Monthly Archives: outubro 2006

Alckmin e a conspiração do Opus Dei

Altamiro Borges

O presidenciável Geraldo Alckmin se encaixa perfeitamente nos planos políticos e eleitorais do Opus Dei na América Latina. Desde a sua chegada ao continente, nos anos 50, esta seita planeja ardilosamente a sua ascensão ao poder. O projeto só ganhou ímpeto com a onda de golpes militares na região a partir dos anos 60. Seguidores do Opus Dei presidiram ou assessoraram vários ditadores. Nos anos 90, com a avalanche neoliberal no continente, os tecnocratas fiéis a esta seita voltaram a gozar de prestígio. Agora, o Opus Dei torce e trabalha na “surdina” pela eleição de Geraldo Alckmin no segundo turno da sucessão presidencial.

A “catequese” na América Latina

Nos anos 50, a seita aliciou seus primeiros fiéis entre as velhas oligarquias que procuravam se diferenciar dos povos indígenas e pregavam o fundamentalismo religioso. Mas o Opus Dei só adquire pujança com a onda de golpes a partir dos anos 60. Até então, a sua ação ainda era dispersa. Segundo excelente artigo de Marina Amaral na revista Caros Amigos, “em 1970, Josemaría Escrivá viajou para o México dando início às ‘viagens de catequese’ pelas Américas que duraram até às vésperas de sua morte em Roma, em 1975”.

Em 1974, o fundador do Opus Dei visitou a América do Sul, então dominada por ditaduras militares. “O clero progressista tentava utilizar o peso da Igreja para denunciar torturas e assassinatos e para lutar pelo restabelecimento da democracia. Em suas palestras, ele respondeu certa vez a um militar que perguntara como seguir o caminho da ‘santificação espiritual’ do Opus Dei: ‘Os militares já têm metade do caminho espiritual feito’”, revela Marina Amaral. Neste período sombrio, a seita apoiou os golpes e participou de vários governos ditatoriais, segundo Emílio Corbiere, autor do livro “Opus Dei: El totalitarismo católico”.

No Chile, a seita fascista foi para o ditador Augusto Pinochet o que fora para o franquismo na Espanha. O principal ideólogo deste regime sanguinário, Jaime Guzmá, era um membro ativo desta seita, assim como centenas de quadros civis e militares. Ela também apoiou os golpes militares e participou ativamente dos regimes autoritários na Argentina, Paraguai e Uruguai. Ainda segundo Corbiere, o Opus Dei financiou o regime do ditador nicaragüense Anastácio Somoza até sua derrota para os sandinistas. Na década de 90, ela ainda deu “ativa assistência” à ditadura terrorista e corrupta de Alberto Fujimori, no Peru.

O fundamentalismo neoliberal

Outra fase “próspera” do Opus Dei se dá com a ofensiva neoliberal na década de 90. Gozando da simpatia do papa e da total autonomia frente às igrejas locais, esta seita se beneficia da invasão das multinacionais espanholas, decorrente da privatização de estatais. Muitas delas são influenciadas por numerários do Opus Dei. Conforme relembra Henrique Magalhães, em artigo para a revista A Nova Democracia, “a Argentina entregou as suas estatais de telefonia, petróleo, aviação e energia à Telefônica, Repsol, Ibéria e Endesa, respectivamente. A Ibéria já havia engolido a LAN [aviação], do Chile, onde a geração de energia já era controlada pela Endesa. Os bancos espanhóis também chegaram ao continente neste processo”.

“O Opus Dei é para o modelo neoliberal o que foram os dominicanos e os franciscanos para as cruzadas e os jesuítas para a Reforma de Lutero”, compara José Steinsleger, colunista do mexicano La Jornada. Nos anos 90, a seita também emplacou vários bispos e cardeais na região. O mais famoso é Juan Cipriani, do Peru, amigo intimo do ditador Alberto Fujimori. Em 1997, quando da invasão da embaixada do Japão por militantes do Movimento Revolucionário Tupac Amaru, o bispo se valeu da condição de mediador e usou um aparelho de escuta no crucifixo, o que permitiu à polícia invadir a casa e matar todos seus ocupantes.

Os tentáculos no Brasil

No Brasil, o Opus Dei fincou a sua primeira raiz em 1957, na cidade de Marília, no interior paulista, com a fundação de dois centros. Em 1961, dada à importância da filial, a seita deslocou o numerário espanhol Xavier Ayala, segundo na hierarquia. “Doutor Xavier, como gostava de ser chamado, embora fosse padre, pisou em solo brasileiro com a missão de fortalecer a ala conservadora da Igreja. Às vésperas do Concílio Vaticano II, o clero progressista da América Latina clamava pelo retorno às origens revolucionárias do cristianismo e à ‘opção pelos pobres’, fundamentos da Teologia da Libertação”, explica Marina Amaral.

Ainda segundo seu relato, “aos poucos, o Opus Dei foi encontrando seus aliados na direita universitária… Entre os primeiros estavam dois jovens promissores: Ives Gandra Martins e Carlos Alberto Di Franco, o primeiro simpático ao monarquismo e candidato derrotado a deputado; o segundo, um secundarista do Colégio Rio Branco, dos rotarianos do Brasil. Ives começou a freqüentar as reuniões do Opus Dei em 1963; Di Franco ‘apitou’ (pediu para entrar) em 1965. Hoje, a organização diz ter no país pouco mais de três mil membros e cerca de quarenta centros, onde moram aproximadamente seiscentos numerários”.

Crescimento na ditadura

Durante a ditadura, a seita também concentrou sua atuação no meio jurídico, o que rende frutos até hoje. O promotor aposentado e ex-deputado Hélio Bicudo revela ter sido assediado duas vezes por juízes fiéis à organização. O expoente nesta fase foi José Geraldo Rodrigues Alckmin, nomeado ministro do STF pelo ditador Garrastazu Médici em 1972, e tio do atual presidenciável. Até os anos 70, porém, o poder do Opus Dei era embrionário. Tinha quadros em posições importantes, mas sem atuação coordenada. Além disso, dividia com a Tradição, Família e Propriedade (TFP) as simpatias dos católicos de extrema direita.

Seu crescimento dependeu da benção dos generais golpistas e dos vínculos com poderosas empresas. Ives Gandra e Di Franco viraram os seus “embaixadores”, relacionando-se com donos da mídia, políticos de direita, bispos e empresários. É desta fase a construção da sua estrutura de fachada – Colégio Catamarã (SP), Casa do Moinho (Cotia) e Editora Quadrante. Ela também criou uma ONG para arrecadar fundos: OSUC (Obras Sociais, Universitárias e Culturais). Esta recebe até hoje doações do Itaú, Bradesco, GM e Citigroup. Confrontado com esta denúncia, Lizandro Carmona, da OSUC, implorou à jornalista Marina Amaral: “Pelo amor de Deus, não vá escrever que empresas como o Itaú doam dinheiro ao Opus Dei”.

Ofensiva recente na região

Na fase recente, o Opus Dei está excitado, com planos ousados para conquistar maior poder político na América Latina. Em abril de 2002, a seita participou ativamente do frustrado golpe contra o presidente Hugo Chávez, na Venezuela. Um dos seus seguidores, José Rodrigues Iturbe, foi nomeado ministro das Relações Exteriores do fugaz governo golpista. A embaixada da Espanha, governada na época pelo neo-franquista Partido Popular (PP), de José Maria Aznar – cuja esposa é do Opus Dei –, deu guarita aos seus fiéis. Outro golpista ligado à seita, Gustavo Cisneiros, é megaempresário das telecomunicações no país.

Em dezembro do ano passado, o Opus Dei assistiu a derrota do seu candidato, Joaquim Laví, ex-assessor do ditador Augusto Pinochet, à presidência do Chile. Já em maio deste ano, colheu uma nova derrota com a candidatura de Lourdes Flores, declarada numerária do partido Unidade Nacional. Em compensação, a seita comemorou a vitória do narco-terrorista Álvaro Uribe na Colômbia, que também dispôs de milhões de dólares do governo George Bush. Já no México, outro conhecido simpatizante do Opus Dei, Felipe Calderon, ex-executivo da Coca-Cola, venceu uma das eleições mais fraudulentas da história deste país.

Um perigo sorrateiro

Agora, como afirma o estudioso Henrique Magalhães, “as esperança do Opus Dei se voltam para Geraldo Alckmin, que hoje é um dos seus quadros políticos de maior destaque. A Obra tenta fazer dele presidente e formar um eixo geopolítico com os governantes da Colômbia e do México, aos quais está intimamente associada”. De maneira ardilosa, a seita usará todos os “recursos”. Prova do seu método pode ser visto na recente eleição do Senado no Rio de Janeiro, onde foi desencadeada brutal campanha contra a candidatura da comunista Jandira Feghali. Não por acaso, dois dos principais numerários do país atuam neste estado: o bispo de Nova Friburgo, Rafael Cifuentes, e o bispo-auxiliar dom Antônio Augusto Dias Duarte.

Apesar de ter mentido numa recente sabatina ao jornal Folha de S.Paulo, quando afirmou que “não sou da Opus Dei; respeito quem é, mas não conheço”, hoje são notórias as estreitas relações de Geraldo Alckmin com esta seita fascista – desde os tempos de infância, no convívio com seu pai e o tio-ministro do STF da ditadura, até as irregulares “palestras do Morumbi”. Na excelente reportagem da revista Caros Amigos, a jornalista Marina Amaral lembra o constrangimento do padre Vicente Ancona, numerário do Opus Dei que lhe atendeu: “Quando perguntei ao padre Vicente Ancona se Alckmin estava recebendo orientação espiritual e desistiu por causa da repercussão, a resposta foi curta e grossa; ‘Exato’”.

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “As encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição).

Lula ganha em seis das sete cidades do Grande ABC

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) obteve neste domingo (29) a vitória em seis das sete cidades da região do ABC nas eleições para Presidência da República. Lula perdeu apenas em São Caetano, onde o seu adversário Geraldo Alckmin (PSDB) alcançou 65,02% do eleitorado. Diadema foi a cidade mais fiel ao presidente Lula, que conseguiu 70,39% dos votos válidos. Já em Santo André e Ribeirão Pires o candidato Lula teve uma vitória apertada. Veja abaixo a votação completa nas sete cidades.

Santo André
Eleitores………….519.510 votos
Abstenção…………78.635 votos (15,14%)
Nulos…………………..19.061 votos (4,32%)
Brancos……………….5.023 votos (1,14%)
Votos válidos
Lula…………………214.088 votos (51,37%)
Alckmin……………202.703 votos (48,63%)

São Bernardo
Eleitores………….521.882 votos
Abstenção…………73.456 votos (14,08%)
Nulos…………………..16.462 votos (3,67%)
Brancos……………….4.498 votos (1,00%)
Votos válidos
Lula…………………255.766 votos (59,83%)
Alckmin……………171.700 votos (40,17%)

São Caetano
Eleitores………….119.002 votos
Abstenção…………14.795 votos (12,43%)
Nulos…………………3.947 votos (3,79%)
Brancos……………..1.102 votos (1,06%)
Votos válidos
Alckmin……………64.468 votos (65,02%)
Lula…………………34.690 votos (34,98%)

Mauá
Eleitores………….263.093 votos
Abstenção…………36.158 votos (13,74%)
Nulos…………………..8.083 votos (3,56%)
Brancos……………….2.769 votos (1,22%)
Votos válidos
Lula…………………133.435 votos (61,75%)
Alckmin……………..82.648 votos (38,25%)

Diadema
Eleitores………….286.840 votos
Abstenção…………39.441 votos (13,75%)
Nulos…………………..7.088 votos (2,87%)
Brancos……………….2.573 votos (1,04%)
Votos válidos
Lula…………………167.347 votos (70,39%)
Alckmin……………..70.391 votos (29,61%)

Ribeirão Pires
Eleitores………….79.843 votos
Abstenção…………12.495 votos (15,65%)
Nulos…………………..2.428 votos (3,61%)
Brancos……………….815 votos (1,21%)
Votos válidos
Lula…………………33.103 votos (51,64 %)
Alckmin……………31.002 votos (48,36%)

Rio Grande da Serra

Eleitores………….30.705 votos
Abstenção…………5.315 votos (17,31%)
Nulos…………………..694 votos (2,73%)
Brancos……………….309 votos (1,22%)
Votos válidos
Lula…………………14.516 votos (59,52%)
Alckmin……………..9.871 votos (40,48%)

Publicado em Repórter Diário.

São Tomé e Príncipe: o azar do petróleo

Micro-pais de 140 mil habitantes no Golfo da Guiné, o arquipélago de língua portuguesa descobriu, na virada do século, que está sobre um manto de óleo. Tragédias da mentalidade colonial: em vez de grande oportunidade, o achado atiça desigualdades, golpes e divisões

Jean-Christophe Servant

O vinho branco, um chardonay Chamonix, vem de suas próprias vinícolas sul-africanas e é bebido facilmente no calor equatorial de São Tomé e Príncipe. Ainda assim, Chris Hellinger é amargo: “Aqui há somente corrupção e concorrência entre os dirigentes políticos. A razão é o petróleo”. Hellinger sabe o que diz. Na liderança da Island Oil Exploration, uma empresa registrada nas Bahamas, esse homem de passado conturbado [1] foi um dos primeiros a procurar óleo em vão no arquipélago, um dos menores países da África (140 mil habitantes em duas ilhas, que juntas têm o tamanho de Andorra e são vizinhas ao Gabão). Era o final dos anos 1980. Independente desde 12 de julho de 1975 e dirigida pelo presidente Pinto da Costa, a antiga colônia portuguesa deixava o marxismo para abrir-se ao multipartidarismo por ocasião de uma conferência nacional histórica, a primeira do continente africano.

As pesquisas realizadas nas profundezas das águas territoriais do norte do arquipélago, no limite das reservas de carbono da Nigéria, deram frutos na virada do século: com reservas estimadas de 11 bilhões de barris de óleo bruto, o país pode tornar-se uma espécie de Brunei do golfo da Guiné e produzir perto de 80 mil barris por dia. Mas a custo de quanta crise política, corrupção e concessões geopolíticas?

O petróleo está deteriorando o ambiente político no país. Desde a eleição do presidente Fradique de Menezes em 2001, São Tomé e Príncipe não parou de mergulhar na instabilidade. Houve uma tentativa de golpe em julho de 2003, quando este empresário do cacau, posto no poder por seu predecessor Miguel Trovoada, foi provisoriamente destituído. Seguiram-se as crises, tendo como pano de fundo as lutas por poder, quase sempre virulentas, entre o chefe de Estado e a coalizão governamental dirigida pelo ex-partido único, o Movimento para a Libertação de São Tomé e Príncipe – Partido Social Democrata (MLSTP-PSD). Lá também, todas as oportunidades se desfazem ao cheiro do ouro negro. Mais precisamente, naquilo que envolve a concessão de exploração de petróleo a companhias estrangeiras, no âmbito da Zona de Desenvolvimento Conjunto – JDZ, em inglês – gerenciada depois de 2001 em conjunto pelo arquipélago e seu poderoso vizinho nigeriano [2].

Durante a última crise, onde explodiu pela primeira vez a cólera da população, como ilustra a primeira manifestação de estudantes organizada em trinta anos de independência, Fradique perdeu seu quinto governo. Em 2 de junho de 2005, o primeiro ministro Damião Vaz d’Almeida pediu sua demissão ao chefe de Estado. O partido julgou fraudulento o procedimento de atribuição de milhares de quilômetros quadrados à companhias estrangeiras sem exames técnicos prévios. Nessa nova página da tragicomédia de São Tomé, acirradas discussões começam antes mesmo de o petróleo jorrar. O Estado iria receber 113,2 milhões de dólares pelas concessões — isto é, três vezes mais que seu PIB (Produto Interno Bruto), até então dependente da renda da cultura de cacau.
A hora dos protestos populares

A essa situação instável, juntou-se o descontentamento de uma população que vive com menos de 300 euros por ano. Desde o fim de 2004, os dividendos das primeiras concessões, cerca de 49 milhões de euros, ficaram estranhamente bloqueados, e sem juros, nos cofres da filial local de um banco de Abuja (Nigéria) – o banco Hallmark, ligado ao antigo presidente do senado nigeriano, que caiu por corrupção. A chamada à ordem autoritária do presidente nigeriano Olusegun Obasanjo, na ocasião de uma rápida visita a São Tomé e Príncipe a fim de resolver “questões técnicas transformadas em problemas políticos”, levou o país a convulsões e rumores. No dia 31 de maio de 2005, tendo como justificativa um pedido de aumento de salário do setor público, uma greve geral paralisou o país.

Em São Tomé, é preciso saber ler as entrelinhas. Nesse micro Estado do Golfo da Guiné, colonizado por Portugal desde o século 16, a pequena elite política constituída com a independência não parou de enriquecer às custas de uma população que percebemos sem eletricidade e estradas logo que deixamos a plácida capital São Tomé [3]. Depois de ter contribuído no desvio de grandes somas de ajuda internacional (da qual o país é forte recebedor), a maior parte dos membros das classes dirigentes não desperdiçou muito tempo tentando compreender que é de seu próprio interesse lançar-se na corrida pelo ouro negro. Afinal, qual é o problema de trocar a embalagem, contanto que tenhamos no conteúdo a embriaguez dos petrodólares?

Uma empresa tem nisso um papel tanto conturbado quanto determinante: a Environmental Remediation Holding Corporation (ERHC). Em 1997, esta companhia norte-americana assinou um acordo de monopólio particularmente vantajoso com São Tomé. Desde então, apesar das renegociações e da dúvida que continua a pairar sobre a viabilidade do compromisso, a empresa envolve-se em negócios de Estado, passando pelos âmbitos técnicos, éticos e sobretudo pelos votos piedosos de transparência preconizados pela comissão bilateral que gerencia a zona de desenvolvimento conjunto. Chegou, por fim, a se conceder a maior parte do bolo de concessões de exploração. Associada a pequenas companhias e já implicadas nas jazidas da ditadura de Guiné Equatorial, a ERHC está agora entre os cinco blocos de concessão que acabam de ser entregues, sendo a acionista majoritária dos dois mais promissores.
Sob o tacão dos EUA ou da Nigéria…

A ERHC foi recapitalizada em 2001 pela empresa Chrome Energy, do nigeriano Emeka Offor, milionário e “padrinho” da política do Estado de Anambra na Nigéria. Presidente de um Conselho de Administração onde está também Howard F. Jeter, antigo embaixador dos Estados Unidos em Lagos, Offor é, aliás, um dos principais financiadores da reeleição do presidente nigeriano Olusegun Obasanjo em 2003… quando ele terminar seu segundo e último mandato (as próximas eleições gerais acontecerão em abril de 2007), será que vamos assistir a um assalto nigeriano ao petróleo de São Tomé por meio da ERHC e várias outras companhias minoritárias dirigidas por pessoal próximo à Nigéria?

Um contundente editorial do Washington Post, publicado no dia 1º de junho de 2005, deixa claro: “Essa concessão de direitos de exploração parece ruim”. Com maior gravidade, Nicolas Shaxson, analista britânico do instituto de negócios internacionais estima “que primeiro os norte-americanos, depois os nigerianos, ludibriaram esse pequeno país, usando para isso a ERHC. Para ver desbloqueado o dinheiro das primeiras concessões, São Tomé deveria concordar com as propostas nigerianas a respeito de uma segunda rodada de atribuição de blocos”. Patrice Trovoada, filho do antigo presidente e ex-executivo da ERHC, conta: “No momento da negociação que pretendia estabelecer a Zona de Desenvolvimento Conjunto, os membros da delegação nigeriana não queriam aceitar nada. Começamos a discussão com uma distribuição de 90% para a Nigéria e 10% para nós. Mas não cedemos e as pretensões deles se reduziram em um terço (60% para os nigerianos e 40% para o arquipélago). De qualquer modo, são 140 milhões de habitantes contra 140 mil…”

Tanto no surpreendente sucesso da ERHC, como na gestão da zona de desenvolvimento conjunto, o apetite do vizinho nigeriano não poderia ser mais emblemático. A Zona de Desenvolvimento Comum é dirigida por uma autoridade comum (A JDA), sediada em Abuja. A Nigéria “parece cada vez mais se comportar em relação a nós como o Iraque de Sadam se comportou com o Kuwait”, diz um jornalista de São Tomé, “com tudo o que isso implica de impaciência popular”. A população não entende por que o dinheiro do petróleo tarda em chegar. “Como explicar isso ao povo”, conclui Trovoada, “quando você mesmo não segue os mecanismos de transparência? Estamos agora em um ponto em que qualquer pessoa um pouco esperta e demagoga pode muito facilmente instalar uma ditadura aqui”.

Antes de se sujeitar aos ditames da ERHC, o presidente Fradique de Menezes não havia deixado de denunciar os contratos assinados com esta empresa. Era ainda a época em que o presidente parecia ser tolerante com as companhias norte-americanas, hoje muito críticas de seu governo. A situação chegou a tal ponto que foi uma conselheira norte-americana instalada no país quem escreveu seu discurso histórico pronunciado diante do presidente George W. Bush em 2003 em Washington. Nessa época, o arquipélago parecia a ponto de receber uma base da marinha dos EUA destinada a garantir a segurança das jazidas do Golfo da Guiné — de onde Washington pretende importar 25% do óleo bruto, até 2015.

… e o olhar de Angola, Brasil, França, China…

O MLSTP-PSD é historicamente ligado à Sonangol, a companhia de petróleo angolana, que também contava levar sua parte nesse carteado pouco honesto. Há ainda os brasileiros da Petrobrás. O presidente Luis Inácio Lula da Silva já fez duas viagens oficiais a São Tomé e Príncipe. E, evidentemente, há também os operadores franceses, ainda um pouco tímidos. A República Popular da China já está à espreita na esperança de que São Tomé e Príncipe, que reconhece Taiwan desde os anos 1990, aproxime-se novamente de seu parceiro histórico do pós-independência. Isso não deve levar muito tempo, conforme testemunha a participação de representantes do Partido Comunista Chinês no último congresso do MLSTP-PSD em 2005, para grande descontentamento do embaixador de Taiwan.

“Esse petróleo deveria ser um dom de deus. Mas, ao invés de nos unir, ele nos separa”. Autor de um golpe de Estado fracassado em 2003, o major Fernando Pereira gostaria que o mundo se lembrasse de um golpe “sem violência e destinado a enviar uma mensagem à comunidade internacional sobre a realidade em São Tomé: uma democracia de fachada onde o Estado não existe, com um exército controlado por uma classe política disposta a realizar seus interesses em detrimento daqueles do país, onde a corrupção se intensifica, enquanto o povo empobrece.”

Mas quem vai ficar mesmo na memória são as companhias desse oficial, hoje com 53 anos. Liderados por Alersio Costa, 14 “ex-Búfalos” naturais São Tomé, vindos de tropas de choque anti-marxistas da África do Sul do apartheid – inicialmente engajadas contra o regime comunista do presidente Pinto da Rosa nos anos 70 – fizeram parte de um complô para derrubar a Terceira República de São Tomé.
O risco de golpe e secessão

“Formados por Pretória e engajados na Namíbia e em Angola, os Búfalos são verdadeiros profissionais da guerra”, continua o oficial, que reivindica 80 euros de soldo depois de 29 anos de trabalho. “E eles continuam perigosos. Nada foi decidido a respeito desde 2003. Em vez de atacar os problemas de gestão, é como se decidíssemos simplesmente nos vingar no exército. Nossa patrulha marítima não possui nem mesmo barcos! Não é difícil ver o problema que isso acarreta em um país que, com o advento da descoberta de petróleo, deveria mais que nunca proteger suas fronteiras marítimas”. Ele acrescenta: “Agora, com o petróleo jorrando e a classe política disputando avidamente as concessões de blocos, é previsível que o próximo golpe seja muito mais sangrento”.

Reeleito, diante de Patrice Trovoada, no dia 30 de julho de 2006, o presidente Fradique Menezes começou agradecendo o Procurador da República, Adelino Pereira, que investigou as irregularidades na atribuição de concessões. O que foi um grande desgosto para a vizinha Nigéria, que chegou a boicotar as convocações do juiz [4]. Mais que de São Tomé, é de Príncipe, sua irmã gêmea, que podem vir os primeiros grandes problemas do arquipélago.

É dessa ilha, com uma população essencialmente composta de “contradores” [5], de origem cabo-verdiana, que partiu para o Gabão a maior parte dos opositores do presidente Pinto da Costa nos anos 70 e 80. É também Príncipe, 150 quilômetros mais ao norte, que é banhada pelas águas da Zona de Desenvolvimento Comum. Contudo, Príncipe, com seus 5 mil habitantes, é ainda mais esquecida que São Tomé. Dos 40% de dividendos da Zona Comum, essa ilha terá somente 7% em seus cofres. Em Santo Antônio, a maior cidade da ilha, os raros nigerianos presentes preocupam-se com o crescimento da xenofobia, e a juventude reclama.

A exemplo de Cabinda, província angolana do petróleo esquecida pelo governo central [6], poderia Príncipe fazer um movimento de secessão? No início de 2005, um defensor dos direitos cívicos de Cabinda (Angola), Raul Danda, estava em visita a São Tomé. Levantando suas reservas contra a “maldição” do petróleo, o angolano avisou: “Os políticos farão desse petróleo sua riqueza pessoal, reservando à população o pesadelo da miséria”. Em São Tomé e Princípe, o óleo só deve começar a jorrar no fim da década. Mas os maus ares do petróleo já são sentidos. Uma desilusão para aqueles que pensavam que o país romperia com esse ciclo nefasto do ouro negro, que afeta infelizmente todos os países da sub-região.

Tradução:LeonardoAbreu
[1] Ele fez fortuna com a venda de diamantes em Angola.
[2] http://www.nigeriasaotomejda.com/Pa….
[3] Ler Gerhand Seibert, Comrades, Clients and cousins, Editions Bill, Boston, 2006.
[4] Boletim informativo da Rede Regional Integrada de Informação, 11 de agosto de 2006.
[5] Nome dado, no fim da escravidão portuguesa, aos trabalhadores de Cabo Verde que vinham trabalhar em São Tomé.
[6] Enclave angolano entre os dois Congos (República Democrática do Congo e Congo-Brazaville), a província de Cabinda reivindica sua independência. No dia 17 de julho de 2006, um “acordo de paz”, assinado somente por uma parte dos separatistas outorga certa autonomia à província, sob o controle de Angola.
Publicado em Le Monde.

Além do Cidadão Kane

Veja o vídeo sobre a verdadeira história da Rede Globo “Além do Cidadão Kane”. Clique aqui.

Fiscalização flagra trabalho escravo em terras de reitor, em Goiás

Fazenda do reitor da Universidade de Uberaba (Uniube) é flagrada com 164 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em Catalão (GO). Eles participavam da derrubada de árvores para a venda da madeira.

Iberê Thenório* – Especial para a Carta Maior

SÃO PAULO – A fazenda produz madeira, mas os empregados são alojados em casas de tábua podre e chão batido, com paredes cheias de frestas por onde entram ratos e chuva. Endividados, os trabalhadores eram obrigados a pagar pela comida e pelas ferramentas de trabalho. Foi nessas condições que o grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) encontrou na última terça-feira (17) os 164 trabalhadores da Fazenda Batalha dos Nunes, no município de Catalão (GO). A escritura da terra indica que a propriedade pertence a Marcelo Palmério, reitor da Universidade de Uberaba (Uniube), e a sua esposa, Vera Maria Marquez Palmério.

De acordo com o auditor fiscal do trabalho e coordenador da ação, Humberto Célio Pereira, as condições de trabalho dos libertados eram péssimas. As mulheres e filhos dos trabalhadores também viviam nos alojamentos precários, em meio ao mau cheiro e sem banheiro ou energia elétrica. Além disso, os empregados eram transportados em caminhões antigos utilizados para carregar madeira. A comida era preparada nas casas pela manhã e alojada em recipientes inadequados. Quando chegava a hora do almoço, as refeições muitas vezes já estavam impróprias para consumo. “Eles se alimentavam ao relento, na chuva no sol…”, conta.

Os dados apurados pelo auditor apontam ainda para uma tentativa de burlar a legislação trabalhista com a utilização de empresas “laranja”. A Vale do Rio Grande Reflorestamento Ltda, companhia responsável pelo corte do pinus, também de propriedade de Marcos Palmério, terceirizava seus serviços para pequenas empresas cujos donos eram os trabalhadores da própria fazenda. Esses, por sua vez, contratavam outros peões para a derrubada das árvores. “A empresa quer se eximir de sua responsabilidade, além terceirizar a atividade-fim da empresa, o que é ilegal. Esses outros pseudo-empregadores moram nas mesmas situações dos outros trabalhadores. Nenhum deles tem capacidade financeira para manter um negócio”, declara Humberto.

A fazenda também possuía um supermercado e um posto de gasolina, onde os trabalhadores compravam comida, equipamentos de proteção e até mesmo corrente ou combustível para as motosserras. As dívidas eram anotadas em cadernos e eram descontadas do salário dos empregados no final do mês. “Os preços praticados eram acima do mercado, e o trabalhador não tinha controle de suas dívidas”, afirma o auditor fiscal, que apreendeu 31 blocos com anotações de compras feitas pelos trabalhadores.
O gerente de reflorestamento da fazenda contou à fiscalização que, entre os compradores do pinus produzido na área, estavam as empresas Eucatex, Cagill e Ultrafértil. Ainda não foram calculadas as multas e encargos trabalhistas, mas Humberto estima que o valor a ser desembolsado passará de R$ 200 mil.

Cidadão ilustre
Marcelo Palmério é figura conhecida no triângulo mineiro. Seu pai, o escritor Mário Palmério, foi deputado federal, embaixador do Brasil no Paraguai e membro da Academia Brasileira de Letras. Em 1947, Mário fundou a Faculdade de Odontologia do Triângulo Mineiro, que mais tarde deu origem à Uniube, da qual hoje Marcelo é reitor. A reportagem tentou entrar em contato com Palmério, mas até o fechamento desta matéria não houve resposta.

* Iberê Thenório integra a ONG Repóter Brasil

Um livro para explicar o país

Editado há 70 anos, “Raízes do Brasil” continua atual e imprescindível

CECÍLIA PRADA

A mais conhecida obra de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, comemora um aniversário importante – 70 anos. Lançado em 1936 pela editora José Olympio, esse livro forma com Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre (1933), e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Junior (1942), uma trilogia de valor incontestável, que vem atravessando gerações e fornecendo um sólido substrato sociofilosófico para o aprofundamento dos mais variados estudos sobre a constituição de nossa identidade nacional.

É evidente que o Brasil de hoje é bem diferente daquele país dos anos 1930, que apenas emergia de uma estrutura patriarcal e agrária para a era da industrialização e da complexidade urbana, para a inserção nos grandes conflitos ideológicos que dominariam o século 20. Mas, neste início do terceiro milênio, por entre os embates da violência generalizada nos quatro cantos do planeta, absorvida a ressaca das frustrações, desmascarada qualquer tentativa de utopia fácil e programada, resta ao ser humano, pulverizado quase diante da complexidade de um universo incompreensível, somente um trunfo, um norte no rumo do seu périplo: o questionamento. Se o cientista devassa os segredos do laboratório para descobrir o mistério da vida, se o astrofísico, o astronauta, lançam um repto ao espaço, o historiador, o sociólogo – o humanista, enfim – continua a remexer ainda as cinzas do passado, à procura de explicações para a configuração das atitudes e idéias que, entrosadas, colocaram os fundamentos da nossa sociedade.

Nesse sentido, Raízes do Brasil permanece um livro atual, imprescindível – hoje como ontem, mas com uma trajetória editorial sui generis, posto que com o correr dos anos aumentou muito o interesse pela obra. Apesar de muito bem recebido pela crítica, só veio a ter uma segunda edição 12 anos mais tarde, em 1948. Em 1969, 33 anos após seu lançamento, contava somente com cinco edições. Mas, com o recrudescimento da repressão política e da luta pela “abertura”, repentinamente começaram a multiplicar-se as edições. Entre 1971 e 1987, elas somaram 14, consagrando definitivamente o livro, que foi traduzido para muitas línguas – inclusive o japonês. Para festejar seu septuagésimo aniversário, a Editora Objetiva está para lançar, antes do final deste ano, uma edição de luxo, ilustrada e comentada, que fará as delícias dos bibliófilos e homenageará devidamente a grande figura de Sérgio Buarque de Holanda.

Um novo olhar

O livro, que se tornaria um ícone, foi levado, embrião e projeto, para a Alemanha em 1929, quando Buarque de Holanda foi para aquele país, na qualidade de correspondente dos “Diários Associados”. Em artigos bilíngües, publicados dos dois lados do Atlântico, o pensador foi amadurecendo suas reflexões sobre o país que deixara, porque, confessava, sentia uma necessidade de “explicar o Brasil aos alemães”. O ponto de vista do outsider, que foi obrigado a adotar, ampliou seus horizontes. Dizia: “Só quando você está no exterior é que consegue ver seu próprio país como um todo. E o Brasil não é fácil de se entender, é difícil”. Embora obrigado a aceitar diversos trabalhos para suplementar seu salário de jornalista – chegou a traduzir legendas para filmes da UFA e a fazer pontas em alguns deles –, aproveitou seu tempo para absorver ao máximo a cultura européia e desenvolver um projeto de análise, denominado primeiro “Teoria da América”, que depois de muito trabalhado se transformaria, alguns anos mais tarde, em Raízes do Brasil. Esse projeto havia nascido de grandes conversas que mantivera com Prudente de Moraes Neto em 1924 – ano em que ambos haviam fundado a revista modernista “Estética” –, mas só ganharia consistência em Berlim, conforme testemunho do próprio autor: “O contato de terras, gentes, costumes, em tudo diferentes dos que até então conhecia, pareceu favorável à revisão de idéias velhas e à busca de novos conhecimentos que me ajudassem a abandoná-las, ou a depurá-las”.

Da “depuração” subseqüente resultou a definição política de Sérgio pelo reforço de uma posição personalista, amadurecida e independente de camarilhas, partidos e arregimentações. Não escondia que deixara o Brasil por se encontrar “em um beco sem saída” (político-filosófico) – frustrada que fora sua iniciação marxista, no seu dizer, “depois de uma conversa tediosa com Otávio Brandão, um dos próceres comunistas no Rio de Janeiro”. Mas o amadurecimento, no exterior, de suas posições inegavelmente de esquerda o caracterizam até mesmo como um “radical” – Antônio Cândido de Mello e Souza reconhece nele um raro exemplo, no Brasil, de “radicalidade” coerente, na sua ação e no seu modo de pensar, mas sempre com posições de esquerda “que são as suas”. E diz: “Penso que se ele nunca se ligou a uma ideologia política predeterminada foi porque tinha a sua própria linha de radicalidade, nascida da compreensão adequada da nossa história”. Os numerosos testemunhos dos que foram seus alunos, assistentes ou amigos insistem sempre no seu espírito “totalmente democrático”, que nunca pôde apoiar autoritarismos de qualquer espécie, de esquerda ou de direita – de que andavam prenhes aquelas décadas de 1930 e subseqüentes. Sua profunda coerência o fez pedir a aposentadoria da USP em 1969, em solidariedade aos colegas demitidos pelo regime militar.

A “hibernação alemã” de Sérgio – na expressão de Francisco de Assis Barbosa – seria fecunda também em objetivar sua principal inclinação, o estudo da história, enriquecendo seus conhecimentos com as obras dos historicistas alemães e de Max Weber. Dali por diante ele se destacaria principalmente como historiador, um interesse que acabou por prevalecer sobre o jornalismo e a literatura – não só se distinguira antes como um dos nossos principais críticos literários, mas fizera até experiências de ficção (contos), muito bem-sucedidas. Mas o “escritor”, nele, estaria sempre por trás do “especialista” – o sucesso duradouro de suas obras deveu-se antes de tudo à perfeita conjunção de forma e conteúdo, a começar pelo seu livro de estréia, Raízes do Brasil, “um clássico de nascença”, como o qualifica Antônio Cândido. Unindo à influência da historiografia alemã a da Nova História de Marc Bloch e Lucien Fèbvre, Sérgio adotava a fórmula deste último, “le parfait historien doit être un grand écrivain”, e dizia: “É fora de dúvida que devendo lidar largamente com fenômenos particulares, para revivê-los em suas pulsações e em sua espessura a fim de que se integrem em quadros amplos, onde ganham nova dimensão e significado mais alto, precisa o historiador valer-se de recursos de expressão que não sejam os de mero relatório ou o de uma exposição científica”. Sem o que, na sua opinião, se tornaria o historiador apenas um antiquário, um cronista, um arqueólogo. Pois “escrever história é ter uma visão dialética do passado e, eventualmente, de suas conseqüências no presente. É iluminar o passado no presente, ou vice-versa. É o presente que importa e é através dele que compreendemos a condição humana”.

Um precioso legado

No prefácio que escreveu em 1967 para a quinta edição de Raízes do Brasil – e que dali por diante, de tão profundo e bem estruturado, incorporou-se por decisão dos editores à própria obra –, Antônio Cândido chama a atenção para o aspecto fundamental do pensamento de Buarque de Holanda: o uso da “metodologia dos contrários, que alarga e aprofunda a velha dicotomia da reflexão latino-americana”. Se nos escritores românticos de nosso passado era comum a exploração dos contrastes do tipo natureza/civilização, e se o conflito ambiente/homem já estivera presente em grandes obras, como as do argentino Domingo Faustino Sarmiento ou de Euclides da Cunha, nunca antes a reflexão sobre a realidade social fora tratada em termos “dialéticos” – um “jogo” em que, à ingênua exclusão de um dos termos contrários, substitui-se, como diz Antônio Cândido, “o enfoque simultâneo dos dois; um suscita o outro e ambos se interpenetram e o resultado possui uma grande força de esclarecimento”.

É uma nova visão, a que inaugura Buarque de Holanda – remonta às raízes da nossa colonização para revisitar os fatos conhecidos mas nunca vistos em sua totalidade – em sua integração dos diversos aspectos históricos, sociológicos, econômicos, sociais. Na análise do professor Brasílio Sallum Junior, “Sérgio Buarque de Holanda, ao examinar as concepções, instituições e formas de vida gestadas por nossos antepassados, o faz tendo em vista que elas ainda oprimem – como diria Marx – o cérebro dos vivos”.

Investiga até as últimas conseqüências o que considera “o fato dominante e mais rico em conseqüências de nossa cultura” – o de que somos uns “desterrados”, pois instituições, idéias e formas de convívio foram transplantadas do continente europeu, mais particularmente da cultura ibérica, para o solo do novo continente, tendo sido nosso trabalho através do tempo “manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil”. O radicalismo do autor não faz concessões e dá a marca da obra – como quando, após sete densos capítulos, declara que “a sociedade foi mal formada, nesta terra, desde as suas raízes”.

Estuda as duas unidades que formavam a Ibéria – Espanha e Portugal – em relação a um dos conceitos fundamentais de sua obra, isto é, a repulsa pelo trabalho regular e utilitário (pouco digno dos nobres de Espanha e dos fidalgos lusos) que iria permear toda a nossa cultura e resultar em uma certa “incapacidade de organização” ou mesmo anarquia fundamental, que acaba por tolerar, ou mesmo exigir, formas autoritárias: “Em terra onde todos são barões, não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida”.

Entre espanhóis e portugueses, porém, há uma diferença fundamental no que se refere ao início da civilização urbana – enquanto o espanhol, do tipo “ladrilhador”, funda cidades em que parece predominar a linha reta e a ordem da razão, como se fossem um prolongamento estável da metrópole, o colono português, do tipo “semeador”, norteado por uma política de feitoria, planta cidades irregulares, espontâneas, crescidas ao deus-dará. Um aspecto que ainda hoje predomina em nossos grandes núcleos urbanos, avessos a planejamentos, estirados segundo as necessidades móveis da população.

É um leque de análises sistemáticas que Buarque de Holanda consegue fazer, partindo do Descobrimento, do início rural da colonização, passando depois ao estabelecimento dos centros urbanos, aprofundando sempre a mentalidade, os costumes, as idiossincrasias dos colonizadores, e das gerações sucessivas, até chegar às características que ainda hoje facilmente ressaltam mesmo ao olhar desavisado: a nossa desorganização, emprenhada de um “jeitinho brasileiro”, uma doçura-cordialidade manifesta no predomínio dos diminutivos (basta ver a profusão de “inhos” entre os jogadores da seleção brasileira de futebol), a informalidade no trato – usa-se “você” até mesmo ao dirigir-se ao presidente da República –, os compadrios e nepotismos, a absoluta mistura de esferas entre o privado e o público em todos os setores da vida nacional, até no político. Os próprios santos da Igreja Católica são tratados pelos brasileiros “com uma intimidade quase desrespeitosa”, diz o autor, lembrando que a popularidade de uma Santa Teresinha de Lisieux, por exemplo, “resulta muito do caráter intimista que pode adquirir seu culto amável e quase fraterno, que se acomoda mal às cerimônias e suprime as distâncias”.

Famoso, e polêmico, é o capítulo sobre o “homem cordial” – um tipo que Buarque de Holanda tomou emprestado ao escritor Ribeiro Couto. Popularizou-se através dos anos uma idéia, errônea, de que fora o autor de Raízes do Brasil o criador e o apologista dessa “cordialidade”, que seria o grande legado do Brasil à sociedade global. Reconhecendo embora como virtudes a generosidade, o trato hospitaleiro, demonstrados pela população brasileira – nos costumes derivados do meio social e patriarcal –, ele faz questão de diferenciar essas atitudes das “boas maneiras” de civilidade de outros povos, as quais se revestem na maioria dos casos de uma coercividade rija que pode beirar o ritual, coisa que absolutamente repugna à nossa índole. O nosso povo, que “desconhece qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo”, cria circunstâncias sui generis para sua constituição e permanência como entidade social, mostrando-se “livre para se abandonar a todo o repertório de idéias, gestos e formas que encontre em seu caminho, assimilando-os freqüentemente sem maiores dificuldades”.

O autor não vê essa “aptidão para o social” como um fator apreciável de ordem coletiva, por “denunciar um apego singular aos valores da personalidade, configurada pelo recinto doméstico”. Donde a dificuldade, a impossibilidade quase de estabelecer projetos sociais e de governo de alcance duradouro, e a prevalência de “caudilhismos” e aventuras demagógicas de curta duração. Como se vê, um livro extremamente atual.

Figura humana

Nos numerosos testemunhos de amigos, alunos, colegas de universidade, Sérgio Buarque de Holanda é sempre descrito como dono de personalidade marcante, um homem fascinante, um grande líder intelectual – Sérgio Milliet chamava-o de “homem-ponte” entre dois mundos, o da cultura tradicional conservadora e o da modernidade, e dizia: “Foi com Sérgio Buarque de Holanda e Mário de Andrade que aprendemos a meditar”. Mas caracterizado pela afabilidade, brincalhão, boêmio, generoso e extrovertido – nos restaurantes da moda, soprava no ouvido do maître “eu sou o pai do Chico Buarque”, para conseguir uma mesa; no tempo em que era obrigatório o uso de beca nos concursos acadêmicos, zombava do formalismo ao passear pelos corredores da Universidade de São Paulo (USP) concedendo bênçãos como se fosse um bispo. Justificou sua recusa a entrar para a Academia Brasileira de Letras dizendo que o estilo acadêmico não combinava com sua personalidade, tanto mais que já estava irremediavelmente comprometido com uma confraria literária que fundara em uma pândega com Jorge Amado e outros amigos, no Recife, tempos atrás – a Ordem dos Hipopótamos Azuis.

A professora Suely Robles Reis de Queiroz, em depoimento dado em 1986, caracteriza-o bem: “Gostava de gente e vivia cercado dela. O seu bom humor, a irreverência sem mordacidade ou amargura, a piada pronta atraíam os alunos e as pessoas em geral, pois quem não gosta de gente alegre, brincalhona, dotada de prodigiosa memória, capaz de continuamente evocar casos interessantes ou engraçados ocorridos consigo próprio ou com outras pessoas célebres?”

O que mais apreciava era reunir em sua casa da rua Buri, no bairro paulistano do Pacaembu – onde residiu com a família de 1957 até sua morte, em 1982 –, grupos de amigos para uma conversa cotidiana. Gostava de beber, de cantar, de noitadas, e dizia que somente dona Maria Amélia o impedira de deixar-se arrastar de vez para a boemia. As palavras do amigo Rodrigo Melo Franco de Andrade o definem bem: “O homem Sérgio é igualmente múltiplo e genuíno na sua variedade. No exercício da chefia de serviço público ou na mesa de bar, como patriarca entre a esposa e os sete filhos ou como delegado a conferências internacionais, ele é perfeitamente ajustado a cada função”.

O historiador escritor

Sérgio Buarque de Holanda, nascido em 1902 na cidade de São Paulo e nela falecido em 1982, embora fosse formado em direito nunca exerceu a advocacia. Foi historiador, jornalista, escritor e professor universitário, tendo ocupado várias cadeiras, na área de história, na Universidade do Distrito Federal, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e, a partir de 1956, até sua aposentadoria em 1969, na Universidade de São Paulo (USP). “Raízes do Brasil” foi seu primeiro livro, seguido de mais 12, entre os quais se destacam importantes obras históricas – tanto de cunho didático como dirigidas ao público geral –, estudos de caráter antropológico e sociológico, como “Visão do Paraíso – Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil” e “Índios e Mamelucos na Expansão Paulista”, e até mesmo uma obra de caráter literário, como a “Antologia de Poetas Brasileiros da Fase Colonial”.

Foi extensa, constante e importante sua contribuição como jornalista para as mais eminentes publicações, no Brasil e no exterior. Teve sempre uma destacada atuação pública no setor cultural, ocupando cargos de relevo – foi diretor do Museu Paulista (Museu do Ipiranga), fundador e diretor do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, vice-presidente do Museu de Arte Moderna de São Paulo, presidente da Associação Brasileira de Escritores, seção do Rio de Janeiro. Em diversas ocasiões deu cursos em universidades estrangeiras, nos Estados Unidos, Chile, Peru, México e Costa Rica, e participou de importantes simpósios patrocinados pela Unesco, em Paris e em Genebra.

Foi co-fundador, em 1945, do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980. Casou-se em 1936 com Maria Amélia Alvim, com a qual teve sete filhos, entre os quais se conta o compositor Chico Buarque de Holanda.

Revista de Problemas Brasileiros.

Fortalecimento da democracia não depende da Reforma Política

O cientista político relembra as as raízes históricas do sistema eleitoral e partidário brasileiro, desengana os entusiastas da Reforma Política e ainda desbanca a tese de crise de governabilidade. Para ele, urgente é a Reforma do Estado.

Maurício Hashizume – Carta Maior

BRASÍLIA – Ai de quem, nos dias de hoje, se atreva a questionar a pomposa comenda de “mãe de todas as reformas” que vem sendo atribuída à Reforma Política. Virou quase um consenso nacional. Veredicto definitivo de aura auto-explicativa. Analistas, políticos das mais variadas filiações partidárias e curiosos replicam solidariamente esse conceito “de uma nota só”, seja em conversas de botequim ou em discussões filosóficas sobre possíveis e palpáveis providências em decorrência da crise política.

Discursos únicos, por mais oportunos que sejam, não são capazes de anestesiar o raciocínio agudo, organizador e provocativo do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, coordenador do Laboratório de Estudos Experimentais (Leex) da Universidade Candido Mendes (Ucam), no Rio de Janeiro.

Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Santos não deixa pedra sobre pedra. Retoma as raízes históricas das mudanças no sistema eleitoral e partidário brasileiro, desengana os entusiastas da Reforma Política edulcoradas como panacéia e ainda desbanca a tese de crise de governabilidade. De quebra, delineia uma agenda prioritária de Reforma do Estado para enfrentar os verdadeiros problemas do País.

O intelectual recebeu a reportagem em sua sala acomodada num dos prédios da Praça Pio X, ao lado da Igreja da Candelária, no final de agosto último. As explicações, provocações e sugestões de Wanderley Guilherme dos Santos estavam sendo guardadas como jóia e encerram o ciclo especial de matérias sobre Reforma Política (veja relação de todos os textos publicados ao final da entrevista). Confira:

Carta Maior – A Reforma Política ganhou tamanha projeção no Brasil que comumente vem sendo associada a outros dois desafios: o combate à corrupção e o desenvolvimento socioeconômico. Qual é a relação concreta que se pode estabelecer entre o conjunto de mudanças no sistema eleitoral e partidário que está sendo proposto e essas duas outras questões?
Wanderley Guilherme dos Santos – As provas, as evidências e os argumentos comprovando que não existe relação sistemática entre tipos de sistema político-eleitoral e nível de corrupção ou desempenho de desenvolvimento é dado pela História. Grande parte dos analistas sabe disso. De modo que é por isso que eu até atribuo – o que não costumo fazer – motivações que não tem a ver com o problema institucional ou acadêmico. Porque são fatos banais, triviais, conhecidos pela academia internacional, que a corrupção existe em qualquer tipo de governo. Não tem a ver com o sistema eleitoral. Há corrupção nos Estados Unidos onde há voto distrital puro. Na Alemanha, há primeiros-ministros sendo denunciados com o voto distrital misto. Há corrupção em países com sistema proporcional como no Brasil. Há corrupção em sistemas parlamentaristas, presidencialistas, autoritários, em qualquer tipo de sistema.

Desenvolvimento econômico também não está sistematicamente associado a nenhum sistema eleitoral ou forma de organização de governo. Se não, nós seríamos obrigados a propor um sistema como o da China, que vem dando show em matéria de crescimento econômico – com uma das mais altas de crescimento da História. Não tem nada a ver. Sem falar na nossa experiência não muito antiga, do período “delfinista” [do ex-ministro Delfim Netto], em que nós também tivemos taxas de crescimento altíssimas durante o regime autoritário. Olhando no longo prazo, a experiência de todos os países a partir da Revolução Industrial – portanto, o período moderno do crescimento econômico – e também a partir do momento em que começa a democratização do voto – isto é, ampliação do eleitorado pela redução e queda das barreiras que impediam a participação –, o que nós temos, como evidência, é o contrário: quanto mais nós temos eleições e sistemas políticos e eleitorais organizados de maneiras diferentes e mais eventos e fenômenos históricos se repetindo, mais fica comprovado que não existe relação sistemática entre essas coisas. Esses fatos são banais, não é segredo de nenhuma investigação de pós-doutorado que eu fiz. É absolutamente trivial. Há mais de dez anos que eu repito isso mesmo que eu estou dizendo. Só não uso exatamente as mesmas evidências porque cada vez tenho mais.

As mesmas pessoas continuam a divulgar as mesmas falsas informações. Então eu chego a conclusão de que não se trata de um problema de persuasão democrática, de falta de debate, de controvérsia, de força de argumentos ou de evidências. Não se trata disso. Então é um debate inútil do ponto de vista acadêmico. Trata-se de mobilizações de forças políticas. É pura cobertura. Não está aí a questão.

CM – Quais seriam então as questões em jogo nas mudanças do sistema eleitoral e político que ainda dependem do confronto de idéias?
WGS – O problema consiste na tentativa de alteração do nosso sistema proporcional. O sistema proporcional teve origem, historicamente, foi resultado de uma estratégia mal-sucedida dos conservadores, mas que fazia sentido à época. Na medida em que houve a democratização do voto e aumentava o número de pessoas qualificadas para votar, e conseqüentemente aumentava o número de trabalhadores dentro no eleitorado – até porque as coisas estavam mais ou menos vindo juntas, com o aumento da população urbana e do operariado industrial –, havia uma perspectiva comum, tanto aos social-democratas, aos socialistas e aos conservadores, de que, com o desaparecimento dessa barreira, a maioria do eleitorado passaria a ser formada por trabalhadores e isso subverteria o sistema. Essa era a estratégia do socialismo revisionista, a de que havia possibilidade de se chegar ao socialismo por via parlamentar. Os conservadores também tinham a mesma opinião e achavam, portanto, que seriam destruídos. O que eles fizeram então? Propuseram a substituição do sistema de maioria – no qual quem tinha a maioria simples levava tudo – por um sistema proporcional, para que as minorias não fossem massacradas pela maioria. Foi uma proposta conservadora, daqueles que estavam com medo de serem liquidados.

Eles ainda tinham a maioria, mas implantaram o sistema proporcional, garantindo o seu próprio futuro. E não aconteceu nada disso. Inclusive o eleitorado, ao longo dos anos, se revelou extremamente conservador. O que acontece é que depois de um primeiro momento de expansão do eleitorado – que apareceu com feições conservadoras -, ainda não havia democracia de massa. Não havia um grau de urbanização, uma quantidade de trabalhadores e de participantes tão grande assim. Era uma democracia grande comparada com o sistema oligárquico anterior, mas não era uma democracia de massa e, portanto, permaneceu sendo conservadora.

Depois da criação dos partidos social-democratas, das crises do capitalismo e de vários eventos, quando efetivamente desaparecem as principais barreiras (ao voto), sobretudo ao fim da II Guerra Mundial, começam efetivamente as democracias eleitorais de massa. Até então pouquíssimos países tinham voto universal. As experiências de funcionamento das democracias eleitorais de massa são muito recentes.

Na verdade, não existe ainda campo histórico sedimentado para se saber das regularidades porque se trata de uma coisa assustadora. É uma coisa inédita na história. Nunca houve isso. É uma maluquice, entende? Todo mundo poder votar, milhões de pessoas. No Brasil, são 120 milhões que vão a cada dois anos votar. Sem falar no eleitorado indiano, paquistanês – que é parecido com o brasileiro -, o japonês, o americano, quando votam. Isso tem trazido, para a classe política e para os analistas, fenômenos absolutamente novos na História. Não adianta ir buscar Maquiavel, porque ele escreveu sobre um sistema vagabundinho e fechado, muito pequenininho, em que a competição era entre em poucas pessoas. Nada do que Maquiavel disse faz sentido. Todo mundo cita porque é bonito na retórica. Mas tudo que ele escreveu e valia naquele tipo de sistema não tem nada a ver com a atual ordem democrática. Então é uma coisa nova em relação a qual nós estamos aprendendo.

Os chamados políticos fisiológicos, que prestam serviços em troca de votos, estão nos ensinando. Isso não é uma forma que surge apenas porque eles são imorais. Esta é a forma que a democracia de massa, na ausência de um poder público eficiente, coloca como oportunidade de ser eleito. Eles estão ensinando coisas. É preciso saber por que eles estão fazendo isso e por que estão sendo levados a fazer essa escolha. Não é só porque ele tinha outra forma melhor de ser eleito – com propostas em vez da prestação de serviços – e escolheu isso porque é um corrupto do ponto de vista moral. Não existe isso. É claro que existem pessoas que podem se encaixar nessa categoria, mas isso acontece no mundo inteiro. No mundo inteiro é assim.

CM – Fala-se muito dos avanços que poderiam ser obtidos com o voto distrital no que diz respeito ao vínculo dos eleitores com os eleitos. O que o senhor acha disso? Em que medida os partidos seriam fortalecidos com a adoção da lista fechada (pré-estabelecida pelos partidos) e da cláusula de barreira (que determinou critérios de desempenho para a segregação de partidos sem grande acúmulo de votos)?
WGS – O tal do representante distrital nos Estados Unidos não faz outra coisa que não seja trocar voto por serviço. É o mais fisiológico de todos porque não tem saída. A forma mais fisiológica que existe é aquela baseada no voto distrital puro, na qual o cidadão ou presta serviço pelos votos ou não se elege. Aí ele é o representante mais antidemocrata. Ele não tem liberdade de representação. É, na verdade, um “pau mandado”. Há uma parte da representação que implica em representar o seu eleitorado, mas há uma parte em que ele é eleito para educar. Para ser pedagogo do seu eleitorado. Faz parte da concepção democrática. Essa parte, eles (representantes distritais puros) não têm e não estão nem aí.

Então essa democracia de massa, que é uma coisa inédita, está ensinando coisas novas. E de novo aparece a enorme ameaça para os conservadores da invasão dessa massa tanto quanto candidatos – pessoas esquisitas, com nomes estranhos – quanto como eleitores. Deixou de ser um jogo entre famílias e de pessoas conhecidos. Isso traz muita ameaça aos tradicionais participantes da política.

O que você tem aí é uma tentativa de reduzir a imprevisibilidade da política que é a essência da competição democrática. Com o voto em lista, você já sabe quem será eleito. Foi o partido que colocou lá. Com o voto distrital puro, é fulano, beltrano ou sicrano, dos maiores partidos que vão concorrer. Isso não está certo porque não corresponde à dispersão de opiniões no eleitorado e nem da dispersão de oportunidades que o eleitorado tem que ter para escolher seus candidatos. Essa é uma reação típica dos conservadores, só que agora ao reverso. Em vez de propor o proporcional com medo de se garantir, eles propõem o distrital para barrar a entrada de “estranhos”.

A cláusula de barreira, por exemplo, vem claramente nesse sentido. Se você examinar os dados que já existem, a existência de partidos não traz rigorosamente nenhum defeito para o funcionamento da democracia. Inclusive a taxa de desperdício de votos destinados a esses partidecos que estão aí é ridícula, pouco mais de 1%. Nem como desperdício do voto do eleitor isso se sustenta. É curioso porque não traz prejuízo a ninguém. Na verdade, quando se coloca o problema do número de partidos, não se está pensando nesses partidecos, está se pensando em tirar o PSB e o PCdoB, por exemplo. São partidos médios consolidados, que têm realmente políticas próprias, histórias. São esses que eles estão visando e não os partidecos, com pessoas exóticos. Eles dão esses exemplos para justificar, mas eles não têm a menor relevância. É a estratégia contemporânea do conservadorismo numa subversão histórica da estratégia inicial.

CM – Mas existem outras mudanças sugeridas nessa mesma leva como, por exemplo, o fim das coligações proporcionais e as medidas referentes à fidelidade partidária?
WGS – Há muita coisa que pode ser definitivamente melhorada desde que a sua intenção seja melhorar e não mudar o sistema. O que você tem em uma coligação eleitoral, por exemplo, que não é justa em relação à manifestação do eleitor? Você vota em um candidato e acaba elegendo outro. Mas há a possibilidade de sanar esse problema. Como? A coligação elege um número hipotético de deputados em função do quociente eleitoral. Elegeu dez, por exemplo. Não é impossível fazer uma discriminação dos votos recebidos pelos candidatos das diversas legendas e ver a proporção que cada um dos partidos recebeu dentro do total de votos da coligação. Vamos supor que seja 40% para X, 30% para Y e 30% para Z. Seriam quatro deputados de X, três de Y e três de Z. É possível fazer essa modificação. Os partidos elegeriam em função da proporção de votos que receberam. Acaba esse negócio de votar em um e eleger outro. É possível eleger outro do mesmo partido, mas aí é outra coisa. Essa coisa esdrúxula seria reduzida. Pronto.

Sobre coligações no Parlamento, por exemplo. É sabido que em sistemas multipartidários, exceto em sistemas parlamentaristas, as coligações eleitorais não são necessariamente as coligações parlamentares. E não precisa nem ser sistema proporcional. Num sistema como o dos Estados Unidos, que é distrital puro, as coligações que dão suporte às administrações democratas são os democratas do Norte com os republicanos do Sul. Os democratas do Sul são contra os democratas do Norte, por razões locais. Como nós temos gente do PSDB e do PFL, por exemplo, que se enfrentam por razões locais. Esse fenômeno da coligação parlamentar para a sustentação de um governo é diferente da coligação eleitoral. Podemos melhorar? Claro, desde que se disponha a manter o sistema e melhorá-lo. E vem melhorando muito, por exemplo, em relação às medidas provisórias e à feitura do orçamento. O Parlamento e o Executivo vêm melhorando. Só que isso não aparece. Como se o sistema brasileiro fosse imutável e só produzisse bobagem.

O problema da fidelidade partidária tem dois aspectos. Um é sobre o comportamento dos membros de um partido nas votações dentro do Congresso. Quanto a isso, não há muita discussão, não. Eles normalmente seguem a orientação. O problema está na transferência de legenda. Isso merece um estudo. Não é uma coisa saudável, mas deve haver alguma razão que não seja o mau-caratismo dos políticos. Pode até ter de alguns, mas, por alguma razão, o sistema está condicionando esse tipo de decisão. Vamos ver o que é e o que se pode fazer. Não há estudo sobre isso, a não ser quantitativo. Fulano mudou 50 vezes? Mas por quê? Eles também não devem gostar de estar a cada momento em um partido. O que está acontecendo que a política brasileira está contaminada bastante fortemente por isso? É legal, podemos deixar? Não, mas é preciso saber por que isso acontece e o que se pode fazer.

CM – Foi cunhado até um termo específico chamado “presidencialismo de coalizão” para caracterizar a relação crítica existente entre os Poderes Executivo e Legislativo no Brasil. Há como melhorar a questão da governabilidade?
WGS – Do ponto de vista mais duro, que significa risco de paralisia, não existe problema de governabilidade no Brasil. O País tem passado por coisas inacreditáveis – desde os “anões” do orçamento, passando pelo impeachment [do ex-presidente Fernando Collor]. Há mais de um ano, convive-se com escândalo atrás de escândalo e não existe esse problema. Dá um trabalho desgraçado para os políticos, mas, se não quiserem, mudem de profissão. Se não estiverem gostando, parem de se candidatar e façam outra coisa. Não são escravos.

O sentido fraco de governabilidade é que governar implica em elevados custos de transação. Muita barganha. Isso existe. Aqui é que entra a estratégia e a virtude de Maquiavel. Depende muito de quem está conduzindo o processo. Esse tipo de questão, de como formar a maioria nem sempre é dada pela coligação eleitoral. Isso não existe só no presidencialismo de coalizão, existe também no parlamentarismo de coalizão; é um problema dos sistemas multipartidários. Quando a coligação eleitoral não cria a maioria necessária, o governo eleito é obrigado a agregar alguns dos outros que não participaram da sua eleição para poder governar. Isso é uma questão permanente de sistemas multipartidários, que também tem as suas vantagens. Significa que aquela coligação não representa todo mundo e que vai precisar ouvir a opinião dos outros. Qual é o problema? Essa é uma concepção democrática.

Isso não surgiria se o governo conseguisse, com a sua coligação eleitoral, conquistar uma maioria absoluta no Congresso. Mas essa maioria acontece raramente, em qualquer país. São raras as eleições, em sistemas multipartidários e mesmo em sistemas de voto distrital, em que os eleitores dão a maioria àqueles que vencem as eleições. Portanto, para governar, é preciso fazer uma reorganização.

Aí entra a virtú, de Maquiavel: a capacidade, a inteligência e a maleabilidade dos líderes. Juscelino [Kubitschek, foi presidente de 1956 a 1961] foi quem melhor fez isso na história republicana. Brilhantemente. Ele fez tudo isso antes de assumir. Negociou com a UDN, que só fez oposição a Juscelino naquilo que estava fora do acordo. Ele disse o seguinte: ‘O meu governo é o Plano de Metas, eu ganhei as eleições e preciso governar. Preciso dos instrumentos para realizar o Plano de Metas’. A UDN respondeu: ‘Até aí tudo bem. Fora daí, nada’. Na época, com uma moeda instável, os orçamentos precisavam a cada seis meses de créditos suplementares. E a UDN votou todos. Fora do Plano de Metas, a UDN pintava o diabo de Juscelino.

O que me parece que aconteceu, para voltar ao tempo contemporâneo, foi um exemplo oposto. Eu acho que o governo Lula não conduziu bem exatamente essa parte. Em vários episódios. Não conduziu bem o episódio em relação ao PMDB, com uma posição metida a purista de fachada. Não obstante, acabou fazendo alianças com PL, PP, etc. – partidos piores e irresponsáveis. E o PMDB não é um partido irresponsável. [O governo Lula] Cometeu outro equívoco sério na sucessão da presidência da Câmara, apoiando a ambição irracional do João Paulo Cunha [de se reeleger como presidente da Casa], quebrando uma rotina, tentando fazer aquilo de forma autoritária, e aquilo acabou por desorganizar a base parlamentar do governo. Ficou à deriva e muito vulnerável à oposição.

CM – Qual agenda o senhor propõe, então, para o fortalecimento da democracia no País?
WGS – Várias coisas, mas eu quero insistir em duas. Em primeiro lugar, é preciso que haja um processo de federalização real da República brasileira. Isso tem sido feito, mas muito lentamente. O poder é muito concentrado. Essa é uma das razões, aliás, pelas quais há tanta política fisiológica. É preciso ter um deputado para conseguir dinheiro para qualquer coisinha nas localidades. A implantação de uma Federação real levará muito tempo. Não é uma coisa de um governo. É necessário que medidas sejam tomadas de forma gradual até para aferir pouco a pouco os resultados de cada uma delas. É indispensável. Mas não se pode ter um poder tão concentrado na União porque ele será ineficiente. Ele não pode dar conta de todas as demandas que recebe. Não tem aparelho para isso e nem deve ter. Não tem informação suficiente e nem precisa ter. Não é diminuir o Estado, não. O Estado brasileiro é muito pequeno, tem até que aumentar. Mas é preciso diminuir a centralização. Não há Estado eficiente dessa maneira.

A outra [agenda] é a constitucionalização do País. O que houve no Brasil foi uma incorporação política e econômica com uma velocidade extraordinária. Há 20, 30 anos, o Norte e o Centro-Oeste faziam parte do mapa brasileiro, mas não faziam parte, de fato, nem do mapa econômico e nem do político. Era a parte periférica. Essas regiões foram incorporadas e nós demos um salto em termos de eleitorado, de urbanização, etc. O Brasil está acabando de se invadir. E esse processo muito rápido não foi acompanhado do enraizamento dos direitos constitucionais. A Constituição não vale a mesma coisa em todos os quadrantes do País. Nós temos um vastíssimo ‘estado da natureza hobbesiana’ [referência ao filósofo inglês Thomas Hobbes, autor de O Leviatã] nas fronteiras do Estado civilizado. E dentro do Estado civilizado nós temos também, com o crime organizado. É a decadência do Estado brasileiro, que é a face negativa da sua democratização e do seu crescimento aceleradíssimos. O Estado brasileiro não foi preparado para administrar uma sociedade democrática. É um Estado oligárquico preparado para administrar para pouca gente. Para o resto da população é porrada, polícia. Agora somos 180 milhões. O Estado brasileiro não tem condições de garantir as vigências dos preceitos constitucionais no território brasileiro. Tornar cada brasileiro detentor de direitos, esteja onde ele estiver, é crucial, fundamental, e tem a ver com a Reforma do Estado.

O impedimento [dessa agenda], como é histórico, está ligado aos interesses econômicos ilegítimos presentes nessas fronteiras como ocorreu na Inglaterra, nos Estados Unidos. Em todas as áreas de fronteira, houve todo um processo até que as leis chegassem até lá. A inexistência da lei permite que o poder da riqueza esteja associado ao poder político. Não interessa que chegue a Constituição nas minas de Rondônia, no interior do Centro-Oeste. Não interessa. A democracia dissocia poder político, poder econômico e poder social. Exceto por mérito, mas não automaticamente. E quando não há Estado, essa acumulação é automática. Há um vastíssimo ‘estado da natureza’ no Brasil cercando o Brasil civilizado que está sendo comido por dentro porque continua como um Estado oligárquico.

30 países podem ter bomba logo, alerta AIEA

Baradei teme que tecnologia para fins pacíficos seja usada em armas

O diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o egípcio Mohamed El Baradei, disse ontem que pelo menos 30 nações, além das 9 que já têm bombas atômicas, teriam capacidade de produzir armas nucleares ‘em um tempo muito curto’ – sem especificálo. Em uma conferência em Viena, com 500 especialistas, para discutir formas de melhorar o controle sobre a proliferação nuclear, Baradei advertiu que tensões políticas podem levar alguns países a transformar seus conhecimentos tecnológicos em armas. O chefe da AIEA afirmou que uma nação, mesmo que tenha intenção inicialmente de apenas produzir energia nuclear para fins pacíficos, pode desenvolver uma bomba ‘baseando-se no seu senso de segurança ou insegurança’.
Para Baradei, os países que iniciaram programas de enriquecimento de urânio converteram-se em ‘novos Estados virtualmente armados’. ‘O conhecimento saiu da superfície. Para fins pacíficos, mas infelizmente também para fins não pacíficos.’ Ele não citou nenhum país específico, mas claramente aludia ao Irã e a outras nações – como o Brasil – ao comentar sobre Estados que estão desenvolvendo capacidade para enriquecer urânio. Outros que anunciaram recentemente considerar o enriquecimento para produção de energia são Austrália, Argentina e África do Sul. Além das formalmente declaradas potências nucleares – EUA, Rússia, China, França e Grã-Bretanha -, quatro outros Estados têm armas atômicas: Índia, Paquistão, Israel e a Coréia do Norte.
As nações que estariam em condições de produzir material físsil capaz de gerar armas nucleares seriam Canadá, Alemanha, Suécia, Bélgica, Suíça, Taiwan, Espanha, Hungria, República Checa, Eslováquia e Lituânia. Todos esses são Estados comprometidos com a não-proliferação, e nenhum deles sugeriu ter a intenção de produzir armas nucleares. Outros países que consideram desenvolver programas nucleares em um futuro próximo são Egito, Bangladesh, Gana, Indonésia, Jordânia, Namíbia, Moldávia, Nigéria, Polônia, Tailândia, Turquia, Vietnã e Iêmen.
Baradei também criticou indiretamente os países que possuem armas nucleares, dizendo que não faz sentido eles manterem seus arsenais enquanto pedem que outras nações não entrem no clube atômico.
Os programas nucleares de Irã e Coréia são uma grande preocupação da comunidade internacional no momento. Eles despertam temores sobre uma possível corrida pela tecnologia nuclear na Ásia e no Oriente Médio, o que poderia resultar em bombas nucleares.
O alerta de Baradei foi direcionado para o potencial mau uso do enriquecimento de urânio. Este pode levar tanto urânio pouco enriquecido – incapaz de gerar armas nucleares – quanto altamente enriquecido – condição necessária para a produção de armas. ‘Infelizmente, o clima é de insegurança’, analisou o egípcio.
O simpósio da AIEA busca avaliar as últimas tecnologias para descobrir atividade nuclear clandestina. Entre as tecnologias estão imagens de satélite e sensores a distância.

AP

Museu americano do Holocausto viaja para a Alemanha

Andrew Curry em Dresden

Os nazistas podem tê-la levado a extremos assassinos, mas a eugenia já existia muito antes da ascensão de Hitler ao poder, em 1933. Uma nova exposição em Dresden -originalmente exibida no Museu do Holocausto dos Estados Unidos, em Washington- examina as fundações pseudo-científicas do racismo.

Nos anos 20, os visitantes do Museu da Higiene alemão em Dresden se deparavam com uma exposição de vanguarda: um homem transparente, com os braços erguidos para os céus. Em uma era de turbulência política e econômica, o futurista “Homem de Vidro” era um símbolo poderoso de um futuro alemão puro, com saúde. A saúde física fazia parte da exposição; estavam exibidos o sistema circulatório, germes e nutrição.

Mas isso não era tudo. O museu também defendia uma abordagem científica para um problema que ganhava atenção cada vez maior na Alemanha do início do século 20: a higiene racial -uma abordagem científica à raça que no final moldou o ponto de vista nazista sobre a pureza da raça ariana. Quando os nazistas assumiram o poder em 1933, o Homem de Vidro começou a aparecer nos cartazes de propaganda e em panfletos promovendo o “Povo Eterno”.

Em uma colaboração incomum, o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos inaugurou sua primeira exposição fora do território americano no Museu da Higiene. Intitulada “Medicina Mortal: Criando a Raça Mestre”, a exposição narra a história da ciência racial e eugenia nazistas de suas raízes pseudocientíficas até sua conclusão assassina. E em um eco consciente do passado, a primeira coisa que os visitantes vêem quando cruzam o limiar é o Homem de Vidro, agora símbolo de algo totalmente diferente.

Mergulho rumo ao genocídio

A exposição cuidadosamente montada -que ficará aberta até junho do ano que vem em Dresden- combina artefatos, documentos, instalações e vídeos para acompanhar o establishment científico alemão em seu mergulho da pesquisa da hereditariedade e eugenia até a genocida Solução Final.

Ela inclui de tudo, de arquivos médicos de pacientes, cartazes de propaganda, “cabeças de raças” com base em medições de asiáticos e africanos feitas por antropólogos alemães para determinar as diferentes características raciais, até um urso de pelúcia para crianças arianas de um lar da SS nazista. A exposição foi aberta ao público no Museu do Holocausto em Washington, D.C., em 2004. Em dois anos ela recebeu 720 mil visitantes.

Não é por acaso que o museu de Dresden foi escolhido para receber a exposição. Ele foi um dos primeiros e mais ardorosos defensores da higiene racial e subseqüentemente se dedicou a produzir propaganda para o programa de eugenia do Terceiro Reich. “Mesmo nos anos 20, havia uma defesa da eugenia neste museu. Ele se tornou um porta-voz das idéias raciais nazistas após 33″, disse Susan Bachrach, a curadora da exposição.

Ele também se empenhou para formar tais idéias. O museu enviou antropólogos para várias partes do mundo para fazerem moldes de gesso de rostos e crânios para estudos e fins educativos, além de criar exposições itinerantes promovendo políticas de eugenia, que chegaram até a Califórnia. Apesar de muitos artefatos e documentos na exposição terem vindo dos arquivos do Museu da Higiene, foi necessária uma visita de curadores americanos que pesquisavam o assunto para que o museu enfrentasse plenamente sua história. “Nós sempre lidamos com esta história como uma nota de rodapé”, disse a diretora de projeto do Museu da Higiene, Antje Uhlig. “Nós consideramos que trazer ‘Medicina Mortal’para cá seria uma boa forma de lidarmos com o assunto de forma extensiva.”

Anti-semitismo em ascensão

Na verdade, disse Uhlig, a exposição quase não aconteceu -o museu teve que superar as dúvidas do diretor e curadores do Museu do Holocausto, que questionaram a viabilidade de realizar uma exposição tão grande tão longe de Washington. Mas quando o Partido Democrático Nacional neonazista ganhou as manchetes em 2004 ao conquistar cadeiras no Parlamento da Saxônia, curadores de ambos os lados do Atlântico receberam uma motivação adicional. “Foi importante fazer isto neste momento, quando o anti-semitismo está em ascensão na Europa”, disse a diretora do Museu Memorial do Holocausto, Sara Bloomfield, para o SPIEGEL ONLINE.

A exposição é a história de como uma idéia pode gerar frutos inesperados e mortais. Historiadores que olham atualmente para aquele período vêem a obsessão alemã com raça e eugenia não como uma invenção de Hitler, mas como uma idéia plantada décadas antes. Promovida por cientistas respeitáveis de várias partes do mundo, na Alemanha a credibilidade da higiene racial ou eugenia foi usada pelos nazistas para justificar primeiro a esterilização, depois a segregação, assassinato e no final o genocídio. “O trabalho de geneticistas tornaram a tarefa genocida mais fácil para o regime”, disse Sheila Weiss, uma professora de história da Universidade Clarkson, em Potsdam, Nova York, e membro da Academia Americana em Berlim. “Se toda uma geração de profissionais de medicina não tivesse aprendido que aquilo era algo apoiado pela ciência, a Solução Final teria sido bem mais difícil.”

A idéia de ciência racial ou eugenia não foi uma invenção alemã. Em 1883, o biólogo britânico Francis Galton foi o primeiro a aplicar a idéia da hereditariedade e reprodução aos seres humanos. À medida que as pessoas se aglomeravam em cidades lotadas, os cientistas começaram a procurar por algo para explicar o crescimento dos índices de criminalidade, doenças físicas e mentais. “Traços humanos impróprios como mente fraca, epilepsia, criminalidade, insanidade, alcoolismo, indigência e muitos outros correm nas famílias e são herdados da mesma forma que a cor em cobaias”, um quadro educativo americano explicava em 1929.

Exame de sangue para ciganos

Apesar da “ciência racial” alemã estar à frente no campo, a eugenia também era popular na América do Norte. Os Estados Unidos forçaram a inserção de leis de esterilização nos livros já em 1907. No final dos anos 20, mais da metade dos Estados americanos possuía leis compulsórias de esterilização. A Califórnia era a líder no país, esterilizando mais pessoas até 1933 do que o restante do país somado.

Em um caso de 1927 na Suprema Corte, Oliver Wendell Holmes defendeu a eugenia: “É melhor para todo o mundo, se (…) a sociedade puder prevenir aqueles que são manifestadamente inadequados para dar continuidade à sua espécie”. Mesmo na era nazista, as políticas alemãs eram citadas com admiração pelos legisladores americanos, muitos dos quais defensores da idéia de que os imigrantes estavam contaminando a força anglo-saxã americana. O principal centro de pesquisa de eugenia e hereditariedade da Alemanha, o Instituto Kaiser Wilhelm de Berlim, recebeu recursos da Fundação Rockefeller até 1935.

Mas a ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha representou uma mudança radical. Os eugenicistas se tornaram uma parte integral e inquestionada do Estado, e sua autoridade científica dava respaldo importante às políticas nazistas. Os ciganos foram um foco inicial da pesquisa, já que os cientistas tentavam desenvolver um exame de sangue para detectar a herança cigana. E no Vale do Reno, onde soldados das colônias francesas foram usados para policiar o território ocupado, o doutor Eugen Fischer realizou estudos em crianças mestiças em 1933 (o campo foi chamado de “Bastardforschung” ou “pesquisa de bastardos”). Em 1937, milhares de crianças foram esterilizadas à força.

A colaboração entre os nazistas e os cientistas criou um campo perigosamente fértil. Nos primeiros três anos do Terceiro Reich, 200 mil pessoas foram esterilizadas à força -10 vezes mais operações do que os Estados Unidos realizaram em três décadas. “Os eugenicistas alemães e os teoristas raciais tiveram um papel ao produzirem o conhecimento que foi usado pelos autores de política nazistas para promover sua agenda”, disse Weiss. “Eles foram valiosos para o Estado nazista como sócios desta barganha faustiana.”

A princípio, não se sabe quem estava manipulando quem. “Não eram os nazistas que estavam usando os médicos, mas os médicos que estavam usando os nazistas”, disse certa vez o historiador alemão Ernst Klee. Historiadores e curadores da exposição argumentam que o relacionamento entre os médicos alemães, antes considerados entre os pesquisadores e praticantes mais respeitados do mundo, e o Partido Nazista era simbiôntico, em vez de unilateral. Décadas de pesquisa eugênica e propaganda vindas de lugares como o Museu da Higiene e o Instituto Kaiser Wilhelm implantaram profundamente a idéia de que seres humanos podiam ser classificados como valiosos ou sem valor na psique alemã.

“A capacidade humana de racionalizar qualquer coisa”

No início da Segunda Guerra Mundial, vários médicos estavam ávidos para ampliar o estudo da eugenia. Apesar da história das experiências médicas de Josef Mengele em Auschwitz ser bem conhecida e comoventemente lembrada em entrevistas de gêmeos que sobreviveram, milhares de outros médicos e geneticistas participaram de programas de esterilização e eutanásia ou se beneficiaram diretamente do Holocausto. “Durante esse período onde houve abuso de poder, esta profissão -tão respeitada atualmente- se permitiu ser corrompida”, disse Bachrach. A exposição inclui fotos de crianças com doenças congênitas mortas secretamente por seus médicos a partir de 1939.

Durante a “Operação T-4″, uma espécie de teste para os campos de concentração, dezenas de milhares de pacientes psiquiátricos foram mortos com gás nos porões de instituições para doentes mentais por toda a Alemanha, nos primeiros anos da guerra.

E, no final, os médicos colaboraram com o genocídio. Em laboratórios em Berlim, geneticistas recebiam “materiais de pesquisa” diretamente dos campos -neurologistas usaram centenas de cérebros removidos de prisioneiros mortos com gás e geneticistas usaram olhos removidos de gêmeos assassinados para promover suas carreiras de pesquisa. “Seria reconfortante acreditar que os nazistas eram os charlatões, de que não eram como nós”, disse Bloomfield. “Mas esta exposição mostra a capacidade humana de racionalizar qualquer coisa.”

Tradução: George El Khouri Andolfato. Publicado em Der Spiegel.

O problema histórico do Japão

G. John Ikenberry

O Japão tem um sério problema geopolítico – que se torna cada vez mais um problema americano também. Essencialmente, o problema é que o país não conseguiu eliminar as suspeitas e ressentimentos que ainda perduram na China e na Coréia em relação ao passado militarista do Japão. Enquanto a Alemanha pós-guerra de alguma forma conseguiu dar por encerrada a ‘questão da história’, o Japão pós-guerra não conseguiu isso. O resultado é que o Japão – passados 61 anos de sua rendição e do começo de seu longo e pacífico retorno à comunidade internacional – continua isolado e incapaz de proporcionar liderança numa região que está se transformando rapidamente à sombra de uma ascendente China.

A manifestação mais visível do problema histórico do Japão é a controvérsia que irrompe todos os anos quando o primeiroministro do Japão visita o santuário Yasukuni, na região central de Tóquio – o memorial xintoísta onde os nomes de 14 criminosos de guerra de primeiro escalão da época da 2ª Guerra Mundial constam na lista dos mortos homenageados. Na China e na Coréia essas visitas trazem à lembrança a guerra japonesa e a agressão imperial, desencadeiam protestos populares e desaprovação oficial e fornecem um instrumento para pôr o Japão na defensiva e encolher sua influência e apelo regional.

Este problema veio mais uma vez à tona no mês passado, no aniversário do fim da Guerra do Pacífico, quando o primeiroministro Junichiro Koizumi fez sua esperada peregrinação ao santuário Yasukuni, com cobertura ao vivo da televisão japonesa.

Para complicar as coisas, os EUA têm empurrado o Japão ao longo do caminho da ‘normalização’ de uma grande potência. De fato, alguns estrategistas de Washington divisam o Japão como uma ‘Grã-Bretanha dos EUA no Oriente’ – um aliado normalizado e militarmente capaz que pode ficar ombro a ombro com os Estados Unidos enquanto estes atuam pelo mundo. Esta é, na essência, a visão do muito influente Relatório Armitage de outubro de 2000 (que recebeu este nome em homenagem ao ex-vice-secretário de Estado Richard Armitage), preparado por um grupo bipartidário de especialistas americanos em segurança. E é também a visão predominante hoje entre pensadores democratas e republicanos preocupados com a segurança do Japão.

O problema é que ‘normalização’ e ‘reconciliação histórica’ têm propósitos contraditórios. Normalização requer fazer emendas na Constituição, adquirir novos tipos de equipamentos militares e romper normas pacifistas de longa data contra o uso da força. Já a reconciliação histórica implica gestos simbólicos de desculpas e compromissos redobrados com a contenção e com a intenção pacífica. Este vai ser um jogo difícil de jogar. Certamente será necessário um pensamento mais lúcido e imaginativo do que o Japão tem mostrado. E os Estados Unidos precisarão repensar sua visão do Leste da Ásia e a aliança americana com o Japão.

Há uma grande ironia no abismo político que o Japão cavou para si mesmo.

A ironia é que o Japão tem tido notável sucesso na definição de sua identidade pós-guerra. Transformando uma necessidade numa virtude, celebrou sua ‘Constituição da paz’ e definiu-se como uma grande potência ‘civil’ que investiria na paz e na segurança internacionais sob os auspícios da ONU. Proporcionou recursos para a ONU, apoiou compromissos internacionais com a segurança e se tornou um generoso provedor de assistência oficial ao desenvolvimento. Mas, enquanto o mundo mais amplo admira e respeita o Japão – e seu papel de grande potência no seu notável estilo civil -, seus vizinhos, não.

O mandato de Koizumi termina após as eleições deste mês – e este será um momento em que Japão e Estados Unidos poderão repensar suas políticas.

O Japão precisa encontrar uma forma honrosa de acabar com as visitas do primeiro ministro a Yasukuni ou então, discretamente, incentivar os xintoístas que administram o santuário a retirarem os 14 nomes.

Mas, mais do que isso, o próximo primeiro-ministro deve tentar fazer da reconciliação histórica um marco da sua gestão. A capacidade do Japão de exercer liderança na região depende disso. Atos políticos simbólicos precisam fazer parte desta estratégia de reconciliação. Assim, também, precisa ser a atitude do Japão em relação à ‘normalização’.

A Alemanha deve ser um modelo. A Alemanha se normalizou, mas fez isso redobrando seus compromissos com a unificação européia e com a cooperação institucionalizada com os vizinhos. Esta abordagem de via dupla – normalização mais integração regional e construção da ordem – tem ajudado a tranqüilizar os vizinhos e a fortalecer a posição de liderança da Alemanha.

O Japão não dispõe de uma organização regional como a União Européia à qual se associar e tranqüilizar os vizinhos enquanto se normaliza. Neste sentido, seu avanço é mais carregado de obstáculos e mais complicado que o da Alemanha.

O que o Japão pode fazer é procurar a reconciliação por meio da diplomacia regional, oferecendo uma visão de uma futura comunidade de segurança no Leste Asiático. Seria um golpe de mestre se o próximo primeiro-ministro japonês anunciasse o fim das visitas a Yasukuni e convidasse os líderes chineses e sul-coreanos para uma conferência de cúpula em Tóquio.

O Japão deve converter-se no líder regional e definir os parâmetros de uma nova ordem cooperativa no Leste Asiático, uma ordem que inclua um crescente papel da China, mas também um papel central japonês e americano. A alternativa é continuar fazendo o que está fazendo agora, que é normalizar-se, gerar antagonismos e ficar cada vez mais isolado.

Os Estados Unidos também precisam repensar sua visão da aliança com o Japão. A idéia contida no Relatório Armitage de transformar o Japão num parceiro de uma aliança no estilo britânico não é a resposta, porque isso inflamaria antagonismos regionais. Os EUA devem encorajar o Japão a seguir o exemplo da Alemanha, aliando ‘normalização’ com compromissos redobrados com a cooperação para a segurança regional. O que está faltando no Leste Asiático é uma organização regional que possa ser usada para corporificar compromissos fortalecidos com a ordem regional pacífica por parte do Japão, mas também da China e da Coréia.

Atualmente, o Oriente Médio ferve, enquanto o Leste Asiático cozinha em fogo brando. O Japão e os Estados Unidos devem aproveitar os próximos meses para baixar o fogo e acrescentar alguns novos ingredientes à panela.

TRADUÇÃO DE MARIA DE LOURDES BOTELHO. G. John Ikenberry é professor catedrático de Política e Assuntos Internacionais na Princeton University. Seu mais recente livro é ´Liberal Order and Imperial Ambition´. Escreveu este artigo para o jornal ´The Washington Post´

O Katrina mostrou um país despreparado

Para Biguenet, lentidão da reconstrução reflete lições não aprendidas e o despreparo dos EUA para enfrentar ataque terrorista
Entrevista John Biguenet, escritor

Paulo Sotero CORRESPONDENTE WASHINGTON

John Biguenet, contista e professor de literatura da Universidade Loyola, de New Orleans, afirma que os americanos ainda não entenderam o que aconteceu um ano após a grande catástrofe que se abateu sobre New Orleans. ‘O que sabem, provavelmente está errado’, escreveu ele na semana passada em sua coluna no site do New York Times.
Um dado ignorado, por exemplo, é que, proporcionalmente, morreram mais brancos do que negros. ‘Dos 1.300 mortos, 50% eram brancos, segundo um levantamento recente da imprensa local’, disse ele. ‘Como os brancos eram menos de 30% da população, sofreram uma proporção maior de perdas’.
Segundo ele, essa explicação é importante não pela questão racial, mas porque mostra a escala da destruição, que atingiu quase todas as partes da cidade.
Biguenet deixou New Orleans com sua mulher antes da chegada do furacão. O casal voltou dois meses depois para começar a reconstruir sua casa inundada em Lakeview. Na sexta-feira, ele falou ao Estado.

Por que, em sua opinião, as pessoas não compreenderam até hoje a dimensão do que ocorreu em New Orleans?
Não há episódio semelhante na história americana. Não sabemos como falar a respeito e não sabemos como compreender o que aconteceu. Nunca antes uma cidade americana foi completamente abandonada, na esperança de que seus cidadãos retornariam. Esse é um elemento da história da catástrofe que os americanos não estão preparados para absorver e entender. As implicações de esvaziar uma grande cidade moderna são tantas que é muito difícil para as pessoas imaginarem o que aconteceu aqui.

O que elas não compreendem?
Não compreendem que aconteceram dois desastres naquele dia. Um foi um desastre natural – o furacão Katrina – que, na verdade, virou para leste antes de atingir terra e poupou a cidade. O lado perigoso de um furacão é o leste. Nós fomos atingidos pelo lado oeste do Katrina, o mais fraco. Alguns telhados foram danificados, árvores caíram, etc. Mas se tivéssemos sido atingidos apenas pelo furacão, todos teriam voltado para casa, a vida teria se normalizado em três dias e não estaríamos falando do Katrina.
Mas sofremos também as conseqüência de um desastre causado por falha humana. E o fato de ter sido no mesmo dia do desastre natural, confunde as pessoas até hoje. A catástrofe não foi provocada pelo furacão. Ela resultou da incompetência do Corpo de Engenheiros do Exército, uma agência federal, que construiu diques inacreditavelmente defeituosos. As chapas de aço instaladas nos diques para conter as águas não chegavam sequer ao fundo do canal. E foi aí que os diques cederam. A água não passou por cima, passou primeiro por baixo dos diques em quatro pontos diferentes, antes de arrebentá-los.

O que já foi reconstruído?
Um ano depois, tudo o que temos é a promessa de que todas as partes dos diques que cederam ou foram afetadas serão remendadas, com os mesmos defeitos de antes.
E, sem um compromisso de que New Orleans será protegida por um sistema de diques capaz de suportar um furacão categoria 5 (o mais grave na escala que mede a força de ciclones), as pessoas, os negócios e os investimentos não voltarão. Dos 550 mil habitantes, 300 mil ainda não voltaram e não creio que voltarão.

Em resposta a sua coluna no ´New York Times´, vários leitores lembraram que quem escolhe morar em zonas sujeitas a inundações devem estar preparado para viver com as conseqüências.
Isso não altera o fato de que o governo construiu diques que falharam e destruíram 80% de New Orleans, matando 1.300 cidadãos. Vivemos na foz do maior rio dos EUA, pelo qual passa metade do petróleo e do gás consumido pelos americanos.
Não vivemos num balneário. New Orleans ocupa posição estratégica. É o segundo maior porto americano do Atlântico. Não estamos aqui porque gostamos do clima.

A cidade continua vulnerável?
A probabilidade de a mesma coisa repetir-se é pequena e não está num furacão, mas num ataque terrorista ou acidente industrial, algo que torne uma cidade inabitável por um período de um ou dois meses. Com exceção de Chernobyl, na Ucrânia, não se tem esse tipo de experiência desde a 2.ª Guerra.
Mas, considerando o mundo em que vivemos, não creio que seja impossível que isso aconteça em outro lugar. O problema é que o desastre, quatro anos depois do 11 de Setembro, mostrou o país totalmente despreparado para enfrentar uma emergência em grande escala. A julgar pelo ritmo da reconstrução de New Orleans, não creio que o país tenha aprendido muito.

Um ano depois, como está New Orleans?
No French Quarter e nas áreas ao longo do Rio Mississippi, a aparência é de que nada aconteceu em New Orleans um ano atrás. Vista daí, continua tão linda e vibrante quanto antes. Mas isso representa só 20% da cidade. Os outros 80%, a cidade atingida por uma inundação catastrófica, se recupera muito lentamente.

Por quê?
Por falta de liderança eficaz em todos os níveis, do municipal ao federal.Tivemos falhas repetidas em tomar decisões capazes de liberar os recursos disponíveis, que permitiriam a reconstrução. Há grande hesitação em fazer qualquer tipo de plano em larga escala. Em vez disso, as autoridades pediram aos bairros para apresentar seus planos. E não há nenhuma coordenação.

Publicado em Estadão On Line.

A Europa que lucra com a guerra

A indústria armamentista européia vê na conjuntura pós-11 de Setembro uma chance de ouro para lucrar. Além de incluir privatização e demissões, as mudanças no setor podem entregar parte da produção às corporações gigantes norte-americanas

Luc Manpaey

Investimento ou engano gigantesco? Levados pela onda de otimismo que sucedeu o fim da Guerra Fria, tanto na Europa como nos Estados Unidos, os poderes públicos implementaram vastos programas de conversão/diversificação do setor armamentista (bases militares supérfluas, indústria bélica superabundante…). Entre 1991 e 1999, as iniciativas da Comissão Européia custaram mais de 900 milhões de euros. Como este financiamento cobre no máximo 50% das despesas previstas pelos Estados membros e soma-se, às vezes, a iniciativas nacionais, são quase 2 bilhões de euros “investidos”.

No entanto, enquanto os contribuintes pensavam participar da realização de um mundo mais pacífico, a lógica de mercado e os perigos inerentes a uma globalização predadora [1] permitiram uma extensão inédita do “sistema industrial de segurança militar”. São os interesses econômicos e industriais – e não uma vontade política real – que levaram à implementação, pelo Tratado de Nice (2002), da Política Européia de Segurança e Defesa (PESD).

Os EUA haviam estabelecido o ritmo desde 1993. Consciente de que não seria mais possível garantir contratos tão rentáveis como os da época do governo Reagan, o Departamento da Defesa norte-americano encorajou um processo espetacular de concentração no setor armamentista. Este processo foi inteiramente deixado à discrição dos acionistas e das instituições que compõem o capital financeiro (fundos mútuos, fundos de pensão, etc.). Ao menos até o Departamento de Justiça dos EUA manifestar-se, em 1998, contra o projeto de aquisição da Northrop Grumman pela Lockheed Martin, por um total de 8,3 bilhões de dólares [2]. Desde 2001, começou a haver cada vez mais fusões entre as empresas mais importantes. Estão entre as principais a aquisição da Newport News Building e da TRW pela Northrop Grumman, em 2002 (respectivamente por 2,6 e 7,8 bilhões de dólares), a aquisição da Titan pela L3-Communications por 2,65 bilhões de dólares no transcorrer de 2005; a compra da Anteon foi pela Geral Dynamics, por 2,2 bilhões de dólares, em 2006.
No 11 de Setembro, o início de um boom

A vontade de controlar o conjunto do filão tecnológico — e portanto, de frear a entrada de eventuais concorrentes — resultou na posição de monopólio de algumas empresas. Sua capacidade de influenciar os poderes públicos fortaleceu-se, contribuindo à militarização da política externa [3]. Uma vez entregue à “nova economia”, o setor armamentista conquistou progressivamente a confiança dos investidores. Desde 1999, quando houve os primeiros aumentos do orçamento da Defesa (particularmente as despesas de aquisição de material que estavam continuamente em baixa desde 1986), os índices da Bolsa do setor armamentista voltaram a aumentar. O estouro da bolha especulativa da Nasdaq, no primeiro semestre de 2000, reforçou o movimento. Mas, sobretudo os atentados de 11 de setembro de 2001 ofereceram aos investidores institucionais privados, beneficiários de rendimentos e outros especuladores um novo efeito de vantagem inesperada. Em 17 de setembro de 2001, primeiro dia de abertura da Wall Street após os atentados, os títulos do setor registraram um ganho de 15 a 30%…

Cinco anos mais tarde, o entusiasmo dos investidores continua intacto, como testemunha o aumento regular do índice Spade Defense Index (DXS), composto pelas 58 empresas mais representativas dos mercados armamentista e de segurança. A trajetória do índice DXS desmente de maneira contundente a afirmação dos economistas neoclássicos, segundo a qual os mercados financeiros observam com repulsa a utilização de violência militar. Os dividendos da paz saíram de cena e o século 21 desponta sob o signo dos dividendos da guerra.

Este novo ambiente, mescla de terrorismo e euforia financeira, explica o aumento repentino e significativo de questões militares nos negócios da União Européia, superior à vontade de aprofundar a construção comunitária. Até o início dos anos 1980, o fracasso da Comunidade Européia da Defesa (CED), após ter sido rejeitada pela França em 30 de agosto de 1954, havia resultado no afastamento de todas as questões de defesa e armamento dos debates e projetos. A produção de armas era confiada com mais freqüência aos arsenais e empresas estatais, no centro das prerrogativas e regalias de segurança e soberania. As empresas estatais beneficiavam-se de um regime particular, infringindo a regulamentação comunitária da concorrência e dos mercados públicos.
O “direito” europeu de disputar a indústria da guerra

Este tempo acabou. Em meados dos anos 1990, os governos da União Européia favoreceram a integração de suas empresas armamentistas. Tratava-se de por fim à lógica de “campeões nacionais” e de europeizar a produção armamentista, com vistas a contrapor-se com mais eficácia à concorrência dos grandes grupos norte-americanos. Esta estratégia baseia-se em uma política de privatização e na prioridade dada aos mercados. Três objetivos foram estabelecidos: competitividade industrial e armamentista, abertura dos mercados e facilitação da exportações de armas. Estes objetivos correspondem aos interesses dos novos acionistas. E constituem o resultado de uma estratégia eficaz de um setor (e de seus lobbies em Bruxelas) bem determinado a fazer prevalecer seus interesses ameaçados pelos partidários de uma Europa “potência tranqüila” e pacífica [4].

As mudanças institucionais dos anos 1990 ilustram bem este processo. Assim, já em 1997, o Grupo Armamento da Europa Ocidental (GAEO) foi consagrado como instância européia de cooperação em matéria de armamento pela União Européia Ocidental (UEO), que era nesta altura o braço armado da União Européia. Grupo informal de 19 países (os 16 países europeus da Aliança Atlântica mais a Áustria, Finlândia e Suécia), o GAEO tinha por objetivo a abertura dos mercados de armamento nacionais à concorrência européia e o reforço da Base Industrial e Tecnológica de Defesa (BIT) da União Européia. Em seguida, as iniciativas se multiplicaram, até a criação, em 12 de julho de 2004, de uma Agência Européia de Defesa (AED), com o objetivo de favorecer um mercado europeu competitivo para o armamento. Em 21 de novembro de 2005, um “Código de Conduta” [5] não compulsório, que visava a liberalização do mercado armamentista, foi igualmente adotado pelos ministros da Defesa [6].

É sob pressão de suas indústrias armamentistas, e muito mais por resignação que convicção, que os países membros da União Européia resolveram acabar com os protecionismos nacionais que prevaleciam há décadas no mercado armamentista do continente. O resultado deste processo de concentrações/privatizações é espetacular. Três grupos europeus figuram entre os dez maiores produtores mundiais: BAE Systems (Reino Unido), EADS (Países Baixos) e Thalès (França). Todavia, enquanto os grupos norte-americanos são bem cotados na Bolsa e controlados majoritariamente pelos investidores institucionais (instituições financeiras, fundos de pensão e fundos mútuos detêm geralmente entre 70% e 100% do capital), a indústria européia aparece como um emaranhado complexo de participações cruzadas, joint ventures e colaborações, nas quais se torna difícil compreender quem controla o que.
Armar mais, empregar cada vez menos

No final deste processo, marcado por uma retirada significativa do Estado, o emprego diminuiu cerca de 40%. Somente a França e o Reino Unido, os dois primeiros produtores armamentistas europeus, perderam mais de 200 mil empregos entre 1991 e 2000. Apesar disso, os meios financeiros e de negócios consideram esta reestruturação inacabada e não escondem sua impaciência para ver o Estado afastar-se completamente. Assim, em um breve relatório publicado em 2002, os analistas de Ernst & Young – um dos mais importantes escritórios de consultoria do mundo – repetem continuamente que são os acionistas e não os clientes (os governos) que “devem ser os juízes definitivos do gerenciamento e das estratégias” [7]. Os analistas ressaltam que os investidores julgarão os dirigentes com base no crescimento e no desempenho global de suas empresas — e “não a partir de sua aptidão para servir os interesses de um governo particular ou grupo de governos”. Portanto, uma empresa só deveria aceitar um contrato do respectivo Ministério Nacional da Defesa, “se a rentabilidade da oferta fosse atrativa o suficiente”. Eles convidam os industriais europeus a não se deixarem distrair pelos seus vínculos tradicionais e regionais com o Velho Continente, mas a se desenvolverem onde houver as melhores possibilidades de crescimento — ou seja, nos Estados Unidos.

Estas declarações, representativas da preocupação dos meios financeiros e de negócios, poderiam parecer contraditórias com a posição defendida por vários governos, que se mostraram oficialmente inquietos quanto às amplas transferências de propriedade para os investidores institucionais ou grupos industriais norte-americanos. Contudo, a General Dynamics apoderou-se das duas grandes indústrias de armamento terrestre europeu: a indústria austríaca Steyr-Daimler-Puch (em 2003) e a espanhola Santa Barbara (em 2001). O grupo Carlyle, por sua vez, adquiriu a italiana Fiat Avio, assim como 30% da britânica Qinetiq (2003), enquanto a Kohlberg Kravis engolia a alemã MTU Aero Engine. A ofensiva norte-americana é, portanto, bem visível e esta lista poderia estender-se. Para os Estados acionistas europeus, o momento estava mais para a elaboração de estratégias de bloqueio e retenção do capital, submetendo ao acordo governamental qualquer participação de capitais estrangeiros nas indústrias de armamentos européias que ultrapassassem uma certa porcentagem [8]. Portanto, apesar das privatizações espetaculares, uma presença sempre significativa do Estado, particularmente no armamento terrestre e na construção naval.

No entanto, estes reflexos protecionistas pesam pouco na relação de forças que se instalou entre o Estado e o capital financeiro desde a virada dos anos 1990. Sob a dependência das finanças e exigências de rentabilidade dos acionistas, a indústria armamentista torna-se a locomotiva da Política Européia de Segurança e Defesa (PESD) e uma determinante. Esta estranha configuração da produção de armamento na União Européia corresponde à emergência de uma “orientação inversa” descrita pelo economista americano John Kenneth Galbraith. Uma orientação clássica supõe que as ordens vão do consumidor ao mercado, depois do mercado ao produtor. Na orientação inversa, “é a empresa de produção que joga seus tentáculos para controlar seus próprios mercados, muito mais para dirigir o comportamento do mercado e modelar as atitudes sociais daqueles a quem aparentemente ela serve” [9].

Esta configuração incita à militarização da Europa e ao aumento dos orçamentos nacionais da Defesa, como previa o projeto de tratado constitucional [10]. Assim entre bom negócio estatal e lógica financeira míope, a PESD não favorecerá a afirmação política da União Européia. Ela até mesmo carrega consigo os germes de seu enfraquecimento. Pois, para defender seus interesses no mundo, os grandes Estados produtores de armamento terão menos necessidade de uma Europa política quando tiverem desenvolvido sua própria potência, conduzida por um militarismo mimético conforme o modelo norte-americano.

Tradução: Simone Pereira Gonçalves. Publicado em Le Monde.

Analfabetos Secundários

A crise da educação nos países industrializados ocidentais

Robert Kurz

Fez parte da história do colonialismo que o Ocidente se apresentasse a si mesmo como civilização superior na relação com o resto do mundo, não apenas no sentido técnico e econômico, mas também no cultural. As ideologias ocidentais do século 19 e da primeira metade do 20 falavam do “fardo do homem branco”, encarregado de alegrar o mundo com suas bênçãos. Foi só após a Segunda Guerra Mundial que a intelligentsia ocidental deu início a uma crítica do “eurocentrismo”. Descobriram-se as realizações culturais autônomas do “outro”, depois de suas conquistas terem sido destruídas até a raiz ao longo de vários séculos. Foi um reconhecimento para o museu e para a reminiscência culpada.

A descolonização não trouxe naturalmente nenhuma renovação das antigas culturas, há muito tempo naufragadas, ainda que sejam instrumentalizadas até hoje para uma fundação ideológica de identidades. Ao invés disso, os movimentos sociais pós-coloniais e os Estados do hemisfério Sul se orientaram em todos os aspectos pelo protótipo ocidental, começando pela categoria política de “nação” até chegar à forma jurídica burguesa moderna e a racionalidade da economia empresarial. Disso faz parte também a campanha de alfabetização e a instalação de um sistema escolar e educacional segundo os padrões ocidentais.

Justamente no caso da alfabetização e da ofensiva educacional se trata à primeira vista de uma grande conquista emancipadora. Quem iria contestar que a técnica cultural elementar da leitura e da escrita representa um pressuposto irrenunciável para o progresso civilizador? Como a transmissão de saber e a educação poderiam ser interpretadas de outra forma senão positivamente? Todavia são importantes também o conteúdo do saber e a forma da transmissão. E nesse aspecto o surgimento do sistema educacional ocidental não pode de modo algum ser entendido em linha reta no sentido emancipador. A alfabetização européia e a “escolarização” da sociedade não foram um presente civilizador generoso para as pessoas, mas parte do processo designado na literatura crítica pelo conceito de “colonização interna”. A submissão externa do mundo por parte do Ocidente vem de par com uma flagelação interna do próprio homem ocidental para se converter em “material” da valorização capitalista. Nisso desempenhavam uma função não apenas as medidas de disciplinamento violento, mas também o adestramento espiritual e o aprendizado de parâmetros comportamentais com a finalidade de ajustar a práxis inteira da vida ao “trabalho abstrato” (Marx) e à concorrência universal. Tanto as formas institucionais da educação “para o povo” como os conteúdos transmitidos serviam em primeiro lugar a esse objetivo da “interiorização” de um perfil capitalista de requisitos.

Só aparentemente o processo era diferente para a formação “superior” da juventude da elite burguesa. A nova geração destinada aos escalões de liderança na economia, na política e na cultura deveria receber um saber o mais universal possível e ser capaz de reflexão filosófica para além das exigências práticas imediatas. Na Alemanha, Wilhelm von Humboldt (1767-1835) chegou a criar um ideal de formação neo-humanista, entendendo o desdobramento universal do espírito como fim em si mesmo, o qual não poderia ser degradado à mera “instrução”, reduzida em termos funcionalistas, para fins dados. Mas ideais de formação dessa espécie não estavam dirigidos à crítica, mas antes à autofruição de uma burguesia que não havia delegado completamente sua autoconsciência aos mecanismos funcionais “do sistema”, permitindo-se ainda o luxo de uma formação, pesquisa e auto-representação cultural supostamente “sem finalidade”. Os Estados pós-coloniais do Sul reproduziram, junto com as instituições capitalistas restantes, as idéias ocidentais de educação, tanto aquela para o “povo”, reduzida em termos funcionalistas, como aquela para as elites, mais elevada e “sem finalidade”.

Mas, na mesma medida em que o paradigma da “modernização recuperadora” entrou em colapso desde os anos 1980 com o processo da globalização e com a crise mundial provocada pela terceira revolução industrial, a ofensiva educacional das nações do assim chamado Terceiro Mundo chegou a seus limites. Constata-se que um sistema educacional moderno, com escolas, universidades, institutos de pesquisa e instituições culturais, só pode ser financiado se a economia nacional correspondente é capaz de concorrer no mercado mundial. Em regiões cada vez maiores do globo, o sistema escolar e educacional se dissolve junto com a economia. Assim como há “fábricas fantasma” que só existem nominalmente e mal produzem alguma coisa ainda, há também “escolas fantasma” e “universidades fantasma” em que nada mais é realmente ensinado e pesquisado. Não é só no Afeganistão ou na Somália que o índice da alfabetização retrocede.

Esse destino o sistema educacional partilha com a maioria das outras infra-estruturas ou serviços públicos. Subjaz ao problema, que aqui se torna visível, uma determinada lógica econômica. Instituições infra-estruturais, como correio, abastecimento de água, sistema de saúde e, precisamente, a educação, não são, segundo sua essência, empresas de mercado, mas condições estruturais da sociedade inteira para a economia empresarial e de mercado.
Visto em termos econômicos, trata-se de custos gerais, custos indiretos, custos mortos ou “faux frais” (Marx) da reprodução capitalista. As empresas pressupõem determinadas qualificações nas forças de trabalho encontradas no mercado de trabalho; a mais elementar delas é naturalmente a capacidade de ler e escrever. Mas mesmo essa qualificação básica não surge por natureza (embora seja tratada pelas empresas como um recurso natural, sem custos); para tanto são necessárias despesas sociais.

As empresas só podem calcular seus custos econômicos imediatos; segundo sua natureza, elas não têm competência para custos da sociedade como um todo. Por esse motivo o Estado assumiu usualmente não só o funcionamento das infra-estruturas e, com isso, do sistema educacional, mas também os seus custos. Trata-se de um financiamento secundário, derivado: os rendimentos capitalistas do mercado (lucros, salários, honorários) são taxados pelo Estado, para que possa executar os serviços públicos com esse dinheiro extraído.

Porém, nesse aspecto, o desenvolvimento das forças produtivas engendrou um contexto fatal, pouco refletido até o momento. Pois quanto mais a produção das empresas é cientificizada e, com isso, maior a porção de capital real (tecnologia), tanto mais sobe o grau de socialização e tanto maior se torna a importância da infra-estrutura, principalmente da formação e da instrução. Sob o ponto de vista do cálculo capitalista privado, esse desenvolvimento resulta em que o verdadeiro fim, a produção empresarial para o lucro, é de certo modo sufocado pelas condições estruturais da sociedade inteira. Isso significa por sua vez que os custos sociais indiretos ou (do ponto de vista da economia empresarial) os “custos mortos” aumentam desproporcionalmente. Desse modo, surge um problema de financiamento crônico das infra-estruturas, que crescem de maneira objetivamente necessária. Em outras palavras: o grau de socialização produzido pelo próprio capitalismo não é mais representável em termos capitalistas. Esse problema aparece como dimensão especial de um processo crise secular.

Com a terceira revolução industrial da microeletrônica, esse problema se exacerba no curso de uma crise estrutural dos mercados. No plano da economia empresarial, torna-se supérflua uma tamanha massa de força de trabalho, cuja reabsorção não é mais possível por meio de uma ampliação dos mercados. O Estado pode cada vez menos taxar salários e precisa, além disso, financiar o desemprego. Ao mesmo tempo, no processo de globalização, as empresas transnacionais fogem do alcance fiscal do Estado, indo parar nos “oásis” de países que taxam pouco ou não taxam de modo algum os investidores estrangeiros. O endividamento já há muito tempo precário do aparelho do Estado praticamente explode. Desse modo, o financiamento dos serviços públicos e das infra-estruturas é fundamentalmente posto em questão, embora as exigências objetivas a esses domínios continuem a crescer devido à mesma terceira revolução industrial. Ou seja, temos de lidar com uma contradição interna aguda do sistema.

Em um curso quase natural dessa crise, acabam se paralisando tanto as capacidades da produção, por falta de rentabilidade, como os setores públicos, por falta de “financiabilidade”. O aparelho do Estado se reduz cada vez mais a uma administração restritiva das pessoas e dos recursos, ao seu papel de aparelho da violência. Os custos para a “segurança” interna e externa aumentam continuamente, ao passo que diminuem os custos para a sustentação infra-estrutural. Com outras palavras: o cerne anti-social, anticivilizador, bárbaro da modernidade vem à luz, enquanto o “excesso civilizador”, como a medicina, a assistência médica, a educação, a cultura etc., vai desaparecendo sucessivamente.

Se o Ocidente produz, sob a liderança dos EUA, um novo colonialismo da crise e invoca ideologicamente a “salvação da civilização”, ele se desmente a si próprio em suas próprias relações internas por conta do desenvolvimento anticivilizador. Hoje o sistema educacional e as instituições culturais decaem nos países ocidentais, já em completa semelhança com as regiões críticas do Sul. Geralmente os suportes da educação, da instrução e da cultura são os municípios e as Províncias; e justamente para esses níveis mais baixos da administração estatal a crise financeira no Ocidente progrediu tanto quanto para os Estados centrais do Terceiro Mundo. Analfabetismo secundário Nas escolas o reboco das paredes cai, os materiais didáticos estão envelhecidos, os subsídios para a instrução são cortados e setores inteiros da produção de nichos culturais são liquidados. Os discursos domingueiros dos políticos sobre a necessidade de uma ofensiva educacional no contexto da “concorrência global” estão em crassa contradição com a realidade. Mesmo de escolas de aperfeiçoamento e universidades saem jovens que não dominam técnicas culturais básicas e são incapazes de refletir para além dos dados imediatos. Nesse aspecto, há muito tempo já se fala de “analfabetos secundários”, pessoas que podem ler e escrever em caso de necessidade, mas sem entender e elaborar o conteúdo. E, apesar do ensino obrigatório universal, até mesmo o analfabetismo primário, total, aumenta nos EUA e na Alemanha.

A política e a administração reagem às contradições críticas no sistema educacional de maneira estereotipada, com três medidas paradigmáticas. O primeiro paradigma se chama, como em todos os outros domínios, “privatização”. No entanto escolas privadas, universidades privadas e outras instituições educacionais privadas, operadas como empresas de mercado, não são mais, naturalmente, infra-estruturas públicas; antes, elas estão orientadas para uma minoria de clientela solvente. Na mesma direção se vai quando se elevam as taxas nas escolas públicas e nas universidades e o material didático deixa de ser gratuito.

Está intimamente ligado a essa tendência o segundo paradigma, isto é, a propaganda reforçada para uma assim chamada educação de elite. Em termos práticos isso significa que as escolas e as universidades normais são conscientemente negligenciadas para que o fomento estatal se concentre em poucas instituições de elite. Essas condições, habituais nos EUA já faz muito tempo, se difundem agora no mundo ocidental inteiro. Mas, se a formação se torna dependente da solvência, o nível intelectual da sociedade como um todo declina forçosamente. Bolsas privadas não podem compensar a perda de serviços públicos que cobrem áreas inteiras. O reservatório social de talentos intelectuais deixa de ser esgotado.

Vai ainda mais fundo o alcance do terceiro paradigma da superação aparente da crise: a redução funcionalista da educação e da pesquisa à capacidade de valorização econômica imediata. Com força cada vez maior, as escolas e as universidades são atadas diretamente à “economia”, guiadas segundo critérios da economia empresarial e, no plano dos conteúdos, dirigidas ao conformismo com o mercado. Por assim dizer, vale a divisa: “Não importa o que você estuda, é sempre economia empresarial!”. Inteligência subversiva O totalitarismo econômico chegou ao sistema educacional. Mas isso significa que, junto com os últimos restos do ideal de formação de Humboldt, desaparece a autofruição cultural das elites capitalistas; elas mesmas se reduzem aos “idiotas funcionais do sistema”. Desse modo se dissolve também a capacidade intelectual de tomar distância, que é, porém, pressuposta para a condução de processos complexos em geral. A nova “elite” se desmente a si mesma.
Mas o que acontece com o potencial intelectual da sociedade, posto de lado e não mais resgatável? Se a educação para a grande massa é desmantelada de maneira tão crassa, desaparece também sua função anterior de disciplinamento. Desse modo, porém, é desencadeado não apenas um “analfabetismo secundário”, mas talvez também uma “inteligência subversiva” que não siga mais os princípios do totalitarismo econômico. Pode ser que a administração capitalista da crise educacional ponha a caminho, sem querer, uma nova contracultura intelectual.

Original alemão Sekundäre Analphabeten. Die Krise der Bildung in den westlichen Industrieländern. Deustch
Publicado na Folha de São Paulo, 11 de Abril de 2004, com o título O efeito colateral da educação fantasma

Mais de 80% dos 2 bilhões de crianças do mundo sofrem castigos físicos

ONU calcula que 53 mil menores são assassinados e 225 milhões são violentados todos os anos

Emilio De Benito

Para a maioria dos recém-nascidos, o tapa com que a parteira os obriga a respirar pela primeira vez é só a primeira de uma série de agressões que receberá ao longo da vida. Com mais ou menos força, habitual ou esporadicamente, mais de 80% dos 2 bilhões de menores de 18 anos que vivem no planeta são castigados fisicamente. Um terço deles de maneira muito grave e com “a ajuda de utensílios”. A ONU (Organização das Nações Unidas) apresentou esses dados em um relatório que foi divulgado ontem pelo secretário-geral Kofi Annan e o autor do trabalho, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro.

Em cerca de 53 mil situações anuais, a agressão acaba com a morte do menor. Outras vezes o ataque consiste em violações e outras formas de abusos sexuais: são vítimas dessas práticas quase 225 milhões de menores —um em cada dez. Deles, 150 milhões são meninas e os demais meninos, segundo o documento.

O relatório —com apenas 37 páginas demolidoras— foi elaborado com a ajuda de questionários enviados a todos os países que fazem parte da ONU, as agências de cooperação internacional, o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), a OMS (Organização Mundial de Saúde), a OIT (Organização Internacional do Trabalho) e outras em 2004. O resultado é um panorama inquietante que mostra que, para muitas crianças, não há lugar seguro: nem a família, nem a escola, nem as instituições alternativas para seu cuidado (orfanatos ou albergues), nem as delegacias, nem os lugares de trabalho, nem suas comunidades, diz Annan no prefácio do trabalho.

Fora os castigos físicos —primeiro ponto do relatório— e os abusos sexuais, o estudo inclui outras formas de maus-tratos. Alguns são para toda a vida: é o caso das cerca de 140 milhões de meninas que sofreram algum tipo de mutilação ou corte genital. Só no Egito e no Sudão, 3 milhões de meninas experimentam essa agressão por ano, segundo dados do Unicef incluídos no relatório. A prática não só não é contida como se amplia com as migrações de alguns povos.

Além disso, a perseguição legal e a consciência cada vez maior de alguns grupos de mulheres de que essa prática é uma atrocidade estão levando a antecipar a idade em que as meninas são mutiladas, adverte a ONU. O trabalho também inclui como forma de agressão as 82 milhões de meninas abaixo de 18 anos que se submetem ao casamento forçado a cada ano.

O estudo não inclui alguns casos de circuncisão ritual de meninos que, além da dor desnecessária, pode provocar algum perigo, sobretudo quando são realizadas em más condições de higiene. Essa prática está sendo revista depois que alguns estudos apontam que se for realizada por profissionais e com garantias pode conter a propagação do HIV entre os homens.

Os maiores agressores são, segundo o trabalho, os membros da família: pais, padrastos, irmãos e tios têm às vezes a tentação de desafogar suas frustrações nos menores da casa. Embora não a sofram na própria carne, calcula-se que entre 133 milhões e 275 milhões de crianças (os dados variam porque se trabalha com amostragens) são testemunhas de comportamentos violentos em casa.

O segundo ambiente de agressão é a escola. Dependendo do lugar onde se faz a pesquisa, entre 20% e 65% dos menores declararam que haviam sofrido assédio de seus companheiros ou professores nos últimos 30 dias antes da enquete. Os meninos que pertencem a minorias étnicas ou têm alguma deficiência são os mais afetados por esse tipo de comportamento, diz a ONU. As casas e os centros educacionais são dois dos lugares onde os maus-tratos físicos são mais comuns.

Mas esses comportamentos também ocorrem em estabelecimentos como lares de acolhimento, cuja finalidade deve ser exatamente proteger as crianças. Nesse tipo de residências vivem cerca de 8 milhões de crianças, na maioria porque seus pais não podem cuidar delas e porque existe um ou mais antecedente de maus-tratos – as crianças em orfanatos são minoria, já que muitos países não têm dinheiro para financiar essas instituições, e o trabalho é assumido por famílias.

O resultado é que não há lugar seguro. “Pelo menos 106 países não proíbem o uso do castigo corporal na escola, 147 países não o proíbem em estabelecimentos alternativos de acolhimento e até agora só 16 países o proibiram no lar”, indica o trabalho, citando dados da Iniciativa Global pelo Fim do Castigo Corporal contra Crianças. Em 31 países é permitido condenar um menor a castigo físico – incluindo a pena de morte. Há um milhão de crianças em cárceres para adultos.

O trabalho não só não os libera como é uma fonte adicional de sofrimento. Cerca de 218 milhões de crianças trabalhavam em 2004 no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho. Delas, 126 milhões realizam trabalhos considerados perigosos. Quase 6 milhões trabalhavam forçadas ou “em condições de servidão”. Cerca de 2 milhões trabalham na prostituição e na pornografia e 1,2 milhão são diretamente uma mercadoria com a qual se trafica. No entanto, esses dados são quase os únicos em que há uma melhora em relação a 2002: 11% a menos de crianças trabalham.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves. Publicado em El Pais.

Brasil teve 19,5 mil casos de violência contra crianças

Agência Brasil

Apenas em 2004, 19,5 mil casos de violência doméstica contra a criança e o adolescente foram registrados em todo o Brasil, de acordo com o Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), da Universidade de São Paulo (USP).

O relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre violência contra as crianças, lançado nesta quarta-feira (11) pelo secretário geral da ONU, Kofi Annan, traz dados sobre a violência ocorrida em casa, na rua, no ambiente familiar e atá na internet.

O levantamento traz uma pesquisa realizada em 21 países, dentre eles, o Brasil, segundo a qual, cerca de 36% das mulheres e 29% dos homens afirmam ter sido vítimas de abusos sexuais durante a infância.

O estudo também diz que presenciar cenas de violência doméstica pode ter um sério impacto em crianças. “Estima-se que 275 milhões de crianças assistam por ano a cenas de violência em todo o mundo”, diz o documento.

Insultos e agressões verbais, o isolamento forçado, a rejeição, as ameaças, a indiferença emocional e as humilhações são algumas formas de violência doméstica citadas pela ONU.

“Na relação entre adultos, quando somos contrariados ou não conquistamos um projeto, um desejo, não é um código de civilidade você reagir com agressividade com o outro”, diz a oficial de projetos do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Helena Oliveira. “Então por que na relação com a criança a palmada é possível? A violência física, a violência verbal são, inclusive, entendidas como processo educativo?”.

O relatório afirma que atualmente somente 16 países proíbem os castigos corporais em casa. Apesar disso, muitos ainda fazem uso de agressões físicas contra crianças.

A ONU recomenda que os países tentem modificar os costumes sociais que toleram ou normalizam a violência contra as crianças, incluindo os castigos corporais e as práticas tradicionais que prejudicam a saúde. Outras recomendações passam pela elaboração de programas de apoio aos pais e cuidadores e o investimento em serviços sociais.

“Lula foi uma grande decepção, mas Alckmin é muito pior”

Sociólogo brasileiro, radicado na França, vê continuísmo das políticas neoliberais no governo do PT. Mas avalia que a alternativa do PSDB consegue ser mais nefasta para a América Latina e para os movimentos sociais.

Gilberto Maringoni – Carta Maior

SÃO PAULO – O sociólogo Michel Löwy é possivelmente o intelectual brasileiro de maior prestígio internacional. Residindo na França há mais de quatro décadas, Löwy é diretor do Centre National de la Recherche Scientifique, em Paris. Suas pesquisas foram materializadas em extensa obra, publicada em 22 países, na qual se destacam os livros ‘Romantismo e messianismo’, ‘Marxismo e teologia da libertação’, ‘Ideologias e ciência social’, dentre outros.

Löwy vem constantemente ao Brasil e acompanha em detalhe a política nacional. Sua avaliação do governo Lula é muito dura. “Predominou o continuismo, a orientação liberal, favorável aos bancos, ao capital financeiro nacional e internacional”, diz ele, que apoiou a candidatura de Heloísa Helena à presidência. Diante das opções colocadas para o segundo turno, no entanto, o sociólogo é direto: “é importante evitar que chegue ao poder um personagem perigoso, identificado com a Opus Dei, e com a versâo mais brutal, repressiva e antipopular do capitalismo selvagem”.

Nesta entrevista, concedida por correio eletrônico, este filho de imigrantes judeus, nascido em São Paulo, em 1938, explica porque votará em Lula no segundo turno.

CM – O sr. assinou um manifesto de apoia à candidatura de Heloísa Helena no primeiro turno. Como viu o resultado das eleições presidenciais no Brasil?
ML – Acho muito importante o resultado obtido por Heloisa Helena. O fato de quase 7% dos eleitores terem votado por uma candidata claramente identificada com os interesses dos explorados, com um programa de ruptura com o neoliberalismo, com uma perspectiva socialista e democrática, que retoma as melhores tradições do PT (antes de sua conversão ao social-liberalismo), é um grande avanço para a reconstrução da esquerda no Brasil. Heloísa Helena conseguiu empolgar os corações de mais de seis milhões de brasileiros e isto é um grande passo na caminhada para um outro futuro.

CM – O sr. tem criticado publicamente o governo Lula. Como o sr. o avalia?
ML – O balanço é globalmente negativo. Muito decepcionante. Nada a ver com o que havia sido o programa, a prática e a trajetória do PT nos primeiros 15 anos de sua história. Certo, uma ou outra medida de assistência aos pobres foi cumprida e os movimentos sociais deixaram de ser criminalizados. Mas no essencial, isto é, na política econômica, predominou o continuísmo, a orientação liberal, favorável aos bancos, ao capital financeiro nacional e internacional. A reforma agrária ficou muito aquém das promessas. O governo destinou 10% das verbas agrícolas para a agricultura familiar e os outros 90% para o agronegócio de exportação. Isto mostra bem quais são suas prioridades socioeconômicas. Sem falar dos escândalos, da corrupção e dos “sanguessugas”…

CM – Agora, no segundo turno, as opções colocadas são Lula e Geraldo Alckmin. Há diferenças entre eles?
ML – Acho que existem diferenças, sim. São duas variantes da política liberal, mas mesmo assim não são equivalentes. Um governo Alckmin seria catastrófico para os trabalhadores brasileiros. Seria um governo reacionário, que buscará a privatização do pouco que resta de empresas nacionais, como a Petrobras, e dos serviços públicos, e investirá na repressão aos movimentos sociais. Lula foi uma grande decepção, mas Alckmin é sem dúvida muito pior do que Lula, do ponto de vista dos pobres e dos oprimidos.

CM – Alguma coisa muda no cenário inernacional estando Lula ou Alckmin na presidência do Brasil?
ML – O governo Lula nunca teve a coragem de enfrentar os Estados Unidos, de romper as negociaçôes da Alca, de apoiar os processos antiimperialistas na América Latina, como os da Venezuela e da Bolívia. Mas um governo Alckmin seria completamente alinhado com a política norte-americana, como mais um pião no jogo imperialista em nosso continente.

CM – Se estivesse no Brasil, o sr. apontaria o voto em algum dos dois? Haveria alguma pré-condição para isso?
ML – Pelas razões anteriormente expostas, e para evitar o retrocesso que seria um governo Alckmin, vou votar em Lula no segundo turno. Como brasileiro no exterior tenho o direito de votar aqui na Embaixada do Brasil em Paris. Sem ilusões, mas convencido de que é importante evitar que chegue ao poder um personagem perigoso, identificado com a Opus Dei, e com a versão mais brutal, repressiva e antipopular do capitalismo selvagem. Se trata de minha opção pessoal, não falo em nome de nenhum partido ou corrente política.

Pensamento

Se deres um peixe a um homem faminto, vais alimentá-lo por um dia. Se o ensinares a pescar, vais alimentá-lo toda a vida.

Lao-Tsé

Morte de Veneza? Muitos moradores deixam a cidade

Elisabetta Povoledo em Veneza

Há quatro meses, Mirella Dalla Pasqua, nascida e criada nesta venerada cidade construída sobre a água, fez algo que nunca imaginou que faria: comprou uma casa no continente.

“Eu não tive escolha”, disse Mirella, 31 anos, que descreveu a partida para o lado “terra firme” da lagoa como um trauma. “Eu tenho orgulho de ser veneziana”, ela disse, mas “os preços dos imóveis estão impossivelmente altos em Veneza e você ainda tem que reformá-los. Jovens simplesmente não conseguem arcar com tal despesa”. Mirella trabalha em uma loja de luvas perto da Ponte Rialto, no coração histórico de Veneza, e agora vai diariamente de condução para o trabalho. Ela não é a primeira veneziana a deixar esta cidade abraçada pelo mar. Nos últimos 50 anos, milhares já participaram do ato coletivo de desaparecimento. De um pico de 171 mil moradores em 1951, a população do centro histórico de Veneza caiu para menos de 62 mil. “Nós chegamos a um ponto de colapso, o ponto em que as coisas começam a se desfazer”, disse Ezio Micelli, um planejador urbano.

Se a tendência continuar, os jornais se queixaram recentemente, até 2030 os venezianos autênticos estarão extintos e o centro histórico reduzido a uma concha sobrevivendo apenas do turismo. Pois enquanto os venezianos partem, os turistas continuam vindo. E vindo. Segundo estimativas recentes, entre 15 milhões e 18 milhões de turistas vieram a Veneza no ano passado. Em certos dias, o número deles ultrapassa facilmente o de moradores; durante o Carnaval pré-Quaresma no ano passado, havia 150 mil turistas por dia. Quando a proporção de turistas para moradores pende para o primeiro, “não é mais significativo falar em Veneza como uma sendo cidade”, disse Robert Davis, um professor de história italiana da Universidade Estadual de Ohio. “A cidade já está basicamente perdida”, disse Davis, um co-autor de “Venice: The Tourist Maze”, uma critica cultural divertida e refletida do fenômeno do turismo. “A especulação é o que acontecerá a seguir.” Veneza atualmente depende praticamente do turismo para sua sobrevivência econômica, apesar dos turistas complicarem o dia-a-dia para a maioria dos venezianos.

“Você não consegue mais tomar um ‘vaporetto’” -o barco de transporte público que conduz as pessoas pelos canais- “sem encontrá-lo lotado de turistas e suas malas”, reclamou Gianpietro Meneghetti, um gerente de banco aposentado. Ele disparou uma ladainha de queixas compartilhadas por muitos moradores, incluindo os preços altos para alimentos básicos e a incapacidade e viver normalmente entre os invasores estrangeiros. As lojas que atendem as necessidades diárias -supermercados, sapatarias e até mesmo cinemas- estão sendo constantemente expulsas por lojas que vendem vidro de Murano e máscaras de cerâmica. Hotéis, pensões, restaurantes e lanchonetes também passaram a disputar o espaço, elevando o preço dos imóveis, um recurso limitado dada a própria natureza de Veneza.

“As coisas custam demais -se você fica, é apenas porque herdou uma casa”, disse Walter Pitteri, que mora em Mestre, a área em terra firme da Grande Veneza. Poder dirigir um carro também tem seu atrativo, ele acrescentou. “Eu nunca voltarei”, ele disse. “Eu não estou interessado em uma cidade na qual é tão difícil de se viver.” O preço dos imóveis é excepcionalmente alto em Veneza, em comparação ao continente -um apartamento com 100 metros quadrados custa mais de US$ 1 milhão no centro histórico, e ainda mais no Grande Canal- mas metade ou um quarto disto em terra firma, do outro lado da lagoa, dependendo da localização. Mesmo isto é alto demais para alguns: a população da Grande Veneza também caiu desde seu pico em 1968, de 367.832 habitantes. Atualmente ele está pouco abaixo de 270 mil, incluindo os moradores da cidade velha. O prefeito Massimo Cacciari aponta que a evasão de moradores nos centros das cidades é um problema em muitos lugares. Mas como Veneza é identificada como o centro histórico em sua lagoa, e não os subúrbios no continente, o problema da redução da população parece mais incômodo aqui, ele disse. “Pessoas também não moram no centro da Potsdamer Platz” em Berlim, disse Cacciari. “Em Veneza, é percebido como um grande problema.”

Algo precisa ser feito para “deter o êxodo e proteger a população residente”, afirmou Cacciari durante uma entrevista em seu gabinete, em um palácio adjacente ao Grande Canal. Apesar da cidade ter reservado dinheiro para ajudar casais jovens a arcarem com o custo dos altos aluguéis ou hipotecas, o dinheiro destinado “mal cobre um pequeno percentual das necessidades”, disse Cacciari. Por meio de um órgão municipal de desenvolvimento imobiliário, a cidade está construindo entre 500 e 600 apartamentos em três áreas da cidade que serão alugados para famílias de classe média, o grupo social que corre maior risco de “extinção”.

“Se você perde a classe média, você fica com uma polarização entre os muito ricos e os muito pobres, e a cidade perde coesão e se desfaz”, disse Micelli, o planejador urbano, que também chefia o órgão municipal de desenvolvimento imobiliário. Projetos semelhantes em outras áreas de Veneza foram bem-sucedidos, ele disse, desacelerando o êxodo para o continente e “reforçando o tecido social”. As autoridades venezianas também querem atrair novos moradores para o centro histórico e estão buscando desenvolver oportunidades de emprego fora do setor de turismo.

“Nós precisamos de novas energias de fora”, disse Mara Rumiz, a vereadora veneziana encarregada da habitação. A atual população, ela disse, “não possui massa crítica suficiente para lançar a cidade em um novo caminho”. Mas estimular novos negócios a se instalarem aqui não tem sido fácil. “Afinal, não é possível construir uma fábrica aqui”, disse Cacciari, citando o frágil ecossistema de Veneza. Assim, a cidade está acentuando suas vantagens culturais, crescentes instalações de pesquisa e programas universitários no centro histórico, assim como promovendo eventos culturais como a Bienal de artes e o festival de cinema. Cacciari também está buscando fazer com que o turismo em massa ajude a pagar as despesas da cidade. Ele está tentando impor um imposto sobre turismo e fazer com que os moradores locais ganhem dinheiro com o turismo, para compensar de alguma forma a cidade pelo fardo que representa para os serviços locais. Tais impostos dificilmente afugentarão os turistas.

“A demanda por Veneza é inflexível -o aumento dos preços não vai detê-la”, disse Davis, o autor. “As pessoas virão de qualquer jeito.” Enquanto alguns aqui consideram as decisões dos próximos anos como sendo cruciais para o futuro de Veneza, outros buscam conforto no passado de uma cidade que muitas vezes antes foi declarada condenada.

“Veneza é uma cidade forte, apesar de sua aparente fragilidade”, disse Franca Coin, presidente da Fundação Internacional Veneza, que levanta dinheiro para projetos de restauração. “É preciso acreditar no futuro da cidade. É preciso arregaçar as mangas e fazer um esforço, caso contrário você não conseguirá nada.”

Tradução: George El Khouri Andolfato . Publicado em International Herald Tribune.

Bambu promove uma autêntica revolução no mundo têxtil

Além de resultar em roupas leves, macias e absorventes, a fibra produzida a partir desta gramínea é ecologicamente correta: uma dádiva para os estilistas

Véronique Lorelle

Na opinião de muitos, eles eram destinados principalmente aos ursos pandas que com eles se alimentam e se deliciam há séculos. Contudo, eis que os rebentos de bambu passaram a despertar também o apetite dos fabricantes de tecidos europeus. Da camiseta até as meias curtas, passando pela fralda-calção reciclável, a fibra que se extrai deles vem se imiscuindo de maneira discreta, porém irreversível no nosso cotidiano.

Nos hiper-mercados Carrefour, sob a marca Tex, o que se vê é uma enxurrada de travesseiros, toalhas e roupões de banho macios, fabricados a partir desta fibra, a qual é quatro vezes mais absorvente do que o algodão. Nos catálogos de firmas que vendem vestuário em domicílio, tais como Damart, Camif ou Les Trois Suisses, anúncios de camisetas e pulôveres leves fabricados a partir desta fibra celebram um verão “natural” que privilegia o bem-estar.

“Suave e fluida, eis uma verdadeira segunda-pele ecológica para os seus pés”, garante por sua vez o americano Timberland, que faz a promoção das suas novas meias Bamboo, ao mesmo título que o francês DoréDoré ou que o site de vendas Sockness.com.

Uma matéria vegetal assim como o algodão ou o linho, o bambu tem em seu favor alguns trunfos suplementares. Esta gramínea arbórea é prolífica (ela pode crescer até 1 metro por dia). A sua fibra, extraída de uma pasta celulósica, se caracteriza pela sua característica homogênea e pesada (ela não amassa) e seu aspecto suave e reluzente, parecidos com os da seda.

Sobretudo, ela possui virtudes respiratórias, anti-bacterianas; além disso, ela protege dos raios indesejáveis do sol e não pode ser amassada.

Gérard Cirouge, o CEO da companhia Tissages de l’aigle (tecelagens da águia), em Biviers (na região de Grenoble, centro-leste), fez desta fibra o seu carro-chefe para o verão. “Nós nos precipitamos sobre o bambu dois anos atrás, pois ficamos felizes da vida por encontrar uma fibra natural que nos permita ampliar nossa coleção”, conta este especialista em tecidos para o esporte e o lazer. “Os nossos primeiros testes foram decepcionantes: o produto possuía uma estabilidade ruim, e revelava-se amarrotado depois da lavagem”.

Neste ano, a empresa não esconde seu orgulho pelo resultado que ela conseguiu obter. O seu bambu, tricotado junto com uma mistura de poliamida, é suave, acetinado, e torna a cor vibrante.

Este fabricante integra a centena de expositores que apresentaram produtos a base de bambu durante a Première Vision (primeira visão), o primeiro Salão mundial dos tecidos para vestuário, em fevereiro passado, em Paris. Por ser uma matéria-prima renovável e que não custa mais caro que o algodão, assim com um têxtil realmente muito leve e fresco, ideal para a temporada de calor, o bambu é uma dádiva para um grande número de fabricantes de tecidos. Ele interessa principalmente aqueles tentados pela perspectiva de abandonar os sintéticos derivados do petróleo em favor dos produtos que valorizam e protegem a natureza.

Várias grifes de alta-costura já cederam à tentação, tais como Hugo Boss, com a sua linha Black Label, que propõe, para o homem do verão de 2006, paletós de três botões de fibra de bambu, com 25% de lã e 15% de seda, “de uma flexibilidade sem igual, principalmente se comparada com a do linho”, afirmam os especialistas da casa.

Este é também o caso da Gaspard Yurkievich, que desenvolveu, a partir de um tecido de jérsei fluido e acetinado de bambu, um pequeno vestido preto cimbrado na cintura, assim como camisetas masculinas, nas cores preto, azul escuro ou salmão, nas quais se destaca a mensagem “Love Life” (amar a vida).

Massa de madeira
“No passado, os têxteis ‘ecologicamente corretos’ eram bege e um pouco rígidos”, explica Guido Voss, um sócio do estilista Gaspard Yurkievich. “Hoje, a sua força vem de que eles têm a aparência de um tecido anódino e que eles são, além disso, bons para o planeta”.

Esta não é a primeira tentativa notável desta jovem marca independente. Gaspard Yurkievich utiliza também massa de madeira (o lyocel, produzido pela marca Tencel) e um polímero oriundo do milho (Ingeo, desenvolvido pelo americano NatureWorks).

As fibras naturais, biodegradáveis e fabricadas sem causar poluição em demasia, vêm sendo cada vez mais procuradas. É o caso do algodão biológico, do cânhamo, e também da alga. “A tendência é irreversível”, avalia Evelyne Spilet, uma estilista da sociedade Spilan, a primeira a ter lançado roupas de bambu entre os produtos vendidos nas lojas de grande distribuição, sob a forma de pequenos pulôveres e de camisetas coloridos.

“Os franceses estão com vontade de consumir de maneira mais sutil. Ao comprarem fibras biológicas, eles adquirem duas vantagens de uma só vez, com um produto que está na moda e que representa um gesto em favor do desenvolvimento sustentável”, acrescenta esta mulher dinâmica, que investiu, de 20 de março a 20 de abril, 1 milhão de euros (R$ 2.778.220) para anunciar numa campanha publicitária, na televisão, as virtudes do seu tecido único.

E o sucesso não se fez esperar. Em 2005, a rede Carrefour distribuiu com exclusividade as malhas Spilan, fabricadas a 100% com bambu, a partir de um processo patenteado que preserva suas qualidades anti-bacterianas, mesmo depois de várias lavagens.

Em 2006, foi a vez de outras redes francesas de distribuição no varejo -Leclerc, Auchan, Cora, Casino ou Les Trois Suisses – de se disputarem a tapas as criações desta pequeno-média empresa, cujo faturamento deverá progredir neste ano em cerca de 20%, chegando a 24 milhões de euros (R$ 66,92 milhões). Evelyne e Alain Spilet, que trabalham há mais de 25 anos as fibras naturais, também lançaram sua própria grife, e abriram uma boutique batizada Les Ateliers de la maille (As Oficinas da malha), em Paris.

Todos aqueles que gostam de costurar e as mulheres com “dedos de fada”, adeptas do lazer criativo, poderão também se gabar de possuir a fibra vegetal. Nesta primavera, o “Bamboolo” está disponível em todos os armarinhos da França. Trata-se de um fio de cores suaves, que pode ser transformado em acessório para a casa, num pulôver na última moda ou numa blusa leve para as noites de verão. Essas criações serão de bambu a 70% e, sobretudo, zen a 100%.

Tradução: Jean-Yves de Neufville. Publicado em Le Monde.

China inaugura a barragem das Três Gargantas, símbolo do gigantismo dos seus desafios

Esta barragem – a maior já construída – de US$ 25 bi atende as necessidades de uma expansão econômica sem precedente, mas ela também gera enormes custos humanos e ecológicos e pode resultar numa catástrofe ambiental

Brice Pedroletti correspondente em Xangai, China

No decorrer de quase meio-século de comunismo, a China terá implementado alguns dos projetos de domesticação da natureza entre os mais ambiciosos da história da humanidade. Mas a aceleração fulgurante deste processo que foi verificada nos últimos anos mudou por completo a situação: a globalização da sua economia, a maturidade alcançada por um capitalismo que permaneceu por muito tempo anárquico e artesanal, e o temor diante do perigo que representa o superaquecimento da economia fizeram com que a questão do desenvolvimento sustentável irrompesse na ideologia oficial, de maneira bastante singular e irreversível.

Esquizofrênica, porém pragmática, a China de hoje está confrontada em
matéria de meio-ambiente a uma tarefa gigantesca.

Foram necessários no total 13 anos e um orçamento de mais de US$ 25 bilhões (R$ 54,8 bilhões) para erigir esta barragem que constitui o maior projeto hidrelétrico do mundo. Com mais de 2,3 km de comprimento, 185 metros de altura (com uma diferença de nível de cerca de 120 metros entre o reservatório rio-acima e a água rio-abaixo), a barragem requereu 27 milhões de metros cúbicos de concreto, e oferece uma capacidade de contenção da água de 39,3 bilhões de m³.

Contudo, esta barragem não entrará em operação antes de 2008, quando todas as centrais estiverem instaladas. Essas devem permitir produzir cerca de 85 bilhões de quilowatts-hora (kWh) por ano de eletricidade, a qual poderá ser encaminhada dentro de um raio de mil quilômetros. Este recurso é particularmente precioso num país de forte crescimento econômico onde as penúrias de energia são crônicas.

Entretanto, o projeto é duramente criticado, principalmente por causa dos seus custos ecológicos e humanos. Os detratores do projeto sublinham que ele já obrigou mais de um milhão de pessoas a migrarem à força, que ele destruiu parte de um patrimônio arqueológico e poderia desembocar numa catástrofe ecológica. Para a organização ecologista Os Amigos da Terra, esta obra exerce desde já “impactos sociais e ambientais desmedidos”, e arrisca “pôr em perigo a maior cidade da China, Xangai, com os seus 15 milhões de habitantes, embora ela seja situada a 900 km de lá, no delta do Yangtze”.

Talvez seja a política de gestão dos recursos hídricos que melhor ilustre a atitude da China em relação à natureza: primeiro, porque ela diz respeito a mais fundamental das necessidades humanas; em segundo lugar, porque a sua gestão é primordial para a agricultura, que emprega na China a maioria da população. Séculos de erosão dos solos conduziram, no século 20, a problemas agudos de deperecimento dos rios (principalmente do rio Amarelo), de inundações e de desertificação.

Foi para tentar remediar a esta situação que Mao Tse-tung (1893-1976)
lançou, no início dos anos 50, os primeiros grandes projetos de barragens da era comunista, no rio Amarelo e na bacia do rio Huai, com a construção de centenas de barragens em cascata e de diques. O homem devia então “conquistar a natureza” . Mao era capaz de ordenar que “se curvem as montanhas e se desviem os rios” . O que, não raro, produzia resultados catastróficos: um deperecimento ainda mais grave de certos cursos de água – a tal ponto que o rio Amarelo seja hoje irreconhecível em relação ao que era – e alguns escorregões espetaculares, tais como o desmoronamento de barragens.

As provas as mais tangíveis de que esta herança prometéico-socialista
sobreviveu amplamente à conversão da China às virtudes da economia de
mercado, podem ser encontradas hoje na continuação de dois dos mais
ambiciosos projetos da China comunista: a barragem das Três Gargantas, o mais vasto projeto hidrelétrico já realizado, e o desvio de uma parte das águas do Yangtze para alimentar o nordeste da China, inclusive Pequim.

Paralelamente, estes dois projetos faraônicos têm um custo social e humano imenso, uma vez que ambos provocaram o deslocamento de mais de 2 milhões de pessoas – mas este não é, e nunca foi, um obstáculo digno de consideração para as autoridades.

Pequim receberá de fato já em 2007 um primeiro abastecimento em água
proveniente de reservatórios da província do Hebei, via um duto de 225
quilômetros, antes que o canal subterrâneo que encaminhará a água do rio Azul lhe forneça bilhões de metros cúbicos suplementares, a partir de 2010. A barragem das Três Gargantas, cuja construção foi iniciada em 1993, fornece eletricidade desde 2003. Ela estará operacional na sua totalidade em 2009, com 26 geradores e uma capacidade de produção de eletricidade de 84,7 bilhões de quilowatts-hora.

Não só a sua viabilidade nunca chegou a ser questionada, como uma obra
subterrânea, que não havia sido prevista inicialmente, e cuja construção foi bloqueada no mês de janeiro pela SEPA (Administração de Estado para a proteção do meio-ambiente), obteve finalmente, semanas atrás, o sinal verde para o seu prolongamento.

Mesmo assim, o fato de a SEPA ter tentado pela primeira vez desempenhar seu papel de contrapeso, bloqueando, além daquele do Yangtze, trinta outros grandes projetos pelo país afora, é de fato revelador de uma vontade real por parte dos dirigentes de tentar dimensionar e, quem sabe, enfrentar o formidável passivo ecológico da China.

Mas os limites desta reação também são evidentes: as multas previstas pela lei são tão irrisórias que quase todos os projetos questionados continuaram a funcionar como se nada tivesse acontecido. Além disso, para os que acataram a injunção da agência governamental, a suspensão foi de curtíssima duração: prejudicada por uma carência acentuada de funcionários, a SEPA simplesmente não tem peso algum, tanto diante dos interesses que estão em jogo nesses projetos, quanto diante dos seus promotores – sociedades estatais ou privadas – ou frente aos seus principais interessados: as províncias, empenhadas numa busca frenética por fontes de energia.

Embora a proteção do meio-ambiente seja, em teoria, parte integrante, desde o final dos anos 80, das políticas prioritárias do governo, foi preciso esperar até o final dos anos 90 para ver esta conscientização se tornar realidade. O antigo chefe do Estado, Jiang Zemin, no final do seu reinado, e principalmente o presidente Hu Jintao com a nova equipe no poder, mostram-se mais preocupados com o aspecto qualitativo do crescimento e com um desenvolvimento equilibrado.

A China, que vem realizando am-rnar uma revolução industrial de uma
amplidão sem equivalente na história da humanidade, cresce numa proporção superior a 9% por ano, e o seu consumo em energia provoca desequilíbrios cada vez mais preocupantes: penúrias de água e de eletricidade, esgotamento dos recursos, desperdício e, é claro, poluição generalizada.

Daqui para frente, o conceito de desenvolvimento sustentável vai
conquistando maior destaque nos meios de comunicação chineses, e se tornando também uma pauta importante por ocasião dos congressos anuais da Assembléia consultiva do povo.

Além de proporcionar maiores meios em benefício dos ministérios envolvidos, o governo chinês está tentando implantar diversos programas: embora a sua eficiência ainda não esteja comprovada, eles exercem um papel pedagógico inegável junto a uma população que ainda está pouco sensibilizada ao problema.

Este é o caso, desde o início deste ano, do projeto de “PIB verde”: uma
dezena de cidades, entre as quais Pequim, já participam desta experiência. Trata-se de deduzir do cálculo do crescimento os efeitos nefastos do desenvolvimento sobre o meio-ambiente.

Já faz alguns anos, várias organizações não-governamentais (ONGs)
ecologistas, tais como a Amigos da natureza, a Village global de Pequim e Benévolos por uma Terra verde (Friends of Nature, Global Village of Beijing e Green Earth Volunteers) vêm sendo mais ouvidas, mesmo se elas permanecem muito enquadradas pelo governo.

A China colabora muito mais do que no passado com as organizações
internacionais, tais como o Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD), e, por força da globalização, ela acabou abrindo suas portas para especialistas do mundo inteiro.

A promoção do desenvolvimento sustentável atende também aos objetivos do governo: frear a todo custo um crescimento que está escapando do controle. É o esboço de uma consciência macro-ecológica, que, a prazo, deveria começar a compensar o húbris dos últimos cinqüenta anos.

Mas a China está confrontada a uma tarefa de uma rara amplidão: trata-se de debelar a destruição causada pela caixa de Pandora que foi aberta pela economia de mercado, em termos de micro-ecologia, para assim descrever os comportamentos individuais dos atores econômicos, do consumidor à empresa passando pelos municípios: pois na verdade, estes são a causa de centenas de milhares de “mini”-desastres ecológicos, os quais a imprensa chinesa tem muito raramente a autorização de repercutir.

Tradução: Jean-Yves de Neufville. Publicado em Le Monde.