Monthly Archives: dezembro 2006

Boa virada de ano

Há quem diga que o ano não vira. Argumentam que na verdade nós é quem inventamos este tal de calendário e o relógio, que são nossos parâmetros em questão de tempo. Mas nem sempre foi assim: houve época em que as estações do ano ditavam nossos hábitos, nossas vontades, nossos desejos. A primavera estimulava a reprodução, flertava com a beleza da gestação e do nascimento, representava as cores e a bênção que é a vida. O Verão é o desprendimento, o andar nú, gastar energia com a conversa, o nado e a sesta. O calor do sol penetrava em nossa pele e nutria nossos sonhos. A sobriedade e a reflexão chegavam com o inverno. O andar colado em busca do calor humano não nos deixava esquecer que a solidariedade acompanha a vida em sociedade desde o seu nascedouro. Vivemos mais felizes quanto mais próximos: é a sina da nossa espécie. Por fim o outono, que nos remetia ao planejamento, ao estoque, ao econômico. Viver intensamente esta estação do ano significava trabalhar para satisfazer as necessidades do amanhã.

Saber a estação do ano era menos do que uma obrigação e mais uma sensação.

Mas as coisas não são mais desta forma e, para ser sincero, já estou tão acostumado com as datas e comemorações que vou desejar assim mesmo um 2007 de muita força para superar as adversidades e muita energia para gastar com as conquistas.

Boas festas.

Blog Controvérsia

Ricardo Alvarez

mensagem ao Blog

Prezado Ricardo, uma das coisas boas da campanha para Governador foi ter me aproximado do companheiro e de sua família. Quero aproveitar a oportunidade para agradecer seu apoio e desejar a todos um 2007 cheio de alegrias e realizações.’

Plinio de Arruda Sampaio

Candidato a governador do Estado de São Paulo pelo P-sol nas últimas eleições e diretor do site Correio da Cidadania.

Aterros desativados de São Paulo são potenciais poluidores

Alan Meguerditchian, do Aprendiz

Mesmo fora de operação, cinco aterros de lixo da cidade de São Paulo são potenciais poluidores e de alto risco de contaminação ao meio-ambiente. Segundo a dissertação de mestrado do geógrafo Otávio Cabrera De Léo, defendida na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP), são eles: Vila Jacuí, São Mateus, Sapopemba (Zona Leste), Vila Albertina (Zona Norte) e Santo Amaro (Zona Sul).

O pesquisador analisou a situação dos 15 aterros oficiais desativados do município desde a década de 1970 e identificou que os cinco produzem elevadas quantidades de chorume (líquido que resulta da decomposição do lixo orgânico e que tem alta concentração de tóxicos) e de metano (gás tóxico produzido na degradação da matéria orgânica), devido ao volume de lixo armazenado. “Esses aterros não têm a impermeabilização do solo, o que pode levar o chorume até o lençol freático ou ainda, as águas da chuva podem levar as substâncias até o rio”, alerta o geógrafo.

“O que mais agrava a situação é a presença de residências em torno dos aterros. O cheiro, os ratos e a poluição afetam a qualidade de vida dessas pessoas e em alguns pontos existe a correlação entre a presença do aterro e casos de leptospirose (doença bacteriana transmitida por meio da urina do rato)”, explica.

De acordo com o pesquisador, a situação enfrentada hoje é resultado de um processo histórico que baseou o tratamento dos resíduos sólidos em uma matriz de grandes aterros nos quais eram depositados materiais sem o devido tratamento. “Tudo o que o homem produz, a natureza em algum momento recicla. O chorume é resultado da decomposição dos materiais orgânicos que estão em toneladas nos aterros. Não é possível retirá-los dali, nem tirar o líquido, pois sua distribuição no terreno é difusa, não concentrada. O que é possível fazer é aguardar a natureza realizar o seu trabalho e monitorar para que o líquido não atinja os recursos hídricos”, conta.

Tal trabalho já é feito. Só em 2004 foram gastos R$10 milhões, mas caso a concepção em torno da questão não se modifique, o problema continuará. Durante a pesquisa, De Léo identificou em dois aterros ativos potenciais poluidores semelhantes. “Os aterros Bandeirantes (Zona Norte) e Sítio São João (Zona Leste) funcionam no limite da capacidade. A vida útil deles já foi prolongada por cinco anos”, explica o geógrafo.

Apesar de serem considerados sanitários, pois são impermeabilizados por uma manta que isola o chorume, esses aterros não podem trabalhar além do limite, pois sua estrutura não está preparada para isso. Segundo o geógrafo, o aterro Bandeirantes produz oito litros de chorume por segundo, enquanto que o São João 21 litros por segundo.

Implantada em 1998, a lei da chamada taxa do lixo propunha a mudança de matriz de tratamento de resíduos, sugerindo a implantação de usinas de compostagem que fazem uma seleção mais seletiva dos resíduos. Revogada pela atual gestão, a proposta de modificação não é mais discutida. Enquanto isso, segundo o pesquisador, até propostas de retomar a queima do lixo em incineradores já foram levantadas. “Mudar a matriz custa muito e é um projeto a longo prazo. Mas instalar incineradores também é caro e agride ainda mais o meio-ambiente”, explica.

Segundo a pesquisa de De Léo, o restante dos aterros paulistanos desativados encontra-se controlado. “São locais que tiveram vida útil mais curta e com uma carga de resíduos menor”, conclui.

(Envolverde/Aprendiz)

Boas festas

O Blog CONTROVÉRSIA deseja a todos os visitantes e amigos muita força em 2007…

… para encarar e repudiar com veemência as mazelas políticas deste país;

… para aguentar as desilusões com as mudanças de base que não chegam e cobrar soluções populares;

… para repudiar a desigualdade social que amputa a condição de humanos de muitos;

… para enfrentar a injustiça, primogênita do poder econômico;

… para lutar por educação pública e de qualidade para todos;

… para anular o vigor dos que agridem e maltratam nossas crianças;

… para dizer em alto e bom som que as guerras não são necessidades humanas;

… pela desocupação do Iraque e do Haiti;

… pela reforma política que amplie a democracia, combata a corrupção e torne a política mais transparente;

… pela reforma econômica, que retire dos mais ricos e promova a distribuição de renda;

… pela reforma agrária, que transforme a terra em bem produtivo e alimente nosso povo faminto;

… pela geração de empregos dignos e valorizados;

… enfim, por um projeto de país no resgate de valores de cidadania, debatendo seu futuro, seus investimentos em áreas sociais e a ampliação dos direitos básicos. Que não se perca em discussões estúpidas de aumento de salários de deputados e juízes (assuntos que já deveriam estar resolvidos hà décadas), da falta de aviões, das mortes por anorexia, dos casamentos e separações de estrelas da mídia, das novelas que mostram ricos com problemas e pobres felizes, das cadelas das socialaites e da intimidade dos BBB.

Um mundo melhor só existirá se os que o desejam aglutinarem suas energias.

Vamos em frente e não para os lados.

Ricardo Alvarez

Amanhã 1977 – Guilherme Arantes

Amanhã, será um lindo dia, da mais louca alegria
Que se possa imaginar
Amanhã, redobrada força p’ra cima, que não cessa
Há de vingar

Amanhã, mais nenhum mistério, acima do ilusório
O astro-rei vai brilhar
Amanhã a luminosidade, alheia a qualquer vontade
Há de imperar

Amanhã está toda esperança por menor que pareça
Existe, e é p’ra vicejar
Amanhã, apesar de hoje, será a estrada que surge
P’ra se trilhar

Amanhã, mesmo que uns não queiram será de outros que esperam
Ver o dia raiar
Amanhã, ódios aplacados, temores abrandados, será pleno.

Política da França em relação aos imigrantes é cada vez mais restritiva

Os procedimentos de aprovação dos pedidos de permanência no território por imigrantes ficaram mais rigorosos; diminuem os pedidos de asilo

Laetitia Van Eeckhout

O controle cada vez mais severo dos fluxos da imigração não estaria pondo em perigo o direito de asilo político na França? Num relatório que foi publicado em 28 de novembro, a Comissão nacional consultiva dos direitos humanos (Cncdh) manifesta a sua preocupação diante da situação atual e sublinha os riscos inerentes ao fato de se confundir asilo e imigração.

“Nos últimos anos, as preocupações com segurança de um lado, econômicas do outro, têm servido com freqüência cada maior de pretextos para atiçar as suspeições em relações aos pedintes [de asilo]“, constata Stéphane Hessel, o presidente da Cncdh. Ele lembra que a concessão do direito de asilo é obtida de modo mais amplo em outras partes do mundo do que na França e na Europa, onde, contudo, “as condições econômicas e demográficas deveriam apresentar menos obstáculos”.

Em 5 de dezembro, por ocasião de uma reunião do comitê interministerial de controle da imigração, o governo comemorou a diminuição dos pedidos de asilo. De fato, após um período de aumento constante entre 1997 e 2003, a reversão da tendência, iniciada em 2004, ampliou-se em 2005: com 42.478 novos pedidos de asilo (número do qual estão excluídos os menores de idade que acompanham adultos), a França registrou uma nova diminuição, de 15,8%.

Este recuo acentuou-se mais ainda em 2006. No decorrer dos dez primeiros meses do ano, 22.043 pedidos foram registrados, contra 36.844 durante o mesmo período em 2005, ou seja, uma redução de 40,6%.

Para o primeiro-ministro, Dominique de Villepin, que deu declarações a respeito dessa questão em 5 de dezembro, esta evolução resulta da aceleração dos trâmites dos dossiês, “que dissuade aqueles que não são refugiados [políticos] de seguirem este caminho” para vir se instalar na França.

“Os grupos que promovem a imigração clandestina e os passadores entenderam a mensagem que nós lhes enviamos: a França recusa a imigração clandestina, a França está decidida a escolher seus fluxos migratórios”, insistiu, seis dias mais tarde, Nicolas Sarkozy. O ministro do Interior se disse satisfeito com o fato de a França, que estava em primeiro lugar entre as nações que acolhiam os pedintes de asilo entre os países industrializados até o final de 2005, ter passado para o segundo lugar, ficando atrás dos Estados Unidos e na frente do Reino Unido, da Alemanha, do Canadá e da Holanda.

Seguindo o exemplo de todas as associações de defesa dos direitos dos estrangeiros, a Cncdh apresenta uma “constatação alarmante” da evolução das condições de exercício do direito de asilo na França. Na origem do processo que é aberto uma vez que o candidato desembarca no território francês, o direito de asilo esbarra, segundo observa a Cncdh, em obstáculos crescentes que resultam das medidas de controle dos fluxos migratórios, adotadas ao longo dos últimos anos: uma política de concessão de vistos cada vez mais restritiva, uma multiplicação dos controles tanto na partida, nos países de origem, quanto na chegada…

Além disso, constata a Comissão, dentre os candidatos ao asilo que conseguem alcançar a França e adquirem o direito de apresentar um pedido de asilo, um número crescente de pessoa deixa de beneficiar de um exame eqüitativo do seu pedido de proteção.

Várias medidas recentes dificultam os procedimentos: encurtamento do prazo de apresentação do pedido, de um mês para 21 dias, necessidade de fornecer um endereço de hospedagem, exigência de um dossiê redigido em francês, colocação cada vez mais freqüente dos pedidos em regime de “processo prioritário”, ou seja, acelerado. Esses novos procedimentos, decorrentes das leis de 26 de novembro e de 10 de dezembro de 2003, tornam “sempre mais aleatório”, para os que solicitam o asilo, “o acesso à autorização provisória de permanência no território, assim como ao processo normal de exame do seu pedido”.

Atualmente, um terço dos estrangeiros que apresentam um pedido de asilo tem o seu dossiê colocado em regime de “processo prioritário”, ou ainda são considerados como da alçada do regulamento europeu chamado de Dublin II. Este último permite que um país membro da União Européia (UE) encaminhe um pedinte de asilo proveniente de um outro Estado da União de volta para este último.

Enquanto eles representavam menos de 10% dos pedidos globais de asilo em 2003, os “processos prioritários” passaram para 16% em 2004, e para 23% em 2005. Por meio deste tipo de processo, a taxa de aprovação é de 2,2%. Na maioria dos casos (56%), ele se aplica aos pedidos de reexame que vêm aumentando sensivelmente – 18,2% dos dossiês examinados pela Ofpra (Órgão oficial Francês para a Proteção dos Refugiados e Apátridas) contra 4,3% em 2003.

“As prefeituras”, observa a associação Forum dedicada aos refugiados, com sede em Lyon, “não raro consideram esses pedidos de reexame fraudulentos, abusivos ou dilatórios”, isto é, destinados a fazer obstáculo a uma medida de afastamento.

A Cncdh também manifesta sua preocupação em relação ao caráter frequentemente “abusivo” desse tipo de avaliação: com isso, pode ser considerado como fraudulento, abusivo ou dilatório o pedido de “estrangeiros que acabam de chegar ao território e que, nesta condição, dificilmente podem ser suspeitados, a priori, de intenção fraudulenta ou de quererem contrariar uma medida de afastamento, inclusive quando eles nem sequer tiveram a oportunidade de apresentar o seu pedido”, constata a comissão.

Em função disso, a entidade de defesa dos direitos humanos pede ao poder público que ele defina com maior precisão os critérios de colocação em regime de “processo prioritário” e enquadre com maior rigor o poder de avaliação das prefeituras, “que não têm competência para examinar as necessidades de proteção”, lembra a Cncdh.

Também são colocados sistematicamente neste regime de processo acelerado os súditos de países considerados como “países de origem seguros”. O pedido de um estrangeiro originário de um “país seguro” beneficia, assim como qualquer outro dossiê, de um exame individual pela Ofpra. Contudo, nem por isso este procedimento “constitui uma garantia de que o processo seja justo”, observa Anne Castagnos-Sen, autora da pesquisa da Cncdh. “Mesmo se ele for ouvido numa entrevista, o solicitante terá enormes dificuldades para contradizer a Ofpra em relação ao caráter ‘seguro’ do seu país”.

Em sua resposta às recomendações que a Cncdh lhe submeteu, o governo confirma que “a aplicação do conceito de ‘país seguro’ se traduz não por uma inadmissibilidade – que seria inconstitucional – e sim pela presunção de que o pedido está pouco fundamentado”. O governo nunca fez mistério de sua intenção: a instauração, em julho de 2005, de uma lista de “países seguros” visa a reduzir o número dos pedidos de asilo.

“A implantação de uma lista de ‘países seguros’ é de natureza a desorganizar grupos de imigração clandestina, a dissuadir os falsos solicitantes”, insiste o diretor geral da Ofpra, Jean-Loup Kuhn-Delforge, que enxerga nesta medida um dos principais fatores da diminuição dos pedidos de asilo.

“Nos seus aspectos mais importantes, a política de asilo está fundamentada num raciocínio dissuasivo. Não se analisa mais a situação das pessoas, e sim o nível dos fluxos. O asilo paga pela incúria das políticas migratórias”, denuncia, por sua vez, Olivier Brachet, o diretor da ONG Forum Réfugiés. Este admite que os que pedem asilo nem sempre são refugiados, mas, avalia Brachet, “este é de fato o resultado dos freios que têm sido impostos, já faz muitos anos, à imigração de trabalho, os quais perturbam todos os fluxos migratórios”.

Se, em relação ao número de chegadas de solicitantes de asilo, a França se inscreve na tendência européia à diminuição, ela continua sendo, entretanto, um país que oferece uma das taxas mais elevadas de proteção. Num grande número de Estados-membros, o que tem sido observado é um nítido recuo da proteção chamada de “convencional”, ou seja, que diz respeito à Convenção de Genebra de 1951 sobre os refugiados, em proveito de estatutos menos protetores.

Na França, a “proteção subsidiária”, que dá direito apenas a uma carteira de permanência no território pelo prazo de um ano renovável, ainda é um regime marginal (4%). “Nos outros países, em certos casos é chamado de asilo aquilo que diz respeito antes à autorização de permanência. Na França, o asilo é sinônimo de Convenção de Genebra”, comenta Jean-Loup Kuhn-Delforge. Este tipo de asilo, que oferece uma menor proteção, vem progredindo apesar de tudo: 84 estatutos desse tipo foram concedidos em 2004, 557 em 2005 (dos quais, 108 pela Ofpra e 449 depois de um recurso).

Para as associações, portanto, a vigilância continua sendo uma prioridade. Tanto mais que a primeira instância, a Ofpra, cujo papel é supostamente de examinar os dossiês em profundidade, tem sido cada vez mais questionada pela Comissão de Recursos dos Refugiados (CRR).

Em 2005, esta última pronunciou uma quantidade maior de acordos do que a Ofpra: das 13.770 pessoas que se viram reconhecer a qualidade de refugiado, 4.184 acederam a esta condição em conseqüência de uma decisão da Ofpra, e 9.586 depois de uma decisão da CRR. No decorrer dos dez primeiros meses de 2006, a diferença entre as duas instâncias acentuou-se mais ainda, uma vez que a taxa de acordo da Ofpra caiu para 7,6%, em relação a uma taxa global de 19%.

“Nas aparências, a França pode se apresentar como um país acolhedor, exibindo uma taxa elevada de concessões de proteção dentro do regime prescrito pela Convenção de Genebra, e até mesmo uma taxa elevada de acordo global. Mesmo assim”, comenta Claire Rodier, do Grupo de informação e de apoio aos imigrantes (Gisti), “ela será cada vez menos um país de integração caso ela continuar a filtrar os solicitantes nas suas fronteiras, e até mesmo no seu país de origem, impedindo-os de acederem ao seu território. Quando milhares de refugiados potenciais ficam bloqueados às portas da Europa, os números podem ser enganadores”.

Neste contexto, a evolução do nível de proteção precisa ser objeto de uma vigilância atenta, para Olivier Brachet, da ONG Forum Réfugiés. Para ele, “um número de acordos inferior a 10.000 seria o sinal de que a França optou por ignorar decididamente os princípios do direito de asilo e que a reforma de 2003 levou tudo de roldão na passagem, inclusive o cuidado de fornecer proteção a pessoas ameaçadas por perseguições”.

Alertando para o perigo que representa a política que vem se desenvolvendo na Europa e tende “a influenciar os fluxos em vez de preservar os princípios fundamentais do asilo”, o representante do Alto Comissariado para as Nações Unidas dos Refugiados (Unhcr), Mohamed Boukry, por sua vez, apela à França para não romper com a sua tradição de acolhida dos refugiados. Sem questionar o direito dos Estados a gerir os fluxos migratórios, ele faz questão de lembrar que “um refugiado não é um migrante ordinário”.

Léxico
Nos procedimentos de exame de pedidos de asilo dentro do processo normal, o estrangeiro deve encaminhar para o Órgão Francês de Proteção dos Refugiados e Apátridas (Ofpra) o seu pedido de asilo dentro do prazo de 21 dias depois da obtenção da sua autorização provisória de permanência no território.

Nos procedimentos que caracterizam o processo prioritário, o solicitante não beneficia de uma autorização de permanência, nem de direitos sociais. Ele dispõe de apenas quinze dias para entregar seu dossiê para a Ofpra.

Este órgão deve pronunciar a sua decisão dentro de quinze dias (ou 96 horas caso a pessoa estiver colocada em regime de retenção). Além disso, o recurso perante a Comissão de Recursos dos Refugiados (CRR) não é suspensivo.

As diferentes categorias de asilo convencional
O direito de proteção é atribuído conformemente à Convenção de Genebra e garante um conjunto de direitos ao refugiado, que se vê então atribuir uma carteira de residente.

O direito constitucional
Ele é atribuído ao estrangeiro perseguido em razão da sua ação em favor da liberdade, e oferecer os mesmos direitos que o asilo convencional (10 a 15 decisões por ano).

A proteção subsidiária, por sua vez, é concedida para um período de um ano apenas, renovável, e só dá acesso a direitos reduzidos.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Le Monde

Repórter da TV Globo denuncia parcialidade na cobertura das eleições de 2006

Rodrigo Vianna, após questionar a cobertura da emissora das eleições, foi afastado do noticiário político. Nesta terça-feira (19), foi informado de que a Globo, após 12 anos, pretendia não renovar seu contrato. Em carta enviada aos colegas, obtida pela Carta Maior, ele acusa a parcialidade da empresa.

Bia Barbosa e Gilberto Maringoni – Carta Maior

SÃO PAULO – O repórter especial da Rede Globo de Televisão em São Paulo, Rodrigo Vianna, foi informado nesta terça-feira (19) que a empresa não pretende renovar seu contrato de trabalho, que expira em 31 de janeiro próximo. Profissional experiente, Vianna trabalha na rede desde 1995 e produziu mais de duas dezenas de matérias para o Globo Repórter, além de cobrir seis processos eleitorais. Vianna também mediou debates eleitorais para a prefeitura de Belém (2004) e para o governo do Mato Grosso (2006).

Segundo colegas, Vianna já estava decidido a também não renovar seu contrato em função do que ocorreu desde o início do processo eleitoral. Ao lado de outros jornalistas da emissora, ele foi um dos que questionou a parcialidade da cobertura realizada pela Globo. Nos últimos meses, foi afastado da cobertura política e destacado para atuar nos jornais locais. Procurado pela reportagem da Carta Maior, Vianna informou que não pode se manifestar por exigências do seu contrato, ainda em vigor. O chefe de jornalismo em São Paulo, Luiz Cláudio Latgé, também foi procurado, mas não foi encontrado para comentar o assunto.

Imediatamente após a conversa com a chefia no início da tarde desta terça, Rodrigo Vianna teve seu correio eletrônico interno e seu crachá bloqueados. Antes, no entanto, conseguiu enviar aos colegas uma mensagem em que explica as razões de seu afastamento e externa sua insatisfação com a cobertura da última disputa presidencial.

“O que fizemos na véspera da eleição foi incrível”, diz ele, ao comentar o desequilíbrio da cobertura. “Ninguém na redação queria poupar os petistas (…) O que pedíamos era isonomia. Durante duas semanas, às vésperas do primeiro turno, a Globo de São Paulo designou dois repórteres para acompanhar o caso dossiê: um em São Paulo, outro em Cuiabá. Mas, nada de Piracicaba, nada de Barjas [Negri, ex-ministro da Saúde]!”

Vianna destaca ainda “aquele episódio lamentável do abaixo-assinado, depois das matérias da Carta Capital”. Segundo ele, “foi um abaixo-assinado em defesa da Globo, apresentado por chefes!”

Leia abaixo a íntegra da mensagem, obtida com exclusividade pela Carta Maior.

Lealdade
Rodrigo Vianna

Quando cheguei à TV Globo, em 1995, eu tinha mais cabelo, mais esperança, e também mais ilusões. Perdi boa parte do primeiro e das últimas. A esperança diminuiu, mas sobrevive. Esperança de fazer jornalismo que sirva pra transformar – ainda que de forma modesta e pontual. Infelizmente, está difícil continuar cumprindo esse compromisso aqui na Globo. Por isso, estou indo embora.

Quando entrei na TV Globo, os amigos, os antigos colegas de Faculdade, diziam: “você não vai agüentar nem um ano naquela TV que manipula eleições, fatos, cérebros”. Agüentei doze anos. E vou dizer: costumava contar a meus amigos que na Globo fazíamos – sim – bom jornalismo. Havia, ao menos, um esforço nessa direção.

Na última década, em debates nas universidades, ou nas mesas de bar, a cada vez que me perguntavam sobre manipulação e controle político na Globo, eu costumava dizer: “olha, isso é coisa do passado; esse tempo ficou pra trás”.

Isso não era só um discurso. Acompanhei de perto a chegada de Evandro Carlos de Andrade ao comando da TV, e a tentativa dele de profissionalizar nosso trabalho. Jornalismo comunitário, cobertura política – da qual participei de 98 a 2006. Matérias didáticas sobre o voto, sobre a democracia. Cobertura factual das eleições, debates. Pode parecer bobagem, mas tive orgulho de participar desse momento de virada no Jornalismo da Globo.

Parecia uma virada. Infelizmente, a cobertura das eleições de 2006 mostrou que eu havia me iludido. O que vivemos aqui entre setembro e outubro de 2006 não foi ficção. Aconteceu.
Pode ser que algum chefe queira fazer abaixo-assinado para provar que não aconteceu. Mas, é ruim, hem!

Intervenção minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes, entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, à distância, por um personagem quase mítico que paira sobre a Redação: “o fulano (e vocês sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o fulano quer que mude essa palavra no texto”.

Tudo isso aconteceu. E nem foi o pior.

Na reta final do primeiro turno, os “aloprados do PT” aprontaram; e aloprados na chefia do jornalismo global botaram por terra anos de esforço para construir um novo tipo de trabalho aqui.
Ao lado de um grupo de colegas, entrei na sala de nosso chefe em São Paulo, no dia 18 de setembro, para reclamar da cobertura e pedir equilíbrio nas matérias: “por que não vamos repercutir a matéria da “Istoé”, mostrando que a gênese dos sanguessugas ocorreu sob os tucanos? Por que não vamos a Piracicaba, contar quem é Abel Pereira? ”

Por que isso, por que aquilo… Nenhuma resposta convincente. E uma cobertura desastrosa. Será que acharam que ninguém ia perceber?

Quando, no JN, chamavam Gedimar e Valdebran de “petistas” e, ao mesmo tempo, falavam de Abel Pereira como empresário ligado a um ex-ministro do “governo anterior”, acharam que ninguém ia achar estranho?

Faltando seis dias para o primeiro turno, o “petista” Humberto Costa foi indiciado pela PF. No caso dos vampiros. O fato foi parar em manchete no JN, e isso era normal. O anormal é que, no mesmo dia, esconderam o nome de Platão, ex-assessor do ministério na época de Serra/Barjas Negri. Os chefes sabiam da existência de Platão, pediram a produtores pra checar tudo sobre ele, mas preferiram não dar. Que jornalismo é esse, que poupa e defende Platão, mas detesta Freud! Deve haver uma explicação psicanalítica para jornalismo tão seletivo!

Ah, sim, Freud. Elio Gaspari chegou a pedir desculpas em nome dos jornalistas ao tal Freud Godoy. O cara pode ter muitos pecados. Mas, o que fizemos na véspera da eleição foi incrível: matéria mostrando as “suspeitas”, e apontando o dedo para a sala onde ele trabalhava, bem próximo à sala do presidente… A mensagem era clara. Mas, quando a PF concluiu que não havia nada contra ele, o principal telejornal da Globo silenciou antes da eleição.

Não vi matérias mostrando as conexões de Platão com Serra, com os tucanos.

Também não vi (antes do primeiro turno) reportagens mostrando quem era Abel Pereira, quem era Barjas Negri, e quais eram as conexões deles com PSDB. Mas vi várias matérias ressaltando os personagens petistas do escândalo. E, vejam: ninguém na Redação queria poupar os petistas (eu cobri durante meses o caso Santo André; eram matérias desfavoráveis a Lula e ao PT, nunca achei que não devêssemos fazer; seria o fim da picada…).

O que pedíamos era isonomia. Durante duas semanas, às vésperas do primeiro turno, a Globo de São Paulo designou dois repórteres para acompanhar o caso dossiê: um em São Paulo, outro em Cuiabá. Mas, nada de Piracicaba, nada de Barjas.!

Um colega nosso chegou a produzir, de forma precária, por telefone (vejam, bem, por telefone! Uma TV como a Globo fazer reportagem por telefone), reportagem com perfil do Abel. Foi editada, gerada para o Rio. Nunca foi ao ar!

Os telespectadores da Globo nunca viram Serra e os tucanos entregando ambulâncias cercados pelos deputados sanguessugas. Era o que estava na tal fita do “dossiê”. Outras TVs mostraram o vídeo, a internet mostrou. A Globo, não. Provava alguma coisa contra Serra? Não. Ele não era obrigado a saber das falcatruas de deputados do baixo clero. Mas, por que demos o gabinete de Freud pertinho de Lula, e não demos Serra com sanguessugas?

E o caso gravíssimo das perguntas para o Serra? Ouvi, de pelo menos 3 pessoas diretamente envolvidas com o SP-TV Segunda Edição, que as perguntas para o Serra, na entrevista ao vivo no jornal, às vésperas do primeiro turno, foram rigorosamente selecionadas. Aquele diretor (aquele, vocês sabem quem) teria mandado cortar todas as perguntas “desagradáveis”. A equipe do jornal ficou atônita. Entrevistas com os outros candidatos tinham sido duras, feitas com liberdade. Com o Serra, teria havido, deliberadamente, a intenção de amaciar.

E isso era um segredo de polichinelo. Muita gente ouviu essa história pelos corredores…

E as fotos da grana dos aloprados? Tínhamos que publicar? Claro. Mas, porque não demos a história completa? Os colegas que estavam na PF naquele dia (15 de setembro), tinham a gravação, mostrando as circunstâncias em que o delegado vazara as fotos. Justiça seja feita: sei que eles (repórter e produtor) queriam dar a matéria completa – as fotos, e as circunstâncias do vazamento. Podiam até proteger a fonte, mas escancarando o que são os bastidores de uma campanha no Brasil. Isso seria fazer jornalismo, expor as entranhas do poder.

Mais uma vez, fomos seletivos: as fotos mostradas com estardalhaço. A fita do delegado, essa sumiu!

Aquele diretor, aquele que controla cada palavra dos textos de política, disse que só tomou conhecimento do conteúdo da fita no dia seguinte. Quer que a gente acredite?
Por que nunca mostraram o conteúdo da fita do delegado no JN?

O JN levou um furo, foi isso?

Um colega nosso, aqui da Globo ouviu a fita e botou no site pessoal dele… Mas, a Globo não pôs no ar… O portal “G-1″ botou na íntegra a fita do delegado, dias depois de a “CartaCapital” ter dado o caso. Era noticia? Para o portal das Organizações Globo, era.

Por que o JN não deu no dia 29 de setembro? Levou um furo?
Não. Furada foi a cobertura da eleição. Infelizmente.

E, pra terminar, aquele episódio lamentável do abaixo-assinado, depois das matérias da “CartaCapital”. Respeito os colegas que assinaram. Alguns assinaram por medo, outros por convicção. Mas, o fato é que foi um abaixo-assinado em defesa da Globo, apresentado por chefes!
Pensem bem. Imaginem a seguinte hipótese: a revista “Quatro Rodas” dá matéria falando mal da suspensão de um carro da Volkswagen, acusando a empresa de deliberadamente não tomar conhecimento dos problemas. Aí, como resposta, os diretores da Volks têm a brilhante idéia de pedir aos metalúrgicos pra assinar um manifesto em defesa da empresa! O que vocês acham? Os metalúrgicos mandariam a direção da fábrica catar coquinho em Berlim!

Aqui, na Globo, muitos preferiram assinar. Por isso, talvez, tenhamos um metalúrgico na Presidência da República, enquanto os jornalistas ficaram falando sozinhos nessa eleição…
De resto, está difícil continuar fazendo jornalismo numa emissora que obriga repórteres a chamarem negros de “pretos e pardos”. Vocês já viram isso no ar? Sinto vergonha…
A justificativa: IBGE (e, portanto, o Estado brasileiro) usa essa nomenclatura. Problema do IBGE. Eu me recuso a entrar nessa. Delegados de policia (representantes do Estado) costumavam (até bem pouco tempo) tratar companheiras (mesmo em relações estáveis) como “concubinas” ou “amásias”. Nunca usamos esses termos!

Árabes que chegaram ao Brasil no início do século passado eram chamados de “turcos” pelas autoridades (o passaporte era do Império Turco Otomano, por isso a nomenclatura). Por causa disso, jornalistas deviam chamar libaneses de turcos?

Daqui a pouco, a Globo vai pedir para que chamemos a Parada Gay de “Parada dos Pederastas”. Francamente, não tenho mais estômago.

Mas, também, o que esperar de uma Redação que é dirigida por alguém que defende a cobertura feita pela Globo na época das Diretas?

Respeito a imensa maioria dos colegas que ficam aqui. Tenho certeza que vão continuar se esforçando pra fazer bom Jornalismo. Não será fácil a tarefa de vocês.

Olhem no ar. Ouçam os comentaristas. As poucas vozes dissonantes sumiram. Franklin Martins foi afastado. Do Bom dia Brasil ao JG, temos um desfile de gente que está do mesmo lado.
Mas sabem o que me deixou preocupado mesmo? O texto do João Roberto Marinho depois das eleições.

Ele comemorou a reação (dando a entender que foi absolutamente espontânea; será que disseram isso pra ele? Será que não contaram a ele do mal-estar na Redação de São Paulo?) de jornalistas em defesa da cobertura da Globo:

“(…)diante de calúnias e infâmias, reagem, não com dúvidas ou incertezas, mas com repúdio e indignação. Chamo isso de lealdade e confiança”.

Entendi. Ele comemora que não haja dúvidas e incertezas… Faz sentido. Incerteza atrapalha fechamento de jornal. Incerteza e dúvida são palavras terríveis. Devem ser banidas. Como qualquer um que diga que há racismo – sim – no Brasil.

E vejam o vocabulário: “lealdade e confiança”. Organizações ainda hoje bem populares na Itália costumam usar esse jargão da “lealdade”.

Caro João, você talvez nem saiba direito quem eu sou.
Mas, gostaria de dizer a você que lealdade devemos ter com princípios, e com a sociedade. A Globo, infelizmente, não foi “leal” com o público. Nem com os jornalistas.Vai pagar o preço por isso. É saudável que pague. Em nome da democracia!

João, da família Marinho, disse mais no brilhante comunicado interno:

“Pude ter certeza absoluta de que os colaboradores da Rede Globo sabem que podem e devem discordar das decisões editoriais no trabalho cotidiano que levam à feitura de nossos telejornais, porque o bom jornalismo é sempre resultado de muitas cabeças pensando”.

Caro João, em que planeta você vive? Várias cabeças? Nunca, nem na ditadura (dizem-me os companheiros mais antigos) tivemos na Globo um jornalismo tão centralizado, a tal ponto que os repórteres trabalham mais como bonecos de ventríloquos, especialmente na cobertura política!

Cumpro agora um dever de lealdade: informo-lhe que, passadas as eleições, quem discordou da linha editorial da casa foi posto na “geladeira”. Foi lamentável, caro João. Você devia saber como anda o ânimo da Redação – especialmente em São Paulo.

Boa parte dos seus “colaboradores” (você, João, aprendeu direitinho o vocabulário ideológico dos consultores e tecnocratas – “colaboradores”, essa é boa… Eu não sou colaborador, coisa nenhuma! Sou jornalista!) está triste e ressabiada com o que se passou.

Mas, isso tudo tem pouca importância.

Grave mesmo é a tela da Globo – no Jornalismo, especialmente – não refletir a diversidade social e política brasileira. Nos anos 90, houve um ensaio, um movimento em direção à pluralidade. Já abortado. Será que a opção é consciente?

Isso me lembra a Igreja Católica, que sob Ratzinger preferiu expurgar o braço progressista. Fez uma opção deliberada: preferiram ficar menores, porém mais coesos ideologicamente. Foi essa a opção de Ratzinger. Será essa a opção dos Marinho?
Depois, não sabem porque os protestantes crescem…
Eu, que não sou católico nem protestante, fico apenas preocupado por ver uma concessão pública ser usada dessa maneira!

Mas, essa é também uma carta de despedida, sentimental.
Por isso, peço licença pra falar de lembranças pessoais.

Foram quase doze anos de Globo.

Quando entrei na TV, em 95, lá na antiga sede da praça Marechal, havia a Toninha – nossa mendiga de estimação, debaixo do viaduto. Os berros que ela dava em frente à entrada da TV traziam uma dimensão humana ao ambiente, lembravam-nos da fragilidade de todos nós, de como nossa razão pode ser frágil.

Havia o João Paulada – o faz-tudo da Redação.
Havia a moça do cafezinho (feito no coador, e entregue em garrafas térmicas), a tia dos doces…
Era um ambiente mais caseiro, menos pomposo. Hoje, na hora de dizer tchau, sinto saudade de tudo aquilo.
Havia bares sujos, pessoas simples circulando em volta de todos nós – nas ruas, no Metrô, na padaria.

Todos, do apresentador ao contínuo, tinham que entrar a pé na Redação. Estacionamentos eram externos (não havia “vallet park”, nem catraca eletrônica). A caminhada pelas calçadas do centro da cidade obrigava-nos a um salutar contato com a desigualdade brasileira.

Hoje, quando olho pra nossa Redação aqui na Berrini, tenho a impressão que estou numa agência de publicidade. Ambiente asséptico, higienizado. Confortável, é verdade. Mas triste, quase desumano.

Mas, há as pessoas. Essas valem a pena.

Pra quem conseguiu chegar até o fim dessa longa carta, preciso dizer duas coisas…

1) Sinto-me aliviado por ficar longe de determinados personagens, pretensiosos e arrogantes, que exigem “lealdade”; parecem “poderosos chefões” falando com seus seguidores… Se depender de mim, como aconteceu na eleição, vão ficar falando sozinhos.

2) Mas, de meus colegas, da imensa maioria, vou sentir saudades.
Saudades das equipes na rua – UPJs que foram professores; cinegrafistas que foram companheiros; esses sim (todos) leais ao Jornalismo.
Saudades dos editores – que tiveram paciência com esse repórter aflito e procuraram ser leais às minúcias factuais.
Saudades dos produtores e dos chefes de reportagem – acho que fui leal com as pautas de vocês e (bem menos) com os horários!
Saudades de cada companheiro do apoio e da técnica – sempre leais.
Saudades especialmente, das grandes matérias no Globo Repórter – com aquela equipe de mestres (no Rio e em São Paulo) que aos poucos vai se desmontando, sem lealdade nem respeito com quem fez história (mas há bravos resistentes ainda).

Bem, pelo tom um tanto ácido dessa carta pode não parecer. Mas levo muita coisa boa daqui.

Perdi cabelos e ilusões. Mas, não a esperança.

Um beijo a todos.

Rodrigo Vianna.

Carta Maior

Filosofia para desencantados

Em seu livro Discretas Esperanças, a filósofa Olgária Matos sugere a retomada de uma educação humanista como forma de buscar a justa vida e o bem viver

Antonio Gonçalves Filho

Papel da imprensa, ética, despolitização do País. Esses três temas, muito discutidos entre intelectuais, mal chegam aos ouvidos de quem deveria. O livro Discretas Esperanças – Reflexões Filosóficas sobre o Mundo Contemporâneo (Nova Alexandria,208 págs., R$ 34), da filósofa Olgária Matos, trata deles e, embora não prescreva receitas sobre como viver bem, indica um caminho alternativo para os desencantados do mundo globalizado, propondo a revisitação da tradição humanista numa perspectiva renovada e renovadora. Em entrevista ao Estado, a filósofa falou sobre ele.

Discretas Esperanças fala sobre a ilusão do brasileiro, de que é possível conduzir a sociedade sem política, despolitização que estaria ligada à valorização das relações privadas em detrimento do que é público. Lembro-me da artista naturalizada brasileira Mira Schendel, que, comparando o Brasil com sua terra natal, dizia que, na Suíça, o que é um bem público é um bem comum, deve ser preservado. Aqui, um bem público é de ninguém, por isso tem de ser destruído. Será que vem daí o desapreço do brasileiro pela política?

Concordo com ela. A despolitização da política brasileira resulta nisso: o que é um bem comum é entendido como um bem de ninguém. Então, quando você vê esses fenômenos de corrupção, é um pouco a idéia de que aquele dinheiro não é de ninguém. Lembro-me de uma pesquisa feita no Rio com representantes das quatro classes, em que se perguntava às pessoas o que elas entendiam por direitos políticos, direitos civis e direitos sociais. Ninguém sabia responder. Esse exercício de cidadania, da compreensão de uma lei criadora de coesão social e de paz, não existe no Brasil. Essa questão ligada à ética e política mereceria dos partidos uma formação cidadã. O que significa isso? Dar aulas dos textos clássicos que trataram da questão republicana: Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Montesquieu, Voltaire. É preciso ter uma formação teórica sobre essas questões, caso contrário vamos ficar repetindo eternamente que as pessoas não sabem o que é um bem comum. Elas não sabem mesmo, porque isso não faz parte da experiência política brasileira e tampouco da educação básica. Não roubar, por exemplo. Quando era criança, você não voltava com um lápis que não era seu dentro do estojo. Essa noção se perdeu nas escolas e em casa. A nossa é uma sociedade extremamente tolerante e permissiva. Não podemos só condenar os políticos quando há uma tendência no mundo contemporâneo a não considerar crimes ataques ao patrimônio comum.

Estado de S. Paulo

Quase 8 mil visitas num mês: obrigado

O blog CONTROVÉRSIA completa hoje seu 5° mês no ar. Vários controversos enviaram mensagens, comentários das postagens e e-mail diversos, além das contribuições em poemas, notícias, fotos, charges e pautas em geral. A dinamicidade das postagens diárias e a diversidade dos temas abordados têm colaborado na freqüência dos visitantes.

Nestes últimos 30 dias somamos 7.900 visitas. Acompanhe-as mês a mês (desde 17 de julho).

1° mês: 3 mil visitas (0 a 3.000)
2° mês: 3 mil e 500 visitas (3.000 a 6.500)
3° mês: 5 mil visitas (6.500 a 11.500)
4° mês: 5 mil e 800 visitas (11.500 a 17.300)
5° mês: 7 mil e 900 visitas (17.300 a 25.200)

Obrigado pela audiência, sugestões e comentários.

Ricardo Alvarez

Aumento salarial de parlamentares distancia Congresso do País

Decisão amplia ainda mais o fosso existente entre o Congresso Nacional e o restante do país e torna salários de deputados e senadores 70 vezes maiores que o salário mínimo, para o qual parlamentares resistem a dar um maior aumento.

Da Redação – Carta Maior*

SÃO PAULO E BRASÍLIA – O aumento de mais de 90% aos salários dos deputados federais e senadores nesta quinta-feira (14), a ser aplicado a partir de 2007, amplia ainda mais o fosso existente entre o Congresso Nacional e o restante do país. Na mesma semana em que os parlamentares vinham rejeitando a proposta de aumento do salário mínimo de R$ 350 para R$ 420, a passagem do salário dos parlamentares de R$ 12.700 para R$ 24.500 fez com que a remuneração dos representantes da população se tornasse 70 vezes maior que o salário mínimo dos trabalhadores do país.

A decisão deve custar aos cofres públicos cerca de R$ 230 milhões em 2007. Mais uma vez, um assunto relacionado à ampliação de verbas destinadas aos parlamentares tem como pano de fundo uma eleição para a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados e do Senado, e reforça a impressão de que as recentes polêmicas ligadas ao tema – como a eleição para presidente da Câmara e posterior cassação de Severino Cavalcanti, os escândalos de sanguessugas e o suposto esquema do mensalão – pouco ou nada alteraram o modo de fazer política do atual Congresso (leia artigo).

O mais recente episódio de descolamento das questões internas e corporativas do Legislativo nacional em relação ao restante da população traz à tona, porém, outras questões, mais profundas. Demonstra, por um lado, a apropriação permanente do Estado brasileiro por suas classes dirigentes. As reações, ao mesmo tempo, podem ser entendidas como um sinal de que a população vem acompanhando cada vez mais de perto as decisões de seus representantes. (leia avaliação de Leonardo Barreto, da UnB)

Surpresa!
O aumento de 90,7% foi definido em uma reunião conjunta das lideranças em conjunto com as próprias Mesas Diretoras do Senado e da Câmara, não passando pelo plenário das Casas. No total, 20 deputados e seis senadores votaram pelo reajuste. Votaram contra somente os deputados Henrique Fontana (PT-RS) e Chico Alencar (PSOL-RJ), e a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL).

A decisão pegou de surpresa até parlamentares experientes, como o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), ex-presidente da Câmara que, há cerca de dois anos, não viu concretizada a sua intenção de se reeleger. Em conversa recente, Cunha tentou convencer o 2° vice-presidente da Mesa, Ciro Nogueira (PP-PI), a retardar o apoio à candidatura do atual presidente Aldo Rebelo (PCdoB-SP) por causa do “peso” acumulado por medidas como o corte de cargos de natureza especial. De Nogueira, soube que a votação do reajuste do salário dos congressistas já estava amarrada entre as lideranças do Parlamento. “Então acabou”, respondera o petista, antecipando a recondução de Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e o decretando um ponto final para as pretensões de Arlindo Chinaglia (PT-SP)

Os servidores concursados do Senado e da Câmara também foram deixados para trás com a decisão. Historicamente, os servidores tinham seus salários e os respectivos aumentos atrelados aos salários dos parlamentares. Mudanças de última hora na legislação, somadas a um ato das mesas diretoras do Congresso, derrubaram essa vinculação. A reportagem de Carta Maior buscou ouvir nesta sexta-feira (15) representantes do Sindilegis. De acordo com a assessoria de imprensa da entidade, porém, o sindicato não se pronunciará a respeito, por se tratar de um assunto de interesse dos parlamentares. A assessoria informou que é precoce dizer que a entidade não vá fazer nada, mas que, por ora, não há nada previsto.

Repercussões, discordâncias e justificativas
O presidente do PT, Marco Aurélio Garcia, afirmou nesta sexta-feira (15) em São Paulo à imprensa que o aumento aos parlamentares “não tem absolutamente nada a ver” com as eleições na Câmara e Senado. A declaração foi dada após sua participação no seminário “Reforma Política e Cidadania”, organizado pela Fundação Perseu Abramo. Para Garcia, “não vai haver problemas na sucessão da Câmara” e a base aliada deve chegar a uma posição unitária para a disputa. Comentando o histórico recente do Parlamento brasileiro, o presidente do PT registrou que a atual legislatura “foi muita atingida por uma série de problemas, que respondem menos por problemas dos parlamentas, e muito mais da estrutura política”. “Devemos nos preocupar mais com as estruturas políticas do país, para que elas impeçam que fenômenos como os que nós assistimos nesta legislatura se reproduzam”, defendeu Garcia. Também presente ao evento, Luiz Dulci, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, afirmou que não comentaria o episódio dos salários.

Em entrevista à Carta Maior, o deputado Chico Alencar, líder do PSol, afirmou que o Congresso se mostrou preso “a essa pauta corporativa e absurda que é o aumento salarial”, em lugar de priorizar uma agenda positiva para o país. Para ele, o “reajuste de 91% é escandaloso, de uma insensibilidade abissal com a população”. Nas projeções dele, os parlamentares deveriam ter um reajuste referente aos últimos quatro anos de acordo com a média do que foi dado no período aos servidores públicos federais – algo em torno de 18%. Líder de bancada, Henrique Fontana (PT-RS), que também votou contra o aumento de mais de 90%, defendeu a reposição da perda inflacionária no período, que é de cerca de 28%.

Presente à reunião que decidiu pelo aumento, o deputado do PSol avalia que foi uma medida “unilateral”. Segundo ele, os presidentes da Câmara, Aldo Rebelo, e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), propuseram uma pauta preliminar, que foi de equiparação salarial do Congresso com o teto do Judiciário. “Isso impediu que houvesse discussão de alternativas entre os parlamentares, e muitos declararam apoio simplesmente, sem qualquer manifestação além de um sim à equiparação”.

Aldo Rebelo defendeu a medida em declarações à imprensa, afirmando que “não haverá aumento de despesas”. Câmara e Senado, segundo ele, cortarão gastos suficientes para que o reajuste fique dentro do orçamento. É possível inclusive que Rebelo organize um ato simbólico em que “devolverá” recursos do Orçamento da Câmara ao Ministério do Planejamento, a fim de demonstrar os cuidados e atenção de sua gestão com o tema. O presidente do Senado, Renan Calheiros, adotou a mesma linha de Aldo ao falar à imprensa, garantindo que não haverá gastos extras com o reajuste. “Foi uma decisão dos líderes. No Senado, o impacto é menor, até porque já cortamos muita coisa”, afirmou.

Após solenidade na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no Rio de Janeiro, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, disse que o reajuste de 91% que os parlamentares definiram para os próprios salários “está um pouco descolado da realidade”.

Para o jurista e professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo Dalmo Dallari, “é preciso ter espírito público para fixar qualquer remuneração no setor público. E os parlamentares, aparentemente, não tiveram esse espírito público”. Dallari registra que os deputados e senadores exercem um mandato público, que emana do povo, então tem direito a uma boa remuneração: “é razoável que haja um bom salário, ou só os ricos poderiam suportar o dever de pertencer ao Legislativo”. O professor questiona o fato de que a mídia não aborda nem fiscaliza os supersalários no setor privado, que incluem, muitas vezes, expedientes como a sonegação de impostos. O jurista não deixa de registrar, por fim, que muitas vezes aqueles que se beneficiam pelos supersalários no setor público são os mesmos que se beneficiaram deles na área privada – e vice-versa, o que só é reforçado pela confusão entre o público e o privado verificada no Brasil.

Reconsideração?
Também presente ao seminário da Fundação Perseu Abramo, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) registrou à imprensa que “a reação da opinião pública, como era de se esperar, foi muito forte” e que seu gabinete recebeu inúmeros e-mails nesse sentido. Na avaliação de Suplicy, o tratamento dado ao salário mínimo deveria fazer com que os congressistas tivessem uma atitude mais responsável. “Minha recomendação às Mesas Diretoras do Congresso é que haja uma reconsideração”, explicou ele, acrescentando que vai conversar com outros parlamentares para buscar possíveis saídas para reverter o quadro – o senador petista também defendia o reajuste de 28%. “Isso a população poderia compreender como razoável”. O reajuste definido pareceu exagerado a Suplicy, ainda que esteja na Constituição que o salário dos parlamentares possa ser igualado aos do STF (Supremo Tribunal Federal).

O deputado Chico Alencar lamenta, em sintonia com o que é constatado pela imensa maioria da população brasileira, que há abusos salariais não só no Congresso, mas no Judiciário, no Tribunal de Contas da União, etc. Para ele, os parlamentares estão dispostos a enfrentar o desgaste referente ao aumento por acreditarem que as festas de fim-de-ano vão ofuscar qualquer manifestação contrária. Alencar afirma que seu partido usará de todos os meios legais, inclusive o judicial, para levar a decisão a uma discussão em plenário. Mas não nega seu desânimo. “Creio ser inevitável. Me parece que não mudaremos nada”.

Mobilização
Olhando a questão de forma mais ampla, e pensando mais em um horizonte de médio prazo sobre como o Legislativo deveria se organizar e se relacionar com o restante do país, Dallari defende que “o melhor, para o Legislativo, é que houvesse Reforma Política e moralização dos partidos”. Para ele, “sem um controle social rigoroso do que é feito no Congresso, sem mudanças sérias nas leis eleitorais e nas regras a que estão subordinados os parlamentares, não adianta nada fazer histeria por conta desse aumento salarial”.

Dallari avalia que, se o Executivo fizesse algo contra o aumento, criaria uma guerra com o Congresso, o que iria contra o interesse público e o equilíbrio entre os poderes. “O caminho para reverter esse reajuste é a mobilização popular”, avalia. “Se os instrumentos formais de controle do Legislativo não funcionam, é hora de convocar os sindicatos, os estudantes e os movimentos sociais para apresentar alternativas ao reajuste e propor uma revisão”.

A opinião de Dallari é compartilhada por Edílson de Paula, presidente da CUT-SP (Central Única dos Trabalhadores), que argumentou à Carta Maior que “não podemos nos calar diante deste fato” e que “precisamos mobilizar a população contra isso”. O dirigente sindical avaliou que o aumento é absurdo porque “enquanto os parlamentares elevam o seu próprio salário em 91%, querem conceder um pífio reajuste de 8% no salário mínimo”.

*Com reportagem de Antonio Biondi, Bia Barbosa, Marcel Gomes, Verena Glass, Rafael Sampaio e Mauricio Reimberg, de São Paulo, e Maurício Hashizume e Nelson Breve, de Brasília.

2006 É O ANO MAIS QUENTE; SECA PROVOCA FOME NA ÁFRICA

A Organização Meteorológica Mundial (OMM), vinculada à ONU, divulgou seu relatório sobre o estado do clima mundial afirmando que este será o sexto ano mais quente já registrado, embora a avaliação final só venha a ser divulgada em março de 2007. A média mundial de temperatura na superfície da Terra ficou 0,41º C acima da média anual registrada entre 1961 e 1990, de 14º C. No hemisfério Sul, este será o sétimo ano mais quente desde 1861, com a temperatura média 0,26º C acima da média dos últimos 30 anos, de 13,4º C. No hemisfério Norte, onde ficam as principais nações industrializadas, o ano será o quatro Amis quente, com temperaturas 0,58º C acima da média de 30 anos, de 14,6º C. Desde o início do século 20, a temperatura média mundial da superfície terrestre elevou-se em, aproximadamente, 0,7º C. A elevação, nota a OMM, não tem sido contínua, acentuando-se a partir de 1976, quando a média passou a subir 0,18º C a cada década. Nos hemisférios Norte e Sul, a temperatura média no período 1997-2006 superou, em 0,53º C e 0,27º C, respectivamente, a média registrada entre 1961 e 1990. Em muitos países europeus, o outono de 2006 foi o mais quente já registrado.

Estado de S. Paulo

A modernidade é nossa Antigüidade?

Na entrevista a seguir, Kurz fala sobre a atual situação da Alemanha e do capitalismo e responde à pergunta da Documenta: “A modernidade é nossa Antigüidade?”.

Quando se fala no fim da modernização, à qual paradigma estamos ainda nos referindo?

Robert Kurz: O conceito de moderno é bastante mutável e apreendido de maneiras inteiramente distintas, dependendo do contexto no qual se argumenta. Entre os históriadores, por exemplo, existe o conceito de “pré-moderno”, datado entre os séculos 16 e 17, e o moderno compreenderia todo o processo histórico a partir dessa época. Já na filosofia, o início do moderno é frequentemente assimilado ao Esclarecimento (ou Iluminismo) do século 18, ao qual todas as teorias e ideologias posteriores até hoje se referem direta ou indiretamente. Para a maioria dos economistas e sociólogos, por sua vez, o moderno começaria com a industrialização no início do século 19, da qual se origina uma história das diversas revoluções industriais, que culminaria hoje na terceira revolução industrial da microletrônica.

No campo da arte e da cultura, o conceito de moderno se estabelece de maneira marcante na reflexão apenas no século 20, antes da Primeira Guerra Mundial, não se estendendo como “clássico moderno” além das décadas de 50 e 60, quando parece se esgotar e desembocar no assim chamado pós-moderno.

Do campo da arte e do aparelho cultural, o tema do fim do moderno e do início de um pós-moderno estendeu-se, neste entretempo, para a filosofia, as teorias da história, a sociologia e até para a economia. A “nova economia” do capitalismo-cassino-internet foi descrita como um paradigma socioeconômico pós-moderno, como uma nova era de acumulação de capital e prosperidade, cuja bolha, de maneira patética, já estourou há alguns anos.

A desorientação parece tão completa, que Juergen Habermas já proclamava, no início dos anos 80, uma “nova intransparência”. O problema consiste no fato de que, no desenvolvimento do moderno, a perspectiva da totalidade social e da história se torna cada vez mais fugidia. As ciências sociais se “diferenciaram”, as teorias referem-se cada vez mais apenas a “partes do sistema”. O conjunto se perdeu, e desse refluxo e vazio o pós-moderno fez precisamente soar sua hora no culto desta desconexão.

Na pós-história, a história mesma foi atomizada; na sociologia, os “processos de individualização” (Ulrich Beck) reabilitados; e na economia os pontos de vista “microeconômicos” realçados e o conjunto capitalista dissolvido na particularidade dos “sujeitos econômicos”.

A mesma atomização processou-se na arte, na indústria cultural e nos estilos de vida alternativos. Cada um por si e Deus contra todos. Essa tendência à atomização não é apenas pura ideologia, mas apresenta também pressupostos sociais bem objetivos, que, não obstante, não foram até agora refletidos. A sociedade parece se dissolver numa ausência de conexão real, e esse processo é pensado de maneira igualmente sem conexão com a base social real, isto é, ele é reduplicado idealmente. Nesse sentido, o pós-moderno é, por assim dizer, a realização de sua própria profecia.

Mas uma outra perspectiva se oferece quando consideramos o conjunto da sociedade e da história. O moderno constituiu um contínuo e uma conexão categorial, uma certa formação histórica da sociedade, diferenciada de suas formas agrário-religiosas tradicionais. Essencial nesse processo é a constituição do capitalismo, por um lado, isto é, do moderno sistema de produção de mercadorias, e, por outro, das relações modernas entre os gêneros, no qual o patriarcado, bem como a reprodução social, foram “objetivados”.

O “trabalho abstrato”, a forma da mercadoria, a mediação do mercado mundial e a concorrência universal tornam-se determinações centrais. Essas formas aparentemente neutras são também “estruturalmente masculinas”, isto é, espelham a supremacia masculina na política e na economia, em certo sentido, também no aparelho cultural. As mulheres estão representadas neste setor, mas são também, como afirma a socióloga Regina Becker Schmidt, “duplamente socializadas”, pois aqueles momentos não originários da reprodução social (atividades domésticas, educação dos filho, empatia, trabalho amoroso), no “trabalho abstrato”, na política e no aparelho cultural foram apartados pelo capitalismo ascendente da sociabilidade oficial e historicamente delegados às mulheres. O capitalismo, o objetivo do moderno sistema de produção de mercadorias como da “valorização do capital” e de sua esfera política, constitui, dessa forma, igualmente, um sistema de “separação de gêneros” (Roswitha Scholz).

Mas o assim entendido “moderno” não constitui nenhum contínuo estático, porém dinâmico. Por essa razão, o conceito de “moderno” vai a par com o de modernização. A modernização foi inicialmente um processo de colonização externa e interna, ou seja, um processo de consolidação das modernas categorias sociais através do colonialismo europeu, externamente, e de subversão das velhas relações agrário-religiosas e dos vínculos pessoais, internamente. Esse processo foi desigual e completou-se nas diversas partes do mundo fora da Europa e da América do Norte em ondas intermitentes sucessivas, que se estenderam pelo século 20 adentro. Por esse motivo, fala-se também em “não-simultaneidade histórica”.

Mas, em segundo lugar, o conceito de modernização designa o desenvolvimento das modernas relações a partir de “seus próprios fundamentos” (Marx), a história da Revolução Industrial, as metamorfoses emergentes da esfera política (democratização) e as novas formas de expressão e da separação entre os gêneros.

Seria, portanto, o pós-moderno uma época essencialmente distinta do moderno. Por outro lado, o discurso do pós-moderno pressupõe que a modernização teria atingido seus limites históricos. O capitalismo e sua divisão de gêneros tornaram-se, na globalização, um sistema planetário e, nessa simultaneidade, esse desenvolvimento interno pareceria ter se esgotado. Há, de fato, novas formas de individualização, a internet, a economia transnacional, mas as modernas categorias sociais tornaram-se vazias e ocas. As mudanças econômicas, sociais e técnicas não correspondem mais aos novos conteúdos e perspectivas. Isso se mostra particularmente claro na esfera sensível da arte e da cultura. Mas essa dinâmica é apenas exterior. Com Paul Virilio, poderíamos falar de uma “rasante inércia”.

Tudo isso vem a par com um “crise econômica radicalizada”, que se estende da periferia até os centros capitalistas, na imagem do desemprego e da miséria em massa, nas infra-estruturas desarticuladas, no declínio da classe média, com as pessoas cada vez mais lançadas na precariedade social, entre elas muitas existências intelectuais e artísticas. Também a crescente migração global é parte da síndrome. No conjunto, estamos diante de uma crise global de nova qualidade. O pós-moderno não é uma época além do moderno, mas sim uma época da crise fundamental do moderno, uma época de transformação crítica rumo ao desconhecido, já que não se pode ser “mais moderno”, isto é, a modernização não encontra mais espaço para avançar.

A teoria e a ciência majoritariamente não compreenderam essa nova situação e procuram ainda navegar ao sabor do vento, pois não querem reconhecer o pós-moderno como crise do moderno em suas fronteiras históricas. Em parte, o pós-moderno é apresentado como uma suposta e completa nova época de virtualidade auto-confiante e de contigências “abertas”, enquanto que a realidade social se esfacela na dureza dos pressupostos reais do capitalismo, que já não podem mais nem sequer serem preenchidos.

É dessa maneira que Ulrich Beck e Anthony Giddens falam de uma “modernização reflexiva” e de uma “nova descoberta do político”. O moderno deve tornar-se “auto-reflexivo” em relação aos seus próprios potenciais engendrados e ameaças crescentes, sobretudo em relação ao equilíbrio ecológico. Mas aqui não há nenhum modo de trabalho compatível com o moderno. A destruição capitalista dos recursos vitais prossegue irrefreada e politicamente não há nada de novo a ser descoberto, pois a política, como instrumento corretivo de regulamentação do Estado nacional, não surte mais qualquer efeito na crise globalizada.

E também no cotidiano das relações essa crise fundamental se mostra evidente. Os indivíduos atomizados não se suportam mais entre si, as relações se precarizam no amor, a divisão de gêneros se decompõe e o cotidiano e o trato pessoal são, por assim dizer, “barbarizados”. O pós-moderno como uma nova época, ou como continuação da modernização, é simplesmente um embrulho enganador.

El Niño deve se intensificar e durar até a primavera de 2007

O El Niño deste ano foi considerado o grande responsável pela ausência de grandes furacões no Oceano Atlântico, depois da temporada recorde de 2005

Reuters

NOVA YORK – O fenômeno El Niño, que normalmente provoca transtornos no clima, vai atingir sua intensidade máxima durante o verão do hemisfério sul, e começará a perder força na primavera, segundo estimativa do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos. No Brasil, os efeitos normalmente são chuvas acima do normal nas regiões ao sul do País, durante o verão, e condições mais secas no Norte e Nordeste.

O centro, que faz parte da Administração Atmosférica e Oceânica Nacional dos EUA (NOAA), disse na quinta-feira, 7, que o fenômeno “vai chegar ao ápice durante o inverno do hemisfério norte, seguido pelo enfraquecimento de março a maio de 2007.” O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial, que modifica o clima até na África. Quando ele acontece, costuma haver seca em países como Austrália, Indonésia e Filipinas, e inundações na América Latina.

O El Niño deste ano foi considerado o grande responsável pela ausência de grandes furacões no Oceano Atlântico, depois da temporada recorde de 2005, que incluiu os furacões Katrina e Rita. Neste ano, houve apenas nove tempestades tropicais e furacões, enquanto no ano passado o número chegou a 28.

O fenômeno ganhou esse nome porque foi observado por pescadores de anchovas latino-americanos, no século 19, sempre perto do Natal (“niño” significa “menino”, em espanhol).

Entre dezembro e março, o clima vai ser mais seco que o normal “na maior parte da Malásia, na Indonésia, no norte e no leste da Austrália …, no norte da América do Sul e no sudeste da África”, previu o centro.

Haverá mais chuva que o normal no Uruguai, no nordeste da Argentina, no sudeste do Paraguai, nas costas do Equador e do norte do Peru, segundo a previsão.

O último El Niño de grande intensidade aconteceu em 1997/98, provocando grandes incêndios na região Norte do Brasil. No mundo todo, mais de 2.000 pessoas morreram, e os prejuízos superaram os US$ 33 bilhões.

Fundeb não resolverá a Educação, diz Ivan Valente

Alceu Luís Castilho
Especial para o Diário do Grande ABC

A PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que cria o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) foi aprovada em segundo turno pela Câmara no dia 6. Prevê aporte em quatro anos de 55,8 milhões para o ensino básico, gradualmente, pela União, Estados e Municípios.

Mas o deputado federal reeleito Ivan Valente (Psol-São Caetano), historicamente ligado ao tema, não está contente. Embora admita que a situação melhore, ele considera a medida insuficiente para resolver os problemas do setor. Fundador do PT, ele foi também um dos fundadores do partido que brotou da insatisfação de setores do PT com o governo Lula. O Psol só conseguiu eleger três deputados federais – os outros são Luciana Genro (RS) e Chico Alencar (RJ). Valente defende projetos que permitiriam maior fiscalização das universidades privadas.

DIÁRIO – O ex-ministro Paulo Renato diz que Fernando Haddad é o melhor dos três ministros que o Lula teve em Educação. O senhor concorda?
IVAN VALENTE – Fui oposição ao Paulo Renato durante oito anos. O projeto do Paulo Renato, o Fundef, é a socialização da miséria na Educação. Você equaliza fundos de Educação entre municípios mais pobres e mais ricos, mas não faz um aporte novo. A complementação da União é de apenas R$ 400 milhões, para atender 40 milhões de pessoas. Agora foi aprovado o Fundeb, e o problema continua sendo esse: qual o papel que terá a Educação, se haverá ou não investimento pesado. Com o Fundeb certamente melhora, porque ele vai da creche ao segundo grau, tenta atender ao conceito da Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Mas quero saber onde está o dinheiro para atender isso com qualidade? O governo federal propôs R$ 4,5 bilhões em quatro anos, gradual. Ou seja, nesse primeiro ano só vai ter R$ 900 milhões de dinheiro novo. É pouquíssimo, para toda a Educação básica.

DIÁRIO – O senhor acha que o nome dos três ministros fez diferença?
VALENTE – Eles seguem a atuação do governo Lula, com suas limitações financeiras e com um plano mínimo estabelecido. O Cristovam Buarque, que aparece como grande educador, não era uma pessoa integrada com os educadores do PT, era descolado. Nenhum dos três ministros teve ponte real com os educadores do PT, com o plano de 100 dias do PT. Quando o Paulo Renato diz que o Haddad é mais técnico, é que ele não precisa deixar marcas para a carreira. Reflete menos um projeto de quem quer tirar proveito para tirar projeção política.

DIÁRIO – Então o senhor considera um pouco melhor que o período Paulo Renato, mas insuficiente.
VALENTE – Completamente insuficiente. O ProUni, que é tido como um projeto que fez os pobres chegarem à universidade, é uma inversão de valores do projeto histórico do PT. Porque é transferência de recursos públicos para o setor privado, para garantir que as empresas privadas não caiam em inadimplência, usando um argumento sem dúvida atrativo para os milhões de jovens pobres sem acesso ao ensino superior. Mas o governo deveria investir na expansão da universidade pública, com qualidade.

DIÁRIO – É que o Haddad diz que as faculdades já tinham essa isenção, e na prática o governo está aproveitando a isenção que já existe…
VALENTE – Não é verdade. Eu briguei com ele dez vezes aqui na Comissão de Educação do PT, eu e o deputado Paulo Rubem (PT-PE). É porque não se vai atrás da cobrança de impostos dos caras. Então, já que eles sonegam, deixa pra lá. Mas isso é dinheiro público, arrecadação de impostos. E há um problema político além da transferência de recursos, pois você dá ao setor privado aquilo que eles precisam: o aval político, de que eles são úteis. Concordar com a meta do Fundeb, como eles fizeram, é coisa pequena.

DIÁRIO – Mas o senhor votou a favor do Fundeb.
VALENTE – Votamos porque não dá para votar contra. O problema é ter um projeto que melhora num prazo mais curto. O Fundeb é para 14 anos. Reconheço a complicação: o piso salarial do professor por aí é uma desgraça. A política educacional do PT não foi igualzinha. Mas o governo foi incapaz de fazer uma implementação gradual do projeto do partido, porque tinha uma limitação na política econômica.
DIÁRIO – Falar de conversão da dívida em educação, então, nesse contexto…
VALENTE – Isso é uma piada. Não existe. Tenho estudado o FMI, o Banco Mundial,coordenei uma frente parlamentar sobre as instituições multilaterais. Eles ditam as normas na educação brasileira ao fazer empréstimos para a Educação. Empréstimos, e não fundo perdido. Essa idéia de conversão da dívida é uma bobagem, não aconteceu em nenhum país do mundo. Dinheiro da Educação é dinheiro do Estado.

Lagartos do Caribe passam por metamorfose em experiência sobre evolução

David Biello

Um pequeno lagarto que vive em ilhotas caribenhas poderia demonstrar a evolução em ação, se os furacões parassem de varrer esses locais. Jonathan Losos, da Universidade de Harvard, e seus colegas já tentaram observar três vezes a seleção natural em ação, até que surgem os furacões, inundam as ilhotas e acabam com a população estudada. Da última vez, foi o furacão Frances, em 2004. Entretanto, mesmo resultados preliminares da última rodada (de apenas um ano) já revelaram algumas provas surpreendentes de que a seleção natural age de forma rápida e pode até mesmo provocar reviravoltas.

Losos e sua equipe estudaram o Anolis sagrei – um lagarto pequeno e comum que tem uma dilatação característica na garganta, reproduz-se rapidamente e tende a viver no chão na ausência de predadores. Os cientistas descobriram 12 ilhas com populações naturais desses répteis, que ocorrem em versões com pernas curtas e compridas. Eles deixaram seis ilhas intocadas, apenas marcando os lagartos para a experiência. Nas outras seis ilhas, eles introduziram um predador comum — Leiocephalus carinatus, lagarto de cauda enrolada – para testar a hipótese de que no curto prazo essa mudança favoreceria o A. sagrei de membros longos (o que foge correndo melhor), mas no longo prazo favoreceria os A. sagrei de membros curtos (o que escala melhor) à medida que saem do solo e sobem nos arbustos para se proteger.

Esse experimento no mundo real tem valor científico enorme. “A maior parte desse tipo de trabalho ocorre sob condições artificiais”, diz o biólogo Butch Brodie, da Universidade da Virgínia. “Eles estão fazendo isso na natureza e de modo duplicado – isso permite que observem a evolução com todas as dificuldades e demônios, como furacões e variações climáticas.”

Mas, “para medir a seleção, é preciso comparar sobreviventes com não-sobreviventes”, ressalta Losos. Em maio de 2004, as 12 ilhas originais foram reduzidas a apenas cinco – três de controle e duas experimentais; nas outras, ou todos os lagartos sobreviveram ou todos morreram. No entanto, as medições dos membros dos machos nas duas ilhas experimentais remanescentes (as fêmeas não puderam ser incluídas em razão da propensão de pôr um ovo por semana, inchando o abdômen e atrapalhando as medições das patas) mostraram que durante os seis primeiros meses do ano o A. sagrei de patas mais longas sobreviveu à introdução do predador L. carinatus.

O segundo período de seis meses, porém, revelou que seus pares com membros menores se tornaram predominantes. “Em um prazo muito mais longo, esperamos que, com a presença contínua do L. carinatus, o A. sagrei permaneça em locais mais altos e finos, desenvolvendo por fim patas substancialmente mais curtas”, escreveu a equipe em um artigo apresentando o achado na edição de 17 de novembro da Science. Infelizmente, o grupo não conseguiu verificar se a redução da perna continuaria: o furacão Frances varreu essa possibilidade.

Mas o A. sagrei é resistente. “A população não se extingue”, afirma Losos. “Os ovos no solo vingaram pouco depois. Os Anoli estão repovoando agora.” E os cientistas perseveram: Losos planeja relançar o experimento uma vez mais e espera que haja um intervalo de cinco a 10 anos antes que o próximo furacão destrua os A. sagrei adultos. Além disso, a ciência, como a maré, não pára, revelando novas possibilidades para o futuro. “O genoma de um lagarto Anolis está sendo seqüenciado agora”, acrescenta Losos. “Talvez possamos ir lá e descobrir os genes que na verdade estão sendo selecionados.” Isso apenas se o clima – e os lagartos – cooperaram durante um longo prazo.

Scientific American

Soja orgânica versus soja transgênica

“A dependência resultante da adoção de transgênicos eliminará as chances da soja brasileira no mercado internacional e dificultará sobremaneira as possibilidades de resistência diante da imposição de maiores royalties sobre os insumos a serem adotados”.

É o que defende Antônio Inácio Andrioli, mestre em educação e doutor em ciências econômicas e sociais pela Universidade de Osnabrück/Alemanha. Em entrevista, ele analisa o empobrecimento dos pequenos agricultores com a soja transgênica, a alternativa agroecológica e a ideologia por trás da defesa aos transgênicos.

Fonte IHU On-line

O conflito em torno do cultivo da soja transgênica e da soja orgânica é discutido e debatido nos meios de comunicação como deveriam?
Antônio Andrioli – A grande mídia tem sido responsável pela difusão dos maiores argumentos favoráveis à expansão de cultivos transgênicos em todo o mundo. Esses argumentos não são novos, pois repetem as promessas da assim chamada Revolução Verde: aumento da produtividade, redução de custos de produção, maior eficiência no controle de pragas, doenças e dos assim chamados inços, maior proteção ambiental e, não por último, o combate à fome.

Nenhum desses argumentos é comprovado a longo prazo e a experiência com o cultivo da soja transgênica tem demonstrado, claramente, que, ao invés de solucionar problemas da agricultura, a transgenia vem provocando novos problemas técnicos, como a crescente resistência de várias ervas daninhas, o surgimento de novas doenças e pragas, menor produtividade, maior contaminação e desequilíbrio nos ecossistemas agrícolas, redução da vida nos solos (em especial, redução na atividade de bactérias fixadoras de nitrogênio).

A soja orgânica vem sendo constantemente apresentada meramente como um nicho de mercado para pequenos agricultores (com maior disponibilidade de força de trabalho familiar), mas com poucas chances de prosperar, considerando a estrutura agrícola hegemônica centrada na agricultura química e volta às exportações. Percebo muita propaganda a favor da soja transgênica na mídia e uma tendência internacional de difusão de promessas não comprovadas nas experiências práticas.

Os pequenos agricultores vão ser obrigados a seguir a estratégia das grandes multinacionais do setor agrário no que se refere ao cultivo da soja?
Andrioli – A existência dos pequenos agricultores como produtores individuais é dificultada pelo uso da transgenia na agricultura na mesma medida em que estes são obrigados a seguir a estratégia das grandes multinacionais do setor agrário, tendo em vista a “silenciosa” contaminação genética que está em curso. Como a soja transgênica está patenteada como propriedade intelectual de uma empresa e sua expansão, em função do risco de contaminação de lavouras vizinhas, tende a impedir o cultivo da soja convencional, a dependência dos agricultores em relação às empresas fornecedoras de insumos passa a ser integral, tendo em vista que seu uso passa a estar programado desde o momento da semeadura. Enquanto o capital (especialmente insumos, crédito, assim como a estrutura de industrialização e comercialização de produtos agrícolas), tende a ser crescentemente monopolizado, os agricultores são tencionados a concorrer entre si pela sobrevivência, o que, obviamente, resulta numa exclusão da maioria dos pequenos agricultores do processo produtivo.

Esta “silenciosa” contaminação genética da soja deflagra o empobrecimento e o endividamento dos pequenos agricultores? O que a sociedade pode fazer contra a transgenia?
Andrioli – A privatização de recursos naturais e de conhecimento em benefício de corporações multinacionais e grandes proprietários rurais aprofunda a desigualdade social na sociedade brasileira, um contexto no qual as possibilidades de resistência por parte de pequenos produtores individuais e de consumidores são significativamente reduzidas. A exclusão tendencial dos pequenos agricultores do processo produtivo intensifica a concentração da terra, acelera o êxodo rural e aumenta o número de sem-terras (que são, ao mesmo tempo, novos desempregados), uma tendência que contribui fortemente para o crescimento da desigualdade social no Brasil.

Tanto os consumidores, aos quais é negado o direito de escolher produtos no momento em que as condições de produção de soja não transgênica são reduzidas, como os pequenos agricultores, ameaçados de exclusão pelo endividamento e empobrecimento advindo do maior custo de produção da soja transgênica, poderiam unir-se, constituindo áreas livres de transgênicos, seja na produção, seja no consumo. Essa auto-organização cooperativa de produtores e consumidores atingidos pela expansão de transgênicos eu avalio como a melhor estratégia de resistência possível. E, se considerarmos que 70% dos consumidores brasileiros rejeitam alimentos transgênicos, esse potencial existe concretamente, carecendo de iniciativas de organização social. O assim chamado livre mercado capitalista, como podemos ver na história, não permitirá o acesso a produtos de melhor qualidade, pois está centrado na produção em massa, baixando preços ao externalizar os custos ambientais e sociais.

Sabemos pela imprensa que a soja transgênica vem sendo cultivada em áreas cada vez maiores no Estado. Tem como estipular quanto da soja plantada no Rio Grande do Sul já é transgênica?
Andrioli – As estimativas existentes são de 95% de soja transgênica no Rio Grande do Sul. Como a semente dessa soja foi contrabandeada, esses números nunca foram precisos, pois se trata de um cultivo ilegal. Na Região Fronteira Noroeste, a qual eu delimitei para meu estudo, posso apresentar dados da minha pesquisa de campo: 71% dos agricultores entrevistados afirmam que cultivam soja transgênica.

O cultivo da soja convencional vai se restringir apenas aos pequenos agricultores?
Andrioli – A soja convencional apresenta uma maior produtividade em relação à soja transgênica (resistente a herbicida) e um menor custo de produção a longo prazo. O preço da soja convencional é de, no mínimo, 4% maior ao da soja transgênica. Por isso, ela é economicamente mais viável. Um grande dilema advindo do contrabando da soja transgênica e da posterior legalização do seu cultivo é a menor disponibilidade de semente de soja convencional, uma vez que a coexistência entre ambos cultivos não é possível e há uma tendência de tornar as melhores variedades de soja disponíveis (resultado de décadas de pesquisa com dinheiro público) resistentes a herbicida (transgênicas, com tecnologia patenteada). Como vários problemas ambientais da soja transgênica já estão sendo evidenciados e sua viabilidade a longo prazo passa a ser negada, há uma boa probabilidade de retorno ao cultivo convencional, considerando os altos riscos da soja transgênica.

Mas, ao contrário da agricultura química, onde um reequilíbrio ambiental é possível, o uso da transgenia na agricultura não permite muitas possibilidades de retorno, pois as mudanças na reprodução de um ser vivo estão fora de controle da ciência (as características hereditárias se reproduzem sozinhas). Embora os pequenos agricultores ainda constituam a maior parcela de produtores de soja convencional, a sustentabilidade e a competitividade da produção da soja brasileira dependem de uma mudança de opção também dos grandes produtores e isso enquanto ainda há tempo (ainda contamos com cerca de metade da produção de soja sendo convencional). A dependência resultante da adoção de transgênicos eliminará as chances da soja brasileira no mercado internacional e dificultará sobremaneira as possibilidades de resistência diante da imposição de maiores royalties sobre os insumos a serem adotados.

A agricultura tende a ser completamente dominada pelo capital e virando um mero ramo da indústria?
Andrioli – O aumento da concentração no setor alimentício em nível mundial, a monopolização do complexo agroindustrial e a tendência de ampliação do livre mercado no setor agrícola intensificam a concorrência e colocam em risco a viabilidade dos pequenos agricultores. Nessa perspectiva, os agricultores tendem a ser “empregados disfarçados” do complexo agroindustrial que controlará o processo de produção de acordo com seus interesses de acumulação de maior capital. Os agricultores são tencionados a assumir maiores riscos e a produzir de acordo com as normas da indústria, interessada em vender mais insumos e adquirir matérias-primas mais baratas.

O resultado é uma maior exploração dos agricultores e do meio ambiente e a destruição da soberania alimentar de povos inteiros. A sobrevivência dos pequenos agricultores ainda poderá durar temporariamente em função da auto-exploração das famílias no processo produtivo. Em função dos seus maiores custos de produção por unidade de produto os pequenos agricultores são explorados no momento da venda de seus produtos no mercado e, enquanto ainda existir uma maior procura do que oferta, estes continuarão subsistindo.

Numa situação de superprodução, entretanto, que é típica na economia capitalista, os pequenos agricultores não terão mais condições de competir, seja no mercado “convencional” ou orgânico. Essa é uma tendência em curso que tende a se aprofundar nos próximos anos, caso não apareçam maiores iniciativas de organização social unindo agricultores e consumidores para resistir, ao constituírem outras formas de produção, industrialização e comercialização de alimentos.

Em que medida a tecnologia pode modificar ou fomentar a agricultura familiar?
Andrioli – A tecnologia pode modificar ou fomentar a agricultura familiar, intensificar ou reduzir as estruturas de dependência, aumentar ou diminuir as oportunidades dos pequenos agricultores. A introdução da soja cumpre uma função importante no desenvolvimento do Rio Grande do Sul, mas está relacionada a interesses de grandes corporações multinacionais, as quais têm sido beneficiadas com o processo de difusão de determinadas “inovações tecnológicas”.

O aumento dos custos de produção na agricultura familiar, em função da introdução de tecnologias de caráter destrutivo (do ponto de vista ambiental, social e cultural), constitui uma explicação para o endividamento, empobrecimento e o crescente êxodo rural. A dependência decorrente da expansão da soja transgênica demonstra claramente a incompatibilidade social e ambiental da transgenia para os agricultores familiares, pois ela tende a aumentar os problemas técnicos e despreza o fator econômico mais importante nas propriedades familiares: a disponibilidade de força de trabalho.

A monocultura da soja não representa uma alternativa viável aos pequenos agricultores, seja em sua forma convencional, transgênica ou orgânica, pois ela exige altos investimentos e crescentes áreas de terra para expandir. Nesses fatores, os pequenos agricultores têm as maiores dificuldades, seja em função da sua baixa capacidade de investimento, das menores condições de acesso a crédito e do fato de a terra ser um recurso limitado, que não pode ser simplesmente reproduzido.

A agroecologia pode ser vista como uma medida de redução dos custos de produção, preservação dos recursos naturais e melhor remuneração do trabalho dos agricultores em propriedades familiares?
Andrioli – Diante das condições objetivas existentes, as possibilidades de afirmação da soja orgânica são muito pequenas e, considerando as condições subjetivas, ou seja, a predisposição dos agricultores em cultivá-la decididamente, a probabilidade se reduz ainda mais. Apesar dos melhores preços e dos menores custos de produção da soja orgânica, a absoluta maioria dos agricultores passa a cultivar a soja transgênica.

Para compreendermos essa situação nos ocupamos intensivamente com a análise dos efeitos da tecnologia orientada pelos interesses do capital sobre a agricultura, especialmente com relação à supostas (e reais) reduções e facilidades de trabalho e a conseqüente tendência de adaptação e destruição da agricultura familiar e dos recursos naturais. A mera utilização de uma nova tecnologia ou de uma nova forma de produção, mesmo que estas sejam ecologicamente mais sustentáveis que os anteriores, tem uma pequena importância diante da problemática social dos pequenos agricultores.

Todo o complexo agroindustrial poderia se adaptar à produção orgânica, fornecer insumos “ecológicos”, adequar sua estrutura de industrialização e comercialização a produtos orgânicos sem que, com isso, a estrutura de dependência seja superada. Mas, considerando a existência de uma dualidade da agricultura familiar, ou seja, a interação entre produção e consumo, pode ser percebida uma crescente atenção dos pequenos agricultores com relação à qualidade dos alimentos e suas conseqüências à saúde da família. Essa relação entre produção de valor e necessidades humanas, contraditória com o modo de produção capitalista, constitui uma particularidade importante da agricultura familiar com relação à agroecologia, podendo servir de base para o desenvolvimento de tecnologias socialmente e ecologicamente mais apropriadas às necessidades dos agricultores.

É possível mostrar aos grandes agricultores que a agroecologia é uma boa alternativa de plantio?
Andrioli – Quanto mais a agricultura química continuar sendo incentivada através do complexo agroindustrial, quanto mais os solos forem sendo contaminados e sua fertilidade estiver ameaçada, quanto mais rápida for a expansão de organismos transgênicos e uma massiva deteriorização da estrutura de produção agrícola estiver em curso, maiores serão as dificuldades para uma transição agroecológica.

Essa é uma situação que deveria preocupar a todos os agricultores interessados na sustentabilidade da produção agrícola, na preservação da soberania alimentar e na viabilidade dos sistemas produtivos futuros. Infelizmente, a estrutura agrária brasileira, historicamente marcada pelo latifúndio, pelas exportações agrícolas e pela desigualdade no acesso aos recursos naturais tem desprezado a preservação ambiental.

O solo é visto como um substrato gratuito, do qual se espera infinitas condições de expansão. A atividade agrícola em grandes áreas, hegemonicamente centrada em monoculturas, esgota a capacidade produtiva dos imensos recursos naturais disponíveis no Brasil. A produção ecológica é possível em grandes áreas, mas ela implica numa mudança qualitativa na forma de produzir, o que envolve, principalmente, a combinação de fatores de produção, tecnologias sustentáveis e uma outra relação com a natureza e o trabalho. Essa perspectiva parece não ser muito atrativa para os grandes proprietários rurais brasileiros, historicamente acostumados a investir um mínimo necessário na expectativa de remunerar o capital ao máximo possível, desprezando a natureza e o trabalho, os fatores que conferem valor à produção agrícola.

Por que os governos têm adotado uma política agrícola que favorece os grandes produtores rurais? Existe algum avanço ou projeto de conscientização em favor da agroecologia?
Andrioli – A propriedade da terra constitui uma das formas históricas de poder no Brasil. Por isso, não é por acaso que nos parlamentos, no Poder Judiciário e em muitos governos os latifundiários (que, em sua maioria, vêem a terra como reserva de valor) estejam presentes, seja diretamente ou através de seus representantes e suas organizações. Mesmo governos contrários à forma destrutiva, injusta e mesmo ilegal com que os grandes proprietários rurais operam passam a ficar mais sensíveis às demandas propostas por estes em função dos compromissos assumidos para assegurar a governabilidade.

A base da estratégia econômica do atual governo é a política de altos juros e o apoio às exportações. O incentivo às exportações permitiu um superávit na balança comercial da ordem de 24,8 milhões de dólares em 2003, 33,7 milhões em 2004 e 44,8 milhões em 2005, que serviram, prioritariamente, ao pagamento de dívidas do país. Assim, se fecha um ciclo de interesses conciliatórios entre latifundiários e governos que marca a maior parte da história brasileira. Nesse contexto, os grandes produtores rurais são apresentados como progressistas, uma inversão da realidade, difundida pelos grandes meios de comunicação e aceita pela maioria da população.

O Brasil poderia ter aproveitado muito melhor seus recursos naturais, sua enorme biodiversidade, seu potencial de produção de alimentos de qualidade. Houve avanços no atual governo nessa direção. Especialmente através da ação do Ministério de Desenvolvimento Agrário, fomentando a produção ecológica (através da concessão de crédito facilitado, a formação, capacitação e a assistência técnica), a boa participação em feiras como a Biofach (em Nürembergue, na Alemanha, a maior feira internacional de produtos orgânicos), e o incentivo à constituição de redes de comercialização e industrialização de alimentos ecológicos.

O dilema é que esse potencial deixa de ser aproveitado exatamente pela prioridade do governo brasileiro nas exportações agrícolas vinculadas a monoculturas, a desigualdade na distribuição dos recursos em favor do modelo destrutivo de agricultura proposto pelos grandes produtores rurais (motivada pelas alianças no interior do governo e no Congresso Nacional), e o corte de recursos para a agricultura familiar e a Reforma Agrária em função da política econômica restritiva, neoliberal e compensatória.

Por que o debate sobre inovações tecnológicas na agricultura pode adquirir uma dimensão política?
Andrioli – O debate sobre inovações tecnológicas na agricultura pode adquirir uma dimensão política, ao unificar agricultores atingidos por tecnologias de caráter destrutivo, servindo como ponto de partida para a construção de um novo processo de consciência. A possibilidade de desmascarar o caráter explorador da agricultura capitalista através da experiência com a agroecologia e de associar a necessidade da organização política dos agricultores com outras forças anticapitalistas na sociedade pode conferir uma dimensão revolucionária a um movimento ecológico e cooperativo dos pequenos produtores.

Isso, entretanto, depende da possibilidade de desvelamento das contradições da economia capitalista, partindo de uma experiência de produção socializadora do seu interior, de maneira que as estruturas de dependência tecnológica, econômica e social deixem de ser ocultas e passem a ser conscientes, conduzindo à formação de movimentos sociais mais amplos.

MST

Pensamento

Escola é, sobretudo, gente. Gente que trabalha, que estuda, que se alegra, se conhece, se estima

Paulo Freire, educador pernambucano (1921-1997)

Desrespeito com o dinheiro público

Wilson Fernando Trevizam

Autoridades do Poder Legislativo, Ministério Público e do Judiciário querem aproveitar este final de ano para incluir no Orçamento da União verbas que aumentam seus próprios salários. Refiro-me a reajustes de vencimentos e gratificações que, se forem concedidos, irão causar um rombo bilionário aos cofres públicos, mas por outro lado deixarão deputados, senadores e membros do Judiciário, que já tiveram reajuste em 2006, com os salários ainda mais polpudos. Todas essas despesas estão na contramão das necessidades do país, que precisa justamente cortar gastos desnecessários para, dentre outras coisas, prosseguir com os avanços na área social, objetivando uma melhor distribuição de renda.

Primeiramente, gostaria de citar o caso dos deputados federais e senadores. Nossos parlamentares estão querendo aprovar até dezembro um reajuste de mais de 90% em seus vencimentos, passando dos atuais 12.800 para 24.500 reais, com o objetivo de equiparar seus salários aos dos ministros do STF. Não estão somados nesses valores as verbas de gabinete e outros benefícios, como passagem aérea e gastos com combustível. Seguindo o mesmo caminho, a chefe do Judiciário, ministra Ellen Gracie, decidiu pedir ao Congresso Nacional uma remuneração maior para os membros do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), entidade responsável pela implantação do teto salarial do Judiciário. Acintosamente, a ministra veio aos meios de comunicação dizer que o tal conselho estava se reunindo muito, duas vezes por semana, e resolveu criar uma gratificação de aproximadamente cinco mil reais para compensar tanto esforço. Conclusão: o salário dos membros do Conselho Nacional de Justiça irá ultrapassar o teto que eles mesmos estabeleceram e passará de 24.500 para 30.098 reais. Como se não bastasse isso, o Conselho Nacional do Ministério Público, que também quer tirar uma lasquinha do dinheiro do povo, decidiu estudar a equiparação do teto salarial da categoria ao CNJ. Nem é preciso dizer que todos esses aumentos causarão um enorme efeito cascata em todos os tribunais, procuradorias e assembléias legislativas do país e causarão ainda mais estragos nos bolsos da população.

Há, ainda, dois projetos de lei já aprovados no Congresso Nacional (PLs nºs 5845 e 6469/2005) que concedem um reajuste de até 154% às funções de confiança do Poder Judiciário Federal e Ministério Público da União. Descontando o salário e eventuais incorporações, a gratificação de um assessor de juiz ou desembargador passará de 2.986 reais para 7.596 reais. No caso de um assessor não concursado, o referido cargo em comissão passará de 7.791 reais para 11.687 reais, desconsiderando também eventuais incorporações e adicionais. Incluindo todos os benefícios, os salários dos assessores de ministros de tribunais, procuradores, desembargadores e juízes poderão ficar acima de 25 mil reais. Vale ressaltar que metade dos cargos comissionados pode ser preenchida sem concurso público, incentivando o apadrinhamento político, o nepotismo, a corrupção e o assédio moral, bem como a desvalorização e desqualificação dos cargos efetivos. É importante frisar também que no Poder Judiciário já se gasta mais de 60% da sua folha de pagamento com cargos de confiança e a distribuição de tais verbas não leva em conta critérios objetivos e democráticos, apenas a indicação por parte de autoridades que muitas vezes as utilizam para cooptar e aliciar servidores.

É fácil comprovar, após a exposição desses fatos, que princípios da administração pública, como moralidade, eficiência e impessoalidade estão sendo totalmente desprezados justamente por quem deveria zelar pelo cumprimento das leis neste País. Não há como negar que autoridades do Judiciário, do Ministério Público e do Legislativo estão utilizando recursos públicos em benefício próprio. E o que é pior, muitos sindicatos e associações de classe ignoram ou relutam em combater esses absurdos e tentam muitas vezes tirar proveito da situação para também obter alguma vantagem, escancarando o corporativismo existente em diversas categorias do funcionalismo.

Para terminar, é muito importante que entidades como a OAB, a imprensa, além da sociedade civil organizada, comecem a denunciar e interferir no processo de elaboração dos orçamentos governamentais, apresentando propostas e projetos de lei para combater essas práticas nefastas do serviço público brasileiro. Ao mesmo tempo, cabe a nós, como cidadãos, cobrar das autoridades soluções para que o dinheiro de nossos impostos não seja utilizado de uma maneira tão mesquinha e imoral, pois bilhões de reais estão sendo gastos para manter privilégios injustificáveis, sabendo que esses recursos poderiam ser utilizados para fins mais nobres, como o atendimento das necessidades básicas da população mais carente deste País. Uma distribuição de renda mais justa se faz também com o uso correto das verbas públicas.

Wilson Fernando Trevizam é funcionário público federal.

Lula e a esquerda

58 milhões de brasileiros preferiram correr o risco de votar num governo que os pode desiludir a votar num que, de saída, já não os ilude

Boaventura de Sousa Santos

Depois da inesperada fragilidade revelada no primeiro turno, a vitória retumbante de Lula no segundo deixou o mundo estupefacto. É um acontecimento político notável, e o mérito cabe por inteiro a Lula. Só ele poderia reacender o entusiasmo da mobilização em milhares de militantes magoados e desiludidos pelos desacertos da sua política durante o primeiro mandato. Mas as razões do seu êxito são bem mais profundas e merecem reflexão.

A vitória de Lula representa um “choque de realidade” para as elites políticas que governaram o Brasil até 2002. A distância e a arrogância que as separam do país real e a acumulação histórica de ressentimento que isso criou entre as classes populares não lhes permitiram aproveitar as fragilidades do candidato Lula. 58 milhões de brasileiros, na sua maioria pobres, preferiram correr o risco de votar num governo que os pode desiludir a votar num governo que, à partida, já não os consegue iludir.

É inescapável a perplexidade causada por duas enormes dissonâncias cognitivas reveladas nessas eleições. A primeira consiste na discrepância entre a dramática polarização política, sobretudo no segundo turno, e as diferenças moderadas entre as duas propostas políticas, sobretudo se tivermos em conta as políticas do primeiro mandato de Lula e se descontarmos o tema privatizações.

A segunda reside em que o candidato que conquistou o voto e o coração de milhões de pobres é o mesmo que recebeu efusivas e cúmplices felicitações de Bush, a quem só interessa o bem-estar dos ricos e dos muito ricos.

Essa foi a única eleição recente na América Latina em que o candidato de esquerda não sofreu a interferência da embaixada norte-americana. Significam essas dissonâncias que alguém está a enganar alguém? Não necessariamente. A razão para elas está no fato de a distância que separa as elites oligárquicas das classes populares não ser apenas econômica, apesar de esta ser enorme num dos países mais injustos do mundo. É também cultural e racial.

Isso explica o êxito da política simbólica de Lula, a sua capacidade para ampliar o impacto político de medidas relativamente tímidas, devolvendo a auto-estima a milhões de brasileiros humilhados não apenas pela fome mas também pelas barreiras no acesso à educação e pelo racismo insidioso da suposta democracia racial.

Graças a tal capacidade, medidas não originariamente de esquerda, como o Bolsa Família, puderam ser constitutivas de cidadania social, e pequenas transferências de renda puderam ser transformadas em mudanças qualitativas. Tudo isso foi possível devido a uma sutil inversão do sinal político: atribuído por Lula, o Bolsa Família foi entendido pelos brasileiros como “isso é o mínimo que vos devo”; fosse atribuído por um presidente de direita, dissesse o que dissesse, seria sempre entendido como “isso é o máximo que vos devo”. Essa inversão escapou aos analistas políticos.

O segundo mandato de Lula terá de ser diferente do primeiro. Com a lucidez habitual, Tarso Genro formulou o óbvio, que, em política, é quase sempre tabu: a era Palocci acabou. Só que acabou já há tempo, pelo menos desde que, no final de agosto, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social aprovou por unanimidade os “Enunciados da Concertação”. Entre eles, a baixa da taxa de juros para níveis médios internacionais nos próximos cinco anos e a duplicação da parcela da renda nacional apropriada pelos 20% mais pobres nos próximos 15.

A partir de 1º de janeiro, Lula terá de começar a preparar o pós-lulismo: uma forma de governação de esquerda que não dependa da capacidade de um líder carismático para disfarçar com o discurso da antipolítica a incapacidade para substituir a velha política por uma nova. Essa nova política tem de ser preparada de modo consistente, e o primeiro passo é certamente a reforma do sistema político e a reforma do Estado. Só elas permitirão concretizar as políticas de justiça social, cultural e racial em que os brasileiros depositaram a sua esperança.

Mas tudo isso só acontecerá se os brasileiros não se limitarem a esperar. E tudo leva a crer que assim sucederá. A plataforma política dos movimentos sociais -”Treze Pontos para um Projeto Popular para o Brasil”- apresentada a Lula em 19/10 é um sinal de que o tempo dos cheques em branco acabou e de que a luta contra a cultura política autoritária terá de ser travada com decisão para impedir que o golpismo ocorra, mesmo que a coberto da lei (exemplo grotesco dessa possibilidade é a vergonhosa sentença judicial contra o grande intelectual e democrata Emir Sader). Algures, entre os enunciados de concertação e os 13 pontos, a governação do segundo mandato será uma nova era.

Folha de S. Paulo, 22 de novembro de 2006.

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 65, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). Escreveu, entre outros livros, “A Gramática do Tempo: para uma Nova Cultura Política” (Cortez, 2006)

Comentário de uma “Controversa” sobre uma matéria do blog

Sr. Ricardo;

A obra literária “Gabriela Cravo e Canela”, escrita por Jorge Amado em 1958, relatam a cidade de Ilhéus na Bahia, no auge do cacau, isto é, no período de 1925. Seu enredo é regionalista romanceado, pois está escrevendo sob a influência da segunda fase do Modernismo, isto é uma cultura da Republica Velha (1889-1930), que até 1922 a cultura brasileira esteve presa aos padrões europeus e ao academicismo, que os artistas brasileiros como o escritor Oswald de Andrade e a artista plástica Tarsila do Amaral lançam em 1925 o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, que enfatiza a necessidade de criar uma arte baseada nas características do povo brasileiro, com absorção crítica da modernidade européia. Em 1928 levam ao extremo essas idéias com o Manifesto Antropofágico, que propõe “devorar” influências estrangeiras para impor o caráter brasileiro à arte e à literatura.

Jorge Amado, em “Gabriela, Cravo e Canela”, descreve através dos personagens todo sistema político, econômico e social do “coronelismo”, um sistema de poder que em 1925 estava entrando numa fase de decadência provocada pelos ideais de progresso levados por Mundinho Falcão. Contudo, a decadência do coronelismo ocorre no campo político, quando os progressistas conquistam os votos dos eleitores. Um enorme mecanismo de favores e contrafavores, principiando de qualquer município brasileiro estendia-se assim, passando antes pelo palácio do governador, até chegar ao centro do poder no Palácio da Guanabara do Rio de Janeiro. Durante quase um trintênio esse sistema funcionou a contento. Pecava-se contra a educação democrática do povo, ao viciar completamente os resultados eleitorais, trouxe pelo menos uma certa estabilidade invejável à turbulenta e instável crônica política brasileira. Um enorme mecanismo de favores e contrafavores, principiando nas fraldas de qualquer município brasileiro estendia-se assim, passando antes pelo palácio do governador, até chegar ao centro do poder no Palácio da Guanabara do Rio de Janeiro.

Em Ilhéus a guerra política acaba com Mundinho e seus candidatos vencedores. A partir daí que o sistema político coronelístico entra em decadência …..

Será que os nossos leitores percebem nas entrelinhas o contexto político, ecomonico e social, que o autor Jorge Amado, descreveu em suas obras?

Espero que sim.

Sem mais

Maria