Num país tradicionalista e conservador que sofre com a influência das Igrejas católica e evangélica sobre o poder político, a Daspu usa a moda em sua luta contra os preconceitos e em defesa do reconhecimento legal da profissão de prostituta
Claire Lefebvre, Daphné Mongibeaux e Stefania Rousselle
Esquecidas pela classe política, prostitutas do Rio de Janeiro vêm conduzindo uma campanha em defesa dos seus direitos e seduzem os brasileiros. A sua arma são as roupas. Uma puta trajando um vestido de noiva é algo que chama a intenção. Principalmente se este último for feito com lençóis de hotéis de alta-rotatividade. Aliás, esse vestido será a peça principal do próximo desfile da Daspu, uma grife de moda que foi lançada por um grupo de prostitutas cariocas em dezembro de 2005.
No quadro da Bienal das artes de São Paulo, em 7 de outubro, as prostitutas tomaram conta das passarelas pela décima vez. No programa, apresentação de camisetas, vestidos sexy, calças corsário, bolsas de mão e bonés. Foi mais uma oportunidade para essas garotas clamarem a sua mensagem: “Putas e com muito orgulho”.
Fundada pela Davida, uma ONG brasileira que luta pelo reconhecimento da prostituição como atividade profissional e se dedica à luta contra as doenças sexualmente transmissíveis, a Daspu tinha como objetivo inicialmente de sanar as dificuldades financeiras desta organização não-governamental.
Contudo, os veículos de comunicação nacionais não demoraram a se interessar pelo projeto. Uma das principais razões dessa mobilização é o nome da marca. “Daspu” – do português “das putas” – é uma referência à “Daslu”, o templo do luxo em São Paulo. Ao longo de várias semanas, a condenação da diretora desta loja por fraude fiscal foi manchete dos principais jornais brasileiros. A polêmica foi benéfica para a Daspu: achando graça nessa gozação, a mídia faz dessa iniciativa um fenômeno de sociedade.
O alarde resulta numa propaganda gratuita que incita Gabriela Leite, a diretora da Davida, a diversificar a grife. Ela contrata uma estilista, Rafaela Monteiro, em tempo integral, e dez prostitutas para atuarem como modelos. Juntas, elas decidem qual será o tema da primeira coleção: a Estrada 69. Inspirada na famosa “Route 66″ americana, símbolo do rock’n'roll, essa “estrada” é uma referência/homenagem ao seu cliente ideal, “o homem que passa e que não fica”: o caminhoneiro.
“Feminino sem ser vulgar, o vestuário da Daspu destina-se a todas as mulheres”, explica a estilista, que foi buscar a sua inspiração nas praias populares de Copacabana e nas ruas do centro da cidade carioca. Trata-se de uma moda que ela quis “muito brasileira”, tanto nas cores como no estilo.
Em seis meses, a marca passa de algumas camisetas para militantes, para uma linha de prêt-à-porter. Os desfiles se multiplicam. Muitas estrelas do showbiz, artistas e intelectuais comparecem para aplaudir as garotas. Uma camiseta da grife é até mesmo oferecida a Mick Jagger por ocasião do famoso show dos Rolling Stones em Copacabana, em 18 de fevereiro. Fotógrafos e jornalistas afluem do mundo inteiro. A Daspu torna-se descolada.
Em junho, a marca já havia vendido mais de 5.000 camisetas nas butiques da moda do Rio de Janeiro, de São Paulo, e também na Internet, o que permitiu à marca obter um lucro substancial. “Nem mesmo o maior gênio do marketing poderia ter imaginado uma campanha tão bem-sucedida!”, comenta com entusiasmo Flavio Lenz, o assessor de imprensa e marido de Gabriela Leite, a diretora da ONG.
As passarelas tornam-se palanques. Na esteira dessa paixonite, as reivindicações da Davida ganham visibilidade. “Nós queremos acabar com os preconceitos e as discriminações contra as prostitutas, e o jeito é fazê-las desfilarem nas passarelas. Por serem de todas as idades e com as suas formas generosas, elas rompem com os estereótipos da beleza. É também uma maneira de devolver-lhes confiança”, garante Gabriela Leite, que, por sua vez, parou de se prostituir para dedicar-se à associação. “Muitas delas optaram pela prostituição, mas não assumem o seu trabalho por causa do preconceito que a profissão desperta nos outros”.
Ela espera que o sucesso da marca consiga mudar a maneira de ver da sociedade, de modo que a prostituição seja enquadrada juridicamente. Isso porque, enquanto a sua prática é legal no Brasil ela não está regulamentada. “As prostitutas não têm direito algum: nem aposentadoria, nem previdência social. Contudo, elas são cidadãs iguais a todos os outros. Aos 60 anos, algumas delas seguem se vendo obrigadas a trabalhar na calçada para garantir a sua sobrevivência. Ora, a concorrência das garotas novinhas é rude, e os clientes tornam-se mais raros”.
Além de constituir um meio para mudar a sociedade, a Daspu em primeiro lugar quer servir de terapia para as suas garotas. Ao expô-las aos projetores e aos flashes dos fotógrafos, a associação faz muito em benefício da sua estima pessoal. Aquelas que fazem inúmeros “programas” às noites nas vielas escuras do Rio, por alguns reais, de repente são tratadas assim como stars. Ao aderirem a esse novo padrão de vida que inclui hotéis de luxo, sessões de fotos, viagens de avião, as garotas da Daspu vivem um verdadeiro conto de fadas e despertam a inveja das outras prostitutas que com elas compartilham o mesmo trecho de calçada.
Jane, 32 anos, uma das modelos mais destacadas da marca, conseguiu “roubar o espetáculo” da top-model Gisele Bündchen durante a mais recente edição da Fashion Week do Rio, em junho passado. Hoje, Jane é reconhecida na rua. Ela se sente finalmente respeitada. A Daspu deu-lhe a coragem para confessar a sua condição de soropositiva, que ela escondia há dez anos, e a vontade de contar a sua vida num livro. Por meio de palavras cruas e sem muito pudor, ela conduz o leitor até os bastidores do universo pouco conhecido e mal considerado dos hotéis de randevu, afirma o seu amor transbordante pelo sexo.
Contudo, enquanto elas conseguem aceitar mais facilmente a si mesmas como mulheres, algumas delas ainda não conseguem se aceitar como prostitutas. “Quando eu desfilo na passarela, sinto-me mais bonita e esqueço-me da minha profissão. Eu gostaria de parar de me prostituir para tornar-me modelo”, confessa Maria. Uma mulher da noite já faz mais de trinta anos “por necessidade financeira”, ela não gosta de pronunciar a palavra “prostituta” e prefere apresentar-se como modelo.
Assim como todas as outras garotas da Daspu, ela trabalha também a serviço da Davida, em atividades de prevenção contra as doenças sexuais transmissíveis. Duas vezes por semana, ela vai até a Praça Mauá, onde ela visita bares, discotecas e clubes de strip-tease para distribuir preservativos para os clientes e as garotas. Trata-se de um engajamento ideológico e pecuniário que lhe rende R$ 300 por mês.
Enquanto o sucesso junto à mídia e de marketing da marca é inegável, o seu impacto sociológico e político permanecem difíceis de medir. Já faz três anos, um projeto de lei que visa a regulamentar a prostituição segue trancado numa gaveta do Parlamento. O seu autor, Fernando Gabeira, é deputado federal do Partido Verde e foi candidato nas eleições legislativas de 1º de outubro. Apelidado de “um puta de um deputado”, ele aprova a iniciativa da Daspu, cujas reivindicações são um dos seus temas de campanha.
“As prostitutas desempenham um papel importante na sociedade”, afirma. “A prostituição deve ser entendida como uma indústria, e o proxeneta como um diretor de empresa que fornece serviços aos seus clientes”. Gabeira espere que o seu projeto seja colocado na pauta do Congresso durante a próxima legislatura, mas ele permanece, por enquanto, distante das preocupações dos eleitos.
As instituições não parecem estar prontas, de fato, para aceitar uma tal mudança: “O Brasil é um país tradicionalista e conservador, que sofre com a influência das Igrejas católica e evangélica sobre o poder político”, explica Jacqueline Pitanguy, uma socióloga e presidente da associação feminista Cepia (Cidadania, Estudos, Pesquisas, Informação, Ação).
Inversamente, a sociedade parece ter sido conquistada pela Daspu: “A grife se parece muito com o Brasil, e, sobretudo, com o Rio. O lado diferente a o humor que emanam da marca seduziram os cariocas”, constata a socióloga. “Na França, a mesma iniciativa teria provocado uma maior quantidade de discussões e teria certamente exercido um impacto menor sobre a sociedade”.
Contudo, o fenômeno Daspu já está irradiando muito além das fronteiras do Brasil. E leva consigo a esperança, para Gabriela Leite e Flavio Lenz, de exportar a sua mensagem. As camisetas da marca, que já vêm sendo comercializadas em sete países, em breve serão acompanhadas de um livreto explicativo das reivindicações da Davida. “Todo mundo pode compreender o nosso discurso, já que a prostituição existe em todos os países”, comenta Flavio Lenz, o assessor de imprensa da companhia. “Nós esperamos que a marca possa suscitar o debate em todos os lugares onde ela for comercializada”.
Esta onda acaba justamente de arrebentar na França, graças à iniciativa da Modafusion, uma organização especializada em incentivar os intercâmbios entre estilistas franceses e brasileiros.
A “concept store” (loja conceitual) Colette expõe na Rua Saint-Honoré, em Paris, em seu espaço destinado aos profissionais, camisetas e um biquíni da Daspu. Trata-se de um primeiro passo que poderia lançar a marca na França, caso houver interesse do mercado e encomendas forem fechadas. Por sua vez, a estilista de lingerie de alto luxo Fifi Chachnil, que veste Madonna e Vanessa Paradis, aceitou ser a madrinha da Daspu. Junto com Rafaela Monteiro, ela está criando atualmente a primeira linha de roupas íntimas da grife. O tema da sua coleção: as pin-ups dos anos 60. A coleção deverá estar pronta em junho de 2007 e estará à venda na França e no Brasil.
Seduzida pela sua dimensão social e ética, a companhia francesa de lojas de departamentos Galeries Lafayette também se mostrou interessada com a grife. A possível implantação da Daspu na França não deixa de fazer sonhar as garotas do Rio, que já se imaginam desfilando nas passarelas de Paris, seguidas pelas “putes” francesas.
Tradução: Jean-Yves de Neufville. Publicado no Le Monde.