriam expulsar o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) da Amazônia. As alegações eram exatamente as mesmas. Até o Estadão, ao que parece, deixou de acreditar nelas – só sobrou o Jornal do Brasil, que publicou uma série de manchetes, recentemente, com denúncias similares. Obviamente, caíram no vazio, ou melhor, encontraram solo fértil na cabeça de Jaguaribe.

O mestre fala sem corar das ONGs e pesquisas de estrangeiros como biombos para ações de desnacionalização da Amazônia (não sei como não apontou como veraz o mapa de livro didático que mostra a floresta como área de domínio internacional e todos sabem ser uma fraude pedestre). Ele poderia ter falado da mineradora Rio Tinto tentando reduzir a área de unidades de conservação, mas preferiu deblaterar contra a demarcação de terras para 200 mil indígenas.

Desconfio que Jaguaribe não conhece a Amazônia. Ou, então, não fez a lição de casa. Se está preocupado com a presença de pesquisadores americanos e de outras nacionalidades da Amazônia, deveria ao menos preocupar-se de conhecer ou obter informação sobre quem são e o que fazem lá. Pode começar pela própria Folha, que traz hoje uma entrevista com Dan Nepstad feita por Rafael Garcia.

Jaguaribe talvez ficasse arrepiado ao iniciar a leitura. Afinal, um colonizado dum repórter vai entrevistar logo um gringo sobre a Amazônia, e ainda por cima nos Estados Unidos! (durante a reunião da AAAS) Mas faria melhor de ler a entrevista toda, porque aí descobriria que Nepstad defende os interesses do… agronegócio brasileiro! Sim, ele está convencido de que a certificação socioambiental da soja e da carne bovina abrirá mercados para os produtos nacionais ao mesmo tempo em que dá uma chance de sobrevivência para parte da floresta, ao menos.

Obviamente, é uma posição impopular entre ONGs conservacionistas, estrangeiras ou não. Pergunte ao Greenpeace do Brasil, que pôs todas as suas fichas na demonização da sojicultura. Não que este blog alimente qualquer simpatia com sojeiros do jaez de Blairo Maggi, mas impugná-los como mensageiros do mal é imprudente, porque eles têm a força (capital). Não deixa de ser uma atitude tão míope quanto a de Jaguaribe, pois ambas dificultam a manutenção de um terreno comum em que essas partes possam se encontrar, conhecer-se e entender-se.

A Amazônia tão cedo não se livrará dos índios, nem de sojeiros, pecuaristas, madeireiros e milicos.

Blog do Marcelo Leite

Uma nova corrida armamentista entre Estados Unidos e Rússia?

O espectro de uma nova rivalidade militar entre Moscou e Washington surgiu no horizonte depois que Vladimir Putin fez um discurso altamente crítico contra os Estados Unidos durante a Conferência de Segurança de Munique no início deste mês

Siegesmund von Ilsemann, Uwe Klussmann, Georg Mascolo e Christian Neef

Os convidados ocidentais que visitaram o Kremlin, em Moscou, na primavera de 1989 – primeiros-ministros, chefes de gabinetes e jornalistas – receberam um presente incomum: um anel de aço do tamanho de um prato pequeno, trazendo agregado a si um fragmento de metal. O conjunto era montado sobre uma pesada base de latão. A inscrição na base artefato, “14 de janeiro de 1989 – SS-20 – Silo Kapustin”, identificava a data e o local da destruição do primeiro míssil SS-20 soviético de médio alcance. Uma fotografia na base do suvenir mostrava a poderosa explosão, que fez com que sobrasse pouco mais do que fragmentos do comprimento de um dedo, que agora estavam soldados ao anel comemorativo.

O presidente russo Vladimir Putin conseguiu abaixar a temperatura com as suas colocações em Munique. Embora talvez não tenha agradado a todo mundo, o suvenir era politicamente significante como um símbolo da modificação das relações entre norte-americanos e soviéticos, algo que poucos esperavam. Em 28 de agosto de 1988, norte-americanos e russos deram início a uma iniciativa para a destruição de 2.611 ogivas nucleares – os mísseis Pershing e SS-20 que mantiveram os europeus aterrorizados durante anos. O primeiro tratado de redução de armamentos conjuntamente monitorado tinha finalmente entrado em vigor.

As explosões pareceram derreter o gelo da Guerra Fria. Subitamente o supremo comandante militar em Moscou estava inspecionando as armas do arquiinimigo da Rússia, e os diplomatas trocavam informações anteriormente sigilosas a respeito das suas forças armadas. O Muro de Berlim foi derrubado apenas pouco mais de um ano depois. O presidente dos Estados Unidos, George Bush (pai de George W. Bush), chamou o acontecimento de uma “nova ordem mundial”, quando o último tsar soviético, o então presidente Mikhail Gorbachev, anunciou o fim do seu império.

Mas agora o sonho da coexistência pacífica parece ter mais uma vez se desfeito em fumaça. Durante a Conferência de Política de Segurança de Munique, na semana passada, o presidente russo Vladimir Putin advertiu os Estados Unidos sobre as novas tentativas de garantir um domínio global. Putin criticou duramente aquilo que chamou de “uso praticamente irrestrito da força militar por parte dos Estados Unidos” e o “desdém de Washington pelos princípios fundamentais da lei internacional”. Segundo ele, os Estados Unidos “ultrapassaram as suas fronteiras nacionais de todas as maneiras”.

O presidente russo foi especialmente duro na sua crítica ao estado atual do controle de armamentos, que pareceu durante décadas ser uma garantia da paz. De acordo com Putin, a Rússia honrou os seus compromissos referentes à redução de armamentos, enquanto o Ocidente bloqueou o Tratado de Forças Armadas Convencionais na Europa (CFE) e, em uma nítida violação aos acordos existentes, está posicionando os seus exércitos perto das fronteiras russas.

Putin reclamou junto aos políticos presentes de que “novas armas de alta tecnologia”, a “militarização do espaço” e o plano de Washington de estabelecer as linhas de frente do seu novo sistema de defesa anti-mísseis na Polônia e na República Tcheca ameaçam a segurança do seu país. “Quem necessita do próximo passo daquilo que seria, neste caso, uma inevitável corrida armamentista?”, perguntou ele de forma retórica.

Seria o ataque de Putin apenas uma demonstração verbal de força para agradar aos seus compatriotas na Rússia? Ou o seu discurso foi uma tentativa de obter o apoio dos países que estão expressando cada vez mais dúvidas em relação às políticas ocidentais? Ou seria isso uma expressão genuína da transparência que Putin prometeu apresentar quando chegou a Munique?

Qualquer que seja a explicação, com a superpotência norte-americana encurralada em um canto na sua guerra contra o terrorismo, discursos como o de Putin podem facilmente gerar uma dinâmica perigosa, confirmando temores antigos e revivendo uma sede de vingança. Por outro lado, o conjunto de tratados montado no passado pelas superpotências em uma série de negociações difíceis seria capaz de deter a atual corrida armamentista global?

As conversações sobre a limitação de armas nucleares estratégicas desencadearam uma grande alteração de políticas no final da década de 1960. Atualmente as duas maiores potências nucleares possuem apenas um terço das 70 mil ogivas que tinham anteriormente, e que eram capazes de destruir o mundo inteiro diversas vezes. Washington e Moscou respeitaram os seus compromissos mútuos de redução de seu arsenal de armas nucleares estratégicas para um patamar de 2.200 ogivas operacionais cada um até 2012. No entanto, o tratado continua sendo uma farsa, já que ambas as partes contam com liberdade para decidir se descartarão o excesso de ogivas nucleares – ou se simplesmente armazenarão essas armas atômicas em depósitos.

Os planos de Bush para a instalação e um novo sistema de defesa anti-mísseis na Europa Oriental deixaram a Rússia arrepiada.

O Senado dos Estados Unidos jamais ratificou o Tratado de Não Proliferação Nuclear, que foi assinado por 161 países. Embora Washington tenha aderido aos termos do tratado, os seus planejadores militares estão pedindo ao governo que preserve a opção de retomar os testes subterrâneos com o objetivo de fabricar novas armas nucleares. O Tratado de Mísseis Antibalísticos, de 1972, está obsoleto desde 2001, quando o governo Bush se retirou do acordo. E o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), assinado em 1987, atualmente parece ultrapassado em um mundo no qual todos os países, com exceção dos Estados Unidos e da Rússia, contam com a liberdade para criarem tais sistemas de mísseis. Até mesmo o equilíbrio de forças convencionais na Europa, que foi penosamente mantido até 1990, está atualmente prejudicado, já que os ex-aliados de Moscou ingressaram aos bandos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Líder inconteste
À medida que o sistema de controle de armamentos baseado em tratados se desintegra, cresce o domínio militar dos Estados Unidos. De fato, a superpotência ocidental já se posicionou como praticamente o líder inconteste no que diz respeito à tecnologia de armamentos.

Os tanques norte-americanos já são capazes de destruir vários tanques russos de distâncias das quais os russos não conseguem sequer atingir os seus adversários, e o bombardeiro Stealth, dos Estados Unidos, atualmente sem páreo em todo o mundo, é praticamente invisível para os sistemas de radar.

De forma similar, as tropas norte-americanas são capazes de observar e atacar os seus inimigos sem que sejam detectadas, devido ao uso de câmeras operadas por controle remoto instaladas em aeronaves não tripuladas. E as tripulações dos submarinos de ataque norte-americanos podem localizar qualquer outra embarcação nos oceanos do planeta por meio de sensores avançados, sem que se exponham a nenhum perigo.

Como funciona o planejado sistema norte-americano de defesa anti-mísseis.

Mas Washington obteve os seus maiores ganhos precisamente em uma área antigamente considerada totalmente desativada como resultado das iniciativas para o controle de armamentos. Os mísseis norte-americanos de longo alcance são agora tão precisos que os especialistas acreditam que um primeiro ataque por parte dos Estados Unidos poderia destruir a capacidade nuclear de Moscou. Em um recente artigo na revista “Foreign Affairs”, os especialistas norte-americanos Keir Lieber e Daryl Press descreveram o fim da estratégia da “destruição mutuamente assegurada”, que preservou o equilíbrio do poder e evitou uma guerra nuclear desde a década de 1960.

Contrastando com essa situação, a frota de submarinos russos lançadores de mísseis foi reduzida a apenas nove embarcações. Atualmente a Rússia só conta com bombardeiros estacionados em duas bases aéreas, e a ausência de um sistema de alerta antecipado deixa as aeronaves russas quase que completamente vulneráveis a um ataque de surpresa. O mesmo se aplica aos lançadores móveis de mísseis balísticos intercontinentais Topol-M, que agora dificilmente deixam os seus hangares – hangares estes que estão na mira dos norte-americanos.

O general de quatro estrelas Sergey Chemezov, presidente da Rosoboronexport, a agência russa estatal de exportação de equipamentos bélicos, traça um quadro dramático do estado lamentável em que se encontra a indústria de armamentos do país. De acordo com Chemezov, pessoa próxima ao presidente Putin, a maioria dos fabricantes de armas se encontra em “uma situação difícil”, com 75% das suas unidades de produção obsoletas. Segundo um estudo, um terço dos fabricantes de armamentos da Rússia está “praticamente falido”.

Embora o orçamento russo para a defesa tenha quase quadruplicado nos últimos seis anos, chegando ao atual patamar de US$ 31 bilhões, a Rússia utiliza os seus gastos militares “de forma muito ineficiente” quando se trata de atualizar os seus equipamentos, afirma o especialista em armamentos Rusian Puchov. Segundo um estudo feito pela Administração Principal de Inteligência (Glavnoye Razvedovatel’noye Upravlenie, ou GRU), a agência de inteligência militar russa, cerca de um terço do orçamento militar do país termina nos bolsos das autoridades de alto escalão.

Já os gastos militares dos Estados Unidos se enquadram em uma situação inteiramente diferente. Desde que assumiu o cargo, em janeiro de 2001, o presidente norte-americano George W. Bush quase dobrou o orçamento do Pentágono – para um nível planejado de US$ 620 bilhões referente ao próximo ano fiscal, um montante que inclui os custos de guerra. “Este é o mais alto investimento militar desde o auge da Guerra da Coréia”, afirma Steven Kosiak, especialista do independente Centro de Avaliações Estratégicas e Orçamentárias, em Washington. Até mesmo o novo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, afirma que o orçamento da sua agência é “estonteante”.

A Rússia planeja uma forma de recuperar o terreno perdido na nova corrida armamentista.

O ministro russo da Defesa, Sergey Ivanov, reclama de que o orçamento de defesa dos Estados Unidos é “25 vezes maior que o da Rússia”. Para reduzir pelo menos parcialmente essa lacuna, ele apresentou um ambicioso programa de modernização à casa inferior do parlamento russo na semana passada. Segundo o plano, a Rússia construiria 50 novos bombardeiros estratégicos, oito submarinos nucleares, dezenas de novos silos de mísseis, mais de 50 mísseis móveis Topol-M e quatro satélites militares até 2015.

Os mísseis baseados em terra Topol-M e os Bulava, instalados em submarinos, são atualmente os mais modernos do arsenal russo. No entanto, vários testes realizados com o Bulava, supostamente a arma miraculosa do país, fracassaram no ano passado. E somente 50 dos 200 mísseis Topol que a Rússia pretendia fabricar estão atualmente em estágio operacional.

Parece altamente improvável que Moscou seja algum dia capaz de alcançar tecnologicamente os Estados Unidos. Em vez disso, o objetivo da planejada iniciativa de modernização é melhorar a imagem do Estado russo e das suas decrépitas forças armadas, não só no âmbito doméstico, mas também junto aos seus aliados no Oriente Médio e no Terceiro Mundo. A mensagem que Putin e os seus estrategistas militares desejam claramente transmitir é que o rival dos Estados Unidos retornou ao cenário.

Isso explica a resposta entusiástica ao discurso feito por Putin em Munique por parte dos políticos russos leais ao Kremlin. Leonid Ivashov, o vice-presidente da Academia Russa de Questões Geopolíticas, classifica a fala de Putin no Hotel Bayerischer Hof, em Munique, como “um ponto de inflexão sob o ponto de vista internacional, comparável ao discurso Fulton, de Churchill, em 1946, que deu início à Guerra Fria”. A diferença, de acordo com Ivashov, é que o objetivo de Putin é o oposto ao de Churchill, ou seja, o presidente russo deseja condenar a abordagem unilateral na política mundial.

Vladimir Ryzhkov, um integrante da oposição no parlamento russo, a Duma, discorda. Ele acredita que Moscou simplesmente não conta com os recursos financeiros para desafiar efetivamente os norte-americanos. “O produto interno bruto da Rússia representa apenas um treze avos do PIB dos Estados Unidos”, diz Ryzhkov, que interpreta o discurso de Putin como uma tentativa de conquistar os eleitores russos antes das eleições parlamentares de dezembro.

Independente dos motivos políticos, duas preocupações de ordem militar têm um destaque especial na agenda de Moscou: a crescente proliferação de mísseis de alcance intermediário em todo o mundo e o novo sistema de defesa anti-mísseis dos Estados Unidos. Embora tanto russos quanto norte-americanos, segundo os termos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), de 1987, estejam impedidos de fabricar mísseis de médio alcance, a Coréia do Norte, a China, a Índia, o Paquistão, o Irã e Israel produzem atualmente esse tipo de armamento. Os mísseis de alcance intermediário desses países podem não ser capazes de atingir a Europa Central ou Ocidental, e certamente não os Estados Unidos – “mas eles podem nos atingir”, afirma Ivanov.

A fim de neutralizar essa ameaça, os russos ressuscitaram uma velha proposta em Munique: se juntarem aos norte-americanos na construção de um sistema de defesa anti-mísseis. Qual é o objetivo, questionaram eles, de Washington instalar agora unilateralmente um sistema desses na Europa Oriental?
Os norte-americanos pretendem expandir o seus sistema global anti-mísseis com o acréscimo de dez interceptadores baseados em terra na Polônia, bem como um sistema de alerta antecipado na República Tcheca. Bush garantiu a Putin que o propósito do escudo anti-mísseis é a defesa contra “estados irresponsáveis” e a “crescente ameaça do Oriente Médio” – frisando que o projeto não é dirigido contra os russos.

Mas os russos, convencidos de que os mísseis instalados na Polônia seriam capazes de abater os seus mísseis no caso de um conflito, estão se opondo vigorosamente à estratégia “circundante” dos Estados Unidos. “Não podemos aceitar as declarações da Polônia e da República Tcheca no que diz respeito à essa questão”, declarou o ministro russo da Defesa, Ivanov, em uma entrevista a “Der Spiegel” em Munique. O ministro tcheco das Relações Exteriores, Karl Schwarzenberg, rejeita vigorosamente as objeções da Rússia.

As ações de Washington demonstram que os Estados Unidos estão “perdendo parcialmente o contato com a realidade”, acusou o jornal alemão “Suddeutsche Zeitung”: “Ninguém no Ocidente teve imaginação suficiente para perceber que Putin poderia interpretar de fato o escudo de mísseis na sua fronteira como sendo uma provocação”.

Em Washington, por outro lado, o discurso de Putin em Munique deverá fortalecer os argumentos daqueles que há muito tempo alertam para uma nova ameaça vinda da Rússia. Segundo fontes, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, nunca confiou em Putin, um ex-agente do KGB (Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti, ou Comitê de Segurança do Estado, a ex-agência de inteligência soviética), e o influente senador John McCain vem solicitando há anos a adoção de uma postura mais dura em relação à Rússia. De fato, quando o presidente russo lançou os seus ataques verbais na conferência de Munique, McCain, que estava sentado a apenas alguns metros de Putin, ficou visivelmente furioso.

Sob a ótica da Casa Branca, a lista de pecados dos auto-confiantes russos está, de forma gradual, se tornando intoleravelmente longa, não devido aos temores quanto a uma ameaça russa direta, mas porque Moscou está buscando aliados em meio aos inimigos dos Estados Unidos. O fato de a Rússia ter fornecido ao Irã avançados sistemas de defesa baseados em mísseis terra-ar foi tido como uma transgressão especialmente grave.

E os indivíduos de linha dura em Washington se convenceram nesta semana de que os seus argumentos são justificados, quando Putin se ofereceu para ajudar a família real saudita a desenvolver um programa nuclear – prova, segundo eles, de que um novo conflito entre os dois arquiinimigos é inevitável.

Der Spiegel

Leonardo da Vinci na Oca do Ibirapuera

CIE BRASIL TRAZ AO PAÍS MAIOR E MAIS COMPLETA EXPOSIÇÃO JÁ REALIZADA NO MUNDO SOBRE LEONARDO DA VINCI, A PARTIR DE 28/02

Mostra reúne mais de 150 peças que contemplam a grande parte das áreas de estudo e trabalho do artista italiano, na Oca, em São Paulo

A mostra chega ao país num formato inédito. É a mais abrangente já concebida para itinerar pelo mundo em relação às exposições anteriores sobre Da Vinci, que normalmente focam um segmento particular de sua trajetória. Reúne mais de 150 peças inspiradas no legado davinciano e contempla sua diversidade como pintor, filósofo, cientista, arquiteto, engenheiro, anatomista e inventor. Por isso, é considerado um dos maiores gênios que o mundo já conheceu e certamente, um nome referência da Renascença Italiana.

A origem da mostra – Desde a metade da década de 50, famílias de artesãos italianos têm estudado os códigos e desenvolvido os modelos idealizados por Da Vinci. As primeiras peças foram encaminhadas para Vinci, cidade de origem do artista, e ao Museu de Milão – onde ainda se encontram em exposição. Nos anos 90, um pequeno acervo destas máquinas foi preparado para itinerar por cidades européias como Florença, Veneza, Berlim, Viena, Varsóvia e Atenas. Apesar do formato reduzido, as exposições obtiveram um retorno bem-sucedido, variando entre 50 mil e 100 mil visitas por mês.

Até 2005, porém, nenhum país de língua inglesa ou asiático havia sediado uma destas exposições – e ainda não havia um planejamento para compilar estes acervos num conjunto mais completo a respeito do trabalho de Leonardo da Vinci, sob o mesmo teto. Em maio de 2006, a Anthropos Foundation e a RYP Australia estabeleceram uma parceria para realizar este conceito, que originou a mostra atual.

Antes de chegar ao Brasil, partes deste acervo obtiveram expressivos números de visitação em Roma, na sede da Anthropos Foundation (mais de 600 mil visitantes no último verão europeu) e Moscou (500 mil visitantes durante os três meses em cartaz).

Autenticidade – A mostra contempla a essência criativa de Leonardo da Vinci (1452-1519), em todas as facetas de seu legado. Dada a restrita quantidade de originais existentes e a rígida legislação que restringe a circulação destes, a proposta é buscar a autenticidade plena na reconstrução este universo, numa abordagem extremamente detalhada. Para tanto, todos os trabalhos foram concebidos em solo italiano, por um grupo de artesãos e especialistas europeus coordenados por Modesto Veccia, presidente da Anthropos Foundation e referência mundial na pesquisa sobre Da Vinci e Bruce Peterson, co-fundador e diretor-executivo da RYP Australia Major Projects.

Na montagem das máquinas, por exemplo, em todas as ocasiões possíveis, foram utilizado materiais e técnicas do século XV, buscando um resultado semelhante ao que Da Vinci teria obtido à época. Vale ressaltar que metade delas sequer chegou a sair do papel – são conhecidos apenas os projetos e rascunhos originais, além de maquetes produzidas por outros pesquisadores.

Obras de arte foram reproduzidas em tamanho original, assinadas pelos mais reconhecidos artistas da região de Florença, enquanto os códigos, estudos de Anatomia e os desenhos da Batalha de Anghiari ganham réplicas ampliadas para uma melhor visualização. Fundamentais na trajetória de Da Vinci, o “Homem Vitruviano”, o princípio da Proporção Divina e a criação da “Última Ceia” são recriados em 3D, com recursos tecnológicos de última geração para proporcionar ao público uma experiência totalmente interativa.

A exposição – “Leonardo da Vinci – A Exibição de um gênio” está dividida em treze segmentos: “Estudos Anatômicos”, “Arte da Guerra”, “Máquinas Civis”, “Códices”, “O pai da aviação”, “Máquinas Hidráulicas e Aquáticas”, “Instrumentos Musicais e Ópticos”, “Estudos sobre Física e Mecânica”, “A arte da Renascença”, “O Homem Vitruviano”, “Desenhos da batalha de Anghiari”, “Documentário” e “Vídeos em 2D e 3D sobre o Homem Vitruviano e a Última Ceia”

Com 75 máquinas e reproduções em grande escala, os segmentos “Estudo sobre a Física e Mecânica”, “Máquinas Civis”, “A Arte da Guerra”, “Máquinas Hidráulicas e Aquáticas”, “Pai da Aviação” e “Instrumentos musicais e Ópticos” demonstram a habilidade com que Da Vinci relacionava os conceitos da mecânica ao funcionamento do corpo humano, como um conjunto verdadeiramente harmonizado.

Volantes, sistemas de rolamentos de esferas e molas espirais dividem o espaço com maquetes e modelos em escala original para itens como a bicicleta, o elevador, escavadeira, perfurador, carro de auto-tração e pontes móveis. No segmento bélico, apresentam-se artefatos como catapulta, canhões e tanques, enquanto os projetos aquáticos mostram sua inventividade visionária, trazendo escafandros, equipamentos para respiração e até mesmo um submarino.

Entre as contribuições fundamentais para a conquista do espaço aéreo, que incluem o pára-quedas, o deltaplano, o estudo da asa e o anemômetro, está também a própria “máquina-voadora” – um helicóptero de 4m x 4,5m. Por outro lado, sua relação com a música – Da Vinci era conhecido por sua habilidade em tocar a lira e também por dirigir festivais e espetáculos em Milão – originou projetos e preciosidades como o piano portátil, o tambor e a flauta mecânicos.

Detalhados e precisos desenhos de Da Vinci formam o conteúdo de “Estudos Anatômicos” (40), disciplina que desenvolveu ao dissecar mais de trinta corpos – não só para captar a beleza das proporções, como também o fluxo de energia que emanava da figura em movimento.

“A Arte da Renascença” exibe reproduções de dez de suas mais famosas pinturas, como a “Mona Lisa” – a obra de arte mais visitada em todo o mundo – e “A Última Ceia”. “Desenhos da Batalha de Anghiari” traz 14 ilustrações retratando homens que atuaram na vitoriosa ofensiva de Florença em 1440. “Códices” reúne cinco conjuntos de manuscritos e desenhos que registram diversas épocas da vida de Leonardo da Vinci e seus projetos, com notas, teorias e assuntos superpostos livremente entre as páginas: “Forster”, “Madrid” (estes recentemente descobertos na Biblioteca Nacional daquela cidade, no ano de 1966), “Hammer” (atualmente de propriedade do empresário Bill Gates), “Windsor”, “Arundel”, “Atlanticus” e “Trivulziano”.

Em formato 3D, apresentações em telas de plasma sobre o estudo da proporcão divina, em “O Homem Vitruviano” e, em 2D, o estudo em movimento para a criação da “Última Ceia” formam outro setor da exposição, que se completa com dois murais – uma linha do tempo chamada “A Vida e Realizações de Da Vinci” e outro com suas mais importantes citações – e um “Documentário” sobre sua trajetória.

Leonardo da Vinci (15/04/ 1452 – 02/05/1519) – um dos maiores inventores, artistas, cientistas e pensadores de todos os tempos. É considerado o maior gênio da história, devida a sua multiplicidade de talentos para ciências e artes, engenhosidade e criatividade, além de amplamente proclamado como um dos mais importantes pintores e escultores da Renascença. Seu QI foi estimado em cerca de 180, mas outras fontes chegaram a mencionar 220 – enquanto a média universal baseia-se em 120.

Nascido no pequeno vilarejo de Anchiano, próximo ao município toscano de Vinci, na Itália, Leonardo era filho ilegítimo do tabelião Piero e de Caterina, provavelmente uma camponesa ou, numa hipótese menos provável, uma escrava judia oriunda do Oriente Médio, comprada por Piero. Presume-se que ele não usou o nome do pai por causa do estado ilegítimo – e sim, o Vinci, com referência a sua terra natal.

Viveu em plena Renascença Italiana, nos séculos XV e XVI, sob influência de duas grandes personalidades da época – o estadista Lourenço de Médici e o artista Andrea del Verrocchio. Em 1472, com vinte anos, já era membro do grêmio dos pintores florentinos.

Como pintor, é o autor da obra de arte mais visitada no mundo, a “Mona Lisa” – exposta no Museu do Louvre, em Paris – e de “A Última Ceia”, exposta no Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão. Escultor ambicioso, também era conhecido como engenheiro e cientista, embora sua obra nestes campos tenha permanecida oculta por muitos séculos.

Hoje, sabe-se que é o “pai” do vôo humano, inventor do automóvel, do rolamento de esferas e dos sistemas diferenciais. Foi estrategista militar dos exércitos milanês e florentino, criando o tanque, a bala, e muitas pontes, com uma surpreendente inventividade de engenharia; elaborou a “cidade ideal”, de ambiente equilibrado para livrar o mundo da peste; esboçou os mecanismos para construir um robô e um dos pioneiros da cartografia, anatomia e geologia.

Leonardo era fascinado pelo estudo da Natureza e a partir dos princípios naturais, obteve a base para suas criações. Dedicou-se também ao aprofundamento sobre a luz e a sombra, teorizou sobre efeitos criados por múltiplas fontes de luz sobre fisionomias e objetos. Foi, acima de tudo, um observador incansável. Ocupou sua mente na solução de uma vasta gama de problemas, criando planos e esquemas de invenções que, todavia acabaram levando séculos para serem produzidas.

Morreu em Cloux, França, e de acordo com o seu desejo, sessenta mendigos seguiram seu caixão. Leonardo da Vinci foi enterrado na Capela de São Hubert no Castelo de Amboise.

50 mil visitas

Quando pensei em colocar o Blog no ar confesso que visitei alguns sites que orientavam os blogueiros sobre erros que deveriam ser evitados e acertos que deveriam ser copiados. Algumas das orientações eu incorporei, outras não. Dentre elas uma me chamou a atenção: se o Blog alcançasse uma média de 350 a 400 visitas por mês, se dê por contente, pois há bilhões deles espalhados pelo mundo. Um dos autores inclusive, falava na decadência desta forma de comunicação em decorrência do seu próprio sucesso. Fiquei ressabiado, mas decidi entrar na onda.

Nesta quarta-feira de cinzas o Blog Controvérsia alcançou a incrível marca de 50 mil visitas em um pouco mais de 7 meses de vida.

Agradeço mais uma vez pela navegação.

Grande abraço.

Ricardo Alvarez

Um ‘país’ chamado interior paulista

Com PIB superior ao do Chile, área continua a atrair empresas

Marcelo Rehder e Agnaldo Brito

Estadão on line

Com uma força econômica superior à de países como o Chile, o interior paulista tem atraído cada vez mais empresas da capital e de outros Estados que buscam custos menores, espaço para crescer e um sistema logístico que favoreça o escoamento da produção, sem os congestionamentos crônicos da cidade de São Paulo. Fortalecido com essa migração de empresas, o interior viu sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) paulista crescer 3,7 pontos porcentuais no curto período de quatro anos. Hoje, a região já responde por praticamente metade da soma de todas as riquezas produzidas no Estado.

O interior paulista (descontando os 39 municípios da Região Metropolitana de São Paulo) é um ‘país’ com um PIB de US$ 135,9 bilhões no ano passado, segundo projeção feita pela consultoria MB Associados. O valor é 12% maior que o PIB chileno, de US$ 121 bilhões em 2006.

No território brasileiro, o interior paulista não tem rivais em poder econômico, com exceção da Região Metropolitana de São Paulo. Sua participação no PIB do País é de 15,3%, praticamente metade da contribuição do Estado, de 30,9%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes a 2004.

‘Se somarmos o PIB das Regiões Norte e Centro-Oeste do País, mesmo assim não dá o do interior de São Paulo’, compara Miguel Matteo, chefe do Departamento de Estudos Econômicos da Fundação Sistema de Análises de Dados (Seade), órgão do governo do Estado.

Esses fatores tornam a região um pólo de investimentos que tem atraído muitas empresas , principalmente para o espaço produtivo formado por municípios das regiões de Campinas, São José dos Campos, Sorocaba e Santos, que se concentram num raio de 150 quilômetros, com foco na região metropolitana.

‘O aumento das exportações do Estado, nos últimos anos, beneficiou essencialmente a região metropolitana e seu entorno, onde se concentram cerca de 90% do valor adicionado pela indústria paulista’, observa o economista Sergio Vale, da MB Associados.

NA FAVELA

A Omamori Indústria de Alimentos, empresa que produz embutidos da marca Ceratti, decidiu deixar a cidade de São Paulo em outubro de 2004. Segundo Mario Benedetti, proprietário da indústria, foi a única maneira de tirar a empresa da estagnação.

A fábrica da Ceratti ficava dentro da maior ocupação urbana do País, a favela de Heliópolis, na região do Sacomã, em São Paulo. ‘Há 30 anos não havia nada por ali. A ocupação avançou, surgiram os barracos, as casas de alvenaria. Quando vimos, estávamos no meio da favela, sem a menor condição de operação’, conta Benedetti.

A transferência da fábrica para Vinhedo, município da Região Metropolitana de Campinas, foi um salto. Além de ter elevado a capacidade de produção para 1 mil toneladas por mês, a unidade ganhou um SIF Exportação – que a habilita a exportar para mercados exigentes. ‘Era algo impensável em São Paulo.’ As perspectivas de exportação para a França e a China são concretas e podem ser acertadas em breve.

A 40 quilômetros de Vinhedo, entrando mais para o interior, a panificadora industrial Wickbold se apressa para terminar a montagem da nova fábrica, em Hortolândia, cidade também da Região Metropolitana de Campinas. Até abril, duas novas linhas de produção de pães começarão a funcionar. O plano, até 2010, é alcançar até seis linhas de produção de pães.

O interior paulista foi a alternativa da Wickbold para a falta de capacidade das duas fábricas na região metropolitana de São Paulo, uma em Diadema e outra na Vila Santa Catarina. A empresa tem uma terceira unidade em Jacarepaguá, no Rio. Em nenhuma destas havia espaço para crescimento.

‘A empresa precisava crescer a produção numa região próxima de São Paulo, a no máximo 150 quilômetros da capital. Hortolândia foi um achado’, diz Eric Wickbold, gestor de novos projetos da empresa. A construção da fábrica vai consumir R$ 50 milhões.

Ao lado da Wickbold, a Dell Computer, líder do mercado de servidores no Brasil, com 44,4%, escolheu o mesmo distrito industrial de Hortolândia para por em marcha um plano de expansão da produção de computadores no País. O interior de São Paulo vai dar à empresa duas condições para reforçar a capacidade de disputar uma fatia do mercado nacional: ficará mais perto dos principais fornecedores de partes e peças e estará ao lado do maior mercado de computadores, o Sudeste do País.

A Dell vai manter a unidade de produção e o centro de desenvolvimento de software em Eldorado do Sul (RS), mas terá nova condição para competir no mercado interno. Segundo Laury Johnson, diretor de Distribuição e Operações da Dell, a unidade de Hortolândia, que começa a produzir neste semestre, deve dar à empresa custos mais baixos por máquina. Os 10 principais fornecedores, que respondem por 80% das compras, estão no interior de São Paulo.

BALANÇO

US$ 135,9 bilhões
foi o Produto Interno Bruto (PIB) do interior de São Paulo no ano passado, conforme levantamento da MB Associados

12%
é quanto o PIB do interior paulista superou o do Chile
no ano passado

15,3%
foi a participação do interior paulista no PIB Brasileiro
no ano de 2004

4 anos
foi o tempo que o interior de São Paulo precisou para elevar em 3,7 pontos porcentuais a sua participação no PIB paulista

30,9%
foi a participação do Estado de São Paulo no PIB Brasileiro
em 2004, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE)

CHINA FRACASSA EM TENTATIVA DE CUMPRIR META DE POLUIÇÃO

A China informa que vai aumentar seus esforços para frear emissões de
poluentes, suspendendo temporariamente a aprovação de alguns projetos de
investimento, após não conseguir cumprir uma meta de controle de emissões
fixada para 2006. A Administração Estatal de Proteção Ambiental disse em seu
site ( www.sepa.gov.cn) que o país havia falhado em
cumprir o objetivo de reduzir emissões em 2% em 2006, sem fornecer mais
dados. A China estabeleceu uma meta de reduzir emissões de poluentes em 10%
entre 2006 e 2010. Para conseguir seu objetivo, o governo teria que barrar
aprovações de projetos de investimento em atividades altamente poluentes nas
províncias que falharam em frear suas emissões, em linha com as metas
estabelecidas para elas por Pequim, disse o órgão. A agência também disse
que, até o fim do ano, a China iria fechar fábricas de papel com capacidade
inferior a 34 mil toneladas por ano, e aumentar os preços de eletricidade e
água para indústrias altamente poluentes e consumidoras intensivas de
energia. A China, ano passado, também não alcançou sua meta de corte de 4%
na quantidade de energia que usa para gerar cada dólar de renda nacional.

Estadão

Violência das drogas aumenta o medo no México

Jo Tuckman
na Cidade do México

Ataques mortais contra dois postos policiais por criminosos usando uniformes militares aumentaram a pressão sobre o novo presidente do México, Felipe Calderón, para demonstrar que sua muito falada repressão ao crime organizado liderada pelas forças armadas será capaz de lidar com os poderosos cartéis do narcotráfico do país.

Os ataques na ‘cidade resort’ de Acapulco, na terça-feira (6/2), mataram cinco investigadores da polícia e duas secretárias, também provocaram o temor de que a violência ligada às drogas afugentará os turistas, cuja contribuição é importante para a economia mexicana.

Desde que assumiu a presidência em 1º de dezembro, Calderón enviou cerca de 25 mil soldados para pontos estratégicos no México, incluindo Acapulco, prometendo “recuperar a autoridade nos territórios disputados pelo crime”. Os cartéis nestas áreas mataram mais de 2 mil pessoas no ano passado em sua disputa pelo controle das rotas de tráfico de cocaína, pela produção doméstica de maconha, heroína e drogas sintéticas, assim como pelo mercado consumidor local.

Calderón convocou uma reunião de emergência com seu gabinete de segurança imediatamente após os eventos em Acapulco, que tanto desafiaram quanto zombaram de seus esforços para mostrar às gangues que não estão no controle. Uma breve declaração insistiu que “o governo não recuará ou desistirá diante dos ataques do crime organizado”, e descreveu os ataques como uma reação à repressão que está começando a parecer uma questão definidora do governo do novo presidente.

“Calderón tinha que fazer algo”, disse Bruce Bagley, um especialista em narcotráfico na América Latina e professor da Universidade de Miami. “A percepção da população é que saiu de controle.”

A primeira etapa da operação teve início em 12 de dezembro, no Estado central de Michoacán, cenário de parte da violência recente mais chocante, incluindo cinco cabeças decepadas que rolaram em uma pista de dança.

Em seguida veio a cidade desordeira de Tijuana, próxima da fronteira americana e de San Diego, e depois dela o Estado de Guerrero, no sul, onde fica Acapulco. Então a atenção do governo se voltou para o chamado Triângulo Dourado, onde os Estados do norte de Durango, Chihuahua e Sinaloa se encontram e onde, acredita-se, Joaquín “El Chapo” Guzmán, o líder de um dos dois cartéis das drogas, esteja escondido.

No mês passado, as autoridades levaram jornalistas até a lendária baía de Acapulco, ignorando as praias e navios de cruzeiro, mas sim para circularem e verem de perto os bloqueios de estrada.

A indústria local do turismo se preocupava com a reputação de Acapulco de centro do narcotráfico antes mesmo dos eventos da semana passada, entre eles um incidente no qual dois turistas canadenses ficaram levemente feridos por disparos no saguão de um hotel.

Falando na quarta-feira sobre os ataques de terça contra a polícia, o prefeito Felix Salgado disse aos líderes empresariais: “Eu espero que isto não afete a imagem do turismo”. Soou mais como um desejo para uma autoridade que já recebeu dezenas de ameaças de morte das gangues que disputam o controle da cidade. Ele é protegido por uma dúzia de guarda-costas.

Enquanto isso, as forças federais estavam ocupadas seguindo a trilha dos comandos. Uma batida contra um esconderijo e a recuperação de carros supostamente usados pelos assassinos resultaram na apreensão de um pequeno arsenal de rifles de assalto, pistolas e granadas, assim como uniformes militares e da polícia federal.

A ofensiva de Calderón contra os cartéis é menos significativa por seu tamanho e sim por ter reduzido a participação da polícia totalmente civil apenas a “simbólica”, segundo Bagley, o analista de Miami. A grande maioria dos agentes envolvidos é composta de soldados ou veio da polícia federal treinada pelo Exército. A estratégia está sendo elaborada pelo Ministério da Defesa.

Analistas concordam que Calderón foi levado aos braços dos generais por causa da reputação relativamente limpa das forças armadas e melhor treinamento. A corrupção e a falta de profissionalismo há muito tomaram as polícias locais e estaduais, o que as tornam mais propensas a ajudarem em uma fuga de prisão ou a protegerem a festa de casamento de um chefão do que levar um traficante à Justiça.

Como parte da ação do governo, os soldados estão investigando as forças policiais locais à procura de ligações com os cartéis. Em Tijuana, o exército mal tinha chegado à cidade quando confiscou todas as armas dos policiais locais.

Nos ataques em Acapulco na terça-feira, os comandos primeiro desarmaram suas vítimas alegando que estavam executando uma inspeção de armas. Então abriram fogo – e gravaram em vídeo os massacres. Os investigadores federais que trabalham no caso revelaram posteriormente que dois dos investigadores da polícia mortos eram suspeitos de corrupção.

Bagley disse que apesar de reconhecer que Calderón tinha pouca escolha na elaboração de sua ofensiva, o Exército “também é corruptível”. Alguns analistas vão mais longe e alertam sobre um desastre sem precedentes, caso soldados mal pagos, descontentes ou simplesmente gananciosos decidam passar para o lado dos traficantes.

Um importante especialista em drogas do México, Luís Astorga, aponta para o precedente criado pelos Zetas – um grupo de matadores formado por desertores militares no final dos anos 90 e que são protagonistas na atual violência. “Nós poderemos ter o fenômeno Zetas multiplicado”, disse Astorga, da Universidade Autônoma Nacional do México. “Isso levaria a guerra a outro nível.”

Em um reconhecimento de que os traficantes não são necessariamente neutralizados mesmo quando são capturados e mantidos em prisões federais de segurança máxima, o governo Calderón começou a extraditar os chefões do crime para serem julgados nos Estados Unidos.

Osiel Cárdenas, o principal rival de Chapo Guzmán, estava entre os primeiros enviados para o outro lado da fronteira em 19 de janeiro. Ele supostamente comandava seus negócios e sua guerra territorial de sua cela de prisão no México.

Até o momento, a repressão desfruta de um raro grau de consenso político. As extradições provocaram preocupação por parte de alguns especialistas sobre sua legalidade, mas o debate se concentrou em discutir se levarão a uma resposta comparável à guerra travada contra o Estado colombiano pelos “extraditáveis” no início dos anos 90, sob o slogan “melhor uma tumba na Colômbia do que uma cela nos Estados Unidos”.

Calderón é cada vez mais comparado ao presidente linha-dura colombiano Álvaro Uribe. De forma válida ou não, o governo americano não tem economizado elogios à forma como as coisas estão prosseguindo, e o presidente Bush disse isso ao seu par mexicano em um telefonema pessoal no mês passado.

Ainda assim, disse Astorga, todos os três líderes deveriam prestar atenção no mais recente relatório do Centro Nacional de Inteligência sobre Drogas dos Estados Unidos, que sugere que todos os recursos empregados no combate ao tráfico de cocaína fracassaram em reduzir a demanda nos Estados Unidos ou diminuir a produção na Colômbia.

Tradução: George El Khouri Andolfato

The Boston Globe

Arrozeiros ainda resistem na Raposa Serra do Sol

Após dois anos da homologação da terra indígena que abriga 17 mil índios, grandes produtores de arroz ainda investem normalmente em suas produções e insistem em manter plantios ilegais. Desintrusão deve ocorrer até final de abril.

Natalia Suzuki – Carta Maior

SÃO PAULO – Em 2005, a Terra Indígena Raposa Serra do Sol foi homologada pelo presidente Lula após um processo que levou mais de vinte anos para ser concluído. Pouco mais de 1,7 milhão de hectares de terras foram reconhecidos como pertencentes a 100 comunidades indígenas da região. Dois anos depois do reconhecimento da terra, os índios ainda travam uma batalha contra grandes produtores de arroz continuam ativos dentro da área demarcada.

De acordo com o Conselho Indígena de Roraima (CIR), atualmente, cerca de 17 mil índios vivem na Raposa Serra do Sol, o que representa quase metade de toda a população de 34,5 mil índios de Roraima. A área de arroz plantado ilegalmente pode chegar a 100 mil hectares, segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai).

Os fazendeiros que ainda estão na Raposa Serra do Sol têm 30 dias para contestar o valor das indenizações a serem pagas pelas suas benfeitorias e outros 30 para se retirarem do local. Ao final desses 60 dias, se houver permanência dessas pessoas na área, a Polícia Federal será acionada.

“Para o Governo Federal, não há possibilidade de os fazendeiros permanecerem ali. Eles vão ter que desocupar”, afirma o procurador-geral da Funai, Luiz Fernando Villares. A expectativa, segundo ele, é que entre abril e maio toda a desintrusão seja feita.

Mas, mesmo sob pressão dos indígenas e das instituições do governo, a produção de arroz parece continuar intocada. “Estamos plantando, colhendo, investindo e produzindo”, afirma Paulo César Quartiero, presidente da Associação dos Arrozeiros de Roraima. Ele diz que planta arroz há mais de 30 anos na região e se queixa da pressão para deixar os cultivos ilegais e as terras indígenas: “Nós sofremos impactos negativos indiretamente, porque, ao invés de plantarmos, estamos correndo atrás de apoio político e jurídico”, explica. De acordo com ele, já existem ações na Justiça por parte dos rizicultores para lhes assegurar as terras do plantio.

Nesta última sexta-feira, Quartiero (PDT), que também é prefeito do município de Pacaraima, foi cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral sob acusação de abuso de poder econômico e por compra de votos. De acordo com o CIR, a primeira acusação se refere ao fato de o fazendeiro ter feito uma de suas lavouras de arroz dentro de uma maloca indígena. O novo prefeito, que ficou em segundo lugar nas eleições de 2004, já assumiu o cargo. Quartiero vai entrar com recurso na Justiça.

O fazendeiro destaca que o arroz é o principal produto do Estado. Na sua opinião, não há alternativas econômicas para Roraima que não sejam a agricultura. “Nós geramos impostos, recursos e tecnologia. Fornecemos à população o arroz mais barato, barateando o custo de vida. Como o Estado vai atender a demanda social, se não tiver receita e produção?”, questiona.

Os índios, por outro lado, reafirmam a sua autonomia e independência. Segundo Dionito José de Souza, indígena Macuxi e coordenador geral do CIR, nos últimos tempos os índios têm evitado conflitos violentos e problemas com os produtores de arroz, mas não abrem mão de toda a área demarcada da Raposa Serra do Sol e da autonomia conquistada, que lhes foram garantidas por lei. “Nós pedimos a retirada dos produtores de arroz. Eles estão trabalhando dia e noite; o cultivo é direto, ninguém interrompe o trabalho. São grandes arrozeiros e eles tiram muitas toneladas de arroz dos plantios”, protesta Souza.

Em nota da 36a Assembléia dos Povos Indígenas de Roraima, os índios reivindicam “uma equipe de peritos agrônomos para fazer o levantamento dos danos ambientais provocados pelas plantações de arroz para posterior indenização e recuperação das áreas degradadas”.

“Temos planos de desenvolvimento sustentável e projetos de agropecuária e piscicultura”, explica Souza. Atualmente, as comunidades indígenas desenvolvem agricultura e pecuária bovina de subsistência. A idéia é que parte da agricultura de mandioca e milho, os principais produtos dos indígenas da região, se torne mecanizada no futuro.

O coordenador do CIR afirma que as comunidades da Raposa Serra do Sol têm acesso à educação e à saúde. Segundo ele, há 84 laboratórios médicos espalhados para atender as populações indígenas e quase 100% dos índios são vacinados. Existem programas de prevenção contra a malária, que contribuíram para diminuir as ocorrências da doença nos últimos anos.

Já o presidente da Associação dos Arrozeiros afirma que saídas dos fazendeiros, ao contrário, trará prejuízo aos índios. “A demarcação da Raposa Serra do Sol vai isolar os índios. Eles são os que serão prejudicados nesse processo. Você acha que, em pleno século XXI, tem como eles sobreviverem sozinhos? As ONGs dizem que os índios têm que viver de acordo com a cultura deles, mas a cultura dos índios é da idade da pedra. Não dá para viver assim no mundo globalizado”, avalia. Quartiero aponta que, por esses motivos, os indígenas serão os principais prejudicados com a demarcação e diz que os pequenos produtores também sofrerão com o processo, pois terão que se deslocar para periferias das zonas urbanas.

“Só pelo fato de os índios terem essas terras reconhecidas já é uma garantia deles para explorar a terra e exigir a infra-estrutura necessária. Há uma rede de proteção ao índio que já está estabelecida no Brasil inteiro”, afirma o procurador-geral da Funai.

Quanto aos pequenos agricultores que foram retirados da área indígena, o procurador geral explica que as condições de muitos melhoraram por terem recebido glebas maiores de terra depois da desintrusão. Ele afirma que a legalização fundiária dessas pessoas permite financiamentos e créditos para a produção, o não seria concedido se estivessem ilegalmente na Raposa Serra do Sol. Atualmente, 178 proprietários foram indenizados. Outros 95 estão com o processo de análise de propriedades em andamento e mais 63 estão na justiça para rever o valor indenizatório. Esses últimos 158 proprietários são os que ainda continuam na terra indígena.

“As únicas pessoas que vão piorar de vida são os grandes produtores, pois estão plantando e degradando o meio ambiente de uma terra que não é deles. O problema e a resistência maior são os grandes produtores, porque são a elite local”, explica Villares.

No entanto, os índios ainda lutam pelo cumprimento de outras medidas. Três das quatro escolas que atendem as oito mil crianças indígenas ainda precisam passar para a gestão das comunidades. Atualmente, apenas uma escola está em processo de repasse à administração indígena. Apesar de receberem assistência médica, Souza afirma que os repasses dos recursos enfrentam a burocracia da Funasa e, muitas vezes, isso acarreta atrasos no pagamento dos servidores.

Ocupação de má fé
Segundo Villares, a ocupação dos arrozeiros é recente e ocorreu há menos de dez anos, após a declaração da Raposa Serra do Sol como terra indígena em dezembro de 1998. Por esse motivo, explica o procurador-geral, as terras não têm valor indenizatório, já que a ocupação é considerada invasão.

Devido a essa ilegalidade, as maiores perdas de fato serão dos grandes rizicultores. Villares afirma que os plantadores de arroz, além de não terem direito à indenização sobre a terra, também não serão ressarcidos pelos plantios de arroz, pois os mesmos foram feitos após a homologação da terra. “São plantios de má-fé, pois os fazendeiros já sabiam que eram terras indígenas e não podiam cultivar ali”, explica.

Um outro problema, segundo Villares, é que os cultivos são irregulares também do ponto de vista ambiental por não apresentarem licenciamento. As indenizações contemplariam apenas benfeitorias como casas e infra-estruturas que estejam regularizadas.

Carta Maior

EUA divulgam documentos soviéticos sobre assassinato de Kennedy

Patrice de Beer

WASHINGTON – Os Arquivos Nacionais americanos acabam de publicar 80 páginas de documentos relativos ao assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy. Os documentos, traduzidos para o inglês, constituem apenas uma parte dos arquivos da KGB sobre a estada de Lee Harvey Oswald na União Soviética, de 1959 a 1962. Eles foram entregues a Bill Clinton por Boris Ieltsin durante a cúpula do G8 em 20 de junho, em Colônia.

Esse presente do chefe de Estado russo, Boris Ieltsin, ao presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, levanta uma ponta do véu que oculta os dossiês da KGB a respeito do suposto assassino de Kennedy, Lee Harvey Oswald, e sobre os contatos diplomáticos que se seguiram ao drama de 22 de novembro de 1963 em Dallas.

Mas ainda há muito a descobrir, segundo o juiz Tunheim, que dirigiu a comissão que examinou os documentos sobre o assassinato. Em 1996 a KGB da Bielorússia lhe mostrou uma pilha de pastas com mais de um metro de altura. Os serviços secretos soviéticos acumularam uma enorme massa de informações sobre a estadia de Oswald na União Soviética entre 1959 e 1962.

“Esquecer o caso”

Esses documentos dão uma idéia do desejo de Moscou e de Washington de evitar qualquer atrito. Na época as relações entre as duas superpotências se haviam “descongelado” um pouco, depois da crise dos mísseis em Cuba, em outubro de 1962. Num telegrama cifrado de 25 de novembro de 1963, o vice-primeiro-ministro soviético Anastas Mikoyan, que representou seu país no funeral de Kennedy, descreve a calma aparente e o sorriso de Jackie Kennedy durante a recepção dada na Casa Branca:

“Ela me disse com grande emoção, quase chorando: ‘Tenho certeza de que o presidente [Nikita Kruschev] e meu marido teriam visto coroar-se de sucesso a busca da paz à qual dedicaram tantos esforços. Os senhores devem levar a cabo essa tarefa’. Ela disse tudo isso com inspiração e profunda emoção. Durante toda a conversa segurou minhas mãos, tentando transmitir com a maior convicção possível seus sentimentos pela causa da paz, tão cara a seu marido, e seu próprio desejo de que nossos países tenham êxito nessa missão”.

Jackie enviaria depois uma carta manuscrita nesse sentido, agradecendo ao “Senhor K” por suas condolências.

Mas o dignitário soviético surpreendeu-se principalmente com a vontade dos Estados Unidos de dar prosseguimento à política iniciada por Kennedy. Seus interlocutores lhe disseram que não permitiriam que o inquérito Warren fosse prejudicado pelas denúncias de complô comunista, feitas por alguns na época. Em contrapartida, Washington pediu que o Partido Comunista Soviético (PCUS) pusesse em surdina suas acusações sobre um complô da extrema-direita, o que foi feito.

Como escreveu Mikoyan em seu relatório: “O governo americano não quer nos envolver nesse caso, mas tampouco quer entrar em conflito com sua extrema-direita. Prefere claramente que todo o caso seja esquecido o mais depressa possível”. Essa frase é suficientemente ambígua para nos deixar em dúvida se aludia à vontade do novo presidente, Lyndon Baines Johnson, de evitar o recrudescimento das tensões com Moscou, ou se Mikoyan teve a impressão de que o sucessor de Kennedy queria enterrar a investigação.

Em todo caso, esses documentos tendem a mostrar que o Krêmlin se esforçou para cooperar com Washington: evitou exageros de sua propaganda e remeteu uma série de documentos relativos a Oswald. Através deles descobrimos que os soviéticos tinham dúvidas sobre o ex-fuzileiro naval convertido ao antiamericanismo.

Depois de voltar aos Estados Unidos em 1962, Oswald tentou novamente obter visto para a URSS no México e escreveu uma carta à embaixada soviética em Washington poucos dias antes do assassinato de Kennedy. O embaixador Dobrynin se pergunta se essa carta datilografada não era uma prova falsa destinada a implicar a União Soviética num complô.

O que fica claro no dossiê Oswald é que ele realmente não era bem-vindo na URSS, onde não inspirava a menor confiança. Depois de ele suplicar muito por asilo, a KGB lhe deu visto de apenas um ano.

“Dado que vários estrangeiros que receberam a cidadania soviética deixaram o país pouco depois, e considerando que seu caso ainda não foi suficientemente examinado, seria desejável lhe conceder somente permanência temporária”, escreveram em 27 de novembro de 1959 o ministro das Relações Exteriores, Andrei Gromyko, e o chefe da KGB no comitê central do PCUS, Chelepin.

“Sou comunista”

Embora tenha se casado com uma soviética e afirmado a seus anfitriões que pedia “essa nacionalidade porque [era] um comunista e um operário [e que tinha] vivido numa sociedade capitalista decadente, onde os trabalhadores são escravos”, não obteve o que desejava. “Não há qualquer justificativa para aprovar essa naturalização (…) e a KGB não o considera desejável”, lê-se em outro documento.

Podemos nos perguntar, no entanto, se o destino de um eletricista medíocre que foi exercer seus talentos numa fábrica em Minsk, na Bielorússia, com um salário de 700 rublos por mês e um “pequeno apartamento”, merecia ser analisado pelo comitê central do PCUS. Documentos publicados em 1995 revelaram que ele possuía um fuzil de caça, mas era um atirador medíocre, coisa surpreendente num fuzileiro naval…

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Le Monde

Olarias: o fim das mais antigas Indústrias do ABC

Ademir Médici

Diário do Grande ABC

Crava-se a pá no barro preto.
Rangem as pipas amassando a argila.
Bate a forma o oleiro.
Fumegam os fornos.

(Mário Dal’Mas. Poeta. São Caetano)

* * *

A primeira indústria do Grande ABC vive seus últimos momentos. São as
olarias. Restam quatro, duas em Ribeirão Pires e duas em Rio Grande da
Serra. Informações orais falam de uma quinta, na divisa de Mauá com
Ribeirão. Rodamos toda a área e não a localizamos.

O repórter-fotográfico Orlando Filho, do Diário, guiado pelo oleiro José
Valeriano Tertuliano, o Macalé, 68 anos, 48 como oleiro, percorreu as
últimas olarias e fez um ensaio fotográfico de cada uma delas. São as
seguintes:

1) Olaria do Zecão, Ouro Fino, Ribeirão Pires.
2) Olaria do José Ferreira, estrada do Soma, Ribeirão Pires.
3) Olaria do Machado, Sítio Maria Joana, Rio Grande da Serra.
4) Olaria do Sítio Maria Joana II, Rio Grande da Serra.

Orlando Filho documentou também ruínas de três outras olarias:
1) Olaria do Zecão II, avenida Pedro Ripoli, 157, Barro Branco, Ribeirão
Pires.
2) Olaria da avenida Santa Clara, hoje canteiro de obras da Sabesp, em
Ribeirão Pires.
3) Olaria do Núcleo Santa Cruz, distrito de Riacho Grande, São Bernardo.

Um terceiro trabalho de Orlando Filho: ele fotografou coleções de
tijolos raros mantidos pelo Museu de São Caetano e pelo Centro de
Pesquisa do Folclore de São Bernardo. O Museu de São Caetano expõe,
permanentemente, a maquete de uma olaria idealizada pelo fotógrafo
Dirceu da Silva Real, de Santo André, também fotografada – as últimas
olarias de São Caetano não sobreviveram à década de 1940.

A faixa que vai de Mauá a Diadema, cruzando Santo André, São Bernardo e
São Caetano, há muito deixou de ter olarias. Uma delas serviu como
temática central e virou cartaz do IV Congresso de História do Grande
ABC, realizado em Diadema. O forno já estava desativado quando o
congresso tomou a cidade, em 1996. Hoje até o forno foi demolido -
restou a foto do cartaz.

As últimas olarias de Santo André, São Bernardo e Diadema funcionaram,
de maneira rudimentar, na área de proteção aos mananciais, de Eldorado
ao Pedroso, passando pelo distrito de Riacho Grande. Conseguimos
localizar ruínas de apenas uma delas, no Núcleo Santa Cruz, adiante da
primeira balsa da represa Billings.

Tínhamos esperança de encontrar ruínas de uma segunda olaria, no Parque
do Pedroso, em Santo André, que há anos estava desativada. A Prefeitura
informa que tais ruínas também foram desmanchadas e seus tijolos
aproveitados em obras de manutenção.

Com o fim das olarias, o Grande ABC perde também a figura do oleiro,
aquele profissional que madrugava para bater barro, dar forma ao tijolo
com as iniciais do nome do dono da olaria. Profissional de múltiplas
funções, como a de pôr o tijolo secando até ser levado para o forno -
onde outros oleiros, quando não os mesmos, davam plantão para aguardar
mais uma fornada.

Vários fatores explicam o fim das olarias, do econômico ao de
preservação do meio ambiente. Há décadas os oleiros-patrões vinham se
queixando da bitributação de impostos para manter o negócio. Mais
recentemente, da virada dos anos 90 para o novo milênio, a pressão do
poder público foi grande. Afinal, as olarias necessitam de lenha,
diferentemente da sua concorrente maior, as fábricas de blocos – que
hoje imperam também no Grande ABC.

Assim, apenas nas partes mais distantes do Grande ABC, em locais de
difícil acesso, é que sobrevivem as quatro últimas das nossas olarias.

Não foi sempre assim. As duas primeiras olarias do Grande ABC ficavam no
centro de dois núcleos coloniais: São Bernardo e São Caetano. Eram as
olarias das fazendas dos monges beneditinos, instaladas na primeira
metade do século 18. Eram tocadas por escravos: negros e índios.

A olaria pioneira de São Bernardo, entre uma das variantes do Caminho do
Mar e o ribeirão dos Meninos, ficava na atual avenida Senador Vergueiro,
onde está uma das unidades da rede Carrefour. A olaria de São Caetano
localizava-se no atual bairro Fundação, igualmente próxima a um rio
importante, o Tamanduateí, no ponto em que ele recebe o ribeirão dos
Meninos vindo de São Bernardo.

Tivemos olarias em vias centrais como a Marechal Deodoro, em São
Bernardo, avenida Pereira Barreto, em Santo André, e várzea do
Tamanduateí, a poucos metros da avenida Goiás. Há 80 anos, estava sendo
posta à venda uma olaria localizada na avenida Caminho do Mar, hoje
bairro Rudge Ramos, conforme anúncio publicado em seguidas edições de
1925 pelo semanário O Comércio de São Bernardo:

“Vende-se grande olaria.
Acha-se à venda no Caminho do Mar (bairro dos Meninos) uma grande
olaria, cuja produção diária atinge a 5 mil tijolos e enorme fabricação
de telhas, produtos superiores, barro de primeiríssima ordem. Essa
propriedade contém duas boas casas coloniais, fornos especiais, estufas,
caminhões, animais.”

Não se sabe quem ficou com a olaria, nem o que foi feito dela.

* Rota da Olaria *

Ademir Médici
Do Diário do Grande ABC

“Passou a mão no tijolo, ele não cantou… não presta”.
(Zé Macalé. Oleiro. Ribeirão Pires) Jovens que não conviveram com o auge
do funcionamento das olarias no Grande ABC estão abrindo uma empresa -
Billings Tour – com passeios voltados a antigos equipamentos artesanais
do distrito de Riacho Grande, em São Bernardo. São três rotas básicas:
Rota do Carvão, Rota dos Portos de Areia e Rota da Olaria.

A Rota da Olaria leva ao Núcleo Santa Cruz e às ruínas de uma olaria
localizada em área pertencente a uma família de japoneses. O acesso pode
ser a pé, de carro ou de bicicleta. Pelo caminho, uma paisagem
exuberante, inclusive de espécies adultas e raras de araucárias e uma
ilha escolhida pelos pássaros para procriação.

Na olaria se aprenderá com os guias – antigos oleiros, de preferência -
como é que se fazia tijolos naqueles pátios e fornos, de onde vinha o
barro, como os burricos eram postos a trabalhar, como o tijolo secava,
cozinhava e era despachado.

Os jovens estudantes têm o apoio de um funcionário da Prefeitura, o
são-bernardense Francisco Antonio da Silva, 53 anos, que conheceu muitas
olarias e que hoje pertence ao Programa Jovens Reservas da Biosfera, que
além de São Bernardo atinge outros 72 municípios da Grande São Paulo e
arredores, que formam o chamado cinturão-verde paulista.

Depois dos levantamentos registrados nesta reportagem, bem que a Rota da
Olaria de Riacho Grande poderia ser estendida para a área mais afastada
de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, onde localizamos as quatro
últimas olarias em plena atividade. Ali, os estudantes da Billings Tour
teriam a assistência de oleiros que ainda fazem tijolos como os seus
ancestrais. Caso do Zecão.

José Benedito dos Santos, o Zecão, nasceu em Natividade da Serra (SP) em
13 de outubro de 1924. Aos 80 anos, dirige a sua olaria em Ouro Fino e
acompanha cada passo da produção de um tijolo. O Diário o localizou à
beira da boca de um forno, em pleno processo de produção. Zecão ardia
como as labaredas que o forno vomitava. Fomos obrigados a pedir para que
ele saísse dali para que pudesse nos falar.

E Zecão contou a sua grande realização como dono de olaria: cobrir o
pátio para a proteção dos tijolos e empregados. Agora pode chover em
Ouro Fino. A produção não pára.

“Sonhei 60 anos com isso. Esse é o sonho da minha vida.” Uma vida de
dificuldades para criar os 11 filhos, de um trabalho aprendido com o
finado Daniel Bertoldo, descendente dos primeiros italianos que
colonizaram Ribeirão Pires. Podemos dizer que Zecão, neste 2005, dirige
a derradeira grande olaria do Grande ABC, com 20 funcionários, sete
máquinas e seis animais.

Há 30 anos, queixavam-se os oleiros de Ribeirão Pires da carga
tributária (Olarias vivem fim de grande época, Diário, 24/7/1973). Eram
eles obrigados a recolher 15% de imposto único sobre minerais e mais
15,5% sobre a circulação de mercadorias, sem contar a verba dispensada
para a cobertura de encargos sociais.

Já na primeira metade do século 20, Ribeirão Pires despachou milheiros
de tijolos em vagões lotados da estrada de ferro Santos-Jundiaí para a
construção de bairros inteiros de Santos. Olarias da Vila Sacadura
Cabral, em Santo André, forneceram os tijolos para a construção do
estádio do Pacaembu, em São Paulo, inaugurado em 1940.

O artista plástico Antonio de Assis, de Santo André, desenhou uma olaria
que existiu no hoje quase central Jardim Bom Pastor. Octavio Ferrari
teve olaria no Parque Galícia, no coração de Diadema. Mantinham olarias
na também central avenida Francisco Monteiro, em Ribeirão Pires, as
famílias Sortino, Balarini, Capello, Chiedde, Del Corto, Cordeiro,
Gianasi, Bertoldo e Dicieri.

A avenida Taboão, quase esquina com a via Anchieta, abrigou a olaria da
família Angeli, anos antes da chegada da Willys, antecessora da Ford no
lugar.

Os também centrais Jardim Stela e bairro Apiaí, em Santo André, na
divisa com São Bernardo, abrigaram a olaria de Francesco Guelfo.

Hoje quem for à olaria do Zecão, nos fundos de Ouro Fino, vai gastar R$
80 pelo milheiro de tijolos; num depósito, o mesmo tijolo vai custarR$
150 o milheiro. José Ferreira, também em Ouro Fino, queixa-se das
chuvas. O pátio da sua olaria, diferentemente do pátio da olaria do
Zecão, não é coberto. Por isso, no início deste ano, a sua olaria
permaneceu fechada durante dois meses: “Olaria não dá lucro, só faz para
comer”. Na olaria do Zé Ferreira, um milheiro de tijolos custa R$ 40 ou
R$ 45, revendido em depósitos por R$ 110.

O melhor, acrescenta Zé Ferreira, é produzir blocos. Mas a atividade
exige mais capital e investimentos em cal, pedriscos e cimento, sem
contar os equipamentos. O tijolo trivial usa apenas barro, abundante em
qualquer canto.

Restam, além do barro, as recordações, as fotografias, as últimas quatro
olarias em funcionamento, as ruínas de outras, o artesanato de homens
como Dirceu Real. As miniaturas em escala de fornos de olarias e tijolos
do Dirceu são verdadeiras obras de arte.

Há o sonho da Rota da Olaria, em Riacho Grande. A história oral de
antigos oleiros. E a lista dos oleiros de 1938, preservada pelo 1º
Distrito Policial de Santo André.

Fica a possibilidade de um exercício: localizar onde estavam aquelas
olarias. Pela lista do 1º DP, tínhamos – há 70 anos – os seguintes
números de olarias: Santo André, 15; São Bernardo, 21; São Caetano, 10;
Diadema, 6; Mauá, 5; Ribeirão Pires, 39; e Rio Grande da Serra, 4. Um
total de 100 olarias, segundo registros do 1º DP de Santo André.

Daquelas 100 olarias de 1938, uma funcionava em plena rua Rio Branco, em
São Caetano; uma segunda ao lado do Aramaçan, em Santo André; várias em
Piraporinha (Diadema) e Rudge Ramos, então Meninos (São Bernardo).

Nos demoramos sobre essa lista de indústrias de Ribeirão Pires. No
começo da reportagem, falamos das duas olarias do Sítio Maria Joana.
Pois uma delas já existia em 1938, propriedade de Francisco Ripoli, que
vem a ser tio-avô do atual proprietário, José Nicanor Machado da Cunha.

Uma empresa familiar raríssima que não pode e não deve morrer.

Expansão dos EUA na América Latina: origens remotas da Alca

Augusto C. Buonicore

“A expansão dos Estados Unidos sobre o continente americano, desde o Ártico até a América do Sul, é o destino de nossa raça (…) e nada pode detê-la”. Discurso de posse do presidente norte-americana James Buchanan, em 1857.

“O nosso objetivo com a ALCA é garantir para as empresas norte-americanas o controle de um território que vai do Polo Ártico até a Antártida”. General Colin Powell, Secretário de Estado do governo Bush

O projeto norte-americano de anexação da América Latina é bastante antigo e conheceu várias etapas e formas nestes quase duzentos anos. O processo não foi linear, ele foi condicionado por inúmeros fatores entre eles a capacidade de resistência dos povos latino-americanos e a correlação de forças entre as grandes potências. Mas, no geral, podemos dizer que os EUA foram persistentes nos seus propósitos anexacionistas, utilizando os mais diferentes métodos – articulando o grande porrete e a fala mansa. Este artigo busca apresentar, sumariamente, a história da expansão norte-americana no hemisfério até o início da década de 90 quando do início de uma nova ofensiva através da implantação da Alca.

A Doutrina Monroe e o Destino Manifesto

No dia 4 de julho de 1776 foi proclamada a independência norte-americana. A guerra pela independência durou cerca de 6 anos. A jovem república era composta de treze colônias federadas concentradas no lado do Atlântico. Nascia com a necessidade de proteger-se das gananciosas potências européias, especialmente a Inglaterra, e também com pretensões de se expandir para o oeste e sul do continente, conquistando novas terras para a sua população, que crescia rapidamente, e novos mercados para suas mercadorias.

Pouco a pouco foi se constituindo uma ideologia justificadora do expansionismo norte-americano. Esta seria denominada ideologia do “Destino Manifesto”. Propagou-se a idéia da superioridade dos norte-americanos sobre os outros povos do continente – descendentes de espanhóis, portugueses e indígenas. Aos norte-americanos caberia conduzir os demais povos pelo caminho da civilização e da modernidade capitalista.

Em 1823, o presidente James Monroe apresentou o seu discurso anual ao congresso norte-americanos. Ele poderia ser traduzido em uma de suas frases mais conhecidas: “A América para os americanos”. O corpo de idéias relativo a política externa seria denominado Doutrina Monroe. A princípio foi entendida como uma resposta norte-americana às potências européias que estavam de olho no continente, inclusive nos territórios do norte. Os norte-americanos ainda disputavam o Oregon com os ingleses e os russos estavam de olho na Califórnia. No sul, as independências do Brasil e da América espanhola ainda não estavam consolidadas. Naquele momento a Europa era dominada pela Santa Aliança – uma coligação monarquista e arqui-reacionária.

No entanto, mais do que protegerem as Américas das pretensões européias, queriam proteger seus interesses políticos e comercias no conjunto do continente, ainda que acobertando-os com um verniz democrático e anti-colonial. Prova disso é que os EUA se colocaram contra o projeto do México e da Colômbia de ocupar as Antilhas e libertá-las do julgo espanhol. Os EUA também se opuseram e buscaram sabotar o projeto de união americana defendido por Simon Bolívar. Ficava cada vez mais claro que quando Monroe disse a América “para os americanos” queria, na verdade, dizer “para os norte-americanos”.

Restabelecidos da guerra contra a Inglaterra, os EUA partiram para realização do seu “Destino Manifesto”, através da utilização da sua força militar. O primeiro passo foi à conquista do Texas. Desde o final da década de 1820 colonos do sul dos Estados Unidos se deslocaram para a região do Texas, pertencente à República do México. Aproveitando-se da confusão política e da corrupção reinantes montaram suas fazendas e introduziram ali o trabalho escravo – a Constituição mexicana proibia a escravidão. No entanto, em 1835, o México aprovou uma constituição centralista. Este foi o pretexto para que os colonos americanos se rebelassem e proclamassem a independência do Texas (1836)- fundando a república “escravista” da estrela solitária – e imediatamente pedissem a sua integração aos EUA. Estes reconheceram o novo país, passando a protege-lo e, em 1845, o anexaram, sob o protesto do México.

Os EUA não estavam contentes e queriam ainda mais. No ano seguinte, aproveitando-se de um conflito militar corriqueiro na fronteira, declararam guerra ao México. A guerra terminou com a derrota mexicana e a perda dos territórios da Califórnia, Novo México, Nevada, Arizona e Utah. O México perdeu cerca de metade do seu território e os EUA ganharam, finalmente, o seu acesso ao oceano Pacífico e aos territórios riquíssimos nos quais, em alguns anos, seriam descobertos ouro e petróleo. Alguém um dia falou “Pobre México tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”.

A guerra parecia ser o melhor caminho para a expansão territorial dos norte-americanos, além de ser um negócio bastante lucrativo. Agora eles voltavam os seus olhos para o mar do Caribe, considerado um “mar interno” dos Estados Unidos, e para a América Central.

Em 1855 tentaram repetir os métodos utilizados contra o México na pequena Nicarágua. Neste ano o mercenário William Walker desembarcou com 120 homens fortemente armados e tomou o país. Apoiado pelos sulistas norte-americanos declarou-se presidente e restabeleceu a escravidão. Desta vez a tentativa de colocar uma nova estrela na bandeira norte-americana fracassou. Walker foi derrotado e acabou sendo fuzilado pelo governo de Honduras.

Dois anos depois, em 1857, no seu discurso de posse o presidente americano James Buchanan afirmou: “a expansão dos Estados Unidos sobre o continente americano, desde o Ártico até a América do Sul, é o destino de nossa raça (…) e nada pode detê-la”. Falando em nome dos “altos e amplos objetivos nacionais”, o jornalista e político norte-americano John O’Sullivan, se posicionou contra àqueles que buscavam “prejudicar nosso poder, limitando nossa grandeza e impedindo a realização do nosso Destino Manifesto, que é estendermo-nos sobre o continente que a Providência fixou para o livre desenvolvimento de nossos milhões de habitantes, que anos após anos se multiplicam”. Tese muito semelhante a do “espaço vital para a raça ariana” apregoada por Hitler menos de cem anos depois.

As grandes corporações norte-americanas, com apoio da imprensa, desenvolveram uma grande propaganda à favor do expansionismo e da guerra como meio de realiza-lo. Mantendo-se firme no seu propósito de anexar a região caribenha, em 1898, os EUA declararam guerra a Espanha e ocuparam seus territórios no Caribe e no Pacífico. O pretexto foi o apoio ao povo cubano escravizado pelos espanhóis e a explosão do navio americano “Maine” em porto cubano – possivelmente fruto de um acidente.

O povo cubano há décadas travava uma luta heróica pela sua independência. A primeira guerra da independência havia durado dez anos (1868-1878) e a segunda havia se iniciado em 1895. Somente quando a libertação, dirigida por José Marti, estava quase se concretizando os EUA resolveram intervir militarmente.

O objetivo real dos americanos não era libertar Cuba, mas defender os seus interesses na ilha, que era a maior produtora de açúcar do mundo e um ponto estratégico na defesa naval e ponte comercial para o sul do continente. Não foi à toa que ilha permaneceu ocupada militarmente até 1902. Os marines só se retiraram quando os constituintes cubanos aprovaram a emenda Platt – uma lei americana – que dava o direito aos norte-americanos intervirem na ilha quando seus interesses estivessem ameaçados. Cuba tornou-se assim um proterorado americano no Caribe. Somente em 1933, em plena política de Boa Vizinhança, foi revogada emenda Platt.

Entre 1889 e 1890 ocorreu a primeira Conferência Pan-americana em Washington, da qual participaram dezoito países. Neste encontro os EUA propuseram uma união aduaneira de todo continente, um conselho de arbitragem dos conflitos econômicos e militares e uma moeda comum, o dólar. O projeto fracassou pela resistência imposta pela Argentina e do Brasil. Foi formada então a efêmera União Pan-Americana.

Na busca da sua hegemonia nas Américas e na disputa por mercados em outras partes do mundo, os EUA iniciaram o fortalecimento de sua marinha de guerra. Em 1890, quando da 1ª Conferência Pan-americana, a marinha americana era a sexta do mundo e em 1907 já era a segunda.

Theodore Roosevelt e o Big Stick

Em 1901 assumiu o presidente Theodore Roosevelt, antigo chefe de polícia de Nova Iorque. Seu ditado favorito era “Fale suave, mas tenha nas mãos um grande porrete que será bastante útil”. Por isto sua política externa ficaria conhecida como Big Stick (grande porrete).

O Big Stick norte-americano foi bastante utilizado, mais do que a fala mansa. Cuba foi ocupada novamente entre 1906-1909, em 1912 e 1917-1922. Os marines ocuparam também o Haiti (1915-1934), a República Republicana (1916-1924) e Nicarágua (1909-1910, 1912-1933).

A extensão dos EUA, de uma costa a outra, criou novos problemas para expansão do comércio e a sua defesa militar. Era preciso construir um canal entre os dois oceanos que permitisse um deslocamento rápido da sua marinha mercante e de guerra. O lugar ideal para construí-lo era a região do Panamá, pertencente à Colômbia. No entanto o governo colombiano se opôs aos planos norte-americanos de constituir um enclave militar e comercial em seu território.

Os norte-americanos passaram a insuflar grupos rebeldes separatistas que acabaram assumindo o poder na região, separando-a da Colômbia. Os EUA foram primeiros a reconhecer a independência do Panamá (1903) e a enviar soldados para protegê-la. O novo governo, agradecido, entregou a área na qual seria construído o canal e deu aos americanos o direito de explorá-la por toda eternidade. Somente na metade da década de 1970 foi se renegociado o acordo e se definiu que o canal passaria para o Panamá em 1999.

Em 1927 os norte-americanos interviram militarmente na guerra civil da Nicarágua e ali permaneceram até 1934. Os mecanismos para intervenção eram os mesmo, primeiro fomentavam as disputas políticas entre grupos oligárquicos locais e depois interviam militarmente ao chamado de um deles – o mais favorável aos interesses norte-americanos.

A Política da Boa Vizinhança

A política do Big Stick entrou em crise juntamente com o capitalismo norte-americano em 1929. Com o aumento da crise econômica cresceu também a animosidade dos governos e dos povos latino-americanos com a política externa agressiva dos norte-americanos. Em 1930 eclodiu uma revolução no Brasil que colocou Vargas no poder e em 1934 Lázaro Cárdenas se elegeu presidente no México. Ambos adotaram políticas econômicas de cunho nacionalista e industrialista

Outros fatores de ordem internacional também impulsionaram a mudança de forma da política americana para América Latina. No mesmo ano que Roosevelt assumiu a presidência, Hitler tomou o poder na Alemanha e o Japão consolidou sua posição na Manchúria. Existia o perigo de uma guerra iminente e uma ameaça concreta aos seus interesses políticos e econômicos na Ásia e na América Latina. Os alemães rondavam perigosamente os governos da região.

Na 7ª Conferência Pan-americana (1933) foi aprovado um documento que afirmava que “nenhum estado tem o direito de intervir nos assuntos internos ou externos de outro estado”. O documento, portanto, estava na contra-mão de tudo o que os norte-americanos vinham fazendo na América Latina até então. Entre 1933 e 1934 os americanos se retiraram do Haiti e da Nicarágua. Era o início da Política de Boa Vizinhança, visando a diminuir a desconfiança dos latino-americanos em relação ao “grande irmão do norte”. O grande porrete foi substituído pela “fala mansa”.

Os americanos foram obrigados romper com a sua política antiindustrialista para América Latina e, em 1939, chegaram a liberar o financiamento para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional e da Vale do Rio Doce no Brasil. Ocorreu também uma ofensiva no campo cultural, com o aumento do intercâmbio entre os EUA e os demais países do continente. Nesta guerra pelos “corações e mentes” dos latinos-americanos Hollywood foi mobilizada, inclusive os estúdios Disney. Carmem Miranda e o Zé Carioca são frutos típicos desta época.

Doutrina Truman e a Guerra Fria

Imediatamente após a 2ª Guerra Mundial e a morte de Roosevelt os americanos reduziram sua atenção sobre a América Latina e concentraram seus esforços na reconstrução da Europa e construir um sólido obstáculo a expansão da URSS. Os latino-americanos protestaram e exigiram um Plano Marshall para o continente.

Em 1947 foi aprovado o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) que impõe obrigações de ajuda mútua e de defesa comum das repúblicas americanas. Em 1948 realizou-se a 9ª Conferência Pan-americana que decidiu pela formação da Organização dos Estados Americanos (OEA). Estes tratados tinham mais objetivos políticos e militares do que econômicos, não traziam nenhuma vantagem econômica para o sul do continente.

No período que vai de 1947 até o final da década de 50 predominou uma política de obstaculizar o desenvolvimento industrial na América Latina, esta foi a razão dos principais conflitos dos governos e setores da burguesia com o império. A montagem da infra-estrura industrial deveria ficar por conta dos Estados nacionais.

Em 1952 foi eleito o republicano General Eisenhower, ligado intimamente aos grandes trustes. Foi de seu secretário de defesa, antigo diretor da GM, a famosa frase: “O que é bom para a GM é bom para os EUA”. Foi por isso mesmo denominado “o governo de três generais” – Eisenhower, Eletric e Motors.

A OEA passou ser o principal instrumento na manutenção da hegemonia política e militar norte-americana na América Latina. Em março de 1954 diante do crescimento do movimento nacionalista de esquerda fez aprovar Declaração de Solidariedade para a Preservação da Integridade Política dos Estados Americanos Contra a Intervenção do Comunismo Internacional:

Neste documento declarava-se “que o domínio ou controle das instituições políticas de qualquer Estado americano por parte do movimento internacional comunista, que tenha por resultado a extensão até o continente americano do sistema político de uma potência extracontinental, constituiria uma ameaça à soberania a à independência política dos Estados americanos, o que poria em perigo a paz da América!”. Vários delegados se posicionaram contra o teor da declaração que era uma ameaça a soberania popular de cada país.

A preocupação mostrou-se correta. Poucos meses depois golpes militares derrubaram governos nacionalistas de Jacobo Arbens na Guatemala e de Vargas no Brasil. Em 1962, a OEA aprovou a exclusão de Cuba e em 1965 organizou a intervenção militar na República Dominicana para impedir a posse do nacionalista Juan Bosch.

A Aliança para o Progresso

No início dos anos 60 ocorreu novamente uma mudança de tom na política externa americana. Em março de 1961 o presidente Kennedy anunciou a sua Aliança para o Progresso. Afirmou ele: “Convoquei toda a população do hemisfério para que se una em uma nova Aliança para o Progresso, um vasto esforço cooperativo (…) para satisfazer as necessidades básicas do povo americano de habitação, trabalho e terra, saúde e escola”. A Conferência Econômica e Social de Punta del Este, convocada por ele, ocorreu em agosto do mesmo ano. Os EUA prometeram investir na região mais de 20 bilhões de dólares em 10 anos.

O plano tinha o objetivo de impedir o avanço dos movimentos revolucionários na América Latina e isolar Cuba. Neste mesmo ano Cuba foi excluída da OEA e os americanos apoiaram a fracassada tentativa de invasão da Baía dos Porcos. Mas Kennedy não ousou levar adiante os planos da CIA para invadir da ilha e isto lhe custou forte oposição dos setores mais conservadores.

O assassinato de Kennedy, a posse de Lindon Johnson, em 1963, e depois a vitória dos republicanos, em 1968, levou a um novo endurecimento da política externa norte-americana para o continente – ocupação da República Dominicana (1965) e o apoio aos golpes militares. Cai por terra a Aliança para o Progresso e seu discurso desenvolvimentista e social. A América Latina mergulhou então num período sombrio. No final da década de 1970 cresceu a mobilização cívica, popular e revolucionária contra as ditaduras a dominação norte-americana, um dos momentos importantes da resistência foi a vitória da revolução sandinista da Nicarágua (1979).

Em meio a nova turbulência econômica internacional – crise do petróleo – temos uma nova vitória dos democratas, com Jimmy Carter, que diante o desgaste das ditaduras passava a pregar a uma política de valorização dos direitos humanos, abrindo os primeiros conflitos com os governos militares que passaram a usar tonalidades nacionalistas. Mas, o reinado democrata seria curto.

Em 1979 tivemos uma nova vitória dos republicanos que leva ao poder o reacionário Ronald Reagan – que articula uma radicalização do receituário liberal para as Américas com uma política belicista e agressiva contra os governos e movimentos nacionalistas e de esquerda. O reinado republicano somente chegaria ao fim em 1992.

No início da década de 90, o fim da União Soviética e do campo socialista; a consolidação dos EUA como potência militar hegemônica, sem concorrência; o predomínio da ideologia neoliberal no conjunto das forças políticas da América Latina, inclusive de esquerda, criaram as condições para uma maior ofensiva norte-americana no sentido de anexar as economias do sul do Rio Grande, sob o manto da liberdade de comércio. Estavam criadas as condições para a constituição de uma Área de Livre Comércio para América (Alca).

* Historiador e membro do Comitê Central do PCdoB

Os assassinos “secretos” de Tio Sam

José Arbex Júnior*

No final de setembro, ainda sob o grande impacto dos atentados em Nova
Iorque e Washington, os jornais brasileiros divulgaram uma notícia
alarmante: ao que parece o governo FHC pretende autorizar a instalação
oficial de um escritório da CIA (Agência Central de Inteligência, serviço
secreto dos Estados Unidos) na cidade de São Paulo. O pretexto: combater o
“terrorismo mundial”. Caso a notícia se confirme, será um gravíssimo
atentado à soberania nacional, não apenas pelo fato em si (nação alguma que
se preze permite o livre trânsito de “arapongas” de outro país), mas também
pelo histórico das ações da CIA no Brasil e mundo (veja o box abaixo).

A CIA “prepara o caminho” para os golpes e operações militares com o
objetivo de depor governos e instalar ditaduras “amigas” de Washington. Ela
foi criada como instrumento de ação da Casa Branca durante a Guerra Fria.
Ela é portadora de uma concepção radical e fundamentalista, a mesma expressa
pelo presidente George Bush júnior em seu discurso, logo após o atentado de
11 de setembro: “quem não está comigo está contra mim”. Vamos, agora,
conhecer um pouco de sua história.
“Comunidade de informações”

Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo americano resolveu criar uma
Divisão de Serviços Estratégicos (OSS, na sigla em inglês). Foi a primeira
tentativa de centralizar um serviço de espionagem e informações. Mas o
Exército, a Marinha, a Força Aérea e o Departamento de Defesa mantinham seus
próprios serviços secretos. Depois da guerra, havia um certo consenso nos
Estados Unidos de que esses serviços deveriam ser centralizados. O problema
era saber até que ponto essa centralização deveria acontecer e quais os
limites desse órgão central de espionagem.

O acordo foi finalmente atingido em setembro de 1947. Naquele ano foi criada
a CIA. A agência deveria funcionar em coordenação com o Departamento de
Defesa, com o Conselho de Segurança Nacional, com a Agência de Segurança
Nacional e com os outros serviços de informação, que continuariam existindo.
Além disso, seria mantido o FBI, a poderosa polícia federal, que se
dedicaria exclusivamente a “assuntos internos”.

Nascia a “comunidade de informações”, da qual a CIA seria o principal
expoente. Em poucos anos, essa “comunidade” empregaria centenas de milhares
de pessoas, a um custo anual de 5 bilhões de dólares. A CIA, em especial,
tinha como tarefa, angariar informações sobre países estrangeiros, aliados
ou hostis e realizar operações de contra-espionagem para “confundir o
inimigo”. A CIA criou, também, um departamento para operações secretas e
guerra psicológica em países estrangeiros.

5 bilhões de dólares para o “trabalho sujo”

O “trabalho sujo” no exterior incluía a deposição de presidentes
nacionalistas ou simpáticos à União Soviética e a imposição de sangrentas
ditaduras militares na África, Ásia e América Latina. Foram, por exemplo, os
casos da deposição do primeiro-ministro nacionalista iraniano Mohamed
Mossadegh, em agosto de 1953, e do presidente da Guatemala, Jacobo Arbenz,
em meados de 1954. A CIA também patrocinou vários golpes militares em toda a
América Latina, incluindo o de 31 de março de 1964, no Brasil.

Em 1977, o então presidente Jimmy Carter quis colocar um breque nas
atividades clandestinas da CIA. Sua atitude foi uma reação tardia ao
escândalo de Watergate. As investigações mostraram que em 1972, agentes
especiais da CIA haviam espionado as atividades do Comitê Eleitoral do
Partido Democrata, que disputaria as eleições presidenciais com o então
presidente Richard Nixon. A CIA voltou a ganhar prestígio e ampla “autonomia
de vôo” nos anos 80, com a eleição do presidente Ronald Reagan. Reagan
nomeou seu amigo William Casey para a direção da CIA e deu-lhe carta branca
para agir. A CIA viveu um novo “período de ouro” até 1986, quando estourou
o “escândalo Irã-Contras”.

Mas o escândalo Irã-Contras, apesar de explosivo, foi só o estopim das
atividades clandestinas da CIA. Assim como no caso da KGB, seriam
necessários outros tantos capítulos para descrever em detalhes essas
atividades. Basta dizer, por exemplo, que entre os anos 50 e 70, a CIA
chegou a desenvolver técnicas de lavagem cerebral e guerra psicológica.
Nos dias de hoje, o trabalho da CIA está cada vez mais arrogante e
sofisticado. A “guerra psicológica” conta com o amplo apoio das corporações
da mídia, que fabricam o “inimigo” e preparam as condições para as
intervenções militares dos Estados Unidos, como aconteceu após o 11 de
setembro (quando o Islã virou sinônimo de terrorismo), ou durante a Guerra
do Golfo (quando a televisão mostrou uma guerra “limpa”, sem mortos).

*José Arbex Júnior é jornalista, professor universitário e autor do livro
Showrnalismo – a notícia como espetáculo, lançado este mês pela editora Casa
Amarela
Breve histórico do terror oficial

Segue uma pequena relação das intervenções das Forças Armadas dos Estados
Unidos e da CIA (Agência Central de Inteligência, serviço secreto) pelo
mundo. Estão apenas relacionadas as mais conhecidas ações que envolveram
ataques a populações e alvos civis (não se menciona, por exemplo, a Guerra
da Coréia, ou as intervenções em vários países africanos, como a Libéria,
das quais pouco ou nada se sabe).

Hiroshima e Nagasáqui, 1945: Os Estados Unidos praticam o maior atentado
terrorista à bomba, com 70 mil mortos e dezenas de milhares feridos.
Irã, 1953: A CIA arma um golpe para depor o primeiro-ministro iraniano
Mohamed Mossadegh, que nacionalizou o complexo petrolífero anglo-americano.
O xá Reza Pahlevi instaura uma ditadura sangrenta.
Guatemala, 1954: A CIA arma um golpe para depor o presidente Jacobo Arbenz,
por ter nacionalizado a empresa americana United Fruit e impulsionado um
plano de Reforma Agrária.
Cuba, 1961: A CIA treinou e armou cerca de 1.500 exilados políticos cubanos
que viviam em Miami.para invadir a Baía dos Porcos. Fiasco total.
Brasil, 1964: A CIA participa ativamente da conspiração que desembocou no
golpe e instauração da ditadura militar, em 31 de março.
República Dominicana, 1965: Com ajuda da ditadura brasileira, a CIA conduz
Joaquín Balaguer à presidência, consumando um golpe desferido em 1962,
quando foi deposto o presidente eleito Juan Bosch.
Indonésia, 1966: Com apoio da CIA, o general Suhart desfecha um golpe para
depor o presidente Sukarno. Morrem 600 mil civis.

Vietnã, anos 60 – 70: Os Estados Unidos despejam milhares de toneladas de
bomba sobre as populações civis do Vietnã e Indochina (2,5 milhões de
mortos), Camboja (600 mil) e Laos (350 mil).
Bangladesh, 1971: Usando armas fornecidas pelas Estados Unidos, o general
Iahia Khan chefia um golpe de Estado que derruba um governo democraticamente
eleito e massacra pelo menos 500 mil civis.
Chile, 1973: A CIA participa do golpe que depõe Salvador Allende, assassina
o general legalista René Schneider e o ministro das relações exteriores
Orlando Letelier, e empossa o general Augusto Pinochet.
Timor Leste, 1975: Com a “benção” de Henry Kissinger, Suharto ocupa o país,
que havia conquistado sua independência de Portugal. 200 mil civis morrem
durante a invasão.
Argentina, 1976: Um golpe militar desfechado pelo general Jorge Rafael
Videla, com apoio da CIA, instituiu uma ditadura que seria responsável, nos
anos seguintes, pelo “desaparecimento” de 30 mil pessoas.
Nicarágua, anos 80 – A CIA pratica sabotagem contra o governo sandinista,
incluindo a instalação de minas em portos marítimos. Explode, em 1986, o
“escândalo Irã-Contras”, que revela o vínculo entre a CIA, narcotraficantes
e o Irã.
América Central, anos 80 – O Comando Sul do Exército dos Estados Unidos
treinam soldados e “agentes” especializados em espionagem, técnicas de
contra insurreição e tortura para atuar em El Salvador, Guatemala, Honduras
e Granada.

Líbano, 1982 – 1984 – Protegidos por bombardeios da Marinha contra a
população civil, tropas de elite (marines) atacam a OLP.
Líbia, 1986 – Aviões americanos bombardeiam a residência do presidente
Moamar Gadafi, matando sua filha caçula.
Panamá, 1989 – Exército invade o país, mata mais de 2 mil soldados e civis e
depõe o governo.
Iraque, 1991 – Mais de 130 mil civis são assassinados na Guerra do Golfo.
Sudão, 1998 – Aviões atacam planta farmacêutica; milhares de civis morrem.
Iraque, 1998 – Aviões bombardeiam áreas industriais.
Iugoslávia, 1999 – Aviões da Otan bombardeiam áreas urbanas; estima-se que
morreram mais civis sob as bombas da Otan do que aqueles assassinados por
Slobodan Milosevic.
Colômbia, 2000 – Com a conivência do governo colombiano, marines e
“assessores especiais” do Exército dos Estados Unidos iniciam o Plano
Colômbia, que prevê o bombardeamento da floresta com um fungo transgênico (o
“gás verde”).

©2001. Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. jst@mst.org.br

“Financeirização” da riqueza, inflação de ativos e decisões de gasto em economias abertas

Luciano Coutinho e Luiz Gonzaga Belluzzo

Introdução

Nos anos 90, generalizou-se a consciência a respeito do peso e da influência dos ativos financeiros nas economias modernas. Isto não é surpreendente. Em pouco mais de uma década, desde o início dos anos 80, a composição da riqueza social sofreu uma importante mutação. Cresceu velozmente a participação dos haveres financeiros na composição da riqueza privada. Nos países desenvolvidos as classes médias passaram a deter – diretamente ou através de fundos de investimentos ou de fundos de pensão e de seguro – importantes carteiras de títulos e ações. O patrimônio típico de uma família de renda média passou a incluir ativos financeiros em proporção crescente, além dos imóveis e bens duráveis.

As empresas em geral também ampliaram expressivamente a posse dos ativos financeiros e não apenas como reserva de capital para efetuar futuros investimentos fixos. A “acumulação” de ativos financeiros ganhou na maioria dos casos status permanente na gestão da riqueza capitalista.

Por isso, a de taxa de juros – critério geral de avaliação da riqueza – na medida em que exprime as expectativas de variação dos preços e, portanto, a “liquidez” dos distintos ativos financeiros, passa a exercer um papel muito relevante nas decisões das empresas e bancos, conforme já advertira, primeiramente, o nosso colega José Carlos Braga em sua tese de Doutoramento. Configura-se, assim, uma forte tendência à “financeirização” e ao rentismo nas economias capitalistas.

Este processo não ficou confinado às fronteiras nacionais. Muito embora a maior parcela dos ativos financeiros, em cada país, seja de propriedade dos seus residentes, cresceu bastante a participação cruzada de investidores estrangeiros, com a liberalização dos mercados de câmbio e desregulamentação dos controles sobre os fluxos de capitais. O valor da massa de ativos financeiros transacionáveis nos mercados de capitais de todo o mundo saltou de cerca de US$ 5 trilhões no início dos anos 80 para US$ 35 trilhões em 1995, segundo as estimativas do BIS.

Esta impressionante escalada do volume da riqueza financeira (a um ritmo de pelo menos 15% ao ano) suplantou de longe o crescimento da produção e da acumulação de ativos fixos. Como, em última instância, os ativos financeiros representam direitos de propriedade sobre o capital em funções ou direitos sobre a renda futura por ele gerada, é inescapável concluir que ocorreu nos últimos anos uma notável inflação dos ativos financeiros. Em outras palavras, os preços desses ativos subiram muito além da velocidade de acumulação dos ativos instrumentais do capital, criando em seus detentores uma percepção de enriquecimento acelerado.

Assim, as empresas, bancos e também as famílias abastadas – através dos investidores institucionais – passaram a subordinar as suas decisões de gasto, investimento e poupança às expectativas quanto ao ritmo do seu respectivo “enriquecimento” financeiro. Do ponto de vista individual este “enriquecimento” não parece fictício, pois os títulos podem ser perfeitamente validados por mercados líquidos e profundos. A certeza de “comercialização”, ou seja, de que os papéis sempre poderiam ser reconvertidos à forma monetária e geral da riqueza, realimenta o circuito de valorização, induzindo uma parcela crescente de agentes a alavancar as suas carteiras de ativos financeiros com base em dívidas tomadas junto ao sistema bancário. Os autores já assinalaram, em texto anterior, as características do mercado financeiro na atualidade:

– profundidade, assegurada por transações secundárias em grande escala e freqüência, conferindo elevado grau de negociabilidade aos papéis;

– liquidez e mobilidade, permitindo aos investidores facilidade de entrada e de saída entre diferentes ativos e segmentos do mercado;

– volatilidade de preços dos ativos resultante das mudanças freqüentes de avaliação dos agentes quanto à evolução dos preços dos papéis (denominados em moedas distintas, com taxas de câmbio flutuantes).

O veloz desenvolvimento de inovações financeiras nos últimos anos (técnicas de hedge através de derivativos, técnicas de alavancagem, modelos e algoritmos matemáticos para “gestão de riscos”) associado à intensa informatização do mercado permitiu acelerar espantosamente o volume de transações com prazos cada vez mais curtos. Essas características, combinadas com a alavancagem baseada em créditos bancários, explicam o enorme potencial de realimentação dos processos altistas (formação de bolhas), assim como os riscos de colapso no caso dos movimentos baixistas.

O objetivo deste breve ensaio é examinar as mudanças que o processo de “financeirização” vem impondo às principais relações macroeconômicas (determinação das decisões de investimentos, de consumo) em economias abertas, sujeitas a regimes cambiais flutuantes ou de variação administrada, num mundo onde os fluxos de capitais financeiros (entre mercados nacionais, moedas e ativos de diferentes categorias) são intensos, rápidos e altamente sensíveis às mudanças de expectativas. A intenção é contribuir para a formulação de uma nova macroeconomia aberta, sob a dominância de ativos financeiros.

1. Ciclo de valorização de ativos e decisões de gasto numa economia aberta

A mudança na composição da riqueza provocou dois efeitos importantes para as decisões de gasto: 1) ampliou o universo de agentes que, detendo uma parcela importante de sua riqueza sob a forma financeira, têm necessidade de levar em conta a variação de preços dos ativos; 2) esta ampliação do efeito riqueza implica a possibilidade de flutuações mais violentas do consumo e do investimento. O consumo deixa de ter o comportamento relativamente estável previsto pela função-consumo keynesiana e passa a apresentar um componente típico das decisões de gasto dos capitalistas.

Isto não significa apenas que uma fração do consumo deixa de ser proporcional à renda corrente, fenômeno que aliás se estabelece a partir da generalização do crédito ao consumidor. Significa isto sim que aumenta significativamente a possibilidade de endividamento por parte de grupos importantes de consumidores. Esta maior “alavancagem” dos gastos de consumo das famílias é permitida pela percepção dos consumidores (e dos bancos) de que sua riqueza aumentou por conta da capitalização acelerada dos ativos financeiros. É preciso explicar que o “efeito riqueza” não se realiza mediante uma venda dos ativos para a conversão do resultado monetário em consumo, senão mediante uma ampliação da demanda de crédito por parte dos consumidores “enriquecidos”.

Confiantes numa trajetória ascendente de valorização da sua parcela de riqueza, os consumidores tendem a elevar a sua propensão a consumir sobre a renda corrente e simultaneamente a admitir gastos extraordinários, apoiados no aumento do endividamento. A perspectiva de enriquecimento acelerado passa a comandar as decisões de gasto de consumo: o nível de endividamento não é mais calculado sobre a renda corrente e sim sobre a expectativa de crescimento dos preços dos ativos que compõem o seu porta-fólio. Assim, é possível observar aumentos do serviço da dívida sobre a renda corrente, embora a relação entre este serviço e o estoque de riqueza possa se manter estável ou venha a declinar.

É o consumo “diferencial” de bens de alto valor e de serviços, sobretudo lazer, que se beneficia desta forma especial do efeito riqueza.

Na medida em que um segmento expressivo das classes médias é capturado por este efeito riqueza ampliado, um ciclo de valorização de ativos tem o condão de excitar a demanda muito além das expectativas normais dos empresários que produzem bens de consumo. Num mundo em que as economias são cada vez mais abertas e sujeitas ao acirramento da competição entre os setores tradeables, este deslocamento da propensão a consumir produz efeitos sobre o balanço de pagamentos e sobre as decisões de investimento, com poucas pressões sobre os preços. As elevações de preços causadas pela excitação da demanda ficam circunscritas aos serviços e aos demais bens não tradeables.

As decisões de investimento, por seu turno, sofrem um tripla influência da inflação de ativos: 1) o superaquecimento do consumo eleva a eficiência marginal do capital do setor produtor de bens de consumo; 2) o aumento do valor do patrimônio líquido – via aumento do valor de mercado da empresa – e a conseqüente ampliação da capacidade de endividamento empresarial. Assim, apesar das empresas estarem envolvidas num esforço de investimento, a relação dívida/capital próprio pode se manter estável, ou mesmo declinar; 3) a conseqüente redução dos custos de capital para a empresa melhor avaliada pelas agências de rating, baixando a percepção do risco para prestamistas e para tomadores.

Sob a influência dos fatores acima, à medida que a taxa de investimento do setor privado se acelera, manifestam-se os conhecidos efeitos macroeconômicos: redução do déficit público, ampliação do déficit externo, acompanhadas do crescimento do emprego, da renda corrente e da redução das margens de capacidade ociosa.

Vários são os mecanismos de incitação ao investimento. O primeiro é o aumento da confiança dos consumidores, devido à redução da taxa de desemprego e à continuada valorização de ativos. O segundo é o reforço do círculo virtuoso (Kalecki, 1971) em que o aumento dos investimentos produz um aumento dos lucros. Esta elevação dos lucros induz uma maior valorização do patrimônio líquido das empresas, o que se reflete numa ulterior valorização das ações. Decorre daí o comportamento do sistema de crédito que, conseguindo manter elevados níveis de liquidez corrente de seus ativos, tende a reduzir a percepção do risco, atendendo de forma elástica a demanda por novos empréstimos.

Como em todo o ciclo expansivo, o preço de demanda dos ativos reais e o dos ativos financeiros tendem a crescer conjuntamente. A especificidade do ciclo atual, comandado pela inflação de ativos, está no fato de que pode ocorrer um crescimento mais rápido dos preços de mercado dos ativos não reprodutíveis do que dos rendimentos esperados dos ativos de capital instrumentais. Um dos problemas da atual capitalização da bolsa americana é a brutal elevação das relações preço/lucro. A sustentação dos níveis de preços já atingidos dependerá crescentemente de avaliações cada vez mais otimistas por parte dos investidores quanto ao fluxo futuro de lucros.

Formas de reversão do ciclo

A forma clássica de reversão do ciclo, numa economia com regulação nacional do crédito e dominância dos bancos na intermediação financeira, supõe uma queda da eficácia marginal do capital, a partir de uma mudança “autônoma” no estado de expectativas dos empresários. A queda da eficiência marginal do capital promove uma redução imediata dos preços de demanda dos ativos de capital, tanto os financeiros como os instrumentais. Segue-se um declínio dos preços das ações e dos gastos de investimento, com posterior contração dos lucros e dos salários. O sistema bancário seria inevitavelmente afetado pela crise e procuraria recuperar o mais rapidamente possível o crédito estendido às empresas, recusando-se a rolar integralmente os passivos e seu serviço. Se não for induzido pela ação do Banco Central a abastecer a economia de liquidez adequada, o sistema bancário, em sua ação defensiva, determinará um agravamento brutal da crise, levando à deflação. Na seqüência clássica do ciclo keynesiano a contração do crédito estará respondendo a uma queda autônoma da taxa de acumulação das empresas.

Mesmo nesta economia em que a intermediação financeira é dominada pelo crédito bancário e não pela finança direta, a reversão cíclica pode, ainda, começar com uma “perda de confiança” dos bancos quanto à realização integral do valor de suas carteiras de empréstimos. Haveria, neste caso, subida das taxas de juros e maior seletividade na oferta de crédito. Este fator seria suficiente para levar a uma queda da eficiência marginal do capital. Se o animal spirits dos investidores fraquejar diante da ação dos bancos, será deflagrado um movimento recessivo, causado pela rápida contração do investimento.

Numa economia em que os bancos participam indiretamente no financiamento do gasto mediante linhas de crédito destinadas a sustentar posições no mercado de capitais, Keynes não descartou a possibilidade de uma reversão cíclica originada por quedas de preços dos ativos, rapidamente transmitidas para o sistema de crédito (Treatise on money). Foi essa possibilidade que levou os reformadores do sistema bancário americano, em 1933, a inscrever em lei (Glass Steagal Act) uma rigorosa segmentação dos mercados financeiros, com explícita proibição de participação, direta ou indireta, dos money center banks nos mercados de ativos. A idéia era a de evitar o risco de alavancagem excessiva por parte das corretoras e bancos de investimento, acarretando pressões “inflacionárias” sobre os papéis, sempre acompanhadas de fragilização financeira.

A peculiaridade das economias contemporâneas – onde a finança direta e securitizada é predominante – parece ser a alta sensibilidade das decisões de gasto a flutuações nos preços dos ativos. Os mecanismos de transmissão são rápidos, variados e poderosos. Em primeiro lugar, a desregulamentação e a liberalização facilitaram o envolvimento dos bancos com o financiamento de posições nos mercados de capitais. Isto permitiu os atuais níveis de “alavancagem” das corretoras, fundos e bancos de investimento. Quando estes agentes são surpreendidos por movimentos adversos dos preços e as perdas estimadas obrigam à liquidação de posições para cobertura de margem, tanto o risco de mercado quanto o risco de liquidez se ampliam rapidamente. A queda muito abrupta e profunda dos preços afugenta os eventuais compradores destes ativos, inviabilizando os seus mercados. Na ausência de um socorro tempestivo do emprestador de última instância, a propagação do pânico pode levar à ruptura do sistema de pagamentos e à corrida bancária.

Ainda que o emprestador de última instância contenha a crise de pagamentos, sua intervenção não será capaz de reverter a subida do custo de capital para empresas e países considerados de maior risco. O trauma num destes mercados tem enorme potencial de contaminação, provocando, em geral, fugas para moedas e ativos considerados de melhor reputação e qualidade. A crise de liquidez rebate pesadamente sobre a solvência e sobre a capacidade de gasto dos emissores de ativos de maior risco, sejam eles países, empresas ou bancos.

Os detentores destes ativos depreciados, por sua vez, terão que digerir as perdas e tentar recompor seus níveis de capitalização, restringindo a oferta de crédito para outros agentes, inclusive aqueles de melhor reputação. Exemplo disso foi a espetacular subida de 400 a 1.000 pontos básicos, nos spreads cobrados às pequenas e médias empresas americanas, após os episódios da Rússia, do ataque ao Brasil e da quebra do LTCM.

As autoridades monetárias não podem deixar que prosperem e se aprofundem o processo de contágio e a deflação de ativos. É necessário que os Bancos Centrais estejam dispostos, nestas circunstâncias, a prover abundante liquidez para os mercados em crise, promovendo uma rápida redução das taxas de juros.

A estes riscos de reversão do ciclo, comandado pela inflação de ativos, podem se agregar outros fatores, próprios de uma economia aberta.

No estágio avançado de qualquer ciclo expansivo costumam surgir tensões inflacionárias, decorrentes do aquecimento da demanda de trabalho, da elevação dos preços das matérias-primas e de serviços e insumos non-tradeables. Numa economia aberta, porém, o aumento do preço de demanda dos ativos de capital e a perspectiva de expressivos ganhos com a valorização dos ativos financeiros, intensificam o ingresso de capitais do exterior. Essa entrada de capitais determina uma valorização da taxa de câmbio, agravando o déficit comercial. A valorização do câmbio contribui temporariamente para abafar as tensões inflacionárias mencionadas acima. No entanto, à medida que o déficit comercial e de transações correntes se ampliam, aumenta a probabilidade de que os porta-fólios privados, na margem, se recusem a continuar absorvendo ativos denominados na moeda do país deficitário. Instala-se, assim, uma tendência à desvalorização da taxa de câmbio, o que envolve um duplo risco: a explicitação das tensões inflacionárias e a reversão dos fluxos de capitais, diante da possibilidade de perdas futuras para os aplicadores estrangeiros.

Nesta etapa do ciclo, o mercado fica especialmente sensível à possibilidade de uma subida das taxas de juros por parte das autoridades monetárias, temerosas, tanto de uma elevação futura da inflação, quanto de uma desvalorização abrupta do câmbio. Além disso, o fluxo de lucros pode perder força não só por conta de uma desaceleração dos dispêndios na acumulação produtiva, como também por força do crescimento do déficit comercial. Ambos os fatores acentuam a erosão dos lucros, tornando ainda mais evidente a “exuberância irracional” das avaliações dos preços das ações, descontados à taxa de juros corrente.

As autoridades monetárias, nestas circunstâncias, são colocadas diante de uma escolha difícil. O temor de uma aceleração da inflação e da saída de capitais recomendaria a subida dos juros de curto prazo. Esta medida poderia, no entanto, deflagrar um perigoso colapso na bolha formada pelo crescimento desmesurado dos preços dos ativos.

São grandes, portanto, os riscos numa economia que atinge o auge de um ciclo expansivo, exacerbado pela inflação de ativos. Um colapso abrupto destes preços levará inevitavelmente a economia à depressão, devido ao caráter cumulativo e de auto-reforço imposto pela deflação de ativos. Dadas as elevadas alavancagens, tanto as famílias quanto as empresas serão colocadas diante de um forte crescimento inesperado das suas dívidas, tanto em relação à renda quanto em relação aos respectivos patrimônios. No caso das empresas, ficará exposta uma situação em que a relação dívida/capital próprio cresce involuntariamente, piorando o rating e tornando desfavorável a tomada de novos empréstimos. Essa degradação do valor de mercado das empresas e de sua situação de endividamento provocará, por certo, ulteriores desvalorizações de suas ações.

Os consumidores, por sua vez, “empobrecidos” pela deflação de ativos, buscarão recompor a relação desejada riqueza/renda, e reduzir a relação dívida/patrimônio devendo, para tanto, aumentar a poupança corrente. Isto significa que o corte nos gastos de consumo será provavelmente muito pronunciado, atingindo particularmente os setores que se alimentaram da inflação de ativos e da expansão do crédito, os bens de alto valor e os serviços diferenciados. São exatamente estes setores os que experimentaram maior crescimento relativo na expansão recente.

A reação do sistema bancário, diante da ampliação generalizada das margens de endividamento das famílias e das empresas e da depreciação das garantias contratuais, é a de contrair violentamente o crédito, provocando um credit crunch e acelerando a caminhada da economia para a depressão.

Nestes ciclos comandados pela inflação de ativos, as autoridades monetárias estão sempre colocadas diante do risco de um crash de enormes proporções, o que as obriga a tentar suavizar a aterrissagem. A primeira reação é a de baixar os juros e impedir que o sistema bancário provoque o credit crunch. No entanto numa economia aberta em que a finança direta tornou-se importante, a queda da taxa de juros pode ser inócua. Na medida em que os preços deprimidos dos ativos privados não se recuperam, em decorrência de um forte deslocamento da curva de preferência pela liquidez, persistirá a tendência à fuga de capitais e as pressões para a desvalorização do câmbio.

Nestas circunstâncias, a política monetária pode tornar-se impotente diante do credit crunch, se a deflação de ativos e a fuga de capitais continuam degradando o valor das garantias oferecidas pelo setor privado e da própria base de capital dos bancos. Isto, aliás, é o que vem acontecendo com a economia japonesa. A economia dos Estados Unidos, por sua vez, parece estar próxima do início de uma desinflação dos preços dos ativos.

A situação atual revela, por um lado, que a dominância da valorização de ativos sobre as decisões de gasto implica uma desagradável simetria entre as fases de expansão e auge dos ciclos e as etapas subseqüentes de desaceleração e crise. De outra parte, num contexto de crescente interpenetração e interdependência dos mercados de riqueza, a divergência cíclica entre os países pode colocar sérias restrições às políticas de regulação e estabilização da economia.

Ciclo de preço dos ativos, dilemas de política econômica e desajustes globais

O que foi exposto na seção anterior descreve um comportamento cíclico da economia que, na verdade, corresponde a uma forma exacerbada do ciclo minskyano. Seguindo a tradição keynesiana e marxista, Minsky (1975) já havia sublinhado a relevância da inflação de ativos na etapa madura do ciclo. Trabalhando com dois sistemas de preços, um para os ativos instrumentais e reprodutíveis (preço de oferta) e outro para os ativos financeiros, este autor mostrou como, à medida que o ciclo de prosperidade avança, é crescente a divergência entre os dois preços, em favor dos ativos financeiros. Esta peculiaridade “informacional” da economia capitalista estimula inevitavelmente o ingresso de devedores e de credores na região de riscos crescentes. Os primeiros ávidos para acumular novos ativos em rápido processo de valorização e os segundos confiantes na realização rentável de suas carteiras de empréstimos. A valorização dos ativos provoca uma redução generalizada da percepção dos riscos, ao inflar o valor da riqueza capitalista.

Não pretendemos invocar qualquer originalidade para nossa abordagem, de resto já avançada por Michel Aglietta em seu livro Macroéconomie financière (1995). À luz dos acontecimentos em curso nos mercados mundiais, desejamos, no entanto, sublinhar os seguintes pontos:

– Este ciclo apresenta, como já foi dito na Introdução, uma dominância de comportamentos rentistas, por parte das famílias e das empresas, talvez sem paralelo em outras etapas do desenvolvimento capitalista.

– Os mecanismos de realimentação entre decisões de gasto e inflação de ativos apareceram mais cedo no ciclo atual e se revelaram mais “robustos” durante um período longo.

– A disposição dos Bancos Centrais de contornar e circunscrever crises localizadas de mercados ou regiões vem sancionando a percepção de que os riscos podem sempre ser absorvidos, sem conseqüências maiores para os possuidores de riqueza.

– O volume e a velocidade dos movimentos de capitais vem permitindo a ampliação das inconsistências entre a inflação de ativos, valorização cambial e a situação dos balanços de pagamentos.

As duas primeiras características deste ciclo estão fortemente correlacionadas, uma vez que a posse generalizada de riqueza sob a forma financeira torna abrangentes os efeitos da valorização dos ativos sobre as decisões de gasto. À medida que o mercado e o sistema de crédito vão sancionando as expectativas otimistas dos possuidores de riqueza, aumenta a demanda por ativos financeiros. Isto, por sua vez, tende a estimular a elevação dos preços, rebatendo sobre a expansão do crédito e sobre o dispêndio agregado, generalizando a sensação de que a sociedade está mais rica.

A organização dos mercados e a forte presença de investidores institucionais adiciona outro elemento importante de exacerbação do ciclo financeiro. Na busca de bater os concorrentes, de ganhar a dianteira, os administradores de fundos de pensão e fundos mútuos são obrigados a apresentar à clientela produtos financeiros de alta performance. Isto os induz a ampliar o grau de alavancagem e a buscar combustível em outras praças de maior risco e menor grau de informação. A rentabilidade destes fundos depende de se alcançar “taxas de sucesso” superiores a uma determinada taxa de juros referência.

Parece ser este o motivo do envolvimento de grandes bancos internacionais no financiamento à Rússia.

É um fato pouco sublinhado nas análises convencionais este apontado acima, ou seja, a formação de um bloco importante de instituições gestoras de grandes massas de riqueza, comprometidas com a continuada elevação de preços. A alavancagem excessiva as torna extremamente vulneráveis a reversões abruptas. Neste quadro, agrava-se progressivamente a fragilidade financeira, fenômeno que é mascarado pelo surto de valorização acelerada dos ativos.

O envolvimento intenso dos grandes bancos e das grandes empresas internacionalizadas neste jogo de valorização da riqueza, inibe uma atuação moderadora dos Bancos Centrais. As autoridades monetárias têm freqüentemente emitido sinais de que consideram excessivamente otimistas as expectativas daqueles agentes. Mas, ao mesmo tempo, são obrigadas a contemporizar, diante do temor de que qualquer ação restritiva possa desatar inclinações baixistas nos mercados e conseqüentemente a deflação de ativos. A forte interação entre inflação de ativos e gasto agregado – característica da economia japonesa dos anos 80 e da economia americana, desde o início dos 90 – ilustra o vigor destes mecanismos de realimentação.

A sucessão de episódios críticos em diversos mercados ao longo das décadas de 80 e 90 foi, em geral, neutralizada com intervenções de suporte de liquidez que visavam impedir a generalização da queda de preços para outros ativos. Esta atitude dos Bancos Centrais foi, sem dúvida, fortalecendo a crença de que os mercados estarão sempre a salvo de perdas pronunciadas e definitivas. As eventuais crises seriam momentâneas, apenas oportunidades em que se apresentariam “pontos de compra” convidativos para o início de uma nova temporada de alta generalizada.

Nos auges cíclicos começa, no entanto, a se manifestar a desconfiança de alguns agentes que suspeitam da possibilidade de sustentação do nível de preços atingido pelos ativos. Estes agentes começam a formar posições baixistas nos elos mais fracos destes mercados globalizados, ainda predominantemente altistas. Apostam contra moedas apreciadas, bolsas de valores da periferia consideradas sem fôlego para capitalização ulterior, mercados imobiliários excessivamente valorizados e com oferta sobrante. Habitualmente estes hedge funds operam nos mercados futuros de câmbio, com grandes posições vendidas nas moedas que se candidatam a um ataque especulativo.

Os mercados financeiros têm revelado uma forte tendência para mudanças súbitas de opinião, polarização das expectativas e profecias auto-realizáveis. No Treatise on money, Keynes sublinhou a importância da “divisão de opiniões”, entre baixistas e altistas, para a manutenção da estabilidade nos mercados em que é avaliada a riqueza capitalista. No entanto, estes mercados estão sujeitos à “assimetria” de poder e de informação entre os agentes “formadores de opinião” e aqueles que não têm outra alternativa senão seguir a tendência dominante. Estão criadas, assim, as condições para a irrupção de processos miméticos, que inclinam as expectativas numa determinada direção, dando origem a “bolhas especulativas”, invariavelmente sucedidas por colapsos de preços, contágio de outros ativos e moedas e intensa “aversão ao risco”.

Tanto o peso das posições assumidas pelos especuladores altistas quanto a crescente presença de agentes baixistas nos mercados emergentes reforçam as estratégias defensivas dos Bancos Centrais, tornando as suas políticas monetárias prisioneiras da necessidade de evitar fugas de capitais e desvalorizações abruptas.

Nos países periféricos, estas medidas defensivas restringem-se quase sempre à elevação das taxas de juros para defender as paridades. Esta providência é, em geral, contraproducente. Primeiro porque deprime a capitalização dos ativos mobiliários e dos imóveis, afeta o serviço da dívida pública e atinge a saúde financeira dos sistemas bancários nativos. Segundo, e por último, porque a elevação dos juros aumenta a desconfiança em relação à sustentabilidade da âncora cambial, engendrando desvalorizações selvagens e descontroladas.

Estas características do ciclo de ativos acentuam o caráter assimétrico dos ajustamentos dos balanços de pagamentos entre países de moeda forte e aqueles de moeda fraca. No caso desses últimos não pode ser mais gritante a inadequação dos programas de ajustamento, adotados para reparar os efeitos de um inevitável colapso do câmbio sobrevalorizado. Não custa lembrar que os ciclos recentes de “valorização” das moedas locais favoreceram invariavelmente o financiamento de importações predatórias e, consequentemente, promoveram a desestruturação produtiva, o desemprego em massa e, finalmente, a acumulação de volumosos passivos externos e internos. É neste ambiente que os programas exigem dos países devedores a elevação da taxa de juros, o ajuste fiscal de curto prazo e a imposição de perdas, em termos reais, aos salários e à massa de rendimentos.

Na cúspide da hierarquia de moedas, os Estados Unidos, em função da capacidade de atrair capitais para os seus mercados – fenômeno que se acentua, diante de um crise de confiança nos “emergentes” – podem se dar ao luxo de manter taxas de juros moderadas, apesar da ampliação do déficit em transações correntes. Ademais, como já foi dito, nos momentos de crise nos mercados da periferia, a demanda por títulos de maior qualidade permite a queda dos rendimentos de longo prazo. Isto significa que o atual ciclo de ativos, do ponto de vista internacional, reforça a supremacia do dólar e induz os movimentos de capitais a ampliar desmesuradamente o poder de seigneuriage dos Estados Unidos. Esta é uma das razões pelas quais foi possível prolongar o crescimento americano, sem que se manifestassem as temidas pressões inflacionárias.

Em contrapartida, a recuperação da economia japonesa torna-se mais difícil. A política monetária mostra-se incapaz de reanimar os preços dos ativos domésticos, configurando, como observou corretamente Krugman (1998), um quadro de “armadilha da liquidez”. Numa economia com “abertura financeira”, a manutenção de taxas de juros muito baixas, acompanhada de credit crunch, fazem com que a liquidez disponível em ienes seja transformada em demanda de títulos americanos e europeus.

A divergência entre os ciclos de ativos acentua e agrava as divergências entre os de crescimento do produto e da renda. Neste sentido, as taxas de câmbio são determinadas pela expectativa de valorização dos ativos denominados nas distintas moedas. As moedas se valorizam ou desvalorizam de acordo com o movimento para cima ou para baixo dos preços dos ativos, deixando em plano secundário a posição do balanço de transações correntes. O país de moeda dominante, por exemplo, mesmo apresentando déficits crescentes, na margem, pode se beneficiar de fortes revalorizações de sua moeda, caso o preço de seus ativos ainda esteja em ascensão.

Esta assimetria de ajustamento supõe, ademais, possibilidade de flutuações exacerbadas entre as paridades cambiais dos países que formam o núcleo duro do sistema monetário. Estas flutuações tendem a provocar sérias dificuldades para o ajustamento dos balanços de pagamentos, na medida em que afetam a avaliação dos preços dos ativos – denominados nas distintas moedas – impondo a adoção de medidas que podem não ser compatíveis com a estabilização da economia global.

Não é seguro imaginar que, na eventualidade de uma prolongada e profunda “correção de preços” na Bolsa de Nova Iorque, acompanhada de uma forte desvalorização do dólar, seja possível aos Estados Unidos reagirem com uma redução dos juros para conter a recessão mundial. É óbvio que uma desvalorização do dólar, nas atuais condições dos mercados, pode ensejar uma fuga dos ativos denominados nessa moeda, agravando o problema que se pretende resolver. Esta possibilidade torna-se ainda maior, diante da perspectiva da formação de um padrão monetário alternativo, com a entrada em vigor da moeda única européia.

Como é reconhecido, num sistema com taxas flutuantes, com ampla e rápida mobilidade de capitais e provimento de liquidez através do mercado – mediante a ação de agentes privados especializados – as taxas de juros e de câmbio tornam-se cada vez mais “endogeneizadas” e dependentes das bruscas mudanças de expectativas. Não é de espantar que neste sistema sejam muito mais freqüentes as crises de liquidez, resolvidas através de violentas quedas de preços dos ativos ou de ciclos curtos de valorização ou desvalorização das moedas. As intervenções, neste caso, são ex-post e sua inevitável recorrência acaba, quase sempre, acarretando riscos morais.

As relações de “causalidade” não são as mesmas para os diferentes sistemas monetário-financeiros. Num sistema internacional “regulado”, com taxas de câmbio fixas mas ajustáveis, limitada mobilidade de capitais e predominância de provimento “centralizado” de liquidez para os agentes devedores e deficitários, pode-se dizer que, em boa medida, o câmbio e os juros são âncoras para a formação de expectativas mais estáveis por parte dos possuidores de riqueza.

Na verdade, a recente evolução dos mercados financeiros exacerbou o predomínio da lógica inerente à avaliação dos estoques de riqueza já existente e não reprodutível sobre os fluxos de comércio e de produção. Isto significa que as antecipações quanto aos movimentos dos diferenciais de juros ou alterações nas taxas de câmbio podem provocar distúrbios de grandes proporções, forçando a adoção de políticas fiscais e monetárias perversas para as perspectivas de crescimento das economias.

Contrariamente ao que vêm pregando os partidários da liberalização e da desregulamentação financeiras – sobretudo os radicais da Free Banking School – mais do que nunca a dimensão da moeda enquanto ativo desejável em si mesmo se sobrepõe às suas demais funções. Num mundo de finanças globais e com um sistema plurimonetário, em que a moeda central está sob suspeita, a preferência pela liquidez, hoje exercida através do dólar, pode subitamente se deslocar para uma moeda alternativa. Também por isso, as crises se manifestam sobretudo como crises de liquidez que os mercados privados não têm capacidade de resolver.

Luciano Coutinho e Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo são professores do Instituto de Economia da UNICAMP

Referências bibliográficas

AGLIETTA, M. Macroéconomie financière. Paris: Decouverte, 1995.
COUTINHO, L. G., BELLUZZO, L. G. M. Desenvolvimento e estabilização sob finanças globalizadas. Economia e Sociedade, Campinas, n. 7, p. 129-54, dez. 1996.
KALECKI, M. Selected essays on the dynamics of the capitalist economy (1933-1970). Cambridge: Cambridge University Press, 1971.
KRUGMAN, P. Japan: still trapped. Nov. 1998. (web.mit.edu/krugman/ www/japtrap2.html).
MINSKY, H. P. John Maynard Keynes. New York: Colombia University, 1975.

Resumo

O objetivo deste breve artigo é de avançar na análise e interpretação de como a extraordinária expansão da massa de riqueza mobiliária nas últimas duas décadas vem afetando a determinação dos gastos de investimento e consumo nas sociedades desenvolvidas (especialmente nos Estados Unidos), num contexto de intensa mobilidade global dos capitais, com taxas de câmbio flutuantes.

Como será demonstrado, a intensa e continuada valorização da riqueza financeira privada e seu peso crescente nos porta-fólios tende a exacerbar os ciclos de expansão, propulsionando decisões de consumo e de investimento com graus crescentes de alavancagem (entretanto mascaradas pela própria valorização dos ativos), resultando em situações vulneráveis de sobre acumulação de capital e de sobrevalorização da riqueza que podem provocar graves colapsos financeiros e redundar em crises de lenta e difícil digestão. Num mundo de elevada mobilidade e estreita integração entre os mercados de capitais estes processos de valorização tanto podem ganhar reforços inesperados quanto, ao contrário, provocar efeitos depressores mais prolongados aprofundando a instabilidade e os riscos sistêmicos, além de multiplicar as contradições e dilemas paradoxais (inclusive de moral hasard) entre as políticas monetária, fiscal e cambial.

Palavras-chave: Macroeconomia; Instabilidade; Especulação; Acumulação financeira.

Em 20 anos, faltará água para 60% do mundo, diz ONU

BBC, em Londres

Dentro de 20 anos, uma proporção de dois terços da população do mundo deve enfrentar escassez de água, de acordo com a FAO, agência das Nações Unidas para agricultura e alimentação, sediada em Roma.

Segundo a FAO, o consumo de água dobrou em relação ao crescimento populacional no último século.

Pouco mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo já não têm acesso a água limpa suficiente para suprir suas necessidades básicas diárias, disse Pasquale Steduto, diretor da unidade de gerenciamento dos recursos hídricos da FAO.

Segundo ele, mais de 2,5 bilhões não têm saneamento básico adequado.

Steduto pediu maior esforços nacionais e internacionais para proteger os recursos hídricos do planeta.

A irrigação para cultivos agrícolas atualmente responde por mais de dois terços de toda a água retirada de lagos, rios e reservatórios subterrâneos.

Em várias partes do mundo, agricultores que tentam produzir alimentos suficientes e obter renda também enfrentam estiagens sistemáticas e crescente competição por água.

O que os agricultores têm que fazer, diz a FAO, é armazenar mais água da chuva e reduzir o desperdício ao irrigar suas plantações.

“A comunidade global tem conhecimentos para lidar com a escassez de água. O que é necessário é agir”, afirma a agência das Nações Unidas.

Irã: uma guerra em preparação

John Pilger

Os Estados Unidos estão a planear o que será um ataque catastrófico ao Irão. Para a quadrilha de Bush, o ataque será um meio de “comprar tempo” para o seu desastre no Iraque. Ao anunciar o que ele chamou um “incremento” (surge) de tropas americanas no Iraque, George W. Bush identificou o Irão como o seu objectivo real. “Interromperemos o fluxo de apoio [à insurgência no Iraque] a partir do Irão e da Síria”, disse ele. E perseguiremos e destruiremos as redes que proporcionam armamento avançado e treinamento aos nossos inimigos no Iraque”.

“Redes” significa Irão. “Há evidência sólida”, disse a 24 de Janeiro um porta-voz do Departamento de Estado, “de que agentes iranianos estão envolvidos nestas redes e que eles estão a trabalhar com indivíduos e grupos no Iraque e estão a ser enviados para ali pelo governo iraniano”. Tal como a afirmação de Bush e Blair de que tinham prova irrefutável de que Saddam Hussein estava a instalar armas de destruição em massa, a “prova” carece de toda a credibilidade. O Irão tem uma afinidade natural com a maioria xiita do Iraque, em tem-se oposto implacavelmente à al-Qaeda, condenando os ataques do 11 de Setembro a apoiando os Estados Unidos no Afeganistão. A Síria tem feito o mesmo. Investigações do New York Times, Los Angeles Times e outros jornais, incluindo responsáveis militares britânicos, concluíram que o Irão não está empenhado no fornecimento de armas através da fronteira. O general Peter Pace, presidente da US Joint Chiefs of Staff, disse que não existe tal evidência.

Na medida em que se aprofunda o desastre americano no Iraque e em que cresce a oposição interna e externa, fanáticos “neocon” como o vice-presidente Cheney acreditam que a sua oportunidade para controlar o petróleo do Irão será superada a menos que actuem não depois da primavera. Para consumo público, há mitos poderosos. Em concertação com Israel e os lobbies sionistas e de fundamentalistas cristãos em Washington, o bushitas dizem que a sua “estratégia” é acabar com a ameaça nuclear do Irão. De facto, o Irão não possui nem uma única arma nuclear nem tão pouco ameaçou construir uma; a CIA estima que, mesmo que haja vontade política, o Irão é incapaz de construir uma arma nuclear antes de 2017.

Ao contrário de Israel e dos Estados Unidos, os Irão tem agido de acordo com as regras do Tratado de Não Proliferação Nuclear, do qual foi um signatário original, e tem permitido inspecções de rotina de acordo com as suas obrigações legais — até que medidas gratuitas e punitivas foram impostas em 2003, a pedido de Washington. Nenhum relatório da Agência Internacional de Energia Atómica alguma vez mencionou o Irão por desviar o seu programa nuclear civil para utilizações militares. A AIEA tem dito que durante a maior parte dos últimos três anos os seus inspectores puderam “ir a qualquer lugar e ver qualquer coisa”. Eles inspeccionaram as instalações nucleares de Isfahan e Natans em 10 e 12 de Janeiro e retornarão em 2 e 6 de Fevereiro. O responsável da AIEA, Mohamed El-Baradei, afirma que um ataque ao Irão terá “consequências catastróficas” e apenas encorajará o regime a tornar-se uma potência nuclear.

Ao contrário dos seus dois inimigos, os EUA e Israel, o Irão não atacou outros países. Sua última guerra foi em 1980, quando invadido por Saddam Hussein, que então era apoiado e equipado pelos EUA, os quais forneceram-lhe armas químicas e biológicas produzidas numa fábrica em Maryland. Ao contrário de Israel, a quinta potência militar do mundo com armas termo-nucleares destinadas a objectivos no Médio Oriente, com um récorde inigualável de desafio a resoluções da ONU e responsável pela mais prolongada ocupação ilegal do mundo, o Irão tem um historial de obediência ao direito internacional e não ocupa qualquer território além do seu próprio.

A “ameaça” do Irão é inteiramente fabricada, com a conivência dos habituais media aquiescentes cuja linguagem refere-se às “ambições nucleares” do Irão, tal como o vocabulário do não existente arsenal de ADM de Saddam tornou-se de uso comum. A acompanhar isto está uma demonização que se tornou prática padrão. Como destacou Edward Herman, o presidente Mahmoud Ahmadinejad, “facilitou isto”, embora um exame atento às suas famosas observações de Outubro de 2005 acerca de Israel revelem a sua distorção. Segundo Juan Cole, professor de História Moderna do Médio Oriente, e de outros analistas da língua farsi, Ahmadinejad não pediu para Israel ser “varrido do mapa”. Ele disse: “O regime que ocupa Jerusalém deve desaparecer das páginas do tempo”. Isto, afirma Cole, “não implica de todo acção militar ou quaisquer mortes”. Ahmadinejad comparou a morte do regime de Jerusalém com a dissolução da União Soviética. O regime iraniano é repressivo, mas seu poder é difuso e exercido pelos mullahs, com os quais Ahmadinejad muitas vezes tem divergências. Um ataque certamente os uniria.

Desenvolvimento do CONPLAN 8022. A única peça de “evidência sólida” é a ameaça apresentada pelos Estados Unidos. Uma formação naval no Mediterrâneo oriental já começou. Isto é quase certamente parte do que o Pentágono chama CONPLAN 8022, o que é o bombardeamento aéreo do Irão. Em 2004, foi emitida a Directiva Presidencial de Segurança Nacional 35, intitulada Nuclear Weapons Deployment Authorisation. Ela é classificada, naturalmente, mas a presunção tem sido de que a NSPD 35 autorizou a acumulação e instalação de armas nucleares “tácticas” no Médio Oriente. Isto não significa que Bush as utilizará contra o Irão mas, pela primeira vez desde os anos mais perigosos da guerra fria, a utilização do que era então chamado armas nucleares “limitadas” está a ser discutida abertamente em Washington. O que eles estão a debater é a perspectiva de outras Hiroshimas e de decaimento (fallout) radioactivo no Médio Oriente e na Ásia Central. Seymour Hersh no ano passado revelou no New Yorker que bombardeiros americanos “tem estado a voar missões simuladas de entrega de armas nucleares … desde o último verão”.

O bem informado Arab Times, do Kuwait, afirma que Bush atacará o Irão antes do fim de Abril. Um dos mais destacados estrategas militares da Rússia, o general Leonid Ivashov, diz que os EUA utilizarão munições entregues por mísseis Cruise lançados no Mediterrâneo. “A guerra no Iraque”, escreveu ele em 24 de Janeiro, “foi apenas um elemento numa série de passos no processo de desestabilização regional. Foi apenas uma fase de aproximação para tratar do Irão e outros países. [Quando o ataque ao Irão começar] Israel está certo de que ficará sob o ataque de mísseis iranianos. Posicionando-se como vítimas, os israelenses sofrerão algum dano tolerável e então uns ultrajados EUA desestabilizarão finalmente o Irão, fazendo com que isto pareça uma nobre missão de resposta … A opinião pública já está sob pressão. Haverá uma crescente histeria anti-iraniana, fugas, desinformação, etc … Não está claro se o Congresso dos EUA vai autorizar a guerra”.

Indagado acerca de uma resolução do Senado dos EUA que desaprova o “acréscimo” de tropas americanas no Iraque, o vice-presidente Cheney afirmou: “Isto não nos travará”. Em Novembro último, a maioria do eleitorado americano votou pelo Partido Democrata a fim de controlar o Congresso e travar a guerra no Iraque. Fora os insípidos discursos de “desaprovação”, isto não a aconteceu e é improvável que aconteça. Democratas influentes, tais como a nova líder da câmara baixa do Congresso, Nancy Pelosi, e os indigitados candidatos presidenciais Hillary Clinton e John Edwards tem-se entretido junto ao lobby israelense. Edwards é encarado no seu partido como um “liberal”. Ele foi um dos membros do contingente americano de alto nível na recente conferência israelense em Herzilya , onde falou acerca de “uma ameaça sem precedentes para o mundo e para Israel (sic). No topo destas ameaças está o Irão… Todas as opções estão sobre a mesa a fim de assegurar que o Irão nunca obtenha uma arma nuclear”. Hillary Clinton disse: “a política americana deve ser inequívoca… Temos de manter todas as opções sobre a mesa”. Pelosi e Howard Dean, outro liberal, distinguiram-se pelo ataque ao antigo presidente Jimmy Cárter, que administrou o acordo de Camp David entre Israel e o Egipto e teve a ousadia de escrever um livro com verdades, acusando Israel de se ter tornado um “estado do apartheid”. Disse Pelosi: “Carter não fala pelo Partido Democrata”. Ela está certa, infelizmente.

Na Grã-Bretanha, foi apresentado à Downing Street um documento intitulado “Respondendo às acusações”, do Prof. Abbas Edalal, do Imperial College, de Londres, que procura revelar a desinformação sobre o Irão. Blair ficou silencioso. Excepto por algumas honrosas excepções, o Parlamento permanece vergonhosamente silencioso.

Pode isto estar realmente a acontecer outra vez, menos de quatro anos paó9s a invasão do Iraque que deixou um saldo de 650 mil mortos? Eu escrevi virtualmente este mesmo artigo no princípio de 2003, para Irão agora leia-se Iraque então. E não é notável que a Coreia do Norte não tenha sido atacada? A Coreia do Norte tem armas nucleares. Esta é a mensagem para os iranianos, estrondosa e clara.

Em numerosos inquéritos, tal como aquele efectuado este mês pela BBC World Service, “nós”, a maioria da humanidade, tornou clara nosso repúdio a Bush e os seus vassalos. Quanto a Blair, o homem agora está politicamente moralmente nu para todos verem. Assim, quem é que fala claro, além do Prof. Edalal e seus colegas? Jornalistas privilegiados, académicos e artistas, escritores e dramaturgos que por vezes falam cerca da “liberdade de discurso” estão tão silenciosos como um teatro da West End. O que é que eles esperam? A declaração de um outro Reich de mil anos, ou uma nuvem em cogumelo no Médio Oriente, ou ambos?
01/Fevereiro/2007
O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=426

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Europa quer saber quem está online

Victoria Shannon
em Paris

Os governos europeus estão preparando uma legislação para forçar as empresas a manterem dados detalhados sobre o uso da Internet e do telefone pelas pessoas, algo muito além do que os países serão obrigados a fazer, segundo uma diretriz da União Européia (UE).

Na Alemanha, uma proposta do Ministério da Justiça basicamente proibirá o uso de informação falsa para a criação de conta de e-mail, tornando ilegal a prática padrão na Internet de criação de contas com pseudônimos.

Uma lei esboçada na Holanda igualmente irá além do que exige a UE, neste caso obrigando as companhias telefônicas a guardarem os registros de exatamente onde alguém está durante toda uma conversa por telefone móvel.

Os provedores de Internet na Europa já divulgam de forma “rotineira” informações sobre os clientes – que eles normalmente mantêm à mão por cerca de três meses, para fins de cobrança – para policiais com ordens judiciais, disse um especialista em privacidade. Os dados detalham como a comunicação foi enviada e por quem, mas não divulga o seu conteúdo.

Mas as autoridades argumentaram na época dos atentados terroristas na Espanha e no Reino Unido, em 2004, que precisavam de um armazenamento maior, melhor e mais longo de dados por parte das empresas que cuidam das redes de comunicação da Europa. A Corte Nacional espanhola dará início nesta quinta-feira (15) ao julgamento dos 29 suspeitos dos atentados a bomba contra trens em Madri, em 11 de março de 2004, que mataram 191 pessoas e feriram mais de 1.800.

Os países da UE têm até 2009 para transformar a Diretriz de Retenção de Dados em lei, de forma que as propostas apresentadas até agora são interpretações iniciais. Mas algumas pessoas envolvidas na questão estão preocupadas com uma mudança no pêndulo da privacidade na Europa, que há muito era uma defensora dos direitos de privacidade dos indivíduos.

Segundo as propostas na Alemanha, os usuários teoricamente não poderiam criar contas de e-mail fictícias, por exemplo, para se disfarçarem em leilões online. Nem poderiam usar uma conta inventada para receber e-mail comercial indesejado. Apesar de não serem proibidos apelidos em e-mails, eles teriam que ser rastreáveis ao dono de fato da conta.

“Isto é uma coisa incrivelmente ruim em termos de privacidade, já que as pessoas cresceram com a idéia de que você pode ter uma conta anônima de e-mail”, disse Peter Fleischer, o consultor europeu de privacidade da Google, em Paris. “Além disso, será difícil aplicar e não funcionará.”

Fleischer, cuja empresa com sede na Califórnia oferece serviço gratuito de e-mail, disse que lei terá que exigir algum tipo de verificação de identidade, “como a necessidade de se registrar para obtenção de um endereço de e-mail usando sua carteira de identidade nacional”.

Jörg Hladjk, um advogado especializado em privacidade da Hunton & Williams, uma firma de advocacia de Bruxelas, disse que também poderá se tornar ilegal pagar em dinheiro por contas de celular pré-pagos. As informações de cobrança de assinaturas regulares de telefonia celular já são verificadas.

“É irônico”, disse Fleischer, “porque a Alemanha é um dos países na Europa onde as pessoas mais falam sobre privacidade. Em termos de conscientização de privacidade em geral, eu colocaria a Alemanha em um extremo”.

Fleischer disse que não está claro se alguma lei européia se aplicará aos provedores de e-mail com sede nos Estados Unidos, como a Google, de forma que qualquer um que necessite de um endereço de e-mail não verificado – por motivos políticos, comerciais ou filosóficos – ainda poderia usar os endereços do Gmail, Yahoo ou Hotmail. “Será difícil saber que lei se aplica”, disse Hladjk.

A Google só exige duas informações para abertura de uma conta no Gmail – nome e senha – e a empresa não tenta determinar se o nome é autêntico.

Na Holanda, a proposta de ampliação da lei para abranger todos os dados de localização dos aparelhos móveis “implica em vigilância de movimento de um grande número de cidadãos inocentes”, disse a Agência Holandesa de Proteção de Dados. A agência concluiu em janeiro que a lei desrespeita as proteções da privacidade da Convenção Européia de Direitos Humanos. De forma semelhante, a Bitkom, a associação setorial alemã de tecnologia, disse que a lei dali viola a Constituição alemã.

As associações do setor de telecomunicações e Internet fizeram objeções quando a diretriz estava sendo debatida, mas na época suas preocupações eram quanto ao prazo da necessidade de manutenção dos dados e como as empresas seriam compensadas pelo custo de reunir e guardar a informação. A diretriz acabou deixando ambas as decisões nas mãos dos governos nacionais, estabelecendo um prazo de seis meses a dois anos.

“Há muitas pessoas na Alemanha que apóiam totalmente este esboço”, disse Christian Spahr, um porta-voz de telecomunicações e lei da Bitkom. “Mas há outros que o criticam mais do que nós.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

International Herald Tribune

Lei penal vira ‘bode expiatório’ da crise da segurança pública

Com PFL na linha de frente, Congresso começa a votar mudanças na legislação. Especialistas alertam para exageros: segundo o Instituto São Paulo Contra a Violência, só 1% de jovens com menos de 18 anos se envolveu em homicídios.

Bia Barbosa – Carta Maior

SÃO PAULO – Menos de um ano após os ataques do PCC em São Paulo, que fizeram o país parar para debater a questão da segurança pública, e em meio a mais uma crise no Rio de Janeiro, cujas vítimas agora são mortas em confrontos entre milícias paraestatais e o crime organizado, o Brasil se vê imerso em um novo debate sobre o combate à violência, desencadeado pelo brutal assassinato do menino João Hélio Fernandes há uma semana, durante um assalto na capital fluminense. A sociedade, indignada – com razão – cobrou uma resposta do Estado. E ela veio, mais uma vez, na forma de alterações na legislação que regulamenta o setor.

Nesta quarta-feira (14), a Câmara dos Deputados votará um pacote de medidas para a área. A principal delas é um projeto para a regulamentação da Lei de Crimes Hediondos. Ele prevê um aumento do tempo de internação para os condenados por crimes como estupro, homicídio qualificado e seqüestro. Em vez de ter direito ao regime semi-aberto após cumprirem um sexto da pena, como acontece hoje, o benefício só viria após um terço do tempo de internação determinado. Outro projeto, na mesma linha, fixa em 2/5 da pena o cumprimento mínimo exigido para os condenados por outros tipos de crime. São propostas que estão na Câmara há cerca de seis anos, e que agora foram aceleradas pela comoção pública.

Em meio a tal debate, houve quem quisesse colocar no pacote da Câmara projetos que tratam da redução da maioridade penal – determinada pela Constituição de 88 – que sequer passaram pelas comissões da Casa. Dos cinco acusados de ligação com o assassinato do menino João Hélio, um tem 16 anos. O presidente Arlindo Chinaglia (PT-SP) rejeitou. A tentativa da ala mais conservadora do Congresso não deu certo na Câmara, mas passou no Senado.

Também nesta quarta, a Comissão de Constituição e Justiça debaterá, por iniciativa de seu presidente – o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) –, seis Propostas de Emenda Constitucional que tratam do tema. Dessas seis, quatro reduzem a maioridade penal de 18 para 16 anos, e uma reduz para 13 quando caso se trate de crimes hediondos. Uma das PECs propõe ainda que a imputabilidade penal seja determinada quando o autor do crime apresentar idade psicológica igual ou superior a 18 anos.

O senador Demóstenes Torres (PFL-GO), nomeado relator conjunto das seis emendas, já anunciou que apresentará um parecer favorável à redução da maioridade penal no caso da prática de tráfico de drogas, tortura e crimes hediondos. A votação, no entanto, não deve acontecer, já que senadores como Aloísio Mercadante (PT-SP) e Patrícia Saboya (PSB-CE) pretender pedir vistas aos projetos. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o Procurador Geral da República, Antonio Fernando de Souza, reafirmaram nesta terça que são contrários à redução da maioridade penal. Por acordo de líderes, a Casa deve criar uma comissão mista – que receberá o nome de João Hélio – para ouvir especialistas do setor e debater o assunto antes de qualquer votação.

Nesta terça, o Senado aprovou projeto de lei que proíbe o contingenciamento de recursos orçamentários destinados para a segurança pública. O projeto segue agora para a Câmara.

Rio de Janeiro e São Paulo
Contrariando a tentativa histórica de integração do sistema de Justiça Criminal no país, o governador do Rio, Sérgio Cabral, propôs a criação de um código penal para cada Estado da federação, que “respondesse às peculiaridades de cada região”. Para ele, um novo pacto federativo é necessário para diminuir a concentração de poder da União. Entre as idéias do governador está a possibilidade de emancipação judicial penal do adolescente infrator.

“Por esse sistema, diante da prática de um ato infracional grave por parte de um adolescente, poderia o juiz, a pedido do Ministério Público, ouvindo psicólogos e assistentes sociais, promover a emancipação penal do infrator, sempre que demonstrada a sua periculosidade e a sua capacidade de entender a gravidade dos atos por ele praticados, aplicando a ele a pena correspondente ao crime cometido”, escreveu Cabral em um artigo publicado no jornal O Globo nesta terça. As Organizações Globo, por sinal, têm usado seu poder de fogo na formação da opinião pública numa clara campanha pela redução da maioridade penal.

Em São Paulo, o governador José Serra se declarou contrário à redução, mas, ao lado dos governadores do Sudeste, deve apresentar ao Congresso, logo após o Carnaval, uma série de propostas de endurecimento no tratamento de criminosos. Nesta terça (13), em reunião do Fórum Metropolitano de Segurança Pública – que reúne prefeitos de mais de 40 municípios da Grande São Paulo –, Gilberto Kassab lançou a proposta do Fórum debater mudanças no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

“O Brasil tem que dar um exemplo. Essa é uma questão fundamental para o enfrentamento da criminalidade no Brasil”, disse o prefeito de São Paulo. “Minha sensibilidade diz que o país evoluiu, que a criminalidade que envolve alguns adolescentes acontece por falha do Estatuto. Mas não tenho opinião formada. Vou tê-la depois do debate com os outros prefeitos”, explicou Kassab.

Dentro do Fórum, não há unanimidade em relação ao tema da redução da maioridade penal. Na avaliação de Elói Pietá, prefeito de Guarulhos, há um debate amadurecido acerca de outras possíveis alterações do ECA, mas não em relação à mudança na maioridade penal.

“Procuramos não trabalhar em cima do fato mais imediato. No Fórum, acreditamos que as ações devem ser constantes e permanentes. As mudanças boas não se fazem sob o impacto de tragédias. Sob a comoção do 11 de setembro, o governo dos Estados Unidos pisou na Constituição e restringiu liberdades. O impacto emocional não é um bom mestre”, acredita. “O debate sobre a redução da maioridade penal está aceso agora, mas o que há amadurecido em termos de mudanças no ECA diz respeito a um aumento no tempo máximo de internação de um menor de 18 anos que tenha cometido crimes mais graves”, explicou Pietá à Carta Maior.

Segundo o presidente do Instituto São Paulo Contra a Violência, Eduardo Capobianco, dados da Secretaria de Segurança Pública apontam para um percentual de somente 1% de jovens com menos de 18 anos que se envolveu em homicídios.

“Podemos aprimorar a legislação, mas colocar a redução da maioridade penal como solução dos problemas é um desvio de atenção. É preciso ver como esses jovens têm participado dos crimes, seu real papel. Temos que qualificar o debate”, criticou Capobiando. “Precisamos de uma maturidade diferente da que vem sendo mostrada no debate público acerca do que aconteceu no Rio de Janeiro. A redução da maioridade penal está sendo discutida sem nenhuma base. Estamos tangiversando sobre o tema, criando um bode expiatório”, completou.

Na opinião do presidente do Instituto Sou da Paz, Denis Mizne, não há problemas em se debater o ECA; o equívoco seria iniciar o debate com posições preconcebidas.

“Podemos discutir, por exemplo, a relação entre o ato infracional e o tempo de internação. Mas tem que haver um equilíbrio entre tratar o tema como um tabu e considerar que somente 1% dos menores de 18 anos cometem homicídios. Quando se distanciam completamente informações como esta da discussão, quando o debate é pautado só pela emoção e não pela racionalidade, não avançamos. Após a barbaridade, não adianta fazer um debate pontual e discutir um pacote de medidas que não trará respostas no longo prazo. A resposta episódica nos faz atrasar e perder tempo. A sociedade relaxa, mas espera o próximo crime. É nisso que temos que nos ater para construir um país menos violento”, afirmou Mizne.

Carta Maior

Primeiro colocado da Unicamp veio de escola pública

Folha de S. Paulo

João Francisco Ferreira de Souza, 17, conseguiu a maior nota do vestibular 2007 da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) — 759,57 pontos, o que fez dele o primeiro colocado do processo seletivo.

Mineiro, nasceu em Belo Horizonte, mas vive há cinco anos em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Como o pai é militar, ele conta que sua vida foi quase cigana e, por isso, passou por várias escolas, em diferentes cidades.

João Francisco fez o ensino médio no Colégio Militar de Campo Grande e não fez cursinho. Além da Unicamp, ele foi aprovado em diversas universidades, entre elas, as públicas USP, Unesp e Ufscar.

Foi a primeira vez que o estudante prestou o vestibular da Unicamp e ser o primeiro colocado o surpreendeu. “Não tinha noção de ter ido tão bem na Unicamp. Nem estou acreditando, fiquei muito feliz!”, conta.

João Francisco foi aprovado para o curso de engenharia química. Ele afirma que as disciplinas de exatas sempre lhe chamaram mais a atenção. “Desde a quinta série minhas maiores notas eram da área de exatas”, diz. “Estudar nunca foi uma tortura para mim. Adoro ler”, completa o estudante.

João diz que não é nenhum gênio e leva uma vida completamente normal. “Mesmo durante a época de preparação para os vestibulares, procurei manter minha vida social, continuei namorando e me divertindo. Porém, montei uma rotina que incluiu muitos exercícios e horas de estudo em casa, já que não fiz cursinho”, explicou.

Paais
Por ter cursado os três anos do ensino médio em escola pública, João teve direito aos 30 pontos do Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social, o Paais. Além disso, também contou com os 10 pontos relativos à autodeclaração de cor/raça do Paais.

“Sabia dessa possibilidade e como tenho direito, resolvi aproveitar”, afirmou João.

O estudante conta que sonha alto e quer se preparar para ser pesquisador e cientista. “Vou dar o máximo de mim na universidade. Não vejo a hora de me envolver com as atividades nos laboratórios!”, completou.

*Com informações da assessoria de imprensa da Unicamp

Robert Kurz em entrevista a Sonia Montaño

Revista IHU On-Line, nº 188, 10.07.2006

1. O que quer dizer “crítica radical do valor”?

Como se sabe, os marxistas tradicionais do movimento operário só acusavam o capitalismo de privar as assalariadas e assalariados da famosa mais-valia, da qual os proprietários dos meios de produção se apropriavam, como se fosse um “poder de disposição”. Esta é uma crítica truncada do capitalismo, que deixa de fora e ontologiza a forma social do valor. Por isso, nesse pensamento, a sociedade socialista pós-capitalista deveria continuar a basear-se na forma do valor e a funcionar como um sistema produtor de mercadorias “planeado”. Como transformação da sociedade, essa concepção fracassou. O problema só pode ser explicado historicamente: o próprio movimento operário e o próprio socialismo estatal ainda faziam parte da história do “modo de produção baseado no valor” (Marx). Tratava-se de uma “luta pelo reconhecimento” no âmbito dessa forma de sociedade não questionada. Ora, a mais-valia só pode ser suplantada juntamente com o valor, e não como planeamento e “distribuição justa” do valor. Isto não é uma questão meramente teórica. Na nova crise do sistema unificado a nível planetário, o próprio valor é desvalorizado pela terceira revolução industrial, na medida em que o “trabalho abstracto” se derrete como sua substância. Nestas condições, há que criticar e abolir o valor como forma básica e, por conseguinte, a produção de mercadorias como tal.

2. O que caracteriza uma sociedade mercantil? O que se deve entender por “mercadoria”? Que relações próprias estabelecem as mercadorias?

O termo “mercantil” só se refere à compra e à venda. Uma sociedade mercantil nem sequer existe. O capitalismo é essencialmente um modo de produção e não um simples modo de circulação. Por isso, a expressão “economia de mercado” induz em erro. Marx já mostrou que a redução da modernidade à circulação de mercadorias constitui o eldorado da ideologia capitalista, porque no mercado só aparecem proprietários “iguais” e “livres” de mercadorias e dinheiro. Porém, a mercadoria tem de ser primeiro objecto de produção, antes de poder tornar-se objecto de circulação. O mercado não é o local de encontro de sujeitos “livres”, mas essencialmente a esfera da “realização” da mais-valia, portanto, da reconversão da forma da mercadoria na forma do dinheiro. Trata-se do movimento do valor, do “sujeito automático” (Marx), de um estado de agregação para outro. A mercadoria não subsiste por si, mas é um estádio da valorização. E os sujeitos do mercado não passam de agentes desse movimento. Mas a produção geral de mercadorias só é possível através da transformação da força de trabalho humana numa mercadoria sui generis, e uma forma geral do valor só é possível através da mais-valia como irracional fim em si mesmo. Justamente neste ponto se mostra que a “socialização negativa” do capital não consiste na “apropriação” subjectiva da mais-valia pelos proprietários jurídicos, mas na própria forma do valor, que só se torna geral mediante o postulado sistémico da mais-valia. Por trás da “liberdade” formal da circulação, encontra-se a sujeição (originalmente violenta) dos seres humanos ao “trabalho abstracto”. Esta é a relação básica genuína do sistema produtor de mercadorias. E essa relação é levada ao absurdo na terceira revolução industrial. Não é apenas um problema de desemprego e miséria em massa, mas também um problema do próprio capital, que começa a perder a “substância” da sua valorização, por causa da sua própria dinâmica.

3. Como é uma “crítica radical” das categorias fundamentais do capitalismo, como valor, trabalho, mercadoria, dinheiro, Estado, política, democracia e nação?

A crítica do capitalismo até hoje não foi uma crítica categorial, isto é, as categorias fundamentais da modernidade produtora de mercadorias foram vistas de maneira afirmativa, e não crítica. A ontologização do valor acarretou a ontologização de suas formas categorias de aparição e representação. O Estado, a política, a democracia e a nação não foram decifrados como o “outro lado” da socialização negativa pelo valor e como partes integrantes deste valor, mas foram erradamente entendidas como categorias de dominação dos males do capitalismo. Ora, o homo politicus é apenas o alter ego do homo oeconomicus; deve-se suplantar, juntamente com o valor, também sua esfera político-democrática. A crítica categorial, porém, vai mais longe, pois o capitalismo não é apenas um modo de produção e um sistema estatal de regulação (que actualmente, junto com o valor, atinge os seus limites na globalização), mas também um modo de reprodução e de vida. Assim sendo, a relação moderna entre os sexos desempenha um papel decisivo, pois todos os momentos da reprodução social que não são absorvidos pelo “trabalho abstracto”, valor e Estado ou política são dissociados da socialidade oficial e delegados nas mulheres (tarefas familiares, cuidado dos filhos etc., mas também – atravessando todas as esferas – as funções sociopsíquicas da “empatia” e do “trabalho do amor” de conotação feminina, sem as quais a convivência social não é possível na concorrência universal). A relação de valor e “trabalho abstracto” é, portanto, ao mesmo tempo uma relação de dissociação entre os sexos, a qual é tão essencial e categorial como o próprio valor. Também essa relação de dissociação entre os sexos está decaindo sob as condições actuais da crise, como se mostra nas “confusões dos sexos” e nos processos de barbarização do quotidiano.

O objectivo da crítica radical do valor é, portanto, uma sociedade para lá do “trabalho abstracto”, do valor, do mercado, do Estado e da dissociação entre os sexos. Naturalmente, isso levanta problemas enormes, pois há séculos que os seres humanos têm sido “socializados dentro” destas categorias e as internalizaram. Por isso, não existe um caminho directo para fora da ordem existente, mas há necessidade de um processo de mediação histórica. Mediação significa que é preciso encontrar uma nova relação entre lutas imanentes por dinheiro, serviços estatais etc., resistência social contra a administração capitalista da crise, por um lado, e os objectivos da crítica categorial, por outro. Trata-se, de certa maneira, do antigo problema da relação entre “caminho e destino”, mas sob condições novas e com um modus de crítica inteiramente diferente, mais profundo.

Aqui se inclui também a percepção de que já não existe uma simples oposição a um inimigo concebido de maneira meramente externa (“o capital”), mas que nós todos/as somos, também no nosso íntimo, “o capital”. Isso significa que também no interior dos movimentos sociais há contradições que precisam de ser resolvidas, e não ignoradas. Assim, a dissociação entre os sexos também está actuante e precisa de ser criticada nos movimentos sociais; por exemplo, quando o ónus da crise é, “como que naturalmente”, descarregado sobre as mulheres e são revogadas as conquistas do movimento feminista. Também ideologias como o nacionalismo, racismo e anti-semitismo permeiam as contradições sociais e são explícita ou implicitamente virulentas entre os “humilhados e ofendidos” deste mundo. A necessária crítica da ideologia não deve passar para trás duma predominância abstracta da “questão social”; da mesma maneira que os contrastes materiais na situação social de grupos diversos (por exemplo, de migrantes, por um lado, e trabalhadores da própria nacionalidade que estão em situação precária, por outro) não devem ser subsumidos sob a generalidade dessa “questão social”. Pelo contrário, as tensões e diferenças devem ser suportadas e digeridas criticamente. Um movimento social comum não surge como postulado abstracto, mas apenas como resultado desta confrontação.

A teoria da crítica radical do valor e da dissociação pode mostrar, no processo da mediação, um novo objectivo histórico e analisar o terreno da crise global, para, através dos distintos movimentos, lutas sociais, tensões e diferenças, não perder de vista a totalidade negativa e dar a orientação de “grande fôlego”. Ela não pode, porém, fornecer cómodas “instruções de uso” como esquema para a acção; tal noção seria “falsa imediatez” (Adorno). O que constitui a debilidade dos movimentos sociais da actualidade é justamente o facto de continuarem amplamente apegados a concepções anacronísticas e estarem fixados na “falsa imediatez”.

4. Essa crítica radical também é uma crítica da moderna metafísica real, dos fundamentos do iluminismo, da vida quotidiana? Em que sentido?

A modernidade produtora de mercadorias tem de si mesma a ideia de que teria suplantado a metafísica. O próprio valor, porém, constitui uma “metafísica real”, uma “forma vazia” que não pode ser apreendida pelos sentidos, que é transcendente em relação às necessidades sociais e aos conteúdos qualitativos. O superficial universalismo dessa forma é, ao mesmo tempo, estruturalmente masculino (androcêntrico), e o sujeito moderno é, originariamente e pela sua essência, um sujeito masculino, branco e ocidental. O valor e seu sujeito não surgiram apenas num processo histórico “objectivo”, mas, ao mesmo tempo, mediante a afirmação ideológica e o direccionamento da consciência social. O fundamento de todas as teorias e ideologias modernas é a filosofia do iluminismo, que, como “mãe de toda reflexão afirmativa” (até no marxismo tradicional), contribuiu substancialmente para a formação do sistema produtor de mercadorias global. Por isso, a crítica radical do valor e da dissociação precisa de incluir também uma crítica radical do Iluminismo. Não se trata, contudo, de uma crítica no sentido do contra-iluminismo conservador e da antimodernidade irracional, mas de uma crítica às raízes do pensamento moderno, fixado na metafísica real do valor.

O Iluminismo contribuiu de várias formas para que a lógica do valor e da dissociação fosse internalizada pelos seres humanos. Assim, ele não só propagou um “disciplinamento” externo para as exigências do “trabalho abstracto”, mas também esboçou um programa para o “autodisciplinamento” interno dos indivíduos, que funciona até hoje. Ao mesmo tempo, ele produziu aquela fixação ideológica na circulação (no mercado e em seus sujeitos), que tem determinado até hoje uma compreensão errada de “liberdade” e “igualdade”, mesmo na esquerda. Por fim, ele flanqueou ideologicamente o carácter androcêntrico do universalismo moderno; sua filosofia é estruturalmente “masculina” e esconde os momentos dissociados também conceptual e teoricamente. Na obra de Foucault pode encontrar-se material abundante e uma reflexão crítica sobre as “máquinas de disciplinamento” construídas no Iluminismo. Foucault, porém, fica a meio caminho da crítica do Iluminismo. Em sua legítima repulsa do mecânico marxismo de partido dos anos sessenta e setenta, ele entende erradamente a questão da forma social como “economismo”. Assim, sua crítica do Iluminismo só chega a um conceito positivista dos mecanismos de uma “produção da verdade” contingente, o qual já não tem qualquer relação com a lógica do valor e da dissociação entre os sexos como formação social histórica.

Naturalmente, a crítica do valor também é uma crítica da vida quotidiana determinada por ele. A “abstracção real” social atingiu, no processo da modernização capitalista, todas as esferas da vida, da arquitectura, da estética e da cultura até dos hábitos alimentares (agro-business, fast food) e das relações pessoais. A nova crise global acelera a libertação do “indivíduo abstracto”, no qual, ainda assim, a dissociação entre os sexos continua em acção. O valor e a concorrência universal a ele associada penetram até à intimidade e destroem todos os vínculos. As pessoas tornam-se susceptíveis e auto-referenciadas; o carácter narcisista e histérico pessoal e social dissemina-se em todas as situações sociais. A histericização da sociedade da crise nem sequer se detém diante da política, da ciência, dos grupos de crítica teórica, e nem mesmo do amor e da amizade. A denúncia pessoal e a ruptura pessoal substituem em toda parte a discussão do conteúdo. Sentimentos de concorrência, medo da ligação e do “compromisso”, disposição psicodinâmica abstracta para o conflito em todos os sentidos e ânsia de “validação” pessoal ameaçam submergir qualquer conteúdo e até a própria crítica radical. Mesmo conteúdos teóricos e até os próprios sentimentos para com outras pessoas não passam de fichas de jogo intercambiáveis na “luta pelas posições”. Os indivíduos tornam-se tão imprevisíveis como o clima e os mercados financeiros. Essa tendência sociopsíquica é socialmente condicionada e só pode ser suplantada no processo da revolução social, e não pela pedagogia, nem pelo controle social coercivo, na retorta de projectos neo-utópicos de “reforma da vida”. Não obstante, é preciso descobrir como se pode opor resistência a essa tendência da crise interna do sujeito dentro dos movimentos sociais e dos grupos de reflexão teórica, para manter a capacidade de acção na crítica teórica e prática das relações em geral.

5. O que devemos assumir de Marx e por que é necessário ir além dele?

A análise e a exposição de Marx das leis internas do movimento do valor, do “sujeito automático” da modernidade, continuam a ser o fundamento inultrapassado e o ponto de partida de nossa crítica. Na presente crise mundial Marx é mais actual do que nunca. O que precisamos assumir dele, porém, são justamente aqueles aspectos de sua teoria que foram negligenciados, reduzidos ou silenciados pelo marxismo tradicional do movimento operário. Naturalmente, isso diz respeito sobretudo à crítica do valor, que está efectivamente presente no pensamento de Marx, e ao aspecto de sua teoria da crise com ela relacionado, que vai mais fundo que os debates marxistas posteriores sobre o conceito de crise. Mas no próprio Marx também se encontram pontos de conexão para as interpretações tradicionais. Por isso, a nova crítica do valor fala do “duplo Marx”. Marx foi, por um lado, um crítico radical do moderno sistema produtor de mercadorias e, por outro, um teórico positivo da modernização, que ele compreendia como “progresso necessário”. Por isso, tampouco se deve visar, em estilo neo-ortodoxo, descobrir o “verdadeiro Marx”.

Como toda e qualquer teoria, também a teoria marxiana tem seu “núcleo temporal” (Adorno). A reflexão de Marx foi muito além de seu tempo, e, não obstante, ficou simultaneamente presa nesse tempo. Essa prisão pode ser identificada principalmente em quatro pontos, que constituem um nexo interno. Em primeiro lugar, Marx manteve o paradigma iluminista da filosofia da história e da sua metafísica do “progresso”, embora, por outro lado, ele tenha criticado a ideologia iluminista dos sujeitos “livres” e “iguais” da circulação, bem como a ilusão, a ela associada, da política (principalmente o jovem Marx). Em segundo lugar, Marx criticou, diferentemente da maioria dos marxistas, o “trabalho abstracto”, mas permaneceu ambíguo nessa crítica e insistiu, ainda assim, num conceito universalista, transhistórico, geral e abstracto de “trabalho”; também neste sentido se mostra a herança ainda não-suplantada do Iluminismo e do protestantismo. Em terceiro lugar, foi justamente o Marx “positivo”, teórico da modernização, que entendeu erradamente, nos moldes de uma “ontologia do trabalho”, a “classe operária” e a “luta de classes” como alavanca da libertação social, ao passo que, na verdade, tratava-se aí apenas da autolegitimação dos portadores de “trabalho abstracto” dentro do valor, cuja “luta por reconhecimento”, como sujeitos jurídicos e civis no capitalismo, era um movimento de integração na “jaula de ferro” (Max Weber) da modernidade, que excluía qualquer crítica categorial. Marx, como “duplo Marx”, queria associar a “luta de classes” à crítica categorial, com base no “trabalho” ontologizado universal; mas isso não podia dar certo, como o demonstrou na prática o desenvolvimento histórico da social-democracia e do movimento operário. Por fim, em quarto lugar, como “homem do século XIX”, Marx não podia perceber a dissociação entre os sexos como momento essencial da socialização negativa por meio do valor; também neste ponto, sua teoria não foi além do universalismo androcêntrico do Iluminismo. Por isso, é necessário ir além de Marx, não para rejeitar sua teoria crítica, mas sim para transformá-la e desenvolver uma teoria nova, que vá mais longe e esteja à altura da crise planetária actual.

6. Em que sentido se pode afirmar que somos prisioneiros/as do fetichismo?

O conceito de fetichismo é uma parte imprescindível dos aspectos da teoria marxiana que são assumidos e aprofundados pela crítica radical do valor. Não é por acaso que o marxismo tradicional não sabia bem o que fazer com a concepção marxiana de fetichismo, pois este conceito remete ao “a priori” tácito do relacionamento social, fora do alcance de qualquer reflexão positivista, ao carácter transcendental do “sujeito automático”, que permeia todas as classes sociais e filtra ou forma previamente todo o pensar e agir. O carácter fetichista da reprodução social significa que os seres humanos não moldam conscientemente seu próprio relacionamento social e não utilizam seus próprios recursos e capacidades mediante um acordo livre; pelo contrário, estão submetidos a um meio que eles mesmos produziram, mas que se tornou autónomo em relação a eles. Esse meio, que na modernidade é o valor e a sua forma de aparição, o dinheiro, comanda a reprodução social numa auto-regulação cega (“segunda natureza”). A compreensão moderna de razão produzida pelo Iluminismo está totalmente presa a essa auto-regulação do meio-fetiche; ela contém só uma razão historicamente específica, talhada para a forma da mercadoria e em sua essência destrutiva. O irracionalismo moderno defendido pelas correntes do contra-iluminismo burguês constitui apenas o reverso desta razão e é um derivado do próprio Iluminismo. A crítica categorial, como crítica do fetichismo moderno, é uma crítica do nexo interno entre a razão moderna e o irracionalismo moderno; ela tem que desembocar numa “outra razão”, portanto desenvolver uma “contra-razão”, contra a razão fetichisticamente constituída do sistema produtor de mercadorias.

Nós só somos prisioneiros do fetichismo na medida em que, sob as condições dominantes, a reprodução de toda a nossa vida prática está à mercê da “razão irracional” do fetiche da mercadoria e do capital. O robô cego do “sujeito automático” obriga-nos a “trabalhar” para o nosso próprio naufrágio. A racionalidade da economia empresarial solapa os fundamentos da vida humana ao “externalizar” permanentemente custos, assim destruindo a biosfera em grau crescente. Pela mesma razão, recursos pessoais e materiais são desactivados, independentemente de necessidades materiais e sociais, logo que deixem de satisfazer o critério fetichista da rentabilidade do capital. Embora existam capacidades humanas, meios de produção e conhecimento suficientes, eles não podem ser utilizados livremente, mas estão sujeitos às restrições da forma social fetichista. A produção da “riqueza abstracta” (Marx) leva ao empobrecimento das massas. Isso, entretanto, não é um antagonismo exterior de interesses, mas mesmo os pobres trabalham também para o seu próprio empobrecimento, ao só articularem suas necessidades materiais e sociais na forma social do valor, portanto na forma do fetichismo. Essa contradição, que já era sucessivamente intensificada nas crises periódicas do capitalismo e depois relativamente suplantada por novos surtos de acumulação do capital, adquire uma dimensão existencial na crise global da terceira revolução industrial, porque já não há acumulação real sustentável do capital. Ou se rompe o fetichismo da forma social ou a vida da sociedade será “desactivada” de maneira cada vez mais catastrófica.

7. Qual seria, em sua opinião, o aspecto essencialmente novo do livro de Anselm Jappe “As aventuras da mercadoria: para uma nova crítica do valor”, publicado em português?

Em seu livro, Anselm Jappe resume sistematicamente pela primeira vez os resultados da crítica radical do valor até finais dos anos noventa, que estavam espalhados por muitas publicações avulsas; e fá-lo numa síntese bem autónoma, que se atém estritamente ao processo em que a crítica do valor foi originalmente elaborada, a partir do marxismo tradicional. Poder-se-ia, por isso, dizer que se trata de uma “introdução à crítica do valor para marxistas”, que torna mais fácil que todas as pessoas ainda presas ao paradigma tradicional da crítica do capitalismo entendam melhor o andamento da argumentação da crítica do valor e se apropriem dele. Pois esse processo não acontece só uma única vez, ficando então encerrado, mas repete-se no caso de muitos indivíduos interessados na crítica radical da sociedade, e de maneira sempre nova, em novas constelações, continuando a própria teoria crítica do valor e da dissociação a desenvolver-se sempre. No entanto, essa exposição sistemática também é útil para as gerações mais jovens, que já não conhecem o marxismo dos anos setenta. Ela possibilita a essa gente mais jovem ler a teoria de Marx já com os novos olhos da crítica do valor e, por assim dizer, deixar de lado a compreensão tradicional que se tornou obsoleta. Assim, os conceitos do valor como “abstracção real”, do fetichismo e da “riqueza abstracta”, a crítica do falso universalismo do “trabalho”, a nova teoria da crise da crítica do valor e a “metafísica real” do moderno sistema produtor de mercadorias são apresentados e fundamentados com muita clareza. A teoria da dissociação entre os sexos, a crítica do sujeito masculino, branco e ocidental e a crítica do Iluminismo só perifericamente são inseridas no livro; mas esses aspectos serão explicados e expostos com mais detalhe num próximo projecto que tem o título provisório de “As aventuras do sujeito”.

Importante no livro de Anselm Jappe é também o capítulo final, em que ele se confronta com os “falsos amigos”. Desse modo, Jappe critica a crítica truncada do capitalismo existente no movimento antiglobalização e seus “fóruns sociais”, que reduz a relação do capital à sua actual fenomenologia “neoliberal” e no fundo só quer voltar a formas de regulação keynesiana (ou a ideias socialistas tradicionais). Ele também se confronta com concepções neo-utópicas de uma “troca sem dinheiro” que são propagadas (em parte, recorrendo aos trabalhos de Marcel Mauss sobre a “dádiva” em sociedades pré-modernas) nas ideias sobre “cooperativas livres” e no movimento do “software livre”. Nelas se entende o capitalismo mais uma vez erradamente como simples modo de circulação ou “economia de mercado”; trata-se de ideias insuficientes de uma circulação sem forma de mercadoria, que até poderiam ser apropriadas para uma instrumentalização por parte da administração da crise, nos termos de um fomento de subsistências económicas em forma de nichos de “economia informal”. Por fim, Jappe critica também a ideologia do pós-operaísmo de Michael Hardt e Antonio Negri, que adquiriu proeminência nos últimos anos e que, com seus conceitos de “trabalho imaterial” e “multidão”, não atina com qualquer crítica categorial e aparece em trajes pós-modernos como “a última mascarada do marxismo tradicional” (Jappe). Tais críticas são necessárias, pois, assim como a crítica radical do valor e da dissociação não surgiu na torre de marfim teórica, mas, de certa maneira, no “corpo a corpo” da luta teórica por uma nova compreensão da crítica, também ela tem de se confirmar constantemente e sempre de novo nesse “corpo a corpo”; o processo de formação da teoria só pode avançar na confrontação (também polémica).

8. O livro convida a “procurar o quarto no qual estão guardados os segredos de que depende a humanidade inteira”. Que segredos são esses e que quarto é esse, afinal?

Anselm Jappe escolheu a bela metáfora do “quarto proibido” do mundo dos contos de fada onde são guardados os “segredos” que não devem ser conhecidos. Esse quarto não é senão o lugar da reflexão crítica, que se encontra além do pensar e do agir quotidianos no mundo pré-formado pelo capitalismo. E os segredos consistem na constituição desse mundo, no “a priori tácito” das relações, portanto nos pressupostos, que no decurso de um processo histórico foram internalizados como se fossem “evidentes” e parecem ser dados pela natureza, embora tenham sido feitos pelos próprios seres humanos – mas, de certa maneira, estando cegos e sem consciência “sobre” este agir. Trata-se, por outras palavras, daquele fetichismo que determina o pensar e o agir e que já não aparece como resultado de um desenvolvimento que também poderia ser suplantado de novo, mas sim como ontologia inultrapassável. De tal modo que se pode dizer que a crítica social tradicional ainda não ousou penetrar no “quarto proibido” e tocar naqueles segredos.

Isso também diz respeito à teoria da história, pois as sociedades pré-modernas (agrárias) não tinham, assim como não tem a modernidade, uma relação consciente, directa consigo mesmas, com suas próprias possibilidades e recursos. Também elas eram comandadas pelos media constituídos fetichisticamente, só que por outros media e de outra maneira. O que é o valor na modernidade era Deus na pré-modernidade; o que é o meio “objectivado” e metafisicamente carregado da mercadoria e do dinheiro na modernidade eram pessoas metafisicamente carregadas como representantes de Deus na pré-modernidade. O valor não é Deus, e o capitalismo não é a continuação da religião por outros meios, como pretende Walter Benjamin, por exemplo, mas trata-se de uma constituição histórica totalmente nova. Entre ambos os mundos abrem-se abismos, após uma profunda ruptura histórica. Ainda assim, a crítica radical consegue perceber um momento negativo de continuidade, a saber, aquela inconsciência em relação a um “a priori tácito” (que é bem diferente em cada caso) da vida social e da reprodução, que, de modo geral, designamos geralmente como relação de fetiche. Assim sendo, a crítica radical do valor fala de uma “história de relações de fetiche”.

Naturalmente, esse conceito da teoria da história é, ele próprio, inevitavelmente um conceito moderno, pois não podemos saltar para fora de nossa localização na história. Isso, entretanto, é uma aporia necessária à qual todo pensamento sobre a teoria da história está necessariamente sujeito. Ao contrário, porém, da moderna filosofia clássica da história depois de Hegel, da qual também ainda faz parte o “materialismo histórico” marxista, a teoria da história da crítica do valor e da dissociação já não é uma teoria positiva nos moldes de uma metafísica do “progresso” ontologicamente ancorada, que acentua unilateralmente o momento “da história universal” da continuidade, mas uma teoria negativa, que possibilita uma dialéctica de continuidade e descontinuidade. Nós vemos a história inexoravelmente com olhos modernos, mas com os olhos da crítica a essa história e não com os olhos da afirmação. Essa crítica vai além da tradicional teoria marxista da história, que ainda pressupunha a existência de um continuum positivo de “trabalho” e “progresso” e, com isso, só prolongava a filosofia burguesa da história. O conceito negativo de uma “história de relações de fetiche” implica, pelo contrário, uma “ruptura ontológica” com toda a história anterior, pois com a suplantação da relação moderna de valor e dissociação suplanta-se o fetichismo em geral. Só com isso se cumpre a afirmação marxiana de que o fim do capitalismo é simultaneamente o “fim da pré-história”.

Na teoria da história da crítica do valor e da dissociação está contido, assim, um “superávit crítico” que produz o necessário impulso para a ruptura com a falsa ontologia da modernidade. Embora a teoria burguesa da história, que se estende até a pós-modernidade, tenha entrementes ela própria criticado o continuum de uma “história universal do progresso” positiva, ela só o fez num processo de decadência teórica, em que se acentua a descontinuidade de maneira tão unilateral e não-dialéctica como antes se acentuava a continuidade. A “metafísica do progresso” só foi substituída por uma “metafísica da contingência” (e da mera descontinuidade) de carácter inverso, que, é claro, deve-se efectivamente ao olhar moderno e é completamente afirmativa. Entretanto, essa afirmação acontece sob o ponto de vista da crise, e já não sob o ponto de vista da ascensão histórica da modernidade. Por trás da aparente “metafísica da contingência” está à espreita uma ontologia rígida e ahistórica, por exemplo, a ontologia do “poder” no pensamento de Foucault, tomada da “ideologia alemã” de Nietzsche a Heidegger. Assim não se atina com o “superávit crítico” no sentido de uma “ruptura ontológica”, e com isso também se perde de vista em última análise a relação de fetiche específica da história da modernidade.

9. As ideias de Guy Debord sobre a sociedade do espectáculo ainda são actuais?

Elas são até mais actuais do que nunca. Debord, no seu tempo, tinha em vista principalmente o meio “espectacular” televisão, ao constatar um desenvolvimento do fetichismo moderno que chegaria a um “grau de acumulação do capital” em que ele “se torna imagem” e substitui inteiramente o “mundo sensorial” por uma “selecção de imagens”. Isso, naturalmente, não se refere apenas à simples tecnologia mediática, mas a uma nova qualidade da “subsunção real sob o capital” (Marx), uma subsunção não só dos processos de produção, mas da totalidade da vida e da totalidade da experiência, a uma fetichização de todas as relações até à intimidade, a que já aludi acima, como sujeição de todas as esferas da vida à “abstracção real” do valor e como libertação do “indivíduo abstracto”. A isso corresponde uma “mediatização do quotidiano” em que os meios técnicos de comunicação não se autonomizam per se, mas em seu carácter inscrito de mercadoria e, de certa maneira, duplicam o fetichismo da forma da mercadoria. Esse desenvolvimento intensificou-se dramaticamente com as novas tecnologias de comunicação da terceira revolução industrial. Agora já não se trata de modo nenhum apenas da crua técnica, mas sim de uma “virtualização” geral do mundo da vida, como se pode ver na omnipresença de telemóveis, SMS etc. e principalmente da Internet. Isso anda de mãos dadas com a virtualidade do novo capitalismo financeiro, que se desacoplou da acumulação real do capital, como fenómeno da crise. No “virtualismo” do pensamento pós-moderno, todo esse processo foi ideologizado e, em parte, até entendido erradamente como emancipação. Mas ele não é outra coisa senão uma expressão da crise do sujeito, na qual se reproduz como fenómeno da consciência o limite interno do moderno sistema produtor de mercadorias. Pode-se, por exemplo, observar como, mediante a comunicação por correio electrónico em grupos de toda espécie, são “cozinhados” conflitos de maneira inacreditavelmente rápida e irreflectida e com frequência cada vez maior, porque a conversa é apenas simulada e nem sequer existe um interlocutor real, com o qual a gente tivesse de se envolver. Todas as conversas já são apenas solilóquios. A individualização, mediatização e virtualização na forma fetichizada do valor constituem, assim, uma unidade negativa, na qual a inflação dos sistemas de comunicação contribui para o isolamento auto-referencial dos indivíduos.

10. Existem actualmente relações entre a sociedade do espectáculo e as aventuras da mercadoria?

A sociedade do espectáculo “é” a aventura da mercadoria no estado do seu obsoletismo histórico. Em Debord, que pode ser considerado precursor da crítica radical do valor, ainda não se encontra, contudo, um conceito novo da crise, que só apareceu na esteira da terceira revolução industrial. Ele entende erradamente a mediatização e a virtualização como aquele “novo grau de acumulação”, ao passo que, na realidade, elas andam de mãos dadas com a real “dessubstancialização” e desvalorização do valor. A isso se associa a crise da relação de dissociação entre os sexos e da “luta de classes” tradicional; também disso Debord ainda não tem noção. O que constitui a dialéctica paradoxal da sociedade do valor e da dissociação que se transmutou em espectáculo é o facto de que a consumação e libertação da individualidade abstracta são idênticas ao esvaziamento do valor e ao limite absoluto da acumulação. Os indivíduos são mais sujeitos do valor na mesma medida em que deixam de poder ser sujeitos do “trabalho”. Disso resulta uma enorme tensão, que se descarrega em formas de comportamento destrutivas e envenena cada vez mais o quotidiano. A crítica radical do valor e da dissociação entre os sexos precisa de aprender a lidar com essa tensão para que ela própria não se perca no turbilhão da crise espectacular.

Original Robert Kurz: Interview mit Sonia Montaño, IHU-Online-Zeitschrift, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Brasilien), 3.7.2006 http://www.exit-online.org/link.php?tabelle=autoren&posnr=271

Publicado na Revista IHU On-Line, nº 188, 10.07.2006, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, S. Leopoldo, Porto Alegre, Brasil http://www.unisinos.br/ihu/boletim/edicoes/boletim00188.pdf

Um alemão apaixonado pela flora brasileira

Após expedição ao Brasil, o botânico Karl von Martius se dedicou à pesquisa da flora e da cultura nacionais

Em 1817, chegava ao Brasil uma missão austríaca que trazia a arquiduquesa Leopoldina para se casar com D. Pedro I. Nessa expedição, vieram também diversos cientistas e artistas europeus, entre eles o jovem botânico alemão de 23 anos Karl Friedrich Philipp von Martius. Seu trabalho durante a viagem renderia a obra Flora brasiliensis , que levou 66 anos para ser concluída e é ainda hoje o mais completo e abrangente levantamento da flora nacional, com 22.767 espécies catalogadas.

Durante cerca de três anos, von Martius percorreu, ao lado do zoólogo alemão Johann Baptiste von Spix (1781-1826), aproximadamente dez mil quilômetros pelo interior do Brasil, recolhendo informações sobre a flora e a sociedade brasileiras. Em 1820, voltaram à Alemanha, onde começaram um esforço de catalogação e publicação do material aqui recolhido.

Esse trabalho resultou na obra Reise in Brasilien ( Viagem pelo Brasil ), concluída pelos cientistas em 1831, além da Flora Brasiliensis , conduzida por von Martius até sua morte, em 1868, e continuada por outros 65 cientistas até a publicação, em 1906. “A Flora Brasiliensis ainda é a maior obra de flora já feita no mundo, com o maior número de espécies e gêneros descritos”, afirma Rafaela Forzza, pesquisadora e curadora do Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. “Até hoje nenhum botânico brasileiro trabalha sem ela.”

Até o início de 2006, as consultas à Flora Brasiliensis se restringiam a especialistas, pois os poucos exemplares existentes estão protegidos em salas de obras raras de bibliotecas. No entanto, em março, foi inaugurada a exposição Flora Brasiliensis On-line , uma adaptação do original em papel para um portal na internet, que permite a qualquer pessoa consultar o conteúdo e as ilustrações da obra, sem perda de definição das imagens. O projeto, desenvolvido por pesquisadores do Departamento de Botânica do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas e pelo Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria), associação civil sem fins lucrativos, vem recebendo, desde o lançamento, cerca de dez mil visitantes por mês. A digitalização das imagens está sob a responsabilidade do Jardim Botânico de Missouri, nos Estados Unidos.

Von Martius, um cientista completo
As pesquisas de von Martius ganharam tamanho prestígio que, após sua volta para a Alemanha, ele foi nomeado professor da Universidade de Munique (em 1826) e diretor do Jardim Botânico da cidade (em 1832). Mas o pesquisador não restringiu seus estudos à botânica. No século 19, era comum que cientistas se dedicassem tanto às ciências naturais quanto às sociais. Com von Martius não foi diferente – ele também foi um apaixonado por antropologia, lingüística e música. Tanto que em sua viagem pelo Brasil realizou estudos etnográficos e coletou melodias indígenas e modinhas por meio de seu inseparável violino. Como resultado dessas pesquisas, von Martius publicou obras sobre a etnografia e a lingüística brasileiras que foram extremamente importantes para a formação de uma identidade nacional no momento pós-independência.

Entre as obras do cientista na área das ciências sociais, encontra-se o texto Como se deve escrever a história do Brasil , no qual ele propunha que o relato da história brasileira desse valor à contribuição das três raças para a formação do país, à língua e aos costumes indígenas, à atuação dos jesuítas e ao modo de vida colonial, entre outros aspectos. A obra mostra a preocupação com uma história que levasse em conta o passado nacional, comum a todos os brasileiros. Com esse texto, von Martius venceu um concurso promovido em 1840 pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

“O concurso em si já era parte do esforço da elite do novo país, apoiada pelo jovem Imperador, para conhecer o Brasil e lhe dar uma cara”, explica o historiador e professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, José Murilo de Carvalho. “O Brasil era o único país americano governado por uma monarquia, composto por diferentes culturas e que tentava organizar um governo nos moldes europeus. A necessidade de conhecer esse país e de construir sua historiografia era premente.”

Outras obras de von Martius foram de extrema importância para os estudos etnográficos brasileiros. Entre elas estão Contribuição para a etnografia e lingüística da América, especialmente do Brasil (1867) e Glossário das línguas brasileiras (1863), onde o pesquisador reuniu os vocábulos indígenas colhidos junto com Johann von Spix entre 1817 e 1820. Carvalho destaca um aspecto interessante na obra de von Martius: “Ele valoriza os três principais grupos humanos que constituíam o país na época – o nativo, o europeu e o africano. A singularidade do Brasil estaria nessa combinação.”

Uma vida dedicada à ciência
Von Martius nasceu no dia 17 de abril de 1794, em Erlangen, na Baviera (Alemanha). Filho primogênito de um farmacêutico da corte e professor universitário, doutorou-se em medicina aos 20 anos pela Universidade Fredericus Alexander, em sua cidade natal. Aos 28 anos, em 1823, casou-se com Franziska von Stengel (1805-1881), com quem teve quatro filhas e um filho.

O interesse de von Martius por botânica surgiu no fim da faculdade. Tanto que defendeu sua tese de doutorado nessa área e participou de um curso de aperfeiçoamento da Real Academia de Ciências de Munique, na Alemanha. Sua paixão por botânica também se revela na determinação de pesquisar a flora do Brasil em uma viagem recheada de dificuldades. As províncias de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Pernambuco, Piauí, Pará e Amazonas foram percorridas na maior parte do tempo em lombos de burros ou em canoas, com auxílio de tropeiros e guias nativos.

O maior legado de von Martius para a ciência foi, sem dúvida, a Flora Brasiliensis . Em seus 15 volumes, subdivididos em 40 partes, estão catalogadas todas as espécies vegetais brasileiras conhecidas na época. “Nada substituiu a Flora Brasiliensis e eu creio que nada vai substituir”, afirma Rafaela Forzza. “Na verdade, para grandes grupos da nossa flora, só temos essa obra de referência até hoje.” Além disso, a Flora Brasiliensis foi a primeira obra a apresentar e descrever muitas espécies até então desconhecidas para o mundo.

Von Martius se dedicou à ciência até sua morte, em 13 de dezembro de 1868, em Munique. Rafaela Forzza ressalta que o pesquisador foi, na verdade, um grande empreendedor, que deixou um enorme legado para a botânica brasileira. “Sem ele e a Flora Brasiliensis , certamente estaríamos hoje muito mais atrasados no conhecimento da flora brasileira.”

Bárbara Skaba
Especial para Ciência Hoje On-line

Política é assunto da alma

Ao meu único, eterno amor. Ao meu verdadeiro assunto de alma.

Rose de Melo Rocha

Eu estive ali. Você não viu. Eu tive todo o tempo do mundo. Este tempo tão infindável que a paixão confere aos compulsoriamente solitários. O tempo dos angustiados, dos esperançosos. Dos aflitos. Dos idiotas. Dos perdidos. Dos enamorados. Dos desiludidos. Dos loucamente encantados. Dos vadios. Dos que ainda esperam. Dos que desesperam. Dos que não suportam. Dos que quase gritam pelo amor que se perde. Dos malditos. Dos bêbados. Dos sóbrios. Dos ingênuos. Dos maliciosos.

Você não sabe. Eu olhei com calma demais aquelas pessoas que ficam chorando pelos cantos. Uma perdeu os dentes, e não pôde repor. Outra perdeu o emprego, e não suportou. Outras mais perderam pai, mãe, casa, família, juízo. Outras perderam apenas o eu. Outras aguardaram um casamento, um filho, um amor. Sempre procuraram e nunca, isto nunca chegou. Eu quis colar meu rosto no corpo de quem amei. Eu quis tanta coisa que não tive. Eu tive tanto do que não desejei. E todos, todos nós seguimos.

A política nacional me atordoa. Impressiona-me como eu, um dia tão militante, escuto como se não me dissessem respeito às declarações deste homem que se tornou presidente de meu país. E sigo sonhando com um país de homens e mulheres de mais verdade, e mais intensidade. Tenho carência de humanidade, esta humanista errante que sou, que sempre insistirei em ser.

As pessoas continuam em suas vidas, achando que é mais importante ir ao trabalho do que dizer um bom dia, achando que um bom dia nada traz. Eu fiquei aqui procurando palavras pra dizer, piegas, que amar importa, que o medo oprime. E, sim, fui piegas assumida. E, de alguma forma, desta forma, desafiei meu medo.

Os amores se perdem. Os amores e as convicções se perdem em meio dos cargos e dos enfados. Se perdem em meio de certezas e de objetivos. Se perdem por interesse demais e também por desinteresse.

O mundo devia ser feito de súplicas. Devia ser feito daquelas coisas que falamos pras nossas mães quando acordamos e, de repente, sentimos falta daquele dia remoto em que elas nos acordaram pra ver se estávamos com febre, ou com fome, ou com medo, ou com frio. O frio da alma é um frio essencialmente político. Queria que meu presidente soubesse disto. E me escutasse. Queria que sua mãe falasse com ele.

Rose de Melo Rocha é jornalista e pesquisadora, fez seus estudos de pós-doutorado em Ciências Sociais na PUC/SP. Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, é professora da PUC/SP e das Faculdades de Comunicações e Artes do SENAC. Sua tese “Estética da Violência: por uma arqueologia dos vestígios” recebeu da Intercom o prêmio de melhor tese de doutorado defendida em 1998. Tem livros publicados na área de comunicação e diversos artigos em revistas acadêmicas. É membro do centro de pesquisa Filocom (ECA/USP) e do Complexus (PUC/SP).

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Darwin e Popper: enganos, retratação, reconciliação

Colunista discute como um dos maiores filósofos da ciência do século 20 via o darwinismo

Na coluna de janeiro o foco foi Charles Darwin, super-herói científico. Ao discutir sua teoria evolucionária, citei o capítulo 4 da Origem das espécies , no qual ele define seleção natural. Pois bem, tenho de confessar um pecadilho de omissão: minha citação estava incompleta. Deveria ter sido assim: “A essa preservação de diferenças e variações, e eliminação daquelas que são injuriosas, chamei Seleção Natural ou Sobrevivência dos mais Aptos ” (em inglês, Survival of the Fittest ). Por que omiti propositadamente essa partezinha final (em itálico)?

Bem, em primeiro lugar, a expressão “sobrevivência dos mais aptos” não é de Darwin, tendo sido cunhada em 1857, dois anos antes da publicação da Origem das espécies , pelo filósofo e teorista político Herbert Spencer (1820-1903). Spencer foi responsável pela criação do que mais tarde veio a ser chamado de “darwinismo social”. Esse movimento – que tinha muito pouco a ver com Darwin e não foi endossado por ele – tratava sociedades humanas como sistemas que evoluem por competição entre indivíduos, grupos e nações.

Um dos seus maiores proponentes foi o biólogo alemão Ernst Haeckel (1834-1919), que acabou fornecendo a base “científica” para o infame movimento nazista. Por isso, a expressão “sobrevivência dos mais aptos” tornou-se meio maldita. Aliás, vale a pena mencionar que Darwin usou-a na Origem das espécies só por insistência de seu colega evolucionista Alfred Wallace (1823-1913), que temia que o termo “seleção natural” levasse alguém a postular a necessidade de alguma divindade para fazer a seleção. As carreiras e os pensamentos de Haeckel e Wallace serão apresentados com mais detalhe em colunas futuras.

O segundo motivo para a minha omissão foi que o enunciado da seleção natural em termos de “sobrevivência dos mais aptos” traz consigo um quebra-cabeça: como definir quem é o mais apto? A resposta dada pelos geneticistas quantitativos da primeira metade do século 20 foi: através da própria sobrevivência (aqui entendida como sobrevivência evolucionária, ou seja, a capacidade de se reproduzir e transmitir genes a gerações subseqüentes). Só que “sobrevivência dos mais aptos” torna-se então “sobrevivência de quem sobrevive”, um argumento circular, uma tautologia.

A polêmica de Popper
Esse problema foi percebido por vários pensadores, inclusive pelo austríaco Karl Popper (1902-1994), o mais famoso e influente filósofo da ciência no século 20, que escreveu: “Cheguei à conclusão de que o darwinismo não é uma teoria científica testável, mas sim um programa metafísico de pesquisa”. Dizem alguns filósofos que a intenção de Popper com essa afirmativa não era ofender ninguém. A verdade é que, alguns anos mais tarde, em sua aula inaugural no Colégio Darwin da Universidade de Cambridge (clique aqui para acesso ao conteúdo), ele disse: “Mudei de idéia a respeito da testabilidade e status lógico da teoria da seleção natural e estou contente de ter a oportunidade de fazer uma retratação”.

O que levou Popper a se retratar em 1977? Naquela altura do campeonato já havia a clara percepção do erro de definir “o mais apto” apenas como “o que sobrevive”. O que acontece é que, em cálculos de genética quantitativa, a “aptidão” é sempre medida pelo número de descendentes. Mas é um erro sério confundir o significado de um termo com a maneira de medi-lo.

Vejamos uma analogia: postula-se a existência de uma qualidade humana chamada “inteligência”, medida quantitativamente pelo teste de QI. Mas há muito mais dimensões no termo “inteligência” do que um teste de QI se propõe a quantificar, tais como a capacidade de apreender e organizar dados, capacidade de resolver problemas e empenhar-se em processos de pensamento abstrato etc.

Da mesma maneira, há muito mais envolvido em ser o mais apto do que simplesmente a sobrevivência evolucionária (veja aqui um belo artigo de Stephen Jay Gould sobre esse assunto). Popper inicialmente aceitou a caracterização quantitativa de alguns geneticistas como se fosse uma definição e embarcou em uma canoa furada!

Façamos um pequeno parêntese para relembrar um ponto fundamental. A evolução por seleção natural depende de dois processos distintos: a geração aleatória de diversidade (“o acaso”) e a persistência evolucionária dos indivíduos mais adaptados (“a necessidade”). Como colocou brilhantemente meu guru Stephen Jay Gould , “a variabilidade propõe, a seleção natural dispõe”.

Um segundo engano de Popper?
Pois bem, no capítulo 15 do seu famoso livro Conjectures and refutations: the growth of scientific knowledge , Popper escreveu (minha tradução): “O método através do qual se procura uma solução é geralmente o mesmo; é o método da tentativa e erro . Este, fundamentalmente, também é o método usado por organismos vivos no processo de adaptação”. Em minha opinião, Popper cometeu aqui um segundo engano evolucionário.

Pelo já exposto acima podemos ver que a evolução por seleção natural não ocorre por tentativa e erro e sim por erro e tentativa ! Afinal, a geração de variabilidade por mutações (“o erro”) vem primeiro, sendo então seguido pela seleção natural (“a tentativa”). Pode parecer que estou fazendo joguinho de palavras e discutindo quantos anjos dançam na ponta de um alfinete, mas a verdade é que a diferença é grande. Vejamos alguns exemplos.

Perante um problema científico, nós, meros mortais, tentamos ter uma boa idéia que nos leve a uma solução. Este constitui o método ortodoxo de tentativa e erro – exatamente o que Popper estava discutindo. Por outro lado, quando perguntaram ao genial químico americano Linus Pauling (1901-1994) como ele tinha tantas boas idéias, ele respondeu: “A maneira de ter boas idéias é primeiro ter um montão de idéias e depois jogar fora as ruins”. Vejam que a estratégia de Pauling é baseada em duas etapas: (1) criação de diversidade (“tenha um montão de idéias”) e (2) seleção (“jogue fora as idéias ruins”). Em outras palavras, esta é uma tática darwiniana!

O estratagema “Pauling-Darwin” para conseguir boas idéias é generalizável e tem importantes conseqüências práticas. Examinemos como um segundo exemplo hipotético o processo de entrada de alunos na universidade. O procedimento convencional é fazer um exame vestibular e escolher os alunos com melhores notas para admissão. Após o ingresso, a promoção dentro da universidade é fácil, pois o nível de exigência dos cursos é relativamente pequeno. A estratégia darwiniana envolveria admitir um número muito maior de alunos (admitir todos os candidatos ou fazer um vestibular que eliminasse apenas os completamente despreparados) e estabelecer critérios muito rígidos para avanço de um período a outro dentro da universidade.

Popper e Darwin reconciliados
O Livro do Apocalipse da Bíblia fala dos Quatro Cavaleiros: morte, guerra, fome e pestilência. Com os conflitos na Irlanda do Norte, no País Basco, em Ruanda e nos Bálcãs no final do século passado e, após o 11 de setembro, a invasão do Afeganistão e do Iraque no início do século 21, acredito que vamos ter de adicionar pelo menos quatro novos cavaleiros à tropa do Apocalipse: racismo, xenofobia, ódio étnico e intolerância religiosa. Para combater esses novos inimigos da humanidade, precisamos promover na sociedade a valorização da diversidade em todos os seus níveis: nas idéias, nos estilos de vida, na morfologia física, na cor de pele, na orientação sexual, na religião etc.

Foi exatamente isto que propôs Popper em seu livro Sociedade aberta e seus inimigos , uma bem-sucedida incursão na arena da filosofia política. Para Popper, a sociedade aberta é aquela na qual os líderes podem ser depostos sem necessidade de derramamento de sangue, em contraste, por exemplo, com ditaduras totalitárias, em que é necessária uma revolução ou um golpe para se conseguir mudança.

O conceito de sociedade aberta de Popper deriva de sua filosofia da ciência. Uma sociedade aberta tem de ser pluralista e multicultural para se beneficiar do número máximo de diferentes pontos de vista para solução dos problemas. E como ninguém tem conhecimento do que constitui um governo perfeito, a melhor maneira é os governantes estarem prontos a mudar suas políticas, adaptando-as de acordo com as necessidades e com as sugestões da população.

Vemos aqui os nossos dois elementos: diversidade e adaptação. Reflexos de Darwin? Certamente! A meu ver, esse modelo da sociedade aberta de Popper – e não a teoria competitiva, elitista e racista de Spencer, Haeckel e Hitler – deve ser entendido como o verdadeiro darwinismo social.

Para terminar esta coluna, transcrevo aqui uma passagem notável de Clarice Lispector sobre o potencial criativo do erro (do livro A paixão segundo G.H. ), que me foi enviada pelo amigo e colega do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares da UFMG, Carlos Antônio Brandão:

“E não me esquecer, ao começar o trabalho, de me preparar para errar. Não esquecer que o erro muitas vezes havia se tornado o meu caminho. Todas as vezes em que não dava certo o que eu pensava ou sentia – é que se fazia enfim uma brecha, e, se antes eu tivesse tido coragem já teria entrado por ela. Mas eu sempre tivera medo de delírio e erro. Meu erro, no entanto devia ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que saio do que conheço e do que entendo. Se a ’verdade‘ fosse aquilo que posso entender – terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho. A verdade tem que estar exatamente no que não poderei jamais compreender.”

Sergio Danilo Pena
Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia
Universidade Federal de Minas Gerais

Ciência Hoje on line

O tênue equilíbrio brasileiro

O aquecimento global pode enriquecer o Brasil – mas, se a mata continuar ardendo, o País quebra

Pedro Doria

As chuvas que sustentam a agricultura brasileira nascem na Amazônia. E, quando a floresta arde ou cai, a precipitação em Mato Grosso, Goiás, São Paulo – em todo o Brasil -, diminui. Com menos chuva, a plantação sofre e as hidrelétricas produzem menos. Outro apagão pode vir, assim como uma crise na colheita.
A Amazônia não será desmatada até a última árvore: há um ponto de desequilíbrio. Quando a mata chegar a um tamanho tal que não seja mais capaz de reter a umidade que a sustenta, sumirá. Este momento ninguém sabe qual é. Achava-se que aconteceria lá pelo fim do século. Nas contas do professor Daniel Nepstad, vem muito antes.
Nepstad é americano com residência permanente no Brasil e em busca da nacionalidade.
Doutor pela Universidade de Yale em Ecologia Florestal, estuda a Amazônia há mais de 21 anos. Para ele, o Brasil está numa sinuca.
O País é a superpotência mundial em produção agrícola.
Produz o etanol mais eficiente com cana e a soja que alimenta rebanhos na Índia e China. O mundo precisa do Brasil para sobreviver ao aquecimento.
Mas a terra vasta, em que se plantando tudo dá, quem sustenta é a Amazônia, a mesma floresta cujo desmatamento colabora com o aquecimento que pode matá-la. Em resumo: o aquecimento pode enriquecer o Brasil.
Ou pode quebrá-lo.

Vivemos uma fase de aquecimento global. Com que o Brasil deve se preocupar?
A Amazônia será afetada seriamente. Os incêndios vão aumentar, virão secas imprevisíveis como a de 2005, que perturbou a navegação fluvial, criou problemas de saúde e mexeu com a vida de todos. As massas de ar que levam chuva ao cinturão agrícola do Brasil, incluindo o Estado de São Paulo, se originam nas árvores da Amazônia.
Conforme a floresta perde espaço substituída por outro tipo de vegetação que produz menos vapor d’água, todo o sistema de chuvas que mantém a agricultura brasileira fica ameaçado.
Outro problema é o sistema elétrico brasileiro que depende do regime de chuvas. Uma pequena redução da quantidade de chuvas ou um pequeno aumento da evaporação pode levar a zero a geração de energia em alguns lugares no período seco. Sentimos isto em 2003, durante o apagão. Aquilo foi provocado pelas poucas chuvas no sistema hidrelétrico do sul. Basta um aumento da temperatura de um ou dois graus e a quantidade de água perdida para a evaporação é suficiente para levar a zero a geração de energia.
No litoral o impacto será de erosão, conforme as tempestades aumentam sua força. Com o aumento do nível do mar haverá mais sal que mexerá com as terras das fazendas próximas ao oceano. Isto mexerá com a infra-estrutura e os prédios das grandes regiões metropolitanas ao longo da costa.
O Brasil já sofreu o primeiro furacão que a América do Sul jamais vira. Os climatologistas estão observando isto atentamente e o tema aparece no relatório do IPCC. Eventos climáticos extremados ficarão mais comuns. O aquecimento anômalo do Atlântico Tropical Norte, por exemplo, criou o furacão que nos custou New Orleans e também a zona de alta pressão sobre a Amazônia que provocou a seca de 2005.
Há também os problemas atuais com enchentes, que estão associados ao El Niño. Climatologistas que acham que fenômenos como o El Niño acontecerão com mais freqüência.

Tudo isto fica na conta do aquecimento global?
Há uma série de impactos ligados ao aumento anômalo da temperatura da superfície do oceano que muda os padrões de circulação de correntes em todo o mundo. O que conhecemos melhor é o El Niño. Um que conhecemos muito pouco é este do Atlântico Tropical Norte.
Mas é só o começo. E, claro, daí muitas das doenças que estão restritas à Zona Equatorial brasileira hoje se espalharão em direção ao sul.

Malária?
Malária e 65 vírus que incluem dengue e outros. Muitos estão restritos a determinadas áreas porque é muito frio no sul, ou muito seco. Isto é particularmente preocupante nas latitudes de temperaturas médias, onde há bastante frio. Com a mudança do clima, são áreas que ficarão vulneráveis.

Temos quanto tempo até que algo drástico aconteça?
A maioria das previsões de mudanças climáticas lança este momento para o final do século. O ponto de desequilíbrio da Amazônia, por exemplo, de acordo com os modelos de Gilvan Sampaio e Carlos Nobre, do CPTEC, o momento em que metade da Bacia Amazônica será ocupada por vegetação semi-árida, é no final do século.
Este modelo mexe com as temperaturas médias e regimes de chuvas e indica se o clima gerado favorece mais gramíneas ou árvores.
O que estas projeções não incluem é fogo. Nós estamos fazendo um levantamento integrado disto. Simulamos o uso da terra no futuro para um trabalho publicado na Nature há alguns meses. Agora temos um modelo para desmatamento, outro para incêndios e um terceiro para clima. O encontro destes modelos ainda não está completo, mas o que já ficou claro é que o ponto de desequilíbrio está muito mais próximo do que imaginávamos por conta das influências combinadas do desmatamento e do efeito inibidor dos incêndios sobre a chuva. Isto tudo já está acontecendo e numa década, ou pouco mais, veremos muitas mudanças na Amazônia.
Quando veremos eventos dramáticos, no fundo, é o chute que cada um estiver disposto a dar. Não dá para prever quando haverá outro furacão no Brasil, quando haverá outra seca como a de 2005 na Amazônia ou quando virá a próxima estiagem devastadora no sul. Em 2005, ninguém previu coisa alguma. A seca veio do nada e sequer podemos afirmar, com certeza, se ela está ligada ao aquecimento global, apenas que ela é consistente com todas as previsões de mudanças climáticas.

Então veremos mudanças ainda ao longo de nossas vidas?
Tenho quase 50 anos. No momento da morte, viverei num mundo muito diferente daquele em que nasci. Dá medo esse tempo em que vivemos. Muito medo.

E quanto ao impacto no agrobusiness? É grande, não?
Brasil é o superpoder agrícola do mundo. É o maior exportador de carne, de suco de laranja, de café, de açúcar, de etanol etc.
Tem mais espaço para expandir sua agricultura do que qualquer outro país e tem a maior infra-estrutura para isto apesar das deficiências de transporte. É o maior empreendedor agrícola que há. E isto vai de encontro com o aquecimento global.
A pressão da agricultura sobre a Amazônia e sobre o cerrado está crescendo. Assim, aumentam as emissões de carbono para a atmosfera. No momento, o desmatamento está diminuindo e o governo fez um trabalho fantástico. Mas esta diminuição tem mais a ver com o pequeno crescimento da economia.
O preço da soja aumenta por conta do biodiesel. Nos EUA, a área total de produção de soja está diminuindo porque eles estão mirando no etanol de milho.
Então, todas as conexões econômicas globais apontam para o Brasil como fonte do suprimento mundial de etanol de açúcar, de soja e de proteína vegetal. Nos países emergentes como China e Índia eles têm uma dieta de carne, porco, galinha alimentados com ração. A melhor fonte de proteína para ração é soja.
O Brasil está no olho do furacão, no meio de tudo. É vulnerável a mudanças climáticas e a vacilações no agrobusiness.
Um único caso de aftosa, numa única fazenda, pode provocar a rejeição internacional de toda carne. Ao mesmo tempo, o Brasil pode subir o nível, impor limites de produção ecológica e responsável em todo mundo. É o caso da reserva legal. Pelo que sei, apenas o Paraguai tem um sistema de reserva legal e nada tão ambicioso quanto o brasileiro.
Ao invés de ser criticado pelos europeus, pelo Greenpeace, por ter mão-de-obra escrava, por desmatar a Amazônia, o Brasil poderia virar a mesa. Poderia apontar o dedo para os produtores americanos, para os europeus, e dizer ‘quero que vocês produzam responsavelmente como nós; que tenham licenças de propriedades que delimitem o uso da terra’. O Brasil poderia estar melhor posicionado estrategicamente para ditar limites em todo mundo sobre a maneira que produzimos comida, enfatizando o uso de menos agrotóxico e menos combustível fóssil.

O Brasil é um dos maiores vilões do aquecimento global, não é?
É. O Brasil é o maior emissor de carbono por desmatamento. Pense numa floresta como um grande saco de carbono.
Então, se você pega uma floresta e a queima e a joga no ar, conforme a floresta cresce de novo, reabsorve o carbono até um determinado limite. Este grande ajuntamento de carbono, que é a Amazônia, tem por volta de 100 bilhões de toneladas. Todos os anos, a humanidade solta 8 bilhões de toneladas no ar. O destino do carbono incrustado nas árvores da Amazônia, de muitas formas, determinará se seremos capazes de manter a concentração atmosférica de 450 partes por milhão, ou não. Outro jogador grande é a Indonésia, por suas florestas. As emissões de carbono por conta de desmatamento, em todo o mundo, estão na ordem de 1,5 e 2 bilhões de toneladas por ano. Isto dobra em anos de seca.
Foi pressão brasileira que o desmatamento ficou de fora do Protocolo de Kyoto. Agora o Brasil propôs oficialmente um fundo de compensação para países que diminuam suas emissões por desmatamento. É um fundo voluntário e o País escolheu não participar. Só para dar uma idéia da magnitude destes investimentos, a União Européia anunciou, oficialmente, que aumentará seus objetivos de diminuição de emissões de carbono se a questão do desmatamento for trazida à mesa.

Funcionará como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, com créditos de carbono?
Sim, mas este é um mercado separado. Então as críticas anteriores, de que não devemos tirar a pressão sobre os países desenvolvidos para que melhorem suas indústrias e reavaliem sua produção energética, foi encarada desta forma. São dois mercados de créditos diferentes, um industrial, o outro de desmatamento. Então cada país só poderá compensar uma porção de seus objetivos comprando créditos.

Há um conflito dentro do governo brasileiro, onde ministérios não se entendem em suas prioridades e, no fim, a discussão sobre a preservação é evitada. Há saída?
Acho que a chave é ver o quanto o Brasil mudou. Se você dissesse, há dois anos, que o País apoiaria algum mecanismo para compensar nações tropicais que reduzissem emissão de carbono por desmatamento, muitos ririam. E o Brasil fez isso.

O balanço de políticas de contenção é difícil, não é? Para combater o aquecimentoé preciso reduzircrescimento e, com isto, quem se dá mal são os países mais pobres.
Estamos numa sinuca, não há outra maneira de falar. Biodiesel será parte da solução, mas para plantar vai ter que retirar vegetação rica em carbono. E tem estes problemas como os EUA, que estão embarcando na produção de etanol ineficiente.
O coeficiente de gasto de combustível fóssil para produção de etanol de milho é de 1,2. O de cana-de-açúcar gera 10 vezes a energia gasta em produção. O Brasil está bem posicionado para ser um líder mundial em suprimento de etanol produzido com cana. E a chave é descobrir como cultivar esta quantidade de cana sem desmatar a Amazônia ou avançar sobre o cerrado.
As alternativas não são nada atraentes e teremos de analisar com todo cuidado cada uma delas. Mas, mesmo com energia aeólica, biodiesel e mais conservação, ainda assim teremos problemas porque os gigantes econômicos emergentes, como Índia e China, vão precisar de mais energia.

E quanto ao impacto do aumento do nível do mar?
Uma das grandes discussões nas vésperas da publicação do relatório do IPCC foi a respeito da inclusão ou não dos dados recentes sobre a Groelândia.
Eles indicam que o gelo está derretendo. Como o IPCC, é por natureza, um órgão muito conservador, e ainda se discute se isto é temporário ou definitivo, a questão foi deixada de lado. Mas se falávamos de cenários com aumento de 40cm do nível do mar, agora está claro que, nas próximas décadas, pode haver aumento de até um metro. O que acontecerá depende daquelas geleiras. E, sabe, mesmo aumentos de 40 ou 50cm trarão um impacto enorme para a costa brasileira.

Principalmenteparao caso de Recife, não é?
Não só. Belém do Pará está logo acima da água. São 1,5 milhões de pessoas vivendo ali, no estuário do Amazonas. A urbanização brasileira quase toda está na costa.

Estado de S. Paulo

Especial “85 anos da Semana de Arte Moderna”

A TV Cultura exibe entre os dias 12 e 16 de fevereiro (segunda a sexta-feira), sempre às 20h, uma programação especial em homenagem aos 85 anos da Semana de Arte Moderna, realizada em 1922. Neste período serão apresentados documentários sobre o movimento e alguns dos nomes mais marcantes do modernismo.
Na segunda-feira (12/02) a TV Cultura leva ao ar o programa que destaca os principais fatos, personagens, atos e efeitos do movimento, com releituras de poemas de Mário de Andrade e Olavo Bilac, e apresentações das obras de Graça Aranha, Ronald de Carvalho, Villa-Lobos, dentre outros nomes da arte brasileira.
Na terça-feira (13) o tema do especial é Piano e Ganzá: O mundo musical de Mário de Andrade. O programa mostra a relação do escritor com a música e como esta influenciou sua vida e obra. O documentário explora seu acervo, citando textos, ensaios e melodias, e destacando a conservação dos discos, partituras, cadernetas, fotografias, filmes e uma série de objetos que incluem instrumentos musicais como o piano e o ganzá. Vários “Mários” serão retratados, desde o professor de piano e o fotógrafo, até o colecionador e o crítico de música.
Na quarta-feira (14/02) a emissora exibe o documentário Victor Brecheret, dedicado ao escultor ítalo-brasileiro, considerado um dos mais importantes do país. Brecheret é responsável pela introdução do modernismo na escultura brasileira. O episódio traz uma retrospectiva da vida e da obra do artista, revelando sua trajetória, o trabalho na Europa, participação no movimento modernista e o relacionamento com amigos famosos como Bourdelle, Brancusi, Léger e os brasileiros Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Antônio Gomide. Também mostra depoimentos da viúva e da filha do artista e imagens de obras representativas, como o Monumento às Bandeiras e o Monumento a Duque de Caixas.
Na quinta-feira (15/02) o especial retrata o multifacetado Menotti Del Picchia, poeta, escritor, dramaturgo, político, jornalista, pintor e escultor. O documentário traz o próprio artista, nos jardins de sua casa, onde conviveu com os amigos modernistas. Ele conta sua trajetória, lembra dos ideais da semana de 22 e fala da saudade de Villa-Lobos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Victor Brecheret, Di Cavalcanti e de sua última esposa, a pianista Helena Rudge Muller.
Na sexta-feira (16/02) a programação especial é encerrada com o documentário Oswald de Andrade por Antônio Cândido, que traz um depoimento erudito e comovido deste professor, crítico e amigo íntimo do artista paulistano. Nele, Cândido conta sobre a vida e a obra de Oswald, e fala da relação que mantinha com o teatro, a contribuição do movimento tropicalista para difusão de seu nome, seu valor perante a vanguarda literária e as influências do comunismo em sua arte. Traz também participação de Antônio Abujamra, contando episódios do cotidiano do escritor.
Segunda a sexta, de 12 a 16 de fevereiro, às 20h.

TV Cultura

Carvão vegetal: o monstro existe

Lúcio Flávio Pinto

Entre 500 e mil caminhões trafegam pelo sul e sudeste do Pará, com epicentro em Marabá, escoando a produção de milhares de fornos primitivos, mais conhecidos como “rabos quentes”, operados por algo como 20 mil pessoas, que produzem diariamente milhares de metros cúbicos de carvão vegetal. O monstro vem crescendo há anos, mas parecia envolto numa bolha opaca, que o tornava invisível. Só agora foi descoberto pelas autoridades.

Era o lixo, colocado para debaixo do tapete, de um expressivo pólo de ferro-gusa, já se aproximando da 20ª usina em operação, que se implantou ao longo da ferrovia de Carajás. Sete delas estão instaladas no Pará, que deverá receber mais cinco nos próximos meses. Outras 12 estão do lado do Maranhão, cinco das quais em Açailândia.

As guseiras foram se multiplicando, mas deixava-se para depois uma inquirição óbvia: de onde provém o carvão que utilizam? Enquanto havia meia dúzia de usinas, era possível ser embalado pela conversa de que o carvão era produzido apenas a partir de sobras de madeira das serrarias, sem provocar desmatamentos novos, e que logo essa fonte seria substituída pelas florestas energéticas, a partir de projetos de reflorestamento com eucalipto.

As sobras de madeira existem, as intenções reflorestadoras também. Mas nada equiparável ao consumo de carvão vegetal agora que o pólo começa a ter tamanho mundial, de 1,5 milhão de toneladas, necessitando de 4,2 milhões de metros cúbicos de carvão a cada ano. A competição se acirra, embora todas as usinas tenham um único fornecedor de minério de ferro, que é também o proprietário, por concessão pública, pelo prazo inicial de meio século, da ferrovia de Carajás: a Companhia Vale do Rio Doce.

Enquanto começam os ensaios para atrair a atenção do Cade, a agência do governo que combate a formação de cartel e a prática de dumping, para o virtual monopólio da CVRD na área, a Cosipar, a mais antiga guseira do Pará, montou, a partir de Marabá, uma insólita operação para transportar gusa através de caminhão, numa distância de mais de 500 quilômetros, em mil viagens (sem carga de retorno) para cada um dos três embarques que efetuou no porto de Vila do Conde.

Com essa façanha, autêntica ficção científica em matéria de economia mineral, a se sustentar no preço recorde (e provavelmente efêmero) do produto, graças à aquecida demanda chinesa, Luiz Carlos Monteiro, o dono da Cosipar, espera demonstrar a viabilidade do sistema de transposição da barragem de Tucuruí, livrando-se assim do monopólio ferroviário da CVRD. As eclusas ainda estão a claudicar no cronograma financeiro, apesar de mais uma rodada (literalmente) de promessa federal, renovada pelo presidente Lula, que disse estar empenhada em inaugurar a obra antes do final do seu mandato, no já tão próximo ano de 2006. Monteiro também ganhou o título de empresário do ano no Pará, outorgado pela Federação das Indústrias.

Visão de futuro? Nem tanto. Se a sala de visitas é bonita, a saída de emergência é terrível. Agora que ela se exibe, é difícil evitar o choque causado na opinião pública por uma atividade já expurgada de quase todos os países do mundo, num processo que reservou ao Brasil a triste condição de único grande produtor de gusa à base de carvão vegetal.

Quando o horizonte começou a ser desenhado, em 1982, com a criação do Programa Grande Carajás, nenhum dos personagens bem informados sobre esse novo capítulo desconhecia que se estava a inventar a pólvora. Um ponto de compra de carvão num lugar qualquer de uma floresta é como um vírus invasivo num organismo indefeso.

A pólvora pode ser boa, como o empresário-engenheiro mineiro Luiz Carlos Monteiro não se cansa de proclamar. Seria o ferro gusa tropical, de qualidade melhor, graças ao carvão vegetal, e que poderia imunizar-se contra os seus efeitos desastrosos com enormes áreas de reflorestamento e produção organizada. Isso, nas pranchetas e nos shows de informática. Na realidade, o que se tem visto é produção esmagadoramente clandestina, condição de trabalho desumana, seguidos acidentes nas estradas com caminhões de transporte de carvão, que trafegam velozes e sem os cuidados devidos, crimes se multiplicando, competição selvagem de preços e medidas demagógicas ou ineficientes para atacar o problema.

Certamente ele não será resolvido com medidas punitivas irreais, como uma pauta de valores inflacionada em 1000% nas operações interestaduais, para impedir a exportação de carvão, garantindo assim o suprimento das guseiras do Pará e gerando mais renda e mais imposto. Mesmo que haja boa intenção nessas iniciativas, elas espicaçarão o monstro sem poder contê-lo eficientemente em sua reação caótica e selvagem. As siderúrgicas locais foram atendidas enquanto os carvoeiros do Pará, especialmente os de Paragominas, foram contrariados. Eles querem continuar a vender para as usinas do Maranhão porque as paraenses não conseguem comprar-lhes toda a produção.

O monstro já foi criado e engordado por anos de omissão e conivência. Agora é encará-lo de frente e encontrar um meio de domá-lo, o mais rápido possível e ao menor custo. Como essa abordagem exige coragem, competência, honestidade e independência, resolver o problema requer mudança equiparável a uma revolução num setor onde essas qualidades não estão nas prateleiras.

Lúcio Flávio Pinto é jornalista.

NASA diz que geleiras derretem mais rápido do que o previsto

O GLOBO

WASHINGTON – Cientistas da Nasa afirmaram, nesta quinta-feira, que as geleiras estão derretendo muito mais rápido do que o esperado, devido às mudanças ocorridas nas placas de gelo da Groenlândia e da Antártida.

Mais da metade do atual aumento do nível dos oceanos está associado ao gelo que está derretendo na Groenlândia, no Mar de Amundsen na Antártida Ocidental e nas geleiras das montanhas – contou o cientista da Nasa Eric Rignot.

Ele e vários especialistas em oceanografia explicaram, durante uma coletiva de imprensa, que a agência espacial americana possui, pela primeira vez na História, a tecnologia necessária para entender as mudanças nos níveis do mar e seus efeitos a nível mundial.

Nesse sentido, Waleed Abdalati, responsável pelo Programa de Criosfera (nome dado às regiões cobertas por neve ou gelo) da Nasa, explicou que “estima-se que mais de cem milhões de pessoas serão afetadas pelo aumento de um metro no nível dos oceanos”.

No entanto, o especialista não soube dizer quando ocorrerá esse aumento.

A agência calcula que para 2006, o aumento do nível oceânico alcançará os 50 milímetros com relação aos registrados em 1994.

Os novos satélites da Nasa serão capazes de prever com exatidão, durante os próximos anos, o nível de elevação dos oceanos e os motivos que provocam essas mudanças.

- Nos últimos 50 anos, o nível dos mares aumentou em um ritmo estimado de 1,77 anuais, mas nos últimos 12 anos esse ritmo parece ser de 3,048 milímetros anuais -assegurou Steve Narem, professor da Universidade do Colorado.

Narem afirmou que “cerca de metade desse aumento está associado à expansão da água dos oceanos, que teve lugar na raiz do aumento das temperaturas”.

Entre as missões da Nasa dedicadas a acompanhar a evolução dos oceanos estão o satélite Grace, cuja missão tem o objetivo de entender o movimento da água na Terra, e o Topex, satélite dos EUA e da França que utiliza um radar para medir com precisão a superfície oceânica.

A esses dois satélites se somam o Jason, que mede o nível dos mares e monitora a circulação oceânica, e o ICESat, cujo principal objetivo consiste em estudar as massas de gelo polar e sua mudança nas águas marítimas.