Monthly Archives: setembro 2006

Entrevista do Ricardo no Jornal Hoje (São Bernardo)

[img:ricardo_1.jpg,thumb,alinhar_esq] Ex-vereador durante dois mandatos consecutivos em Santo André (1997 a 2000 e 2001 a 2004), Ricardo Alvarez trocou 20 anos de militância no Partido dos Trabalhadores pelo recém-criado Psol (partido Socialismo e Liberdade). Alvarez afirma que sempre houve um distanciamento entre ele e o prefeito Celso Daniel assassinado em janeiro de 2002, até mesmo por conta das divergências políticas. Questionados sobre sua volta a disputar um cargo político, o petista disse que não quer voltar à Câmara.”Não estou desfazendo da Câmara, nem dos vereadores. Eu, pessoalmente, não quero voltar à Câmara”, avaliou.

HOJE – Por que o senhor trocou o PT pelo Psol?
RICARDO ALVAREZ – O que é mais interessante é que o grupo que criamos dentro do PT já era um grupo que tinha afinidade contra uma política de degradação partidária que já passava por Santo André. Não dá para dizer que Santo André é responsável pelo que o PT passou, mas com certeza Santo André deu sua contribuição. O partido teve na figura do Celso Daniel (ex-pre-feito assassinado em janeiro de 2002) uma pessoa incontestável. O que o Celso falava dentro do PT era lei. Ele se colocava acima do partido e do grupo majoritário que ele controlava. Forçamos muitas vezes a discussão, mas dentro do partido as portas estavam fechadas.

HOJE – Era difícil a relação com ele?
ALEVAREZ- Era. O Celso era uma pessoa que tinha relação difícil com muita gente. A relação dele com a gente era estritamente política. Dava para perceber que ele não era uma pessoa com muitos amigos dentro do PT. Era uma pessoa rara no partido porque ele combinava expressão popular/pública e tinha capacidade para elaborar política. Ele era quase auto-suficiente nesse sentido. Ele estava rodeado por um monte de puxa saco, que bajulava ele. Aconteceram reuniões no diretório, onde o presidente, que é o atual prefeito, João Avamileno, sequer encaminhava a discussão. A somatória disso é que acabou degradando o partido.

HOJE – Como o senhor avalia as eleições deste ano sendo filiado ao Psol?
ALVAREZ – O partido é muito pequeno no ABC. Não adianta ter figuras se não tem base organizada por trás do partido. O Psol está disputando uma eleição sem ter essa base organizada. Espero que o partido use a eleição para se organizar nesse sentido.

HOJE – O senhor voltará a disputar um cargo político ?
ALVAREZ – Eu vou discutir tudo com o partido. Não vou tomar nenhuma decisão pessoal minha. Eu, pessoalmente, não quero voltar à Câmara. Não renego a Câmara e nem quem está lá. Se na próxima eleição o partido disser que eu preciso sair, eu não estou fechando a porta. Depois do dia primeiro de outubro vamos ‘sentar’ e discutir.”

HOJE – O senhor concorda com a tese da polida de que o assassinato do Celso Daniel foi crime comum?
ALVAREZ – Não. Eu não acredito em crime comum. Eu vi as fotos da necropsia e elas são chocantes. Eu não sou criminalista, mas me pergunto por que num crime comum alguém faria aquilo que faria com ele? Ele foi muito machucado. É inexplicável provocar tantos tiros, hematomas e pauladas por conta de um crime comum.

Caderno Regional, página 3, em 24 de setembro de 2006.

Hoje é o dia Nacional da Doação de Órgãos e Tecidos

Saiba um pouco sobre doação e torne-se um doador.

Como posso me tornar um doador de órgãos?
O passo principal para você se tornar um doador é conversar com a sua família e deixar bem claro o seu desejo. Não é necessário deixar nada por escrito. Porém, os familiares devem se comprometer a autorizar a doação por escrito após a morte. A doação de órgãos é um ato pelo qual você manifesta a vontade de que, a partir do momento da constatação da morte encefálica, uma ou mais partes do seu corpo (órgãos ou tecidos), em condiçães de serem aproveitadas para transplante, possam ajudar outras pessoas.

O que é morte encefálica?
É a morte do cérebro, incluindo tronco cerebral que desempenha funçães vitais como o controle da respiração. Quando isso ocorre, a parada cardíaca é inevitável. Embora ainda haja batimentos cardíacos, a pessoa com morte cerebral não pode respirar sem os aparelhos e o coração não baterá por mais de algumas poucas horas. Por isso, a morte encefálica já caracteriza a morte do indivíduo. Todo o processo pode ser acompanhado por um médico de confiança da família do doador. é fundamental que os órgãos sejam aproveitados para a doação enquanto ainda há circulação sangüínea irrigando-os, ou seja, antes que o coração deixe de bater e os aparelhos não possam mais manter a respiração do paciente. Mas se o coração parar, só poderão ser doadas as córneas.

Quais os requisitos para um cadáver ser considerado doador?
” Ter identificação e registro hospitalar;
” Ter a causa do coma estabelecida e conhecida;
” Não apresentar hipotermia (temperatura do corpo inferior a 35ºC), hipotensão arterial ou estar sob efeitos de drogas depressoras do Sistema Nervoso Central;
” Passar por dois exames neurológicos que avaliem o estado do tronco cerebral. Esses exames devem ser realizados por dois médicos não participantes das equipes de captação e de transplante;
” Submeter-se a exame complementar que demonstre morte encefálica, caracterizada pela ausência de fluxo sangüíneo em quantidade necessária no cérebro, além de inatividade elétrica e metabólica cerebral;
” Estar comprovada a morte encefálica. Situação bem diferente do coma, quando as células do cérebro estão vivas, respirando e se alimentando, mesmo que com dificuldade ou um pouco debilitadas;
Observação: Após diagnosticada a morte encefálica, o médico do paciente, da Unidade de Terapia Intensiva ou da equipe de captação de órgãos deve informar de forma clara e objetiva que a pessoa está morta e que, nesta situação, os órgãos podem ser doados para transplante.

Quero ser um doador de órgãos. O que posso doar?
” Córneas (retiradas do doador até seis horas depois da parada cardíaca e mantidas fora do corpo por até sete dias);
” Coração (retirado do doador antes da parada cardíaca e mantido fora do corpo por no máximo seis horas);
” Pulmão (retirados do doador antes da parada cardíaca e mantidos fora do corpo por no máximo seis horas);
” Rins (retirados do doador até 30 minutos após a parada cardíaca e mantidos fora do corpo até 48 horas);
” Fígado (retirado do doador antes da parada cardíaca e mantido fora do corpo por no máximo 24 horas);
” Pâncreas (retirado do doador antes da parada cardíaca e mantido fora do corpo por no máximo 24 horas);
” Ossos (retirados do doador até seis horas depois da parada cardíaca e mantidos fora do corpo por até cinco anos).
” Medula óssea (se compatível, feita por meio de aspiração óssea ou coleta de sangue);
” Pele;
” Valvas Cardíacas.

Quem recebe os órgãos e/ou tecidos doados?
Quando é reconhecido um doador efetivo, a central de transplantes é comunicada, pois apenas ela tem acesso aos cadastros técnicos com informações de quem está na fila esperando um órgão. Além da ordem da lista, a escolha do receptor será definida pelos exames de compatibilidade entre o doador e o receptor. Por isso, nem sempre o primeiro da fila é o próximo a receber o órgão.

Como garantir que meus órgãos não serão vendidos depois da minha morte?
As centrais de transplantes das secretarias estaduais de saúde controlam todo o processo, desde a retirada dos órgãos até a indicação do receptor. Assim, as centrais de transplantes controlam o destino de todos os órgãos doados e retirados.

Disseram-me que o corpo do doador depois da retirada dos órgãos fica todo deformado. Isso é verdade?
É mentira. A diferença não dá para perceber. Aparentemente o corpo fica igualzinho. Aliás, a Lei é clara quanto a isso: os hospitais autorizados a retirar os órgãos têm que recuperar a mesma aparência que o doador tinha antes da retirada. Para quem doa não faz diferença, mas para quem recebe sim!

Posso doar meus órgãos em vida?
Sim. Também existe a doação de órgãos ainda vivo. O médico poderá avaliar a história clínica da pessoa e as doenças anteriores. A compatibilidade sangüínea é primordial em todos os casos. Há também testes especiais para selecionar o doador que apresenta maior chance de sucesso. Os doadores vivos são aqueles que doam um órgão duplo como o rim, uma parte do fígado, pâncreas ou pulmão, ou um tecido como a medula óssea, para que se possa ser transplantado em alguém de sua família ou amigo. Este tipo de doação só acontece se não representar nenhum problema de saúde para a pessoa que doa.

Para doar órgãos em vida é necessário:
” ser um cidadão juridicamente capaz;
” estar em condições de doar o órgão ou tecido sem comprometer a saúde e aptidões vitais;
” apresentar condições adequadas de saúde, avaliadas por um médico que afaste a possibilidade de existir doenças que comprometam a saúde durante e após a doação;
” Querer doar um órgão ou tecido que seja duplo, como o rim, e não impeça o organismo do doador continuar funcionando; ” Ter um receptor com indicação terapêutica indispensável de transplante;
” Ser parente de até quarto grau ou cônjuge. No caso de não parentes, a doação só poderá ser feita com autorização judicial.
órgãos e tecidos que podem ser doados em vida:
” Rim;
” Pâncreas;
” Medula óssea (se compatível, feita por meio de aspiração óssea ou coleta de sangue);
” Fígado (apenas parte dele, em torno de 70%);
” Pulmão (apenas parte dele, em situações excepcionais).

Quem não pode doar?
” Pacientes portadores de insuficiência orgânica que comprometa o funcionamento dos órgãos e tecidos doados, como insuficiência renal, hepática, cardíaca, pulmonar, pancreática e medular;
” Portadores de doenças contagiosas transmissíveis por transplante, como soropositivos para HIV, doença de Chagas, hepatite B e C, além de todas as demais contra-indicações utilizadas para a doação de sangue e hemoderivados;
” Pacientes com infecção generalizada ou insuficiência de múltiplos órgãos e sistemas;
” Pessoas com tumores malignos  com exceção daqueles restritos ao sistema nervoso central, carcinoma basocelular e câncer de útero  e doenças degenerativas crônicas.

O que diz a Lei brasileira de transplante atualmente?
Lei que dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante é a Lei 9.434, de 04 de fevereiro de 1997, posteriormente alterada pela Lei nº 10.211, de 23 de março de 2001, que substituiu a doação presumida pelo consentimento informado do desejo de doar. Segundo a nova Lei, as manifestações de vontade à doação de tecidos, órgãos e partes do corpo humano, após a morte, que constavam na Carteira de Identidade Civil e na Carteira Nacional de Habilitação, perderam sua validade a partir do dia 22 de dezembro de 2000. Isto significa que, hoje, a retirada de órgãos/tecidos de pessoas falecidas para a realização de transplante depende da autorização da família. Sendo assim, é muito importante que uma pessoa, que deseja após a sua morte, ser uma doadora de órgãos e tecidos comunique à sua família sobre o seu desejo, para que a mesma autorize a doação no momento oportuno.

Como pode ser identificado um doador de órgãos?
A Centrais Estaduais também têm um papel importante no processo de identificação/doação de órgãos. As atribuições das CNCDOs são, em linhas gerais: a inscrição e classificação de potenciais receptores; o recebimento de notificações de morte encefálica, o encaminhamento e providências quanto ao transporte dos órgãos e tecidos, notificação à Central Nacional dos órgãos não aproveitados no estado para o redirecionamento dos mesmos para outros estados, dentre outras. Cabe ao coordenador estadual determinar o encaminhamento e providenciar o transporte do receptor ideal, respeitando os critérios de classificação, exclusão e urgência de cada tipo de órgão que determinam a posição na lista de espera. O que é realizado com o auxílio de um sistema informatizado para o ranking dos receptores mais compatíveis.
A identificação de potenciais doadores é feita, principalmente, nos hospitais onde os mesmos estão internados, através das Comissões Intra-hospitalares de Transplante, nas UTIs e Emergências em pacientes com o diagnóstico de Morte Encefálica. As funções da coordenação intra-hospitalar baseiam-se em organizar, no âmbito do hospital, o processo de captação de órgãos, articular-se com as equipes médicas do hospital, especialmente as das Unidades de Tratamento Intensivo e dos Serviços de Urgência e Emergência, no sentido de identificar os potenciais doadores e estimular seu adequado suporte para fins de doação, e articular-se com a respectiva Central de Notificação, Captação e Distribuição de órgãos, sob cuja coordenação esteja possibilitando o adequado fluxo de informações.

Fonte: Ministério da Saúde

Os banqueiros sabem o que querem Lula e Alckmin

Gilberto Maringoni

Na edição anterior, este espaço foi ocupado por uma crônica com o sugestivo título “Afinal, o que quer essa mulher?” A mulher referida é a senadora Heloísa Helena. O texto desancava pesadamente a candidata à presidência da República pelo PSOL.

A pergunta é das mais pertinentes numa campanha eleitoral em que praticamente não há contornos programáticos definidos entre os dois postulantes à frente das pesquisas de intenção de voto. A questão não caberia se os sujeitos da oração fossem o presidente Lula (PT) ou o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB-PFL).

Não há nada mais previsível do que suas campanhas. Quem diz isso – vejam só! – é o banqueiro Olavo Setúbal, em entrevista à Folha de S. Paulo, em 31 de agosto último. Vamos a um trecho dela:

“Folha – Se ele ou o Alckmin for eleito, para o senhor tanto faz?
Setúbal – Não tem diferença do ponto de vista do modelo econômico. Eu acho que a eleição do Lula ou do Alckmin é igual.

Folha – Os dois são a mesma coisa?
Setúbal – Os dois são conservadores. Cada presidente tem suas prioridades, mas dentro do mesmo leque de premissas econômicas. Acho que o Lula vai conservar a premissa da linha de superávit primário, de metas de inflação e tudo o mais. São evoluções que estão consolidadas no Brasil e serão mantidas por qualquer presidente.”

Setúbal parece ter atendido a um apelo do próprio presidente Lula. Num rasgo de sinceridade, ele fez a seguinte declaração durante a inauguração de seu comitê eleitoral em Brasília, um mês antes: “Banqueiro não tinha porque estar contra o governo, por que os bancos ganharam muito dinheiro… Então, não tinham por que estar com tanta raiva e preconceito”.

Estamos em meio a uma disputa eleitoral que encurta horizontes, amesquinha estratégias e transforma qualquer projeto de longo prazo em metas para 1º de outubro. Setúbal mostra que estamos diante da mais insossa e enfadonha campanha dos últimos anos.

Há uma razão básica para isso. Qualquer um que se dê ao trabalho de examinar as propostas econômicas do PT e do PSDB encontrará poucas diferenças reais entre elas. Os marqueteiros podem dourar a pílula e fazer a redação em estilos diferentes. Mas a essência das duas postulações tem como meta prosseguir com o ajuste fiscal, realizar mudanças constitucionais que desonerem o capital e penalizem o trabalho – como uma terceira reforma da Previdência, pretendida pelos dois candidatos – e manter cada vez mais as decisões do Estado nas mãos de interesses privados.

Estamos diante de duas vertentes do modelo neoliberal, uma mais à esquerda e outra mais à direita. Nenhuma delas visa melhorar a vida de nosso povo de forma duradoura. Uma tem uma bolsa-escola um pouco melhor, reajusta um pouco mais o salário mínimo, mas não se distancia do modelo herdado. Outra abusa do palavreado oco do “choque de gestão”. Mesmo a política externa atual – área em que o governo Lula se sai um pouco melhor – apresenta problemas. Ela é ambígua. Há uma solidariedade a Hugo Chávez, dada apenas após o referendo revogatório em que se sagrou vitorioso em 2004 e um comportamento de dupla face em relação à Bolívia. Enquanto a diplomacia brasileira apresenta uma conduta louvável, a Petrobrás, pressionada por seus acionistas privados, busca endurecer o jogo com o governo Evo Morales. Não se pode esquecer também da falta de apoio à moratória argentina, em 2003, do envio de tropas brasileiras ao Haiti ou da abstenção em relação a Cuba, em duas oportunidades, quando uma comissão da ONU buscou condenar a Ilha por supostas violações de direitos humanos.

Se acharmos isso coisa pouca, olhemos para as manchetes da semana. Somente no mês de agosto, por conta da estratosférica taxa de juros, a dívida pública cresceu 25,08 bilhões de reais, três vezes mais do que é gasto em todos os programas sociais num ano. Quase metade dos jovens entre 16 e 24 anos está desempregada. A Volkswagen impõe uma chantagem ao país e inicia a demissão de 3.600 trabalhadores e nada acontece. E o país segue pelo caminho do baixo crescimento econômico, maior apenas que o do Haiti, um país mergulhado em guerra civil.

Vivemos tempos complicados para a esquerda brasileira. A eleição de Lula, em vez de potencializar debates, liberar forças sociais represadas e dar curso a transformações ainda que tímidas na estrutura social e econômica brasileira, teve efeito inverso. O presidente absorveu a formidável energia política dos 53 milhões de votos dados em outubro de 2002 – que misturavam apoio a uma pregação mudancista de 25 anos e um repúdio ao governo FHC – e transformou-a em impulso continuísta.

Com isso, semeou confusão e desalento entre a esquerda e o movimento popular e transformou-se numa providencial tábua de salvação para as classes dominantes – em especial, o setor financeiro – que viu seus representantes políticos serem repudiados nas urnas há quatro anos.

Alckmin, por sua vez, é a direita com cara de bom moço. Suas marcas principais são 69 CPIs abafadas na Assembléia Legislativa, o prosseguimento das privatizações e o descontrole na área de segurança pública e de direitos humanos.

Escolher entre Lula e Alckmin significa ter de optar entre o ruim e o muito ruim.
Assim, já se sabe o que o petismo e o tucanato querem. Voltemos à pergunta do artigo mencionado no início: “Afinal, o que quer essa mulher?” A resposta é simples: quer um Brasil onde o povo não seja apenas um detalhe.

Gilberto Maringoni é jornalista, autor de A Venezuela que se Inventa – Poder, Petróleo e Intriga nos Tempos de Chávez.

Entre oleiros e alfaiates

A busca de abrigo e conforto sempre foi uma constante para o ser humano no seu processo civilizatório.

Ricardo Alvarez

Às imposições da natureza respondemos com as armas da tecnologia e da ciência em evolução, que nos aliviam do peso com que o ambiente natural se impõe sobre nós. O trabalho humano, como síntese da reflexão e da ação, produz constantemente os meios necessários a esta tarefa.

Pelos tortuosos caminhos da vida chegou a nossas mãos um pequeno anuário estatístico de Santo André do ano de 1957. Seus dados correspondem aos anos imediatamente anteriores e, apesar de antigos, são bastante ricos.

O município de Santo André possuía em 1956 nada menos do que 82 alfaiatarias que produziam ternos. Era um tempo em que os homens saíam às ruas de terno e gravata, chapéu e sapato. Tênis nem pensar. Guarda chuva item obrigatório, assim como o lenço. Por isso mesmo existiam 7 fábricas de tecidos, hoje reduzidas à pó. Tais fábricas produziam a matéria prima das alfaiatarias, que por sua vez vestia os homens principalmente. As mulheres exerciam seus dotes de costura e produziam, em grande parte suas próprias vestes, afinal, numa época bastante machista, uma das qualidades exaltadas para o casamento era a habilidade com a o alfinete e a linha para elas.

A proteção e o conforto para o corpo era comprada em qualquer esquina, na medida é lógico, das posses de cada um, como hoje. Mas há uma diferença de fundo. O ciclo produtivo era basicamente autóctone, ou seja, o movimento das mercadorias tinha seu nascedouro (produção) e seu fim (consumo) delimitado pelas fronteiras municipais. Havia, sem dúvida, o intercâmbio com outros mercados: São Paulo e Santos (pelas facilidades da ferrovia) e o próprio ABC principalmente. Porém os mercados externos eram basicamente complementares em relação às necessidades internas. Vivíamos a predominância da produção de bens de consumo não-duráveis apoiada no mercado doméstico. Nossas necessidades de vida eram muito mais elementares.

Hoje, em tempos da famigerada globalização, os mercados se mundializaram, ampliando consideravelmente o fluxo de pessoas, capitais e mercadorias. Nossas roupas estão prontas, vem de longe e são coloridas. Abolimos alguns acessórios e criamos outros. Neste vai e vem as alfaiatarias desapareceram das ruas e permanecem apenas nos anuários e na memória.

Outro dado que merece realce são as olarias. Possuíamos 25 em Santo André. A expansão acelerada do espaço construído, aliado à tecnologia da época justificavam sua presença. Só no ano de 1956 foram construídos 2.043 edificações, num total existente de 37.625. Crescemos em um ano 5,5%. A título de comparação, entre os anos de 1987 e 1994 foram expedidos, em média por ano, 2.153 alvarás de construção. Independentemente da quantidade de metros construídos por autorização, estamos hoje nos níveis de meados da década de 50, apesar de 40 anos passados desde então.

Desapareceram, assim como as alfaiatarias, as Olarias. Há contudo muita gente passando frio e sem casa para morar. A irracionalidade produtiva de hoje já nos faz importar roupas, produto de tecnologia estabilizada e amplamente dominada pelo Brasil. Só falta mesmo anunciarem que cargueiros, carregados de tijolo e telha, estão ancorando no porto de Santos vindos de algum país pobre. Importaremos barro e alguns incautos acharão normal, afinal de contas nada mais up do que abrir seus mercados, destruir seu parque industrial, ficar refém dos capitais voláteis, despejar milhões de desempregados nas ruas e comprar lá de fora o que podemos produzir aqui mesmo.

Talvez os oleiros e alfaiates, na medida em que perderam seus negócios, foram sendo absorvidos gradativamente como trabalhadores, pelas próprias companhias que os derrotaram no “altar sagrado da competição de mercado”. Porém, neste final de século, suas habilidades não servem para mais nada, afinal de contas boa parte da população não se dá mais ao luxo de se vestir e nem de morar.

Se buscamos nos livrar das dificuldades impostas pela natureza, hoje ela é apenas cócegas diante do quadro econômico que nos rodeia.